Pesquisa e Material Desenvolvidos com Base em Critérios Linguísticos para a Prática Fonoaudiológica nas Afasias

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1 Pesquisa e Material Desenvolvidos com Base em Critérios Linguísticos para a Prática Fonoaudiológica nas Afasias Organizadores Ricardo Joseh Lima Solange Iglesias de Lima

2 P474 Pesquisa e material desenvolvidos com base em critérios linguísticos para a prática fonoaudiológica nas afasias / organizadores Ricardo Joseh Lima, Solange Iglesias de Lima. Rio de Janeiro: UVA, p. : 30cm. ISBN Afasia. 2. Linguística. 3. Fonoaudiologia. I. Lima, Ricardo Ficha catalográfica eleborada pela BIBLIOTECA CENTRAL DA UVA Biblioteca Maria Anunciação Almeida de Carvalho

3 Nota sobre os organizadores Ricardo Joseh Lima Doutor em Linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, docente da graduação em Letras e Pósgraduação Stricto Sensu em Letras, área de concentração - Linguística, coordenador do Programa Linguagem em Condições Diferenciadas, do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Solange Iglesias de Lima Mestre em Linguística pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), fonoaudióloga, docente dos Cursos de Graduação em Fonoaudiologia e em Psicologia e membro do Comitê de Pesquisa do Programa de Iniciação Científica da Universidade Veiga de Almeida, diretora técnica e administrativa da Clínica de Fonoaudiologia do Centro de Saúde Veiga de Almeida, bolsista Proatec do Programa Linguagem em Condições Diferenciadas, do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

4 Sumário Agradecimentos Prefácio Parte I Capítulo I Linguística e Fonoaudiologia: um diálogo possível nos estudos de afasias Parte II Capítulo II Aspectos Quantitativos e Qualitativos da Fala Afásica Capítulo III Nomeação de Figuras por Afásicos no Português Brasileiro Capítulo IV Aspectos Metodológicos na Avaliação da Compreensão de Agramáticos Afásicos de Broca Capítulo V Aspectos Metodológicos na Avaliação da Produção de Afásicos de Broca Apêndice da parte II Parte III Advertência Material FonoLing

5 Agradecimentos À Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), por ter possibilitado, com a cessão de espaço (sala bloco F) e de bolsas de extensão, as condições estruturais para que as atividades do Programa Linguagem em Condições Diferenciadas (PLCD) venham sendo realizadas. À Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), pela concessão do incentivo por meio do programa Proatec, que possibilitou a inclusão e permanência da fonoaudióloga Solange Iglesias de Lima. Ao Centro de Saúde Veiga de Almeida, que, por meio da Clínica de Fonoaudiologia, possibilitou a criação do Centro de Recuperação do Paciente Afásico (CRPA) e o incentivo a essa publicação. Às professoras Letícia Maria Sicuro Corrêa (PUC-Rio) e Marina Rosa Ana Augusto (Uerj), cujos convívios e experiência acadêmica em muito contribuíram para a elaboração das pesquisas, sem que, no entanto, sejam responsáveis por erros que tenham sido cometidos em sua realização. Aos bolsistas de extensão, colaboradores e voluntários que auxiliaram na coordenação das atividades e no contato com os afásicos nos últimos três anos: Juliana Chagas, Andréia Brandão, Carolina Ferreira, Aline Dias, Suzana Vieira, Daniele Kazan, Clara Villarinho, Renê Forster, Helena Santos, Juliana Adauto, Daniele Rosa, Cláudia Nascimento, Queila Martins e Victoria Haddad. Às pessoas afásicas que participaram (e ainda participam) desse projeto, pela confiança e paciência que tiveram (e têm) ao demonstrar suas dificuldades. Este trabalho é para vocês.

6 Prefácio Em dezembro de 2007, por força do Ato Executivo 17/2007-Reitoria, foi criado o Programa Linguagem em Condições Diferenciadas (PLCD), com o objetivo de estender o alcance de atividades realizadas por seu predecessor, o Programa Surdez. Com isso, estavam criadas as bases para a concretização de pesquisas que tivessem como escopo outras situações além da surdez, como as afasias, tema deste livro, e o Déficit Específico da Linguagem (DEL). Este livro é o resultado dos trabalhos realizados pela equipe que compõe o Projeto Linguagem em Circunstâncias Excepcionais, que integra o PLCD e focaliza aspectos linguísticos das afasias. Uma de suas atividades foi a confecção da cartilha Falando sobre afasia, entendendo o afásico, com a finalidade de divulgar, em linguagem informal, informações sobre afasia para afásicos, familiares, profissionais e interessados no tema. A equipe do Projeto Linguagem em Circunstâncias Excepcionais é composta atualmente por um linguista (coordenador), uma fonoaudióloga e alunos de graduação e pós-graduação. Essa configuração permitiu a concretização desta obra, que contém o Material elaborado com a finalidade de servir de apoio ao trabalho do fonoaudiólogo e a apresentação de resultados de pesquisas realizadas pela sua equipe. A primeira parte deste livro é dedicada a um capítulo único, que apresenta as bases e as justificativas para a concepção de um trabalho que construa elos entre a Linguística e a Fonoaudiologia. Na segunda parte, são apresentadas as pesquisas realizadas por bolsistas de extensão e por alunos de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Letras da Uerj. Os dois primeiros capítulos (II e III) dessa parte foram escritos pelos bolsistas, em colaboração com o coordenador do projeto e com uma fonoaudióloga. Esses capítulos focalizam os passos para a realização de uma pesquisa com afásicos seguindo critérios linguísticos. Os outros dois capítulos dessa parte (IV e V) foram escritos a partir das dissertações de mestrado defendidas em março de 2008 por Clara Villarinho e Renê Forster. A terceira parte traz os materiais que compõem o que chamamos, informalmente, de FonoLing atividades e testes linguisticamente orientados a partir dos níveis gramaticais (Fonologia, Morfologia, Sintaxe e Semântica). A ideia do Material FonoLing surgiu da necessidade, sentida pelo coordenador do projeto e pela fonoaudióloga, de constituir um conjunto de situações de avaliação que conjugasse tanto aspectos linguísticos quanto fonoaudiológicos como sua característica principal e definidora. Desse modo, por exemplo, mencionam-se os níveis linguísticos ao mesmo tempo em que se concedem liberdades na aplicação do Material que estejam compatíveis com a prática fonoaudiológica. Com o auxílio dos bolsistas, foram realizadas as etapas de levantamento de dados, elaboração de versões, aplicações prévias, até chegar-se à forma final. Essa forma final, no entanto, não significa que o Material está terminado, sem direito a revisão. Pelo contrário. O Material, tal como está constituído e apresentado, não possui a ambição de ser comparado a outros que são utilizados com frequência na prática fonoaudiológica no Brasil e no exterior. No momento, ele se situa como uma indicação de caminhos a serem seguidos, uma proposta de visualização das relações entre Linguística e Fonoaudiologia e uma aposta nos frutos que essa relação pode trazer para o principal interessado: o afásico. O futuro dirá se estamos longe ou não deste sonho. 1 Este tema é atualmente abordado no projeto DEL: conhecendo populações em condições diferenciadas de aquisição da língua, coordenado pela Profa. Marina Rosa Ana Augusto (Uerj).

