Empreendedorismo: oportunidade de educação para o turismo Ao planejar e coordenar a sua diferenciada gama

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1 A única verdadeira viagem não seria viajar por centenas de diferentes países com o mesmo par de olhos... mas ver a mesma terra através de uma centena de diferentes olhos Marcel Proust

2 PALAVRA DO PRESIDENTE Empreendedorismo: oportunidade de educação para o turismo Ao planejar e coordenar a sua diferenciada gama de atividades em regiões distintas do Brasil, o Instituto Souza Cruz tem estado atento aos princípios do desenvolvimento sustentável, com interesse particular em sua vertente educacional. Os resultados positivos nos têm dado alento para prosseguir e a presente edição da revista Marco Social destaca mais uma área em que temos trabalhado com afinco. Trata-se da Educação para o Turismo, no contexto da qualificação de profissionais que venham a trabalhar neste importante setor hoje responsável por nada menos que 8% dos empregos e por 11,9% do PIB mundial, de acordo com dados do WTTC Conselho Mundial de Viagens e Turismo. Ações educativas como as que mostraremos nas páginas a seguir representam a esperança de que as novas gerações 2

3 desenvolvam habilidades específicas e ajudem o nosso País a aproveitar, em um futuro próximo, o seu imenso potencial turístico. As discussões sobre o tema têm mantido o foco na perspectiva do turismo como atividade socioeconômica integrada ao meio ambiente. Neste sentido, o ecoturismo é bem mais do que um simples filão de negócios, pois embute a possibilidade de envolvimento e desenvolvimento das comunidades em que está presente. Paralelamente, os pequenos hotéis, pousadas e resorts estão atentos e têm oferecido serviços mais condizentes com as reais possibilidades turísticas do País. Contudo, convém frisar que o potencial brasileiro é extraordinário e há muito a se fazer para alcançarmos uma situação ideal. Da segurança à infra-estrutura de serviços, temos potencial de oferecer muito mais. Ciente do quadro promissor e das lacunas existentes, o Instituto Souza Cruz aposta na Educação para o Turismo como uma área de grandes realizações. Hoje, no Brasil, cerca de 2,1 milhões de estabelecimentos turísticos empregam aproximadamente 25 milhões de pessoas, de acordo com dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Com trabalho, poderemos ajudar nosso País a aumentar esses números. Flavio de Andrade Presidente do Instituto Souza Cruz 3

4 ÍNDICE 2 Palavra do Presidente Flavio de Andrade destaca aposta do Instituto Souza Cruz no turismo sustentável IDÉIAS 14 Turismo e as eleições de 2002 Silvio Barros alerta que os presidenciáveis não podem ignorar importância do setor ORGANIZAÇÃO & AÇÃO 38 Programa qualifica o turismo brasileiro Sergio Foguel descreve exemplos de sucesso com a certificação profissional 6 Educação, turismo e desenvolvimento sustentável Antonio Carlos Gomes da Costa analisa o desafio educacional para o setor turístico 20 Planejamento integrado e sustentabilidade do turismo Carmélia Anna Amaral comprova necessidade de se desenvolver ações planejadas HELCIO NAGA 8 A economia do turismo no Brasil Beatriz Helena Gelas Lage destaca os aspectos econômicos da atividade no País LUCIANO MATTOS BOGADO 26 Educação em turismo no Brasil Especialização e motivação são temas abordados por Marilia Gomes dos Reis Ansarah 32 Um caminho para a cidadania Adyr Balastreri Rodrigues prega o fortalecimento da auto-estima nas comunidades turísticas Pescadores no litoral paulista 44 Desvendando a Mata Atlântica Pólo de Lagamar, em São Paulo, o pioneiro no ecoturismo brasileiro 52 Ecoturismo na Amazônia Projetos comunitários preservam a natureza e garantem a sustentabilidade da população

5 ARQUIVO DO PROJETO TRAJETÓRIA & VISÃO 82 Desenvolvimento sustentável em foco Turistas se integram ao ambiente Instituto Souza Cruz implementa projetos em comunidades carentes 62 Natureza revalorizada Preservação ambiental salvou pequena ilha em Santa Catarina 68 Fundação sertaneja vira atração Tecnologia e tradição unidas no interior do Ceará 86 Ensino de excelência MBA em turismo capacita profissionais de diferentes áreas de atuação 90 Exemplo de luta contra a miséria Instituto Souza Cruz e Instituto de Hospitalidade firmam parceria na Bahia LUCIANO MATTOS BOGADO 74 Novas diretrizes curriculares MEC define mudanças para cursos de Turismo MARCO ANTÔNIO REZENDE LUCIANO MATTOS BOGADO Artigos produzidos por moradores da Costa do Sauípe (BA) Estátua do Cristo domina a paisagem em Silves Artesanato popular é atração em Nova Olinda (CE) 5

