A Intervenção Regulatória do Estado no Domínio Econômico: Inspiração Tardia no Direito Regulatório Norte-Americano.

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1 A Intervenção Regulatória do Estado no Domínio Econômico: Inspiração Tardia no Direito Regulatório Norte-Americano. Aluisio de Souza Martins 1 RESUMO: O presente artigo aborda a passagem do Estado interventor ao Estado regulador, destacando o papel das agências reguladoras, como instrumento de intervenção do Estado na atividade econômica. Destaca que o modelo regulatório brasileiro foi inspirado no direito regulatório norte-americano, apesar das diferenças políticas e jurídicas entre os dois Estados. Por fim, ressalta que essa fonte inspiradora revela-se tardia, por o direito regulatório alienígena encontrar-se em processo de regressão. Palavras-chaves: Estado. Intervenção na economia. Direito regulatório. ABSTRACT This paper addresses the passage of the intervening State to the governor, emphasizing the role of regulatory agencies as an instrument of state intervention in economic activity. Stresses that the regulatory model was inspired by the Brazilian regulatory law the U.S., despite political and legal differences between the two states. Finally, it appears that this source of inspiration appears to be late for the right regulatory alien found in the process of regression. Keywords: State. Intervention in the economy. Regulatory law.

2 2 S U M Á R I O 1. Considerações iniciais 2. Do Estado interventor ao Estado regulador 2.1. Noções gerais 2.2. Programa nacional de desestatização 2.3. Surgimento das agências reguladoras nos EUA 2.4. Surgimento das agências reguladoras no Brasil 3. Inspiração no direito regulatório norte-americano 4. Considerações finais 5. Referências 1. Considerações iniciais Nos últimos tempos, seguindo uma tendência da globalização econômica norteadora dos mercados atuais, bem como da solidificação da política neoliberal, intensificou-se no Brasil um fenômeno de retirada do Estado da economia, conferindo-se, via de conseqüência, a entes da iniciativa privada a prerrogativa de explorar determinados serviços e atividades antes somente prestados diretamente pelo próprio Estado ou indiretamente por pessoas jurídicas por ele controladas (sociedades de economia mista e empresas públicas). Com efeito, o processo de privatização, ou em linguagem mais adequada, o processo de desestatização é a face mais nítida de uma nova estrutura de Estado, na medida em que este vem delegando à iniciativa privada a prestação de serviços públicos, seja através de concessões, permissões, autorizações ou terceirizações. Não há como negar que, após a delegação dos serviços públicos para o setor privado, ganha nitidez e relevo o papel regulador e fiscalizador do Estado, que deixa de ser interventor para transformar-se em regulador e mediador da atividade econômica. 1 Mestre em Direito pela UCB. Professor de Direito da FAETE e Advogado da União.

3 3 Nesse novo cenário de afastamento do Estado da atividade econômica que encontra eco a instituição das agências reguladoras, objeto do presente estudo. Pretende-se, com o ensaio em espeque, abordar os principais aspectos relacionados à intervenção do Estado na economia, através de seus entes reguladores, bem assim apontar as influências do direito regulatório norte-americano nas agências regulatórias brasileiras. 2. Do Estado interventor ao Estado regulador 2.1. Noções gerais Com a chegada de Getúlio Vargas ao poder nos idos de 1930, tomou corpo o Estado desenvolvimentista, caracterizado pela forte intervenção do Estado na ordem econômica, onde este financiava o seu próprio desenvolvimento, executando, através das empresas estatais, todos os tipos de atividades e serviços públicos. Este modelo de Estado intervencionista, que teve seu apogeu nas décadas de 1930 e 1970, culminou no crescimento descomunal do aparelho administrativo estatal, mormente das empresas públicas e sociedades de economias mistas e suas subsidiárias, ocasionando o esgotamento da capacidade de investimento do setor público e, como tal, a falência dos serviços públicos em geral. A Constituição de 1988, em seu Título VII, dispõe sobre a ordem Econômica e Financeira, disciplinando especialmente o papel do Estado como agente normativo e regulador e como executor subsidiário de atividades econômicas. Dispõe ainda sobre a possibilidade de transferência à iniciativa privada da prestação de alguns serviços que durante muito tempo estiveram sob controle estatal Programa nacional de desestatização

