TURMA EXTENSIVA AOS SÁBADOS Disciplina: Direito Civil Professor: Cristiano Chaves Data: 12.12.2009 MATERIAL DE APOIO PROFESSOR CONTRATOS EM ESPÉCIE II Prof. Cristiano Chaves de Farias O CONTRATO DE DOAÇÃO 1. Noções conceituais: idéia de liberalidade e natureza contratual. É a transferência de patrimônio e vantagens para outra pessoa (CC 538) 2. Características: a) natureza negocial; b) animus donandi (intenção de praticar liberalidade); c) transferência de bens ou vantagens; d) aceitação de quem recebe (expressa ou tácita ou pelo silêncio, salvo quando houver prazo CC 539). Conjugação de elemento subjetivo e objetivo. É contrato benéfico (por isso, a interpretação é restritiva CC 114). É contrato solene (salvo doações de móveis de pequeno valor, CC 541, P. Único), consensual (salvo doação manual móveis pequeno valor (pequeno valor depende do patrimônio do doador STJ, REsp.155.240/RJ, rel. Min. Pádua Ribeiro), que exige tradição), gratuito (salvo onerosa) e unilateral (salvo modal/com encargo). Doador não responde por vícios redibitórios, evicção e juros (salvo nas doações remuneratórias e nas doações para casamento com certa pessoa CC 552, 2 a parte). 3. Promessa de doação. Discussão doutrinária e jurisprudencial. Com CC 461, admitese (ex: separação e divórcio). 4. Elementos do contrato: sujeito, objeto, consentimento e forma. 4.1. Sujeito: doador e donatário. Exige-se plena capacidade. Não se admite doação por incapaz, sequer assistido/representado. Não pode tutor/curador doar bens do curatelado/tutelado (CC 1.749 II). Pais não podem doar bens dos filhos, salvo com autorização judicial (CC 1.691). A questão do pródigo. Maioria entende ser anulável, em face da sua incapacidade. A doação do falido/insolvente e a caracterização de fraude contra credores. Marido e mulher podem doar bens particulares; bens comuns só com consentimento do outro (descabimento de suprimento judicial).
Doação ao nascituro (CC 542), depende da aceitação do representante e fica sob condição suspensiva. Impossibilidade de doação ao embrião laboratorial (possibilidade de testamento em favor de prole eventual). Proibições: i) CC 550: doação à concubina. Anulável, prazo 2 anos. ii) tutor e curador não podem receber doação do tutelado/curatelado. 4.2. Objeto: qualquer bem, inclusive incorpóreo. Pode incidir sobre direitos reais e universalidades. Qualquer bem com conteúdo patrimonial. Não podem bens futuros. Não se admite doação de herança de pessoa viva (CC 426). Admite-se doação em prestações periódicas. De regra, extingue-se morrendo o doador, salvo disposição contrária. Não pode ultrapassar a vida do donatário (CC 545). Tem natureza de alimentos voluntários, mas não admite prisão civil para a sua execução. Admissibilidade de imposição de cláusula de fideicomisso, quando se tratar de doação condicional. Obs. a questão da doação de órgãos (CC 13 e 14 e Lei nº9.434/97). 4.3. Mútuo consentimento: declaração de vontade. Admite procurador, com poderes específicos. Exige-se aceitação. Pode ser tácita, expressa, presumida (CC 539, pelo silêncio. Não admitida para doação com encargo) e ficta (CC 543, para o incapaz). Pode ser revogada imotivadamente antes da aceitação, por não ter se aperfeiçoado o contrato. A morte ou ausência do donatário antes da aceitação, descaracteriza a avença. A questão da doação para casamento com certa pessoa. Permissão pelo CC 546. Dispensa aceitação (que é a própria celebração do casamento) e a eficácia depende da celebração. Crítica. 4.4. Forma: escritura pública ou particular. Pode ser verbal na doação manual. 5. Situações especiais de doação. 5.1. Doação pura e simples; 5.2. Onerosa (com condição, com encargo/modal ou gravada). Suspende a aquisição ou o exercício. O encargo pode ser imposto em favor do doador, de terceiro ou da coletividade. O Ministério Público pode exigir o seu cumprimento, após a morte do doador, caso este não o tenha feito em vida. 5.3. Remuneratória (feita em retribuição a serviços prestados pelo donatário, mas sem exigibilidade de pagamento). 5.4. Mista (inserção de liberalidades em outros contratos, como a compra e venda a preço vil. Preponderará uma categoria, cujas regras nortearão a espécie). 5.5. Contemplativa (em contemplação ao merecimento do donatário). Ocorre quando o doador o faz por alguma virtude do donatário a inexistência do motivo não invalida ou retira a eficácia da doação CC 540. Pode ser em contemplação a casamento futuro (CC 546) perderá a eficácia se o casamento não se realizar.
