Dicionário. Conceitos. Históricos

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1 Dicionário de Conceitos Históricos

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3 Kalina Vanderlei Silva Maciel Henrique Silva Dicionário de Conceitos Históricos

4 Copyright 2005 Kalina Vanderlei Silva e Maciel Henrique Silva Todos os direitos desta edição reservados à Editora Contexto (Editora Pinsky Ltda.) Projeto gráfico Denis Fracalossi Ilustração de capa Delacroix, La liberté Capa e diagramação Gustavo S. Vilas Boas Revisão Lilian Aquino Dida Bessana Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Silva, Kalina Vanderlei Dicionário de conceitos históricos / Kalina Vanderlei Silva, Maciel Henrique Silva. 2.ed., 2ª reimpressão. São Paulo : Contexto, Bibliografia ISBN História Dicionários 2. História Estudo e ensino I. Silva, Maciel Henrique. II. Título CDD-903 Índices para catálogo sistemático: 1. Conceitos históricos : Dicionários Dicionários : Conceitos históricos 903 Editora Contexto Diretor editorial: Jaime Pinsky Rua Dr. José Elias, 520 Alto da Lapa São Paulo sp pabx: (11) Proibida a reprodução total ou parcial. Os infratores serão processados na forma da lei.

5 História História Qual a validade de tratarmos aqui do conceito de História quando aparentemente essa é a primeira coisa que o professor aprende durante seus anos na universidade? Na verdade, os significados da História estão em constante mutação e é preciso que o professor leve a reflexão em torno dessa constante mudança para a sala de aula, fornecendo instrumentos para que seus estudantes possam compreender a complexidade da História e a dificuldade de se responder à pergunta O que é História?. Essa pergunta não é nova, e cada corrente de pensamento procura dar sua própria resposta. Por isso, não é possível oferecer uma definição fechada para esse conceito. O mais importante é estabelecer as linhas gerais do debate em torno da natureza da História. Desde os iluministas, com sua visão da História como progresso da humanidade, passando pelos positivistas, ou historiadores da escola metódica, que viam a História como a tradução objetiva da verdade, do fato, até a Nova História, que prefere não oferecer uma explicação única para a questão, todo historiador se defronta com o problema inicial de definir seu próprio ofício. Essa questão passa muitas vezes pela definição ou não da História como ciência, o que oferece dificuldades, pois desde o século xix, até hoje, a própria definição de ciência está em constante mutação. Nesse debate, existem aqueles, como o historiador brasileiro Ciro Flamarion Cardoso, que defendem a cientificidade da História. Segundo ele, os principais argumentos contra essa cientificidade vêm da crença de que a História se ocupa de acontecimentos únicos, que não são passíveis de lei, ao contrário da ciência. Mas para Flamarion, desde o materialismo histórico e Annales, a História deixou de estar voltada para fatos singulares e passou a abranger estruturas globais sujeitas a regularidades, como a vida econômica e as estruturas sociais e culturais. Por outro lado, historiadores adeptos da Nova História Cultural, abordagem criada no final do século xx a partir da perspectiva cultural da Nova História francesa, defendem a proximidade da História com a Arte, com a ficção, e não com a ciência. Entre esses, talvez o mais polêmico seja Hayden White. Para ele, a História é um gênero da literatura. Ele valoriza a escrita e a narrativa historiográfica e deita por terra a cientificidade da História. No entanto, não basta discutirmos o caráter científico da História para construirmos nossa concepção da disciplina. Um dos trabalhos clássicos sobre a questão é o do historiador inglês E. H. Carr, Que é História?. Carr não oferece uma resposta absoluta, pois para ele a definição da História depende da visão que cada um tem de sua própria sociedade e do tempo em que vive. Uma de suas maiores preocupações gira em torno do fato histórico, inclusive diferenciando fato e fato 182

