José Flávio Sombra Saraiva (diretor) Antônio Jorge Ramalho da Rocha João Paulo Peixoto Pedro Motta Pinto Coelho

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2 Diretoria José Flávio Sombra Saraiva (diretor) Antônio Jorge Ramalho da Rocha João Paulo Peixoto Pedro Motta Pinto Coelho Conselho Editorial Estevão Chaves de Rezende Martins (presidente) Amado Luiz Cervo Andrew Hurrell Antônio Augusto Cançado Trindade Antônio Carlos Lessa Denis Rolland Gladys Lechini Hélio Jaguaribe José Flávio Sombra Saraiva Paulo Fagundes Vizentini Thomas Skidmore

3 José Flávio Sombra Saraiva Amado Luiz Cervo Organizadores O crescimento das Relações Internacionais no Brasil

4 INTRODUÇÃO O crescimento das Relações Internacionais no Brasil / (Organizadores: José Flávio Sombra Saraiva / Amado Luiz Cervo). Brasilia: Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (IBRI), p.; 15.5 x 22.5 cm. ISBN Relações Internacionais no Brasil. 2. Política; Conhecimento; Ensino; Economia; Cooperação científica e tecnológica; Comércio; Turismo; Migrações. 3. Artigos, ensaios, leituras. I. José Flávio Sombra Saraiva / Amado Luiz Cervo. Direitos desta edição reservados ao Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (IBRI) Universidade de Brasília Caixa postal Brasília, DF Telefax (61) site:www.ibri-rbpi.org.br Impresso no Brasil 2005 Efetuado o Depósito Legal na Fundação Biblioteca Nacional Decreto nº 1.825,

5 AMADO LUIZ CERVO Sumário Introdução... 7 Amado Luiz Cervo Parte I: Conhecimento e ensino das Relações Internacionais no Brasil A evolução da produção intelectual e dos estudos acadêmicos de relações internacionais no Brasil Paulo Fagundes Vizentini O ensino de Relações Internacionais no Brasil Antônio Carlos Lessa Parte II: Poder nacional e segurança Entre a retórica e o realismo: o peso da política exterior do Brasil de Vargas a Lula ( ) José Flávio Sombra Saraiva O lugar do Brasil na geopolítica global Antonio Jorge Ramalho da Rocha Parte III: Brasileiros e o mundo: fluxos humanos, de idéias e de conhecimento O Brasil nas migrações internacionais Dinair Andrade da Silva Turismo e indústria cultural no Brasil Maria Thereza Negrão de Mello O Brasil e a evolução da colaboração científica internacional Isabel Canto 5

6 INTRODUÇÃO Parte IV: O Brasil e as estruturas econômicas internacionais Internacionalização da economia e dependência política: o caso brasileiro Dércio Garcia Munhoz Finanças internacionais do Brasil: uma perspectiva de meio século ( ) Paulo Roberto de Almeida Da deterioração dos Termos de Intercâmbio à Consolidação do Modelo Substitutivo de Exportações Heloisa C. Machado da Silva Conclusão José Flávio Sombra Saraiva 6

7 AMADO LUIZ CERVO Introdução Amado Luiz Cervo Esta coletânea de estudos foi concebida com o intuito de comemorar os cinqüenta anos do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (IBRI), criado em A pergunta que orientou a escolha dos temas e sua abordagem diz respeito ao crescimento das relações internacionais do Brasil nesse período. Teria o setor externo desempenhado papel crescente sobre a formação nacional? Julgou-se, pois, necessário traçar as tendências históricas e avaliar seu impacto concreto sobre o destino do país. A obra lida com um conceito de relações internacionais em que todos os fatores de intercâmbio são considerados. Além da evolução do pensamento brasileiro de relações internacionais, da elaboração da política exterior e da conseqüente conduta diplomática, da inserção econômica, vista através dos fluxos de capital, do comércio exterior e da conexão empresarial, a obra adentra por novos campos de estudo, como o ensino de relações internacionais no país, a cooperação científica entre instituições de dentro e de fora, as migrações e o turismo. Apresenta, portanto, caráter inovador, ao evocar aspectos novos do setor externo, cujo peso não se pondera nas análises tradicionais. Pesquisa, ensino e cooperação acadêmica internacional formam o primeiro bloco de temas conexos, cuja exposição define o grau de conhecimento das relações internacionais apropriado pelos brasileiros, bem como o papel do externo sobre a evolução das ciências no país. Paulo Fagundes Vizentini, pesquisador do CNPq e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, autor de livros, orientador de pós-graduação, familiarizado, portanto, com o tema, faz um balanço da produção intelectual e dos estudos acadêmicos no país. Analisa a relação entre a institucionalização do ensino, particularmente de pósgraduação, e o avanço da pesquisa, a formação de centros ou a criação de grupos avançados de estudo na Universidade de Brasília, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e na Pontifícia Universidade 7