4 4 Dentro desse contexto, surgiu o Programa Nacional de Desestatização. Diferentemente da simples descentralização, que consiste na transferência da execução de determinado serviço público, ou de utilidade pública, a uma entidade da Administração Indireta (autarquia, fundação pública, empresa pública ou sociedade de economia mista), a desestatização afasta o Estado, quer pessoalmente quer por intermédio de suas pessoas administrativas, da execução daqueles serviços, que são postos nas mãos dos particulares, sob sua vigilância. É a retirada do Estado de atividades reservadas constitucionalmente à iniciativa privada (princípio da livre iniciativa) ou de setores em que ela possa atuar com maior eficiência (princípio da economicidade). A Lei n /90 trouxe para mais próximo da realidade aquele anseio, que era também social, e inaugurou a nova fase do Estado brasileiro, estruturando o Programa Nacional de Desestatização e elencando, em seu art. 1.º, os objetivos fundamentais que justificaram a nova postura do Estado frente à ordem econômica. São eles: I - reordenar a posição estratégica do Estado na economia, transferindo à iniciativa privada atividades indevidamente exploradas pelo setor público; II - contribuir para a redução da dívida pública, concorrendo para o saneamento das finanças do setor público; III - permitir a retomada de investimentos nas empresas e atividades que vierem a ser transferidas à iniciativa privada; IV - contribuir para a modernização do parque industrial do País, ampliando sua competitividade e reforçando a capacidade empresarial nos diversos setores da economia; V - permitir que a Administração Pública concentre seus esforços nas atividades em que a presença do Estado seja fundamental para a consecução das prioridades nacionais; VI - contribuir para o fortalecimento do mercado de capitais, através do acréscimo da oferta de valores mobiliários e da democratização da propriedade do capital das empresas que integrarem o programa. Os instrumentos a serem utilizados para o alcance desses objetivos também foram discriminados pelo citado diploma legal, em seu art. 4.º, a saber: I - alienação de participação societária, inclusive de controle acionário, preferencialmente mediante a pulverização de ações junto ao público,

5 5 empregados, acionistas, fornecedores e consumidores; II - abertura de capital; III - aumento de capital com renúncia ou cessão, total ou parcial, de direitos de subscrição; IV - transformação, incorporação, fusão ou cisão; V - alienação, arrendamento, locação, comodato ou cessão de bens e instalações; VI - dissolução de empresas ou desativação parcial de seus empreendimentos, com a conseqüente alienação de seus ativos. Note-se que, até então, não se falava em concessão de serviços públicos a empresas privadas pré-existentes. O máximo que se tinha planejado era a saída do Estado do quadro societário de empresas em que ele se fazia presente. Isto porque a primeira providência, em termos de prioridade, era essa, qual seja, a desvinculação do Estado. O art. 7.º da Lei n.º 8.031/90 estipulou que a privatização de empresas que prestam serviços públicos pressupõe a delegação, pelo Poder Público, da concessão ou permissão do serviço objeto da exploração. Até aí, nada de diferente. A única preocupação era com a continuidade do serviço público. Somente a partir da edição da Lei n.º 8.987/95 ficou aberta concretamente a disposição de incluir empresas originariamente privadas no programa de execução de serviços públicos (ou de utilidade pública), atendendo-se, então, ao disposto no art. 170 da Constituição Federal, in verbis: "A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: (...). Parágrafo único - É assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em Lei". Obviamente que não se pode concluir, a partir disso, que a figura das concessões (em sentido lato) somente surgiu a partir da edição da referida lei. O que se deve entender é que, a partir desse marco, iniciou-se uma nova fase no âmbito do Direito Administrativo, no tocante ao tema concessão de serviços públicos, implantando-se uma nova filosofia de regulamentação das atividades econômicas que têm um quid de interesse público. Agora, a transferência do exercício

