Nas Margens da Educação: imprensa feminina e urbanidade moderna na Ribeirão Preto das primeiras décadas do século XX

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1 Nas Margens da Educação: imprensa feminina e urbanidade moderna na Ribeirão Preto das primeiras décadas do século XX Jorge Luiz de FRANÇA * Nesta comunicação, pretendemos, por intermédio das publicações periódicas, investigar os diversos discursos ligados a educação. Através da locução dos jornais, revistas e imagens, poderemos visualizar a atuação dos intelectuais, dos editoriais, das crônicas, das poesias, dos folhetins, enfim, de uma gama de possibilidades. A imprensa, em expansão, tornou-se mediadora entre o público leitor e a sociedade. Deste modo, tais publicações serviram como porta voz dos diversos grupos sociais atuantes na localidade. O estudo que propomos tem como enfoque central a imprensa feminina e seu papel educacional. Buscaremos, por intermédio de leituras que tratam desta temática, problematizar as representações educacionais e culturais associadas no recorte temporal que abrange os anos de 1900 à 1920, na cidade de Ribeirão Preto durante o período do apogeu do café, que proporcionou uma remodelação no cenário urbano com advento da modernidade. Desde micro-espaço poderemos montar um quadro de abordagens do contexto nacional e verificar as práticas educativas, sociais com vista à normatização dos costumes e/ou possíveis hábitos existentes na aclamada Alta Mogiana do nordeste paulista, considerando a modernidade e suas ambiguidades. No campo da Historiografia da Educação, a imprensa vem sendo utilizada como uma fonte documental valiosíssima para compreendermos o período o qual estamos estudando. Por intermédio desta, podemos perceber dados referentes à História da Educação que provavelmente não seriam encontrados em outra documentação: referências à necessidade de instrução, anúncios de escolas que estão sendo fundadas, nomes de professores, matérias ensinadas, livros adotados e até nomes e notas de alunos, elementos estes que ajudam a construir o quadro educacional da época e localidade estudada: * Pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pelo Centro Universitário Barão de Mauá/Ribeirão Preto-SP. Docente da Rede Pública Estadual de Ensino Fundamental e Médio em Ribeirão Preto (SP).

2 é difícil encontrar um outro corpus documental que traduza com tanta riqueza os debates, os anseios, as desilusões e as utopias que têm marcado o projeto educativo nos últimos dois séculos. Todos os atores estão presentes nos jornais e revistas: os professores, os alunos, os pais, os políticos, as comunidades... As suas páginas revelam, quase sempre o quente, as questões essenciais que atravessaram o campo educativo numa determinada época. A escrita jornalística não foi ainda, muitas vezes, depurada das imperfeições do cotidiano e permite, por isso mesmo, leituras que outras fontes não autorizam. Por outro lado, é através deste meio que emergem vozes que têm dificuldade em se fazerem ouvir noutros espaços sociais, tal como na academia ou no livro impresso. A imprensa é, provavelmente, o local que facilita um melhor conhecimento das realidades educativas, uma vez que aqui se manifesta, de um ou de outro modo, o conjunto de problemas desta área. É difícil imaginar um meio mais útil para compreender as relações entre a teoria e a prática, entre os projetos e as realidades, entre a tradição e a inovação... São as características próprias da imprensa (a proximidade em relação ao acontecimento, o caráter fugaz e polêmico, a vontade de intervir na realidade) que lhe conferem este estatuto único e insubstituível como fonte para o estudo histórico e sociológico da educação e da pedagogia. (NOVOA, A. 2002, p.169). Para Gonçalves Neto, a imprensa tem a capacidade de formar uma cultura e funciona também como um veículo educativo. É através dela que se divulgam, consolidam as principais representações sociais (Cf. 2002, p ). O jornal centraliza as opiniões da elite intelectual e torna-se um elemento para captar as representações culturais de uma época. A palavra escrita pode

