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1 Instituto de Desenvolvimento Educacional do Alto Uruguai - IDEAU Vol. 6 Nº 13 - Janeiro - Julho 2011 Semestral ISSN: Artigo: DISLEXIA: UM NOVO OLHAR Autores: Caila Lanfredi Polese 1 Gisele Maria Tonin da Costa 2 Graciele Pogorzelski Miechuanski 3 1 Pedagoga, Pós-Graduanda em Psicopedagogia pela Faculdade IDEAU. Professora do 3º ano do Ensino Fundamental e Ensino Religioso do Centro de Educação IDEAU - Colégio Santa Clara. Rua Pedro Toniollo, 818/04. Bairro Santo André, Cep: Getúlio Vargas- RS. 2 Pedagoga, Especialista em Planejamento e Gestão da Educação, Mestre em Educação. Orientadora Pedagógica. Professora de Graduação e Pós-Graduação e Coordenadora Pedagógica do Curso de Pedagogia da Faculdade IDEAU. Rua Jacob Gremmelmaier, 636/401. Bairro Centro, Cep: Getúlio Vargas-RS. 3 Pedagoga, Pós- Graduanda em Psicopedagogia pela Faculdade IDEAU. Conselheira tutelar.rua Vencelino Zanivam Bairro Centro, Cep: Floriano Peixoto RS.

2 2 DISLEXIA: UM NOVO OLHAR Tranquilidade e compreensão tornam a criança menos ansiosa diante de seu insucesso escolar, preparando-a para uma atitude mais confiante e segura na aprendizagem da leitura e da escrita (SOUZA, 1969, p. 45). Resumo: Estudando a linha de pensamento de diversos autores, dentre eles Topczewski, Shaywitz, Snowling e Massi, ressalta-se que a Dislexia é definida como sendo um distúrbio ou transtorno de aprendizagem na área da leitura, escrita e soletração, diagnosticada geralmente no início do processo de alfabetização, onde a criança entra em contato com a escrita e leitura, apresentando assim alguns sintomas. Quando há suspeita de Dislexia em alguma criança, esta deve imediatamente passar por uma avaliação multidisciplinar composta por profissionais habilitados a diagnosticar e iniciar a intervenção. Após a confirmação, o professor, em sala de aula, deverá reorganizar e repensar suas aulas, suas metodologias e sua prática docente a fim de melhorar a qualidade e otimizar o processo de ensino aprendizagem do aluno disléxico. Sem dúvida, a compreensão e a parceria são essenciais para garantir o sucesso escolar dessas crianças, que podem aprender, mesmo com suas limitações. Palavras-chave: Dislexia. Professor. Aluno. Escola. Dificuldade de aprendizagem. Aprendizagem. Abstract: Studying the line of thought of many authors, among them Topczewski, Shaywitz, Snowling and Massi, we emphasize that Dyslexia is defined as a disorder or learning disorder in the area of reading, writing and spelling, usually diagnosed early in the process of literacy, where the child comes into contact with the writing and reading, thus presenting some symptoms. When there is suspicion of dyslexia in some children, this should immediately go through a multidisciplinary approach consisting of qualified professionals to diagnose and begin intervention. After confirming the teacher in the classroom, should reorganize and rethink their classes, their methods and their teaching practice and to improve quality and optimize the process of teaching and learning of dyslexic student. Undoubtedly, understanding and partnership are essential to ensuring the academic success of these children, who can learn, even with its limitations. Key words: Dyslexia. Teacher. Student. School. Learning difficulties. Learning. 1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS A Dislexia é, sem dúvida, um gigantesco desafio para a pesquisa, mais ainda para a educação. Os estudos disponíveis são vagos e nem sempre contribuem para o esclarecimento, entendimento e tratamento da Dislexia. Calcula-se que aproximadamente 10 milhões de brasileiros, de acordo com o censo demográfico de , tenham algum tipo de necessidade especial, podendo ser mental, auditiva, visual, física, de conduta ou mesmo deficiências múltiplas. Quando chegam à escola, principalmente na educação básica, muitas crianças sofrem com algum tipo de dificuldade de aprendizagem, principalmente ligadas à área da linguagem. A dislexia é uma delas, que por sua vez apresenta-se com maior incidência. A Associação 4 Dados do censo demográfico de In:

3 3 Brasileira de Dislexia (ABD) calcula que aproximadamente 10% a 15% dos indivíduos que nos rodeiam, sejam disléxicos 5. Sabemos que quando pais e professores não têm o devido esclarecimento sobre a dificuldade, acabam deixando o aluno a mercê de hipóteses, não chegando a diagnósticos verdadeiros e possibilitadores de avanços, o que causa frustrações e sofrimento ao mesmo. O primeiro passo é ter claro que todo e qualquer aluno, mesmo portador de dificuldades, é capaz e pode ser autônomo, dentro de suas possibilidades. Para isso, é dever e necessidade do professor conhecer o tema em debate para conceder ao aluno condições de realizações e verdadeiras aprendizagens, pois o educador faz sim a diferença neste processo. O devido esclarecimento e conhecimento da Dislexia favorece diferenciar as alterações que existem em um processo normal de aprendizagem e aquelas compatíveis com o distúrbio ou transtorno de aprendizagem. Assim, promoverão atitudes menos excludentes, para que a criança disléxica seja atendida adequadamente, ajudando a diminuir assim, os índices de fracasso e evasão escolar. A compreensão e a parceria são elementos essenciais para garantir o futuro destas crianças. Entender como aprendemos e o porquê de algumas dificuldades de aprendizagem é um desafio diário para muitos professores e até alguns pais, quando acompanham o desenvolvimento de seus filhos. Uma das dificuldades mais observadas e comuns é a Dislexia, esta que é uma dificuldade específica em leitura. São fundamentais as competências de ler e escrever para o ser humano, pois estas são a base de qualquer aprendizagem, e sem estas, o indivíduo apresentará lacunas em várias outras aprendizagens. Precisamos destas habilidades durante toda a vida, em quase todos os momentos, pois elas levam o leitor a decodificar mensagens, interpretar e compreender textos, enfim, a participar mais ativamente da sociedade. Luria e Yudovich (1985) enfatizam que além da função cognoscitiva da palavra e sua função como instrumento de comunicação, há sua função pragmática ou reguladora; a palavra não é somente um instrumento de reflexo da realidade, é o meio da regulação da conduta. Conhecer, estudar e entender a Dislexia é fator decisivo para ajudar no tratamento da criança a fim de tornar o processo de ensino aprendizagem mais significativo e adequado. 5 Site da ABD (Associação Brasileira de Dislexia):

