Novas governanças. novos problemas. boletim 4 2. Adriana Fontes Mauricio Blanco Valéria Pero. Contexto brasileiro. Rio de Janeiro, FEVEREIRO de 2008

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1 Novas governaças

2 boletim 4

3 boletim 4 2 Rio de Janeiro, FEVEREIRO de 2008 Adriana Fontes Mauricio Blanco Valéria Pero Novas governanças para enfrentar novos problemas I Contexto brasileiro Na incipiente experiência democrática brasileira, o Estado tem se demonstrado incapaz de responder grande parte das demandas da sociedade, o que gerou muita frustração e desencanto na opinião pública. Conforme pode ser visto no Gráfico I.1, apenas 35% dos brasileiros se mostram muito satisfeitos ou parcialmente satisfeitos com esse regime. Observa-se ainda que o suporte à democracia no Brasil é menor do que na América Latina. Menos da metade dos brasileiros entrevistados, em 2006, preferem a democracia a outras formas de regime no Brasil. 1 Esse índice é menor do que o verificado em meados dos anos 90. No entanto, a partir de 2001, parece que a insatisfação política tem acirrado a demanda por mais democracia. A democracia representativa, não apenas no Brasil, mas no mundo como um todo, tem esbarrado em seus próprios limites que só serão ultrapassados com a construção de mecanismos democráticos de natureza mais participativa. Isto não significa recuar nas conquistas e na consolidação da democracia representativa e no fortalecimento dos partidos políticos, mas sim aprofundar o processo democrático, expandindo o espaço público para além das fronteiras estatais. 1.Esses dados são obtidos através do Latinobarometer, que é uma pesquisa de opinião anual feita em 18 países da América Latina. São entrevistadas cerca de pessoas em cada país pesquisado.

4 boletim 4 RIO além do PETRÓLEO 3 gráfico i.1 satisfação com a democracia Satisfação com a democracia Índice América Latina & Caribe Brasil Fonte: DataGob. gráfico i.2 apoio à democracia Apoio à democracia Índice América Latina & Caribe Brasil Fonte: DataGob.

5 boletim 4 RIO além do PETRÓLEO A ampliação do espaço público requer consolidação de instituições para garantir um ambiente de confiança entre os diferentes atores da sociedade. Este ambiente de confiança e de cooperação elementos principais no redimensionamento do espaço público requer o aprofundamento de mecanismos cada vez mais amplos de liberdade de expressão (voice) de todos os setores da sociedade, assim como o fortalecimento de instituições que promovam maior transparência e responsabilização de autoridades e gestores públicos (accountability). Voice e accountability são dimensões que se reforçam mutuamente e criam as bases de sustentação do sistema democrático. O Gráfico I.3 apresenta a evolução destes dois aspectos através de um índice de percepção para um conjunto de países selecionados. O Brasil ocupa uma posição muito próxima à média da região e supera por muito pouca diferença a do México país que apenas recentemente experimentou a abertura democrática após sete décadas de hegemonia do Partido Revolucionário Institucional. gráfico i.3 voz e responsabilidade na política pública ( ) Voz e Responsabilidade na Política Pública Índice América Latina & Caribe Brasil Chile Espanha México Estados Unidos No caso brasileiro, ainda há um longo caminho a percorrer para chegar ao nível dos países desenvolvidos, em termos do grau de efetividade do governo, como pode ser observado no Gráfico I.4. Um outro indicador de credibilidade nas instituições governamentais é a percepção com relação à qualidade do gasto público. Apenas 12,3% dos entrevistados brasileiros acreditam que o governo gasta bem ou razoavelmente bem a receita dos impostos, percentual inferior ao observado na média da América Latina (20,5%).

