Cursos de Bacharelado em Clarineta no Canadá e no Brasil: Um Estudo Comparativo. 1

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1 Cursos de Bacharelado em Clarineta no Canadá e no Brasil: Um Estudo Comparativo. 1 Fernando José Silveira 2 Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro Resumo: Trata-se de projeto de pesquisa que tem como objetivo o estudo comparativo entre os cursos de bacharelado em clarineta do Instituto Villa-Lobos da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - Brasil e o da Escola de Música da Universidade de Victoria British Columbia /Canadá. Para tal haverá, entre outros, a comparação entre a infra-estrutura, os mecanismos de admissão e aperfeiçoamento dos professores, metodologia de admissão de alunos e o índice de sucesso dos alunos formados. Palavras-chave: Clarineta; comparação de currículos; educação musical. Introdução Os cursos superiores em música no Brasil existem desde o início do Século XX e foram criados pela Escola de Música da então Universidade do Brasil (hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro). A Escola de Música fora formada sob a influência da, naquela época, capital do mundo, isto é, Paris. Por esse motivo, os cursos superiores em música, principalmente os cursos de bacharelado em instrumentos musicais, foram criados baseados nos currículos do Conservatório de Paris ainda hoje referência mundial de excelência artística no campo da música erudita. Especificamente no que tange ao bacharelado em clarineta, ainda hoje o currículo desse curso e a ementa da disciplina clarineta permanecem praticamente inalteradas, utilizando material didático de origem francesa e, até a década de 1980, realizando ao formato do conservatório de Paris concursos Medalha de Ouro 3. Esse modelo educacional tem sido bastante bem sucedido, lançando no mercado profissionais de alta capacidade artística e, eventualmente, pesquisadores sobre música e sobre a clarineta. 1 Trabalho apresentado no XVI Encontro Anual da ABEM e Congresso Regional da ISME na América Latina Fernando José Silveira é Professor Adjunto de clarineta e música de câmara do Instituto Villa-Lobos da UNIRIO - RJ. Doutor em Execução Musical/Clarineta pela Escola de Música da UFBA, foi aluno de José de Freitas e Joel Barbosa. É requisitado como solista, camerista e docente pelas Américas do Sul e Norte, Ásia e Europa. Tem publicado diversos artigos, no Brasil e no exterior, relacionados à clarineta no Brasil e às práticas interpretativas. 3 Competição realizada no final dos cursos de bacharelado em instrumento musical da Escola de Música da UFRJ, onde o aluno melhor classificado é premiado com a medalha de ouro e o segundo melhor colocado com a medalha de prata. Está em desuso desde a década de 1980.

2 Por ter sido o primeiro curso de bacharelado em instrumentos musicais a ser criado no Brasil, acredita-se, o curso de bacharelado em clarineta da Escola de Música da UFRJ serviu de modelo para a criação de novos cursos, da mesma natureza, em outras universidades brasileiras dentre eles o da UNIRIO, UNICAMP etc. É certo que pequenos ajustes foram feitos, porém, o cerne do material didático majoritariamente formado por cadernos de estudo franceses é ainda amplamente utilizado. A comparação de currículos dos cursos de bacharelado em instrumentos musicais de sopro parece nunca haver sido feito antes. Dentre o material bibliográfico consultado no Brasil, não se encontrou nenhuma experiência anterior. Na área dos instrumentos de corda, SCOGGIN (2003) informa alguns fatores que dificultam o aprendizado dos alunos em todos os níveis. Dentre eles destaca-se a qualificação dos professores responsáveis pelo aluno e a disponibilização de instrumentos musicais. Estes são fatores que, de uma forma ou de outra, também obstam o ensino dos instrumentos de sopro. No Brasil, segundo pesquisas recentes na área de Educação Musical, a banda de música exerce importante papel na iniciação musical, já que disponibiliza instrumento aos alunos. (NASCIMENTO, 2003) Porém, no que tange à formação e à atualização dos professores, ainda não se verifica atitudes governamentais pró-ativas para sua capacitação. A atualização como parte da formação do professor de clarineta, é muito importante e necessária (GARBOSA, 2000:18). Segundo HARDER (2003, P ), há a necessidade da incorporação de alguns novos saberes ao professor de instrumento no Brasil, a saber: 1. Capacidade de oferecer ao aluno uma perspectiva de carreira ; 2. Capacitação para oferecer parâmetros a seu aluno quanto à aquisição e desenvolvimento de habilidades técnicas ; 3. Competência em adaptar programas pré-estabelecidos e construir planejamentos flexíveis [...] ; 4. Conhecimento profundo das discussões relacionadas com a interpretação musical objetivando embasar teoricamente suas decisões enquanto professor do instrumento ; Tais competências acima não são exigidas, por exemplo, aos professores de instrumento dos cursos superiores do Conservatório de Paris, onde há uma especificidade disciplinar de cada professor. O item 3, acima descrito, supera as