4 4 2 CONHECENDO A TRAJETÓRIA HISTÓRICA E ENTENDENDO A DISLEXIA Segundo os relatos de Topczewski (2010), o caso mais antigo descrito sobre a perda da capacidade para a leitura, foi em 1667, em consequência de um acidente vascular cerebral, estudado pelo médico alemão Johann Schimidt. Somente em 1877, Adolf Kussmaul usou o termo cegueira verbal num relato da perda da capacidade para a leitura. A palavra dislexia foi citada neste mesmo ano por Rudolf Berlin ao analisar adultos que após uma lesão cerebral, se tornaram incapazes de ler. Pringle Morgan, em 1896, descreveu o primeiro caso usando a denominação cegueira verbal congênita, contando a história de um adolescente inteligente, mas incapaz de desenvolver adequadamente sua capacidade para a leitura. Foi Pringle Morgan, o primeiro médico a considerar essa dificuldade como uma alteração no desenvolvimento dos indivíduos sadios. Pode-se dizer que inicialmente os que mais descreveram sobre as alterações da leitura, foram os oftalmologistas, desvendando não ser um problema ocular, mas sim cerebral. A partir de então, os estudos sobre a dislexia ganharam espaço nas pesquisas de vários especialistas e em vários países da Europa, Estados Unidos e Argentina. Quem definiu pela primeira vez a Dislexia, foi o psiquiatra e neuropatologista Samuel T. Orton, em Então foi criada a Orton Dyslexia Society, conhecida atualmente como International Dyslexia Association (IDA), que é uma entidade dedicada a estudos e pesquisas sobre a dislexia. Até hoje, pela dificuldade em compreender e a falta de conhecimento em relação às dificuldades e paralelas facilidades que o disléxico tem em seu modo de ser e aprender, encontra-se muitas pesquisas que relatam e descrevem as peculiaridades da dislexia, porém poucos avanços são constatados. A palavra DISLEXIA significa DIS distúrbio e LEXIA- do latim, leitura; e do grego, linguagem. Portanto, a dislexia além de ser uma dificuldade específica na leitura e escrita, é uma dificuldade intrigante do processo de aprendizado, que pode ser considerada um desafio social, sendo que o conhecimento e esclarecimento sobre a mesma podem propôr uma revolução na educação, na escola e na prática docente de muitos professores. Para entender a dislexia é necessário, antes de tudo, compreender o processo de aprendizagem do ser humano. Muitas definições são propostas para responder o que é dislexia, porém, poucas são universalmente aceitas, isso porque cada profissional da Educação ou da Saúde, ao estudar esta dificuldade aborda o problema sob diversos e particulares ângulos, dando enfoque para sua área específica. Podemos dizer que dislexia é

5 5 um jeito de ser e aprender, seu portador pode ter uma mente até genial, mas aprende de uma maneira diferente. É importante destacar que existem várias explicações definindo a dislexia. A Associação Brasileira de Dislexia (ABD), em 1994, divulgou pela International Dyslexia Association a definição: Dislexia é um dos muitos distúrbios de aprendizagem. É um distúrbio específico da linguagem, de origem constitucional, caracterizado pela dificuldade em decodificar palavras simples. Mostra uma insuficiência no processo fonológico. Essas dificuldades de decodificar palavras simples não são esperadas em relação à idade. Apesar de submetida a instrução convencional, adequada inteligência, oportunidade sociocultural e não possuir distúrbios cognitivos e sensoriais fundamentais, a criança falha no processo de aquisição da linguagem. A dislexia é apresentada em várias formas de dificuldades com diferentes formas de linguagem, frequentemente incluídos problemas de leitura, em aquisição e capacidade de escrever e soletrar (http://www.profala.com/artdislexia18.htm). A ABD exerce grande influência sobre estudos, pesquisas e atividades profissionais envolvidas com a dislexia em todo o país, além de estar vinculada com a Dyslexia Association. O conceito divulgado é amplamente aceito e representativo da visão comum sobre dislexia. De acordo com os estudos, pode-se afirmar então, que ao contrário de que muitos pensam, a dislexia não tem como causa a falta de interesse, falta de motivação, de esforço e até vontade, acuidade visual ou auditiva, má alfabetização e muito menos baixa e/ou ausência de inteligência. O que se observa é que a maioria delas apresenta capacidade intelectual dentro dos parâmetros estabelecidos como normais, e alguns conseguem em certas atividades um desempenho superior à média do seu grupo etário. A dislexia precisa ser entendida, segundo a ABD-Associação Brasileira de Dislexia, como uma condição hereditária com alterações genéticas. Existem estudos realizados que mostram haver predominância da dislexia no sexo masculino. Topczewski concorda ao afirmar que, A dislexia é considerada como um quadro hereditário; o risco estimado de um homem disléxico ter um filho com as mesmas características é de 40% e uma mulher disléxica é de 36%. As várias publicações revelam que 23 % a 80% dos portadores de dislexia têm parente disléxico. Estudos realizados com gêmeos idênticos e gêmeos fraternos indicam que a probabilidade é maior dos idênticos serem disléxicos do que os fraternos. Em cerca de 70% dos gêmeos idênticos ambos são disléxicos. Os estudos genéticos revelam a existência de alterações em nove cromossomos mapeados (15, 6p, 2, 2, 7, 18, 11, 1) e em quatro genes considerados candidato (2010, p.19).

