COESÃO E COERÊNCIA TEXTUAL: A ANATOMIA DO TEXTO.

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Transcrição:

COESÃO E COERÊNCIA TEXTUAL: A ANATOMIA DO TEXTO. Regiani Leal Dalla Martha Couto Mestra em Letras (UNIR). Licenciada em Letras (UNESC). Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia, campus Ji-Paraná. Líder do GELLIC Grupo de Estudos em Leitura, Linguagens e Identidade Cultural. Carlos Alberto Suniga dos Santos Mestre em Educação pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Professor nas Faculdades Integradas de Cacoal (Letras e Engenharia Civil). Membro do GELLIC Grupo de Estudos em Leitura, Linguagens e Identidade Cultural. INTRODUÇÃO O objetivo central do desenvolvimento desta minicurso orienta-se em busca de demonstrar a importância dos processos de coesão e coerência na produção textual como elementos fundamentais para que os textos se apresentem de forma compatível com os interesses dos autores. Em textos orais ou escritos, a conectividade e a relação harmoniosa entre as ideias presentes são estabelecidas a partir da utilização de mecanismos (procedimentos) que nos possibilitam a retoma e a progressão das informações de forma lógica e ordenada. Ao conjunto desses mecanismos denominamos coesão textual e sua utilização é a principal responsável para que os textos apresentem-se de forma concisa e com elementos (vocábulos, frases, períodos) logicamente estruturado a fim de o leitor, ou interlocutor (com quem falamos) possa nos entender. Quando bem estruturados e dispostos, os mecanismo de coesão textual permitem que o texto apresente-se como um todo organizado, ou seja, configure-se como uma produção com coerência. Desse modo, a tessitura (trama verbal oral ou escrita) encontra-se estabelecida a partir de elementos constituintes que proporcionam relações lógicas, sem contradição, repetição desnecessária ou obscuridade. MATERIAIS E MÉTODOS O desenvolvimento do presente minicurso dar-se-á pela utilização do método expositivo por meio de exemplificação e ilustrações acerca dos principais mecanismo de coesão textual, quer referencial, quer sequencial; bem como acerca dos pontos norteadores da constituição da coerência em textos orais ou escritos. Como forma de dinamizar a exposição, utilizaremos apresentação (slides), exemplificando conceitos e demonstrando como se estruturam e como concorrem os XIV Jornada Científica das Faculdades Integradas de Cacoal - UNESC 1

processos de coesão textual a fim de que os textos apresentem bem organizados e portadores de intencionalidade com função comunicativa. Ademais, serão apresentados exercícios simples de aplicação dos conhecimentos vistos para que os participantes possam exercitar os conteúdos vistos a partir de exemplos que circulam social. RESULTADOS E DISCUSSÃO O processo de coesão textual corresponde aos procedimentos de que o autor se utiliza para tornar seu texto (oral ou escrito) mais conciso, claro e objetivo. Assim, podemos entender que esses mecanismo dão conta da estruturação da sequência [superficial] do texto (seja por recursos conectivos ou referenciais); não são simplesmente princípios sintáticos. Constituem os padrões formais para transmitir conhecimento e sentidos. (MARCUSCHI, 2008, p. 99). Ou seja, é a utilização de palavras, expressões (sintagmas) ou frases que possibilitam retornar ou referenciar um termo anterior; bem como conectar (ligar) palavras e frases, sem que incorramos na repetição desnecessária ou na produção de relações não desejadas. Uma outra possibilidade de coesão diz respeito às relações de sequência que podemos estabelecer entre frases, períodos ou mesmo parágrafos para que não ocorram defeitos de entendimento. Quanto mais consistentes forem nossos conhecimentos acerca dos possíveis mecanismos de coesão, melhores serão as possibilidades de nos manifestarmos de forma coesa e coerente em nossas construções textuais, seja elas orais ou escritas; uma vez que Da mesma maneira que não conseguimos construir uma casa apenas colocando tijolos uns ao lado dos outros, uma redação também não se escreve pela simples disposição linear de ideias, informações e argumentos. Precisamos de elementos que estabeleçam uma ligação entre eles, assim como a argamassa vai unindo os tijolos da nossa casa. (ABAURRE; FADEL; PONTARA, 2004, p. 376). Nesse sentido, o estudo das possibilidades de coesão são fundamentais para que possamos elaborar textos mais concisos, claros e objetivos. É válido lembrar que os diversos mecanismo são utilizados isoladamente, pois, em um mesmo texto, podemos nos valer das mais variadas formas de seu emprego. X Jornada Científica das Faculdades Integradas de Cacoal - UNESC