8 INTRODUÇÃO Católica do Rio de Janeiro, entre outros. Vincula, dessa forma ensino e pesquisa, registra o extraordinário incremento dos anos 90 e traça um balanço consistente, inserindo no histórico as tendências da produção. Antônio Carlos Moraes Lessa, professor da Universidade de Brasília, aprofunda a institucionalização do ensino de relações internacionais, avaliando com adequado senso crítico a proliferação recente de cursos de graduação. Isabel Canto, jovem pesquisadora especializada no tema da cooperação acadêmica internacional do Brasil, perseguiu as sutilezas das transições entre a cooperação assistencial e a intervenção decidida de instituições brasileiras rumo à qualidade do intercâmbio, entre as fases de formação de doutores brasileiros no exterior, da vinda de mestres ao Brasil e a implementação de projetos participativos que alavancam a ciência brasileira. Apesar disso, não hesita em aplicar o termo neocolonial à experiência brasileira de cooperação acadêmica e científica internacional, dependente, porém avançada, porque capaz, desde um determinado momento, de criar conhecimento por modo igualitário, mas, ainda, condicionada a preconceitos de desigualdade cultural. As migrações internacionais e o turismo correspondem a aspectos propriamente humanos do intercâmbio entre os povos, embora estreitamente ligados a suas respectivas condições econômicas. Dois professores da Universidade de Brasília, Dinair Andrade da Silva e Maria Thereza Negrão de Mello, dedicaram-se aos temas do segundo bloco da obra. Pelo primeiro estudo, Silva descreve a profunda reversão histórica ocorrida durante os últimos cinqüenta anos no Brasil, o qual, de tradicional receptor de imigrantes, converteu-se em país de emigração, entre as décadas 1960 e Qual o nexo dessa virada com as condições de vida e a desigualdade entre as nações, questiona. Qual o perfil dos cerca de um milhão e meio de emigrantes brasileiros, as comunidades mais expressivas de destino, a capacidade de atração de trabalhadores urbanos pelos países centrais e da terra pelos vizinhos? Como reagiu a diplomacia diante do fenômeno? O turismo é importante, não somente como negócio, mas, ainda, como produtor e reprodutor da imagem do outro. Existe um signo 8

9 AMADO LUIZ CERVO Brasil a comandar as opções dos viajantes e os esforços do governo para incrementar o fluxo de turistas estrangeiros, que saltou de 1,8 para 5 milhões entre 1984 e 2000, quando foi responsável por uma receita de 4,2 bilhões de dólares. A importância histórica do Rio de Janeiro, ainda prevalecente, e o surgimento de novas zonas de atração, particularmente no Nordeste, marcam a evolução. Qual o papel do governo e qual o papel da sociedade, quais os problemas, se pergunta a autora, que deixa, entretanto, ao leitor tirar conclusões acerca da enorme desigualdade entre o turismo e a indústria cultural de países ricos e do Brasil. Um negócio que apenas começa a engatinhar. A recém-doutora pela Universidade de Brasília e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Heloisa C. Machado da Silva, apresenta conclusões de sua tese acerca da evolução do comércio exterior. Atualmente, a melhor estudiosa da política de comércio exterior do Brasil no pós-guerra, avança original interpretação ao destruir o mito do modelo substitutivo de importações, um dos maiores desastres conceituais produzidos pela inteligência dos economistas brasileiros. Se existiu tal modelo, restringiu-se aos anos 40 e 50, contudo nunca foi concebido como modelo pelos homens de Estado Vargas e Kubitschek. O desenvolvimento equivalia, então, à essência da política, a composição do comércio correspondendo a uma conseqüência, uma variável dependente. A diplomacia brasileira despertou cedo, logo após o impulso industrial dos anos 50, e inaugurou nova estratégia de comércio exterior, concentrando esforços na substituição de exportações. Não foi ouvida pelos economistas. Ninguém melhor que Oswaldo Aranha expressou a necessidade de transitar para a nova fase do comércio exterior. Essa nova fase correspondia, segundo a inteligência brasileira de então, não somente à exigência lógica do desenvolvimento como ao desafio mais duro a vencer por um país emergente. A experiência brasileira de comércio exterior, desde então até o presente, vem marcada pela evidência de que os países avançados nunca abrem de boa vontade espaço em seu clube para novos sócios, conseqüentemente as etapas do desenvolvimento serão percorridas por determinação dos interessados ou nunca atingidas. Outros mecanismos, conceitos e mitos na condução do comércio exterior são perscrutados pela autora, como o papel do 9