6 6 A dislexia então, num comum conceito, faz parte de um transtorno da linguagem, que compromete o aprendizado da leitura. Sabemos que na alfabetização, quando ocorre a aprendizagem da leitura há a necessidade de se identificar o som da palavra falada (fonema) para posteriormente associá-la à palavra escrita (grafema), portanto o indivíduo disléxico provavelmente apresenta um déficit no processamento fonológico. Existem dois caminhos para chegarmos ao reconhecimento das palavras e extrairmos o significado das mesmas: rota ou via fonológica e rota ou via léxica. A rota que nos permite ler textos e identificar seus vários componentes como parágrafos, períodos, orações, frases, entre outros, é a rota fonológica. Segundo Martins (in: a via fonológica consiste em discriminar os sons correspondentes a cada uma das letras ou grafemas que compõem a palavra. Ou seja, a rota fonológica permite que o leitor reconheça as letras que formam a palavra associando ao seu som correspondente, para assim, fazer a leitura. Pela rota fonológica podemos, sendo leitores hábeis, ler palavras pouco frequentes e difíceis sem problemas, por exemplo pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico, que é a maior palavra na língua portuguesa. Então, usando a rota fonológica, identificamos as letras por meio da análise visual, recuperamos os sons, pronunciamos os sons formando a palavra escrita. Gutschow (2002) diz que a rota fonológica é mais lenta que a rota léxica, já que o processo requerido é muito mais extenso até chegarmos a reconhecer a palavra, no entanto, não é menos importante e, inclusive, podemos afirmar que os estágios iniciais da aprendizagem da leitura dependem da consciência fonológica. Já a rota lexical, que é rápida e global, permite o reconhecimento por inteiro da palavra e tem por consequência, o rápido pronunciamento da escrita, sem passar pelo reconhecimento dos signos que a compõem. A leitura pela rota léxica explica a facilidade que temos para reconhecer palavras que vimos com bastante frequência, por exemplo casa. Na leitura, ambas as rotas são ativadas e necessárias, elas coexistem na leitura hábil. Na medida em que as habilidades de leitura vão se intensificando, a estratégia da rota léxica se torna mais frequente, ou as duas ao mesmo tempo. É importante ressaltar aqui, que a dislexia não tem fronteiras geográficas, e pode se manifestar em qualquer língua, em maior ou menor grau, dependendo das particularidades e relação grafema-fonema existente na língua. Por exemplo, na língua italiana onde a relação grafema-fonema é bastante próxima, o processamento fonológico se dá com maior facilidade.

7 7 A língua inglesa propicia maiores dificuldades, pois a relação som e escrita é muitas vezes diferente. Pensando no crescente interesse no estudo dessa dificuldade da área de linguagem e a falta de conhecimento que atinge pais, professores e até os próprios portadores da dislexia, visando melhor esclarecer, orientar, ajudar e estimular, em 1983 nasceu a Associação Brasileira de dislexia, a ABD. Esta instituição é a única filiada brasileira à IDA (International Dyslexia Association). A ABD localiza-se no Brasil, mais especificamente em São Paulo -Capital, e atua como principal ponto de apoio às famílias e disléxicos. A instituição atende um público constituído de disléxicos de todas as idades, oferece orientação direcionada, cursos e encaminhamentos para pais, professores, familiares, tendo como principal missão ajudar, de todas as formas, o disléxico e os portadores de distúrbios de aprendizagem, atendendo a população carente também. Desta forma, a existência da associação faz-se muito importante para que os disléxicos e portadores de distúrbios de aprendizagem possam transformar-se em cidadão produtivos, evitando a marginalização dos mesmos tanto na educação, quanto no mercado de trabalho. 3 PRINCIPAIS CAUSAS, SINTOMAS E TIPOS DE DISLEXIA A criança passa por várias estapas na aquisição da linguagem. O significado das palavras e a formação da consciência vão se dando conforme a criança avança em idade e é estimulada de diferentes formas, o que será importante para que mais tarde aconteça a formação de novos e mais complexos conceitos. Ter o conhecimento de tudo isso, implica também em ter discernimento pedagógico de que a dislexia, mesmo sendo uma dificuldade, permite a aprendizagem, assim como todas as crianças especiais e normais, os disléxicos são aprendizes em potencial. O disléxico não deve ser visto como um doente ou paciente, mas sim como um indivíduo saudável que apresenta dificuldades na área da linguagem e necessita de ajuda e tratamento diferenciado no período escolar para que possa atingir os objetivos propostos para cada fase, respeitando suas limitações. Para Vygotsky (1991), não é possível pensar na construção da escrita como um processo linear e constante. É normal que durante o processo de aquisição da linguagem a criança apresente instabilidades, errando, tentando, manipulando e acertando. Todo processo de aquisição de novos conhecimentos requer reflexões e comparações, o que pode causar

8 8 instabilidades, levando a indagações e perguntas constantes, até que a criança internalize e torne próprio o conhecimento a ela apresentado. Por isso, é importantíssimo o olhar atento do professor sobre as crianças no processo de alfabetização para possivelmente estar detectando dificuldades que vão além das normais e esperadas durante o processo, e que podem ser uma possível dislexia. Sabe-se que a dislexia persiste apesar da boa escolaridade, portanto, é necessário que pais e professores saibam identificar os sinais que indicam que uma criança é disléxica e entender suas causas para poder ajudar da melhor forma. 3.1 PRINCIPAIS CAUSAS DA DISLEXIA A dislexia não é causada por uma deficiência intelectual geral, por isso é designada e classificada como sendo uma dificuldade específica da linguagem. Também não é causada por limitações socioculturais ou por fatores emocionais. Comparando e analisando descobertas realizadas por profissionais de diferentes áreas relacionadas à Educação e à Saúde, várias apontam que a dislexia tem base neurológica, tendo incidências genéticas em suas causas, tornando-a altamente hereditária, o que justifica que se repita nas mesmas famílias. Contata-se também, de acordo com a maioria dos estudos que há um considerável déficit fonológico, como afirma Snowling (2004) ao dizer que mesmo a dislexia podendo se manifestar de várias formas, pode existir uma única causa, o déficit fonológico, que é modificado por outras habilidades cognitivas. Embora o cérebro dos disléxicos processe informações em uma área diferente do cérebro das pessoas que não são disléxicas, seu cérebro é perfeitamente normal. Então, provavelmente a dislexia resulta de falhas nas conexões cerebrais. Portanto, as causas mais prováveis da dislexia são neurológicas e genéticas. A dislexia se manifesta guardando uma relação estreita entre o quadro genético e o meio ambiente (TOPCZEWSKI, 2010, p. 20). Entender como funciona o cérebro de maneira geral é necessário para entender as causas da dislexia. Cada parte do cérebro é responsável por exercer uma função específica. Como confirma Snowling: Uma questão óbvia que segue o estudo genético da dislexia é qual sistema cerebral media as dificuldades do processamento fonológico observadas na dislexia. [...] No entanto, de forma básica, pode-se pensar no cérebro humano dividido pela linha média em dois hemisférios conectados pelo corpo caloso; é geralmente aceito que, na maioria dos indivíduos, o hemisfério esquerdo é localizado para a linguagem. Dentro de cada hemisfério, existem principalmente quatro regiões (lobos) com especializações diferentes, e há muito tempo foi estabelecido que as regiões do lobo temporal do hemisfério esquerdo, em ambos os lados da fissura Sylviana, estão envolvidas no processamento da linguagem (2004, p. 149).

