GLAUCIO LIMA FONTE BOA CAFÉ CERTIFICADO - DA ORIGEM AO DESTINO

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1 GLAUCIO LIMA FONTE BOA CAFÉ CERTIFICADO - DA ORIGEM AO DESTINO ORIENTADOR: Prof. Felippe Cauê Serigati Uberaba/MG Novembro/ 2010

2 GLAUCIO LIMA FONTE BOA CAFÉ CERTIFICADO DA ORIGEM AO DESTINO Trabalho apresentado ao curso MBA em Gestão Estratégica do Agronegócio, Pós- Graduação lato sensu, Nível de Especialização. Programa FGV Management ORIENTADOR: Prof. Felippe Cauê Serigati Uberaba/MG Novembro/ 2010

3 FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS PROGRAMA FGV MANAGEMENT MBA EM GESTÃO ESTRATÉGICA DO AGRONEGÓCIO O Trabalho de Conclusão de Curso Café Certificado da Origem ao destino elaborado por Glaucio Lima Fonte Boa, e aprovado pela Coordenação Acadêmica do curso de MBA em Gestão Estratégica do Agronegócio, foi aceito como requisito parcial para a obtenção do certificado do curso de pós-graduação, nível de especialização do Programa FGV Management. Data: Coordenador Acadêmico: Prof.: Dr. Roberto Mário Perosa Junior Orientador: Prof.: Felippe Cauê Serigati

4 DECLARAÇÃO A Savassi Café Certificações Agrícolas do Brasil Ltda., representada neste documento pelo Sr. Glaucio Lima Fonte Boa, Sócio Administrador, autoriza a divulgação das informações e dados coletados em sua organização, na elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso intitulado Café Certificado da origem ao destino, realizado pelo aluno Glaucio Lima Fonte Boa, do curso de MBA em Gestão Estratégica do Agronegócio, do Programa FGV Management, com o objetivo de publicação e/ ou divulgação em veículos acadêmicos. Patrocínio/MG, 01 de Novembro de 2010 Glaucio Lima Fonte Boa Sócio Administrador Savassi Café Certificações Agrícolas do Brasil Ltda.

5 TERMO DE COMPROMISSO O aluno Glaucio Lima Fonte Boa, abaixo assinado, do curso de MBA em Gestão Estratégica do Agronegócio, Turma ISBE4/ZMBAAGRI do Programa FGV Management, realizado nas dependências do ISBE (Instituto Sul Brasileiro de Ensino), no período de 15/11/2008 a 02/10/2010, declara que o conteúdo do Trabalho de Conclusão de Curso intitulado Café Certificado da origem ao destino, é autêntico, original e de sua autoria exclusiva. Patrocínio/MG, 01 de Novembro de 2010 Glaucio Lima Fonte Boa

6 "É no auge da seca, que o ipê-amarelo, árvore símbolo das Minas Gerais, estende sua última radicela, em busca da última gota d'água, para então convertê-la em seiva e a partir daí, produzir sua melhor florada. Roberto Rodrigues, (Palavras proferidas pelo então na época Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, em solenidade realizada no Palácio da Liberdade, na qual recebeu o título de Cidadão Honorário do Estado de Minas Gerais das mãos do Governador do Estado de Minas Gerais Aécio Neves da Cunha)

7 AGRADECIMENTOS Meus primeiros agradecimentos vão para minha esposa Michele pelo apoio nesses anos de luta e dedicação ao curso em Uberaba. A minha família que mesmo a distância sempre me apoiou nessa longa caminhada. Aos meus amigos Marcus e Ronaldo pelo todo suporte dado durante as minhas ausências na empresa durante o período das aulas em Uberaba. A todos os colegas, professores e as meninas da FGV/ISBE Uberlândia que nos acompanharam durante todo o curso. E dedico principalmente ao meu grande Deus todo poderoso que me forneceu forças para encarar essa árdua caminhada de novos conhecimentos adquiridos.

