A ESCOLA: espaço para a profissionalização do Professor

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1 Palestra para os acadêmicos da disciplina de Estagio Curricular Supervisionado (3ª e 4ª série) 20/06/2013 A ESCOLA: espaço para a profissionalização do Professor Prof. José Felice Doutor em Educação, Professor e Pesquisador em Educação Matemática/UEMS. 1 INTRODUÇÃO Caros acadêmicos, falar sobre a profissionalização do professor para futuros professores é preciso envolver todos os seguimentos que compõem o espaço escolar. Dessa forma, optei por fazer uma palestra generalista sobre Educação, portanto, não farei uma abordagem específica da minha área de estudos, que é a Educação Matemática. Considerando que, palestra estabelece a comunicação em apenas uma direção (palestrante audiência), dessa forma, cabe aos ouvintes uma participação reflexiva. O que significa fazer reflexões, no meu entendimento: Fazer uma reflexão é se concentrar sobre as ações a serem realizadas aprofundando o pensamento sobre as representações, sobre as ideias. São manifestações de sentimentos e considerações que resulta em intensas cogitações (pensar com insistência a respeito de algo, expresso pela fala ou pela escrita). Para esses momentos de reflexões, quero abordar a Escola como Instituição de trabalho coletivo e profissional, que a nosso ver, envolve os seguintes segmentos: Político, Social e Comportamental, Pedagógico e o Didático. O motivo de abordarmos inicialmente a escola se justifica pelo motivo de o Sistema de Avaliação só olhar para baixo, para os avaliados, ou seja, para alunos e professores, e deixa de olhar para cima, para as situações que geram dificuldades e interferem em boa parte na aprendizagem. Nessa reflexão existem duas perguntas a fazer: -Será que ao discutir o Pedagógico olhado para cima levamos em consideração os segmentos que interferem e afetam o Didático?

2 -O professor têm apoio e as condições necessárias para fazer um bom trabalho Didático? Essas perguntas estão diretamente direcionadas a todos os gestores da educação, no nosso caso, a Secretaria Municipal de Educação a Equipe Pedagógica, os Diretores, Coordenadores Pedagógicos e por fim o Professor. Gostaria de falar somente sobre o Didático, como tenho feito nos cursos de formação continuada, mas não seria justo discutir sobre o processo de estudo que acontece na sala de aula sem abordar os segmentos de apoio, ou que deveria apoiar o trabalho do professor. Portanto é preciso fazer essa reflexão, e é o que farei a seguir. O Segmento Político O termo Político aqui tem a conotação das políticas educacionais que periodicamente sofrem mudanças, evoluem rapidamente e tem exigido o aperfeiçoamento do Sistema Educacional. As mudanças estão contidas nas propostas Nacionais, Estaduais ou Municipais direcionadas de forma pontual à Escola. Dessa forma, a Escola é onde se propaga as mudanças desejadas envolvendo atividades políticas, sociais, comportamentais, pedagógicas e do didático. A gestão administrativa, em nosso entendimento, é exercida pelo Diretor Escolar sendo ele o responsável pela viabilização de todas as atividades descritas anteriormente. Dessa forma, o Diretor Escolar deve estar constantemente articulado com a Secretaria de Educação que é o órgão de apoio à administração escolar. A administração escolar é que valida o ingresso dos estudantes dando lhes um salvo-conduto que vai permitir acesso de maneira legítima a certas obras a serem estudadas, e disponibiliza os orientadores (professores que desempenham o papel de pedagogos) encarregados de conduzir o estudante às obras que eles devem estudar. Essas ações se transformam num Contrato Escolar (CHEVALLAR, 2001, p. 204), que é amplo e por consequência engloba todas as atividades escolares, a família dos estudantes ou aquelas pessoas responsáveis por eles. Toda Escola, possui seu Regulamento onde esta estabelecida as normas de convivência social. 2 O Segmento Social e Comportamental