9 9 Então, de acordo com estudos, a parte esquerda do cérebro, está mais diretamente relacionada com a linguagem, onde as áreas são distintas e responsáveis por processar fonemas, analisar palavras e reconhecer palavras. Essas funções trabalham harmoniosamente permitindo que o ser humano aprenda a ler e escrever. Sabe-se que uma criança aprende a ler ao reconhecer e processar fonemas, memorizando letras e seus respectivos sons, inicialmente a leitura é processada pela rota fonológica e depois, após adquirir maiores habilidades, usa a rota léxica. Conforme a criança progride na leitura, o cérebro domina o processo e a leitura então, passa a exigir menos esforço. O cérebro dos disléxicos não funciona desta forma. Durante a leitura, eles recorrem somente à área cerebral que processa fonemas e a região responsável pela análise de palavras permanece inativa, dificultando o reconhecimento e leitura hábil mesmo que este esteja deparado com palavras que já tenha lido ou estudado. Portanto, um crescente número de evidências sugere que as descobertas comportamentais dos déficits de processamento fonológico podem se resultantes de diferenças na função do hemisfério esquerdo cerebral, entre os leitores disléxicos e normais. Especialmente, as regiões que ligam áreas cerebrais da percepção e da produção da fala parecem ser afetadas. É interessante especular que este poderia ser o local das representações fonológicas que é fundamental para o desenvolvimento da leitura (SNOWLING, 2004, p. 155). Desta forma, a leitura se torna um grande esforço para o disléxico, porque a principal dificuldade está na capacidade de representar ou recordar sons da fala (fonemas), ou seja, existe um problema nas representações fonológicas, que leva a uma deficiência na transformação das letras do alfabeto em fonemas. Consequência disso, também são as dificuldades em separar palavras em seus fonemas e a principal, que é a dificuldade nítida na leitura. Dentre todas estas evidências, constata-se que pessoas com dislexia têm dificuldade em reter a fala na memória de curto prazo e conscientemente, dividí-las em fonemas. 3.2 SINAIS E SINTOMAS DA DISLEXIA A criança pode ser inteligente, e mesmo assim, sofrer de dislexia. Esta, que não é o único distúrbio que inibe o aprendizado, mas é o mais comum. Deve-se permitir que profissionais qualificados examinem e averigúem cada caso, para uma posterior confirmação da dislexia.

10 10 A dislexia pode ser identificada já nos primeiros anos escolares, sendo que a primeira condição para o diagnóstico é que a criança já tenha sido alfabetizada. Conforme Topczewski (2010), o que mais se aceita é que o indivíduo já tenha tido uma vivência com a leitura e escrita de, pelo menos, dois anos para que seja possível a caracterização das dificuldades disléxicas. Espera-se que a base da linguagem oral e escrita já deva estar desenvolvida em torno dos 8 anos de idade. Isso acontece, de modo geral, quando a criança está cursando o segundo ano do ensino fundamental, fase esta, onde a leitura já deve estar mais fluente. O que se observa nos disléxicos, é que a leitura continua sendo bastante precária, sofrida, entrecortada, quase silábica, como se estivesse nos primeiros momentos de aprendizagem. Sendo assim, os disléxicos demandam um tempo bem mais longo para a leitura, porque têm uma importante dificuldade para reconhecer as palavras e as ler. Por vezes, esta falta de fluência afasta o indivíduo da leitura, porque a lerdeza interfere no processo de compreensão e, consequentemente, na capacidade de memorizar o que foi lido. É indispensável que o professor dê uma atenção especial aos alunos na fase de alfabetização, mais ainda àquelas consideradas de risco, que apresentem defasagem e dificuldades significativas na linguagem, especialmente quando há histórico de dislexia na família. Daí, a importância e necessidade de conhecer e entender, nem que minimamente, a história da criança e o contexto onde ela está inserida. São vários os sinais que identificam a dislexia. Ianhez e Nico (2002) e Santos (1987) listam vários sinais e sintomas decorrentes da dislexia. Nessas listas, citam questões como: dificuldade com cálculos mentais, dificuldade em organizar tarefas, dificuldades com noções espaço- temporais, entre outras: Desempenho inconstante com relação à aprendizagem da leitura e da escrita; Dificuldade com os sons das palavras e, consequentemente, com a soletração; Escrita incorreta, com trocas, omissões, junções e aglutinações de fonemas; Relutância para escrever; Confusão entre letras de formas vizinhas, como moite por noite, espuerda por esquerda ; Confusão entre letras foneticamente semelhantes : tinda por tinta, popre por pobre, gomida por comida ;Omissão de letras e/ou sílabas, como entrando por encontrando, giado por guiado, BNDT por Benedito ; Adição de letras e/ou sílabas: muimto por muito, fiaque por fique, aprendendendo por aprendendo ;União de uma ou mais palavras e/ou divisão inadequada de vocábulos: Eraumaves um omem por Era uma vez um homem, a mi versario por aniversário ; Leitura e escrita em espelho;

