A BUSCA DE UMA IDENTIDADE COLETIVA PARANAENSE NAS OBRAS DA COMEMORAÇÃO DO CENTENÁRIO DA EMANCIPAÇÃO DO PARANÁ

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1 DOI: /4cih.pphuem.715 A BUSCA DE UMA IDENTIDADE COLETIVA PARANAENSE NAS OBRAS DA COMEMORAÇÃO DO CENTENÁRIO DA EMANCIPAÇÃO DO PARANÁ Sandra Regina Franchi Rubim (PPE-UEM) Rosana Steinke (DHI-UEM) Estabelecer contato com produções de épocas passadas e presente, observando e identificando informações nas mais diversas formas de linguagem, que nos são apresentadas por meio de diferentes fontes amplia o olhar do historiador, questiona as fronteiras disciplinares, articulando os saberes e buscando a inteligibilidade dos fatos (FONSECA, 2006). Durante muito tempo, debateu-se na História, em diversas escolas teóricas, principalmente a Escola de Annales, a preocupação com a definição do documento histórico, quais suas interligações com a realidade e com o conhecimento histórico que ele proporciona, muitas das questões questionando o fato de sermos herdeiros de uma tradição textual e partidária do entendimento de que, em Ciências Humanas, a pesquisa se faz com textos (PELEGRINI; ZANIRATO, 2005). Tanto a História como a Sociologia compartilharam durante longo tempo da valorização do documento escrito em detrimento do documento nãoescrito ou não-verbal. No entanto, a história da arte, a cultura e suas representações, constituem atualmente um vasto campo de investigação Hoje é possível conceber a arte e aos objetos artísticos um papel relevante como documento histórico como testemunhos das formas da sensibilidade coletiva. A imagem integra diferentes universos simbólicos, num sistema discursivo global que evidencia existências e identidades políticas e culturais. Numa interpretação, valores culturais são disseminados e estruturas sociais ganham vida a partir de espaços, movimentos, olhares, silêncios e vozes que interagem (MARTINS, 2007). Podemos afirmar, todavia, que os símbolos e mitos, pela sua linguagem menos codificada, tornam-se elementos significativos na construção de justificativas, na projeção de interesses e objetivos coletivos, na criação de necessidades e na modelagem de valores e condutas. Nesse sentido, entendemos que, para investigarmos a estrutura social em diferentes momentos, precisamos entender, também, o imaginário presente nesse contexto. Os símbolos e mitos, na medida em que encontrem um terreno social e cultural no qual se alimentam, criam raízes, se consolidam no imaginário. E

2 4046 quando esse imaginário é alcançado com êxito, por meio dessa educação informal, podem também, plasmar visões de mundo e modelar condutas nesse social (CARVALHO, 1990). Segundo Martins (2007), as imagens, como produto social e histórico, traduzem noções, crenças e valores, registram informações culturais e práticas de diferentes períodos. Elas influenciam a formação -identidade- do sujeito articulando representações visuais derivadas de visões e versões de mundo que estão presentes em modelos sociais vigentes em numa determinada época ou cultura. Desta forma, subjetividade e identidade caminham juntas e constituem a consciência de ser sujeito, com um processo dinâmico e múltiplo. As imagens são tratadas como espaço de interação com os indivíduos, criando possibilidades de diálogo e interpretação. Contudo, torna-se importante salientar que tal estrutura simbólica, enquanto elemento de dominação social, também pode ser vista como uma forma de conduzir a ação dos homens conforme uma intenção explícita. O documento não é um registro neutro do passado, o documento não é inócuo e sim, antes de tudo, o resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da história, da época, da sociedade que o produziu (LE GOFF: 1989, p. 103). Portanto, os documentos são sempre produtos da sociedade que os forjou, expressando, assim, as relações sociais dos homens, desse momento histórico. A produção de imagens e idéias, valendo-se da arte e da literatura, entre outras formas de expressão, forma um imaginário social, um conjunto de representações sobre a sociedade. A partir de tais pressupostos, interessa aqui discutir o imaginário social veiculado na comemoração do Centenário da Emancipação do Paraná e o papel da arte e da arquitetura, nesse contexto, reforçado no momento de redefinição de uma identidade coletiva paranaense. Dentro desse cenário, que define a capital como palco privilegiado para a instalação dos símbolos do progresso, da modernidade e da identidade da sociedade paranaense, será apresentada e discutida a produção paranista de Napoleon Potyguara Lazzarotto, um dos líderes da Integração Nacional do Paraná e, tangencialmente, a arquitetura moderna representada por Rubens Meister e outros. Tal temática, eleita enquanto objeto de estudo, foi idealizada a partir dos estudos realizados no Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE) do Governo do Estado do Paraná que se iniciou no ano de 2007, buscando contribuir na produção de material didático sobre a História do Paraná no Ensino Fundamental e Médio das Escolas Públicas. O presente objeto de estudo teve como produto de sua reflexão uma proposta didática, através da criação de textos de apoio e de um CD Room para ser utilizado pelos professores da rede pública paranaense. Essa proposta de intervenção pedagógica aconteceu no período de março a julho