5.6. Conjuntiva (em favor de duas ou mais pessoas. Presume-se distribuída em cotas iguais, salvo disposição contrária CC 551). 5.7. De ascendente para descendente (CC 544): antecipação de herança, salvo disposição expressa em contrário. 5.8. Inoficiosa (CC 549). Excede o limite disponível. Nula na parte que exceder. 5.9. Universal (CC 548). Nula. Teoria do patrimônio mínimo. Possibilidade de aplicação de redução parcial da invalidade (CC 184). 5.10. Com cláusula de reversão (CC 547). Retorno do bem doado se o doador sobreviver ao donatário. Não é eficaz cláusula de reversão em favor de terceiro. É caso de propriedade resolúvel. 5.11. Para entidade futura (CC 554). Caducará se a entidade não for constituída em 2 anos. 6. Restrições à doação: devedor insolvente; parte inoficiosa; doação universal; em favor de concubina; 7. Revogação da doação. Não confunde com anulação. Não podem ser revogadas as doações puramente remuneratórias; onerosas, com encargo já cumprido; por obrigação natural ou por casamento determinado (CC 564). Descumprimento do encargo: se havia prazo, mora automática; sem prazo, exige-se constituição em mora. Força maior/caso fortuito, isentam a mora. Ingratidão: rol taxativo do CC 557? Enunciado 33 da Jornada de Direito Civil entendendo que não. A ação é personalíssima. Prazo de 1 ano. Os herdeiros podem prosseguir na ação. Exceção: homicídio do doador. Efeitos ex nunc da sentença revocatória (preservam-se os interesses de terceiros de boa-fé). Aplicação prática: * (MP/RJ, 02) Quais os efeitos jurídicos decorrentes do descumprimento do encargo? * (MP/PA, 00) Pode ser revogada por ingratidão a doação, se o donatário cometeu homicídio doloso contra o doador? O CONTRATO DE LOCAÇÃO 1. Noções conceituais: uma parte se obrigando a ceder algo por tempo determinado e a outra podendo utilizar a coisa, mediante retribuição (CC 565). 2. Classificação: é bilateral; oneroso; comutativo; consensual (salvo locação de imóveis urbanos); trato sucessivo. 3. Elementos
3.1. Objeto: bens infungíveis (móveis ou imóveis). Se fungíveis, somente locação para ornamentação. Exclui-se da disciplina da locação os imóveis urbanos (Lei nº8.245/91, exceto os imóveis indicados no art. 1 o, Parágrafo Único). 3.2. Preço: indicação das partes, inclusive reajustes (salvo indicação governamental). Pode ser fixado em dinheiro ou outros bens. O prazo também é convencionável pelas partes. 3.3. Consentimento: expresso ou tácito. Não precisa ser proprietário. Basta ter poderes de administração (ex: usufrutuário; credor anticrético...). 4. Obrigações do locador. a) dar posse ao locatário em estado de uso, inclusive com pertenças (incluídas na locação, salvo estipulação contrária); b) garantir-lhe, durante o tempo do contrato, o uso pacífico da coisa; c) resguardar o locatário de turbações; d) responder por vícios ou defeitos anteriores à locação (CC 568). 5. Obrigações do locatário. a)não alterar a finalidade da coisa; b) dar conhecimento do locador eventuais turbações praticadas por terceiros; c) restituir a coisa, finda a locação; d) pagar o aluguel nos prazos (se não ajustados, de acordo com os costumes do lugar). Se houver uso diverso, pode gerar indenização e rescisão contratual (CC 570). 6. Prazo. Não pode ser perpétuo o contrato. Se superior a 10 anos, exige consentimento do cônjuge (Lei nº8.245/91, 3 o ) Havendo prazo estipulado, não pode o locador reaver antes do termo, senão ressarcindo perdas e danos, nem o locatário devolver, salvo pagando, proporcionalmente, a multa prevista (caso de redução proporcional CC 571 e 413). Havendo multa excessiva, cabe redução eqüitativa. Se locação de imóvel urbano, durante o contrato por tempo determinado (máximo de 30 meses), somente admite denúncia cheia (Lei nº8.245/91, 47, I a V). Finda no tempo estipulado, independendo de notificação (CC 573 e Lei nº8.245/91, 46). Havendo continuidade da posse, torna-se por tempo indeterminado, admitindo denúncia vazia, desde que com prévia notificação (mínimo 30 dias - Lei nº8.245/91, 6 o ). O aluguel será o mesmo. 