7 Parte I

8 Capítulo I Linguística e Fonoaudiologia: um diálogo possível nos estudos de afasias Solange Iglesias de Lima (UVA- Proatec Uerj) Ricardo Joseh Lima (Uerj)

9 Capítulo I - Linguística e Fonoaudiologia: um diálogo possível nos estudos de afasias Dentre os estudos propostos pela ciência fonoaudiológica, está a ênfase nos estudos afasiológicos. Devido à complexidade das manifestações afásicas, os modelos de caracterização foram baseados em critérios desenvolvidos por áreas correlatas, as quais também enfrentam diferentes condições e possibilidades de entendimento dessa instigante ocorrência: a afasia. Esta ciência, contemporânea na sua existência, também se ocupa em reordenar, reativar ou recuperar os problemas identificados na linguagem motivados por problemas de origem neurológica ou mesmo os atribuídos às desordens na aquisição e ou desenvolvimento linguístico que não estejam creditados aos problemas neurogênicos. Sendo uma ciência de ordem prática, necessita de suporte teórico que sustente e alimente as etapas metodológicas descritas para o adequado restabelecimento da faculdade comunicativa, independentemente da sua natureza. Assim, ao tratar a linguagem como foco das manifestações que pretende analisar, supõe a existência de argumentos teóricos suficientes para poder considerar e identificar certas condições de irregularidade. Ao isolar o fenômeno afásico, identifica que essa manifestação é determinada por um acontecimento orgânico (acidente vascular cerebral hemorrágico ou isquêmico, traumas crânio-encefálicos) no córtex cerebral (hemisfério esquerdo, preferencialmente), interrompendo as vias de informações nervosas entre centros reguladores da linguagem humana. Descritas dessa forma, as afasias pertencem ao repertório das impossibilidades decorrentes daquelas enfermidades, sendo estas uma condição específica para identificação do diagnóstico afásico. Porém, nem toda alteração no córtex adulto provoca um estado afásico: as condições neuroanatomofisiológicas que determinam as afasias são especiais, regulares e possíveis de serem identificadas a partir de exames clínicos e instrumentais. Essa descrição favorece e indica que, ao emprestar os conhecimentos anatômicos, fisiológicos e funcionais, a Neurociência contribui com seu escopo teórico, determinando, assim, uma forma de descrição das afasias. Esse modelo de apresentação de uma manifestação afásica identifica a etiologia do problema, porém, apenas a etiologia, fator que não é menos importante para caracterização das afasias, contudo, desvia o que, de fato, pode ser recuperado por meio da atuação fonoaudiológica. Por meio dos tempos, a prática clínica fonoaudiológica, que se ocupa desses transtornos, foi baseada em princípios fornecidos pelas escolas médicas mundiais, as quais orientaram durante décadas os procedimentos de avaliação, descrição, diagnósticos e conduta terapêutica nas afasias. Com o avanço das técnicas de intervenção fonoaudiológica nesses quadros, novos rumos foram tomados pelos profissionais que atuam diretamente com esses sujeitos e, assim, outros possíveis diálogos foram iniciados. Um desses diálogos pode vir a se revelar extremamente frutífero para a Fonoaudiologia. O contato mais estreito com a metodologia e os objetivos da ciência Linguística traria benefícios não apenas para as questões com as quais a Fonoaudiologia trabalha. Em um ato de alta generosidade científica, a Fonoaudiologia poderia contribuir também, com sua experiência e interdisci-