6 6 de tais atividades não se faz mais aos entes integrantes da administração indireta (delegação legal), mas aos particulares, mais preocupados com a eficiência. Nesse novo cenário, foram criadas as condições necessárias a fim de que o Estado deixasse de atuar diretamente na atividade econômica e passasse a regular tal atividade, assumindo, portanto, um papel regulador, cujo ambiente mostrou-se favorável ao fortalecimento do direito regulatório Surgimento das agências reguladoras nos EUA Logo após a Primeira Guerra Mundial, os EUA obtiveram um crescimento econômico vertiginoso, o que acarretou o surgimento de grandes fortunas e aplicações desenfreadas nas bolsas de valores, especialmente de natureza especulativa, acarretando a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, afetando a economia capitalista. Para enfrentar essa depressão econômica, o Presidente Franklin Delano Roosevelt, eleito em 1932, implementou um programa econômico, baseado nas idéias do economista John Maynard Keynes, onde [...] o Estado passava a intervir na economia, no sentido de amenizar os focos de tensão social; o governo iniciava um intenso processo de vultosos investimentos em construções de grande porte, como estradas, usinas, pontes etc., visando absorver a massa desempregada; a renda seria melhor distribuída, o que resultaria em um aumento da capacidade de compra do cidadão médio; o volume da produção agrícola tornava-se controlado, para que o risco da superprodução não mostrasse sua cara. (MUNIZ SHECAIRA, 2004, p.422) 2 Essa intervenção na economia objetivava aplacar as graves desigualdades econômicas e sociais provocadas pela crise do sistema capitalista, mormente em relação as 2 MUNIZ SHECAIRA, Cibele Cristina Baldassa. A Competência das Agências nos EUA. In Direitos Regulató rios. DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella (organizadora). 2 ed. rev.e ampl. Belo Horizonte: Forum, 2004.

7 7 camadas sociais mais carentes. O Estado, que era dominado pela ideologia liberal, segundo a qual o mercado é guiado por uma mão invisível, não intervinha na economia. Com efeito, as desigualdades sociais eram gritantes. Havia exploração da mão-de-obra, cuja situação se mostrava desumana. Nesse contexto, foi criada a regulatory agency, especialmente como instrumento de intervenção do Estado na economia, para controlar os monopólios e combater a concorrência prejudicial. Destarte, objetivou-se suprir a ausência do Estado na atividade econômica. Já no Brasil, a criação das agências reguladoras objetivou, principalmente, retirar a participação do Estado da economia, cujo fenômeno se verificou com as privatizações a partir de meados de Destarte, enquanto nos EUA as agências visaram suprir a ausência do Estado na economia, no Brasil a criação das agências buscou reduzir a intervenção do Estado. Com efeito, a partir de 1980, especialmente com a ascensão ao poder de Ronald Reagan, iniciou-se um movimento de retirada do Estado da economia, numa tentativa de implementar as idéias liberais, o que acarretou na redução dos poderes da agências reguladoras. Essa processo de flexibilização das regras fixadas pelas agências reguladoras.está em curso, porquanto passou-se a defender que a regulação excessiva prejudicava a atividade econômica, restringia os direitos individuais e contribuía para o agigantamento do Estado Surgimento das agências reguladoras no Brasil As agências reguladoras foram implantadas em nosso país, com base no modelo norte-americano, nada obstante as grandes diferenças entre os dois sistemas normativos. Neste, a principal fonte de direito são as decisões judiciais, os regulamentos são aceitos como fonte, cujas questões não são inteiramente aceitáveis no ordenamento brasileiro.

