A LER na contramão da sociedade inclusiva

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1 A LER na contramão da sociedade inclusiva José Newton Garcia de Araújo Professor do Instituto de Psicologia da PUC Minas, pesquisador do CNPq Entre os diversos grupos de portadores de deficiências, seria importante incluirmos, nos dias atuais, os trabalhadores que têm contraído, em estágio avançado e irreversível, as chamadas LER (Lesões por Esforços Repetitivos), recentemente também denominadas DORT (Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho).1 Essa doença ocupacional se caracteriza por um conjunto variado de lesões,2 cuja origem estaria associada a uma complexidade de fatores, entre os quais sobressaem certos modos de repetitividade na execução de tarefas, a inadequação das condições e da organização do trabalho, bem como um conjunto de outros fatores ergonômicos e psicossociais. Sendo considerada de caráter epidêmico, desde o fim dos anos 80,3 a LER/DORT foi reconhecida oficialmente, no Brasil, em 1990,4 como uma doença ocupacional que acomete as mais diversas categorias de trabalhadores. Hoje há um consenso entre pesquisadores, médicos do trabalho e outros profissionais da saúde ocupacional, representantes do poder público e, evidentemente, entre os próprios trabalhadores, de que a LER/DORT constitui a maioria absoluta das doenças ocupacionais notificadas no país. Ela tem levado à aposentadoria precoce pessoas que se encontram em plena capacidade para o trabalho. A faixa etária mais atingida se situa entre pessoas de 20 a 49 anos, sendo ainda maior a concentração em pessoas de 30 a 39 anos. Um relatório recente do NUSAT5 mostra a seguinte distribuição dos casos atendidos com diagnóstico de LER/DORT, em 1998: portadores de 20 a 29 anos: 195 casos ou 23,93% do total de casos atendidos; portadores de 30 a 39 anos: 293 casos, ou 35,95% desse mesmo total; portadores de 40 a 49 anos: 256 casos ou 31,41% dos casos. Neste trabalho, o que nos interessa especialmente é mostrar que essa patologia, em seus estágios mais avançados, transforma o trabalhador acometido em portador de deficiência. Não vamos aqui nos deter na descrição dessa deficiência que acomete principalmente os membros superiores. Lembramos, no entanto, que ela incapacita a pessoa não apenas para o trabalho, mas para as mais diversas atividades, no cotidiano de sua vida privada. Afinal, mãos e braços são partes do corpo essenciais para o exercício de qualquer tarefa, bem como para diversas outras formas de contato - inclusive afetivo - com as demais pessoas. Mulheres ou homens jovens, em plena idade produtiva, esses lesionados não conseguem mais trabalhar, nem realizar tarefas domésticas rotineiras ou mesmo atividades de lazer. Exemplos: uma mãe de 24 anos não consegue segurar seu filho nos braços. Outra jovem aposentada não consegue segurar um prato, não consegue pentear-se etc. É evidente o aspecto trágico desse quadro, tanto mais que essa deficiência não é visível, à maneira de uma amputação, da cegueira 1

2 ou de uma paralisia motora. Por isso, muitas vezes a pessoa lesionada é desacreditada ou ridicularizada pelos colegas de trabalho ou por familiares, que dizem "não estar vendo nada de diferente"nela. Aí está: uma pessoa deficiente que "não parece"deficiente. No entanto, além de conviver quase constantemente com fortes dores, ela se sente tomada por um sentimento generalizado de inutilidade, de exclusão social, ora no trabalho, ora na família ou no convívio com amigos. Por que falar, então, que a LER está na contramão da sociedade inclusiva? Talvez porque, diferentemente das deficiências mais conhecidas que, mesmo precariamente, vêm conquistando a atenção do poder público e da sociedade civil, a LER/DORT tende a ser cada vez mais negada por esse mesmo poder, como doença ocupacional, pouco tempo após ter sido reconhecida oficialmente. Tal afirmação se baseia em questões como: a) a modificação implantada recentemente pelo Ministério da Previdência e Assistência Social (MPAS), através do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), nas normas técnicas para o diagnóstico da LER. Segundo os representantes dos trabalhadores e alguns médicos do trabalho, os novos critérios dificultam significativamente o reconhecimento da doença. A principal modificação dessa norma diz respeito ao estabelecimento de dois nexos entre a LER e o trabalho. Com efeito, até a norma técnica anterior, havia apenas o chamado nexo causal. No entanto, o novo texto exige, para reconhecimento da doença e para concessão de benefícios, que se estabeleça, além do nexo causal (tal lesão é de origem ocupacional), o nexo técnico (tal lesão foi provocada no atual posto de trabalho e não em outro ou em atividades fora do trabalho). Ora, para confirmar ou negar tal nexo, o perito do INSS deveria, por princípio, visitar a empresa ou pedir-lhe as informações necessárias sobre sua organização interna do trabalho, vistoriar detalhadamente o posto de trabalho do lesionado e a tarefa que ele executa, além de ter um conhecimento avançado de ergonomia. Em vez disso, há algo acontecendo no caminho inverso à resolução dos problemas que agravam a LER: uma queixa relativamente alta de trabalhadores lesionados é de que muitos peritos (em alguns lugares, o INSS está terceirizando a perícia médica, contratando médicos não especialistas em medicina do trabalho) estariam dificultando ao máximo o reconhecimento dos nexos, principalmente o nexo técnico. Assim, alguns peritos costumam desconsiderar os laudos de outros médicos que o lesionado lhes apresenta, descaracterizando previamente a patologia como doença do trabalho. Outros emitem laudos negativos, sem mesmo examinar o paciente, determinando sua volta ao trabalho. Outros ainda dizem simplesmente que a LER não existe mais. Vejamos o que diz uma lesionada: (...) Faço parte da Associação dos Portadores de LER. Gostaria de perguntar por que a gente leva relatórios para os médicos. Sou lesionada, tive alta, e foi um ginecologista que me deu alta... Ele me perguntou se eu sabia que LER já não era mais doença. Eu perguntei a ele se estavam mudando o nome LER. Ele falou para mim que não, que não estavam mudando, que era porque agora o Governo estava (...) Eu perguntei se ele não iria ler os relatórios. Eu tinha quatro relatórios, cada um de um ortopedista. Ele falou que não... que eu iria retornar ao trabalho. Os trabalhadores também se queixam de que as condutas dos peritos estariam mais afinadas com o interesse das empresas. Um representante dos trabalhadores afirma: 2

