Comunicação DRUMMONZINHOS: ARTE, CIDADANIA E INCLUSÃO SOCIAL

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1 Comunicação DRUMMONZINHOS: ARTE, CIDADANIA E INCLUSÃO SOCIAL CAMARGO, Doraci 1 FIGUEIREDO, Ricardo Carvalho de Figueiredo 2 Palavras-Chave: Carlos Drummond de Andrade, Arte-Educação, Literatura. O PROGRAMA DRUMMONZINHOS: ATE, CIDADANIA E INCLUSÃO SOCIAL A arte não é uma extensão da vida, mas significa outra compreensão da realidade, abrindo caminho para um processo de conhecimento que nenhuma outra área pode fornecer. (Ingrid Koudela) Tendo em vista que o objetivo do Programa Drummonzinhos é o de inserir crianças e adolescentes no universo da Arte-Educação, pretendemos através dessa comunicação elucidar a importância da Arte quando inserida em Projetos Sociais e, principalmente, enquanto lugar de conhecimento e campo específico de contribuição para a formação estético-cultural dos envolvidos diretamente (alunos do Programa) e indiretamente (espectadores). Assim, criado a partir das comemorações do centenário (2001) de Carlos Drummond de Andrade (nascido na cidade de Itabira/MG) surgiu também o programa Drummonzinhos com o intuito de incentivar o potencial turístico da cidade, visto que naquele momento sua principal atividade era a extração do minério-de-ferro. Constatamos que o fato de Drummond ter nascido nessa cidade e vivido aqui por algum tempo, não era o suficiente para que os cidadãos conhecessem sua obra, dado o não-entendimento da linguagem literária usada pelo escritor. Por essa razão 1 Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade 2 Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade

2 o programa buscou desenvolver e capacitar crianças e adolescentes (de 08 a 18 anos) para interpretar os poemas de Drummond a fim de dá-lo a conhecer não só aos cidadãos itabiranos, como também aos turistas que aqui vêm em busca de maiores informações sobre o poeta. Os Drummonzinhos, por fazer parte de um programa da Prefeitura (Secretaria de Ação Social e a Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade) foram selecionados a partir de alguns requisitos contidos na redação inicial da proposta, tais como: ser nascido no município, ter baixa renda familiar, apresentar alguma vulnerabilidade social etc. Dessa forma, os jovens têm encontros de duas a três vezes semanais para desenvolverem conteúdos referentes à: (1) vida e obra do poeta; (2) os caminhos Drummondianos; (3) interpretação teatral; (4) declamação de poesia; (5) relacionamento interpessoal e (6) técnicas de atendimento ao público (PMI, 2001: p. 03). Com a regulamentação do artigo 227 da Constituição Federal pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei Federal nº de surge uma nova forma de olhar a criança e o adolescente no Brasil. Esse novo paradigma considera essa população, como sujeitos de direitos e não mais como objetivos de intervenção, controle social e repressão. A antiga concepção de juventude tida como um estado de transitoriedade, quando o jovem ainda é um vir a ser descarta o sentido das suas ações realizadas no presente, encarando de forma pejorativa o seu hoje, ou seja, ele ainda não chegou a ser, está num estado de transição. Concordamos com Dayrell e Gomes (2007) que apresentam outra concepção de juventude, pois: Devemos entender a juventude como parte de um processo mais amplo de constituição de sujeitos, mas que tem suas especificidades que marcam a vida de cada um. A juventude constitui um momento determinado, mas que não se reduz a uma passagem, assumindo uma importância em si mesma. (DAYRELL; GOMES. 2007, P. 03) Através dessa perspectiva o Estatuto da Criança e do Adolescente (1990) diz sobre o direito à profissionalização e à proteção ao trabalho que: No art deverá assegurar ao adolescente que dele participe condições de capacitação para o exercício de atividade regular remunerada.

3 Parágrafo 1º - Entende-se por trabalho educativo a atividade labora em que as exigências pedagógicas relativas ao desenvolvimento pessoal e social do educando prevalecem sobre o aspecto produtivo. Parágrafo 2º - A remuneração que o adolescente recebe pelo trabalho efetuado ou a participação na venda dos produtos de seu trabalho não desfigura o caráter educativo.(estatuto DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, 1990) Assim destacamos que o trabalho desenvolvido com os Drummonzinhos capacita-os para exercer a função de guias mirins, apresentando e conduzindo os visitantes aos pontos turísticos criados na cidade para receber informações acerca da vida e obra de Drummond: Casa de Drummond, Memorial Carlos Drummond de Andrade, Pico do Amor, Fazendo do Pontal e os Caminhos Drummondianos. O ASPECTO TRANSDISCIPLINAR DO PROGRAMA A transdisciplinaridade está contida no programa nas suas várias etapas, pois busca integrar as diversas áreas desenvolvidas junto aos alunos, culminando na apreciação-feitura-contextualização da obra Drummondiana. Entendemos por transdisciplinaridade o que aponta Ivone Richter (2002): (...) transdisciplinaridade que, como indica o prefixo, busca um movimento de través, de perpasse entre as diferentes áreas do conhecimento. Esse enfoque é também chamado de transversalidade (...) A transversalidade proposta supõe que os temas sejam objeto de estudo em todas as disciplinas. (RICHTER. 2002, p. 86) As aulas de interpretação de textos de Drummond, dança, teatro, relacionamento interpessoal etc. buscam uma integração e uma reflexão acerca do momento do encontro, seja dos alunos com as diversas linguagens, seja desses alunos com os espectadores. Assim, como se apropriar de diversos conteúdos e aplicá-los ao objetivo do programa? Como desenvolver as habilidades numa determinada aula e transferi-lo às demais áreas? Com a nova reformulação do programa essas questões têm nos inquietado e proposto que desde a seleção dos novos membros (hoje existem apenas 07 alunos, mas com capacidade para 30) pensemos sobre ações que caminhem na direção dessa perspectiva. Oriundos de diversas localidades da cidade de Itabira, os candidatos ao programa (400 inscritos) têm passado por algumas etapas, a fim de serem

