IMPLEMENTAÇÃO DAS LEIS /03 E /08 NAS ESCOLAS DE EDUCAÇÃO BÁSICA NO RECÔNCAVO

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1 IMPLEMENTAÇÃO DAS LEIS /03 E /08 NAS ESCOLAS DE EDUCAÇÃO BÁSICA NO RECÔNCAVO ELIANE FÁTIMA BOA MORTE DO CARMO 1 Introdução Após a promulgação da lei /03 e /08, passando a ser oficialmente obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena nas escolas da Educação Básica, foram apresentadas várias demandas de formação, de material didático e de apoio aos professores, com a ênfase do ensino, desta temática, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras. O presente estudo enfoca as experiências da implementação das leis federais, nas escolas dos municípios do Recôncavo baiano, tendo como participantes, 210 profissionais em Educação das redes públicas dos municípios de Amargosa, São Felix, Santo Amaro, Maragogipe, Cruz das Almas e Santo Antonio de Jesus, Cachoeira, Conceição de Feira, Governador Mangabeira, Lage, Mutuípe e São Miguel da Matas, que integram o curso de Especialização em História da África, da Cultura Negra e do Negro no Brasil, oferecido pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. A pesquisa qualitativa e quantitativa visa a mapear as abordagens desta implementação, a partir dos currículos escolares, das metodologias utilizadas, e do levantamento das temáticas relativas às relações étnicos raciais negras e indígena enfocadas, visando mapear as estratégias, práticas e fazeres para a criação de novas metodologias, temas e atividades, a estarem presentes na formação continuada, e na reestruturação dos processos de ensino e aprendizagem nas escolas da Educação Básica. 1 Pedagoga, mestranda do Mestrado Profissional em História da África, Diáspora e Povos Indígenas da Universidade do Recôncavo da Bahia UFRB.

2 2 O lócus da pesquisa Tal pesquisa foi realizada entre os cursistas presentes na disciplina Raça e Educação ministrada pelos professores Dr Claudio Orlando Costa do Nascimento e Dra. Rita de Cássia Dias Pereira de Jesus, no curso de Especialização em História da África, da Cultura Negra e do Negro no Brasil, em sua segunda versão, oferecido pela Universidade Federal do Recôncavo. A UFRB foi criada pela Lei de 2005, e possui unidades nas cidades de Cruz das Almas, Amargosa, Cachoeira, Feira de Santana, Santo Amaro e Santo Antonio de Jesus. O curso tem como objetivo capacitar profissionais da área de educação na temática preconizada pela lei 10639/03. Tendo como inscritos 210 profissionais, com atividades realizadas em dois polos; um na cidade de Amargosa e outro na cidade de Cachoeira. O curso tem como participantes professores e profissionais da educação de diversas cidades do Recôncavo Baiano 2. O recôncavo é um dos vinte e sete territórios de identidade nos quais o Estado da Bahia esta dividido. Este território de identidade é composto por Cabaceira do Paraguaçu, cachoeira, castro Alves, conceição do Almeida, Cruz das Almas, Dom Macedo Costa, Governador Mangabeira, Maragogipe, Muniz Ferreira, Muritiba, Santo Amaro, Santo Antonio de Jesus, São Felipe, São Felix, São Francisco do Conde, São Sebastião do Passé, Sapeaçu, Saubara e Varzedo. 3 Os cursistas, foco da pesquisa, identificaram suas cidades de atuação nos municípios que compõem o Território de Identidade do Recôncavo e de cidades próximas a ele. As cidades elencadas foram: Amargosa Cachoeira Conceição de Feira Cruz das Almas Governador mangabeira 2 Mapa do Território do Recôncavo da Bahia. Disponível em: acesso em 20/07/ Bahia, Estatísticas dos Municípios Baianos. Salvador, 2013

3 3 Lage Mutuípe Santo Antonio de Jesus São Felix São Miguel das Matas Figura 1: Cidades indicadas pelos cursistas. O questionário O questionário foi aplicado aos cursistas presentes na aula do dia 25 de abril do corrente, com objetivo levantar informações de conteúdos e temas abordados nas escolas onde os cursistas atuam; saber das metodologias utilizadas para tal, bem como elencar temas dos quais estes desejariam aprofundamento ou discussão em outros momentos e/ou espaços formativos. Foi entregue um questionário com questões fechadas e abertas nos quais os mesmos deveriam apresentar sua prática nos últimos dois anos tendo como base as atividades desenvolvidas na escola no ano de O mesmo foi difivido em dois blocos um de identificação do cursista e o outro de cunho pedagógico.