11 11 Ianhez (2002), ainda cita outros sinais importantes de dislexia na idade escolar: Lentidão na aprendizagem dos mecanismos da leitura e escrita; Trocas ortográficas, dependendo do tipo de dislexia; Problema para reconhecer rimas e alterações; Desatenção e dispersão; Desempenho escolar abaixo da média, em matérias especificas, que dependem da linguagem escrita; Melhores resultados nas avaliações orais, do que nas escritas;dificuldade de coordenação motora fina (para desenhar, escrever e pintar) e grossa (é descoordenada); Dificuldade de copiar as lições do quadro, ou de um livro; Problema na lateralidade (confusão entre esquerda e direita, ginástica) Dificuldades de expressão: vocabulário pobre, frases curtas, estruturas simples, sentenças vagas; Dificuldades em manusear mapas e dicionários; Esquecimento de palavras; Problema de conduta: retração, timidez excessiva e depressão; Desinteresse ou negação da necessidade de ler; Leitura demorada, silabadas e com erros. Esquecimento de tudo o que lê; Salta linhas durante a leitura, acompanha a linha de leitura com o dedo; Dificuldade em matemática, desenho geométrico e em decorar sequências; Desnível entre o que ouve e o que lê. Aproveita o que ouve, mas não o que lê; Demora demasiado tempo na realização dos trabalhos de casa; Não gosta de ir à escola; Apresenta picos de aprendizagem. Nuns dias parece assimilar e compreender os conteúdos e noutro, parece ter esquecido o que tinha aprendido anteriormente; Pode evidenciar capacidade acima da média em áreas como: desenho, pintura, música, teatro, esporte, etc; A combinação de sintomas e a intensidade em que se apresentam em níveis que variam entre o sutil ao severo, varia de disléxico para disléxico, de modo absolutamente pessoal. É importante ressaltar que não há dois pacientes disléxicos apresentando comprometimentos iguais, mas sim semelhantes, pois cada um tem características particulares, além de apresentarem as diferentes dificuldades associadas [...] (TOPCZEWSKI, 2010, p.33). Além dos sinais citados acima, tão evidentes e fáceis de serem observados sob um olhar atento do professor e dos pais, a dislexia, de acordo com seu tipo, ainda sugere outras possíveis dificuldades nos processos de construção do objeto escrito: dificuldades fonológicas, dificuldades de percepção auditiva e de processamento auditivo, dificuldades visuais e de processamento visual, dificuldades de coordenação motora, dificuldades de memória verbal de curto prazo (memória de fixação), dificuldades de sequencialização (ordem temporal). Mas já a primeira avaliação, aquela que é feita em sala de aula, durante atividades, requer um olhar bastante crítico e conhecedor por parte do professor, para traçar o perfil da

12 12 criança juntamente com suas dificuldades, porque algumas crianças podem ser capazes de seguir sequências, mas solicitam apoio. Cada caso é um caso. De acordo com estudos e publicações no site, a ABD, traz alguns sinais de alerta para pais e professores, quanto aos sintomas apresentados por disléxicos: Haverá sempre: - dificuldades com a linguagem e escrita; dificuldades em escrever; dificuldades com a ortografia; lentidão na aprendizagem da leitura. Haverá muitas vezes: - disgrafia (letra feia); discalculia, dificuldade com a matemática, sobretudo na assimilação de símbolos e de decorar a tabuada; dificuldades com a memória de curto prazo e com a organização; dificuldades em seguir indicações de caminhos e em executar sequências de tarefas complexas; dificuldades para compreender textos escritos; dificuldades em aprender uma segunda língua. Haverá às vezes: - dificuldades com a linguagem falada; dificuldade com a percepção espacial; confusão entre direita e esquerda (http://www.dislexia.org.br/). 3.3 PRINCIPAIS TIPOS DE DISLEXIA São inúmeras as classificações de dislexia que podem ser encontradas em vários estudos de diferentes autores. Sabe-se que a dislexia pode ser classificada de várias formas, de acordo com os critérios utilizados para sua classificação. Oliver (2008) afirma que para a Psicopedagogia, a dislexia pode ser subdividida em: - Dislexia cognitiva ou inata: nasce com o indivíduo. Uma das causas pode ser a comprovada alteração hemisférica cerebral, onde os hemisférios encontram-se com tamanhos invertidos ou em tamanhos exatamente iguais, quando o considerado normal é que o esquerdo seja maior que o direito. No caso do indivíduo ter esta dislexia, terá pouca ou nenhuma habilidade para a aquisição da leitura/ escrita, geralmente não chega a ser alfabetizado, e quando chega, tem sérios problemas de compreensão textual. Este tipo de dislexia, geralmente é incurável e deve ser tratada para amenizar os sintomas, por uma equipe multidisciplinar. - Dislexia Adquirida: vem por consequência de algum acidente, por exemplo, anóxias (falta de oxigenação no cérebro), acidente vascular cerebral (derrame) e outros acidentes que podem afetar o cérebro. Neste caso, o indivíduo que antes lia e escrevia normalmente, passa a ter períodos e fases de dislexia. Nestes períodos a dificuldade para ler e escrever serão nítidas, bem como problemas de lateralidade e falha de memória. Este tipo de dislexia requer um acompanhamento e habilidades de adaptação, tem grandes possibilidades de cura ou boa melhora, já que esta dislexia não envolve alterações hemisféricas.

13 13 - Dislexia Ocasional: como o próprio nome diz, esta dislexia aparece em ocasiões e é causada por fatores externos. Alguns fatores apontados são o estresse, excesso de atividades, e raramente por TPM (Tensão Pré Menstrual) e hipertensão. Neste caso, não é preciso grandes tratamentos. O indivíduo deverá detectar o fator que causa sua dislexia e se necessário e possível, mudar seus hábitos, e tudo voltará ao normal. Psicoterapia é uma boa indicação. Para Moojen apud Rotta (2006) é possível classificar a dislexia em três tipos: - Dislexia fonológica: sua principal característica está na dificuldade para operar a rota fonológica, apresentando um funcionamento aceitável da rota lexical. Sendo assim, a maior dificuldade está em ler palavras não familiares, sílabas sem sentido ou pseudopalavras, mostrando maior desempenho na leitura de palavras familiares. Encontram-se também dificuldades em tarefas que envolvam memória e consciência fonológica, acarretando dificuldades de compreensão do que foi lido. - Dislexia lexical: neste caso, as principais dificuldades estão na rota lexical, e apresentam a rota fonológica relativamente preservada, afetando fortemente a leitura de palavras irregulares. Assim, os disléxicos deste tipo, lêem lentamente e errando com frequência. - Dislexia mista: neste caso, a via lexical e a via fonológica estão comprometidas. São situações mais graves e requerem um esforço maior e sistemático. Ianhez (2002) propõe as seguintes subdivisões: - Dislexia disfonética: dificuldades de percepção auditiva na análise e síntese de fonemas. Maior dificuldade na escrita do que na leitura. - Dislexia diseidética: dificuldades na percepção visual, apresenta leitura silábica. Maior dificuldade na leitura do que na escrita. - Dislexia visual: deficiência na percepção visual, não visualiza cognitivamente o fonema. - Dislexia auditiva: deficiência na percepção auditiva, não audiabiliza o fonema. - Dislexia mista: combinação de mais de um tipo de dislexia. É importante e indicado que qualquer disléxico, independente do tipo, além do tratamento indicado, deverá procurar auxílio para desenvolver seu raciocínio, agilidade, coordenação motora, lateralidade. Uma boa opção são esportes, a natação e os esportes com bola são bastante úteis, além de serem prazerosos. 4 DIAGNOSTICANDO E TRATANDO A DISLEXIA A dislexia, salvo a do tipo ocasional, não é curada sem tratamento apropriado. Por não ser um problema que passa com o tempo, a dislexia merece atenção para não passar