7. Alienação da coisa locada. Se a coisa é alienada a terceiro de boa-fé, ele não se vincula à locação, salvo se houve registro. A questão da preferência do locatário (art. 27). Não havendo registro, não há preferência oponível a terceiros. Admite-se despejo, salvo por tempo determinado (Lei nº8.245/91, 8 o ). 8. Direito de indenização e retenção (art. 35). STJ 335. 9. Transmissão do contrato (Lei nº8.245/91, 10).A morte do locatário implica subrogação, se residencial; sucessão negocial, se comercial. Em casos de separação de fato, judicial, contratual, divórcio ou dissolução de união estável, o que permanece tem direito à sub-rogação (art. 12). 10. Deterioração sem culpa do locatário. Possibilidade de redução proporcional do valor se deteriorou sem culpa ou resolução (CC 567). Há presunção de culpa do locatário, mas ele pode se exonerar. Aplicação prática: * (MPF/96) Em caso de incêndio do prédio locado:
a) quem suporta o risco é sempre o locador; b) quem suporta o risco é sempre o locatário; c) o locatário, que a lei presume culpado, deve indenizar o locador, ainda que o sinistro decorra de vício da construção; d) a lei presume culpado o locatário, mas este pode eximir-se provando que o evento decorreu da propagação de fogo em prédio vizinho. 11. Sub-locação, empréstimo ou cessão dependem de autorização do locador (Lei nº8.245/91, 13). 12. Garantias. Caução, fiança e seguro. Nulidade se exige mais de uma. Contravenção Penal, salvo na locação por temporada. 13. Ação de despejo cumulada com cobrança de aluguéis admite purgação da mora (salvo se o locatário tiver utilizado nos últimos 12 meses por duas vezes). Apelação meramente no efeito devolutivo, se procedente o pedido. 14. Ação renovatória de imóveis comerciais (arts. 71-4) somente se o contrato é superior a 5 anos e o locatário está na mesma atividade há, pelo menos, 3 anos. Aplicação prática: * (MP/GO, 98) Sobre a locação, pode-se afirmar: a) na locação para fins residenciais, o lcoador é obrigado a pagar o prêmio do seguro de fiança; b) na locação de imóvel utilizado para fins de asilo, o contrato pode ser rescindido por falta de pagamento; c) na locação para fins comerciais, o locatário tem direito de renovar o contrato, desde que o prazo mínimo do contrato seja de 2 anos; d) a locação residencial, com duração superior a 5 anos, exige vênia conjugal. O CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS 1. Noções gerais. A questão terminológica. É contrato por meio do qual alguém, mediante remuneração, se obriga a realizar determinada atividade (obrigação de fazer). Solicitante X Executor. Tem natureza civil, quando não caracterizar relação de emprego ou de consumo (CC 593). Distingue-se do contrato de emprego, em face da inexistência de subordinação jurídica. A prestação de serviços é autônoma, visando a obtenção de resultado determinado. Distingue-se da empreitada, onde o resultado é específico. Na empreitada, tem-se por meta o resultado da atividade e não a atividade em si, que é objeto da prestação de serviços. 2. Características. É bilateral; oneroso; comutativo, causal e não solene/consensual (caso seja celebrado por escrito, pode ser assinado a rogo, na presença de 2 testemunhas CC 595). De regra, é personalíssimo (CC 605). É possível a substituição das partes, com o consentimento da contra-parte. Não caracteriza terceirização. O objeto da prestação de serviços é amplo: toda a espécie de serviço ou trabalho lícito (CC 594). A prestação de serviços pode ser genérica ou específica. No silêncio do contrato, presume-se que o prestador se obrigou a todo e qualquer serviço compatível com as condições e forças (CC 601). 3. Remuneração (também chamada de honorários, preço ou salário). Somente será dispensada por expressa disposição. Caso não seja estipulada, o juiz fixará de acordo com os costumes do lugar, o tempo despendido e a sua qualidade (CC 596). A remuneração pode ser por período determinado ou por serviço.