3 4047 do ano de 2008, por meio de reuniões de estudo durante a disponibilidade dos professores de História, Geografia e Arte. Nessas reuniões, por disciplinas, foi disponibilizada a aula temática para uma leitura prévia, bem como alguns subsídios teóricos utilizados para o desenvolvimento do objeto de estudo do material didático. Após a apreciação e a revisão do material houve a socialização, a exploração e o enriquecimento do mesmo em sala de aula, em turmas de 6ª e 7ª séries do Ensino fundamental, com a mediação do professor. Posteriormente foi realizado um Tour City em Maringá visitando os monumentos históricos e os painéis de Poty Lazzarotto. A aula temática intitulada Memória e Iconografia na Construção de uma Identidade Coletiva Paranaense, que em grande parte está presente nesse artigo, tem como objetivo fundamentar as discussões dos professores sobre a identificação de imagens como um documento portador de autonomia, com significação social, despertando a sensibilidade estética e possibilitando uma discussão sobre a influência das figuras imagéticas na formação de idéias e valores. Sintetizando, a proposta de intervenção na escola objetiva oportunizar os professores de História, novos materiais para a pesquisa e aguçar uma discussão da possibilidade das abordagens dos conteúdos de História, propostas a partir da fundamentação teóricometodológica que norteiam as Diretrizes Curriculares para a Educação Básica, da SEED. O Movimento Paranista consolidou-se nas décadas de 1920 e 1930, nas quais se buscava a construção de uma identidade que se identificasse com o novo regime, a República, a idéia de um Estado, com identidade própria e não apenas o caminho de passagem entre São Paulo e Rio Grande do Sul. Esse movimento valorizava alguns elementos constituintes da identidade paranaense: o clima, a terra e o homem do Paraná. Nesse período, intelectuais, dentre eles historiadores, poetas e artistas plásticos produziram idéias coletivas de identidade regional, impregnadas de imagens de progresso e de desenvolvimento social, criando padrões de comportamento para a sociedade da época, estruturando princípios para a formação do bom paranista, o paranaense do futuro, procurando sensibiliar, assim, os corações dos paranaenses à causa paranista. Representações de grupos étnicos, o pinheiro, a pinha, a mate, a paisagem, eram as temáticas das manifestações artísticas, que ganhavam as ruas de Curitiba, que, também, construía sua imagem como uma cidade especial, se misturando com o imaginário popular por meio de comemorações cívicas, regional ou nacional (PEREIRA, 1998). O Paranismo, a partir da década de 40 perdeu forças, pois, o governo centralizador de Getúlio Vargas, não via com bons olhos o regionalismo. Com a propagação cultural, o