10 10 Parte I plinaridade natural, para a (in)formação da Linguística. Desse modo, o diálogo pode ser estabelecido em seu aspecto pleno, em que ambos os lados ouvem e se pronunciam. Para demonstrar que esse diálogo não apenas é viável, mas também proveitoso, é que essa publicação foi idealizada. O Material FonoLing, que consta da terceira parte, foi pensado e elaborado a partir da construção desse diálogo. Ao mesmo tempo em que contempla de modo sistemático os níveis de análise linguística (Fonologia, Morfologia, Sintaxe e Semântica), apresenta-se como ferramenta de diagnóstico e instrumento de auxílio ao tratamento das afasias. A advertência, que introduz esta parte do livro, apresenta com mais detalhes as bases e os objetivos desse Material. Ainda, pesquisas que utilizaram parte do Material FonoLing compõem a segunda parte do livro. O aspecto morfológico está contemplado no capítulo de Forster, que aborda especificamente a morfologia verbal. Esse capítulo contém também uma abordagem do aspecto sintático, ao focalizar a repetição de estruturas sintáticas que variam das mais simples às mais complexas. O aspecto morfossintático também é o foco do artigo de Lima, Martins, Nascimento e Garrão: a análise de narrativas de afásicos se dá por meio de critérios formais, tais como presença de flexão, elaboração do sintagma verbal, presença de oração subordinada, entre outros. A fronteira entre sintaxe e semântica está presente no capítulo de Villarinho, que estuda a compreensão de sentenças por meio de testes, utilizando gravuras e encenações. Essa fronteira é ultrapassada no capítulo de Lima, Adauto, Rosa e Lima, que, por meio de um teste de nomeação, busca caracterizar os problemas semânticos que podem surgir em decorrência da afasia. Afasia no contexto fonoaudiológico Para o profissional responsável pela avaliação e diagnósticos de sujeitos afásicos e consequente acompanhamento, talvez, um dos maiores desafios seja a seleção de um instrumento adequado para a realização dessas ações. Pelas características que envolvem as síndromes afásicas, podemos afirmar que são também diversos os modos e parâmetros capazes de categorizar esses impedimentos na linguagem. Entende-se por afasia uma perda ou prejuízo da habilidade linguística causada por lesão no córtex cerebral adulto (ARDILA, A. & BENSON, F trad.). Tradicionalmente, os modelos de descrição dos sintomas relacionados às afasias estiveram sempre impregnados por uma nomenclatura médica que se mantinha fiel às características clínicas da lesão. Assim, os resultados obtidos por meio da aplicação de protocolos estavam, na verdade, objetivando compreender como o cérebro estruturava as habilidades linguísticas e cognitivas a partir da identificação dos sintomas afásicos, independentemente de sua natureza. A criação de protocolos de avaliação submetida a esse modelo de descrição estabelecia os critérios de categorização dos sintomas e, a partir daí, sugeria um tipo ou subtipo de afasia. As evidências que ocorriam na linguagem estavam na dependência de um local anatômico previsto para ocorrência de uma forma afásica. Desta forma, um déficit funcional na área de Broca provocaria o tipo afasia de Broca; um déficit na área funcional de Wernicke provocaria afasia de Wernicke e, assim por diante. A estreita relação lesão-sintoma configurava a forma adequada de entendimento de como o cérebro processava a produção e compreensão de linguagem e também servia de base para a classificação de um tipo afásico. Esse ponto de vista orientou (e ainda orienta) os procedimentos de avaliação, descrição e diagnose de síndromes afásicas. As distinções classificatórias baseavam-se em certas dicotomias do tipo motor/sensorial (GOLDSTEIN 1948), anterior/posterior (WERNICKE, 1881; LICHTHEIM, 1885), expressiva/receptiva (MC- BRIDE, 1935) não fluente/fluente (BENSON, 1967), eferente/aferente (LURIA, 1966) e mais uma sequência de subtipos que foram surgindo à medida que novas características e particularidades eram consideradas. Assim, os efeitos causados por diferentes modelos e princípios de análise e descrição criaram mais controvérsias do que soluções. Nesse cenário, as terminologias afasia e síndrome afásica passaram a representar manifestações idênticas, sendo seu uso um caso de opção terminológica. Importante notar que o termo afasia pode variar entre um uso marcado pela herança neurológica ou apropriar-se de um significado privilegiado pelo sintoma linguístico. Talvez o que deva ser considerado, no âmbito da ciência