3 propostas de FREIRE (2000), de um currículo pré-concebido, sob a justificativa do planejamento a longo prazo. No que tange aos cursos de graduação em instrumentos musicais, SCOGGIN (2003, p. 29) informa que os principais problemas detectados nos cursos de graduação [em instrumentos de cordas no Brasil] estão relacionados ao número e nível dos alunos universitários e, principalmente, ao currículo das escolas de música (grifo meu). Há, segundo HARDER (2003, p. 36), necessidade de uma reestruturação profunda nos currículos e programas dos cursos direcionados à Execução Musical. O nível médio da performance do aluno de graduação, brasileiro, fica abaixo dos padrões internacionais [...], devido, entre outros ao baixo nível de exigência com relação a repertório nas provas de aptidão específica dos vestibulares. (BOSISIO, 1992 apud SCOGGIN, 2003:29) Com relação ao currículo das escolas de música do Brasil, David MACHADO (1992 apud SCOGGIN, 2003, p. 29) indica que: Ainda hoje, várias das nossas escolas de música se encontram presas ao antigo modelo do conservatório europeu, onde se formavam apenas solistas. [...] Concluído o curso, o instrumentista não está devidamente preparado para ingressar no mercado brasileiro de trabalho, que muito necessita de músicos de orquestra e de professores qualificados. HARDER (2003, p. 36) indica que uma das causas do descompasso entre a realidade da escola e as expectativas do estudante é o fato de que, a despeito das mudanças no perfil do aluno, grande parte das escolas de música do país ainda permanece dentro do sistema dos conservatórios tradicionais. Apreende-se das reflexões acima que há necessidade premente de uma mudança no currículo do curso de bacharelado em instrumentos no Brasil, partindo-se da formação do professor. Mas, o mais importante, essa mudança deve ser consolidada sob a ótica das necessidades dos alunos e do mercado de trabalho onde serão inseridos. O efeito da globalização e a facilidade oferecida pela internet, no que tange à informação, acabam mudando a perspectiva do músico/aluno brasileiro. Não se tem mais, por objetivo, simplesmente alcançar uma posição de status no mercado musical e/ou educacional brasileiro. A partir da necessidade de uma educação voltada para formação do artista em contraposição de, simplesmente, o instrumentista o currículo dos cursos de clarineta, e o de todos os instrumentos musicais, devem contemplar as novas metas internacionais. Isto significa não somente a inclusão de