4 4048 interesse pelo conhecimento científico e artístico e o aumento de publicações em revistas, jornais, almanaques etc., nas primeiras décadas do século XX, foi se delineando um novo Paraná, um novo perfil do homem paranaense, uma nova forma de identidade, dentro do discurso da modernidade (TRINDADE; ANDREAZZA, 2001). Os anos 1930 e a presença de Vargas, na presidência da República, inauguraram, para todo o Brasil, um período de centralização e nacionalização que tentava controlar a influência das forças regionais. Economicamente, a industrialização era o alvo a ser perseguido para se chegar ao desenvolvimento, opondo-se à atividade agro-exportadora, como base da economia brasileira. Nesse período, a economia paranaense ainda se baseava na extração da erva-mate e madeira, com crescente comércio interno e externo; em marcha para o oeste, como um grande desbravador, apontava o café. Essa prosperidade, com raízes na economia paulista, organizouse a partir dos excedentes de um sistema de produção adaptável aos férteis terrenos paranaenses, da construção de uma rede de estradas de ferro que ampliou as fronteiras de ocupação e da organização das companhias particulares que exploraram a colonização da região (TRINDADE; ANDREAZZA, 2001). Motivado pelo surto de progresso e pelo novo papel que o estado do Paraná estava conquistando na economia nacional, o discurso de modernidade se materializava nas ações do governo, a partir de l940. Neste período, Manoel Ribas, interventor (l e ) e governador ( ), ficou conhecido como o formulador de uma política econômica e social de modernização do Paraná. Sua política teve continuidade nos governos de seus sucessores Moysés Lupion e Bento Munhoz da Rocha Netto. Nesse momento, as políticas públicas do Estado voltaram-se, cada vez mais, para a noção de um governo científico e racional, quer na construção de uma praça, quer na manutenção de um espaço de poder (IPARDES, l989). Bento Munhoz da Rocha Netto ( ) e Moysés Lupion ( ), ainda que opositores, foram regentes de um espetáculo do progresso nos anos 50. A ampliação do mosaico cultural, em função da expansão do sistema de comunicação, deslocando camponeses imigrantes, mineiros, paulistas em direção ao Norte do Paraná, levou ao projeto dos governos estaduais, na primeira metade do século XX, a construção de uma identidade paranaense: o Estado clama a necessidade de criar a consciência da unidade, da organização dos meios de produção e transformação, adquirindo maturidade política necessária nas relações com o resto do país. Para que o Paraná conquiste respeito que lhe é devido no

5 4049 contexto nacional, a integração deve ser a palavra de ordem (ROLLO GONÇALVES, l998). Munhoz da Rocha sempre acreditou no futuro do Paraná, principalmente com o avanço do café, o nosso ouro verde. Era necessário divulgar e promover o Paraná como terra das oportunidades presentes e futuras, para atrair investimentos de capital privado e técnicas das nações industrializadas. A propaganda romperia o imobilismo, anunciando o alvorecer de um Paraná Moderno. As riquezas naturais e o potencial econômico das cidades paranaenses eram enaltecidos. O progresso, também, dependia de uma política voltada à construção de estradas para escoamento agrícola e produzir energia elétrica para atrair indústrias. Munhoz da Rocha acreditava que, por meio de rodovias, ocorreria a integração física, psicológica e cultural dos três paranás: Paraná Tradicional, o Paraná do Norte e o Paraná do Oeste/Sudoeste. Preocupava-se em consolidar a imagem de um governo realizador (REBELO: 2005). Cabia ao Estado assegurar a prosperidade moral, cultural e política. Para garantir o cumprimento dessa função, durante o governo de Bento Munhoz, foi implementado, em 1953, uma política chamada de Código de Posturas e Obras do Município, apresentando um conjunto de normas morais e éticas voltadas ao projeto modernizante e para a construção de um espírito de urbanidade, com o intuito de levar a população a padrões de comportamento inspirado na civilidade norte-americana (TRINDADE; ANDREAZZA, 2001). Várias medidas foram tomadas para melhorar a saúde e saneamento público, assim como melhorar a estética urbana. Foi desenvolvido um programa de educação sanitária, objetivando a conquista de um padrão ideal de saúde pública. Era preciso erradicar a influência da medicina popular, substituindo-a pela científica: multiplicaram-se hospitais, ampliação dos serviços de saneamento básico, lançamento de grandes campanhas de vacinação e dedetização, entre outros (IPARDES, l989). O fluxo migratório trouxe consigo elementos e efeitos indesejáveis: desajustados sociais, mendigos, criminosos comuns, jogadores, prostitutas. Por isso, cabia ao Estado controlar os desajustados física ou moralmente e eliminar as infrações que comprometiam a ordem social e o surto do progresso. Essas preocupações levaram o governo a investir numa segurança planejada, racional e científica (TRINDADE; ANDREAZZA, 2001). O desenvolvimento econômico, a rápida urbanização e a ocupação de novas áreas são evidências apontadas pelo discurso da indiscutível nova era do Paraná, que se faz acompanhar de uma política de integração territorial, voltando-o ao centro administrativo.

