De volta para vida: a inserção social e qualidade de vida de usuários de um Centro de Atenção Psicossocial

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1 De volta para vida: a inserção social e qualidade de vida de usuários de um Centro de Atenção Psicossocial Eliane Maria Monteiro da Fonte DCS / PPGS UFPE Recife PE - Brasil Pesquisa realizada pelo NUCEM, com financiamento do CNPq/Ministério da Saúde - Brasil

2 Saúde mental e a rede de cuidados na comunidade As ações de saúde mental tem como objetivos: A reinserção social de pacientes longamente internados; A expansão e melhoria da qualidade de atenção em saúde mental; A substituição do modelo hospitalocêntrico para o da atenção extra - hospitalar ou de base comunitária (representado pelos CAPS ); Prover às pessoas portadoras de transtorno mentais oportunidades de atingir seu potencial de autonomia em seu ambiente familiar e comunidade. A expressão saúde mental está relacionado a dois aspectos: denota um afastamento da figura médica da doença, que não leva em consideração os aspectos subjetivos ligados à existência concreta do sujeito assistido; demarca um campo de práticas e saberes que não se restringem à medicina e aos saberes psicológicos tradicionais. O cuidado na saúde mental amplia-se, no sentido de ser também uma sustentação cotidiana da lida diária do paciente, inclusive nas suas relações sociais (TENÓRIO, 2002: 31).

3 A qualidade de vida na saúde mental Questão central da pesquisa: Em que medida o tratamento provido pelos CAPS contribui para promove r a inserção social e melhoria da qualidade de vida de seus usuários? Que variáveis sociais podem ser identificadas como intervenientes nestes processos? Por que o interesse na análise da inserção social e qualidade de vida (subjetiva) de usuários de serviços de saúde mental? 1. Para conhecer as dimensões da vida cotidiana de pacientes psiquiátricos; 2. Por possibilitar a avaliação de resultados dos serviços de saúde mental extra-hospitalar, tendo como parâmetro a perspectiva seus usuários; 3. Para fortalecer uma mentalidade de promoção da saúde e vida, mesmo se tratando de pessoas diagnosticadas com transtornos mentais severos.

4 Questões teórico-metodológicas Questões metodológicas: Conceito de qualidade de vida objetivo x subjetivo? Como mensurar qualidade de vida em populações com comprometimento cognitivo, pensamento delirante ou depressivo? Definição de Qualidade de Vida da OMS: É a percepção do indivíduo desua posição na vida no contexto da cultura e sistemas de valores nos quais eleviveeem em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões epreocupações A qualidade de vida é um construto subjetivo (percepção do indivíduo em questão), multidimensional e composto por dimensões positivas enegativas (The WHOQOL Group, 1994).

5 Instrumentos utilizados na coleta de dados Ficha de dados médicos - Regime de tratamento atual; solicitante do atendimento no CAPS; número de entradas e período do tratamento no CAPS; número de entradas em hospitais psiquiátricos antes e depois do tratamento no CAPS. Questionário do usuário 1) Dados socioeconômicos e demográficos; 2) Percepção dos efeitos do tratamento e das medicações utilizadas, grau de satisfação com o tratamento e com o CAPS; 3) Saúde, qualidade de vida e satisfação pessoal: domínio físico (dor, fadiga, sono), psicológico (auto-estima, sentimentos positivos e negativos), social (relações pessoais, apoio social, atividade sexual), ambiente (recursos financeiros, segurança física, lazer, acesso e qualidade dos serviços de saúde); 4) Emprego, trabalho, outras atividades cotidianas e projetos de vida; 6) Redes sociais primárias.

6 Quadro 1. Distribuição dos informantes (usuários do CAPS Espaço e Vida, localizado no Distrito IV) por hipótese de diagnóstico e sexo. Recife, Hipótese de diagnóstico Sexo Feminino (%) Masculino (%) Total (%) Esquizofrenia 47,8 66,7 57,4 Transtorno Bipolar 39,1 8,3 23,4 Depressão 13,0 25,0 19,1 Total (N. 23) (N. 24) (N. 47)

7 Quadro 2. Caracterização demográfica dos informantes por sexo. Recife, Sexo Feminino Masculino Total Características N. 23 N. 24 N. 47 demográficas (100 %) (100%) (100%) Idade 18 a 30 17,4 50,0 34,0 31 a 46 47,8 16,7 31,9 47 a 66 34,8 33,3 34,0 Situação Solteiros 52,2 66,7 59,6 Conjugal Casados/coabitam 17,4 29,2 23,4 Viúvo/divorciado 30,4 4,2 17,0 Reside com a família Reside só/amigos/r. Terapeut. Status Chefe/conjugue familiar Filho/enteado Outro parentesco 69,6 30,4 31,3 43,8 25,0 91,7 8,4 27,2 68,2 4,5 80,9 19,2 29,0 57,9 14,2

8 Quadro 3. Caracterização socioeconômica dos informantes por sexo. Recife, Sexo Características Sócio-econômicas Nível Até Ensino Fundamental Educação Ensino médio e mais Ocupação Empregado/assalariado Autônomo Desempregado Aposentado Estudante Do lar Fonte de Nao tem renda renda Aposentado ou benefício Salário / renda informal Outras fontes Renda Até 1 SM mensal Mais de 1 a 5 SMs Feminino N. 23 (100 %) 69,5 30,4 5,0 10,0 25,0 35,0 5,0 35,0 8,7 73,9 8,7 8,7 72,7 27,2 Masculino N. 24 (100%) 52,1 47,8 28,6 9,5 38,1 14,3 9, ,7 37,5 16,7 4,2 78,9 21,1 Total N. 47 (100%) 60,8 39,2 17,1 9,8 31,7 24,4 7,3 9,8 25,5 55,3 12,8 6,4 75,6 24,2