6 boletim 4 RIO além do PETRÓLEO 5 gráfico i.4 efetividade do governo Efetividade do Governo Índice América Latina Países Ricos Brasil Fonte: DataGob. A perspectiva comparada pode auxiliar na identificação do enorme grau de desconfiança da população no Brasil em relação ao destino das despesas públicas. A Tabela I.1 situa nosso país em posição incômoda não apenas em relação ao conjunto de países ricos e da América Latina, mas também quando comparado com países selecionados. Com efeito, em uma escala de 1 (desperdiço total das despesas) a 7 (não existe desperdiço), o índice do Brasil é 2 com tendência negativa entre 2004 e tabela I.1 percepção sobre o despercídio de despesas públicas Países Ricos América Latina e Caribe Brasil Chile Espanha México Estados Unidos Fonte: Datagob

7 boletim 4 RIO além do PETRÓLEO 6 É preciso explorar a complementaridade de competências - visto que nenhum ator (público ou privado) tem a capacidade de arcar, sozinho, com a magnitude dos investimentos requeridos para enfrentar os desafios do desenvolvimento. Além do mais, existem externalidades positivas: o investimento de um ator em determinada área aumenta a rentabilidade dos outros atores nas demais áreas. A participação do setor privado depende do sistema de incentivos que é dado em grande parte pela qualidade e confiança nas ações do judiciário. A percepção do empresariado com relação ao funcionamento do quadro legal no Brasil é mais baixa do que nos países ricos e tem apresentado uma queda recente. gráfico i.5 eficiência do judiciário Eficiência do judiciário Índice América Latina Países Ricos Brasil Fonte: Datagob Uma segunda dimensão chave sobre a percepção do empresariado diz respeito à segurança dos investimentos aqui se deve incluir direito de propriedade, patentes, o impacto do sistema jurídico, entre outras variáveis e às barreiras à entrada do investimento externo direto (impostos, tramitação, etc). Na Tabela I.2 é possível observar que o Brasil deve avançar em ambos os quesitos quando comparado com outros países, tanto da América Latina quanto de países considerados ricos. tabela i.2 mecanismos de incentivos aos Investimentos Liberdade de Entrada de Investimento Estrangeiro (0 a 100) Índice de proteção ao investidor (0 a 10) Países Ricos América Latina e Caribe Estados Unidos Chile Espanha México Brasil Fonte: Datagob