6 4050 Durante o governo de Bento Munhoz Netto, foi lançado um programa sintetizado no slogan O Brasil marcou encontro no Paraná. Parte da dotação orçamentária, destinada à construção de estradas, foi orientada à construção de obras comemorativas ao Centenário de Emancipação Política do Paraná, sendo que, as principais obras foram a criação do Centro Cívico Estadual, as construções de um grande teatro, uma ampla biblioteca pública e a Praça Dezenove de dezembro, ícone do Centenário. Essas obras se colocavam como marcos das potencialidades locais, das ações modernizadoras do governo, que investe sobre a construção de um lugar de poder, no qual se tenta ratificar Curitiba como capital política, econômica, militar, estudantil e cultural do Estado. Os monumentos apresentavam-se como um dos aparatos mais eficientes para conservar na memória da coletividade, os cem anos do Paraná. Paralelamente, a essas obras, foram programados muitos eventos técnicos e científicos, tais como, jornadas, congressos e encontros nacionais e internacionais (IPARDES, l989). Nesse contexto, de realização dos eventos comemorativos do Centenário do Paraná, em 1953, o Governo Federal voltou-se para a realização de algumas obras formando, assim, um cenário apropriado para que novas versões do Paraná e do homem paranaense fossem veiculados. Também, as comemorações fortaleceram Curitiba como centro políticoadministrativo do Estado, onde a arquitetura moderna será a linguagem escolhida, pelo poder público, para materializar sua imagem de Estado moderno a partir da década de Munhoz da Rocha via, nesse evento, a oportunidade de consolidar a unidade paranaense. A preocupação do governo do Estado era associar as obras do centenário de emancipação do Paraná a um benefício para toda a população. Assim, percebemos que, espelhando-se em Juscelino Kubitschek, que remodelara Belo Horizonte, em 1944, Bento Munhoz idealizou as obras de modernização da capital do Paraná. Dentro desse cenário nacional, que define Curitiba como palco privilegiado para a instalação dos símbolos do progresso, da modernidade e da identidade da sociedade paranaense, criou-se um imaginário social, por meio de figuras imagéticas, como instrumento de legitimação dos interesses políticos da elite, tais como a produção paranista de Napoleon Potyguara Lazzarotto, o Poty, um dos líderes da Integração Nacional do Paraná, os escultores Erbo Stenzel e Humberto Cozzo e, também, a arquitetura moderna representada por Rubens Meister e outros (GONÇALVES, 2001). Para administrar as obras, que seriam inauguradas em 19 de dezembro de 1953, o governo criou, em 1951, a Comissão Especial de Obras do Centenário (CEOC). Foram previstas edições festivas de diversas publicações enfatizando estudos históricos, etnológicos, biográficos e geográficos sobre o Paraná. Em maio de 1952, a imprensa de Curitiba, divulgou

7 4051 o empréstimo de vinte milhões de cruzeiros, do governo federal, para serem investidos nas festividades do centenário (BAHLS, 2006). De acordo com Rebelo (2005), no Centro Cívico, seriam erguidas, as sedes dos três poderes e os prédios dos tribunais de contas e do Júri, idealizados por vários arquitetos, tais como, David Xavier Azambuja, Olavo Redig de campos, Sérgio Roberto Rodrigues, entre outros. O projeto da Praça Dezenove de Dezembro foi assinado pelos escultores, Erbo Stenzel e Humberto Cozzo. A praça é dominada por um obelisco de 40 metros de altura, ao seu lado foi erguida a estátua do homem nu (figura 1), com 8 metros de altura, representando o trabalhador paranaense, dando um passo para frente, rumo ao progresso; sendo este alvo de muitas críticas pelos curitibanos, de ordem morais e estéticas. No entanto, a polêmica maior ficou para o monumento da Mulher Nua, de 4 metros de altura, idealizada por Stenzel, como representação da Justiça, a qual foi escondida num pátio nos fundos do Palácio Iguaçu. Está só voltaria a ser colocada na Praça Dezenove de Dezembro no meio da década de (figura 1) Fonte: Acesso em 11dez No centro da praça foi instalado um painel de granito de baixo-relevo (figura 2), executado por Stenzel e Cozzo. O tema era, de um lado, a evolução social e industrial do Paraná, dividido em quatro partes, que representavam os sucessivos ciclos econômicos: índios, bandeirantes, tropeiros, trabalhadores da erva-mate e pinho, ouro, café etc. Na outra face, pintados em azulejos, por Poty, estão os vultos políticos e os ciclos históricos e econômicos paranaenses: descoberta do ouro; evangelização; bandeirantes desmatando florestas; povoamento de cidades; comércio dos tropeiros; índios descendo o rio em suas embarcações; lavradores e ação de líderes que iriam promover a emancipação política do estado, (figura 3).

