Caprinocultura de Corte

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Transcrição:

Caprinocultura de Corte Silvio Doria de Almeida Ribeiro & Anamaria Cândido Ribeiro CREUPI Centro Regional Universitário de Pinhal e Capritec Tecnologia em Caprinocultura Transcrito do III Encuentro DE Medicina de Pequeños Ruminantes Del Cono Sur y I Congreso Argentino de Especialistas en Pequeños Ruminantes e Camélidos Sudamericanos Buenos Aires 2.000 A caprinocultura é considerada uma atividade milenar e a carne de caprinos tem grande importância como fonte básica de proteína animal para diversos povos. Porém, a criação de caprinos para corte nunca despertou tanto interesse da mídia, dos pesquisadores e do público em geral como vem ocorrendo nos últimos anos. Apesar de ser uma carne mundialmente pouco consumida quando observadas as estatísticas oficiais, (segundo a FAO (1999), 0,63 kg per capta ao ano), é tida por muitos como a carne vermelha mais consumida no mundo. Informações tão opostas podem ser até certo ponto compreendidas se considerado seu grande consumo em países em desenvolvimento, com serviços de informação bastante deficitários, além de seu consumo diretamente nas propriedades e sua comercialização ocorrer basicamente em mercados informais. Mais recentemente essa atividade vem sendo apontada como uma importante fonte de renda, principalmente a criação de animais puros da raça Boer. Todo esse contexto tem gerado um grande entusiasmo com o futuro da caprinocultura de corte no mundo, confundindo-se muitas vezes o potencial da espécie, que não é pequeno, com modismos e interesses momentâneos, que muitas vezes enaltecem o potencial da espécie além de sua capacidade. Nesse contexto, é importante que se faça uma análise cautelosa e objetiva para se avaliar o que de fato se pode esperar dessa atividade e as situações onde ela é, de fato, uma boa alternativa. Como está o efetivo caprino mundial em relação aos outros ruminantes? Quando se analisa o rebanho mundial de caprinos e, principalmente, quando se compara com o rebanho de outros ruminantes, percebe-se uma evolução diferente: como pode ser observado na Figura 1, o rebanho mundial de bubalinos praticamente não se alterou nas últimas quatro décadas; o rebanho de bovinos cresceu de forma consistente até os anos 90, quando também praticamente se estabilizou; com o rebanho ovino a situação tem sido ainda mais crítica, pois em função dos baixos preços alcançados pela lã, esse rebanho tem diminuído na última década. Com os caprinos esse comportamento tem sido consideravelmente diferente: praticamente estável entre os anos 60 e 70, passou a apresentar um crescimento regular e intenso a partir de então, sendo, dentre essas espécies, o rebanho que mais cresceu na última década. Portanto, embora um rebanho ainda muito menor do que o bovino e o ovino, esse comportamento demonstra uma

franca preferência pelos caprinos em relação a essas espécies, o que certamente indica boas perspectivas para o futuro. E mais: demonstra que o que se vê no mundo de uma forma geral, que é similar ao que se vê no Brasil, pode até certo ponto ser comprovado em estatísticas oficiais. Figura 1. Evolução dos rebanhos mundiais de bubalinos, ovinos, bovinos e caprinos, desde 1961 (x10 6 ), segundo a FAO (1998). Qual o objetivo de uma caprinocultura de corte? O objetivo primário da caprinocultura de corte deve ser exatamente o mesmo da maioria das atividades pecuárias: gerar lucro para o pecuarista. Embora existam questões sociais de grande importância, não é o pecuarista que deve preocupar-se com elas, devendo concentrarse antes de tudo, na sua própria sobrevivência. Mas não apenas isso: como uma classe que se dedica com afinco à sua atividade, o objetivo é a obtenção de um resultado econômico satisfatório e adequado ao nível de esforço financeiro e de trabalho dedicado à atividade. Para que esse objetivo seja alcançado, deve-se obter tanto um bom desempenho produtivo quanto econômico. Deve-se, portanto, buscar a produção de um bom número de animais com as características exigidas pelo consumidor com os menores custos e melhores preços de venda possíveis. O que se espera de um caprino de corte? Gipson considera todo caprino como um caprino de corte, uma vez que pode ser abatido e consumido. E esse conceito é compartilhado por muitos. Porém, quando se encara a caprinocultura de corte por um prisma empresarial, dando-lhe o enfoque de uma atividade especializada, existem muitas características desejáveis nos animais para que se obtenha melhores resultados. Deve-se buscar animais com um bom rendimento de carcaça, com uma proporção músculo:gordura:ossos adequada e com uma boa distribuição do músculo na carcaça. Ou seja, é conveniente um elevado rendimento de uma carcaça com um bom volume de músculo e a gordura necessária para garantir sua suculência, conservação e sabor, com uma maior proporção de deposição muscular nos cortes mais nobres.