6 APRESENTAÇÃO Educação, turismo e desenvolvimento sustentável O desafio de transformar o Brasil numa potência turística estruturada no marco do desenvolvimento sustentável neste início do século XXI tem várias faces. Uma delas de enorme transcendência econômica, social, cultural e ambiental é, sem dúvida alguma, a educação. O desafio educacional é aquele que, se não for compreendido de forma clara e enfrentado de modo articulado e conseqüente, poderá relativizar e até mesmo inviabilizar os esforços desenvolvidos em relação a outros aspectos desta questão estratégica para o desenvolvimento econômico e social do Brasil. Se observarmos o desafio educacional do turismo em toda sua inteireza e complexidade, veremos claramente que ele não se HELCIO NAGA resume à preparação de pessoal dirigente, técnico e operativo para tocar o dia-a-dia da cadeia de empreendimentos diretamente envolvida nesta atividade. Trata-se de algo muito mais amplo. A tarefa com a qual o Brasil hoje se confronta nesse campo implica a articulação de uma ação educativa que abrange um conjunto variado de âmbitos de atuação. É necessário educar operadores, técnicos e dirigentes para atuar ao longo de toda a cadeia produtiva do turismo. Este é o aspecto mais evidente dessa questão. Por outro lado, é preciso também educar o turista, para que sua presença não tenha impactos indesejáveis sobre as condições ambientais e sociais da comunidade que o acolhe. Porém, é preciso reconhecer que isto ainda não é o bastante. Faz-se necessário incentivar e desenvolver através de um esforço consistente no campo da pedagogia social uma cultura de hospitalidade nas populações locais, de forma a criar uma ambiência sociocultural propícia ao florescimento da atividade turística. Finalmente, é preciso ter em mente que, para que tal propósito se viabilize, torna-se uma exigência inarredável um forte empenho no desenvolvimento, nos decisores públicos e privados nesse campo, da sensibilidade, consciência e competência necessárias para que o turismo não seja pensado de forma parcial, reducionista e inconseqüente, mas como parte da totalidade solidária e complexa do processo de desenvolvimento local integrado e sustentável. Para tornar realidade esta visão sistêmica da questão, faz-se necessário que esses quatro grandes atores do processo de desenvolvimento do turismo formem uma autêntica comunidade de sentido, no sentido que Bernardo Toro atribui ao termo. Para Toro, uma comunidade de sentido se estabelece quando qualquer grupo humano se revela capaz de compartilhar um entendimento comum acerca de um determinado aspecto da realidade, de posicionar-se em relação a ele de forma coesa, ou seja, com pessoas, grupos e instituições unidos por crenças, valores e sentimentos comuns e, finalmente, atuar frente às situações concretas de modo convergente e complementar, mantendo constância de propósito ao longo do tempo. O grande fator de que depende a geração e mobilização de uma comunidade de sentido reside na capacidade dos diversos atores econômicos, sociais e políticos de produzir um imaginário social convocante em relação àquele aspecto da realidade que se pretende transformar. No Brasil, nosso grande desafio é criar e viabilizar comunidades intersetoriais capazes de articular e fazer acontecer 6

7 nos níveis nacional, estadual e local um novo modelo de educação para o turismo estruturado no marco do compromisso maior com o desenvolvimento local integrado e sustentável. Para tanto, como em todos os grandes desafios brasileiros, será necessário construir novas equações de co-responsabilidade, envolvendo as três grandes comunidades relacionadas à questão da educação para o turismo: a comunidade que decide, a comunidade que estuda e a comunidade que opera no dia-a-dia em cada uma das etapas do ciclo de desenvolvimento do negócio. O objetivo educacional em relação à comunidade que decide (dirigentes públicos e privados da área do turismo) é sensibilizá-la, conscientizá-la, comprometê-la e mobilizá-la na construção de um modelo de turismo ambiental, econômico, social, cultural e politicamente sustentável. Sustentabilidade ambiental, que se traduza no compromisso de cada geração legar às gerações vindouras um meio ambiente igual ou melhor do que aquele recebido das gerações anteriores. Sustentabilidade econômica, que se mostre eficiente e eficaz na geração de trabalho e renda em quantidade suficiente para incorporar uma parte importante do contingente de jovens, que todos os anos demandam da nossa economia oportunidades de ingresso na esfera produtiva. Sustentabilidade social capaz de assegurar condições de saúde e educação básica e profissional para as novas gerações, de modo a produzir jovens aptos a aproveitar plenamente as oportunidades abertas no front econômico. Sustentabilidade cultural enquanto compromisso de cada geração, não só de manter, mas de enriquecer e desenvolver o legado cultural das gerações passadas, acrescentando a ele o contributo de seu próprio tempo. Sustentabilidade política entendida como continuidade das políticas em horizontes temporais, que extrapolem o curto prazo dos mandatos políticos. Para isso, é necessário que as políticas públicas sejam formuladas com a participação das forças vivas da sociedade e implementadas de forma transparente e aberta ao controle dos cidadãos individualmente ou por meio de suas organizações representativas. O objetivo educacional junto à comunidade que estuda a educação para o turismo no marco do desenvolvimento sustentável no Brasil em universidades, agências formadoras e centros de pesquisa é envolvê-la e comprometê-la, não só com a imprescindível problematização desta realidade, mas com a produção de soluções viáveis para os impasses e dificuldades que se apresentam no dia-adia dos dirigentes, técnicos e pessoal operativo que atuam na área. Finalmente, o objetivo educacional junto à comunidade que opera nessa área (os homens e mulheres que diuturnamente fazem funcionar a multitude de organizações envolvidas na cadeia produtiva dos serviços ao turista) é, não só uma educação técnico-profissional de qualidade, mas também e fundamentalmente uma educação para valores capaz de enraizar e desenvolver em cada trabalhador o espírito de servir natural a todos aqueles que atuam neste ramo. É da correta articulação dessas três comunidades que devem partir as iniciativas para a educação das comunidades, dos destinos e dos próprios turistas. Em relação às populações que vivem em tais áreas, o desafio consiste em utilizar os recursos pedagógico-sociais necessários para o florescimento de uma cultura da hospitalidade, ou seja, uma maneira de ver, viver e conviver com os visitantes que seja presidida pelos valores da acolhida, do respeito às diferenças, da cordialidade no trato, da ética nas transações comerciais, do respeito ao ambiente e aos costumes de cada um. É da circulação desses significados nas relações humanas, sociais e profissionais que nasce a ambiência propícia ao desenvolvimento sustentável da atividade turística. O Instituto Souza Cruz ingressa no campo da Educação para o Turismo como uma organização com causa, ou seja, uma instituição que pretende advogar ética, política e socialmente os pontos de vista e os interesses de todos os que atuam nesta área comprometidos com a perspectiva do desenvolvimento sustentável. Em razão deste compromisso, o Instituto tem atuado na mobilização de pessoas, grupos e instituições cuja atuação possa resultar em ações criativas, críticas, construtivas e acima de tudo solidárias com o ideal de desenvolver o turismo no Brasil no marco das cinco sustentabilidades aqui elencadas. Para concretizar e expressar esse compromisso assumido em sua missão institucional, a estratégia educacional do Instituto Souza Cruz compreende o apoio ao desenvolvimento de ações no terreno (programas de atenção direta), que, depois de devidamente acompanhadas e avaliadas, deverão ter seus conceitos e práticas sistematizados e divulgados, de modo a gerar novas iniciativas e melhorar as já existentes. Tais ações além de marcar diferença e gerar impactos significativos em seus destinatários deverão mostrar-se capazes de agregar valor à causa da educação para o turismo no marco do desenvolvimento local integrado e sustentável. 8 Antonio Carlos Gomes da Costa Pedagogo, consultor, diretor-presidente da Modus Faciendi 7

