ANÁLISE ERGONÔMICA DO PROCESSO DE PRODUÇÃO DE DUAS INDÚSTRIAS DE LATICÍNIOS DO SERTÃO CENTRAL

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO SEMI-ÁRIDO CAMPUS ANGICOS DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS EXATAS, TECNOLÓGICAS E HUMANAS CURSO DE BACHARELADO EM CIÊNCIA E TECNOLOGIA ADJA KARLA RUFINO DE SOUZA ANÁLISE ERGONÔMICA DO PROCESSO DE PRODUÇÃO DE DUAS INDÚSTRIAS DE LATICÍNIOS DO SERTÃO CENTRAL ANGICOS-RN 2013

2 ADJA KARLA RUFINO DE SOUZA ANÁLISE ERGONÔMICA DO PROCESSO DE PRODUÇÃO DE DUAS INDÚSTRIAS DE LATICÍNIOS DO SERTÃO CENTRAL Monografia apresentada a Universidade Federal Rural do Semi-Árido UFERSA, Campus Angicos para obtenção de título de bacharel em ciência e tecnologia. Orientadora: Prof a. M.Sc. Fabrícia Nascimento de Oliveira ANGICOS RN 2013

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4 Profº. M.Sc. Wellington Barbosa do Nascimento Junior Segundo membro

5 AGRADECIMENTOS Primeiramente a DEUS, que é meu porto seguro, meu guia, o centro e o fundamento de tudo em minha vida, por me dar forças, discernimento e orientação durante toda essa jornada. Aos meus pais, Antonio Rufino de Souza e Maria de Fátima Muniz de Souza. Ambos serão responsáveis por cada sucesso obtido e cada degrau avançado em da minha vida. Durante todos esses anos vocês foram pra mim um grande exemplo de força, de coragem, e perseverança. Vocês são e sempre serão meu maior porto seguro, meu maior exemplo de vitória, meus heróis e simplesmente aqueles que mais amo. Obrigada por estarem sempre comigo. A minha irmã Ayanne Débora Rufino de Souza por todo incentivo, apoio e cumplicidade. Obrigada por você existir perto de mim! Ao meu noivo, Montyalle silva ferreira, companheiro de todas as horas, por todo amor e compreensão e paciência. Graças a sua presença foi mais fácil passar por todos os momentos de desanimo e cansaço. Te amo! A minha avó Maria Auxiliadora Muniz de Souza, meus avôs Pedro Virginio de Souza e Manuel Barbosa filho e minha tia Maria das Graças Muniz de Souza, por todo incentivo, apoio e carinho! A minha orientadora, professora Fabrícia Nascimento de Oliveira, por sua disponibilidade, pelos seus importantes ensinamentos e por toda dedicação e apoio dispensados no auxilio da concretização deste trabalho. Muito obrigada! A meus amigos da universidade Evelly Michelly, Felipe Emanuel, Luiz Antônio, Tereza Noêmia e Glicéria Emiliana, por todo companherismo e pela ajuda constante em toda essa jornada. A todos os trabalhadores das duas empresas estudadas por terem fornecido dados fundamentais para o desenvolvimento desta pesquisa. A colaboração de vocês foi essencial para a realização deste trabalho. Enfim, a todos que direta ou indiretamente fizeram parte da minha formação, o meu muito obrigada.

6 Não confunda derrotas com fracasso nem vitórias com sucesso. Na vida de um campeão sempre haverá algumas derrotas, assim como na vida de um perdedor sempre haverá vitórias. A diferença é que, enquanto os campeões crescem na derrotas, os perdedores se acomodam com nas vitórias. Roberto Shinyashiki

