Conceitos de Qualidade de Vida no Trabalho Introdução O conceito de qualidade de vida ainda é bastante discutido entre profissionais e estudiosos da área. Muitas vezes, o termo qualidade de vida é utilizado como sinônimo de saúde e bem-estar; em outras, são apresentadas diferenças entre esses conceitos. Compreender a qualidade de vida significa conhecer os fatores que influenciam a saúde, o bem-estar e a satisfação de necessidades dos indivíduos. Ao final desta aula, você será capaz de: definir o conceito de qualidade de vida e qualidade de vida no trabalho, identificando os aspectos motivacionais relacionados aos assuntos. Qualidade de vida O termo qualidade de vida, segundo Ogata e Simurro (2009), não apresenta uma definição concreta, tendo em vista sua complexidade. De modo geral, representa a satisfação com relação à vida e seu significado está atrelado aos indicadores adotados em cada área de estudo, sendo, muitas vezes, considerada sinônimo de saúde, felicidade ou estilo de vida. Evolução histórica Segundo Keinert e Karruz (2002), o conceito de qualidade de vida foi evoluindo com o passar dos anos. Até a década de 1950, o termo qualidade de vida representava o desenvolvimento econômico, ou seja, estava associado ao nível de consumo da população. Na década de 1960, foi incorporado o conceito de bem-estar: além do poder econômico, também o nível de escolaridade, nutrição e saúde passaram a representar a qualidade de vida. Um significado mais amplo surgiu a partir de meados de 1970 com a ampliação dos estudos sobre problemas sociais. Nesse período, a qualidade de vida passou a representar o bem-estar social e as necessidades básicas dos indivíduos. - 1 -
Figura 1 - Qualidade de vida Fonte: Wavebreakmedia / Shutterstock Em uma perspectiva mais atual, a preocupação com o meio ambiente surge como um novo elemento na avaliação da qualidade de vida, que engloba o acesso a bens materiais, o desenvolvimento sustentável, a saúde e o conhecimento. Conceitos de qualidade de vida Para Ogata e Simurro (2009), o conceito de qualidade de vida representa muito mais do que apenas o cuidado com a saúde, as políticas de promoção da saúde e a definição de bem-estar. Qualidade de vida é a percepção individual positiva de aspectos psicológicos, expectativas, valores, relações sociais, crenças e meio ambiente. Ela envolve a interação entre as dimensões física, emocional, social, intelectual, ocupacional, espiritual e ambiental. FIQUE ATENTO A qualidade de vida é definida de acordo com a percepção de cada indivíduo sobre os vários aspectos de sua vida em termos de satisfação de necessidades. Segundo Ogata e Simurro (2009), a qualidade de vida pode ser compreendida avaliando-se o grau de satisfação de uma pessoa a respeito das oportunidades da vida, considerando três domínios: o ser (dimensão física, psicológica e espiritual), o pertencer (dimensão física, social e comunitária) e o transformar (dimensão prática, lazer e crescimento). - 2 -
Figura 2 - Domínios da qualidade de vida Fonte: Elaborado pela autora, baseado em OGATA e SIMURRO (2009) Segundo Pereira, Teixeira e Santos (2012), a subjetividade é um aspecto essencial para a compreensão da qualidade de vida, pois somente o próprio indivíduo é capaz de avaliar sua qualidade de vida. Apesar disso, muitos estudos levam em conta a descrição de indicadores gerais com o objetivo de investigar a qualidade de vida em grandes grupos, o que facilita a compreensão do tema ao mesmo tempo em que deixa de considerar a percepção de cada indivíduo sobre si mesmo. Indicadores de qualidade de vida De acordo com Keinert e Karruz (2002), medir a qualidade de vida de uma dada população auxilia no desenvolvimento de políticas públicas para melhorar as condições daquela localidade por meio de ações corretivas ou preventivas. Selecionar os indicadores é uma etapa importante para esse tipo de planejamento e pode abranger o ambiente físico, a saúde, a educação, a habitação, os serviços básicos, as condições de emprego e renda, a segurança pública e a seguridade social. - 3 -