8 FOTOS ADI LEITE A economia do turismo no Brasil Beatriz Helena Gelas Lage * Aciência econômica é árida, cheia de números, estatísticas, projeções e modelos, mas pode ser compreendida de forma simples, clara e inteligente por todos nós. A economia aplicada ao turismo é a maior prova disso. E o Brasil é um excelente caso de estudo. Apresentação A economia do turismo é estudo obrigatório na educação do turismo. No mercado turístico o ato econômico é intensamente praticado e, ao nosso redor, tudo gira por causa dele. O ensaio apresentado deve servir para que os leitores, nem sempre economistas, mas com certeza consumidores e/ou produtores de turismo, reflitam sobre a grandeza do processo econômico que o turismo representa junto aos agentes envolvidos, destacando um alerta na avaliação real de seus efeitos e sugerindo 8

9 responsabilidade planejada em futuras ações com prioridade nos recursos humanos para alcance do almejado desenvolvimento sustentável. 1. Visão geral da economia do turismo A evolução histórica do que hoje se chama de turismo acompanha a humanidade desde os seus primórdios. Seja na busca de alimentos, condições climáticas, curiosidade, cultura, lazer, interesses comerciais e outros, o deslocamento humano sempre ocorreu em todas as partes do globo terrestre, e continua acontecendo com nova exterioridade na sociedade capitalista moderna. No passado e no presente dessa atividade temporária, mesmo sem saber, seus atores estão sempre atuando direta e indiretamente na economia, assumida como o estudo de como os homens decidem empregar recursos escassos para satisfazerem às suas necessidades ilimitadas. Associada a tal definição, convencionou-se chamar de turismo essa manifestação de necessidades, primárias e secundárias, o que nos parece na atualidade bem impróprio já que seu entendimento ligado aos negócios deixou de ser apenas algo associado a divertimento, lazer e férias. O nome fica em aberto para as novas gerações decidirem como definir essa grandiosa atividade econômica, que mundialmente é representativa de uma riqueza infinita, dimensionada em milhões de viajantes e trilhões de dólares, segundo fontes oficiais. Enfim, no momento que os homens produzem e consomem tipos diferentes de viagens com igualmente distintos: pacotes turísticos, agenciamentos, hospedagens, transportes, alimentação, entretenimentos e outros elementos, há a formação de uma cadeia gigante de inúmeras variáveis associadas a um sistema global que, de um lado, maximiza objetivos empresariais, e por outro atende a satisfações humanas. Esse volume de interesses heterogêneos é chamado de economia do turismo, que ramificada em micro e macroeconomia faz parte do estudo da ciência econômica. Tudo está ligado à economia do turismo. Mesmo segmentadas, todas as viagens motivadas por públicos diferenciados têm fundamentação econômica pela demanda, satisfazem a necessidades ilimitadas; e, pela oferta, atendem a interesses de lucratividade. É absolutamente natural, saudável, fortifica o bem-estar das populações e gera muita riqueza para o País ou região que a explora devidamente. Na atualidade, em termos domésticos, a atividade global do turismo brasileiro apresenta uma produtividade de quase US$ 60 bilhões (WTTC Conselho Mundial de Viagens e Turismo) com reflexo em todos os setores econômicos, abrangendo atividades diretas e indiretas, com perspectivas de expansão. É um mercado fantástico de 11 mil agentes de viagens, incluindo os corporativos, 600 operadoras turísticas com mais de 50 fornecedores de transporte aéreo, 2 mil locadoras e 18 mil meios de hospedagem, considerando 6 mil hotéis, 2 mil pousadas e 10 mil flats (base: 2001). Mas para tudo sempre existe um preço. Aliás, preço é uma palavra mágica na economia e, em qualquer circunstância, todo turismo só é produzido, e conseqüentemente consumido, mediante um valor econômico, sujeito a restrição orçamentária. O segredo está em descobrir quanto isso representa de forma que as empresas (privadas e públicas) sejam devidamente remuneradas e as pessoas envolvidas (turistas, comunidade) possam ser atendidas em seus intermináveis anseios e necessidades. Aliás, a prática atual brasileira acabou com o sonho de empresas com margens gordas de lucro e inchadas de pessoal. A fase de que os custos definem o preços terminou. Hoje é o público consumidor quem define o que quer, quanto pode pagar pela sua renda (poder aquisitivo), indiretamente estabelece os custos das empresas de turismo e, conseqüentemente, os preços dos produtos de bens e serviços turísticos. Observa-se que esses preços são igualmente diversificados em função de períodos sazonais, férias, câmbio, política, modismo e outras variáveis. Mesmo em países industrializados como a França, a número 1 nos fluxos de visitantes, os preços no turismo sofrem alterações em situações diversas, como o exemplo mais recente, em 2001, com a conversão da moeda francesa para o euro, quando o setor hoteleiro sofreu um aumento inflacionário de 5,1% e o setor alimentício de 3,5%, enquanto para o conjunto de todas atividades econômicas a inflação anual do país foi de 1,4%. t 9