7 RESUMO As atividades desenvolvidas no setor de produção de laticínios, que de modo geral deixam os trabalhadores expostos a atividades que exigem, por muitas vezes, esforços intensos e repetitivos tornando-os assim susceptíveis a lesões, doenças ocupacionais, ou ainda acidentes do trabalho. Em virtude disso, o presente estudo tem o objetivo de realizar uma análise ergonômica dos postos de trabalho mais afetados durante a etapa da produção de duas empresas localizadas no sertão central. Tendo em vista que as consequências causadas por esses desvios ergonômicos podem influenciar diretamente no ritmo de produção, a ergonomia atua de forma a adequar o ambiente de trabalho ao operário e suas necessidades. Deste modo se realizou um estudo de caso em duas empresas de laticínios localizadas no sertão central, sendo aplicados formulários com todos os trabalhadores envolvidos no processo de produção do referido setor. O formulário constou de perguntas relacionadas às características sociodemográficas do trabalhador, ao cansaço e dores sentidas durante ou após a execução do trabalho, as características das atividades desenvolvidas, às pausas, as condições do ambiente de trabalho as quais estão expostos e as lesões sofridas pelos funcionários em decorrência da atividade. Através interpretação desses dados, pode-se constatar que a maioria dos trabalhadores relatam sentir cansaço (60% na empresa 1 e 44,44% na empresa 2) e dores (60% na empresa 1 e 66,67% na empresa 2) durante ou após a execução de suas atividade. Os membros que mais apresentaram queixas em relação às dores foram: na empresa 1 pescoço 20%, braços direito 20%,braço esquerdo 20% e nas costas 40%.Já na empresa 2, 100% dos funcionários citaram as costas como o membro mais atingido. Com relação à tarefa, 100% da empresa 1 e 88,89 % da empresa 2 a caracterizou como repetitiva e 100% dos funcionários das duas empresas a definiu como monótona, porém, 80% dos funcionários da empresa 1 e 66,67 % da empresa 2 citaram que não trabalham em um ritmo muito rápido para executar suas atribuições. Quando questionados sobre as condições do ambiente as queixas do trabalhador são com relação à temperatura, 100% da empresa 1 e 44,44% da empresa 2 a consideram quente, e ao ruído, onde 80% da empresa 1 e 77,78% na empresa 2 o classificam como alto. Através da análise dessas informações pode se perceber que, os funcionários executam suas atividades, na sua grande maioria, de pé, utilizando-se de postura inadequada, em tarefas que exigem esforços intensos e repetitivos. Com isto, norteando-se pelo embasamento legal disposto na norma regulamentadora NR-17 Ergonomia, foram propostas possíveis soluções ou melhorias para os problemas diagnosticados. Palavras chave: Derivados do leite. NR-17. Posturas inadequadas. Posto de trabalho.

8 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 - Partes do corpo que os trabalhadores relatam ser mais atingidos pela execução das atividades no setor de produção Gráfico 2 - Opinião dos trabalhados em relação à atividade desenvolvida quanto à repetitividade Gráfico 3 - Opinião dos trabalhadores em relação à temperatura do ambiente de trabalho Gráfico 4 - Opinião dos trabalhadores com relação aos níveis de ruído do ambiente de trabalho Gráfico 5 - Lesões decorrentes das atividades desenvolvidas no setor de produção de duas indústrias de laticínios localizadas no sertão central... 45

9 LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Descrição das atividades desenvolvidas durante a realização do trabalho Figura 2 - Esquema das atividades realizadas nas duas empresas em duas empresas de laticínios localizadas no sertão central Figura 3 - Sequenciamento das atividades recepção, pasteurização e empacotamento/embalagem Figura 4 - Sequenciamento do processo de recepção do leite em duas empresas de laticínios localizadas no sertão central Figura 5 - Processo de pasteurização do leite Figura 6 - Máquina empacotadora da empresa Figura 7 - Máquina empacotadora na empresa Figura 8 - Equipamento utilizado para engarrafar a manteiga Figura 9 - Trabalhador realizando atividades na etapa de empacotamento/embalagem Figura 10 - Pilhas formadas na empresa 2, para posterior armazenamento Figura 11 - Movimentos realizados durante o processo de engarrafamento da manteiga... 40

10 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ABERGO Associação Brasileira de Ergonomia. AET Análise Ergonômica do Trabalho. BPF Boas Práticas de Fabricação. CLT Consolidação das Leis do Trabalho. DORT Distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho. EMBRAPA - Empresa Brasileira de pesquisa agropecuária IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. IEA Associação Internacional de Ergonomia. LER Lesões por Esforços Repetitivos. NR Norma Regulamentadora. PIB Produto Interno Bruto. UFERSA Universidade Federal Rural do Semi-Árido.

11 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO REVISÃO DE LITERATURA ERGONOMIA ERGONOMIA NO PROCESSO DE FÁBRICAÇÃO DA INDÚSTRIA DE LATICINIO PRINCIPAIS RISCOS ERGONÔMICOS NO PROCESSO DE PRODUÇÃO DA INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS Postura Trabalho repetitivo Transportar/ levantar/empurrar cargas Trabalho sentado Trabalho com inclinação Temperatura Ambiente térmico quente Ambiente térmico frio Ruído ANÁLISE ERGONÔMICA DO TRABALHO (AET) ANÁLISE DA DEMANDA ANÁLISE DA TAREFA ANÁLISE DA ATIVIDADE METODOLOGIA ETAPAS DO ESTUDO TIPO E MÉTODO UTILIZADO NA PESQUISA POPULAÇÃO E AMOSTRA COLETA DE DADOS ANÁLISE DOS DADOS RESULTADOS E DISCUSSÕES CARACTERIZAÇÃO DAS EMPRESAS... 27