6 histórico: para ele, o que separa um acontecimento qualquer (qualquer pessoa atravessando o riacho italiano Rubicão) de um fato histórico (Júlio César atravessando o riacho Rubicão) é a importância que o historiador dá a um fato e não a outro. Ou seja, um fato só se torna fato histórico mediante a interpretação do historiador. Assim, o ditado de que o fato fala por si, para Carr é incorreto: os fatos só falam quando questionados pelo historiador. Nesse sentido, o sangue vivo da História seria a interpretação e não o fato. E a interpretação, por sua vez, seria oriunda da relação entre o historiador e os fatos. Apesar de ter escrito sua obra em 1961, as concepções de Carr sobre a História são ainda bastante atuais. Também Paul Veyne, em sua obra Como se escreve a História, escrita na década de 1970 e de grande circularidade no Brasil, se coloca a mesma pergunta: O que é História?. Não chega também a oferecer uma definição para a História, mas afirma o que, para ele, ela não é: a História não é uma ciência, não tem método e não explica. Para Veyne, História é narrativa, só que com personagens reais. E mesmo que baseada em fatos e documentos, não pode alcançar o realmente acontecido devido à natureza parcial dos documentos e dos fatos. Mas Veyne não chega a dizer que História e ficção são a mesma coisa. Para ele, a diferença é que a História se preocupa com a verdade, enquanto o romance se preocupa com a beleza. Nesse sentido, a História teria como assunto só o que realmente aconteceu. Mas, com exceção desse ponto, a visão de Veyne da História é bastante relativista: tudo é história, então, para definir os fatos a serem trabalhados, a escolha e o critério do historiador são indispensáveis. A História é subjetiva porque, como tudo é história, a História termina sendo o que foi escolhido pelo historiador. Além de procurarem definir História, os historiadores se preocupam também com conceitos atrelados a ela, como fato histórico, tempo e historicidade. Podemos observar algumas dessas preocupações presentes na Nova História, em pensadores como Jacques Le Goff. Ele questiona, por exemplo, a historicidade, termo que diz respeito a uma qualidade que os homens de determinado período compartilham uns com os outros, uma função comum a todos que pertencem ao mesmo tempo. O conceito de historicidade indica o próprio pertencer de cada indivíduo a seu tempo, e existe para toda a espécie humana. Logo, não há sociedades sem história e a própria história tem uma História, visto que o ato de contar, descrever e analisar o passado depende da sociedade e do período de cada contador. Tudo na História deve ser pensado em seu tempo, isto é, a historicidade. O que nos leva à questão do tempo na História. Antes de tudo, concordarmos com Vavy Pacheco quando ela afirma que a função da História é fornecer explicações para as sociedades humanas, sobre suas origens e as transformações pelas quais estas passam. Essas explicações, por mais diversas que sejam, são feitas sempre sobre uma base comum, História 183