14 14 despercebida. Em primeiro lugar, pais e professores devem ter o devido entendimento para identificar a possibilidade de que as dificuldades que seu filho ou aluno estejam apresentando, possam se tratar na verdade, de uma dislexia. É importante que o diagnóstico seja efetuado o quanto antes, assim, as crianças tratadas desde cedo, têm grandes chances de superar ou conviver melhor com os sintomas. As palavras diagnóstico provêm de dia (através de) e gnosis (conhecimento). Se nos atemos à origem etimológica e não ao uso comum (que pode significar rotular, definir, etiquetar), podemos falar de diagnóstico como um olhar-conhecer através de, que relacionaremos com um processo, com um transcorrer, com um ir olhando através de alguém envolvido mesmo como observador, através da técnica utilizada e, nesta circunstância, através da família (FERNANDEZ, 1991). Conforme o que já foi colocado pode-se perceber que o diagnóstico da dislexia exige participação de vários profissionais, uma equipe multidisciplinar, abrangendo várias áreas, como a pedagógica, fonoaudiológica, psicopedagógica, psicológica, neurológica, psiquiátrica, além da participação da família. É na escola que geralmente são verificados os casos da dificuldade, portanto cabe ao professor verificar, pois está em constante acompanhamento dos alunos, onde deverá observar o desempenho dos mesmos na sala de aula. Entretanto, é imprenscídivel que os professores atualizem-se constantemente para que tenham compreensão das dificuldades que poderão vir a surgir no processo ensinoaprendizagem para que haja comprometimento com os alunos, ajudando-os a superar os obstáculos encontrados na aprendizagem da leitura e da escrita. Quando um aluno demonstra contínua dificuldade, deverá ser imediatamente encaminhado aos profissionais especializados, estes farão averiguações concretas. Para que seja realizado o diagnóstico correto, é imprescindível verificar se na família existem casos de dislexia, ou até mesmo, dificuldades de aprendizagem. Verificar se na história do desenvolvimento da criança ocorreu algum atraso na aquisição da linguagem, também é o caminho indicado. Também deve-se excluir primeiramente as possibilidades de outros distúrbios, pois há problemas de origem neurológica, sensorial, emocional e até dificuldades de aprendizagem por falta de ensino e metodologias adequadas ou em função das condições sócio-culturais não satisfatórias, que são distintas da dislexia. Segundo orientações da ABD, o diagnóstico só pode ser feito após a alfabetização, entre a primeira e segunda série, sendo que algumas escolas alfabetizam precocemente, e a criança apresenta dificuldades em acompanhar por não ter maturidade neurológica suficiente.

15 15 Shaywitz (2006) diz que o diagnóstico da dislexia apresenta um quadro muito particular de circunstâncias, e segundo suas pesquisas e estudos, as dificuldades de leitura eram muito mais comuns aos garotos do que às garotas; estudos haviam indicado que a dislexia atingia algo entre quatro e seis vezes mais os garotos. O cérebro do disléxico na parte posterior do hemisfério cerebral esquerdo, durante a leitura, demonstra uma atividade restringida e maior atividade na região frontal inferior esquerda e direita. Como consequência estes pacientes apresentam leitura lenta e não automática. A pronúncia da palavra escrita e qual o seu significado integram a área temporo - occipital esquerda, essa é a trajetória rápida de leitura utilizada pelo leitor normal. Já no disléxico se apresenta diferentes caminhos para desenvolver a leitura. Exames por imagem funcional são de custo muito elevados, o que inviabiliza a recomendações a todos. Constatado a dislexia, é fundamental que o professor esclareça em sala de aula quanto às dificuldades do colega, para que se mantenha um ambiente de respeito e consideração sem rejeições. Ressalta-se a importância do acompanhamento dos pais com o disléxico, estes devem ser esclarecidos para que possam entender melhor as dificuldades que seu filho demonstra e ajudá-lo a contorná-las. Ainda muitos casos necessitam de tratamento medicamentoso que associados às sessões com os profissionais especializados, trarão mais eficiência na superação das dificuldades. Embora a dislexia não tenha cura, a avaliação adequada, a orientação competente e o tratamento responsável são fatores fundamentais para o sucesso futuro do disléxico (TOPCZEWSKI, 2010, p. 55). É importante e fundamental que o disléxico seja ajudado e tratado, com instrução adequada e personalizadamente para poder estudar, senão corre riscos de permanecer analfabeto ou semialfabetizado, o que pode deixá-los excluídos de algumas profissões e vocações que exijam preparação acadêmica. Condemarin (1986), diz que o objetivo principal do tratamento re-educativo é solucionar as dificuldades localizadas no diagnóstico, que impedem ou dificultam o desenvolvimento normal do processo da leitura. A maioria dos tratamentos que visam ajudar os disléxicos incluem dinâmicas com exercícios auditivos, visuais e de memória. A tecnologia também colabora muito neste objetivo. Existem programas de computador desenvolvidos para isso. O importante é definir e