8 BIOGRAFIA GLAUCIO LIMA FONTE BOA, filho de Dayse Lima Fonte Boa e Pedro Otaliba Carvalho Fonte Boa, nasceu em 3 de março de 1979, no município de Guarapari, estado do Espírito Santo. Em 1997, ingressou na Universidade Federal do Espírito Santo, graduando-se em Engenheiro Agrônomo em julho de Em agosto de 2002, ingressou na empresa exportadora de café Comércio e Indústrias Brasileiras - Coinbra S/A como assistente comercial, onde permaneceu até janeiro de Entre 2002 e 2005, enquanto naquela casa, trabalhou nos seguintes estados: Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo, Rondônia e Bahia, sempre na área de pós colheita/controle de qualidade/pesquisa e comercialização. Desde 2006 trabalha na área de certificação agrícola como auditor de campo e auditor líder nas normas da Utz Certified, Café do Cerrado, IN MAPA/INMETRO, ISO 9001/14001 e Em novembro de 2008, ingressou no MBA Gestão Estratégica do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas, como discente do curso.

9 SUMÁRIO Página RESUMO... i ABSTRACT... ii LISTA DE QUADROS... iii LISTA DE FIGURAS... iv LISTA DE SIGLAS... v 1 INTRODUÇÃO OBJETIVOS DO TRABALHO Metodologia Coletas de dados O Mercado de café certificado PRINCIPAIS ORIGENS E DESTINOS DE CAFÉ CERTIFICADO Cafés certificados nos Estados Unidos Cafés certificados na Alemanha Cafés certificados no Japão Cafés certificados na Itália Cafés certificados na França PRINCIPAIS COMPRADORES DE CAFÉ CERTIFICADO UTZ CERTIFIED VALORES DE MERCADO PARA CAFÉS CONVENCIONAIS E CERTIFICADO TENDÊNCIAS DO MERCADO DE CAFÉ CERTIFICADO CONCLUSÕES REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS... 24

10 i RESUMO Café Certificado - da origem ao destino O presente trabalho teve como objetivo central demonstrar as diferenças de preços praticados entre o produtor (origem) e o consumidor (destino) final de cafés certificado Utz Certified, isto é, o presente trabalho visa mostrar as distribuições de margens adquiridas na cadeia do agronegócio de café certificado com intuito de incentivar a produção de cafés de qualidade com certificação garantida, visto que esse mercado está em plena ascensão no mundo, tanto no consumo quanto na produção. Foram analisados durante 2 anos os preços praticados em café certificado e convencional na região do cerrado mineiro (origem) e os valores finais comercializados nas principais redes de cafeterias (destino) da Europa, Estados Unidos e Japão. Como conclusão o estudo demonstra as grandes diferenças monetárias de preços praticados na origem até o destino final do nosso café certificado. Palavras-chave: Agronegócio café; Café certificado; Café sustentável; Certificação de café.

11 ii ABSTRACT Coffee Certificate - from source to destination This work has to demonstrate central differences in prices between the producer and the consumer (target) end of Utz Certified coffee, that is, this work has to show the distributions of margins acquired in coffee agribusiness chain certificate to encourage the production of quality coffees with certification guaranteed, since that market is in full ascension in the world, both in consumption and production. were analyzed during 2 years prices in conventional coffee certificate and in the region of the cerrado mineiro (source) and the final values marketed in major networks coffee bar (target) of Europe, USA and Japan. As a conclusion the study demonstrates the large differences in prices monetary origin to the end destination of our Certified coffee. Keywords: Coffee agribusiness; Certified coffee; Sustainable coffee; Coffee certification.

12 iii LISTA DE QUADROS Página QUADRO 1 Cadeia produtiva do café...6 QUADRO 2 Características da Certificação Utz Certified...11 QUADRO 3 Total de café convencional produzido em Mil. Sacas de 60 kg no Mundo, Brasil e na região do Cerrado Mineiro e de café Certificado Utz Certified no Cerrado Mineiro...15 QUADRO 4 Comparativo de preços de uma saca de café verde em grão cru, café torrado Torrado/moído e café para espresso convencional e certificado Utz...20 QUADRO 5 Comparativo de peso de uma saca de café verde em grão cru, café torrado Torrado/moído e café para espresso usando os padrões de torra existentes...21