12 4.2 CARACTERIZAÇÃO GERAL DOS TRABALHADORES ENVOLVIDOS NA PRODUÇÃO DO SETOR DE LATICINIOS DE DUAS EMPRESAS LOCALIZADAS NO SERTÃO CENTRAL CARACTERIZAÇÃO DA ATIVIDADE Atividades comuns às duas empresas Recepção do leite Processo de pasteurização Embalagem/empacotamento (Leite/ Iogurte/ Bebida Láctea) Atividades realizadas somente na empresa Manteiga de garrafa ANÁLISE DOS POSTOS DE TRABALHO Posto 1: Embalagem/empacotamento Trabalho em pé Repetitividade Trabalho com inclinação do tronco Posto 2: Armazenamento Levantar, transportar manualmente e/ou empurrar cargas Posto 3: Preparação e engarrafamento da manteiga Trabalho sentado Repetitividade Trabalho com torção do tronco Análise geral dos postos I, II e III ANÁLISE DO AMBIENTE DE TRABALHO Temperatura Ruído LESÕES DECORRENTES DA ATIVIDADE REFERÊNCIAS APÊNDECE A FORMULÁRIO APÊNDICE B TERMO DE CONSENTIMENTO... 55

13 12 1 INTRODUÇÃO A indústria de laticínios ocupa lugar de destaque em nível mundial por ser geradora de produto básico para nutrição e saúde humana (FONTENELLE, 2006). O nosso país é tradicionalmente um grande produtor de leite. A atividade, já ocupa posição de destaque no cenário econômico nacional, e é, atualmente, uma das principais atividades do agronegócio brasileiro. Em 2009, o país produziu 29,1 bilhões de litros de leite, gerando renda de R$ 18,6 bilhões, o que corresponde a 11,2% do valor gerado pela agropecuária brasileira e 76,3% do valor gerado pela pecuária. (IBGE, apud EMBRAPA, 2011). O setor de laticínios ocupa uma posição significativa no setor de fabricação de produtos alimentícios. Proença (1997) afirma que, o setor de produção de alimentos se diferencia dos demais pelo fato de trabalhar com produtos que necessitam de tecnologias especificas, uma vez que o alimento tem vida útil de curta duração, além de estarem susceptíveis a imprevistos climáticos, da produção ao processamento, tornando-se dependente de controles de qualidade cada vez mais rigorosos. A indústria de alimentos tem priorizado a busca pela qualidade dos produtos, atendendo rigorosamente a legislação de higiene e boas práticas de fabricação. Essa mesma atenção, no geral, não é dada as condições de trabalho as quais os empregados estão expostos. De modo geral eles estão expostos a atividades que exigem, por muitas vezes, esforços intensos e repetitivos que os tornam susceptíveis a lesões, doenças ocupacionais, ou ainda, acidentes do trabalho. (RODRIGUES et al., 2008). Tendo em vista que esses fatores podem influenciar diretamente no ritmo de produção, a ergonomia pode ser utilizada como uma forma de adequar o ambiente de trabalho ao operário e a suas necessidades. Segundo Iida (2005), a ergonomia pode ser definida como o estudo da adaptação do trabalho ao homem, tendo o trabalho uma concessão ampla, incluindo não apenas aqueles executados com máquinas e equipamentos, mas toda a situação que envolve o homem e uma atividade produtiva, tanto no ambiente físico como nos aspetos organizacionais. A ergonomia atua possibilitando que o trabalho seja bem dimensionado, otimizando a sua eficácia e ao mesmo tempo permitindo a saúde e prevenção de certas doenças ocupacionais. Ela procura a transformação das condições de trabalho pela valorização dos fatores humanos da organização. A busca da melhoria da qualidade e do aumento da produtividade sem a consideração destes fatores pode representar um retorno ao taylorismo, ou seja, o uso dos princípios do gerenciamento científico. (FRANCO, 1995).

14 13 Levando-se em consideração, que a implementação da ergonomia traz benefícios tanto para empresa, através de um aumento na produtividade, como para o trabalhador, percebe-se que o assunto é de suma importância para a sociedade como um todo. Devido à relevância do tema se fez necessário à realização de um estudo na acerca do mesmo, através de uma análise ergonômica. Assim, a proposta do presente trabalho foi de realizar uma análise ergonômica do processo de produção de duas cooperativas de laticínios localizadas no sertão central para identificar, diagnosticar, e propor a resolução de problemas que afetam a saúde, segurança, satisfação e eficiência dos trabalhadores. Nesta análise será abordada a situação geral dos postos de trabalho, identificando assim, as principais falhas ergonômicas ocorridas nos mesmos.