Porém, isso não basta: não se pode esquecer a qualidade dessa carne. Nesse item devem ser consideradas as características visuais, sensoriais e nutricionais. Em outras palavras, o consumidor deve olhar para a carne e se sentir atraído por ela, mas essa manifestação favorável deve permanecer quando de seu consumo, com o atendimento às suas preferências em termos de paladar. Se ainda for uma carne com aspectos nutricionais atraentes como baixos níveis de colesterol, por exemplo, tanto melhor. Mas não basta: é fundamental um bom ritmo de crescimento, situação em que devem ser considerados os pesos e os ganhos em peso para diferentes idades. Muitas vezes os menos avisados se impressionam com reprodutores muito grandes e pesados, mas se esquecem que não é esse o tipo de animal habitualmente consumido. Portanto, deve-se buscar aquele animal que apresente melhor desempenho para o peso de abate utilizado no mercado em questão. As características reprodutivas também devem ser consideradas, buscando-se animais que não sejam sazonais, com uma boa fertilidade e prolificidade, com um pequeno intervalo de partos e cabras com uma boa habilidade materna, que permitam a obtenção de um bom número de cabritos desmamados por cabra. Em outras palavras, é desejável que uma boa proporção das cabras conceba, preferencialmente todas, mas que além disso seja gerado um bom número de cabritos por parto e que esses nascimentos ocorram com regularidade ao longo do ano. Mas não basta nascer: a cabra deve ser capaz de cuidar bem de sua(s) cria(s), favorecendo o seu desmame em boas condições. Se o intervalo de partos for curto, melhor ainda: o número de partos e conseqüentemente de crias desmamadas será maior ao longo da vida produtiva da cabra. Outros aspectos que também devem ser considerados são adaptabilidade e resistência a doenças. Os animais devem se adaptar e produzir de maneira eficiente em diferentes condições climáticas e de manejo, sendo pouco susceptíveis a problemas sanitários como endoparasitoses. Portanto, deve-se buscar animais que se reproduzam com eficiência e gerem um elevado número de animais com um bom rendimento de uma carne adequada às preferências do consumidor. Quais os animais e as raças disponíveis? Uma vez conhecidas as características desejáveis nos animais destinados à produção de carne, deve-se avaliar o material disponível na região ou para importação para decidir com o que trabalhar. Ao se estudar a necessidade de importação de animais deve-se antes de tudo comparar o desempenho da população existente e dos produtos de cruzamentos com a raça importada em questão. Se o desempenho da população local for superior, não se justifica a importação, partindo-se então para a seleção do material disponível. Caso os cruzamentos com a raça exótica apresentem resultados superiores, deve-se avaliar que proporção dessa raça apresenta o melhor desempenho. Se forem os animais puros, o caminho são os cruzamentos absorventes; se forem animais cruzados, a

informação necessária é qual a proporção de cada raça que permite o melhor desempenho. De um estudo sério e cuidadoso buscando respostas a essas questões é que deve partir a orientação da importação ou não de uma nova raça e a forma mais adequada para sua utilização. Nesse assunto específico, raça, a discussão se torna bastante complexa. Hoje existe uma verdadeira apologia aos caprinos Boer, raça de origem sul-africana que tem sido aclamada pelo mundo como a grande produtora de carne dos caprinos. De fato, trata-se de uma raça com excepcionais características: uma excelente carcaça, animais com um bom desempenho, mas o que de fato se conhece dessa raça nos dias de hoje? Embora o volume de informações disponível nos mais variados veículos de comunicação seja enorme, aquelas de boa qualidade, provenientes de trabalhos de pesquisa sérios e isentos, são raras. E mais: é difícil identificar dentre um volume tão grande de informação no que de fato se pode confiar. Uma informação equivocada que é freqüentemente apresentada com relação à raça Boer é de que ela é a única raça caprina especializada na produção de corte. Ela pode até ser a melhor, mas certamente não é a única. Dentre outras, pode-se mencionar a Kiko, a Miotônica, a Spanish, a Savana e a própria Pigmy, além da Anglo Nubiana, considerada uma raça de dupla aptidão por excelência. E isso para apresentar apenas as mais conhecidas. Um outro aspecto a considerar com relação à raça Boer diz respeito às tetas. A freqüência de politetia, ou seja, animais com um número de tetas superior ao normal, que são duas, chega a ultrapassar os 70%. Ao que tudo indica, essa é uma característica que não foi considerada durante o processo de formação da raça e, quando se atentou para ela, sua incidência já era bastante elevada. Com relação a esse aspecto o que deve ser analisado é se há alguma correlação entre politetia e desempenho, seja positiva ou negativa. Caso se comprove alguma vantagem produtiva, nos animais com essa característica sem que isso traga maiores prejuízos, deve-se considera-la com certa condescendência. Caso o desempenho dos portadores dessa anomalia não se destaquem em relação aos demais, deve ser priorizada a conformação considerada normal. Nesse momento o que deve ser considerado é que a herança dessa característica é praticamente desconhecida, que uma vez introduzida no rebanho dificilmente será erradicada e que não há nenhuma comprovação de resultado positivo de desempenho dos animais com politetia... Qual o tamanho do mercado? Se o enfoque dado à caprinocultura de corte é sua rentabilidade, a primeira preocupação deve ser avaliar o tamanho do mercado. Essa avaliação pode ser feita através de pesquisas diretas ou de simulações com os dados disponíveis. A primeira alternativa certamente é a mais indicada, mas também é mais demorada e trabalhosa; a segunda, se baseada em dados consistentes, permite a visualização de indicativos aceitáveis em um primeiro momento. Nesse contexto, foram feitos