8 8 MOREIRA NETO 3 (2000, p. 150), um dos defensores da aplicação do modelo norteamericano das agências reguladoras no Brasil, aduz que:... no fim da década de oitenta, em momento em que outros países desvencilhavam-se ou já se haviam despojado de seus antiquados aparelhos estatais hipertrofiados, centralizadores, burocratizados, ineficientes e, sobretudo, insuportavelmente dispendiosos, o Brasil enveredava, guiado pelos constituintes de 1988, pela contramão da História, levado por uma Carta Política ditada de utopismo bem intencionado, mas delirante; pela demagogia, dos que queriam ostentar uma imagem populista e progressista ; pelo corporativismo, dos grupos que logravam melhor se organizar e manipular recursos; pelo socialismo, dos que criam piamente ser possível fazer justiça social sem liberdade econômica; pelo estatismo, dos que ainda acreditavam que a sociedade não poderia prescindir de tutela; pelo paternalismo, dos que esperavam que o governo tudo lhes desse sem necessidade de competir; pelo assistencialismo, dos que imaginavam que a palavra escrita converte-se automaticamente em benefícios; pelo fiscalismo, dos que se despreocupavam das conseqüências desmotivadoras e recessivas das sobrecargas tributárias e, por fim, da xenofobia, dos que viam o País como alvo de um imenso complô internacional concebido para entravar um romântico projeto de progresso autonômico. DI PIETRO 4 (1999, p. 144) critica o momento em que aconteceu adoção no Brasil do modelo norte-americano de agências reguladoras, aduzindo que é lamentável, no entanto, que a imitação venha ser feita quando o próprio modelo que serviu de inspiração já foi profundamente alterado no próprio país de origem. O modelo que se está copiando é o que se adotava antes das reformas iniciadas na década de 60. Entendemos, todavia, ainda que ultrapassado em alguns pontos o modelo norteamericano de agências reguladoras, que o mesmo pode ser aproveitado em nosso país, desde que venha a se compatibilizar com o ordenamento jurídico brasileiro e com nova formatação de Estado, que, gradualmente, vem diminuindo sua atuação estatal e intervenção 5 na atividade econômica. É justamente neste momento que nascem as agências reguladoras, com o escopo de 3 MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Mutações do Direito Administrativo. Rio de Janeiro: Renovar, DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Parcerias na Administração Pública - 3ª ed. São Paulo: Atlas, GRAU, Eros Roberto. A Ordem Economica na Constituição de ed. revista e atualizada. Malheiros, SP, 2007, p.93-94: Daí se verificar que o Estado não pratica intervenção quando presta serviço público ou regula prestação de serviço público. Atua, no caso, em área de sua titularidade, na esfera pública. Por isso mesmo dirse-á que o vocábulo intervenção e, no contexto, mais correto do que a expressão atuação estatal: intervenção expressa atuação estatal em área de titularidade do setor privado; atuação estatal, expressa significado mais

9 9 normatizar e regular os serviços e atividades delegadas à iniciativa privada, sempre buscando o equilíbrio e harmonia entre o Estado, usuários e delegatários. Embora, inicialmente, se tenha feito alarde acerca da implantação das agências reguladoras no Direito brasileiro, o certo é que tal de forma de descentralização da Administração Pública, para boa parte da doutrina nacional, não constitui novidade, consoante entendimento de BANDEIRA DE MELLO 6 (2001, p ), assim vazado: i Em rigor, autarquias com funções reguladoras não se constituem em novidade alguma. O termo com que ora foram batizadas é que é novo no Brasil. Apareceu ao ensejo de tal Reforma Administrativa, provavelmente para dar sabor de novidade ao que é muito antigo, atribuindo-lhe, ademais, o suposto prestígio de ostentar uma terminologia norte-americana ( agência ). A autarquia Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica DNAEE, por exemplo, cumpria exatamente a finalidade ora irrogada à ANEEL, tanto que o art. 31 da lei transfere à nova pessoa todo o acervo técnico, patrimonial, obrigações, direitos e receitas do DNAEE. Entendimento diverso tem DI PIETRO 7 (1999, p. 130), para quem As agências reguladoras constituem novidade no direito brasileiro, introduzida para assumir o papel que, na concessão, era antes desempenhado pela própria Administração Pública direta, na qualidade de poder concedente; o mesmo papel é assumido na permissão e na autorização. MOREIRA NETO 8 (2000, p. 82) justifica, com muita propriedade e proficiência o porquê da necessidade de instituição das agências reguladoras, revelando-se como um instrumento hábil a viabilizar: amplo. Pois é certo que essa expressão, quando não qualificada, conota inclusive atuação na esfera pública. 6 BANDEIRA DE MELO, Celso Antônio. Curso de Direito Administrativo. 13. ed. São Paulo: Malheiros Editores, DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Parcerias na Administração Pública - 3ª ed. São Paulo: Atlas, 1999