11 Capítulo I - Linguística e Fonoaudiologia: um diálogo possível nos estudos de afasias 11 Fonoaudiológica, não seja necessariamente a controvérsia terminológica, porém, o que se entende sobre linguagem, sua natureza teórica e implicações metodológicas. O diagnóstico de afasia não é uma tarefa complexa, de forma geral; se houver um dano no tecido cortical em áreas instrumentais da linguagem, e o indivíduo demonstrar dificuldades em produzir e/ou compreender o que lhe é dito, este pode ser considerado afásico. O problema está justamente na diversidade das manifestações linguísticas, o que leva a crer que o substrato que se modifica, ou seja, a linguagem, possui critérios e condições que deverão ser submetidas à ótica clinica de quem avalia e diagnostica. É nesse sentido, portanto, que a opção por uma teoria de linguagem se faz necessária. Embora particulares, as metodologias de investigação da linguagem tornam-se (quase sempre) coadjuvantes quando se pretende dar um tratamento linguístico às síndromes afásicas. Em alguns casos, e não raros, os protocolos de avaliação da linguagem são utilizados como forma de roteirizar um fato que já é observável, seja pelo fonoaudiólogo, médico, familiares, ou mesmo pelo próprio indivíduo, que, em certas condições, reconhece suas dificuldades. Os resultados obtidos com base nesses protocolos passam a legitimar as circunstâncias em que o discurso está sendo produzido/interpretado. Por outro lado, a falta da aplicação de um instrumento formal de investigação para esses casos torna inviável o estabelecimento de um diagnóstico objetivo. A clínica fonoaudiológica que atua nessa dimensão tem utilizado alguns protocolos que, em sua maioria, foram elaborados nos idiomas inglês e francês e, adequadamente, traduzidos para o idioma Português. No entanto, entende-se que as diferenças, ou seja, os parâmetros individuais de cada língua, que interferem e determinam o processamento das informações no cérebro humano, não devam ser desconsiderados. Testes tradicionais, como os de Goodglass & Kaplan (1983), Schuell (1955), Luria (1970), Sarno (1969), entre inúmeros outros indicadores, são utilizados como instrumentos de detecção das violações na produção e/ou interpretação da linguagem. As tarefas propostas incluem a capacidade de nomear, produzir sentenças, repetir elementos de menor ou maior complexidade e identificar argumentos semânticos, desta forma, propondo-se a alcançar todos os níveis considerados verbais e/ou não verbais. Se observarmos os critérios de análise e padronização dos resultados, podemos identificar os propósitos pelos quais esses testes foram elaborados. Reconhecendo as diferentes épocas em que foram produzidos, entendemos que as condições e parâmetros das tarefas idealizadas foram instrumentos inovadores para o entendimento da forma como a linguagem se ordenava no cérebro humano. Portanto, como taxonomia de um fenômeno linguístico-cognitivo, os scores obtidos proporcionavam o estabelecimento de uma nova visão para um problema, até então, de difícil solução. Durante alguns anos, os estudos fonoaudiológicos das afasias aderiram a essas condições de mensuração. A abrangência dos testes internacionais somados à informação clínica-médica sobre a origem do problema afásico compunha e determinava os procedimentos de recuperação da linguagem. Dentre todos os argumentos defendidos em favor de uma classificação dos sintomas, e a partir dela, o consequente diagnóstico em alguns casos, por exclusão, as afasias receberam várias nomenclaturas, que pouco contribuíam para uma terapêutica eficiente, objetiva e rápida. Os sintomas que receberam tratamento linguístico (parafasias, perseverações, jargões, agramatismo, ecolalia etc.) compunham uma série de fenômenos que determinavam a forma de exibição do problema e, assim, poderiam categorizar um tipo ou subtipo afásico. De certa forma, esses critérios de classificação, diagnóstico e acompanhamento deixaram de lado o que, na verdade, justificava todo esse empreendimento. Se a afasia é um problema na linguagem, entendida como impedimento de comunicação, por meio da utilização de elementos de uma dada língua, então, muitos fatores linguísticos foram deixados de lado, comprometendo o entendimento do acesso e processamento dessas informações. É claro e determinante que as afasias são decorrentes de dano do material neurológico e, nesses casos, torna-se impossível assumir essa manifestação sem privilegiar esse conhecimento. A ênfase dada apenas a essa circunstância clínica distanciou o aspecto do conhecimento linguístico em situações discursivas. A prática fonoaudiológica está comprometida com ambas as situações etiológicas, porém, o material de investigação disponível é composto por critérios determinados por um instrumental originário da tecnologia por imagem (tomografia computadorizada do crânio, ressonância magnética de

12 12 Parte I emissão isótopos) e/ou por um modelo de linguagem independente da sua referência teórica. Entender que a observação da imagem cerebral determina e informa o local da lesão deve ser ponto de partida da análise. O rastreamento cerebral, sem a menor dúvida, torna explícita a alteração fisiológica, mas não indica se há ou não um quadro afásico. Em outras palavras, a imagem cerebral permite, com grande segurança, a visualização do estado e condições físicas da massa cerebral. Entretanto, muitas vezes, essa possibilidade se confunde como determinismo para o diagnóstico afásico. Se, por exemplo, essa análise fisiológica considera que a área de Broca (terceira circunvolução frontal ascendente esquerda) seja responsável pela elaboração dos atos motores da fala, numa análise neurolinguística, essa mesma área e suas adjacências são responsáveis por parte da elaboração da sintaxe de uma língua (GRODZIN- SKY 2000). O dinamismo que compõe a linguagem humana parece permanecer estático quando analisado por uma vertente clínica, impondo-lhe um alto grau de responsabilidade, quando, na verdade, o que se manifesta é a alteração do funcionamento da comunicação. Para dar conta desse impedimento, apropria-se, então, de uma análise que interfere tanto na modelagem clínica quanto num modelo indistinto sobre a linguagem. Uma condição teórica que privilegie a linguagem em uso ou a forma de habilitação de uma dada língua, independentemente de ser o pressuposto inato, cognitivo ou social, também oferece critérios metodológicos exatos e controlados, capazes de servir às necessidades da prática fonoaudiológica em síndromes afásicas. Esses empréstimos não interferem na consolidação da responsabilidade de ser o fonoaudiólogo o profissional apto para conduzir a terapêutica com esses sujeitos. À medida que o diálogo se torna possível, não apenas como discurso interdisciplinar, mas também como criação de instrumentos ajustados e controlados cientificamente, talvez, uma nova forma de pensar as afasias possa ser frutífera para essa população. Referências ARDILA, A.; BENSON, F. Aphasia A clinical perspective. Oxford: Oxford University Press, BENSON, D. F. Fluency in Aphasia: correlation with radioactive scan localization. Cortex, 3: , GOLDSTEIN, K. Language and language disturbances. New York, GOODGLASS, H.; KAPLAN, E. The assessment of aphasia and related disorders. Philadelphia, GRODZINSKY, Y. The neurology of syntax: language without broca s area. Tel-Aviv University, LICHTHEIM, L. On Aphasia. Brain, 7: , LURIA, A.R. Higher cortical functions in man. New York: Basic Books, Traumatic Aphasia. Mouton: The Hague, MCBRIDE, K. L.; WEISENBURG, T.S. Aphasia. New York: Hafner, SARNO, M.T. The Communication Profile: Manual of directions. New York, SCHUELL, H. Minnesota test for the differential diagnosis of aphasia. Minnesopolis: University of Minnesota Press, WERNICKE, C. Lehrbuch der gehirnkrankheitein. Berlim: Theodor Fischer, 1881.