10 2. Impactos econômicos e turismo na sociedade moderna Temos que ser conscientes. É ingênua a visão de turismo, numa economia como a brasileira que produz e que consome esse volume de negócios, sem causar mal de qualquer espécie. O próprio movimento do turismo, no Brasil e no mundo, é afetado em razão de diferentes situações (crises, por exemplo, energética, de desvalorização do real com relação ao dólar, ataques terroristas, epidemias da dengue etc.). Vejam que em 2001 os deslocamentos mundiais registraram um declínio de 1,3% e o número de chegadas internacionais representou um volume de 688,5 milhões (Organização Mundial de Turismo), fato inédito na história do turismo, derivado do atentado terrorista nos Estados Unidos. Quando uma atividade econômica gera um novo produto, por exemplo, um complexo turístico, um resort ou um parque temático, é evidente que os impactos são bilaterais. Normalmente os estudos econômicos apontam diversos aspectos positivos como a possibilidade de emprego, a geração de renda, o aumento de divisas, o combate à pobreza, o efeito multiplicador (por vezes uma faca de dois gumes, quando o turismo requer de importação), a ampliação da infra-estrutura, a criação dos serviços e comércio, além de outras variáveis que, no caso do Brasil, atuam de forma completamente diferente de região para região. Mas nem sempre os efeitos negativos são alertados. Os transtornos para a população, a poluição ambiental e sonora, a ausência de legislação específica, a infra-estrutura inadequada, o excessivo uso de água (piscinas, fontes e banhos), o acúmulo do lixo (produtos químicos, detritos), a prostituição, a violência, o congestionamento (ônibus, carros), a ausência de alimentos, as enormes filas (teatros, museus, restaurantes) etc. Em termos econômicos, ainda deve-se acrescer a inflação, as variações cambiais, os altos impostos e taxações que inibem atividades importantes como o turismo marítimo brasileiro (viagem não mais exclusiva de rico) que, na última temporada chegou a transportar 170 mil passageiros por 7,5 mil quilômetros do litoral e 32,5 mil quilômetros de vias navegáveis internas, bem como a necessidade de importação, a especulação imobiliária, os riscos de investimentos, a deterioração e a perda de bens essenciais, únicos e em extinção. Temos exemplos dessa natureza em muitas regiões brasileiras (Amazônia, Pantanal, Nordeste) e, como cada vez mais isso vem acontecendo, obriga-nos a manter cautela e conscientização das autoridades responsáveis sobre o futuro da economia do turismo que, antes de tudo, deve incorporar uma imprescindível legislação específica para cada caso e em cada situação. Mas quem pode ser responsabilizado por tudo isso? O turismo, normalmente mocinho e vilão, não pode ser culpado pela decisão econômica. É o homem quem decide empregar seus recursos e resolver os problemas econômicos vitais de para quem, como e o que produzir. É também problema permanente da raça humana decidir a forma pela qual a sociedade realiza a tarefa de organizar suas atividades de consumo, de produção e distribuição. Sem dúvida é a economia do turismo, tratando da vida real que nos envolve, quem deve examinar a parte da atividade socioeconômica e promover as condições do bem estar das populações na tentativa de corrigir os desvios, pesando os custos e benefícios que cada atuação pode ocasionar. É óbvio que ninguém faz uma omelete sem quebrar o ovo, mas é preciso saber como isso deve ser feito. O estudo da economia do turismo é altamente significativo porque possibilita uma visão ampla em todos seus aspectos de maneira que possamos ter conhecimento da importância de que, quando recursos escassos são destruídos, mesmo para o bem-estar social, como quando uma árvore é derrubada para que seja construído um resort, estejamos atentos para que novos outros recursos sejam criados. É dever humano a preocupação para com os recursos escassos e, hoje mais do que nunca, com o avanço tecnológico inexistente nos conceitos de Adam Smith, a prática do turismo é inconcebível sem a conscientização social, do planejamento, do desenvolvimento sustentável e da avaliação econômica dos impactos ambientais, culturais, políticos e outros efeitos derivados da prática moderna. Está na mão do homem a prática da economia do turismo, e só ele pode estabelecer prioridades nas decisões de uso dos meios empregados para atender ao bem-estar de todos. Lembrando o paradoxo da parcimônia da economia, nem sempre o que é bom para um atende aos interesses de todos e, no caso, também são os homens que devem ponderar sobre o poder dessa decisão. 10