3 Ao firmar o Contrato Escolar, a família passa a fazer parte das atividades escolares com responsabilidades em cumprir as cláusulas do contrato estabelecido. A participação da família dos estudantes no ambiente escolar, como em toda interação social, causa conflitos que devem ser administrados seguindo as clausulas estabelecidas no contrato e ainda todas as regras sociais de convivência entre as pessoas. A permanência do estudante na escola (4 horas ou mais), também provoca conflitos, pois, os ambientes familiares são heterogêneos e a diversificação no modo de educar pode fugir dos padrões sociais. Negar essa interferência ou tentar camufla-la significa fugir da realidade, dessa forma, a família convive com a escola e a escola com a família. Admitindo essa convivência, o Projeto Escolar que visa o Político e o Pedagógico amplia seus objetivos para se configurar em Projeto Político Social e Pedagógico. Essa configuração, já admitida por muitas redes de ensino, requer mudanças na estrutura administrativa de apoio ao Didático. As mudanças, na nossa concepção, esta relacionada com as questões de competências, ou seja, não é ao Diretor Escolar nem ao Coordenador Pedagógico e muito menos ao Professor resolver os conflitos oriundos das relações sociais. Existem argumentos de que órgãos externos criados pelos municípios com o objetivo de solucionar esses conflitos podem atuar na escola, mas não concordamos com essas justificativas, pois, a questão é interna, pontual e estabelecida por um contrato que foi estabelecido entre a escola e a família. No nosso entendimento os órgãos externos devem atuar como apoio e não como executor de ações internas. Nessa linha de pensamento, detectamos um vazio administrativo, entre o Político e o Pedagógico. A rede de apoio fica fragmentada e consequentemente sobrecarrega o Didático. Nossa intenção não é de ficar reclamando, o momento é de debate, o que estamos propondo são reflexões sobre o tema. Obviamente temos ideias e elas passam por investimentos em recursos humanos para completar o vazio administrativo constatado na Escola. No nosso ponto de vista, a Escola pode transformar a sociedade, desde que possamos investir na família, considerada a célula máter da sociedade. Dessa forma, consideramos que a Escola é a via com potencialidade para se chegar à família. Aqui não consideramos a justificativa de que já é dada uma bolsa para as 3

4 famílias de baixa renda, pois, esse dispositivo tenta melhorar a parte financeira com a exigência de estarem os filhos matriculados numa Escola. Já a Escola procura fazer a interação social, e isso não se faz com recursos monetários e sim com recursos humanos. Nessa linha de pensamento, constatam-se necessários dois profissionais específicos, ou seja, um Assistente Social e um Psicopedagogo, com atribuições definidas dentro da Escola para apoiar internamente tanto o desenvolvimento das políticas educacionais quanto as atividades pedagógicas. Pode parecer desperdício, o investimento em recursos humanos, no entanto, melhorar a educação passa inevitavelmente por esse caminho, mesmo sendo dolorido para os governantes é preciso que a Escola como Instituição Educacional persista reivindicando melhores condições de trabalho. Todo recurso financeiro destinado à educação não pode ser caracterizado pelos gestores como gastos e sim com investimento. Segmento Pedagógico Este é um segmento presente em todas as Escolas, ou quase todas. Substituiu, há muito tempo, a função de Supervisão, no entanto, carrega o estigma do faz tudo dentro da administração escolar, e acaba prejudicando as funções específicas desse segmento que só será amenizado quando deixar de tentar atender as questões sociais e comportamentais. O Pedagógico, no nosso entendimento, regula os aspectos gerais que afetam o ambiente de estudo, isto é, os aspectos não-específicos da obra. É nesse segmento onde se estabelece o Contrato Pedagógico (CHEVALLARD, 2001, p. 203), que é geral e visível. Significa que as cláusulas desse contrato estabelecem: desenvolvimento da proposta curricular, a implantação de projetos e programas educacionais, o planejamento de estudos ou planos de ensino, decisão sobre o material de apoio didático, coordenação e participação no processo de avaliação interna e externa, coordenação de grupos de estudos com os professores para estudar as questões metodológicas e participar de todas as ações que visam a melhoria da aprendizagem dos estudantes. Existem muitas outras atribuições, no entanto, devemos vinculá-las sempre como apoio ao Didático. As funções da Coordenação Pedagógica esta intimamente relacionada ao trabalho do professor, ou seja, o Pedagógico é o apoio primordial ao 4