13 iv LISTA DE FIGURAS Página FIGURA 1 Evolução do consumo interno de café em grão cru no Brasil...8 FIGURA 2 Preço médio (R$/Saca de 60 kg) recebido nas transações entre produtores da região de Patrocínio/MG de café Tipo 6 COB, bica corrida, bebida dura convencional e certificado Utz Certified FIGURA 3 Preço médio (R$/Saca de 60 kg) recebido nas transações entre produtores da região de Patrocínio/MG de café Tipo 6 COB, bica corrida, bebida dura convencional e certificado Utz Certified FIGURA 4 Volume de vendas de café Certificado Utz Certified no mundo no total e por países produtores (origens)

14 v LISTA DE SIGLAS ABIC AIC CECAFE CONAB CI FAO INMETRO MBA MAPA OIC SCAA ITC Associação Brasileira da Indústria de Café Acordo Internacional do Café Conselho de Exportadores de Café do Brasil Companhia Nacional de Abastecimento Consumers International Food and Agriculture Organization of the United Nations Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial Master Business in Administration Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento Organização Internacional do Café Specialty Coffee American Association International Trade Centre

15 1 1 INTRODUÇÃO A busca por qualidade na indústria de alimentos apresentou um crescimento constante na última década, fruto de mudanças nas preferências dos consumidores. Muitos deles estão dispostos a pagar mais por produtos que possuam alguns atributos desejados, que podem incluir parâmetros tangíveis ou intangíveis. Essas possibilidades de segmentação e diferenciação estão entre os fatores mais relevantes que influenciam a competitividade dos produtos certificados. Em conseqüência disso, alguns atributos de qualidade, passíveis de certificação, estão sendo incorporados como instrumento de concorrência do produto final. A crescente demanda, particularmente em países desenvolvidos, por produtos saudáveis e corretos sob o aspecto social possibilita a incorporação de novos atributos de qualidade. Setores como aqueles voltados a complexos agroindustriais têm, ao longo dos anos, se mostrado como importantes contribuintes para a formação de uma pauta de exportação nacional. Estes setores historicamente ligados à agricultura, ao longo dos anos passaram por processos de evolução, favorecendo, inclusive, o surgimento de segmentos industriais e de serviços. Um dos casos mais emblemáticos diz respeito ao agronegócio do café brasileiro, que se solidificou em meados do século XVIII e financiou todo o processo de desenvolvimento do país: desde as estradas de trem até o surgimento do parque industrial nacional, rumo ao processo de diversificação econômica e a respectiva política de substituição das exportações. No seio destas mudanças proporcionadas pela lavoura cafeeira, pode-se citar o surgimento da indústria de café torrado e moído brasileira, no final do século XIX. O segmento de cafés especiais certificados, representa atualmente cerca de 12% do mercado internacional da bebida (SCAA, 2010). Os atributos de qualidade do café cobrem uma ampla gama de conceitos, que vão desde características físicas, como origem,

16 2 variedade, cor e tamanho, até preocupações de ordem ambiental e social, como sistemas de produção e as condições da mão de obra. Nos cafés certificados, que além de atributos físicos, como aroma e sabor, também incorporam preocupações de ordem ambiental e social, o problema de mensuração das informações pelo consumidor é muito mais complexo. Também conhecidos como cafés conscientes, esses segmentos estão ampliando sua parcela no mercado de cafés especiais, dado o aumento da preocupação com as dimensões ambientais e sociais nos padrões de consumo, o que tem estimulado as preferências por bem produzidas de forma sustentável. O consumidor, contudo, não consegue distinguir, mesmo após saborear a bebida, se ela possui os atributos por ele desejados. São os chamados bens de crença. Nesses casos, o fortalecimento da confiança no organismo certificador estimula a comprovação dos atributos contidos no selo impresso na embalagem. Para isso, é necessário criar uma reputação, ou seja, relações de confiança, que só se estabelecem no longo prazo. Além disso, é preciso monitorar ou rastrear todo o caminho do produto ao longo do sistema produtivo, para reduzir perdas de informação ao longo do processo. O preço, prêmio obtido na comercialização de cafés certificados, representa um incentivo ao comportamento oportunista, estimulando o ingresso de novas empresas no negócio que podem querer vender seus produtos rotulados, sem que eles na verdade contenham os atributos necessários para essa rotulação. Essa atitude pode ser reduzida pelo monitoramento e pela certificação do produto. A certificação é um instrumento para reduzir a assimetria de informações entre os agentes e melhorar a capacidade dos consumidores para identificar atributos de qualidade específicos, que são muito difíceis de observar. A escolha do consumidor é o principal fator que leva o produtor de café a certificar seu produto. Esse consumidor, por sua vez, é motivado pela boa qualidade do café e também por suas implicações positivas sobre as condições de trabalho na agricultura e sobre o meio ambiente (CI, 2005). No Brasil, a cultura da certificação vem crescendo, porém quase toda produção se destina ao mercado internacional. Ao mesmo tempo, há divergências sobre a possibilidade ou não