13 Parte II

14 14 Parte II Capítulo II Aspectos Quantitativos e Qualitativos da Fala Afásica no Português Brasileiro Ricardo Joseh Lima (Uerj) Queila Castro Martins (UERJ - BIG-FAPERJ) Cláudia Cristina Nascimento (UERJ - BIG-FAPERJ) Elisabeth Maia Garrão (UVA - UERJ - COPAT 2006/2007)

15 Capítulo II - Aspectos quantitativos e qualitativos da fala afásica no português brasileiro 15 IntroduçãoEste capítulo traz os resultados de uma pesquisa iniciada em julho de 2007, com o objetivo de realizar observações quantitativas e qualitativas da fala afásica no Português Brasileiro. Para tanto, adotaram-se como bases metodológicas as propostas de Saffran et al. (1989) e Rochon et al. (2000). Com isso, buscou-se prover a análise do conceito de fluência (e suas ramificações) com dados que, por serem mensuráveis e obtidos a partir de instâncias concretas, podem auxiliar na decisão da classificação de um paciente afásico ou no agrupamento de pacientes. A seção 2 traz uma descrição das bases metodológicas utilizadas, bem como a motivação para sua utilização. Na seção 3, são apresentadas as etapas que constituíram a presente pesquisa e os resultados gerais. A seção 4 encerra o capítulo com comentários sobre esse tipo de pesquisa, seus resultados e sua importância para o diálogo que pode ser desenvolvido entre Linguística e Fonoaudiologia. Análise Quantitativa da Produção (AQP) Afásica Procedimentos para a análise das narrativas Participaram desta pesquisa os afásicos JM, RC e RP 2. Para cada um, foi selecionado um controle, que possuísse o mesmo perfil etário e educacional do afásico. Para cada controle e afásico, foram elaboradas fichas contendo informações sobre eles: iniciais (que ficam no lugar do nome do participante), idade, sexo, escolaridade, a data de gravação da narrativa, o bolsista que gravou, datas de transcrição e tempo da gravação. Segue um exemplo de ficha de um controle e um afásico 3 : FICHA DE INFORMANTE AFÁSICO JM Iniciais: JM Idade: 58 anos Sexo: F Escolaridade: 5ª série do EF Data de gravação: 17/10/2007 Bolsista: Queila Martins Datas de transcrição: 06/11/2007 Tempo de gravação: 2.14 min Narrativa: Chapeuzinho vermelho FICHA DE INFORMANTE CONTROLE ZC Iniciais: ZC Idade: 48 anos Sexo: F Escolaridade: 5ª série do EF Data de gravação: 20/08/2007 Bolsista: Queila Martins Datas de transcrição: 21/08/2007 Tempo de gravação: 3.45 min Narrativa: Chapeuzinho Vermelho 1 Ver detalhes sobre idade, local da lesão, etiologia etc. no Apêndice. 2 Todos os sujeitos participantes assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido, no qual afirmavam estar cientes dos objetivos da pesquisa e permitiam a divulgação dos resultados obtidos. Estes termos estão registrados na Comissão de Ética em Pesquisa (COEP) da Uerj, sob o número 067/ As demais fichas estão no Anexo deste capítulo.

16 16 Parte II Após as gravações realizadas com o auxílio de um gravador digital, partimos para uma outra etapa, que era a da transcrição e contagem de palavras dentro do tempo de narrativa do controle e também do afásico. Nosso objetivo era encontrar cento e cinquenta palavras que servissem de teste para nossa pesquisa. Vejamos a transcrição total (contendo todas as palavras narradas) de um controle e um afásico: Transcrição total controle ZC Então era uma vez uma linda menina a sua mãe a amava muito então resolveu fazer um um gorrinho vermelho então ela foi apelidada de Chapeuzinho Vermelho a sua vó andava muito doente e a sua mãe muito atarefada falou assim Chapeuzinho leva um uns docinho delicioso que eu fiz para tua vó então a Chapeuzinho Vermelho saiu e a mãe explicou filha você não não conversa com ninguém no bosque porque é muito perigoso então Chapeuzinho Vermelho encontrou com um sua vó com o lobo e ficou conversando com ele e o lobo tentou comê-la mas aí ele pensou não eu vou se passar pelo eu vou eu vou pedir pra acompanhar ela mas num instante ela não aceitou então o lobo o lobo foi pelo caminho e a Chapeuzinho foi por outro sendo que o lobo pegou um caminho mais curto e chegando lá na casa da vó da Chapeuzinho Vermelho ele bateu na porta e a vó pensando que era a Chapeuzinho Vermelho mandou entrar então ele avançou na vó da Chapeuzinho Vermelho e a engoliu e rapidamente ele colocou as roupas da da vó da Chapeuzinho Vermelho e deitou na cama fingindo está muito doente então a Chapeuzinho Vermelho chegou e bateu na porta e a vó que na verdade era o lobo falou pode entrar é só tirar a tranca da porta e entrar então quando a Chapeuzinho Vermelho chegou ela estranhou porque é muito tempo ela não não a via né visto a vó mas ela estranhou que este estava pouco diferente aí ela falou vó que olho tão grande que a senhora tá aí ele falou assim é pra te ver melhor minha netinha aí mas que nariz que nariz tão grande que a senhora tá é pra te cheirar melhor minha netinha aí depois ela falou mas que boca tão grande vó aí o lobo se levantou falou é pra te comer melhor então a Chapeuzinho pulou saiu começou a gritar gritar pois pela sorte da Chapeuzinho Vermelho é que ia passando um um caçador pelo bosque e escutou o grito da Chapeuzinho Vermelho então ele correndo aden adentrou pela casa e salvou a Chapeuzinho Vermelho do lobo e a ma matou o lobo e abriu a barriga do lobo e e tirou e tirou a vó que ele tinha engolido e e e todos foram felizes para sempre NTP=397 Transcrição total afásico JM é de (risos) (risos) É :: da vovó aí tinha a vovó arranjou o o o o outro como é o nome dele do (risos) também vou esquecer desse aqui né do do :: como é que é isso :: pera aí isso isso agora eu pensei aí ele vem aí ele quer quer os doce os doce entendeu aí o que que aconteceu a do a vovó a vovó pe :: jun sentou ela né aí pera aí deixa eu mostrar como acontece pra você aí a aí ela pegou o ra o o outro né aí pegou e falou assim não não eu quero eu (pausa) (aí) aí o o o o primeiro né primeiro não isso primeiro é a mãe primeiro é a a menina a menina né aí vem vem ele né aí depois ele quer falar assim falar assim ah vovó a menina fala ah vovó oh vovó vou comprar umas doces pra você ah então tá aí quando o lo quando o lo é :: o que que aconteceu ele pegou a velhinha e se segurou aí quando chegou na casa dela ela fala vovó vovó oh vovó aí quando foi isso veio veio um um senhor entendeu aí ele pegou a ele pá matou ele foi isso é lindo eu adorava fazer essa história isso (risos) aí aí o que que aconteceu ela ela tirou aí vem a vovó e a menina entendeu aí pegou né os doces e tudo (risos) NTP = 261 A transcrição total foi feita da seguinte forma: os bolsistas escutaram a gravação e transcreveram palavra por palavra proferidas pelo narrador. Todas as palavras foram transcritas fielmente ao que foi dito. Sem haver neste momento preocupação com o que se diz, transcreve-se tudo que é narrado. Feitas as transcrições, seguimos critérios de exclusões, eliminando as palavras que não ser-