4 cadernos de estudo e obras internacionais para o instrumento, mas também capacitar o professor a ministrar aulas consonantes com estas novas metas. A revisão das qualidades para o ingresso nos cursos superiores no Brasil é outra necessidade premente. O sistema de ensino musical universitário brasileiro, como já dito, se difere essencialmente do sistema conservatorial adotado nos países europeus. Verdade é que, por uma imposição mundial, muitos países como a Alemanha já iniciaram estudos para uma transformação de seu sistema de educação musical (hoschule), em configuração similar àquela utilizada nas universidades das Américas do norte e do sul. Portanto, essas novas necessidades curriculares dos cursos de bacharelado no Brasil não seriam construídas a partir de uma comparação com os currículos de escolas de música européias. Por similaridade, há de se comparar o currículo e a metodologia de sua aplicação com as universidades norte-americanas, onde os objetivos artísticoeducacionais são consonantes aos do Brasil. Objetivos Principal: Comparação dos currículos dos cursos de bacharelado em clarineta, e sua aplicação metodológica, utilizados pelo Instituto Villa-Lobos da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - Brasil e pela Escola de Música da Universidade de Victoria British Columbia /Canadá. Secundários: Analisar estatisticamente o índice de sucesso dos alunos canadenses de clarineta egressos nas audições para posições em organismos orquestrais (orquestra sinfônica, banda etc.) e educacionais (ensino musica e/ou pesquisa em organismos de educação musical em todos os níveis); Analisar, comparativamente, a infra-estrutura das duas universidades, apontando as ações político-educacionais similares e/ou antagônicas e a disponibilidade de materiais (bibliotecas, empréstimo de instrumento etc.) para os alunos; Comparar as exigências técnico-artísticas para o ingresso em ambos os cursos e sua metodologia; Comparar os mecanismos de admissão e aperfeiçoamento dos professores ministrantes das disciplinas de ensino do instrumento.

5 Justificativa O estudo comparativo de currículos dos instrumentos de sopro jamais fora procedido antes. Porém, a maior justificativa para a propositura da presente pesquisa é a verificação comparativa dos saberes necessários à conclusão dos cursos superiores em clarineta nas duas universidades envolvidas e sua vinculação com o sucesso do profissional formado. Para o lado brasileiro, os resultados obtidos poderão nortear o aperfeiçoamento curricular dos cursos de bacharelado em instrumentos musicais. Além desse relevante ponto, poder-se-ão apontar qualidades e deficiências pedagógicas que fundamentarão possíveis cursos de aperfeiçoamento dos professores brasileiros de instrumentos musicais. Para o lado canadense, os resultados obtidos poderão indicar o grau de excelência dos alunos formados, a pertinência do currículo e da metodologia empregada no curso, assim como sinalizar possíveis ajustes a serem procedidos no intuito de elevar ainda mais a qualidade do curso. Não se pode esquecer que um olhar comparativo dos dois cursos pode indicar, talvez, a necessidade de inclusão de certas disciplinas ou atividades que ainda não são contempladas no curso canadense, já que, como dito na introdução, os cursos de bacharelado em clarineta no Brasil tem tido excelentes resultados globais. Metodologia Segundo PHELPS et al. (1993), a pesquisa qualitativa, conhecida também como etnográfica, naturalística, subjetiva e pós-positivista, permite ao pesquisador ter uma percepção ampla do objeto de estudo e, a partir da coleta de dados e sua análise, desenvolver as questões que serão respondidas. Ainda segundo a orientação de PHELPS et al. (1993), tal modalidade de pesquisa abrange, entre outros, os tópicos abaixo, a saber: 1. o pesquisador como instrumento de pesquisa; 2. observação participante;