9 Quadro 4. Número de internações antes e depois da primeira entrada para tratamento no CAPS. Recife, Antes do Depois do tratamento tratamento N. de Internações em no CAPS no CAPS Hospitais Nenhuma 41,9 86,0 1 a 2 vezes 20,9 11,6 3 a 10 vezes 37,2 2,3 Total (N. 43) (N. 43)

10 Quadro 5. Grau de satisfação com resultado do tratamento no CAPS e acesso aos serviços de saúde. Recife, Grau de satisfação Muito satisfeito 17,5 Em tomar Com Com o acesso medicação resultado do aos Serviços Psiquiátrica tratamento de Saúde no CAPS 17,5 54,5 20,6 Satisfeito 40,0 31,8 46,7 Regular 10,0 6,8 17,8 Insatisfeito 22,5 6,8 6,7 Muito insatisfeito 10,0 Total (N. 41) --- (N. 44) 8,9 (N. 45)

11 Indicadores dos índices de satisfação dos entrevistados em diferentes aspectos ou domínios da vida cotidiana 1) Domínio físico grau de satisfação com a saúde física, com a energia (disposição) que tem, com o sono e com a aparência do corpo; 2) Domínio psicológico o quanto experimenta sentimentos positivos em sua vida, quão otimista se sente em relação ao futuro, o experimenta sentimento de tristeza ou depressão e o quanto é capaz de relaxar e curtir a vida 3) Relações sociais - grau de satisfação com a vida sexual, com a quantidade de amigos que tem, com seu relacionamento com a família, (e com as pessoas com quem mora), com o relacionamento com seus vizinhos, com o apoio que recebe da família e dos amigos com sua capacidade de dar apoio aos outros 4) Ambiente - grau de satisfação com a segurança física, com as condições do local onde mora, com a situação financeira, com o seu acesso aos serviços de saúde, com as oportunidades de aprender novas habilidades, com a maneira de usar o tempo livre.

12 Quadro 6. Índice de satisfação dos informantes em diferentes domínios da vida cotidiana. Recife, Índice de satisfação Domínio físico Domínio psicológico Relações sociais Ambiente Baixo 31,1 32,6 35,6 31,4 Médio 33,3 39,5 27,9 22,9 Alto 35,6 30,6 30,6 45,7 Total (N. 45) (N. 43) (N. 36) (N. 35)

13 Grau de satisfação com a vida e felicidade Grau de satisfação com a vida em geral (%): Muito satisfeito 10,0 Satisfeito 26,1 Regular 28,3 Insatisfeito 21,7 Muito insatisfeito 13,0 O quanto se considera feliz (%) Muito feliz 11,4 Feliz 31,8 Regular 31,8 Um pouco infeliz 13,6 Muito infeliz 11,4

14 Como acha que as pessoas se sentem em relação ao portador de transtorno mental No trabalho (%) Tranqüilas 29,3 Indiferentes 12.2 Receosas 46,3 Outro 12,2 Na comunidade (%) Confiantes 25,0 Indiferentes 17,5 Medo 27,5 Desprezo 14,5 Outro 15,0

15 Quadro 7. Objetivos que pretende obter como resultado do tratamento no CAPS. Recife, Ordem de prioridade Objetivos Nao tem objetivos/ Nao informou Primeiro Objetivo 12,8 Segundo Objetivo 31,9 Terceiro Objetivo 48,9 Curar / Melhorar a saúde 29,8 10,6 6,4 Trabalhar 12,8 12,8 2,1 Estudar 17,0 12,8 2,1 Qualidade de vida 10,6 19,1 17,0 Poder conviver com as pessoas 6,4 6,4 19,1 Outros projetos 10,6 Total (N. 47) 6,4 (N. 47) 4,3 (N. 47)

16 Quadro 8. Em que medida atingiu os objetivos pretendidos como resultado do tratamento no CAPS. Recife, Objetivos Primeiro Objetivo Segundo Objetivo Terceiro Objetivo Nada / Muito pouco 29,8 29,8 27,6 Parcialmente 38,3 23,4 6,4 Muito / Totalmente 19,1 14,9 14,9 NA / NI 12,8 31,9 51,1 Total (N. 47) (N. 47) (N. 47)

17 Principais resultados da pesquisa: Avaliação positiva do trabalho do CAPS por parte dos usuários; O CAPS tem tido atuação positiva no sentido de coibir ou minimizar as necessidades de internações hospitalares; Falta de assistência dada ao usuário e suas famílias após sua saída do atendimento no espaço físico de CAPS é fator limitador nesta forma de tratamento; Inexistência de um trabalho eficiente de ressocialização, considerando que os usuários estavam sempre limitados ao convívio familiar ou da residência terapêutica; Permanência do estigma do louco como pessoa perigosa, acarretando isolamento e exclusão social; Entre os diferentes domínios o das relações sociais é o que apresenta os mais baixos índices de satisfação; A doença mental por si só não explica os diferenciais nos níveis de satisfação em diferentes domínios da vida cotidiana, o grau de satisfação com a qualidade de vida em geral e sentimento de felicidade. Obs: Todas as informações tem como fonte a Pesquisa Redes Sociais e Saúde. Recife, 2007

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