16 16 adaptar o programa ao disléxico, para que este supere seus limites, na busca de um processo de aquisição da linguagem, digamos, mais próximo do normal. 5 DISLÉXICOS APRENDEM A LER E ESCREVER? QUAL É O PAPEL DO PROFESSOR, DA ESCOLA E DOS PAIS NESTE PROCESSO? Uma criança que se sente triste e derrotada por não conseguir ler pode passar sim, a ser uma criança feliz e com grande vontade de aprender! Embora as causas possam ser diversas, qualquer limitação na aprendizagem é sempre um problema para a criança. Mesmo quando os motivos decorrem de condições ambientais ou educacionais desfavoráveis, é nela que eles se manifestam, na forma de um desempenho não adequado. É ela, portanto, quem sentirá as conseqüências. Quem não aprende, sofre. E o pior é que na maioria das vezes, é a própria criança quem carrega a culpa. Esta é uma regra geral (ZORZI, 2008, p. 9). São várias e novas as descobertas realizadas no ensino da leitura, onde se encontram novas alternativas, metodologias e mudanças no processo de ensino que podem ser responsáveis pelo sucesso de muitas crianças, visto que cada uma tem suas particularidades, seu ritmo, seu histórico e seu contexto. Uma criança disléxica pode se tornar um leitor dentro de suas limitações. Isso não requer mágica nenhuma, mas o essencial é o diagnóstico precoce e métodos eficazes. Cada indivíduo requer métodos diferentes para que as intervenções sejam satisfatórias, por isso, encontrar qual é o método apropriado, pode ser o início de uma grande mudança na vida de um disléxico. A leitura pode ser a coisa mais importante do mundo, pois ela está em tudo e em todos os lugares. É imprescindível que pais e professores não desistam de auxiliar no tratamento de uma criança disléxica. Sabe-se que depois de confirmado o diagnóstico, a preocupação principal dos pais é de encontrar uma escola que possa atender as necessidades do seu filho disléxico. Lima (2002) coloca que é função da escola ampliar a experiência humana, portanto a escola não pode ser limitada ao que é significativo para o aluno, mas criar situações de ensino que ampliem a experiência, aumentando os campos de significação. As escolas devem oferecer adaptações do sistema escolar às necessidades do aluno disléxico, para que ele possa entrar em contato com experiências e informações, para a construção de sua aprendizagem. Não há uma escola perfeita, o fundamental então é selecionar uma escola que mais se adapte as prioridades da

17 17 criança e acompanhar sistematicamente a sua aprendizagem, contando com o auxílio de uma equipe multidisciplinar. Entretanto, a maioria dos modelos de escola que conhecemos, públicas e particulares, geralmente não foram feitas para disléxicos. Objetivos, conteúdos, metodologias, organização e avaliação precisariam passar por importantes modificações e adaptações para recebê-los efetivamente como verdadeiramente alunos. Muitos disléxicos não sobrevivem à escola, e os que conseguem sobreviver, podem ser considerados astutos e corajosos, pois acharam artifícios que lhes permitiram driblar o tempo, os modelos, as exigências, os próprios professores, as humilhações e preconceitos, e principalmente, as notas exigidas para passagem de nível. Contudo, está mais que claro e confirmado que crianças disléxicas aprendem e inclusive, em sua maioria, apresentam nível cognitivo normal ou acima da média. Os disléxicos têm condições de cursar uma boa faculdade, até com sucesso, embora esta meta demande esforço particular maior, pois como aprendem de maneiras diferentes, precisam encontrar atalhos para atenuar e superar suas dificuldades específicas, buscando facilitar, de certa forma, seu aprendizado. Podemos dizer com segurança que, obviamente, para tudo existe limite, inclusive para o aprender. Mas, isto não significa dizer que existam impossibilidades. O sucesso ou o fracasso em nossa tarefa educacional depende daquilo que nos propomos a ensinar e dos métodos que empregamos para chegar até lá (ZORZI, 2008, p. 11). Nunca é tarde e menos ainda, desnecessário, ensinar disléxicos a ler e processar informações com maior eficiência. Diferentemente da fala, que requer menos estímulos, por ser um processo natural, a leitura precisa ser ensinada. Crianças disléxicas precisam de métodos adequados e tratamento especial para superar ou amenizar suas limitações. Fonseca (1995) diz que uma coisa é a criança não querer aprender a ler, outra é a criança que não pode aprender a ler com os métodos pedagógicos tradicionais. A criança disléxica precisa de um professor encorajador, alguém que lhe apoie que lhe incentive mesmo quando as coisas não estão indo bem, alguém que não apenas acredite nele, mas que demonstre isso no dia a dia, alguém que compreenda a natureza da dificuldade que ele tem, alguém que trabalhe incansavelmente e o auxilie no que precisar. Só assim, além de ter em casa um acompanhamento da mesma forma, haverá grandes possibilidades de um futuro feliz.

18 18 Não é suficiente incluir um indivíduo disléxico em sala de aula, precisam-se antes de tudo, professores e coordenadores capacitados em dislexia para poderem atender com eficiência as necessidades que estes apresentarem, porque alunos disléxicos aprendem. A abrangência da inclusão escolar é muito ampla. Uma educação para todos precisa valorizar a diversidade em todos os sentidos, sendo que esta dinamiza e enriquece as relações e interações, despertando nos alunos o desejo de conhecer e conviver com grupos diferentes do seu. A escola é um lugar privilegiado de encontro com o outro, onde o respeito às diferenças deve prevalecer. Diariamente o professor encontra-se frente a uma classe com diferentes áreas do conhecimento, inclusive na linguagem, muitas em função da procedência geográfica, social e cultural. É papel do professor estar atento para a realidade de seus educandos e as particularidades que os envolvem. Geralmente é na escola, nos primeiros anos, quando ocorre a alfabetização que os alunos disléxicos demonstram sintomas, pois é na escola o local onde a escrita e a leitura são permanentemente utilizadas e valorizadas. O professor do ensino fundamental e, talvez, professores de português do ensino médio têm maiores condições de perceber dificuldades de letramento que poderiam seguir a necessidade de uma investigação para estabelecer se o aluno tem dislexia. As observações podem incluir informações sobre dificuldades de leitura, escrita e ortografia (FARREL, 2008, p. 38). O professor, quando preocupado com o desempenho e o progresso de um aluno, deve consultar os pais e a própria escola a fim de obter maiores informações sobre a vida escolar do aluno. Se a preocupação e os sinais persistirem, o professor deve sugerir juntamente com o psicólogo da escola um acompanhamento clínico especializado. Desta forma, tornará a sua ajuda muito valiosa, já que não é o professor que fará as terapias e tratamento necessários, mas tem o dever de identificar e posteriormente dedicar-se de maneira especial ao aluno disléxico em sala de aula, resgatando também, sua autoconfiança. O professor de um aluno disléxico deve rever suas estratégias metodológicas, para descobrir habilidades nestes alunos, para que eles possam descobrir-se, conhecer-se e possivelmente destacar-se em outras áreas, pois se disléxicos fracassarem no período escolar, quer dizer que não fracassaram sozinhos: a escola, do gestor ao professor, consequentemente também fracassou.