11 Para cada qual, um modelo especial em acordo com as características que melhor se adaptem às especificidades socioeconômicas da terra, do povo, da cultura e da política. O caso brasileiro é um exemplo de modelo onde poucos detêm muita riqueza e muitos, a maioria da pobreza, senão a miséria. Segundo o World Development Report 2000/2001, afirmamos que a renda per capita do brasileiro é de US$ Poderíamos até, com alegria, julgar que na média a situação brasileira vai bem. Isso não é verdade. A mesma fonte divulga o índice Gini que mede a concentração de renda e, no Brasil, este indicador é de 60%, só perdendo para Serra Leoa (62%), revelando um quadro injusto onde 1% dos ricos consomem mais do que a metade da população brasileira. Sem dúvida, as viagens estão longe do sonho desse segmento social, mas sempre devemos ter esperança de que a economia do turismo venha a ajudar a classe menos favorecida em termos de emprego e renda, privilegiada também pela riqueza natural, cultural, patrimonial e pródiga em atrativos turísticos. Os empregados no turismo hoje representam 6% da população economicamente ativa (PEA), ou seja, aproximadamente 9 milhões de sua mãode-obra, e mais próxima ao padrão do turismo na França, onde é responsável por 10% do número de empregos gerados no país. Vemos com otimismo, inclusive, o panorama de captação cada vez maior do número de especialistas brasileiros ocupando atividades de trabalho onde, no passado, só estrangeiros eram selecionados. Centros de exposições, de convenções e eventos em várias localidades (não só em grandes centros urbanos, mas também em regiões de diversidades potencialmente ambientais no Centro-Oeste) vêm ocupando um espaço destinado para a realização de grandes negócios e, conseqüentemente, envolvendo mais e mais empregados. Mesmo com dificuldade e tanto para ser feito, a mão-de-obra do mercado turístico começa a se qualificar valendo-se da educação com cursos de capacitação e especialização profissional, estímulos de miniempreendimentos dirigidos ao meio rural, programas de proteção da natureza, especialmente com a participação da mentalidade jovem e de outras iniciativas mantidas por entidades éticas e conscientes que começam a despontar, dando mostras de um esforço que permite vislumbrar a projeção da indústria do turismo como uma luz pequenina brilhando no fundo de um túnel comprido. Vemos, inclusive, com otimismo o panorama de captação cada vez maior do número de especialistas brasileiros ocupando atividades de trabalho, onde, no passado, só estrangeiros eram selecionados 3. Desenvolvimento econômico e indicadores de qualidade do turismo no Brasil O conjunto das medidas anteriormente mencionadas deve caminhar para o desenvolvimento econômico do turismo, entendido como o aumento contínuo do produto nacional, incorporando bens e serviços relacionados com a atividade turística, além da melhoria da qualidade de vida da população brasileira ao longo do tempo. Esse desenvolvimento no Brasil, com uma demanda turística receptiva internacional aquém da desejada, com a chegada de menos de 5 milhões de estrangeiros, muitas vezes revelando exclusivamente um crescimento quantitativo, deve estar voltado para a prática de um turismo equilibrado onde os poucos, mas que detêm o poder econômico, devem necessariamente com o governo contribuir para que sejam criadas condições econômicas de indicadores de qualidade (escolas, moradias, hospitais, t 11

12 saneamento, aeroportos, transporte) que atendam antes de tudo a maioria das pessoas e os seus interesses vitais. Temos ainda um longo percurso ao compararmos nossa economia com a dos países desenvolvidos. Riqueza sabemos que temos, mas infelizmente as condições de formação estrutural, histórica e outras de natureza exógena criaram um panorama difícil de ser consertado em curto prazo. Nem por isso devemos desistir dessa riqueza, que necessita lapidação por uma geração consciente, capaz e que deve cuidar do futuro. O conceito de riqueza é, na verdade, a formação do produto nacional do País (PIB com ressalvas) e esse agregado macroeconômico no Brasil é da ordem de US$ 750 bilhões, representando 42% da totalidade da América Latina (2002). A participação da economia do turismo nesse quadro reflete um envolvimento direto e indireto de 8%, ou seja, os produtos criados e consumidos representam aproximadamente US$ 60 bilhões, num país colocado mundialmente em 9 o lugar de poder de compra. Valor este relativamente comparado a muitos países industriais de primeiro plano como França, Estados Unidos, Itália e Espanha líderes receptivos da economia do turismo no mundo, e dos principais emissivos como Alemanha e Japão, mas que têm uma existência histórica, bem como um tipo de turismo e uma população distintos da nossa. É incrível mas tanto um país rico como um país pobre podem se beneficiar do turismo. Antes de tudo, é preciso se valer do conhecimento econômico e, compreendendo a base dessa complexidade aplicada ao caso brasileiro, que apresenta inúmeras possibilidades de modelos econômicos, definir sobre a gestão dos recursos limitados, escolhendo quais fatores de produção (terra, capital, trabalho e tecnologia) serão utilizados para produzir os bens e serviços turísticos que mais atendam aos interesses do perfil de nossa população e dos agentes econômicos envolvidos, com especial atenção na comunidade receptora de fluxos turísticos e em todas as demais pessoas (físicas, jurídicas) que circundam o grandioso sistema, em nível público e privado. Em particular, esse crescimento e desenvolvimento econômico sobreposto ao turismo deve sempre ser fundamentado em quatro grandes pilares: recursos humanos, recursos naturais, capital e tecnologia. Como esses fatores podem ser diferentes de país para Esse crescimento e desenvolvimento econômico sobreposto ao turismo deve sempre ser fundamentado em quatro grandes pilares: recursos humanos, recursos naturais, capital e tecnologia país, para cada um é assumida uma fórmula de eficiência ideal. Visando sempre o desenvolvimento sustentável, as ações futuras no turismo brasileiro devem observar um cuidadoso planejamento com base nos quatro fatores: a) Recursos Humanos (RH) Correspondendo à quantidade de empregados e à qualificação da força de trabalho. É o elemento que mais pesa no crescimento e desenvolvimento econômico do turismo. Os bens de capital, a tecnologia e outros fatores só podem ser mantidos por mão-de-obra qualificada e treinada, e a produtividade dessa área só é favorecida com educação adequada em todos os níveis. b) Recursos Naturais (RN) Equivalendo ao meio ambiente, os recursos naturais e artificiais, como terra (solo), petróleo, gás, recursos minerais, patrimônio, clima, florestas e água. Essenciais no turismo de grande parte do verde brasileiro, pólos turísticos urbanos da região sudeste também 12