EXEMPLO Em 2013, o Brasil ocupava a 31ª posição no ranking dos países com melhor qualidade de vida a pessoas com mais de 60 anos. Os indicadores dessa pesquisa consideraram a garantia de renda, a saúde, o emprego, a educação e o ambiente social como fatores essenciais. Medidas como o tratamento de saúde e a garantia de um salário mínimo para idosos na linha da pobreza contribuíram para o desempenho do país no ranking, além de outras garantias que constam no Estatuto do Idoso. Mais informações no link <http://www.brasil.gov.br/saude /2014/01/brasil-e-reconhecido-por-politicas-publicas-em-favor-de-idosos>. Outra forma de analisar a qualidade de vida é por meio de um levantamento das percepções individuais dentro de contextos como trabalho, família, amizades e lazer. Os fatores psicossociais, nesse caso, indicam os níveis de satisfação ou insatisfação das necessidades e incluem indicadores como alimentação, vestuário, comunicação, higiene, habitação, saúde, educação, circulação e recreação A qualidade de vida no trabalho O ser humano, de modo geral, dedica a maior parte de seu tempo ao trabalho. O trabalhador, portanto, precisa ser valorizado e ter condições adequadas para manter suas atividades produtivas. SAIBA MAIS Veja o exemplo de uma empresa que adotou medidas para melhorar a qualidade de vida de seus colaboradores e manter a produtividade em alta. <http://revistamelhor.com.br/wappainveste-em-programa-de-qualidade-de-vida-e-bem-estar/>. Segundo Ribeiro e Santana (2015), o conceito de Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) abrange aspectos ambientais, físicos e psicológicos relacionados ao local de trabalho. Analisar fatores como a escolha da profissão, os valores, a cultura, a estrutura familiar e as relações interpessoais são importantes para compreender a QVT no contexto de cada organização. No entanto, como afirma Oliveira (2004), pensar em QVT implica no equilíbrio entre a satisfação pessoal do colaborador e sua produtividade no trabalho. Origem histórica Segundo Oliveira (2004), a preocupação com o bem-estar dos trabalhadores teve sua origem a partir da Revolução Industrial (entre os séculos XVIII e XIX), época em que a população do campo passou a migrar para os centros urbanos para trabalhar nas indústrias. Nesse período, as cidades ainda não possuíam infraestrutura adequada e essas pessoas passaram a viver em moradias sem higiene e o ambiente das fábricas não oferecia - 4 -
condições saudáveis de trabalho. Problemas como fadiga, doenças contagiosas, acidentes de trabalho, alimentação insuficiente e pouca remuneração faziam parte da vida laboral. Foram essas questões que motivaram os movimentos em defesa dos trabalhadores e os diversos estudos a respeito da produtividade e do comportamento humano nas organizações. Figura 3 - Os trabalhadores das indústrias Fonte: Everett Historical / Shutterstock Estudos específicos sobre a QVT, segundo Sant anna e Kilimnik (2011), tiveram seu início nas décadas de 1950 e 1960 por meio de uma abordagem que contemplava a satisfação e o bem-estar dos trabalhadores. O objetivo era encontrar as melhores formas de organizar o trabalho a fim de reduzir possíveis efeitos negativos sobre os indivíduos e fomentar a qualidade de vida. Porém, na década de 1970, algumas empresas norte-americanas passaram a priorizar os aspectos econômicos em detrimento dos interesses dos colaboradores, o que acarretou em perda de competitividade para concorrentes japonesas. Esse fato trouxe de volta a investigação a respeito dos estilos gerenciais e da relação entre a QVT e a produtividade. QVT: aspectos conceituais Segundo Ogata e Simurro (2009), alguns aspectos têm motivado as empresas a adotarem programas de QVT o alto custo da assistência médica, a urgência em aumentar a produtividade, a necessidade de melhorar o ambiente organizacional, o envelhecimento da força de trabalho, entre outros. Hoje, as organizações desempenham um papel ativo na busca pela melhoria das condições de trabalho e pela satisfação, motivação e saúde dos seus trabalhadores. - 5 -