10 INTRODUÇÃO Terceiro Mundo, da diplomacia, do protecionismo, das políticas cambiais e das ideologias de direita e de esquerda em seu manejo. Erros e vinganças da História também estão presentes na análise, como o fato de haver Fernando Henrique Cardoso priorizado com fins eleitorais a estabilidade monetária sobre exportações e desenvolvimento. Paulo Roberto de Almeida, diplomata conhecido entre os internacionalistas brasileiros em razão de suas inúmeras publicações, analisa com segurança a inserção financeira internacional do Brasil nesses cinqüenta anos de existência do IBRI. Comparando-a com a industrialização, coerente, racional e crescente, qualifica-a de errática, porquanto caracterizada por inadimplências e por instabilidades das políticas cambiais ao longo do tempo. Sem usar o termo aplicado ao país por Clodoaldo Bueno, de grande esmoleiro internacional, recorre à expressão fragilidade externa para qualificar a inserção financeira. Os traços dessa fragilidade foram estabelecidos pelo baixo nível de poupança interna, minguado mercado de capitais, elevada carga tributária, imagem de devedor incapaz, insuficiente desenvoltura da iniciativa privada, bem como pela inserção na globalização financeira durante as décadas de 1980 e 1990, que substituiu o ciclo desenvolvimentista pelo aprofundamento da histórica fragilidade financeira até, ao que parece, o advento de Luiz Inácio Lula da Silva, em As relações econômicas internacionais do Brasil se fecha com o estudo do economista professor da Universidade de Brasília, Dércio Garcia Munhoz. Este lida com questões muito próximas aos dois outros autores do bloco, contudo sua interpretação apresenta caráter mais crítico acerca da experiência brasileira de cinqüenta anos. Munhoz estabelece intrigante conexão entre o poder político e a potência econômica nas relações internacionais dos últimos séculos e aplica o modelo de análise às relações econômicas internacionais do Brasil no século XX. Sem autonomia política, que por vezes foi sacrificada, não se alcança inserção econômica madura no mundo, esse o prisma sob o qual há de se ver a experiência brasileira. Mostra como a fragilidade financeira conduziu à internacionalização econômica do Brasil, que alimentou a própria dependência financeira e gerou a de poder. 10

11 AMADO LUIZ CERVO O Brasil cresceu nos períodos em que tomou distância dos centros de comando da economia internacional, nacionais ou multilaterais, como à época de Vargas, Kubitschek, Médici e Geisel e retraiu-se quando sacrificou sua autonomia política, como durante os anos 80 e, sobretudo, durante a era Cardoso. Nessa última fase, optou-se pela globalização com abertura comercial como alternativa única, quando na realidade o fenômeno internacional ocorreu nos campos das finanças e dos serviços. O país fez concessões equivocadas, agigantou o Estado em razão da voracidade tributária ao invés de minguá-lo como pretendiam os dirigentes. Desperdiçou, a partir de 1994, poder político que havia acumulado durante décadas e malogrou ao conduzir as relações econômicas internacionais, agravando a desigualdade estrutural do país diante das nações avançadas. Um bloco de estudos refere-se à política e à geopolítica. José Flávio Sombra Saraiva, professor da Universidade de Brasília e diretor-geral do IBRI, deixa claro o problema abordado em sua pesquisa: qual o peso que a política exterior exerceu nesses últimos cinqüenta anos? Sem hesitar, responde e demonstra em sua análise: foi grande sobre a confecção da base industrial da nação e, pela via do desenvolvimento, sobre a formação da nacionalidade brasileira. A conexão entre o externo e o interno, prevalecente por sobre governos e regimes políticos, considerados aqueles dois objetivos da ação externa, vinculou diplomacia, sociedade e inteligência nacionais, conferindo à primeira a qualidade de política de Estado, não de governo. Não somente da diplomacia derivou a política exterior. O peso da política exterior na formação nacional nos últimos cinqüenta anos balançou conforme pendiam governos, inteligência e sociedade para o lado da autonomia decisória ou da subserviência. Saraiva coincide, grosso modo, com Munhoz e Heloisa Silva: o liberalismo desenfreado despejou entulho sobre a rota do desenvolvimento, amesquinhou o poder nacional e rompeu com as melhores tradições da política exterior. O professor da Universidade de Brasília, Antônio Jorge Ramalho da Rocha, levanta a questão do lugar ocupado pelo Brasil na geopolítica mundial. O texto se volta, sobretudo, para a geopolítica como ciência, 11