8 boletim 4 RIO além do PETRÓLEO 7 ii rio de janeiro O Rio de Janeiro, em particular, vivencia sérias limitações ao seu desenvolvimento que precisam ser enfrentadas. Como na maior parte das grandes regiões metropolitanas, o Rio de Janeiro sofre com a desindustrialização, mas também com a transferência da capital para Brasília e do setor financeiro para São Paulo, além da dificuldade de aceitação da fusão com o antigo Estado da Guanabara. Por estes e outros fatores, o ressentimento em relação ao descumprimento da promessa de modernidade por parte do Estado Nacional é redobrado no caso do Rio de Janeiro. É visível a perda de vocação dos nossos territórios. O subúrbio, a zona oeste da Cidade do Rio de Janeiro e vários municípios da Baixada Fluminense com a saída da indústria e o Centro da Cidade do Rio de Janeiro com a transferência da capital para Brasília e do setor financeiro para São Paulo são apenas alguns exemplos. A desigualdade é outro agravante. Segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano da Cidade do Rio de Janeiro, o melhor e o pior bairro da cidade estão separados por mais de um século de distância em termos de desenvolvimento humano. O mesmo acontece entre a média registrada nos municípios centrais da Região Metropolitana (Rio de Janeiro e Niterói) e os periféricos (Nilópolis, Belfort Roxo, São Gonçalo, Seropédica etc.). Apesar da redução recente da desigualdade, no Rio de Janeiro, como já apontado no primeiro número desta publicação, a queda se dá de forma mais lenta e errática do que no resto do Brasil. 2 Há evidências de um ambiente hostil para o desenvolvimento dos negócios no Rio de Janeiro. Segundo os dados do Relatório Doing Business do Banco Mundial (2006), abrir uma empresa no Rio de Janeiro envolve 15 procedimentos burocráticos e leva 68 dias. 3 No ranking sobre facilidade para fazer negócios, o estado do Rio está em 7º lugar. Já em Minas Gerais, são 10 procedimentos e apenas 19 dias, colocando este estado como 1º lugar no Brasil. Em países como a Nova Zelândia, a abertura de empresas é feita quase que instantaneamente pela Internet. Das treze cidades analisadas nesse relatório, a carga tributária mais elevada é a do Rio de Janeiro que, segundo o Banco Mundial, chega a ter uma das maiores do mundo. Segundo a estimativa do Banco Mundial, a renda gasta com pagamento de todos os impostos representa em média o dobro do lucro bruto das empresas. No ranking das cidades de acordo com a facilidade para fazer negócios, o Rio de Janeiro está em oitavo lugar, como pode ser observado na tabela a seguir. 2. Para maiores detalhes ver Para além do Édipo nacional-desenvolvimetista: Novas governanças para a Região Metropolitana do Rio de Janeiro 3. Esforços recentes por parte do Governo Estadual devem ter efeitos sobre o tempo de abertura das empresas. TABELA I.3 Ranking das cidades segundo a facilidade para fazer negócios Cidade Ranking Brasília, Distrito Federal 1 (Mais fácil) Manaus, Amazonas 2 Belo Horizonte, Minas Gerais 3 Porto Velho, Rondônia 4 São Luís, Maranhão 5 Porto Alegre, Rio Grande do Sul 6 Campo Grande, Mato Grosso do Sul 7 Rio de Janeiro 8 Florianópolis, Santa Catarina 9 Salvador, Bahia 10 São Paulo 11 Cuiabá, Mato Grosso 12 Fortaleza, Ceará 13 (Mais difícil) Fonte: Doing Business, Brasil. Obs: Foram abordados 5 temas: abertura de uma empresa, registro de propriedade, obtenção de crédito, tributação e cumprimento de contratos.

9 boletim 4 RIO além do PETRÓLEO 8 Temos hoje a maior taxa de desemprego das 27 Unidades da Federação, posição alcançada em Se a precariedade do trabalho já era um problema a ser enfrentado pelo nosso mercado de trabalho, tendo em vista o grande percentual de empregados sem carteira assinada e trabalhadores por conta-própria, constituindo um ambiente com muita informalidade, agora temos outro sério problema que é a quantidade de trabalho. A região metropolitana do Rio de Janeiro é, segundo estimativas do IETS a partir do Censo Demográfico de 2000, a quarta Região Metropolitana do país (das 25 consideradas) com a maior porcentagem de habitantes vivendo em domicílios considerados subnormais (11,46%). Considerando o estado como um todo, o Rio de Janeiro é o que abriga o maior percentual de favelas, cerca de 9,4% dos domicílios. Em alguma medida, este fato está associado à dificuldade do estado do Rio de garantir e assegurar os direitos de propriedade. Um fator explorado na base de dados do Doing Businness sobre esse aspecto refere-se à facilidade de registrar uma propriedade imóvel. Conforme pode ser visto na Tabela I.4, enquanto Distrito Federal e Santa Catarina representam as cidades com maior facilidade para registrar uma propriedade, o Rio de Janeiro encontra-se em 8º lugar. Isso se deve em grande medida ao tempo, e não ao custo, para registrar um imóvel. Em Santa Catarina, levam-se em média 51 dias e no Rio de Janeiro 75 dias. De qualquer maneira, o custo de registrar o imóvel no Rio (2,7% do valor do imóvel) também é mais elevado que em Santa Catarina (2,3%). TABELA I.4 Ranking dos estados segundo a facilidade para registrar uma propriedade Estado Ranking Distrito Federal (Mais Fácil) 1 (Mais fácil) Santa Catarina 2 Mato Grosso 3 Amazonas 4 Minas Gerais 5 São Paulo 6 Maranhão 7 Rio de Janeiro 8 Bahia 9 Ceará 10 Rio Grande do Sul 11 Rondônia 12 Mato Grosso do Sul 13 (Mais difícil) Fonte: Doing Business, Brasil. Nota: A facilidade de registro de propriedades é a média aritmética da classificação do número de procedimentos e do tempo e do custo associados (como % do valor do imóvel) requeridos para registrar uma propriedade. Os direitos de propriedade bem definidos e assegurados são importantes para criar um ambiente favorável para os investimentos e retomar a capacidade de crescimento da economia. Além de outras conseqüências como violência, degradação do meio ambiente e baixa qualidade de vida. Não há como deixar de mencionar a violência que faz, por exemplo, com que a probabilidade de sobrevivência até 60 anos seja a segunda mais baixa dentre as 25 Regiões Metropolitanas, apesar de uma mortalidade infantil relativamente baixa. Segundo os dados do Datasus, o Rio de Janeiro é o Estado que possui a maior taxa de mortalidade por causas externas do Brasil, com 50,85 mortes por 100 mil habitantes. A degradação do meio-ambiente, um fato comum na maior parte das regiões metropolitanas mundo afora, é particularmente grave no caso do Rio de Janeiro pelo fato disto vir a dilapidar uma de suas principais vantagens comparativas. Para o enfrentamento destes problemas com alguma chance de êxito, é preciso enveredar politicamente num processo de criação de novos arcabouços institucionais, dentro dos quais novos atores (frutos de um redesenho e de um aprofundamento do espaço público através de diferentes parcerias entre diferentes níveis de governo, a iniciativa privada e a sociedade civil) serão chamados a assumir a responsabilidade de implementar estratégias de longo prazo