FIQUE ATENTO Atualmente, as organizações estão inseridas em um cenário bastante competitivo e precisam contar com seu capital humano para produzir mais e melhor. Para isso, é importante valorizar os colaboradores por meio de ações que promovam a qualidade de vida e a satisfação no ambiente de trabalho. Promover a QVT requer atenção por parte das organizações e foco nos interesses e necessidades dos indivíduos. Nesse aspecto, a QVT pode ser definida como a: Capacidade de administrar o conjunto das ações, incluindo diagnóstico, implantação de melhorias e inovações gerenciais, tecnológicas e estruturais no ambiente de trabalho, alinhada e construída na cultura organizacional, com prioridade para o bem-estar das pessoas na organização (Limongi França, 2008 apud Ogata e Simurro, 2009, p. 6-7). Uma organização que prioriza a qualidade de vida promove o envolvimento e a satisfação do trabalhador, permite a redução dos níveis de estresse e propicia aos indivíduos uma sensação de responsabilidade, autocontrole e autoestima. Essas empresas utilizam canais de comunicação abertos que facilitam a relação entre gestores e empregados. Segundo Ogata e Simurro (2009), essa relação envolve a percepção dos trabalhadores a respeito dos cuidados adotados pela empresa (plano de saúde, transporte, benefícios), das facilidades oferecidas (lavanderia, convênios de desconto, creche), da preocupação com necessidades pessoais (horário flexível, sala de ginástica) e do estímulo aos bons relacionamentos interpessoais (transparência, clima organizacional positivo, reconhecimento). - 6 -
Figura 4 - Relacionamentos interpessoais e QVT Fonte: Rawpixel.com / Shutterstock Segundo Sant anna e Kilmnik (2011), o termo QVT envolve aspectos como motivação, satisfação, condições de trabalho e até mesmo estilos de liderança. Para analisar o ambiente de trabalho com relação à qualidade de vida, diversos indicadores podem ser considerados: saúde, doenças ocupacionais, hábitos saudáveis, autoestima, produtividade, bom ambiente de trabalho, relação entre competitividade e bem-estar, comprometimento, reconhecimento, entre outros. Os indicadores são determinados de acordo com a realidade de cada organização em consonância com uma fundamentação teórica adequada. Zanelli e Silva (2008) afirmam que o conceito de QVT implica na satisfação de necessidades e expectativas. A qualidade de vida é conquistada nas relações interpessoais, no exercício do poder, na gestão dos conflitos, na cooperação e nas possibilidades de aprendizagem e desenvolvimento de cada trabalhador. Mas, além dos valores humanos, dos aspectos ambientais e do incentivo à autonomia, as ações relacionadas à QVT envolvem também a preocupação com a saúde e o estilo de vida dos colaboradores. Ações como a educação, a prevenção de acidentes de trabalho e o incentivo aos hábitos saudáveis (alimentação, atividade física, prevenção de doenças) devem estar presentes como forma de contribuir para o bem-estar de cada indivíduo em suas atividades diárias, propiciando maior motivação, produtividade e bem-estar. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: conhecer os conceitos e os aspectos históricos do tema qualidade de vida; compreender o que é QVT, como surgiu e qual sua importância; identificar alguns indicadores de qualidade de vida. - 7 -
Referências KEINERT, T. M. Mozzomo; K, A. P. Annablume Fapesp, 2002. OGATA, A e SIMURRO, S. Qualidade de Vida: observatórios, experiências e metodologias. São Paulo: Guia Prático de Qualidade de Vida: como planejar e gerenciar o melhor programa para a sua empresa. 4 ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009. OLIVEIRA, O. J. (org.). Gestão da Qualidade: tópicos avançados. São Paulo: Cengage Learning, 2004 PEREIRA, É. F; TEIXEIRA, C. S; SANTOS, A. dos. Qualidade de Vida: abordagens, conceitos e avaliação. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, v. 26, n. 2, São Paulo: abr/jun. 2012, pp. 241-250. Disponível em < http://www.scielo.br/pdf/rbefe/v26n2/07.pdf>. Acesso em 10/01/2018. RIBEIRO, L. A; SANTANA, L. C. de. Qualidade de vida no trabalho: fator decisivo para o sucesso organizacional. RIC - Revista de Iniciação Científica, Fundação Visconde de Cairu, v. 2, n. 2, Salvador - BA: jun/2015, pp. 75-96. Disponível em <http://www.cairu.br/riccairu/pdf/artigos/2/06_qualidade_vida_trabalho.pdf> Acesso em 11/01/2018. SANT ANNA, A; KILIMNIK, Z. Elsevier: 2011. ZANELLI, J. C e SILVA, N. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008. Qualidade de Vida no Trabalho: fundamentos e abordagens. Rio de Janeiro: Interação Humana e Gestão: a construção psicossocial das organizações de trabalho. - 8 -