12 INTRODUÇÃO definindo seus conceitos-chave, para, ao fim, ponderar a inserção do país em redes globais econômicas e jurídicas, além da participação nas operações de paz da ONU. O leitor fará a própria idéia dos textos e das relações internacionais do Brasil entre 1954 e Verá, contudo, que o período de expansão da base industrial de matriz nacional e do mercado interno coincidiu com o período de autonomia decisória da política exterior, particularmente entre 1950 e 1980, quando se cogitou, inclusive, em dotar o país de capacidade dissuasória sobre a qual embasar seu papel internacional. E que o período de abertura com alienação do patrimônio nacional e com subserviência política, que inicia nos anos 80 e se aprofunda durante a era Cardoso, afetou negativamente o ritmo de desenvolvimento e o papel geopolítico do Brasil no mundo. Contudo, os dirigentes da era Cardoso não hesitaram em afirmar que estavam pondo fim à era Vargas, na convicção de que estavam tomando decisões corretas. A polêmica entre entreguistas, como se dizia nos anos 50, ou neoliberais, como se dizia na década de 1990, e autonomistas cindiu a opinião nacional durante os últimos cinqüenta anos e não dá sinais de arrefecimento no presente e no futuro próximo. As correntes de pensamento e de opinião revelam o caráter complexo da sociedade. Sugerem, todavia, mais cuidado com o conhecimento da História, pois quem não a conhece está condenado a repeti-la. Sabendo ou não que a História se vinga sem piedade de erros estratégicos que homens de Estado venham a cometer. Os textos da obra são ricos quanto à análise de erros e acertos do processo decisório. Convergem fortemente no sentido de reconhecer que a autonomia decisória sempre foi mais benéfica para os interesses da nação do que a subserviência aos centros de comando do capitalismo. Pela simples razão de que países emergentes, nos últimos séculos, a exemplo do que ocorreu com os Estados Unidos e o Japão no século XIX, com o Brasil e a China no século XX, não ascendem na ordem internacional sem autonomia decisória e definição estratégica de objetivos a alcançar por meio da política exterior. Sem esses padrões de conduta uma nação não vence as etapas do desenvolvimento: lançamento de uma indústria voltada para o mercado interno e 12

13 AMADO LUIZ CERVO conquista de mercados de produtos primários na primeira fase; robustecimento da economia nacional com exportação de manufaturados na segunda; exportação de empreendimentos na terceira, quando o país atinge a inovação tecnológica. Essas etapas do desenvolvimento foram percebidas como naturais e necessárias pelos estadistas brasileiros e pela diplomacia entre 1930 e 1980, quando atrelaram a si o processo decisório em política exterior. Não foram percebidas pelos neoliberais da era Collor e Cardoso, que não fizeram uso do poder nacional posto à disposição pela herança do passado e agravaram, por certo, os indicadores econômicos e sociais da nação. 13

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15 PARTE I Conhecimento e ensino das Relações Internacionais no Brasil