8 4052 (figura 2) Fonte: Acesso em 11dez (figura 3) Fonte: Acesso em 11dez No dia 19 de dezembro, a praça foi inaugurada pelo presidente Getúlio Vargas, onde apenas o obelisco estava concluído. Os monumentos da Praça 19 de Dezembro, instalados entre 1953 e 1955, ainda hoje atuam na memória da população, contribuindo para eternizar as comemorações do centenário do Paraná. Os monumentos necessitam ser ritualizados, contribuindo assim, para sua permanência na memória coletiva, mesmo que o indivíduo não tenha vivenciado o acontecimento, advém daí, a importância das comemorações nacionais e seu valor simbólico. Percebemos uma relação de temporalidade entre o passado da história e o presente da memória (BAHLS, 2006). O Teatro Guaíra (figura 4), projetado pelo engenheiro Rubens Meister, um dos precursores da arquitetura moderna, também, não foi concluído para os festejos do centenário. Em dezembro de1954, Munhoz da Rocha e o presidente Café Filho inauguraram o Guairinha, que abriga o auditório menor. Somente em 19 de dezembro de 1974, no governo de Emílio Gomes, o teatro foi finalmente inaugurado, com um concerto da Orquestra Sinfônica Brasileira. A Biblioteca Pública do Estado, projetada pelo engenheiro curitibano Romeu

9 4053 Paulo Costa, também, inaugurada em dezembro de 1954, pelo presidente Café Filho, tornando-se ponto de referência intelectual para todo o Estado. (figura 4) Fonte: Guia Geográfico. Artes em Curitiba. Teatro Guaíra. Disponível em: Acesso em: 11dez. 2007; A administração pública do Paraná comemorava os esforços modernizantes, representados por suntuosos edifícios. Essa verticalização chegou às cidades, por todo o Paraná, como sinal incontestável do progresso. Simultaneamente, a essas inaugurações e honrarias dedicadas às personalidades da história política paranaense, ocorreram, por sete dias, diversas comemorações populares, tais como: apresentação, na Praça Tiradentes, de artistas de rádio de São Paulo e do Rio de Janeiro, orquestras, corais, grupos folclóricos e teatrais, banda da Polícia Militar; desfile de representantes dos municípios pela Rua 15 de Novembro; desfile militar do Exército Nacional e da Aeronáutica; apresentação da Banda Marcial e de Música do Corpo de Fuzileiros; danças de grupos étnicos etc. Paralelamente aos banquetes oficiais ocorriam os bailes populares (BAHLS, 2006). Na série de festividades do Centenário, destacou-se a Exposição Internacional do Café e Feira de Curitiba, inaugurada em l9 de dezembro de l953, indo até 29 de março de O I Congresso Mundial de Café realizou-se de 14 a 21 de janeiro de O evento teve a participação de 35 países, entre produtores, vendedores, compradores e operadores. Diante de todo esse cenário, podemos considerar que o ano de 1953 ficou registrado na memória dos indivíduos que participaram das festividades do centenário, ainda que Munhoz da Rocha tenha sido alvo de muitas críticas, devido aos gastos excessivos na construção das obras culturais e arquitetônicas. É notório que as vultuosas obras e comemorações marcaram o imaginário paranaense, buscando criar uma identidade para o estado. Tal identidade foi ressaltada com a criação do Centro Cívico, como marco da administração centralizadora do estado.