3 O perito, quando tem dúvida, simplesmente pede informações à empresa. As respostas dos peritos que nos estão chegando são de que o assegurado não está incapacitado para o trabalho. Segundo uma médica do trabalho, tais atitudes dos peritos não devem ser vistas como condutas pessoais a reparar. Na verdade, diz ela, tais condutas dependem de uma política da instituição (INSS), e a política da instituição cada vez mais caminha para dificultar o diagnóstico, dificultar o acesso aos benefícios acidentários, à readaptação e à reabilitação profissional. Outro comentário vem de um juiz do trabalho. Segundo ele, essa nova norma técnica "... está saindo dentro desse contexto de flexibilização, que significa supressão de direitos do trabalhador". Outro problema que, com a norma técnica de 98, apresenta-se ao trabalhador, diz respeito à emissão da CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho). Segundo o texto anterior, a emissão da CAT podia ser feita mediante a simples suspeita de LER, e devia ser emitida na data do primeiro dia útil de afastamento do trabalhador. Com a nova proposta, a emissão só se dará com diagnóstico firmado e com o LEM (Laudo de Exame Médico) preenchido. O que isso quer dizer? O trabalhador só poderá comunicar o acidente de trabalho caso, após o afastamento por, no máximo, 15 dias, a suspeita de uma lesão se confirmar após o retorno ao trabalho. Ora, sabe-se que a LER é uma patologia progressiva. E que seus primeiros sintomas são quase invisíveis, pois se manifestam como dor, considerada "subjetiva"e algumas vezes sem um quadro clínico visível. Sem o LEM e sem a CAT, o trabalhador voltará ao trabalho e o quadro da doença, inicialmente curável, só irá se degradando. Muitas outras questões poderiam aqui ser levantadas, para caracterizar um quadro progressivo de desproteção ao lesionado de LER. Uma delas é a dificuldade das empresas e seguradoras - atualmente favorecidas pelas políticas "privatizantes"do governo brasileiro - em reconhecer os nexos causal e técnico entre as patologias da LER e as condições de trabalho, negando ao lesionado seus direitos legais e previdenciários, incluindo-se aí o seguro por acidente de trabalho e a aposentadoria.6 Outra dificuldade: os entraves relativos à reabilitação profissional e à realocação dos portadores de LER em outras atividades laborais compatíveis com sua patologia específica. De um lado, com as recentes reformas no INSS (cf. Decreto 3.048, de 6/5/99), os serviços de reabilitação serão regionalizados. Isso pode significar algumas vantagens, mas por enquanto estaria havendo apenas uma descentralização mal administrada do CRP (Centro de Reabilitação Profissional) e uma grande dificuldade de atendimento aos lesionados que necessitam da reabilitação. Por outro lado, a realocação do trabalhador doente para outra atividade compatível com suas lesões exige uma reciclagem profissional. Mas isso quase não ocorre, pois mesmo quando ele é reciclado, volta para o mesmo posto onde trabalhava antes, sujeito às mesmas condições "adoecedoras"do trabalho. Outro grande tema discutido atualmente, que aponta para o desinvestimento do poder público em relação aos portadores de LER, diz respeito à proposta do governo de privatizar o SAT (Seguro de Acidentes de Trabalho). Todos sabemos que as atuais políticas governamentais, marcadas pelo modelo neoliberal, apontam para a privatização da Previdência Social. No caso do SAT, isso não é uma hipótese ou "conjectura"política. Com efeito, o governo já tem um projeto oficialmente divulgado, desde 1996, de passar a sua seguradora social (o 3