16 INTRODUÇÃO 16

17 PAULO FAGUNDES VIZENTINI A evolução da produção intelectual e dos estudos acadêmicos de relações internacionais no Brasil Paulo Fagundes Vizentini* Traçar um perfil exaustivo da produção intelectual e dos estudos acadêmicos das relações internacionais no Brasil constitui tarefa quase impossível, dada a amplitude que elas atingiram nos últimos anos. Da mesma forma, essa produção e esses estudos encontram-se disseminados por várias áreas do conhecimento e apenas recentemente há uma tendência em concentrar-se no campo específico das relações internacionais. Felizmente, os antecedentes do perfil acadêmico e produção editorial na área de Relações Internacionais são um tema já trabalhado por analistas renomados como Paulo Roberto de Almeida (2004) e Shiguenoli Miyamoto (1999) 1. Assim, o objetivo deste texto não será o de retomar essas avaliações, mas sim oferecer considerações adicionais sobre o momento atual. Essas reflexões se organizam da seguinte forma: uma introdução sobre o surgimento da área, ressaltando os pontos mais importantes desse balanço prévio, seguida de discussões sobre o ensino, a pesquisa e a profissão de relações internacionais. Finalmente, apresenta-se um estudo da produção editorial neste início do século XXI e as perspectivas da área, com a devida autocrítica. Gostaria de assinalar que, como é impossível mencionar todos os pesquisadores, cursos e publicações no curto espaço desse artigo, optei pelas linhas gerais, períodos e centros de maior visibilidade. Detalhes são encontrados nos autores acima referidos. * Professor titular da UFRGS e pesquisador do CNPq. O autor agradece o apoio da professora Cristina Pecequilo para a elaboração desse texto. 1 MIYAMOTO, Shiguenoli. O Estudo das Relações Internacionais no Brasil: o Estado da Arte. Revista de Sociologia e Política. Junho 1999, p ; e O Ensino das Relações Internacionais no Brasil: problemas e perspectivas. Disponível em cursos_ri4_artigo_ensino.htm. 17

18 A EVOLUÇÃO DA PRODUÇÃO INTELECTUAL E DOS ESTUDOS ACADÊMICOS... Da história diplomática às relações internacionais Num exame do contexto da evolução da produção editorial brasileira em relações internacionais, pode-se considerar que um dos grandes motores que impulsionaram seu crescimento, aceleração e diversificação relaciona-se à expansão dos cursos nessa área no país a partir da década de 1990 e à simultânea abertura externa que acompanhou a passagem do nacional-desenvolvimentismo à globalização, marcada no país pela agenda neoliberal. Ligada às pressões externas geradas pelo fim da Guerra Fria em 1989, essa expansão foi impulsionada pela aceleração de fenômenos como a globalização e a regionalização e vinculada também ao aprofundamento da interdependência e da transnacionalização, que trouxeram para a linha de frente das preocupações temas que até então apareciam como relativamente marginais na agenda nacional. A dinâmica dessas mudanças, somadas às transições da política mundial e brasileira, gerou demanda por um conhecimento específico sobre esses movimentos, incentivando a busca por profissionais capacitados e por análises especializadas. Durante a fase precedente, com exceção do curso de Relações Internacionais da UnB e do Instituto de Relações Internacionais da PUC do Rio de Janeiro e de especialistas dispersos em vários centros e núcleos de pesquisa que desenvolviam suas ações individualmente (como no Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais (Nupri) da USP, no Cedec e no Naippe/USP, também em São Paulo, no IRI da PUC-Rio e as atividades do Rio de Janeiro, na UERJ e na UFRJ, bem como na UFRGS e em outras instituições gaúchas e catarinenses), o pensamento acerca do internacional era quase que restrito ao campo diplomático no Itamaraty e a alguns setores das Forças Armadas, centralizados na vertente dos estudos estratégicos. De acordo com Almeida 2, a interação entre a diplomacia e a produção intelectual no campo das relações internacionais no Brasil 2 ALMEIDA, Paulo Roberto de. Relações Internacionais e Política Externa do Brasil. Porto Alegre: Ed. UFRGS. 2ª ed., 2004 e Revista Brasileira de Política Internacional: quatro décadas ao serviço da inserção internacional do Brasil. Disponível em 18

