GD5 História da matemática e Cultura. Palavras-chave: Ensino de Matemática. Escola Normal. Cultura Escolar.

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1 Curso de Formação de Professores Primários da Escola Normal de Caetité Ba no Período de 1925 a 1940: Análise das Transformações Curriculares do Ensino de Matemática. Márcio Oliveira D Esquivel 1 GD5 História da matemática e Cultura Resumo do trabalho: O presente artigo tem por objetivo apresentar os resultados do trabalho de pesquisa realizado sobre o ensino de matemática no curso de formação de professores primários da Escola Normal de Caetité-Ba no período de 1925 a A pesquisa em questão pretende analisar em que medida os movimentos de reforma da educação no país influenciaram a concepção de ensino de matemática proposta paras escolas normais da Bahia. Para o desenvolvimento da pesquisa foram utilizados como fontes as Leis, Decretos Institucionais e documentos escolares do período, bem como os anais dos cursos de férias e as revistas de Educação dos anos 1927 e Para analise das fontes foram utilizados os pressupostos teóricometodológicos de investigação da História Cultural de Roger Chartier e a categoria Cultura Escolar de André Chervel. Nosso trabalho aponta para a constatação de que as propostas pedagógicas para o ensino de matemática no período foram fortemente influenciadas pelas concepções escolanovistas de educação e por tentativas governamentais pouco eficazes de modelar a realidade escolar a partir da imposição legal. Palavras-chave: Ensino de Matemática. Escola Normal. Cultura Escolar. Introdução Cresceu nas últimas décadas no país o interesse pela História da Educação. Nunes (2006) aponta para o fato de que a relevância dessa temática pode ser atestada, sobretudo pelo crescimento dos trabalhos desenvolvidos em grupos de pesquisa de cursos de pósgraduação no Brasil. A autora analisa ainda, que são indicativos da consolidação dessa área como campo proeminente de pesquisa o surgimento de entidades representativas de pesquisadores, bem como a organização em nível nacional de seminários e encontros sobre a temática. 1 Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - Programa de Pós-graduação em Educação Científica e Formação de Professores - PPECFP, orientador: Claudinei de C. Sant Ana

2 As pesquisas em História na Educação Matemática, objeto de investigação deste trabalho, igualmente vem crescendo. Morin (2012) em levantamento realizado no período compreendido entre 1984 a 2010 pesquisa realizada em acervos de bibliotecas de instituição universitárias e em dissertações de mestrados e teses de doutorados no banco de teses da capes organizou e classificou os trabalhos encontrados no período, em cinco eixos temáticos de investigação, quais sejam: História de formação de professores de matemática; Histórias de conteúdos e de disciplinas escolares em diferentes níveis de ensino; Histórias de artefatos didáticos relacionados ou dirigidos à educação matemática; História de grupos culturais ou comunidades de prática envolvidos com educação. Tendo em vista que estudo dos processos históricos de institucionalização do conhecimento são relevantes para história da ciência, uma vez que buscam desvendar os processos de difusão, recepção, apropriação das ciências modernas européias em nosso país (MATTEDI, 2000), a pesquisa em questão investiga o papel educacional desempenhado pela Escola Normal na formação de professores primários na região de Caetité, buscando entender como os movimentos de reformas da educação no país e na Bahia compreendidos no período de 1925 a 1940 foram incorporados ao ensino de matemática. O Surgimento das escolas normais e a interiorização da instrução pública no estado da Bahia O processo de escolarização no interior do estado da Bahia no inicio do século XX obedeceu duas lógicas, a saber: por um lado, a necessidade de transição de um modelo econômico-social eminentemente rural, herança de um passado colonial ainda presente, para um modelo de organização social regido pelos ideais da modernização econômica e urbanização do país, e por outro, pelos interesses políticos oligárquicos das elites locais. Conforme Rocha, No período compreendido entre 1924 e 1930, a Bahia passava por uma disputa de duas estruturas oligárquicas. Essa estrutura de dicotomização vai se caracterizar por derrubadas, perseguições, perdas de mando, ascensão de valores novos, por mil coisas que vão significar a polarização de forças (TEIXIERA, 1998 apud ROCHA, 2005, p. 37)