De um modo geral podemos identificar dois processos maiores de coesão textual: coesão referencial: diz respeito à utilização de termos que possibilitam a retomada de elementos anteriores, ou mesmo da omissão de um elemento; coesão sequencial: trata da utilização, principalmente, de conjunções a fim de que os sentidos permaneçam de acordo com a progressão ou sentidos desejados. No caso do processo de coesão referencial (ou referência), podemos nos valer, principalmente, dos mecanismos de substituição, elipse e coesão lexical. Coesão por substituição é o processo de coesão referencial em que utilizamos um termo em lugar de outro a fim de manter a coerência e evitarmos efeitos de sentido indesejados. Pode ocorrer por meio da utilização de pronomes (ele, ela, o, a, este, aquele etc.), advérbios (lá, aqui etc.) ou artigos e numerais (o, a, um, primeiro etc.). No processo de coesão por elipse omitimos um termo (palavras, expressão ou mesmo frase inteira), pois o elemento omitido se encontra subentendido no contexto. (SAVIOLE, 1997). Embora, normalmente ocorre pela omissão de um termo anteriormente citado, essa forma de coesão também pode ocorrer pela omissão total, ou seja, sem referência a um termo anterior. Esses dois processos recebam nomes diferentes, mas não cremos que seja necessária essa diferenciação porque ambos concorrem para o mesmo efeito coesivo. A coesão lexical pode ser construída a partir da substituição de termo por outro que apresente, em relação ao primeiro, uma determinada relação semântica (de significado). É o que acontece quando substituímos um termo por seu sinônimo, hiperônimo, hipônimo ou nomes genéricos. (ABAURRE; FADEL; PONTARA, 2004). Nesse caso, temos a coesão lexical conhecida como reiteração, uma vez que o termo substituído encontra-se reiterado a partir de uma outra palavra ou expressão que o identifica. Hipônimos são palavras que apresentam um sentido específico, referem-se a um elemento particular de um conjunto. O hiperônimo representa o nome do conjunto e, por isso, apresenta sentido geral. Por exemplo, a palavra esportes é um hiperônimo em relação à natação, atletismo e judô que, nesse caso, são hipônimos; ou seja elementos que correspondem a aspectos particulares. XIV Jornada Científica das Faculdades Integradas de Cacoal - UNESC 3

Uma outra forma de elaborarmos a coesão lexical é pelo processo de colocação (ou contiguidade) que consiste em dispôs termos que pertencem a um mesmo campo semântico; ou seja, é o entrelaçamento de palavras que se encontram relacionadas pelo sentido que apresentam. Processa-se a coesão sequencial quando nos utilizamos de conectivos (principalmente as conjunções) a fim de estabelecermos relações; das mais diversas formas, de coordenação (independência) ou de subordinação (dependência) entre termos, orações, períodos ou parágrafos. Para realizar processos coesivos eficientes e coerentes num texto, é preciso conhecer um pouco acerca das conjunções e das relações que elas podem estabelecer. Em muitos casos, o desconhecimentos dessas relações possíveis leva a construções em que os sentidos pretendidos encontram-se seriamente prejudicados. Ademais, além do nível sintático (das relações e posições dos termos), o texto estrutura-se também a partir do nível semântico que apresenta; ou seja, sua significação depende das informações apresentadas e das relações que entre elas se estabelecem. Nesse sentido, podemos afirmar que a coerência de um texto está diretamente relacionada ao seu conteúdo (às informações que ele apresenta) e à organização dada aos seus elementos constituintes. A coerência, para Ingedore Koch, [...] está diretamente ligada à possibilidade de se estabelecer um sentido para o texto, ou seja, ela é o que faz com que o texto faça sentido para os usuários [...]. (KOCH, 1996, p. 21). O entendimento dessa possibilidade pode ser melhor exemplificado a partir da leitura do seguinte fragmento: Havia um menino muito magro que vendia amendoins numa esquina de uma das avenidas de São Paulo. Ele era tão fraquinho, que mal podia carregar a cesta em que estavam os pacotinhos de amendoim. Um dia, na esquina em que ficava, um motorista que vinha em alta velocidade, perdeu a direção. O carro capotou e ficou de rodas para o ar. O menino não pensou duas vezes. Correu para o carro e tirou de lá o motorista, que era um homem corpulento. Carregou-o até a calçada, parou um carro e levou o homem para o hospital. Assim, salvou-lhe a vida. (PLATÃO; FIORIN, 2002, p. 282). O trecho anterior apresenta uma incoerência narrativa; ou seja, duas das informações apresentadas são contraditórias: o menino ser muito fraquinho X carregar um X Jornada Científica das Faculdades Integradas de Cacoal - UNESC