19 19 Dirigir um olhar flexível para o aluno disléxico é compreender a natureza da dificuldade que ele apresenta, buscar orientações, informações para melhorar o processo da aquisição da aprendizagem do aluno. Instrumentalizar-se para isso, é fator decisivo. Experimentar diversas estratégias, atividades e técnicas, ajudará na descoberta de qual procedimento de ensino se adapta ao aluno e sua situação. Manter contato e parceria com a equipe multidisciplinar que faz o tratamento da criança, se for o caso, e com os pais facilitará muito o trabalho do professor, e colaborará para obtenção mais rápida e efetiva de resultados. Antes de tudo, porém, o professor deve estar aberto para trabalhar com as diferenças e estar disposto a ensinar TODOS os seus alunos. Alguns procedimentos facilitam e são recomendadas em sala de aula: valorizar os acertos; ajudar o aluno na organização do caderno; na hora das explicações, usar uma linguagem direta, clara e objetiva e certificar-se sempre se o aluno entendeu; organizar as turmas, de modo que as que contenham alunos disléxicos sejam reduzidas (com no máximo vinte alunos, se possível menos, para que o professor tenha oportunidade de auxiliar e observar de maneira adequada todos os alunos); procurar não forçar e não expor a criança à leitura em voz alta para a turma; auxiliá-la no entendimento e interpretações de enunciados de questões e atividades; dar a ela um maior tempo para fazer as atividades que exijam concentração maior; dentro do possível, fazer avaliações orais, que é um procedimento que ameniza parte das dificuldades; na avaliação, abranger outras atividades, não só a nota da prova. Valorizar a participação nas aulas, a responsabilidade com tarefas, o empenho,...valorizando o esforço e a dedicação no conceito final; permitir nas séries iniciais o uso de tabelas com as tabuadas, material dourado, ábaco, e nas séries finais, o uso de fórmulas, calculadora, gravador e outros recursos pertinente, já que o aluno disléxico tem grande dificuldade na memorização; tratar o aluno disléxico com naturalidade, sem ter sentimento de pena e inferioridade; trazer o aluno disléxico sempre para perto do quadro e da mesa do professor; observar a interação dos alunos; apresentar novos conhecimentos em partes, de maneira dedutiva e visual, já que o disléxico tende a lidar melhor com as partes do que com o todo; ler em voz alta as provas, e utilizar somente uma única fonte simples em toda a prova (preferencialmente Arial 11 ou Times New Roman 12 ) evitando misturar fontes e tamanhos; não elaborar provas com questões que privilegiem a memorização de datas, nomes, regras gramaticais, definições exatas e fórmulas, dar preferência a questões onde o aluno possa demonstrar o que aprendeu, completando, destacando e identificando; dar mais tempo para o disléxico realizar a prova, possibilitando a realização em outros ambientes da escola (secretaria, biblioteca, sala da direção) para que o

20 20 mesmo possa concentrar-se mais; aplicar mais avaliações e com menos conteúdos; adaptar critérios de avaliação de acordo com a realidade. É importante também, que a criança saiba de seu problema, e que o professor prepare a turma para que não haja rejeição ao colega, coibindo de certa forma, o bullying. Um trabalho de conscientização é sempre válido quando se trata de inclusão. Encorajar o filho, ajudá-lo e compreendê-lo faz parte do papel pertinente aos pais, bem como acompanhar sistematicamente a trajetória escolar de seu filhos, estabelecendo uma relação de troca com a escola e com os profissionais envolvidos no tratamento do indivíduo. Focalizar o que o filho faz de melhor, incentivá-lo a não desistir, ressaltar os acertos e habilidades, tranquilizá-lo e valorizá-lo, faz a criança sentir-se com valor e capaz de evoluir. Para Topczewski (2010), a participação dos familiares auxiliando o desenvolvimento da leitura é especialmente importante para a criança, pois só o apoio em sala de aula não é suficiente. Os pais podem assistir a leitura do filho, organizar o tempo da criança para o estudo e para as tarefas, ler junto com a criança para melhorar a fluência e a percepção. Toda a criança necessita de apoio e paciência, mais ainda os disléxicos, por terem baixa autoestima em função de se sentirem menos inteligentes que seus colegas. Porém, é necessário ter consciência de que bons tratamentos podem amenizar bastante, ou até curar a dislexia. Muitos disléxicos têm grande sucesso profissional. Existe uma alta porcentagem de disléxicos entre os grandes artistas, cientistas e executivos. Dentre eles destacam-se: Albert Einstein (físico), Alexander Graham Bell (cientista e inventor do telefone), Agatha Christie (autora de mais de 80 livros), Charles Darwin (cientista que criou a Teoria da Evolução), Leonardo Da Vinci (dono de uma curiosidade enorme, considerado por muitos o maior gênio da história, cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, escultor, arquiteto, botânico, poeta, músico, e famoso pintor), Vincent Van Gogh (considerado um dos maiores pintores de todos os tempos), Walt Disney (produtor cinematográfico, animador, dublador, empreendedor, criou o Mickey e o Pato Donald), George W. Bush (43 presidente dos EUA), Pablo Picasso (pintor), e tantos outros (In: Este, digamos, é o lado positivo da dislexia: alguns são gênios. A mesma função mental que produz um gênio pode também produzir o problema da dislexia, segundo Ronald D. Davis (2004). A função mental que causa a dislexia é um dom, no mais verdadeiro sentido da palavra, uma habilidade natural, um talento. Alguma coisa especial na dislexia pode engrandecer o indivíduo. Porém, ter dislexia não faz de todos gênios! Mas é bom saber que

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