13 podem prosperar significativamente com base em setores dependentes do trabalho e capital. c) Capital (K) Incluindo as estruturas de apoio ao turismo como vias de acesso, centrais elétricas, comunicação, fábricas, computadores, componentes e equipamentos similares. Para a economia da atividade turística, acrescentaria também os investimentos chamados de infra-estruturas sociais, consistindo em planos de grande dimensão que precedem o comércio e o negócio. Normalmente são as estradas, os aeroportos, os portos, os projetos de irrigação, abastecimento de água e medidas de saúde pública necessárias na oferta turística de um pólo turístico, avaliadas nos inventários turísticos. d) Tecnologia (T) Dependente da qualidade do conhecimento técnico e científico, necessita da competência de gestão. Corresponde às alterações no processo de produção, bem como à introdução de inovações, produtos ou serviços. Dentre os exemplos mais empregados ao desenvolvimento do turismo lembramos os meios de altíssima comunicação, os microcelulares e componentes, os minicomputadores, os modernos navios (resorts flutuantes), as aeronaves de nova geração e uma infinidade de aperfeiçoamentos técnicos que produzem conforto, rapidez, especialização e eficiência ao desenvolvimento das atividades turísticas. Mas no desenvolvimento precisamos lembrar que não podemos ter tudo ao mesmo tempo. Em economia, pela escassez das condições, é preciso priorizar os objetivos, atender aos benefícios das vantagens comparativas e, gradativamente, com o crescimento equilibrado regional, buscar grandezas na qualidade das propostas e políticas definidas para atingir o progresso do mercado turístico brasileiro. 4. Mensagem final: o homem como fator econômico do turismo Teríamos muito a discutir sobre o assunto. Para tanto é preciso continuar pesquisando, educando e conscientizando as gerações sobre tema tão dinâmico, sujeito a tantas variáveis incontroláveis. Finalizamos esta análise com uma breve mensagem aos estudiosos do turismo, especialistas ou não na economia do turismo. Quer queiram ou não, tudo gira na economia, na vida do homem na Terra. Se ele escolher aplicar recursos limitados na capacitação do fator de mão-de-obra, é uma decisão econômica. A dificuldade é qual caminho seguir para o engrandecimento do turismo brasileiro. Qual a fórmula mágica da eficiência para a economia do turismo em nosso País? Sem dúvida, pelas condições territoriais extensas dos milhões de quilômetros brasileiros, características da miscigenação populacional, biodiversidade de meio ambiente, modelo de cultura e de civilização, devemos enfatizar uma preocupação fundamental com os recursos humanos, sem esquecer dos outros fatores. São eles os responsáveis pelo futuro da economia do turismo considerando prioridade na educação e cujos resultados, assim esperamos, correspondam a ótimos frutos de uma incansável colheita. No plano universal mais elevado, é sempre o homem quem escolhe o seu destino por meio da economia, e no turismo isso não é diferente. Somente o ser humano tem condições de decidir o que fazer com os recursos naturais, a formação de seu capital e o direcionamento de seu progresso tecnológico e inovador para as atividades econômicas do setor turístico, como acontece no caso brasileiro. A Riqueza das Nações ressaltava o valor e a importância do trabalho humano e hoje, mais de dois séculos passados, continuamos confirmando seus princípios perfeitamente adequados à concepção do turismo moderno. Esperamos que nesse século XXI e no futuro o mesmo homem que habita esse planeta e que convive com tudo que aqui existe possa adequar sabiamente os recursos escassos disponíveis para satisfazer a suas infindáveis necessidades, especialmente de viagens e de turismo. 8 * Beatriz Helena Gelas Lage é economista pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/ USP), professora doutora titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), orientadora de programas de pósgraduação e coordenadora do Curso de Especialização Economia do Turismo MBA/USP da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). 13

14 Turismo e as eleições de 2002 Silvio Barros * Acada ano de eleições o País tem a oportunidade de exercitar uma ampla discussão sobre as necessidades básicas da sociedade, bem como estabelecer um processo de avaliação de propostas e programas, de idéias e projetos que a classe política apresenta para conquistar a simpatia do eleitor. Talvez esta extraordinária oportunidade não esteja sendo plenamente aproveitada, mas sem dúvida percebe-se cada vez mais um envolvimento de diversas camadas da sociedade brasileira nestas avaliações e particularmente procurando articular-se de forma a expressar suas cobranças e demandas junto à classe política. Pelo menos teoricamente, o resultado do processo eleitoral deveria refletir na escolha daqueles candidatos que apresentaram as propostas mais convergentes com os anseios e necessidades da população. Aí está o marco referencial de uma sociedade madura e consciente. Na verdade, quanto mais se materialize esta situação, mais encorajados estarão os candidatos que efetivamente têm consistência, propostas, compromisso e disposição de emprestar quatro anos de suas vidas ao serviço da comunidade. No entanto, isso tudo é o processo político, e a articulação política não pode ser desconsiderada, as negociações partidárias, os interesses daqueles que detêm o patrimônio do voto. Já assistimos de maneira clara, nestes últimos meses, às conseqüências destes elementos no quadro sucessório da Presidência da República e ainda vamos ver muito mais até o término das eleições. Mas a pergunta é: o que tem o turismo a ver com isso e qual a ligação deste preâmbulo com a responsabilidade social? É exatamente esta análise que um país com as potencialidades e a realidade que vivemos deveria fazer cada vez com maior profundidade. Quais são efetivamente os grandes desafios que o Brasil precisa vencer, que deverão ser a base das demandas da população e deveriam estar refletidos nos programas de governo dos candidatos nas próximas eleições? l Geração de oportunidades de trabalho. l Redução das desigualdades sociais e melhor distribuição de renda. l Erradicação da pobreza. 14

15 FOTOS HELCIO NAGA l Investimento em saúde, educação, segurança e meio ambiente. l Aumento das exportações para enfrentar a globalização. É claro que existem muitas outras demandas; no entanto, estas provavelmente são as mais importantes e vamos sobre elas fazer nosso exercício de avaliação. Turismo e geração de oportunidades de trabalho O turismo, embora seja uma atividade essencialmente privada e que se desenvolve primordialmente onde existem atrativos, sejam naturais ou culturais, precisa de suporte público e governamental, num ambiente estável e saudável para poder produzir seus melhores resultados. É também, segundo o WTTC Conselho Mundial de Viagens e Turismo, a atividade que mais gera empregos em todo o planeta. Certamente a maior pressão sobre os candidatos será no sentido de apresentarem fórmulas mágicas para a geração de empregos, e não há dúvida também de que é exatamente isso que eles vão prometer nos palanques e nos programas de televisão. Ocorre no entanto que os políticos estarão prometendo empregos que devem ser gerados pelo setor privado, e surge aí a primeira grande oportunidade de convergência entre os interesses da sociedade, dos empresários e dos políticos. t O turismo, embora seja uma atividade essencialmente privada, precisa de suporte público e governamental, num ambiente estável e saudável 15