3 Assim a escolarização do interior baiano, dividida entre lutas políticas de disputas pelo poder protagonizadas pelos coronéis, e pelo atendimento real as reais necessidades sociais regionais, caminhou entre avanços e retrocessos. Aliados a estes fatores, também influenciou as reformas curriculares de modernização do ensino de matemática na Bahia e no Brasil, o Movimento dos Pioneiros da Educação Nova, que posteriormente ficou conhecido como o Movimento da Escola Nova. Cujas idéias influenciaram decisivamente as reformas educacionais de Gustavo Capanema e Francisco Campos nas décadas de 30 e 40. A estas reformas - sob influência do eminente professor de matemática Euclides Roxo, considerado um escolanovista - foi incorporado para o ensino de matemática o pensamento do matemático alemão Felix Klein (1908) que, dentre outros pressupostos, assumia como prioritário a valorização dos processos cognitivos do aprendiz. As Escolas Normais, instituições voltadas para formação de professores primários no Brasil, surgiram em meados do século IX, mas foi entre os anos 1900 e 1960 que estas instituições de ensino ganharam força. Entendidas dentro do contexto da modernização e industrialização do país, as Escolas Normais foram vistas como vetores do desenvolvimento do país. Estas seriam responsáveis pela preparação de agentes do progresso da nação. A primeira Escola Normal do País foi fundada na cidade de Niterói (RJ) no Século XIX quando em Regulamentada pela Lei de 15 de outubro de 1827, possuía currículo igual ao da escola primária em que se observavam noções sobre didática e leitura. Na Bahia a primeira Escola Normal foi criada no ano de 1936, mas só veio a funcionar de fato no ano de Conforme Sousa (2001) havia na Bahia na transição do século XIX para o século XX uma nítida separação da educação das elites e das emergentes camadas médias. As instalações das Escolas Normais cumpriram neste contexto um duplo papel: o de atender as demandas educacionais do estado, em vias de industrialização e modernização e o de atender aos interesses políticos oligárquicos estabelecidos. A Escola Normal de Caetité insere-se neste contexto. A Cidade de Caetité localiza-se no sudoeste da Bahia na região conhecida como Serra Geral. Destacou-se no cenário baiano pelo seu protagonismo político e pelas iniciativas educacionais adotadas no início do século XX. A primeira Escola Normal de Caetité foi fundada em 24 de agosto de 1895 em atendimento dos apelos do Dr. Deocleciano Pires Teixeira, pai do educador Anísio Teixeira e líder

4 político local. A Bahia era então governada pelo caetiteense Joaquim Manoel Rodrigues Lima, o primeiro governador da Bahia republicana. Durou oito anos e seu fechamento em 1903 se deu por questões de ordem políticas de disputas oligárquicas. Em 14 de agosto de 1925, no governo do Dr. Francisco Marques de Góes Calmon, tendo como Diretor Geral da Instrução o professor Anísio Spínola Teixeira, foi criada a nova Escola Normal. Sua inauguração se deu em 21 de abril de Fundada sob influência dos ideais escolanovistas, a Escola Normal de Caetité funcionou no período compreendido entre sua fundação e os anos cinquenta, no contexto de intensas reformas educacionais no país. Merece destaque neste período a promulgação da Lei nº 1.846, de 14 de agosto de 1925, que reformulava a instrução pública do estado baiano e o Decreto nº 4.218, de 30 de dezembro de 1925, que aprovava o regulamento do ensino primário e normal. Implantadas na gestão de Anísio Teixeira, estas reformas da educação baiana representou como que um laboratório das idéias que posteriormente seriam defendidas pelo Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. Com a instalação da Escola Normal de Caetité foram iniciados o Curso Normal, com duração de quatro anos, e o Curso Fundamental, como duração de dois anos, necessários para o ingresso no primeiro. Constituía ainda parte da Escola Normas as Escolas primárias Anexas. Os professores primários e o ensino de matemática Dos desafios impostos ao propósito de reformar o sistema de ensino baiano, o mais imediato se refere a ausência de professores qualificados para o exercício da docência. Até as duas primeiras décadas do século XX a Bahia contava apenas com o Instituto Normal de Salvador para formação do professorado baiano, muitos dos quais não dispunham-se ao exercício da profissão no interior do estado. A docência no interior era exercida em grande maioria por professores leigos sem formação profissional. É neste contexto que a Lei nº 1846 institui os Cursos de Férias, cujo objetivo segundo as palavras do então Diretor Geral de Instrução Pública, o educador Anísio Spínola Teixeira, era para as necessidades da

5 hora presente, cursos de modernização do ensino... destinados a facilitarem a adaptação do professorado ás modernas e justas exigencias de reforma da escola publica 2 Tendo em vista que a criação dos Cursos de Férias teve como objetivo principal a atualização profissional dos professores das escolas normais do estado visando melhor formar os futuros professores das escolas primárias, decorre daí algumas questões que constituem objeto de investigação deste trabalho: Quais saberes foram assumidos como necessários ao ensino de matemática na escola primária no período? Quais aspirações políticas, filosóficas e pedagógicas forjaram o currículo de matemática? Qual o papel dos Cursos de Férias na formação profissional dos professores de matemática? Para responder essas e outras questões constituem-se como fontes principais de pesquisa: as Leis e Decretos publicados no período, os livros didáticos utilizados, os anais dos Cursos de Férias e as Revistas de Ensino (publicações bimestrais das Escolas Normais). Percurso Teórico-Metodologico O trabalho caracteriza-se como uma pesquisa historiográfica. Assim, assumimos como pressuposto de pesquisa a idéia de que a escola não é um espaço imutável e alheio à sociedade, antes se constitui como o lugar de emergência da cultura escolar, local de reelaboração, e muitas vezes, confronto de idéias e ideologias. (CHERVEL, 1990). Dessa maneira, são reveladores do processo de apropriação escolar dos discursos políticopedagógicos do período os dados obtidos a partir de livros didáticos, manuais de ensino, diários de classe, exames, dentre outros documentos que constituir-se-ão fontes de pesquisa, a partir dos pressupostos teórico-metodológico de investigação da História Cultural de Roger Chartier. Segundo este autor a pesquisa histórica tem por principal objeto identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler (CHARTIER, 1990). Sobre a utilização do arcabouço teórico da História Cultural às pesquisas no âmbito da educação matemática, escreve Valente: Poder-se-ia dizer que os estudos históricos culturais da educação matemática deveriam caracterizar-se pelas pesquisas que intentam saber como 2 Conforme relatório da Inspetoria Geral do Ensino do Estado da Bahia em 1925