17 3 de se desenvolver uma demanda por cafés sustentável certificado no mercado brasileiro que por enquanto deve girar em torno de 5% (ABIC, 2009) do café consumido no país. Alguns especialistas argumentam que pode até haver um crescimento na demanda. Porém, ela ficaria restrita a um nicho de mercado devido ao preço do café certificado, bem mais elevado que o do café convencional. A difusão dos benefícios dessas práticas e a boa qualidade do produto podem tornar-se ótimos motivos para o consumo de café sustentável certificado. O café é um dos produtos agrícolas mais comercializados no mundo. É produzido em mais de 60 países em desenvolvimento e consumido principalmente nesses países, onde as vendas anuais no varejo são superiores a US$72 bilhões (OIC, 2008). Em pelo menos 14 países, o café representa 10% ou mais dos ganhos com exportação e, no caso de 3 países menos desenvolvidos Burundi, Etiópia e Uganda representa mais de 50% (OIC, 2008). Estima-se que 26 milhões de pessoas dependam da produção de café para sobreviver e 100 milhões de pessoas estejam envolvidas no setor desde a produção (origem) até o processamento e venda (destino). Três países Brasil, Colômbia e Vietnã respondem por quase 60% da produção mundial (FAO, 2009). Entre 1997 a 2001 os preços do café caíram nominalmente em 70%, valor abaixo do custo de produção em muitos países produtores (FAO, 2004), com drásticas conseqüências para a sobrevivência rural. A queda nos preços mundiais do café entre 2000 e 2003 levou muitas organizações a focalizarem sua atenção nos impactos adversos sobre os cafeicultores, comparando-os com a situação saudável das companhias envolvidas com o comércio, torrefação e varejo, nos países desenvolvidos. Os preços têm melhorado, porém ainda se mantém relativamente baixos e muito variáveis. Muita esperança tem sido colocada nessas iniciativas emergentes de sustentabilidade do café, com o objetivo de pagar aos cafeicultores um preço justo, pra que possam investir em melhorias nas condições sociais e ambientais da produção de café. Rótulos e afirmações podem oferecer opções e oportunidades para comunicar aos consumidores o valor agregado. Os consumidores podem utilizar seu poder de compra para dar suporte aos produtos que oferecem essas expectativas, não apenas em termos de qualidade, mas também quanto às características econômicas, sociais e ambientais de sua produção, e evitar os produtos que não as apresentem.

18 4 Mas os consumidores têm sido confrontados com a crescente complexidade das questões éticas e ambientais reivindicadas pelo café e há preocupação sobre a confusão e a descrição dos critérios estabelecidos. Também existe um temor de que a certificação se constitua em um requerimento adicional para se entrar no mercado e uma barreira para os pequenos produtores. Nesse caso a certificação pode trazer vantagens às grandes empresas produtoras e pode ser irrelevante para a maioria das pequenas propriedades produtoras de café. A questão-chave é quanto as iniciativas de certificação podem contribuir para solucionar os problemas sociais, econômicos e ambientais da produção de café e melhorar o nível de vida dos cafeicultores. Uma questão importante é a reação do consumidor à presença de diferentes tipos de café certificado nas prateleiras do varejo e cafeterias. A reação do consumidor depende de diversos fatores, relacionados a sua renda, às aspirações e à ética, assim como do impacto real da certificação sobre os produtores e como isso é comunicado ao consumidor. Geralmente, há uma distância entre a realidade e o que é percebido. 2 OBJETIVO DO TRABALHO O objetivo central do presente trabalho é analisar e rastrear os valores praticados no mercado de cafés certificados Utz Certified, da origem (produtor) até o consumidor final (destino) durante os anos de 2009 e 2010, compreendendo o funcionamento da cadeia produtiva do café certificado e descobrir os fatores que influenciam os preços dos cafés sustentáveis e convencionais ao longo da cadeia produtiva do café certificado. 2.1 Metodologia O presente trabalho optou pelo uso do método da análise e da consolidação dos preços praticados no mercado nacional (origem) e no mercado internacional (destino) de café certificado. 2.2 Coletas de dados Para a coleta de dados desta pesquisa, foram utilizados os seguintes recursos: 1. Contato telefônico;