17 Capítulo II - Aspectos quantitativos e qualitativos da fala afásica no português brasileiro 17 viriam para o teste. Dentre as palavras que ficaram para análise(denominadas palavras de narrativa, definidas como palavras que apresentam conteúdo proporcional para contagem e análise), selecionamos, então, as primeiras cento e cinquenta. Desta etapa, retiramos, então, o número de palavras total (NPT), o número de palavras de narrativa (NPN) e as cento e cinquenta primeiras palavras de narrativa. De todos esses números, ainda obtivemos o tempo da narrativa e marcamos o número de palavras por minuto de narração. A exclusão das palavras após a transcrição foi feita, como dito anteriormente, seguindo alguns critérios específicos, que nos levaram a cortar alguns tipos de palavra, tais como: neologismos (A), respostas diretas a uma pergunta feita pelo pesquisador (B), comentários realizados pelo controle ou afásico (C), iniciadores habituais (D) de discurso (aí, então, entre outros), conjunções (E), introdutores de discurso direto (F) e materiais reparados (repetições [G1], interrupções [G2], emendas [G3] e elaborações [G4]). Observe a seguir um exemplo de cada tipo de marcação para as palavras que foram excluídas: A (figou); B (a fada deu um vestido para a Cinderela em resposta à pergunta O que a fada deu à Cinderela?); C (como é o nome dele do...); D (entendeu); E (ele foi e ele falou); F (a menina fala); G1 (a do a vó); G2 (isso isso); G3 (primeiro é não isso primeiro) e G4 (é de). Com esta etapa, chegamos às transcrições com marcações dos tipos de exclusão que deveriam ser feitos. Ao lado de cada exclusão a ser feita, colocamos os números respectivos do tipo de exclusão. Observe, abaixo, um exemplo de texto marcado de um controle e de um afásico: Transcrição com marcações - Controle ZC Então(D) era uma vez uma linda menina a sua mãe a amava muito então(d) resolveu fazer um(g2) um gorrinho vermelho então(d) ela foi apelidada de Chapeuzinho Vermelho a sua vó andava muito doente e a sua mãe muito atarefada falou assim(f) Chapeuzinho leva um(g2) uns docinho delicioso que eu fiz para tua vó então(d) a Chapeuzinho Vermelho saiu e a mãe explicou(f) filha você não(g1) não conversa com ninguém no bosque porque é muito perigoso então(d) Chapeuzinho Vermelho encontrou com um sua vó(g3) com o lobo e(e) ficou conversando com ele e o lobo tentou comê-la mas aí(d) ele pensou(f) não eu vou se passar pelo(g3) eu vou(g2) eu vou pedir pra acompanhar ela mas num instante ela não aceitou então(d) o lobo(g1) o lobo foi pelo caminho e a Chapeuzinho foi por outro sendo que o lobo pegou um caminho mais curto e chegando lá na casa da vó da Chapeuzinho Vermelho ele bateu na porta e a vó pensando que era a Chapeuzinho Vermelho mandou entrar então(d) ele avançou na vó da Chapeuzinho Vermelho e a engoliu e rapidamente ele colocou as roupas da(g4) da vó da Chapeuzinho Vermelho e deitou na cama fingindo está muito doente então(d) a Chapeuzinho Vermelho chegou e bateu na porta e a vó que na verdade era o lobo falou(f) pode entrar é só tirar a tranca da porta e entrar então(d) quando a Chapeuzinho Vermelho chegou ela estranhou porque é muito tempo ela não(g1) não a via né(d) visto a vó mas ela estranhou que este estava pouco diferente aí(d) ela falou(f) vó que olho tão grande que a senhora tá aí(d) ele falou assim(f) é pra te ver melhor minha netinha aí(d) mas que nariz(g1) que nariz tão grande que a senhora tá é pra te cheirar melhor minha netinha aí(d) depois ela falou(f) mas que boca tão grande vó aí o lobo se levantou falou(f) é pra te comer melhor então(d) a Chapeuzinho pulou saiu começou a gritar gritar pois pela sorte da Chapeuzinho Vermelho é que ia passando um(g4) um caçador pelo bosque e escutou o grito da Chapeuzinho Vermelho então(d) ele correndo aden(g4) adentrou pela casa e salvou a Chapeuzinho Vermelho do lobo e a ma(g4) matou o lobo e abriu a barriga do lobo e(g2) e tirou(g1) e tirou a vó que ele tinha engolido e e(g2) e todos foram felizes para sempre Nº de marcações = 41 Transcrição com marcações - Afásico JM É de(g4) ( risos ) ( risos )(D) É :: da vovó aí(d) tinha a vovó arranjou o o o(g1) o outro como é o nome dele do (C) ( risos )(D) também vou esquecer desse aqui(c) né(d) do do (C) :: como é que é isso :: (C) pera aí(d) isso(g2) isso agora eu pensei(c) aí(d) ele vem aí(d) ele quer quer os doce(g1) os doce entendeu(d) aí(d)