homem muito corpulento. Da mesma forma, podem ocorrer incoerências em textos argumentativos, quando os dados apresentados se contradizem ou não conduzem o leitor para o raciocínio conclusivo pretendido. Um texto coerente deve, pois, assentar-se nos seguintes princípios de textualidade que, de acordo com Puhl (2008, p. 17-18), constituem-se em meta-regras para a formulação de um texto: A repetição diz respeito à necessária retomada de elementos no decorrer do discurso. Um texto coerente tem unidade, já que nele há a permanência de elementos constantes no seu desenvolvimento. Um texto que trate a cada passo de assuntos diferentes, sem um explícito ponto comum, não tem continuidade. Um texto coerente apresenta continuidade semântica na retomada de conceitos, ideias. Isto fica evidente na utilização de recursos linguísticos específicos como pronomes, repetição de palavras, sinônimos, hipônimos, hiperônimos etc. Os processos coesivos de continuidade só se podem dar com elementos expressos na superfície textual; um elemento coesivo sem referente expresso, ou com mais de um referente possível, torna o texto malformado. A segunda meta-regra é a progressão. O texto deve retomar seus elementos conceituais e formais, mas não deve limitar-se a isso. Deve, sim, apresentar novas informações a propósito dos elementos mencionados. Os acréscimos semânticos fazem o sentido do texto progredir. No plano da coerência, percebe-se a progressão pela soma das ideias novas às que são já tratadas. Um texto precisa respeitar princípios lógicos elementares, é o que prevê a metaregra da não-contradição. Ou seja, não pode afirmar A e o contrário de A. Suas ocorrências não podem se contradizer, devem ser compatíveis entre si e com o mundo a que se referem, já que o mundo textual tem que ser compatível com o mundo que representa. Esta não contradição expressa-se nos elementos linguísticos, no uso do vocabulário, por exemplo. A última meta-regra é a relação, isto é, um texto articulado coerentemente possui relações estabelecidas, firmemente, entre suas informações, e essas têm a ver umas com as outras. A relação em um texto refere-se à forma como seus conceitos se encadeiam, como se organizam, que papéis exercem uns em relação aos outros. As relações entre os fatos têm que estar presentes e ser pertinentes. Um texto, assim entendido, é o resultado de uma série de relações que se complementam e oferecem ao leitor a possibilidade de entendimento das ideias, dos pressupostos e das informações que ele contém. REFERÊNCIAS ABAURRE, Maria Luiza M; FADEL, Tatiana; PONTARA, Marcela Nogueira. Português: língua, literatura, produção textual. 2. ed., São Paulo: Moderna, 2004. KOCH, Ingedore Grunfeld Villaça. A coesão textual. São Paulo: Contexto, 1996. XIV Jornada Científica das Faculdades Integradas de Cacoal - UNESC 5

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola Editorial, 2008. PLATÃO, F. S.; FIORIN, J.L. Lições de texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 2002. PUHL, Paula Regina (org.). Contexto e práticas de comunicação social. Novo Hamburgo: Feevale, 2008. SAVIOLE, Francisco Platão. Gramática em 44 lições. 15. ed. São Paulo, Ática, 1997. X Jornada Científica das Faculdades Integradas de Cacoal - UNESC