19 5 2. Produção de release com base nos sites institucionais selecionados; 3. Pesquisa documental. 2.3 O mercado de café certificado Os programas de certificação têm emergido como um modelo pra incentivar e aumentar os padrões de desenvolvimento econômico, social e ambiental da produção e comercialização de café. Há duas espécies principais de café: Coffea arabica, denominado café arábica, que representa em torno de 65% da oferta e Coffea canephora, denominado café robusta, que representa 35% (OIC, 2009) e há 20 anos representava apenas 25%. O arábica alcança preços mais elevados, porém o robusta é produzido com maior facilidade e mais resistente a doenças e pragas, e pode ser cultivado em menores altitudes (SCHOLER, M., 2004). O arábica é produzido principalmente na América Latina, mas há também grande oferta na Etiópia, Quênia, Índia e Papua Nova Guiné. O robusta é produzido principalmente no Vietnã e no Brasil. O café passa por diferentes segmentos, desde o produtor até o varejista: processamento primário (produção), exportação, importação, torrefação, atacado e varejo (destino). Os principais segmentos são mostrados no Quadro 1. A natureza da cadeia produtiva do café e as relações entre os agentes dos diferentes segmentos e entre segmentos têm se alterado nos últimos 15 anos. Entre 1962 e 1989, o café esteve sujeito a um acordo internacional, o Acordo Internacional do Café (AIC). Cotas de exportação eram acordadas entre os países signatários, com o objetivo de prevenir flutuações na oferta e nos preços e garantir que os preços permanecessem em um nível razoável, em relação aos custos de produção. O AIC terminou em 1989 e ocorreram também outras mudanças significativas no mercado internacional. Muitos países produtores tinham escritórios de comercialização de café controlados pelo Estado, os quais compravam a produção dos cafeicultores e a exportavam, garantindo que as cotas do AIC fossem cumpridas. O movimento de ajustes estrutural, de 1989 em diante, resultou na quebra dos escritórios estatais de comercialização, e sua substituição por negociantes e exportadores privados, fazendo com que novos produtores entrassem no mercado.

20 6 O crescimento na comercialização começou a se intensificar após o colapso do AIC em Houve um período de reestruturação, no qual empresas de tamanho médio faliram, fundiram-se a outras ou foram incorporadas por negociantes mais importantes (Ponte, S. 2001). Cinco companhias, Dreyfus (França) ED&F Man/Mercon (Reino Unido), Eisa (Brasil), Neumann (Alemanha) e Volcafé (Suiça) representavam cerca de 40% do volume total de café verde comercializado no mundo (ITC, 2002). O setor de torrefação está consolidado como um setor em que quatros companhias Sara Lee, Kraft Food/Philip Morris, Procter and Gamble e Nestlé compram metade do café verde comercializado, e as dez maiores companhias responderam por 60%-65% das vendas de todo o café processado em Tem havido pouca integração vertical entre torrefadores e compradores internacionais, com exceção da Tchibo, a qual integra verticalmente todos os segmentos da produção na Tanzânia (Ponte, S. 2001). Alguns torrefadores se abastecem de exportadores locais, assim como alguns comerciantes internacionais, para reduzir sua dependência de outros agentes. Quadro 1. A cadeia produtiva do café Cultivo (origem) Uma vez plantado, o cafeeiro leva de três a cinco anos para atingir plena produção, mas pode continuar produzindo por pelo menos 20 anos. Significa que, em curto prazo, a oferta é preço-inelástica. Alguns fatores que podem afetar significativamente a oferta são a geada, a seca e doenças e pragas nos grãos. O café pode ser cultivado sombreado ou a pleno sol. Os principais fatores que afetam a qualidade do café nessa etapa, e que desde então afetam o preço do produto, é a escolha da espécie, se arábica ou robusta, e a altitude na qual o café é cultivado. Altitudes maiores geralmente resultam em café de melhor qualidade. Outro fator que afeta a qualidade do café é o método de colheita (quanto maior for a quantidade de frutos verdes colhido, pior será a qualidade). Processamento primário (origem) Normalmente, é realizado nas fazendas ou propriedades, porém, ocasionalmente, os produtores vendem cerejas não processadas a comerciantes locais. Existem dois tipos principais de processamento na fazenda: via seca (natural) e via úmida (lavados). Daí se origina a futura distinção e classificação do café arábica em café não lavado ou natural, resultante do método de processamento a seco, e café lavado, resultantes do processamento úmido. O café obtido pelo processamento úmido é normalmente considerado como de melhor qualidade e mais homogêneo, com poucos grãos defeituosos. Portanto, recebe os preços mais elevados. O processamento via seca é utilizado em 95% do café arábica do Brasil, em muitos arábicas da Etiópia e Haiti, e em quase todos os robustas. O processamento via úmido é utilizado na maioria dos outros cafés arábicas.