18 18 Parte II o que que aconteceu(g4) a do a vovó(g1) a vovó pe :: (G3) jun(g3) sentou ela né(d) aí(d) pera aí(d) deixa eu mostrar como acontece pra você(c) aí(d) a aí(d) ela pegou o ra o(g3) o outro né(d) aí(d) pegou e falou assim(f) não não(d) eu quero(g4) eu(g4) (pausa) (aí)(d) aí(d) o o o(g1) o(g4) primeiro(g1) né(d) primeiro é não isso primeiro(g3) é a mãe primeiro(g3) é(g3) a(g1) a menina(g1) a menina né(d) aí(d) vem vem ele né(d) aí(d) depois ele quer falar assim falar assim(f) ah vovó a menina fala(f) ah vovó(g3) oh vovó vou comprar umas doces pra você ah então(d) tá aí(d) quando o lo quando(g1) o lo é :: (G1) o que que aconteceu(c) ele pegou a velhinha e se segurou aí(d) quando chegou na casa dela ela fala(f) vovó vovó oh vovó aí(d) quando foi isso veio(g1) veio um(g1) um senhor entendeu(d) aí(d) ele pegou a(g3) ele pá matou ele foi isso lindo eu adorava fazer essa história isso(c) (risos)(d) aí(d) aí(d) o que que aconteceu(c) ela(g1) ela tirou aí(d) vem a vovó e a menina entendeu(d) aí(d) pegou né(d) os doces e tudo (risos)(d) Nº de marcações = 77 Chegamos ao texto contendo apenas as palavras de narrativa (aquelas palavras que não são excluídas e que servem para análise do pesquisador). Os textos dos controles e afásicos passaram, então, de muitas palavras a um número bem menor. No caso dos afásicos, algumas transcrições das cento e cinquenta palavras são compatíveis às transcrições após cortes, devido ao baixo número de palavras de narrativa, não obtendo, muitas vezes, nem mesmo as cento e cinquenta: Transcrição com cortes - Controle ZC Era uma vez uma linda menina a sua mãe a amava muito resolveu fazer um gorrinho vermelho ela foi apelidada de Chapeuzinho Vermelho a sua vó andava muito doente e a sua mãe muito atarefada Chapeuzinho leva uns docinho delicioso que eu fiz para tua vó a Chapeuzinho Vermelho saiu e filha você não conversa com ninguém no bosque porque é muito perigoso Chapeuzinho Vermelho encontrou com o lobo ficou conversando com ele e o lobo tentou comê-la mas não eu vou pedir pra acompanhar ela mas num instante ela não aceitou o lobo foi pelo caminho e a Chapeuzinho foi por outro sendo que o lobo pegou um caminho mais curto e chegando lá na casa da vó da Chapeuzinho Vermelho ele bateu na porta e a vó pensando que era a Chapeuzinho Vermelho mandou entrar ele avançou na vó da Chapeuzinho Vermelho e a engoliu e rapidamente ele colocou as roupas da vó da Chapeuzinho Vermelho e deitou na cama fingindo está muito doente a Chapeuzinho Vermelho chegou e bateu na porta e a vó que na verdade era o lobo pode entrar é só tirar a tranca da porta e entrar quando a Chapeuzinho Vermelho chegou ela estranhou porque é muito tempo ela não a via visto a vó mas ela estranhou que este estava pouco diferente vó que olho tão grande que a senhora tá é pra te ver melhor minha netinha mas que nariz tão grande que a senhora tá é pra te cheirar melhor minha netinha depois mas que boca tão grande vó aí o lobo se levantou é pra te comer melhor a Chapeuzinho pulou saiu começou a gritar gritar pois pela sorte da Chapeuzinho Vermelho é que ia passando um caçador pelo bosque e escutou o grito da Chapeuzinho Vermelho ele correndo adentrou pela casa e salvou a Chapeuzinho Vermelho do lobo e matou o lobo e abriu a barriga do lobo e tirou a vó que ele tinha engolido e todos foram felizes para sempre Nº de palavras de narrativa: 334 Transcrição com cortes - Afásico JM É :: da vovó tinha a vovó arranjou o outro ele vem ele quer quer os doce a vovó sentou ela ela pegou o outro a menina vem vem ele ah vovó oh vovó vou comprar umas doces pra você ah tá ele pegou a velhinha e se segurou quando chegou na casa dela vovó vovó oh vovó quando foi isso veio um senhor ele pá matou ele foi isso ela tirou vem a vovó e a menina pegou os doces e tudo Nº de palavras de narrativa: 82