4 selecionados os que mais atenderem aos pré-requisitos estabelecidos pelos profissionais envolvidos (assistente social, psicólogo, professor de teatro, professor de dança, coordenador do projeto etc.). Qualquer forma de seleção tem que ser pensada de forma a não-excluir alunos em potencial que poderiam se desenvolver com as aulas do programa, mas atentamos que pelo número de inscritos era necessário, para sermos mais objetivos, criar esse processo para a entrada de mais 23 integrantes. Enquanto educadores temos nos atentado para a diversidade cultural de cada aluno/candidato e buscado desenvolver uma alfabetização cultural nos diferentes códigos da cultura presentes nas famílias e nessas comunidades. Essa educação multicultural preserva a diversidade como um recurso e um potencial para a educação, o respeito e a cidadania. O DESENVOLVIMENTO DOS ALUNOS NO PROGRAMA Como o programa existe desde o ano de 2001 algumas considerações já podem ser apontadas quanto ao desenvolvimento dos seus integrantes e quanto à formação de espectadores-leitores de Carlos Drummond de Andrade. É fato que os alunos ao entrarem em contato com as obras de Drummond, muitos pela primeira vez, ficam admirados com as belezas e as variadas interpretações dadas aos seus poemas. A contextualização dos poemas é importante no que diz respeito ao espaço-tempo do poeta, uma vez que trazem indicações significativas a respeito da sua elaboração. Não atestamos com isso que não buscamos romper com situações estabelecidas, ou seja, por que temos de dizer determinado poema sempre com a mesma inflexão vocal? O texto, enquanto elemento de jogo, começa a ser encarado como um pré-texto para a elaboração cênica e, portanto, ressignificado ao olhar desses jovens criadores de Drummond. Interferir e, portanto, sentir-se um re-criador de uma obra é parte fundamental do processo de apropriação pela qual o jovem precisa exercitar. Outros aspectos foram observados pela coordenação do programa, como por exemplo, a melhora no rendimento escolar, uma vez que esses alunos passam a modificar sua postura frente aos estudos e ter outras responsabilidades junto ao trabalho. Uma maior sociabilidade também foi destacada, pois entram em contato com pessoas de várias localidades nacionais e internacionais e precisam

5 desenvolver a fala, o tratamento com o turista etc., enfim, aprimorando seu potencial comunicativo. Alguns ex-integrantes já se encontram em cursos de graduação (artes cênicas, música, letras etc.) revelando que esses aproveitaram uma oportunidade dada quando adolescentes e principalmente, por terem compreendido que qualquer área do conhecimento pode ser desenvolvida e estudada. Quanto à aproximação dos espectadores-leitores de Drummond ainda temos muito trabalho a realizar, pois é de nossa intenção desenvolver um projeto de formação de espectadores-leitores junto às escolas do município, buscando aproximar a linguagem da obra aos leitores em potencial. Ao optarmos pela formação do espectador, ao invés do público, não é aleatória, visto que procuramos desenvolver nesse projeto tanto o acesso à obra teatral, quanto o acesso lingüístico (linguagem artística). Dado esse que Flávio Desgranges (2006) caracteriza como: Um projeto de formação de público teatral foca prioritariamente a ampliação do acesso físico, facilitando a ida e aumentando o interesse pela freqüentação ao teatro. Um projeto de formação de espectadores, por sua vez, cuida não somente de pôr o espectador diante do espetáculo, mas trata também da intimidade desse encontro, estreitando laços afetivos, afinando a sintonia, mediando a relação dialógica entre espectador e a obra de arte. (DESGRANGES. 2006, p. 157) Concluímos dizendo que esse programa tem nos proporcionado um crescimento imensurável, não apenas na linguagem artística das obras Drummondianas, mas também no que diz respeito ao desenvolvimento do ser humano, dada a diversidade de pessoas que tem cruzado nossos caminhos... REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BARBOSA, Ana Mae (org.). Inquietações e mudanças no ensino da arte. São Paulo: Cortez, BRASIL. Estatuto da criança e do adolescente PREFEITURA MUNICIPAL DE ITABIRA. Programa Drummonzinhos DAYRELL, Juarez & GOMES, Nilma. A juventude no Brasil. In: www. uff.br/obsjovem acessado em 01/08/2007. DESGRANGES, Flávio. Pedagogia do Teatro: Provocação e Dialogismo. São Paulo: Hucitec, KOUDELA, Ingrid Dormien. Jogos teatrais. São Paulo: Perspectiva, 1984.

6 RICHTER, Ivone. Multiculturalidade e Interdisciplinaridade. In: BARBOSA, Ana Mae (org.). Inquietações e mudanças no ensino da arte. São Paulo: Cortez, 2002 (p ). Sites consultados: Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade acessado em 01/08/ Drummonzinhos: pequenos poetas. Acessado em 28/07/2007.

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