O pagamento pode ser antecipado ou diferido. No silêncio do contrato, é diferido (CC 597). Há possibilidade de compensação da remuneração no caso de ausência de habilitação do prestador de serviços (CC 606). Requisitos: i) benefício propiciado ao tomador de serviços (proibição de enriquecimento sem causa); ii) depende da boa-fé. A questão da lei de ordem pública. 4. Prazo de duração. Não pode exceder 4 anos (CC 598). Não havendo prazo, deve-se inferir pela natureza do contrato ou costumes do lugar (ex: prestação de serviços agrícolas, tem o prazo da colheita). A falta de prazo, permite às partes a resilição unilateral (denúncia), mediante aviso prévio (CC 599, Parágrafo Único), que materializa a boa-fé objetiva. Prazos de aviso prévio: i) 8 dias, se o salário for ajsutado por mês; ii) 4 dias, se o salário for por semana ou quinzena; iii) de véspera, quando o salário for por prazo menor do que 7 dias. Violado o aviso prévio, gera indenização. É possível a continuidade, por renovação contratual. Essa continuidade não caracteriza, por si só, relação empregatícia (ex: escritório de advocacia). Não contagem do prazo em que o prestador de serviço, por culpa sua, deixou de servir (CC 600). Não havendo culpa, o prazo é contado (ex: licenças médicas). 5. Obrigações recíprocas. i) Obrigações do executor: realizar o serviço; guardar segredo; ii) Obrigações do solicitante: pagamento; fornecer condições mínimas de proteção e de desenvolvimento da atividade. 6. Prestação de serviços regulada pelo CDC. Responsabilidade objetiva, salvo quando se tratar de profissional liberal (CDC,14, 4º). 7. Aliciamento do prestador de serviços (CC 608). A aplicação da função social do contrato. Terceiro lesante e mitigação do princípio da relatividade dos efeitos do contrato. Emprego. 8. Competência da Justiça do Trabalho (EC 45). Justiça do Trabalho e não Justiça do 9. Extinção do contrato (CC 607): i) morte das partes; ii) escoamento do prazo; iii) conclusão do serviço contratado; iv) resilição mediante aviso prévio; v) inadimplemnto; vi) impossibilidade de continuação. Direito do prestador à certificação (CC 604). O CONTRATO DE EMPREITADA 1. Noções gerais. É o contrato em que uma das partes se obriga a realizar um obra específica e determinada, por si ou por terceiro, mediante remuneração e sem relação subordinativa. Não se confunde com a prestação de serviços: i) porque o objeto é a obra em si e não a atividade do prestador; ii) não há fiscalização e direção do dono da obra; iii) os riscos, de regra, correm pelo empreiteiro. 2. Características. É bilateral; oneroso; comutativo e não solene/consensual.
3. Espécies. Quanto à execução: i) empreitada de lavor (o empreiteiro apenas executa a obra); ii) empreitada mista ou de trabalho e materiais (além de executar a obra, o empreiteiro utiliza material próprio). A distinção reside nos riscos pelo perecimento/deterioração da coisa (CC 612). Na primeira, os riscos são do dono da obra. Na segunda, são do empreiteiro, salvo se o dono estiver em mora de receber a obra (hipótese em que os riscos serão divididos). Quanto ao modo de fixação do preço: i) a preço fixo, absoluto ou relativo (CC 619); ii) por medida (CC 614); iii) de valor reajustável; iv) por preço máximo; v) por preço de custo. 4. Direito de retenção pelo empreiteiro. física. 5. Competência da Justiça do Trabalho quando se tratar de empreiteiro-pessoa 6. Responsabilidade do empreiteiro. Empreiteiro responde pela perfeição da obra. Aplicação das regras dos vícios redibitórios. Prazo de 1 ano para reclamar defeitos ocultos. Se o defeito afetar a segurança ou solidez da obra, aplica-se o prazo de 5 anos (CC 618). Prazo de ordem pública: pode ser ampliado, mas não diminuído. Natureza de prazo de garantia. Prazo decadencial de 180 dias para propor a ação, depois da descoberta do defeito.