19 Capítulo II - Aspectos quantitativos e qualitativos da fala afásica no português brasileiro 19 Observe-se, como dito, que, nos textos dos afásicos, não obtivemos as cento e cinquenta palavras requeridas, mas, mesmo assim, realizamos as análises e alcançamos nosso ideal primeiro: o de comparar suas narrativas às dos controles. O número menor de palavras não causou problemas ou dificuldades em nossa pesquisa. Lembramos que, por razões de compreensão, entre os controles, há algumas palavras acrescidas às cento e cinquenta, contendo em média cento e cinquenta, mas, em alguns casos, há algumas palavras a mais para completar o enunciado. Veja abaixo as palavras separadas para análise do controle ZC e do afásico JM: Controle - ZC Era uma vez uma linda menina a sua mãe a amava muito resolveu fazer um gorrinho vermelho ela foi apelidada de ChapeuzinhoVermelho a sua vó andava muito doente e a sua mãe muito atarefada Chapeuzinho leva uns docinho delicioso que eu fiz para tua vó a ChapeuzinhoVermelho saiu e filha você não conversa com ninguém no bosque porque é muito perigoso ChapeuzinhoVermelho encontrou com o lobo ficou conversando com ele e o lobo tentou comê-la mas não eu vou pedir pra acompanhar ela mas num instante ela não aceitou o lobo foi pelo caminho e a Chapeuzinho foi por outro sendo que o lobo pegou um caminho mais curto e chegando lá na casa da vó da ChapeuzinhoVermelho ele bateu na porta e a vó pensando que era a ChapeuzinhoVermelho mandou entrar ele avançou na vó da ChapeuzinhoVermelho e a engoliu e rapidamente ele colocou as roupas da vó da ChapeuzinhoVermelho AFÁSICO: JM É :: da vovó tinha a vovó arranjou o outro ele vem ele quer quer os doce a vovó sentou ela ela pegou o outro a menina vem vem ele ah vovó oh vovó vou comprar umas doces pra você ah ta ele pegou a velhinha e se segurou quando chegou na casa dela vovó vovó oh vovó quando foi isso veio um senhor ele pá matou ele foi isso ela tirou vem a vovó e a menina pegou os doces e tudo Uma pequena observação na contagem das palavras é que palavras compostas são contadas como apenas uma. É o que ocorre com as palavras Chapeuzinho Vermelho, que são contadas como apenas uma palavra. Após a fase de transcrição total, marcação, cortes e palavras finais, obtivemos a seguinte tabela para cada participante (controle ou afásico): Controles CM RM ZC NPT TEMPO NARRATIVA 2.36 MIN 5.20 MIN 3.45 MIN NPT/TEMPO , NPN EXCLUÍDAS Afásicos RP JM RC NPT TEMPO NARRATIVA 2.78 MIN 2.14 MIN 4.50 MIN NPT/TEMPO ,9 31,04 NPN EXCLUÍDAS

20 20 Parte II Sendo: NPT número de palavras total; Tempo de Narrativa tempo que durou a narrativa; NPT/TEMPO o número de palavras total pelo Tempo de Narrativa; NPN o número de palavras de narrativas (obtidas depois das exclusões); EXCLUÍDAS o número de marcações de exclusão de acordo com os critérios vistos acima. Note-se que nem sempre cada marcação contém somente uma palavra. Resultados Separamos as NPN em enunciados, definidos como conjunto de palavras que contivesse um sentido fechado; assim, não fizemos a divisão baseada na definição tradicional de orações. A partir de então, demos início a um outro momento, que foi a fase da análise desses enunciados e classificação de cada tipo de palavra que compunha esses enunciados. Os enunciados separados foram colocados em tabelas com os seguintes itens de classificação: tipo de enunciado em sentença (TE), tópico-comentário e outros; palavras de narrativa (PN); quantidade de palavras consideradas de classe aberta (substantivos, verbos, adjetivos e advérbios) (CA); quantidade de substantivos (S); número de substantivos que exigem artigo (Sart); número de substantivos que exigem artigo e estão precedidos de artigo (SART); número de pronomes (Pro); número de verbos (V); número de verbos principais (VP); número de verbos que deveriam estar flexionados (Vf); número de verbos que estão flexionados (VF); taxa de auxiliares (cálculo de verbos que há em cada enunciado e relação entre eles) (AUX); número de sentenças encaixadas (subordinadas) (ENC); verificação de sentença gramatical (OK); número de constituintes do sintagma nominal (CSN) e verbal (CSV). Abaixo, demonstramos as tabelas de um controle e de um afásico, nas quais aparecem os dezesseis itens mencionados acima: CONTROLE - ZC ENUNCIADOS TE PN CA S Sart SART Pro V VP Vf VF AUX ENC OK CSN CSV Era uma vez uma linda menina S a sua mãe a amava muito S resolveu fazer um gorrinho S vermelho ela foi apelidada de Chapeuzinho S Vermelho a sua vó andava muito doente S e a sua mãe muito atarefada / / Chapeuzinho leva uns docinho delicioso que eu fiz para tua vó S a Chapeuzinho Vermelho saiu S e filha você não conversa com ninguém no bosque porque é muito perigoso Chapeuzinho Vermelho encontrou com o lobo S S ficou conversando com ele S e o lobo tentou comê-la S mas não eu vou pedir pra acompanhar ela S mas num instante ela não aceitou S o lobo foi pelo caminho S e a Chapeuzinho foi por outro S sendo que o lobo pegou um caminho mais curto S

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