5 Didático. É originário do processo de estudo desenvolvido na sala de aula e por consequência esta relacionado com o desempenho dos estudantes. Segmento do Didático É o cerne do Sistema Educacional e é coordenado pelo professor. Não visível, mas perceptivo existe um Contrato Didático que segundo Brousseau citado por Fiorentini (2006, p.47) significa as atitudes, comportamentos, posturas e ações dos estudantes, que são esperadas pelos professores, e aquelas dos professores, que são esperadas pelos estudantes. Nessa relação, os estudantes entram verdadeiramente, em contato com uma obra concreta para estuda-la e a aprende. Essa é uma das clausulas do Contrato Didático, ou seja, a aprendizagem depende da vontade, do esforço e da persistência do estudante sob a orientação do professor. Quero fazer no momento, um parêntese para dizer que existem vários pontos de vista sobre como ocorre à aprendizagem. As experiências que tive nos primórdios dos estudos estavam relacionadas com as ideias de que deve existir a relação ensino-aprendizagem que resulta do binômio professor-aluno, ou seja, o professor aquele que ensina e o aluno aquele que aprende. Atualmente, e depois de muitos estudos considero o Ensino como uma atribuição de outra pessoa para com o sujeito. Quando se quer amenizar as dificuldades que comporta toda atividade que se quer estudar e que é sustentada e complexa, esse tipo de ensino tende ao que poderíamos denominar de um ensino instantâneo (CHEVALLARD, 2001, p 286). Um ensino instantâneo ocorre quando passamos certas informações, isso se faz assim, esse é o resultado daquele, olha como fiz e faça também, faça conforme o modelo acima. Para melhor entender sobre o termo instantâneo propositalmente citado anteriormente pelo autor, temos como exemplo o Leite Ninho que no seu rótulo esta as inscrições Leite em pó Instantâneo, significa que ao misturar o pó na água vira leite. Uma reflexão mais aguçada vai nos permitir entender que não se aprende dessa forma, não é possível misturar informações expositivas para formar ideias concretas em torno de um fenômeno que necessitamos de compreendê-lo. No mínimo o que alcançamos com as informações são memorizações dos fatos. Todo professor precisa ter clara as concepções a seguir durante o planejamento e a execução das atividades a serem desenvolvidas com os estudantes. O que temos observado, e tentado minimizar por meio de estudos das 5

6 teorias contemporâneas, é o fato do professor assumir todas as responsabilidades pela aprendizagem, se colocando como aquele que ensina, ou seja, aquele que: explica, fala, passa as tarefas e depois resolve e se considera o autor e ator principal da aula. Esses superpoderes, que o professor passa a exercer por livre e espontânea vontade ou por copiar seus mestres, transformam-no em único e exclusivo responsável pela aprendizagem. Assim como temos propostas para a administração escolar, temos também para o exercício da docência. As teorias que temos estudado tem origem francesa, tais como: A Teoria Antropológica do Didático (TAD) e a Teoria das Situações Didática (TSD). Na TAD (CHEVALLARD, BOSCH e GASCÒN, 2001), Antropológico diz respeito à tomada de atitude do ser humano para aprender e o Didático significa aprender por meio de um processo de estudo. Na TSD (BROUSSEAU, 2008), Situação é um modelo de interação do sujeito com um meio determinado, são todas aquelas que levam o estudante a desenvolver uma atividade com ou sem a intervenção do professor. Situações Didáticas são os modelos que descrevem as atividades do professor e do estudante. Essas teorias consideram que, o que é cultural no sujeito (ser humano) é o estudo. Dessa forma, estudar faz parte da cultura humana, faz parte da natureza, assim sendo, o desenvolvimento de um Processo de Estudo é a busca individual ou coletiva do conhecimento. Essa concepção possibilita dizer que o conhecimento é construído pelo estudante por meio do fazer, é o resultado da aprendizagem e vai constituir seu intelecto. Segundo Chevallard, Bosch e Gascón (2001, p. 202): 6 Quando se considera o estudo como objetivo principal do processo didático, torna-se mais fácil transferir para o estudante uma parte da responsabilidade atribuída, hoje em dia, exclusivamente ao professor. Essa nova divisão de responsabilidades atribui ao professor o papel de coordenador de estudo. Levando em conta os estudos que desenvolvemos (SALES, 2010 e FELICE, 2012) as ideias e os posicionamentos dos autores das teorias acima descritas, nos credenciam a dizer que um processo de estudo não se restringe ao processo de ensino e aprendizagem, mas o engloba, sendo que o ensino é um meio para o estudo e, por sua vez, a aprendizagem é o que se espera do estudo.