16 Hoje, isoladamente, este setor representa 3,4% do PIB nacional, mas se considerarmos o impacto total desta indústria na economia brasileira, os números são muito mais expressivos e vamos a 7,4%, muito abaixo porém da média mundial, que está na casa dos 11%. A economia de viagens e turismo representa não apenas os empregos e o faturamento dos hotéis, agências, operadoras, transportadores, parques temáticos, entretenimento; segundo o WTTC, o que precisamos efetivamente medir é a permeabilidade do nosso negócio e sua influência num contexto maior. Precisamos contabilizar os investimentos de capital, feitos na construção dos empreendimentos turísticos e na própria infra-estrutura pública que serve ao setor, desde os hotéis até os aeroportos. Precisamos computar quanto do faturamento e das oportunidades de trabalho da indústria de combustíveis ou de telecomunicações, por exemplo, são diretamente relacionados com as viagens e o turismo. Na verdade, são 52 setores da atividade econômica que têm interdependência maior ou menor com este setor. Por exemplo, durante o período em que centenas de operários estão trabalhando na construção de um hotel, estes empregos foram viabilizados na construção civil graças ao negócio do turismo. Turismo e a redução das desigualdades sociais Este tema pode ser abordado de diversos ângulos, mas vamos analisar a questão relacionada com as diferenças existentes dentro do nosso País, com regiões muito ricas, equiparadas às mais desenvolvidas do mundo, e regiões muito pobres, com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) comparável ao das mais pobres do planeta. Felizmente, muitos dos principais destinos turísticos do Brasil estão localizados em regiões mais pobres, porém exercendo um enorme poder de atratividade sobre os cidadãos dos grandes centros, que têm poder aquisitivo para fazer turismo distribuindo geograficamente a renda. Num outro sentido, o turismo é verticalmente um grande O turismo é verticalmente um grande distribuidor de renda na medida em que integra os grandes negócios ao artesão, ao jangadeiro e ao vendedor de coco distribuidor de renda na medida em que integra, na sua cadeia produtiva, desde os grandes negócios de capital intensivo, como transportes e hospedagem, atingindo e beneficiando o artesão, o jangadeiro, o vendedor de coco na praia. Numa cidade onde o turismo seja intenso e borbulhante, fica evidenciado que todos ganham, direta ou indiretamente. 16

17 ...a posição do turismo como ferramenta de combate à pobreza certamente deveria estar priorizada nos planos de governo, com apoio da classe acadêmica do turismo... Não há dúvidas de que se trata de uma atividade que promove a integração cultural, a valorização econômica das tradições culturais, a preservação do patrimônio natural e fortalece o espírito patriótico. Turismo e erradicação da pobreza Na verdade, este foi o tema de um evento da Organização Mundial de Turismo (OMT), que o Brasil sediou em Natal recentemente. Estudos cada vez mais conclusivos estão sendo feitos por diversas organizações multilaterais, entre as quais o próprio Banco Mundial, constatando que a única e eficaz forma de eliminação da pobreza é a geração de riqueza. Enormes investimentos têm sido feitos em ações corretivas, compensatórias ou emergenciais; no entanto, serão sempre paliativos. Um país com as potencialidades ímpares que tem o Brasil, com vantagens competitivas extraordinárias no contexto turístico mundial, precisa apropriar-se desta oportunidade usando o que tem de melhor, que é sua gente alegre, pacífica e hospitaleira e o fantástico patrimônio natural que nos foi legado pelo Criador. Como um setor altamente profissionalizado, é claro que estes resultados não serão alcançados sem planejamento, sem investimento e determinação, mas a posição privilegiada do turismo como ferramenta de combate à pobreza e à miséria certamente deveria estar priorizada nos planos de governo, buscando o apoio e o envolvimento da classe acadêmica do turismo, que hoje representa um expressivo contingente de profissionais capacitados, formados e desejosos de contribuir com a construção de um Brasil socialmente mais justo e economicamente mais rico. Trata-se sim de um desafio, mas que pode ser vencido e contará com o respaldo financeiro e institucional de inúmeras entidades e organizações nacionais e estrangeiras. Turismo e investimentos públicos: saúde, educação, segurança e meio ambiente Estabelecer esta relação pode parecer um pouco mais difícil, no entanto, ela é bastante lógica. Como sempre disse o grande urbanista e planejador Jaime Lerner, uma cidade só pode ser boa para o turista se primeiro for boa para quem t 17