4 4 A parte de identificação busca levantar informações do cursistas tais como: nome, raça/cor; sexo; idade; escolaridade, tempo de atuação, área de atuação e número de estudantes com os quais trabalharam no de Na parte pedagógica todas as questões versam sobre as temáticas preconizadas pelas leis /03 e /08, onde é perguntado quando são desenvolvidas atividades alusivas à temática, fazendo uma referência aos meses de março, abril, maio, agosto e novembro; quais as metodologias utilizadas para o desenvolvimento das mesmas e os materiais utilizados. Há espaço para indicação de livros didáticos e paradidáticos, relação de temas trabalhados nos últimos dois anos, tais como: Revolta dos Malês, Dia Internacional de Combate a discriminação Racial, Dia do Índio, Abolição da Escravatura, Independência da Bahia, Conjuração Baiana e Dia da Consciência Negra. Por fim, o cursita tem a possibilidade de dar sugestão de temas sobre a /03 e a /08, os quais o julgasse necessário para uma futura capacitação. Dados coletados A partir das informações apresentadas nos preenchimento dos questionários foram levantados os dados que serão expostos a seguir. Na primeira parte do questionário podemos caracterizar os cursistas como majoritariamente negros, pois 94% deles informação serem pretos (66) ou pardos (29). Gráfico 1: Raça/cor parda preta braca amarela indígena S/R

5 5 Dos 101 questionários preenchidos 87,13% são do sexo feminino enquanto 12,87% do sexo masculino. Todos possuem graduação dos quais 62,38% em instituições públicas de ensino e 52,48%, do total, possuem especialização em diversas áreas. A idade dos curstitas esta circunscrita entre 20 e 50 anos (tabela a seguir). Tabela 1: idade dos cursistas S/R Importante ressaltar o tempo de atuação do profissional na rede pública de ensino, sendo que 56,44% são funcionários efetivos/concursados. Em sua maioria (78,22%) atuando no Ensino Fundamental, e os demais atuam na Educação Infantil, Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos. Em uma estimativa os cursistas atenderam cerca de (doze mil setecentos e vinte e três) no ano de Este número pode variar para mais, pois muitos deles informaram apenas o número de uma turma ou turno, não computando o total de alunos. Gráfico 2: Anos de atuação até 1 1 a 5 5 a a a 20 mais 20 S/R

6 6 Na segunda seção do questionário (parte pedagógica) foram levantados os seguintes dados: quando perguntado quando são desenvolvidas as atividades relativas as leis /03 e /08, os cursistas informaram que as mesmas são realizadas principalmente nos meses de abril, maio e outros com 17 indicações (12,06%); agosto 15 indicações (10,64%) e novembro 68 indicações (48,23%). Enquanto que os temas trabalhados nos últimos dois anos foram referenciados conforme tabela abaixo. Tabela 2: temas trabalhados nos últimos dois anos Revolta dos Males Dia Inter. Combate Racismo Dia do Índio Abolição Independência da Bahia Revolta dos Alfaiates Consciência Negra S/R Tabela 3: Mês de desenvolvimento das atividades MAR ABR MAI AGO NOV Outros S/R As atividades são desenvolvidas, em sua maioria, através de projetos (59,43%), utilizando-se músicas (29,13%), vídeos (27,84%), filmes (23,20%), jogos (10,83%) e outros (9,02%). Por fim elencamos todos os temas sugeridos para futuras capacitações sugeridas pelos cursistas. São eles: Religiosidade; Construção da autoestima na Educação Infantil; Questão linguística, gênero e raça; África Pré-colonial, Colonial e Atualidade; Diáspora Africana e Resistência; Povos Indígenas (antes da colonização, no período colonial, movimentos de resistência, atualidade); Práticas metodológicas para a sala de aula; Metodologias para serem trabalhadas na sala de aula; Sugestões de prática do professor; /03 e a Educação Básica; Processo Histórico da Abolição; Currículo na Perspectiva das leis /03 e /08; Contos e Histórias