10 boletim 4 RIO além do PETRÓLEO 9 capazes de reverter, de forma sustentável, o processo de decadência em que a Região Metropolitana fluminense mergulhou ao longo das últimas décadas. Na nova economia global, as metrópoles têm se transformado em pólos de decisão, em centros nodais de redes de todo tipo e em localização-chave de serviços de alto valor adicionado (finanças, comunicação, cultura, entretenimento, saúde, educação, pesquisa e desenvolvimento, inovação etc.). Mas para poder aproveitar as novas oportunidades que surgem no mundo globalizado, é preciso que as metrópoles sejam repensadas. Os instrumentos tradicionais de política econômica e de políticas públicas não foram pensados para fazer face aos principais problemas e desafios vividos pelas metrópoles atualmente (a proliferação de cemitérios industriais, o desemprego maciço de inteiras categorias ocupacionais, a informalidade, o desengano da juventude, a falta de segurança, a precariedade crescente da qualidade da água e do ar etc.). Novos problemas precisam ser enfrentados através de novas armas. Dado que estes problemas têm, de uma maneira geral, uma natureza estrutural, é preciso, para tanto, recuperar, em primeiro lugar, a capacidade de pensar o futuro, objetivo primordial deste projeto em conjunto com o Instituto Brasileiro do Petróleo. Ou seja, é preciso formular estratégias de desenvolvimento. Além da elaboração de estratégias de longo prazo com base em diagnósticos aprofundados (tanto quantitativo quanto qualitativo), este processo envolve a constituição de novos atores para executar estas estratégias. As experiências internacionais exitosas mostram que os novos atores são: (i) instituições privadas de interesse público; (ii) contam com a participação acionária, minoritária, de diferentes níveis de governo, conjuntamente; (iii) precisam contar com a presença dos setores potencialmente dinâmicos da iniciativa privada, ou seja, de empresas (tecnologicamente avançadas, se possível) que tenham não apenas interesse no desenvolvimento do território em questão, mas que tenham, elas mesmas, perspectivas de crescimento no longo prazo; (iv) devem incluir, o quanto possível, as universidades e os órgãos de pesquisa.

11 realização patrocínio apoio

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