6 3. entrevista; 4. análise de dados coletados; 5. descrição das conclusões; 6. avaliação qualitativa. Traçada a estratégia de coleta e a análise dos dados, que poderão variar conforme o caso, o pesquisador poderá apreciá-los, dependendo do caso, como um simples observador ou inserindo-se no grupo de pesquisa como se dele participasse. O objetivo é o de que sua condição de pesquisador não influencie a qualidade das informações. Poderá entrevistar os membros do grupo, se necessário for, coletando informações de suas vidas particulares que, de uma forma ou de outra, possam ajudar nas suas conclusões. Após a análise, confecciona-se um relatório com suas conclusões, que serão, posteriormente, avaliadas orientação passiva de PHELPS et al. (1993). A adoção da pesquisa qualitativa acima descrita legitima-se, na presente pesquisa, pelo aspecto subjetivo do objeto que se busca estudar: a aplicação de currículos educacionais. As conclusões sobre esse objeto de análise só serão possíveis, após sua identificação pelo pesquisador, a partir de informações subjetivas coletadas por meio: 1) do conhecimento e da comparação dos currículos, 2) da aplicação deste currículo no dia-a-dia do aluno e 3) das facilidades oferecias pelas universidades. Como métodos desse estudo para os itens 2 e 3, serão utilizados pesquisa descritiva e estudo de caso, como descrito abaixo. A pesquisa descritiva observa, registra, analisa e correlaciona fatos ou fenômenos (variáveis) sem manipulá-los (CERVO; BERVIAN, 2002, p. 66). Manifestando-se, principalmente, nas ciências humanas e sociais, tem por objetivo coletar aqueles dados que não se encontram na forma escrita. A pesquisa descritiva favorece, de forma ampla e completa, a coleta de dados de indivíduos ou de grupos,

7 servindo para identificar suas estruturas e conteúdos, colhidos da realidade desses grupos (CERVO; BERVIAN, 2002). As principais técnicas de registro de dados dessa modalidade de pesquisa são: 1) a observação, 2) a entrevista, 3) o questionário e 4) o formulário, que deverão ser usados individualmente ou combinados, dependendo dos objetivos da pesquisa. Elas englobam a coleta daqueles dados que podem ser capturados no tempo presente, tratando-se, portanto, guardadas as devidas proporções, de um método simples (PHELPS et al., 1993). Dentre os objetivos de tal modalidade está o estabelecimento das relações de diversas variáveis, usando dados sobre seu estado atual, para investigar as relações que talvez possam proporcionar larga visão [...] (PHELPS et al., 1993: ). Portanto, ela oferece possibilidade de aprofundamento sobre a qualidade dos dados e amplitude sobre sua visão em consonância direta com os objetivos do presente estudo. Obviamente, para estabelecer relações entre variáveis, é necessária a comparação (BEST; KAHN, 1989); nesse estudo, a comparação dos cursos das universidades participantes. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BEST, John; KAHN, James (1989). Research in education. EUA: Prentice Hall. BOSÍSIO, Paulo. Entrevista concedida a Gláucia Borges Scoggin. Rio de Janeiro: 15 de junho de CERVO, Amado; BERVIAN, Pedro (2002). Metodologia científica. 5 a ed. São Paulo: Prentice Hall. FREIRE, Ricardo Dourado (2000). Currículo de clarineta baseado na música brasileira in Revista da Associação Brasileira de Clarinetistas. Vol.1. Salvador: ABCl, p GARBOSA, Guilherme (2000). Formação do professor de clarineta no contexto brasileiro in Revista da Associação Brasileira de Clarinetistas. Vol.1. Salvador: ABCl, p

8 HARDER, Rejane (2003). Repensando o papel do professor de instrumento nas escolas de música brasileiras: novas competências adquiridas in Música Hodie: revista do Programa de Pós-Graduação Stricto-Sensu da Escola de Musica e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás. Vol.3. Goiânia: UFG, p NASCIMENTO, Marco Antonio Toledo (2003). O papel formador das bandas de música, enfocando os clarinetistas profissionais do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Instituto Villa-Lobos da UNIRIO. Monografia de Licenciatura em Música não publicada. PHELPS, Roger; FERRARA, Lawrence; GOOLSBY, Thomas W. (1993). A guide to research in music education. 4 a ed. Inglaterra e Londres: The Scarecrow. SCOGGIN, Gláucia Borges (2003). A pedagogia e a performance dos instrumentos de cordas no Brasil: um passado que ainda é realidade in Per Musi Revista de Performance Musical Vol.7. Belo Horizonte: Escola de Música da UFMG, p

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