7 História o tempo, a temporalidade. Essa definição está atrelada ao pensamento de Marc Bloch, para quem a História é a ciência dos Homens no tempo. E se tal definição de Marc Bloch não é consenso (visto que muitos discordam da cientificidade da História), pelo menos tem o mérito de incluir o tempo, esse sim, indispensável a qualquer definição de História. A concepção de História de Marc Bloch é uma das mais influentes do século xx. Ele foi fundador da Escola de Annales e valorizava intensamente a interdisciplinaridade e a aproximação da História das outras ciências humanas, como a Economia e a Sociologia. Acreditava que a História não era uma ciência qualquer, pois tratava de narração e descrição, enquanto a maioria das ciências tratava de classificação e análise. Mas isso não o impediu de defender a validade científica da História e de defini-la como a ciência do Homem no tempo. Para ele, a verdade era um dos princípios fundamentais da História, algo que o historiador deveria sempre procurar identificar. Caberia, assim, ao historiador a tarefa de julgar os fatos, tentando alcançar a verdade. Fica mais fácil compreendermos sua postura quando observamos um exemplo famoso dado por ele: se o vizinho da esquerda afirma que duas vezes dois são quatro e o vizinho da direita afirma que duas vezes dois são cinco, não podemos concluir que são quatro e meio. Em outras palavras, não devemos buscar meio-termo com a verdade. Peguemos também a visão daquele que é considerado hoje um dos maiores historiadores vivos, Eric Hobsbawm. Materialista histórico em um momento em que as tendências da História parecem se voltar cada vez mais para a Linguística e a Teoria Literária, a importância de Hobsbawm no cenário historiográfico mundial demonstra o alcance de sua visão, por meio da qual a História tem sentido e função políticas. Para ele, o passado e a História podem e são usados para legitimar ações do presente, ações políticas de diferentes cunhos, nacionalistas, étnicos etc. E nesse caso o historiador não pode se furtar a criticar seus maus usos. Para isso, é fundamental a percepção da diferença entre fato e ficção. De Ranke, com sua História objetiva, até Hayden White, que considera a História um gênero literário, vai uma grande distância: a distância histórica propriamente dita, visto que Ranke escreveu sua obra no final do século xix e White, no final do século xx. Assim, o próprio conceito de História é histórico, algo que muda com o passar do tempo, e como tal precisa ser constantemente revisto. Isso não quer dizer que temos necessariamente de concordar com White porque somos seus contemporâneos. A obra de Hobsbawm nos mostra isso, que há algo talvez de mais imutável na natureza da História, ainda que as interpretações mudem constantemente. Para a pergunta o que é História? não existe uma resposta fechada ou simples, e muitos são os historiadores que têm contribuições a dar. E todos os professores e historiadores devem procurar responder a essa pergunta. Se concordarmos com Bloch 184

8 sobre o fato de que a História situa a Humanidade no tempo, dando referências às ações dos indivíduos, e com Hobsbawm, que defende o papel político do historiador, iremos entender que o professor de História tem papel político dos mais importantes em nossa sociedade, papel ao qual não pode se furtar, mas que muitas vezes não percebe, o de formador de consciências. Segundo Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky, em História na sala de aula, um dos papéis do professor é servir de intermediário entre o patrimônio histórico da humanidade e o universo cultural do aluno, que integra esse patrimônio. Tal percepção corrobora a afirmação de Leandro Karnal, na mesma obra, acerca dos métodos didáticos em uma sala de aula de História: uma aula pode ser ultrapassada mesmo contando com os mais modernos recursos didáticos. Mas também pode ser inovadora só com professor, giz e quadro negro. Pois o que conta é a concepção de História possuída pelo professor. Assim, o primeiro passo para a reciclagem, a capacitação, a renovação do profissional de História é a definição por ele de sua concepção da história. História Ver também Arqueologia; Ciência; Discurso; Fonte Histórica; História Oral; Historiografia; Iconografia; Iluminismo; Interdisciplinaridade; Memória; Mentalidades; Pósmodernidade; Pré-história; Relativismo Cultural; Tempo. Sugestões de leitura Bittencourt, Circe. O saber histórico na sala de aula. 6. ed.são Paulo: Contexto, Borges, Vavy Pacheco. O que é História. São Paulo: Brasiliense Cardoso, Ciro Flamarion. Uma introdução à História. São Paulo: Brasiliense, Carr, E. H. Que é História? Rio de Janeiro: Paz e Terra, Freitas, Marcos Cezar (org.). Historiografia brasileira em perspectiva. 5. ed. São Paulo: Contexto, Hobsbawm, Eric. Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, Hughes-Warrington, Marnie. 50 grandes pensadores da História. São Paulo: Contexto, Karnal, Leandro (org.). História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas. São Paulo: Contexto, Le Goff, Jacques. História e memória. Campinas: Ed. Unicamp, Pinsky, Jaime (org.). O ensino de História e a criação do fato. 11. ed. São Paulo: Contexto, Veyne, Paul. Como se escreve a História e Foucault revoluciona a História. Brasília: Ed. UnB,

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