alguns cálculos com o objetivo de estimar o mercado potencial de carne caprina na região Sudeste do Brasil. Considerando-se os dados da FAO para 1998, de que 1,7% da carne consumida no mundo era a caprina e comparando-se esse valor com o consumo total de carne do Brasil (70,34 kg), apresentado nessa mesma fonte, chega-se a um consumo estimado de 1,20 kg/habitante/ano. Vale ressaltar que os dados da FAO representam uma média mundial, que considera países com grande tradição na caprinocultura mas também países onde essa espécie praticamente não existe, o que o torna uma informação consistente para ser utilizada em uma situação como a proposta. Considerando-se a seguir os dados do IBGE (1999), de que em 1996 a população humana da região Sudeste do Brasil era de 67,0 milhões e comparandose com esse consumo estimado (67 milhões x 1,20 kg), chega-se a um consumo potencial de 80,4 milhões de kg de carne caprina ao ano. Considerando-se carcaças de 12 kg, para atender essa demanda deverão ser abatidos 6,7 milhões de cabeças (80,4 milhões / 12) ao ano. Para estimar o rebanho necessário para produzir essa quantidade de carne, foram utilizados os seguintes índices de desempenho: fertilidade de 90%, prolificidade de 1,5, mortalidade de 10% e taxa de reposição de 20%. Com esses índices, para alcançar esse abate seria necessário um rebanho de 4,7 milhões de cabras. Segundo o IBGE (1999), o rebanho dessa região é de 120.754 cabeças... Porém, quando se avalia os dados do IBGE (1999) em relação ao consumo per capita de carne caprina no Brasil, observa-se que ele é praticamente o mesmo há quatro décadas (Figura 2). Para se ter um parâmetro de comparação, foi feita uma comparação com a carne de peru, cujo consumo também não faz parte da cultura do brasileiro, é consumida basicamente em festas e ocasiões especiais e apresenta uma carcaça de tamanho similar. Verifica-se um comportamento completamente diferente: há 40 anos, consumia-se três vezes mais carne de caprinos do que de peru; hoje esse quadro se inverteu e consome-se três vezes mais carne de peru do que carne caprina.

Figura 2. Evolução do consumo de carne de caprinos e de peru, no Brasil, em kg por pessoa ano, desde 1961, segundo a FAO (1998). A criação de peru vem se transformando de maneira expressiva. Em termos de tecnologia, houve uma grande evolução no manejo em geral; o melhoramento genético foi direcionado para as exigências do consumidor e desempenho, obtendose uma ave com mais peito e coxa e que fica pronta mais rápido. Do ponto de vista de apresentação para o consumidor, desenvolveram-se cortes e outros produtos. Além desses aspectos, houve um importante trabalho de marketing. Considerações finais Para que a caprinocultura de corte se desenvolva e alcance o almejado espaço como uma relevante atividade pecuária, muitos problemas devem ser considerarados. Esperar que um entusiasmo momentâneo seja capaz de gerar resultados similares talvez seja um certo excesso de otimismo. Porém, pode representar o estímulo necessário para que se de inicio a um trabalho verdadeiramente sério, profissional e, acima de tudo, contínuo, pois os resultados esperados não serão obtidos a partir de iniciativas isoladas e de curta duração: devem ser implantadas estratégias de curto, de médio e de longo prazo e resultados consistentes só serão obtidos após algum tempo de trabalho. A atividade vem passando por um bom momento: nunca despertou tanto interesse e os investimentos nunca foram tão altos. Desse momento há dois caminhos possíveis: um, imediatista, onde se aproveitará o máximo dessa situação até que ela se altere e a atividade volte ao esquecimento; o outro, que é a preferência do autor, onde se valha desse momento como estímulo para impulsionar todas as modificações necessárias para que o setor se torne técnica e economicamente sustentável, o que o tornará uma atividade atraente e rentável por muito mais tempo.