3 ser resgatada e utilizada como documentação na construção de interpretações históricas. Mesmo com o direcionamento ideológico dos jornais, cabe ao pesquisador utilizá-los corretamente como fonte para a recuperação de um determinado contexto, aguçando seu olhar crítico para os fatores que influenciaram sua construção. Este Trabalho se insere no bojo das investigações desenvolvidas pela linha de pesquisa em Historiografia da Educação. A partir das leituras dos estudos da denominada História Cultural, principalmente os desenvolvidos por Roger Chartier (Cf. 1991, p ) observamos que a imprensa pedagógica se constitui como uma fonte de pesquisa importante para o estudo da escola e do trabalho docente. Tais materiais eram de circulação entre os professores que divulgavam informações, práticas consideradas exitosas, conteúdos específicos e até reivindicações da categoria profissional. Ante a ausência de periódicos pedagógicos editados na região, vemos que a imprensa de circulação diária pode se apresentar como um campo privilegiado da pesquisa. Ao longo da História da Educação foram construídas imagens dos docentes, as quais em cada período atende as necessidades dos agentes do Estado. Assim, pretendemos invadir este universo e problematizar, através da cidade de Ribeirão Preto, as representações da imprensa feminina e seu papel educacional. Deste modo, buscaremos demonstrar os hábitos destes personagens diante da nova sociedade que se apropria da mentalidade moderna. A normatização do feminino já foi objeto de estudo por pesquisadores de diversas áreas. No entanto, quando o assunto é a relação entre imprensa feminina e educação, suas práticas educacionais e culturais, assim como a urbanização/modernização, realizada pela elite dos municípios, que integraram o complexo cafeeiro, não mereceram, até o momento, maiores detalhes investigativos. Todavia, a ausência da abordagem na esfera educacional, não inviabiliza a busca que propomos. Afinal, como já afirmou Michel de Certeau: O que fabrica o historiador quando faz história? Em que trabalha? Que produz? Interrompendo seu passeio erudito nas salas dos Arquivos, separa-se por um momento de seu estudo monumental, que o possibilitará ser

4 classificado entre seus pares, e, saindo à rua, se pergunta: o que é este trabalho? Eu me interrogo a respeito da enigmática relação que estabeleço com a sociedade presente e com a morte, pela mediação de atividades técnicas. (1988, p.17). No período em estudo percebemos que a mulher foi conduzida e/ou controlada por agentes do sexo masculino, semelhante ao que aconteceu em períodos anteriores da história brasileira. Através do movimento higienista, foram regulados normas e regras de condutas, a fim de se construírem uma nação civilizada. Na elaboração deste ideal 1 (Cf. ROUSSEAU, 1973, p ) de universo, caberia a mulher ser o símbolo da modernidade republicana, dos bons modos e da educação. Não obstante, o desenvolvimento vertiginoso do município impôs novas áreas de lazer, consumo e estabelecimentos de ensino. O Estado, representado pela elite local, elege de continuidade com a apresentação do ideal civilizador, o modelo urbano da modernidade européia. Assim, o ordenamento social era feito de diversas formas, ora por intermédio da imprensa, escolas (ensino), por projetos de desenvolvimento urbano, ora pela aplicação das Leis por intermédio da justiça. Para tanto, tais grupos, normatizavam o comportamento das mulheres, mães, ricas, pobres, professoras, meretrizes, artistas, donzelas entre outras, na tentativa de organizar o espaço público segundo concepções e políticas especificas. Referências Bibliográficas NETO, W. G. Imprensa, civilização e educação Uberabinha (MG) no início do século XX. In: ARAÚJO, J. C. S; GATTI JR, D. (Orgs.). Novos temas em história da educação: instituições escolares e educação na imprensa. 1 Desde longa data é possível encontrar referencias a construção da mulher ideal, Rousseau, por exemplo, já afirmava a relação entre a formação do ser e o modelo político adotado pelo Estado. O autor escreve um tratado sobre a educação em: Emílio ou Da Educação, nesta obra Rousseau tem em vista a sociedade do Contrato Social, ou seja, a formação com a qual o filósofo se preocupa é aquela individual, mas, sobretudo, a formação do cidadão dará prosseguimento adequado ao modelo político.

5 Campinas SP: Autores Associados; Uberlândia, MG: EDUFU, 2002, p.169. p NOVOA, A. A imprensa de educação e ensino. p In: CATANI, D & BASTOS, M. H. C. Educação em revista: a imprensa periódica e a história da educação. São Paulo, Escrituras, p Apud BASTOS, M. H. C. Espelho de papel: a imprensa e a história da educação. In: ARAÚJO, J. C. S; GATTI JR, D. (Orgs.). Novos temas em história da educação: instituições escolares e educação na imprensa. Campinas SP: Autores Associados; Uberlândia, MG: EDUFU, 2002, p CHARTIER, R. O mundo como representação. In: Estudos Avançados. São Paulo: USP, Jan./Abr. 1991, vol. 5, n.11, p CERTEAU, M. A Operação Histórica. In: Burke, P. (Org.). História: novos problemas. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1988, p.17; Cf. BURKE, Peter (Org.). A Escrita da História. São Paulo: Editora da UNESP ROUSSEAU, J. J. Emílio ou Da Educação. Trad. Sérgio Milliet 2 ed. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 1973, p

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