21 7 Processamento secundário beneficiamento/descascamento (origem) Os cafeicultores vendem o café seco em coco ou em pergaminho para maquinista, diretamente ou por meio de algum intermediário local ou, em alguns casos, pagam ao maquinista para beneficiar o café. As grandes propriedades fazem suas operações de beneficiamento no próprio local. O beneficiamento remove a casca e o pergaminho dos frutos secos inteiros oriundos do processamento seco ou apenas o pergaminho, no caso do processamento úmido. Após o descascamento, segue-se uma série de operações comuns aos dois tipos de processamento seco e úmido, tais como limpeza, classificação em peneiras, escolha e seleção de grãos. Exportação/importação Do beneficiamento, o café segue para uma companhia de comercialização, diretamente ou via intermediário, para a exportação e com menor freqüência para companhias locais de torrefação, para consumo doméstico. Torrefações (destino) As torrefações de café, normalmente, estão localizadas nos países consumidores ou perto do ponto final de venda, pois a vida de prateleira do café torrado é curta, quando comparada à do café verde em grão (FITTER et all, 2001). Elaborar blends dos diferentes tipos de café para obter os sabores desejados também é importante atividade dos torrefadores. Varejo/Cafeterias (destino) Os grãos torrados (inteiros ou moídos) são vendidos aos varejistas, cafeterias ou redes de alimentação, diretamente ou por meio de um atacadista.

22 8 FIGURA 1 Evolução do consumo interno de café em grão cru no Brasil ABIC, Através dos blends, os torrefadores são capazes de combinar a utilização de quatro tipos de café (robustas, arábicas não lavados, arábicas lavados de média qualidade e arábicas lavados de alta qualidade), de acordo com o preço e a disponibilidade dos cafés, mantendo um sabor consistente. Mais recentemente, novas tecnologias, tal como limpeza com vapor, têm permitido que os torrefadores utilizem grãos de menor qualidade em seus blends, reduzindo custos. No varejo muitas tendências são notadas: Aumento da concentração das cadeias de supermercado. Encurtamento das cadeias de suprimento com supermercados eliminando uma série de intermediários. Aumento do consumo de café fora de casa, com aumento da popularidade do café cultural e emergência de cadeias de cafés globais, como a Starbucks.

23 9 O café está associado a uma série de preocupações com implicações econômicas, sociais e ambientais inter-relacionadas: Declínio e flutuação dos preços, os quais têm causado efeito recorrente sobre o bem-estar social e impacto ambiental. Declínio dos rendimentos dos países produtores e cafeicultores. Condições de pobreza para os cafeicultores e trabalhadores das fazendas de café. Deterioração do ambiente local. Preocupação com o fornecimento de café no presente e para as gerações futuras. Tem sido comum as empresas atribuírem a seus produtos apelos ambientais e sociais freqüentemente sem sustentação, originando preocupação com a roupagem verde. A certificação objetiva orientar essa preocupação, de maneira que terceiros dêem uma garantia de que as ações da empresa estão em conformidade com requisitos específicos e decidam-se a opção de utilizar o selo pode ser concedida. Um programa típico de certificação consiste dos seguintes elementos: Um conjunto de processos e condutas-padrão é freqüentemente reunido em um código de procedimentos, cobrindo diversos aspectos da produção de um determinado produto, tal como impacto ambiental, considerações sobre saúde segurança, relações com a comunidade local e direitos dos trabalhadores. Verificação de conformidade e conduta de acordo com aqueles padrões, realizada por uma organização independente, em geral separada do corpo principal da certificadora a verificação inicial é seguida por auditorias periódicas, normalmente anuais, com alguns programas utilizando também inspeções ao acaso e sem aviso prévio.