10 4054 Dentro do considerado conjunto arquitetônico moderno da cidade de Curitiba, contemporâneas às ações estatais, podemos nomear como obra inaugural a Casa Modernista, construída por Kirchgässner, em 1930, considerada a primeira casa modernista desta cidade. O conjunto do Centro Cívico de Curitiba, por sua vez, tem uma concepção que parte de uma grande praça, destinada ao uso exclusivo de pedestres, com edifícios dispostos nas suas laterais. É bem perceptível a monumentalidade, ressaltada pela avenida que dá acesso a esse conjunto, ligando-o ao centro tradicional da cidade (GONÇALVES, 2001). A arquitetura moderna figurou, nesse sentido, como grande promotora da idéia de que a modernidade finalmente tinha chegado ao Paraná. Em tal arquitetura, se percebe o prestígio dos arquitetos modernistas junto à esfera política brasileira. Não só em Curitiba, mas em outras cidades brasileiras, se percebe que o projeto de modernização está associado ao nacionalismo, sempre buscando um caráter hegemônico, na construção de uma identidade nacional (GORELIK, 2005). Vale destacar que, no caso da comemoração do centenário paranaense, buscou-se reforçar um tipo de homem paranaense que pudesse significar a unidade do Estado. Diante de um povoamento de nacionalidades diversas, não havia como não contemplar diferentes grupos, sempre valorizando o trabalho, inclusive do imigrante, o progresso na agricultura conduzindo o paranaense à industrialização e à modernidade. Atrelada à arquitetura e ao urbanismo, os painéis e as inúmeras esculturas descritas acima, colaboraram para o fortalecimento dessa idéia, ao contemplar figuras como vultos históricos e ciclos econômicos. Também é importante assinalar o papel representado pela realizações das exposições (a Exposição Internacional do Café e Feira de Curitiba e o I Congresso Mundial de Café), tornadas veículos de divulgação que ressaltavam a importância econômica paranaense, promovendo a economia privada e a atuação do Estado. Os aspectos acima foram trabalhados em sala de aula com os alunos, com exibição de imagens dos principais edifícios, o conjunto do centro cívico, esculturas e painéis, procurando perceber a simbologia neles expressa, a partir do contexto histórico em que foram criados. O cenário da comemoração do Centenário de Emancipação Política do Paraná representou um momento propício para salientar a imagem do espetáculo do progresso do Paraná, acompanhada de uma política de integração territorial e definindo a capital como centro de instalação dos símbolos do progresso, da modernidade e da identidade da sociedade paranaense. Percebe-se que os monumentos da Praça 19 de Dezembro, instalados entre 1953 e 1955, assim como todas as festividades, representam um passado histórico que, ainda hoje, atuam na memória da população e, de certa forma, contribuem para eternizar as comemorações do centenário do Paraná.

11 4055 Ao pesquisar e disponibilizar uma análise dos exemplos da arquitetura e escultura modernas no Paraná, como meio formadores de identidades, proporcionam aos professores, que se utilizarão desse material didático, trabalhar questões como a identificação de imagens como um documento portador de autonomia, com significação social, despertando a sensibilidade estética e possibilitando uma discussão sobre a influência das figuras imagéticas na formação de idéias e valores. Assim, consideramos que a utilização das imagens no ensino da história representam um importante elemento da atividade sócio-cultural humana, principalmente, por constituir um sistema de significações específicas que possibilita a reflexão, ação e expressão do homem em relação a si próprio, aos demais indivíduos e ao meio em que vive. Estas, as imagens, sempre pensadas como formas de expressão do homem, não desvinculadas do seu contexto histórico e social. Diante disso, é evidente a análise da influência das figuras imagéticas do nosso cotidiano, na formação de valores e nas versões da História, mudando a compreensão dela e criando um imaginário social que justifica ou produz mitos e verdades sobre figuras empíricas individuais, regimes políticos e ideologias. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAHLS, A. V. da S. Símbolos e Monumentos: as comemorações de emancipação política do Paraná nos logradouros de Curitiba. Publ. UEPG. Ciências Humanas Sociais Aplicadas, Lingüística, Letras e Artes, Ponta Grossa, Ano 14, nº 1, jun BURKE, Peter. Testemunha ocular: história e imagem. Bauru, São Paulo: EDUSC, 2004; CARVALHO, J. M. A formação das almas. São Paulo: Companhia das Letras, 1990; FONSECA, S. G. Didática e prática de ensino de História. Campinas. SP: Papirus, 2006; GONÇALVES, J. M.Z. Arquitetura moderna no centenário de emancipação política do Paraná: a construção de um marco de referência. São Carlos, Dissertação (Mestrado). Escola de Engenharia de São Carlos Universidade de São Paulo, 2001; GORELIK, A. Das vanguardas a Brasília. Cultura urbana e arquitetura na América Latina. Belo Horizonte, MG: Editora da UFMG, IPARDES - Fundação Édison Vieira. O Paraná reinventado: política e governo. Curitiba, 1989; LE GOFF, J. Documento/monumento. Enciclopédia Einaudi. Memória/História. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1989.

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