19 PAULO FAGUNDES VIZENTINI teve sua origem em fase anterior, particularmente no século XIX e na primeira metade do século XX. Nesse período, podemos destacar a existência de diversos estudos ligados à história diplomática do Brasil e à política externa nacional. Dentre os mais relevantes na formação e fundação do pensamento nacional, sobressaem Pandiá Calógeras em A Política Exterior do Império, Helio Vianna História Diplomática do Brasil e Delgado de Carvalho em livro do mesmo título. Esses verdadeiros precursores constituíam uma espécie de pré-história do estudo acadêmico das relações internacionais no país. Um autor de transição para uma nova abordagem da história diplomática do Brasil foi José Honório Rodrigues com obras como Brasil e África e Interesse nacional e política externa, típicas de um momento política e intelectualmente marcante, caracterizado pelo nacionalismo do fim dos anos 50, pela política externa independente e pela implantação do regime militar. Foi precisamente no início desse período que surgiu o Instituto Brasileiro de Relações Internacionais IBRI (que editaria a RBPI a partir de 1958), que agora comemora seu cinqüentenário. Numa perspectiva semelhante, podem-se mencionar as obras de Moniz Bandeira, especialmente Presença dos Estados Unidos no Brasil. Nessa época, merece destaque a publicação da revista Política Externa Independente, pela Editora Civilização Brasileira. Apesar de terem sido lançados apenas três números, seu impacto intelectual foi imenso, encerrando com chave de ouro um período bastante fecundo. O fortalecimento das relações internacionais No período mais recente, trabalhos como os de Amado Cervo e Clodoaldo Bueno em sua História da Política Exterior do Brasil representam a conclusão da transição para uma fase realmente científicoacadêmica na produção bibliográfica. Recentemente, esse texto foi reeditado em versão atualizada pela Editora da UnB. Cervo e Bueno mantêm sua produção na área, individualmente ou em parceria com outros estudiosos. Bueno publica A Política Externa da Primeira República e Amado Cervo organiza O Desafio Internacional do Brasil. 19

20 A EVOLUÇÃO DA PRODUÇÃO INTELECTUAL E DOS ESTUDOS ACADÊMICOS... Em torno desse último se aglutinou um grupo de pesquisa do CNPq na área de História das Relações Internacionais (Saraiva, Döpcke, Vizentini, entre outros). Outros autores que produziram obras relevantes na área são Gerson Moura, com seus estudos sobre as relações Estados Unidos-América Latina, especialmente, Autonomia na Dependência, além de José Luis Werneck da Silva, com As duas faces da moeda: a política externa do Brasil monárquico, e Ricardo Seitenfus, com O Brasil de Getúlio Vargas e a formação dos blocos. Mas na passagem dos anos 80 aos 90, surgiram também importantes coletâneas, como Temas de Política Externa I e II, organizadas por Gelson Fonseca Jr., Waldemar Carneiro Leão e Sérgio Nabuco de Castro, além de Sessenta anos de Política Externa Brasileira (4 volumes), edição organizada por José Augusto Guilhon Albuquerque, com artigos de diplomatas e acadêmicos. A análise dos paradigmas da política externa brasileira, os interesses estratégicos nacionais, as principais negociações brasileiras e acordos bilaterais no mundo (Itaipu, o Acordo Nuclear Brasil-Alemanha) são abordados nessa coletânea, que contou com a participação de acadêmicos como Myiamoto, Tullo Vigevani, Paulo Wrobel, Monica Hirst, e diplomatas como Paulo Nogueira Batista. Paralelamente, devem-se destacar as obras de um acadêmico-diplomata e de um diplomata-acadêmico que são, respectivamente, Celso Lafer e Paulo Roberto de Almeida, esse último autor de volumosa produção. Merece destaque, ainda, a produção intelectual gerada no âmbito do Curso de Altos Estudos (CAE) do Instituto Rio Branco, Ministério das Relações Exteriores, com a publicação de várias teses pela Funag e editoras universitárias, abordando temas específicos da política externa do Brasil. Também merecem destaque os seminários organizados pelo Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI), especialmente a partir da gestão do embaixador Samuel Guimarães, autor e organizador de obras importantes, e pela Fundação Alexandre de Gusmão (Funag) fundação vinculada ao Ministério das Relações exteriores e cujos materiais foram publicados, preenchendo imensas lacunas no campo do estudo das relações bilaterais do Brasil. Com apoio do CNPq, da 20