6 historicamente foram construídas representações sobre os processos de ensino e aprendizagem da Matemática e de que modo essas representações passaram a ter um significado nas práticas pedagógicas dos professores em seus mais diversos contextos e épocas. (VALENTE, 2013, p.37) Para tanto o trabalho de pesquisa será desenvolvido segundo os momentos descritos a seguir. Sua realização, no entanto não necessariamente obedecerá a ações ordenadas de maneira sequencial, podendo estas acontecer de forma simultânea ou em momentos diferentes: Pesquisa bibliográfica de produção teórica de trabalhos com temáticas semelhantes; Catalogação das fontes segundo o tipo de documento e período; Organização de documentação coletada em categorias de pesquisa; Identificação dos sujeitos históricos (professores, gestores, ex-alunos etc.) do período em questão; Interpretação e elaboração de inferências sobre as informações coletadas desvelando seu conteúdo manifesto e latente segundo o propósito da pesquisa. Resultados preliminares Em visitas feitas ao arquivo público municipal e aos arquivos de documentos escolares do Instituto de Educação Anísio Teixeira (IEAT) na cidade de Caetité foi encontrada vasta documentação sobre o período, em boas condições de pesquisa. Dentre os documentos encontrados estão os anais dos Cursos de Férias que datam de 1927 e 1928, ministrados no para os professores das Escolas Normais. Nestes constam orientações para o ensino de matemática na escola primária que ilustram o pensamento pedagógico do período. Ainda foram encontradas exemplares das Revistas de Educação da Escola Normal, tais revistas foram publicadas bimestralmente nos anos de 1927 e Seu conteúdo versava sobre o cotidiano escolar dos cursos normais na época, além de conter artigos dos professores com indicações das concepções de práticas pedagógicas adotadas para o ensino de matemática. Os livros raros encontrados na Biblioteca do IEAT indicam opções metodológicas de abordagens dos conteúdos de matemática: Curso completo de Desenho para o Ensino Secundário (1938), Elementos de Arithemética - Curso primário, Elementos de Arithemética - Curso elementar, dentre outros. Considerações Finais

7 São relativamente recentes os trabalhos produzidos em historiografia matemática na Bahia. Estes tratam especificamente do período compreendido entre anos 60 e 70. O trabalho proposto propõe uma temática de pesquisa que investiga um período com pouca ou nenhuma pesquisa publicada. Ao pretender investigar o processo de constituição dos saberes matemáticos no período histórico compreendido entre os anos 1925 e 1940 a pesquisa além de contribuir para a identificação da trajetória de formação profissional dos professores primários do período, possibilitará, sobretudo a valorização e preservação da memória da Escola Normal de Caetité, contribuído dessa forma para compreensão de um importante momento histórico do país. Referencias Bibliográficas: CHARTIER, R. A história cultural: entre práticas e representações. 2ª Ed. Trad. Maria Manoela Galhardo. Mirafores: Difel, 2002 CHERVEL, R. A história das disciplinas escolares: Reflexões sobre um campo de pesquisa. Teoria & Educação. Porto Alegre. N.2, DIAS, A. L. M. Engenheiros, mulheres, matemáticos: interesses e disputas na profissionalização da matemática na Bahia ( ). Tese de Doutorado. São Paulo (SP): Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), MIGUEL, A.; MIORIM, M. A. História na Educação Matemática: propostas e desafios. Belo Horizonte: Autêntica, NUNES, A. N. Fontes para história da Educação. Vitória da Conquista (BA). Praxis Educacional, n. 2 p , ROCHA, A. O. Anísio Teixeira e a Escola Normal de Caetité-Ba: Um projeto de formação de professores primários ( ). Dissertação de Mestrado VALENTE, W.R. Oito temas sobre História da Educação Matemática. Rematec: Revista de Matemática, ensino e cultura. Natal-RN. Ano 8, n. 12. p jan-jun. 2013

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