24 10 Um sistema de credenciamento da organização certificadora, que proporciona o serviço de avaliação. Um selo disponível ao produtor, para comunicar aos compradores/consumidores, que o produto está de acordo com os padrões do programa de certificação. Dessa forma, os produtores podem, na teoria, se beneficiar do valor extra que os consumidores pagam por produtos com elevados padrões ambientais ou sociais, como demonstrado no selo. Certificação da cadeia de custódia, para aqueles que manipulam o produto exportadores, processadores, ou um sistema de rastreabilidade para proporcionar a certeza de que, no varejo, o produto seja proveniente de um fornecedor certificado e que não tenha fraudado o selo ou misturado produtos certificados com não certificados. A palavra Utz, que significa bom na língua Mayan, da Guatemala, foi fundada em 1997 por produtores de café guatemaltecos e uma torrefadora européia, Ahold Coffee Company, com o objetivo de bonificar torrefadores e marcas para responderem ao crescimento da demanda por café a fim de garantir a responsabilidade na produção. A certificação Utz Certified apresenta um conjunto amplo de critérios, que compreende práticas agrícolas adequadas para a produção de café e para o bem-estar dos trabalhadores, incluindo o acesso à saúde e educação. Enfatiza muito a rastreabilidade, segurança do alimento e a qualidade do café produzido, além das boas práticas de produção. A certificação Utz Certified também objetiva canalizar a assistência técnica aos produtores, para melhorar o gerenciamento das fazendas e reduzir os custos de produção e aumentar o acesso ao crédito. Seus principais destinos são os mercados europeus, japonês e norte americano, mercados estes eu prezam muito pela rastreabilidade e qualidade do café consumido. A certificação desperta preocupações com relação às dificuldades de acesso dos pequenos produtores ao sistema, devido aos custos fixos dos processos de implantação das benfeitorias e de auditoria. Esses custos são relativamente maiores para os pequenos produtores. A certificação Utz Certified é dirigida a todos os produtores, tanto os pequenos, médios e grandes, e não há restrição em relação a regiões no mundo a serem certificadas, ou seja, certifica-se tanto propriedades que cultivam a espécie Arábica quanto o robusta (Conilon).

25 11 Quadro 2. Característica da Certificação Utz Certified Missão Habilitar produtores de café e marcas a mostrarem seu compromisso com o desenvolvimento sustentável em um mercado específico. Histórico e evolução Iniciou-se em 1997 como iniciativa de produtores e da indústria na Guatemala. Tornou-se uma ONG independente em A primeira certificação de propriedade cafeeira ocorreu em Requisitos Boas práticas agrícolas e bem estar do trabalhador. Baseia-se em uma adaptação dos padrões do EurepGAP. Foco de mercado e incentivos Marca líderes e negócios com empresas. Até novembro de 2010, foram certificados produtores (arábica e robusta) em 21 países, a maioria na América Latina, mas também na Ásia (Índia, Indonésia, Papua Nova Guiné e Vietnã) e África (Etiópia, Tanzânia, Uganda, Zâmbia, Burindi e Quênia). O programa está em plena ascensão, até novembro de 2010, Sacas de 60 kg de café verde foram vendidas como certificadas Utz Certified no mundo, deste total Sacas de 60kg (39,8%) provenientes do Brasil. Nesse período 392 propriedades no mundo estavam certificadas, sendo que 148 (45%) propriedades são do Brasil. O objetivo principal da Utz Certified é melhorar os termos de comercialização para os produtores, mas o programa não intervém nas negociações de preço, também não há nenhum tipo de prêmio ou preço mínimo como em outros programas. A política de preços estabelece que os produtores podem ser recompensados com um prêmio acima de zero por estar em conformidade com o código de conduta que se tanto um torrefador ou um produtor pagar ou aceitar um preço baixo ou nenhum prêmio, poderão ser excluídos do programa.

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