4 SAT) para as mãos do capital privado, através da criação das chamadas MAT - Mútuas de Acidentes do Trabalho e Doenças Ocupacionais, estranhamente denominadas organizações sociais "sem fins lucrativos". Uma autoridade médica do setor público, em Minas Gerais, afirma que sem dúvida alguma, por trás desse debate que estamos fazendo, da dificuldade de dia-gnóstico, da reclamação dos maus-tratos que os trabalhadores reclamam que estão sofrendo - e eu, particularmente, tenho rece-bido essas denúncias - por trás disso tudo realmente está a proposta de privatização do seguro de acidente de trabalho no Brasil. Além disso, segundo essa mesma autoridade, a privatização do seguro de acidentes do trabalho no Brasil trará um grave comprometimento do Sistema Único de Saúde, que trabalha com o princípio da universalidade, da eqüidade, da hierarquização e do controle social. Algumas categorias de trabalhadores, como os informais, estarão excluídas dos benefícios previdenciários, quando deles necessitarem. Assim, não é mera coincidência que a implantação da nova "Norma Técnica- vista como um retrocesso no reconhecimento da LER e no reconhecimento dos direitos previdenciários do trabalhador - seja contemporânea do projeto de privatização do SAT. O que vai acontecer? A proposta de privatização, feita pelo governo, prevê um repasse para as Mútuas de 61% do dinheiro arrecadado do SAT. Só para lembrarmos: em 1998, teriam sido arrecadados cerca de 2,5 bilhões de reais, mas o governo só gastou 1,5 bilhão. Em outras palavras, esse seguro social é superavitário. Por que então privatizá-lo e entregar sua gestão ao capital privado? O governo não pode dizer que há um "rombo"deficitário no SAT. E também não pode alegar a gestão falha desse programa. Mas as falhas na gestão não significam que o bom caminho é a privatização. Aliás, as experiências recentes de privatização de serviços públicos, no Brasil, mostram que a qualidade desses serviços piorou depois de passarem ao setor privado. De toda maneira, uma elementar lógica sugere que as propostas de criação das Mútuas se articulam bem com as novas condutas do INSS, no sentido de dificultar cada vez mais o reconhecimento das doenças ocupacionais, entre as quais a LER. Além disso, a privatização do SAT vai deixar desprotegidas, como dissemos acima, diversas categorias de trabalhadores lesionados, hoje assistidos via SUS. Essas e outras questões sugerem que são crescentes as dificuldades dos portadores de deficiências geradas pela LER, em sua luta para situar-se nas trilhas de uma sociedade inclusiva. Notas 1 Essa nova denominação data da elaboração da nova "Norma Técnica"de Norma Técnica é uma "ordem de serviço"da Divisão de Perícia Médica do INSS, destinada aos peritos que se ocupam da avaliação de incapacidade do trabalhador portador de doenças ocupacionais, para fins de benefícios previdenciários. Apesar da sigla DORT, o nome LER parece estar socialmente consolidado. Atualmente têm prevalecido, em publicações, relatórios técnicos ou mesmo na mídia, as denominações LER/DORT ou DORT/LER. 2 Uma recente cartilha da Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho - Fundacentro, ligada ao Ministério do Trabalho, cita as seguintes lesões que caracterizam as LER/DORT: tenossinovite, tenossinovite de De Quervain, tenossinovite dos extensores dos dedos, tendinite do supraespinhoso, epicondilite, tendinite do bicipital, síndrome do túnel do carpo, cistos 4

5 sinoviais, bursite, dedo em gatilho, síndrome do desfiladeiro torácico, síndrome do pronador redondo, síndrome álgica miofascial, distrofia simpático-reflexa. 3 O reconhecimento da doença, no entanto, estava inicialmente restrito à categoria dos digitadores. Assim é que foi chamada de "tenossinovite do digitador", quando oficialmente reconhecida, através da Portaria 4062, de 6 de agosto de 1987, do Ministério da Previ ência Social. 4 Em 23/11/90, o Ministério do Trabalho publicou a Norma Regulamentadora n. 17 (NR-17), em que se fixavam normas e limites para as empresas com postos de trabalho que requeriam esforços repetitivos, ritmo acelerado e posturas inadequadas. Era um primeiro passo no rumo da prevenção. Em 1991, o Ministério unificado do Trabalho e Previdência Social publicou a primeira Norma Técnica de LER (NT/91), mas, ainda nesse momento, somente os digitadores tinham sua doença reconhecida como "ocupacional". Só em 1993 a NT/91 foi modificada, no sentido de reconhecer a extensão da LER a inúmeras outras categorias profissionais. 5 Relatório Anual de 1998 do NUSAT - Núcleo de Referência em Doenças Ocupacionais da Previdência Social, do INSS/MG. 6 Uma autoridade do INSS me relatou, recentemente, o caso de vários processos de aposentadoria - tratava-se de bancários portadores de LER, que tinham passado diversas vezes por juntas periciais, com a recomendação para aposentadoria, pois o diagnóstico apontava para a gravidade e a irreversibilidade do quadro patológico. Pois bem, a seguradora do banco estava contestando o laudo dos peritos, propondo que os lesionados fossem examinados por seus médicos particulares. 5

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