7 Essas concepções nos levam a pensar que uma aula envolve um saber ou a obra a ser estudada e as relações do professor com o estudante com este saber ou com a obra. Destacamos essas ações como sendo Situações Didáticas, onde o professor deixa de ser somente o que ensina, para desempenhar o papel de orientador da aprendizagem. O pensamento de Chevallard, Bosh e Gascon (2001) apud (FELICE, 2012) sobre o professor orientador, destaca: O professor orientador produz uma importante mudança no equilíbrio das responsabilidades atribuídas tradicionalmente tanto para o professor como para o aluno, ele já não tem como decidir a cada instante qual será a atividade pontual dos alunos e deixa de ser considerado como único (e principal) responsável pela atitude, motivação e tarefas deles. Nesse tipo de situação os alunos, orientados pelo professor, podem organizar enunciados, escrever suas ideias, desenvolver técnicas, explicar a validade dessas técnicas e chegar aos conhecimentos que estão contidos no saber que esta sendo estudado. Levando em conta essas possibilidades, fazer o planejamento e preparar uma aula significa providenciar situações favoráveis, de modo, que o aluno nessa ação efetiva sobre o saber, o transforme em conhecimento. Pode parece difícil para o professor estabelecer um Contrato Didático, que leve em conta essas clausulas, no entanto, é melhor do que assumir sozinho a aprendizagem do estudante. Considerações Finais Nossa intervenção, ao propor mudanças estruturais tanto administrativas como pedagógica, se justifica levando em conta as Metas e por consequência as Ações em forma de projetos e programas propostos pelo Ministério da Educação com o objetivo melhorar o desempenho dos estudantes em todos os Níveis. Como estímulo ao professor, o Ministério da Educação elaborou e o Congresso Nacional aprovou a Lei do Piso Nacional, com índices de reajustes anuais, onde consta um terço da carga horária destinada aos estudos do professor. E existe ainda a luta para a destinação de 10%, para a educação básica, do Produto Interno Bruto (PIB). A preocupação, que nos leva a propor mudanças, esta relacionada à pressão estabelecida sobre o trabalho didático do professor. Apesar da diversidade de interferências que permeiam o Sistema Educacional parece que todos os malefícios que ocorrem nas Avaliações é decorrência do trabalho do Professor. E é possível detectar isso, quando constatamos o esforço das Redes de Ensino com a motivação e capacitação do professor. 7

8 Entendemos serem muito providenciais as atitudes de investir na formação continuada, no entanto, não podemos esquecer-nos da rede de apoio ao trabalho do profissional da educação além da adoção das políticas sugeridas pelo Ministério da Educação. Isto porque, caminhamos para a evolução tecnológica irreversível que propõe a modernização das atividades pedagógicas e por consequência as atitudes do professor para com o estudante e vice-versa. Quando consideramos o estudo como caminho inigualável para a aprendizagem, estamos pensando no futuro dos estudantes e dos professores, pois, as tendências educacionais contemporâneas direcionam para as novas tecnologias onde a presença do processo virtual será marcante e nem sempre estabelecerá uma situação didática, ou seja, a interação entre professor e o estudante. Dessa forma, valorizar o processo de estudo significa preparar os estudantes para o mundo moderno que prevê uma sociedade informatizada, um mercado globalizado que pode gerar o individualismo e o aumento da desigualdade. 8 Referências Bibliográficas BROUSSEAU, Guy. Introdução ao estudo da teoria das situações didáticas: conteúdos e métodos de ensino. São Paulo: Ática, CHEVALLARD, Yves ; BOSCH, MARIANA ; GASCÓN, Josep. Estudar Matemáticas : o elo perdido entre o ensino e a aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, FELICE, José. O processo de estudo de temas matemáticos, relativos ao ensino fundamental, por intermédio de situação-problema: práticas vivenciadas por acadêmicos do curso de Licenciatura em Matemática. Campo Grande/MS: Tese de Doutorado. UFMS: SALES, Antonio. Práticas Argumentativas no Estudo da Geometria por Acadêmicos de Licenciatura em Matemática. Campo Grande/MS: Tese de Doutorado. UFMS 2010.

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