10 10 i) uma ação regulatória mais sintonizada com os interesses existentes na Sociedade (alternativamente à regulação autoritária e unilateral cabente num contexto de Estado autoritário); e ii) uma esfera ordena e equalizadora dos interesses embatentes num dado setor da economia ou da Sociedade, a um só tempo permeável aos interesses dos diversos atores envolvidos (produtores e consumidores da utilidade pública) na atividade regulada (permeável, pois, aos interesses existentes na esfera privada) e promotora dos interesses públicos difusos (razão de ser da esfera pública, mormente daqueles que não possuem representação nem no nem perante aparelho estatal. No plano infraconstitucional, a Lei n. 8987/95, ao regulamentar o artigo 175 da Constituição Federal, trouxe novas regras sobre o regime de concessões e permissões de serviços públicos. As agências podem ser criadas tanto em âmbito federal quanto na esfera estadual, com o objetivo de regular a prestação por operadores particulares de serviços públicos delegados à iniciativa privada. A reprodução dessa tendência regulatória tem seguido dois modelos: de um lado, o modelo setorial especializado, em que são criadas diversas agências, uma para cada setor, como ocorre no âmbito federal, onde foram criadas diversas agências; e o modelo multissetorial, em que se cria apenas uma agência incumbida da regulação de todos os serviços públicos prestados por particulares, como é o caso do Estado do Rio de Janeiro, onde foi criada a ASEP-RJ (Agência Reguladora de Serviços Públicos), responsável pela fiscalização e regulação de todos os serviços públicos objeto de concessão ou permissão pelo Estado. 3. Inspiração tardia no direito regulatório norte-americano Marçal Justen Filho (2007, p.53-54) ressalta que é difícil transportar institutos jurídicos construídos em realidades diferentes: Não é possível transplantar para o domínio de um Estado um instituto que se desenvolveu em face de uma cultura e de um ordenamento jurídico com características muito distintas. 8 MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Mutações do Direito Administrativo. Rio de Janeiro: Renovar, 2000.

11 11 A advertência não apresenta maior originalidade para os que trabalham com o Direito comparado. A primeira ressalva efetuada, quando se estudam institutos jurídicos estrangeiros, relaciona-se à diversidade dos sistemas jurídicos. O Direito de cada Estado reflete suas pecularidades culturais, econômicas, políticas, sociais e assim por diante. Os ordenamentos jurídicos dos diversos Estados apresentam diferenças inconfundíveis, que inviabilizam a pura e simples importação de um instituto estrangeiro. A adoção de experiência jurídica alienígena pressupõe sua compatibilidade com a ordem jurídica nacional e pressupõe, com exigência inafastável, sua configuração aos princípios e regras que estruturam o Direito pátrio. 9 Embora o Brasil e EUA sejam estados federativos, o processo de formação de cada um foi bem diferenciado. Nos EUA, existia um governo central em conflito com os estados independentes, que resistiam ao comando da administração central. Assim, o federalismo formouse com a união dos estados independentes. No Brasil havia um estado unitário, o qual foi desmembrado, formando o federalismo. Essa formação histórica refletiu na organização do sistema jurídico norteamericano, no qual a decisão judicial é considerada fonte principal de direito, bem como o disciplinamento do direito regulatório admite a criação de agências reguladoras independentes em relação aos demais poderes, à consideração de que seus dirigentes são detentores de estabilidade em suas funções e exercem funções quase-legislativas e quase-judiciais. Outra questão, como já salientado, as agências norte-americanas foram criadas especialmente como instrumento de intervenção do Estado na economia do país, em decorrência da grande depressão econômica a partir de Já no Brasil, a criação das agências reguladoras objetivou, principalmente, retirar o Estado da economia, cujo fenômeno se verificou com as privatizações a partir de meados de Destarte, enquanto nos EUA as agências foram criadas para fortalecer a participação do Estado na atividade econômica, através de instrumentos regulatórios, no Brasil, a criação das agências buscou reduzir a intervenção do Estado. Nada obstante essas diferenças, o modelo regulatório brasileiro foi inspirado no direito regulatório norte-americano. 9 JUSTEN FILHO, Marçal. O Direito das Agências Reguladoras Independentes. SP: Dialética, 2002.