7 7 Literatura Infantil; Curso de Capacitação de Recursos; Identidade Negra e Metodologia de Ensino; Identidade Indígena; Preconceito entre negro; O papel da Coordenação Pedagógica na efetivação das leis; Contribuição Indígena na matemática; Como era usada a matemática pelos índios?; Como os alunos negros se auto representam?; Contação de história; A origem indígena; O negro na contemporaneidade; Como ocorreu a inserção dos negros no Recôncavo; Contribuição dos africanos na política e religião; Raízes e tradições culturais Africanas; Comunidades negras rurais e suas necessidades; A contribuição do negro e do índio no processo de formação de identidade brasileira; A implantação da História e cultura afrobrasileira nos currículos das redes de ensino brasileira; Contos africanos, Vida e obra de Carolina de Jesus (poesia); Anemia falciforme; Literatura afro; Luta contra preconceito racial; Genocídio do povo negro na atualidade; Comunidades negras e indígenas; Representação dos índios; Como melhorar a prática docente; História dos movimentos locais; Personalidades e Civilizações Africanas; Identidade e a minha cor; A África e a nossa História; O passado, o presente e o futuro da nossa História; Identidade e Cultura africana; Metodologia para trabalhar com as séries iniciais; Origem do povo Africano; Conceito de Raça; Religiosidade Africana; Pluralidade e diversidade cultural; Pluralidade e diversidade; A origem da ideia de raça; Roupas do candomblé; Sou brasileiro ou africano? Valorização das roupas (estética); Reconhecimento e valorização da cultura africana no Brasil; Como elaborar projetos. Reflexões finais Podemos, a partir, desta amostra, pequena em relação ao montante de professores das redes públicas e das escolas do Território do Recôncavo da Bahia, porém significativa para nossas reflexões acerca da implementação da temática preconizada nas leis 10639/03 e /08. São profissionais negros, com graduação e especializações em diversas áreas que estão aprofundando seus conhecimento em outra especialização específica para atuarem em sua prática com temas abordados na Especialização em História da África, da Cultura Negra e do Negro no Brasil. Pessoas que atuam em 10 (dez) municípios que ou fazem parte ou estão próximos ao Recôncavo, local de indiscutível influência e ascendência negra, atuantes na rede pública de

8 8 ensino em sua maioria no Ensino Fundamental com 5 a 20 anos de atuação como profissionais de educação. Afirmam que desenvolvem através de projetos, utilizando músicas, filmes e vídeos atividades alusivas à temática étnico racial no mês de novembro, em uma relação direta com o Dia da Consciência Negra, porém não conseguem relacionar os temas apresentados (Revolta dos Males, Dia Internacional de Combate ao Racismo, Abolição da Escravatura e Revolta dos Alfaiates) aos meses nos quais eles são referenciados. Embora tenha sido enfatizado os temas abordados nos últimos dois anos, quando muitos dos cursistas assinaram os temas com muita ênfase, em uma alusão de que os mesmos são trabalhados, contrasta com a quantidade e os temas apontados para futuras capacitações. Foi proposital copiar todos os temas embora alguns se repitam, para podemos constatar onde ainda reside a insegurança deste profissional em abordar ou efetivamente atuar em relação a temática da educação étnico-racial. De temas amplos como África pré colonial, colonial e atualidade; Diáspora Africana e resistência, ou O passado, o presente e o futuro da nossa História, até os específicos como Contação de história ou Conceito de raça, passando por metodologias para trabalhar a temática nos diversos níveis de ensino, demonstram o grau de necessidade de busca de conhecimento nos profissionais de educação. Fica patente a necessidade premente de oficinas de elaboração de atividades onde os profissionais através de discussões possam ressignificar os conteúdos trabalhados e estudados ao longo de suas atividades teóricas. Os profissionais da educação, em seus diversos componentes curriculares precisam dialogar, debater e reconstruir um fazer pedagógico que enfatize a prática, a pesquisa, a visão crítica e a capacidade de elaboração de materiais, textos e atividades que, mais que meras receitas prontas façam parte da formação do profissional em criar seu próprio repertório de atividades e, de posse dessa ferramenta, possa repensar os materiais didáticos disponibilizados em sua prática cotidiana. Referências BAHIA, Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia. Estatísticas dos Municípios Baianos. Salvador: 2013 vol.4. Disponível em: Acesso 27/06/2015