21 PAULO FAGUNDES VIZENTINI Capes e de outros financiadores, o Itamaraty estimulou e articulou a produção acadêmica na área de relações internacionais do Brasil. Assim, o pensamento sobre Relações Internacionais no país tem suas origens nesse campo diplomático, expandindo-se lentamente para o setor acadêmico e privado. Segundo Almeida, no Brasil, a tendência observada (...) é de um progressivo deslocamento da produção historiográfica em Relações Internacionais dos gabinetes da elite intelectual, e também governamental (...) para as salas mais acanhadas das novas gerações de pesquisadores profissionais (...) (Almeida, 2004, p. 49) A acelerada expansão do ensino e da pesquisa Apesar da competência reconhecida dessas atividades, faltava ao Brasil uma certa quantidade de massa crítica qualitativamente preparada para a discussão dessa nova fase das relações internacionais no país e no mundo. Afinal, ela mesma se encontrava em processo de formação. Quando os cursos acadêmicos, em nível de graduação ou de pósgraduação (stricto e lato sensu), começaram a se expandir, essas lacunas foram reveladas com mais clareza. Até então, o espaço dedicado às relações internacionais tanto no ensino como na pesquisa, no mercado editorial e na mídia era relativamente restrito, não havendo uma política específica de publicação de textos ou de formação de analistas e professores. Com frequência, o material disponível era somente acessível em língua estrangeira, principalmente em inglês, espanhol e francês e a quase todas as obras que haviam sido traduzidas para o português no país (em especial pela Editora da Universidade de Brasília, no início dos anos 80) encontravam-se esgotadas, havendo poucos exemplares de consulta em bibliotecas, o que dificultava e limitava o acesso do público. No campo das revistas especializadas, havia também uma importante limitação. Na prática, somente duas publicações funcionavam de forma ativa, a Revista Brasileira de Política Internacional (RBPI), fundada em 1958, editada pelo IBRI, e a Contexto Internacional, nascida em

22 A EVOLUÇÃO DA PRODUÇÃO INTELECTUAL E DOS ESTUDOS ACADÊMICOS... no IRI/PUC-RJ. A revista Política e Estratégia, editada em São Paulo, teve duração limitada ( ). Em comparação com o exterior, especialmente com os EUA, os meios de divulgação e publicação estavam no início. Na maioria das vezes, os textos sobre temas da área eram inseridos em publicações e jornais de circulação geral, mas sem atenção e espaço especial. O surgimento de periódicos como Política Externa (Editora Paz e Terra, desde 1992) e o boletim Carta Internacional (Nupri/USP, ) nos anos 90 mudaram um pouco esse cenário. Política Externa está sob a responsabilidade da Editora Paz e Terra, com apoio do Gacint/USP (Grupo de Análise de Conjuntura Internacional) e do IEEI (Instituto de Estudos Econômicos Internacionais). Além disso, o Gacint publica também um boletim, o Panorama de Conjuntura Internacional. Todavia, será com o avanço da internet, suas facilidades de edição e disseminação, que os artigos ganharão cada vez mais espaço. Não só faltavam materiais disponíveis de estudo para os que se dedicavam ao campo de estudos das relações iternacionais, como também os diversos cursos que surgiram apresentavam dificuldades na formação de suas grades curriculares. Como se viu, o desenvolvimento da área no Brasil é bastante recente e rápido, sustentado pela necessidade de se buscar conhecimento e especialização inexistentes em larga escala no país. Assim, ainda que alguns bons e experientes profissionais já atuassem no mercado, principalmente no campo acadêmico, como mencionamos, eles eram insuficientes para dar conta da grande quantidade de cursos que surgiam nacionalmente. Aproveitando o momento, o marketing e o glamour que o nome relações internacionais oferecia, diversas instituições de ensino (especialmente privadas) passaram a oferecer cursos nesse campo, sem, entretanto, atentar às suas especificidades. Com isso, muitos cursos de Relações Internacionais foram criados a partir de áreas pré-existentes, como Comércio Exterior, Marketing, Administração, Negócios Internacionais, compartilhando disciplinas e professores. A readequação destes cursos tem sido lenta, e nem sempre se pode impedir seu surgimento, mesmo com os critérios do Ministério da Educação. Na verdade, o próprio MEC carece de uma grande quantidade de 22

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