12 12 Ocorre que, naquele país, já há uma marcha no sentido de reduzir o papel das agências reguladoras, seja através de seu controle ou das desregulação de determinadas atividades econômicas, ficando por conta dos próprios interessados. Essa nova postura, iniciada a partir de década de 80, especialmente com a ascensão de Reagan à presidência, tem haver com o retorno aos ideais do liberalismo, que prega intervenção mínima do Estado na atividade econômica. Nesse cenário, diz-se que a interferência estatal na atividade econômica só se justifica se a falha do Estado for menor do que a falha do mercado; caso contrário, não vale a pena corrigir a falha do mercado, para se cometer uma ainda maior. Destarte, quando a partir de década de 90 se iniciou no Brasil uma intensa atividade regulatório, esse instrumento de intervenção na atividade econômica, já vem perdendo força nos EUA, motivo pelo qual esse modelo não poderia servir de base para criação do direito regulatório brasileiro, seja porque são Estados que possuem organizações políticas e jurídicas, além de outras, diferentes, ou porque o modelo regulatório norte-americano se encontra em processo de redução. 4. Considerações finais As agências reguladoras, seguindo o modelo norte-americano, surgem no Brasil em decorrência do novo cenário de autuação do Estado na economia, em que há uma diminuição substancial de sua participação na prestação de serviços, colimando normatizar e regular os serviços e atividades delegados à iniciativa privada, na busca do equilíbrio e harmonia entre o Estado, usuários e delegatários As agências reguladoras federais foram criadas como autarquias sob regime especial, integrando, assim, a Administração Pública descentralizada ou indireta, na linguagem do art. 2º, do Decreto-lei n. 200/67. Os privilégios conferidos às agências reguladoras para consecução de seus fins caracterizam-se basicamente pela independência que gozam frente aos três poderes -

13 13 consubstanciada na estabilidade de seus dirigentes (mandato fixo) e autonomia técnico-financeira (renda própria e liberdade de sua aplicação) -, poder normativo (função quase-legislativa consistente na regulamentação das matérias de sua competência, sem invadir as chamadas reservas da lei) e poder de dirimir conflitos (função quase-judicial) Praticamente inexiste autonomia das agências reguladoras no tocante ao Poder Judiciário, pois, embora a agência possa dirimir conflitos em última instância administrativa, tal como os demais órgãos, isso não impede o controle de suas decisões pelo Poder Judiciário (art. 5 o, XXXV, da CF/88). Também é tênue a independência das agências em relação ao Poder Legislativo, na medida em que seus atos normativos não podem conflitar com normas constitucionais ou legais e, ademais, não estão sujeitos ao controle do Congresso Nacional, previsto no art. 49, inc. X, por comporem a Administração Indireta, bem assim ao controle financeiro, contábil e orçamentário exercido pelo Legislativo, com auxílio do Tribunal de Contas da União. Maior margem de autonomia verifica-se em relação ao Poder Executivo, tendo em vista que os atos que dizem respeito à atividade-fim não podem ser revistos pelo Poder Executivo, o qual também não pode exonerar ad nutum seus diretores. O poder normativo das agências é compatível com o regime constitucional pátrio, na medida em que a competência regulamentar pode ser exercida tanto pelo Chefe do Executivo, com primazia, como pelos Ministros de Estado e por outros órgãos da Administração Pública, estando aí incluídas as autarquias. Sob pena de ofensa ao princípio da tripartição dos poderes, acolhido de forma moderado pela Constituição, os atos das agências reguladoras são passíveis de controle judicial, não podendo contrariar as normas legais, nem inovar de forma absoluta na ordem jurídica.

14 14 5. Referências BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de Direito Administrativo. 13. ed. São Paulo: Malheiros Editores, CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. 40. ed. São Paulo: Saraiva, COLETÂNEA DE LEGISLAÇÃO ADMINISTRATIVA. Organizadora Odete Medauar. 2. ed. revista atualizada e ampliada. São Paulo: Revista dos Tribunais, DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Parcerias na Administração Pública - 3ª ed. São Paulo: Atlas, GRAU, Eros Roberto. A Ordem Economica na Constituição de ed. revista e atualizada. Malheiros, SP, 2007 JUSTEN FILHO, Marçal. O Direito das Agências Reguladoras Independentes. SP: Dialética, MUNIZ SHECAIRA, Cibele Cristina Baldassa. A Competência das Agências nos EUA. In Direitos Regulatórios. DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella (organizadora). 2 ed. rev.e ampl. Belo Horizonte: Forum, MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Mutações do Direito Administrativo. Rio de Janeiro: Renovar, 2000.

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