9 BRASIL, Ministério da Educação Secretaria de Educação Básica. Ensino fundamental de nove anos. Orientações para a inclusão da criança de seis anos de idade Brasília 2007 BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Conselho Pleno. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Resolução nº 1/6/2004. Disponível em: Acesso em: 23/03/2015 BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Conselho Pleno. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Resolução nº 1/6/2004. Disponível em: Acesso em: 23/03/2015 BRASIL. Lei Brasília Disponível em: Acesso: 20/02/2015 BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília Disponível em: uence=1. Acesso: 01/03/2015 HIPÓLIDE, Márcia Cristina. O ensino de história nos anos iniciais do ensino fundamental: metodologias e conceitos. São Paulo: Companhia Editora Nacional, MUNANGA, Kabenguele (Org). Superando o racismo na escola, Brasília MUNANGA, Kabengele. Negritude, usos e costumes. Belo Horizonte: Autêntica.2009 NASCIMENTO, Cláudio Orlando Costa do. JESUS, Rita de Cássia Dias Pereira de. Currículo e Formação: diversidade e educação das relações étnico-raciais. Curitiba: Progressiva, RIBEIRO, Alvaro S. T. et al. História e Cultura Afro-Brasileira e Africana na Escola. Brasilia, 2008 SILVA, Tomas Tadeu da. Documentos de Identidade Uma introdução às teorias do 9

10 10 Anexo I UNIVERSIDADE FEDERAL DO RECONCAVO DA BAHIA CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO HISTÓRIA DA AFRICA, DA CULTURA AFRO-BRASILEIRA E AFRICANA DIAGNÓSTICO Controle: Nome da Escola: Localidade: Cidade Data de Preenchimento: nº do questionário A: Orientações para o preenchimento: Este questionário deve ser preenchido pelo (a) professor (a) que atua na sala de aula. Todos os campos devem ser preenchidos. Há itens que aceitam mais de uma alternativa. Identificação:

11 11 1. Nome: 2. Raça/cor: ( ) parda ( ) preta ( )branca ( ) amarela ( )indígena 3. Sexo: ( ) Masculino ( ) Feminino 4. Idade: 5. Escolaridade: ( ) Ensino Médio ( ) Graduação ( ) Mestrado ( ) Doutorado 6. Instituição ( ) pública ( ) privada 7.Tem especialização: ( )não ( ) sim. Em que: 8. Há quanto tempo atua na Rede Municipal de : ( ) até 1 ( ) entre 1 e 5 ( ) entre 5 e 10 ( ) entre 10 e 15 ( ) entre 15 e 20 ( ) Concursado/Efetivo: ( )não ( )sim 10. Área de atuação: ( ) Ensino Fundamental I ( ) Ensino Fundamental II 11. Ano de escolaridade/série que atua: turno ( ) M ( ) V ( ) N 12. Informe o número de alunos matriculados em sua sala em 2014 Pedagógico: Os itens abaixo versam sobre a temática preconizada nas leis 10639/03 e 11645/08 (que ao modificar a lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, obriga a inclusão da temática da História Afrobrasileira e Indígena na Educação Básica). 13.Quando são desenvolvidas as atividades: ( ) março ( ) abril ( ) maio ( ) agosto ( ) novembro ( )outros. Quais? 14. Metodologias utilizadas para desenvolvimento das atividades ( ) projetos ( ) sequências didáticas ( ) outras. Quais: 15. Quais os materiais utilizados: ( ) jogos ( ) vídeos ( )filmes ( )músicas ( )Outros. Quais? ( ) livros didáticos. Quais? ( ) Paradidáticos. Quais?

12 16. Quais dos temas abaixo foram trabalhos em sala nos últimos 2 anos de sua atuação: ( ) Revolta dos Malês ( ) Dia Internacional de Contra a discriminação Racial ( ) Dia do Índio ( ) Abolição da Escravatura ( ) Independência da Bahia ( ) Conjuração Baiana ( ) Dia da Consciência Negra ( ) Outros. Quais? 17. Sugira temas sobre a temática das leis /03 e /08, para capacitação, caso julgue necessário: 12

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