18 vive nela. Isso é uma verdade inquestionável e por si só estabelece a relação do setor com os investimentos públicos. A prova mais concreta desta relação pode ser testemunhada em programas como o Prodetur Nordeste, que investiu nos últimos anos centenas de milhões de dólares provenientes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e dos governos federal e estaduais no Nordeste, em saneamento, estradas, aeroportos, segurança, planejamento urbano, preservação ambiental, enfim, possibilitou investimentos públicos alavancados na viabilização dos investimentos privados que geraram empregos e arrecadarão os tributos necessários para pagar os financiamentos. O modelo foi bem sucedido e desencadeou programas semelhantes, como o Proecotur na Amazônia, o Bid- Pantanal, o Prodetur Sul, e já foi firmado o contrato do Prodetur II para o Nordeste com mais US$ 400 milhões. Independentemente destes programas, que estão localizados em regiões específicas, centenas de prefeituras espalhadas em todo o Brasil já se aperceberam dos benefícios que o turismo pode trazer para a arrecadação municipal e têm feito investimentos infra-estruturais importantes, que vão desde urbanização e acessos a até mesmo construção de centros de convenções, importante equipamento alavancador da economia local. Para que possam ter recursos para investimentos em educação, saúde e segurança, é preciso que a economia das cidades esteja fortalecida, e o turismo como arrecadador de impostos, primordialmente, tem tido um papel preponderante, para o qual cada vez mais a sociedade e os políticos estão atentos. Turismo: aumento das exportações e o desafio da globalização O turismo já nasceu como atividade globalizada. Neste sentido tem experiência para compartilhar. A competitividade entre os destinos já vem ensinando os empresários do setor a estabelecer preços e padrões de qualidade competitivos. Um segmento que é responsável por 18

19 Não podem os empresários do setor de turismo esquecer de que o cenário onde suas empresas estão atuando tem impactos diretos na capacidade de obter retorno dos seus investimentos extraordinárias contribuições para ingresso de divisas em outros países, no Brasil, porém, sequer é tratado como segmento exportador. A estrutura de incentivo à exportação no Brasil não está adaptada para beneficiar o turismo. Estruturalmente, os benefícios fiscais e financeiros voltados à exportação se baseiam no conceito de que o produto é móvel e o mercado consumidor é fixo, mas no turismo o produto é fixo e quem se move é o consumidor. Os bilhões de dólares que anualmente ingressam no País provenientes dos viajantes estrangeiros que visitam o Brasil não recebem o tratamento de exportação mas produzem efetivamente os resultados econômicos tão desejáveis para o País. Dentro do espírito de corrigir tais distorções, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) instituiu recentemente o Fórum de Competitividade do Turismo e considerou o setor como estratégico para o aumento das exportações brasileiras. O objetivo do Fórum é identificar os gargalos e os entraves que impedem ou dificultam o setor de impulsionar sua contribuição positiva na balança comercial brasileira. Simultaneamente, o setor empresarial do turismo está desenvolvendo com a parceria da Embratur Instituto Brasileiro de Turismo um estudo sobre o assunto que apresentará ao governo sugestões e propostas de ajustes na contabilidade oficial e na política de incentivos à exportação que possam alavancar o viés exportador do turismo. Tudo isso, no entanto, exigirá instrumentalização legislativa e vontade política do Executivo para que possam ser implementadas e, mais uma vez, nos deparamos com a convergência, pelo menos teórica, dos interesses, sociais, empresariais e políticos. Em síntese, abordando apenas alguns aspectos da relação entre o turismo e a política, pode-se perceber a relevância que tem o assunto dentro do contexto atual dos desafios que estão à frente da sociedade brasileira e que serão alvo de amplas discussões durante a campanha eleitoral. Não podem os empresários do turismo esquecer de que o cenário onde suas empresas estão atuando tem impactos diretos na capacidade de obter retorno dos seus investimentos. Onde há poluição de praias, lixo na rua, falta de segurança, promoção incipiente ou inexistente, com certeza não haverá turistas para justificar o retorno do capital. Estas circunstâncias na realidade estão fora da governabilidade e do controle do empresário e de seu empreendimento, mas estão diretamente relacionadas com o que vulgarmente chamamos de vontade política. Esta relação de interdependência justifica perfeitamente o desenvolvimento por parte do setor turístico de uma estratégia madura e consistente de participação e envolvimento no processo político, nas eleições de 2002 e nas outras que virão. Aliás, o que não se justifica de forma alguma é a omissão e a alienação deste processo com cobranças futuras por esta mesma vontade política, tão imprescindível para a sustentabilidade dos negócios e empreendimentos turísticos. Todos estes elementos conformam um quadro bastante abrangente de RESPONSABILIDADE SOCIAL dos políticos, dos empresários e dos cidadãos que deverão estar amplamente refletidos nos programas de governo que cada partido apresentará para a análise e a aprovação dos eleitores brasileiros, em suma, responsáveis pela escolha dos rumos que definirão o futuro do nosso País. 8 * Silvio Barros é diretor para a América Latina do WTTC Conselho Mundial de Viagens e Turismo 19

20 Planejamento FOTOS ELCIO CARRIÇO integrado e sustentabilidade do turismo Carmélia Anna Amaral * Oprogresso humano passou a exigir instrumentos para sua viabilização, levando o homem a exercitar sua inteligência para criar e estabelecer inter-relações que se tornam cada vez mais complexas. Essa complexidade exige ordenamento, desenvolvimento e resultados. Para alcançar tal objetivo, cria-se então o planejamento, que tem a racionalidade como seu elemento regulador. Segundo Muñoz Amato, o planejamento é a formulação sistemática de um conjunto de decisões, devidamente integrado, que expressa os propósitos de uma empresa e condiciona os meios de alcançá-los. O planejamento é, portanto, um processo dinâmico que deve desenvolver-se em bases científicas para que o seu acompanhamento seja correto e possibilite os ajustamentos necessários ao longo do seu desenvolvimento. Uma marca das sociedades modernas é a ampliação do tempo livre, que provoca o desenvolvimento das atividades de lazer, conseqüentemente do turismo. Isso cria a necessidade de essa atividade ser inserida numa ação de planejamento. Planejamento é, sem dúvida, o meio correto para consecução do desenvolvimento turístico. Com as transformações ocorridas a partir do pós-guerra, as noções de desenvolvimento no âmbito de quaisquer atividades vêm redefinindo os parâmetros do planejamento, visando a um desenvolvimento sustentável. O caminho para o turismo sustentável e integrado é o processo de planejamento, que permite analisar a realidade e estabelecer os meios que transformem essa realidade, atendendo aos seus interesses, às suas necessidades, bem 20

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