15 14 2 REVISÃO DE LITERATURA 2.1 ERGONOMIA A palavra ergonomia vem das palavras gregas ergos que significa trabalho e nomos, estudo ou leis naturais. (BRITO, 2002). Em 1857 o termo ergonomia foi utilizado, pela primeira vez, pelo polonês W. Jastrzebowski que publicou um artigo intitulado ensaio de ergonomia e ciência do trabalho baseadas nas leis objetivas da ciência da natureza. (MARTINS; LAUGENI, 2005). A Associação Internacional de Ergonomia (IEA, 2000) adotou o seguinte conceito: ergonomia (ou fatores humanos) é uma disciplina científica relacionada ao entendimento das interações entre os seres humanos e outros elementos ou sistemas, e à aplicação de teorias, princípios, dados e métodos a projetos a fim de aperfeiçoar o bem estar humano e o desempenho global do sistema. Os ergonomistas contribuem para o planejamento, projeto e a avaliação de tarefas, postos de trabalho, produtos, ambientes e sistemas de modo a torná-los compatíveis com as necessidades, habilidades e limitações das pessoas. A Associação Brasileira de Ergonomia ABERGO, define ergonomia como a ciência das interações do homem com a tecnologia, a organização e o ambiente com o propósito de melhorar projetos e de forma não dissociada e integrada a segurança, o conforto e bem-estar das atividades do homem. (ABERGO, 2008). De acordo com Iida (2005), a ergonomia iniciou-se com o homem pré-histórico. Com a necessidade de sobreviver e de se proteger, inconscientemente, passou a aplicar princípios da ergonomia, ao fazer seus utensílios, como meio de armazenagem, se defender e abater animais. A ergonomia surgiu em função da ânsia do ser humano de cada vez mais, despender de menos esforços físico e mental nas suas atividades diárias. Ela tem sido considerada como fator importante no aumento da produtividade, influenciando na qualidade do produto, bem como na qualidade de vida dos trabalhadores na medida em que, a mesma é aplicada com a finalidade de melhorar as condições ambientais, visando à interação com o homem. (IIDA, 2005). A ergonomia pode ser definida como o estudo da adaptação do trabalho ao homem, tendo o trabalho uma concepção ampla, incluindo não apenas aqueles executados com máquinas e equipamentos, mas toda a situação que envolve o homem e uma atividade produtiva, tanto no ambiente físico como nos aspetos organizacionais. (IIDA, 2005).

16 15 Essa ciência é um agregado de conhecimentos científicos que, dentre suas possibilidades, proporciona adaptação do trabalho ao homem, reduzindo de maneira eficiente os problemas relacionados com a saúde e a segurança dos trabalhadores. Esta constitui uma parte importante, mas não exclusiva da melhoria das condições de trabalho, aumentando sua produtividade e diminuindo o risco de acidentes. (FALZON, 2007). Segundo Couto (2007) o entendimento ergonômico visa adaptar os instrumentos, as tarefas, condições desenvolvidas e o próprio ambiente de trabalho, procurando um ajuste mútuo entre o ser humano e seu ambiente de trabalho de forma confortável, produtiva e segura, buscando sempre adaptar o trabalho as pessoas. Em alguns locais de trabalho, observa-se que o homem tem que se adaptar a processos inadequados a ele. A ergonomia desponta com uma proposta inversa a esta, ou seja, adequar os processos ao homem. (ROSSO; OKUMURA, 2007). A implantação da ergonomia deve ter como base o ser humano, com respeito ao homem no trabalho, visando alcançar não apenas a melhoria na produção, e sim a melhoria na qualidade de vida do trabalhador. (MONTEIRO et al., 2009). Segundo sugerem Rosso e Okumura (2007), a ergonomia baseia-se no uso de conhecimentos para auxiliar o trabalho humano, sendo este por meio de tecnologias que facilitem o uso e que proporcionem conforto e segurança, sem que haja dano na produtividade do trabalho, colocando o processo de forma sistemática e eficiente, tanto para o homem quanto para as tecnologias utilizadas. Para eliminar as causas dos atos inseguros, a ergonomia deve atuar na adaptação do trabalho do homem, diminuindo assim as ocorrências de acidentes. A produção é a principal finalidade do trabalho, já o objetivo da ergonomia é produzir com segurança. A produtividade dos empregados deve ser estimulada em conjunto com os princípios de saúde e segurança, eliminando-se os fatores de risco relacionados aos acidentes de trabalho e prevenindo a ocorrência destes incidentes. (BATISTOTE, 2011). 2.2 ERGONOMIA NO PROCESSO DE FÁBRICAÇÃO DA INDÚSTRIA DE LATICINIO A indústria de alimentos sempre desempenhou um importante papel na economia brasileira, representando uma das mais tradicionais estruturas produtivas existentes no país. Com um faturamento de R$ 291,6 bilhões em 2009, essa indústria contribuiu com quase 10% PIB - Produto Interno Bruto do Brasil.(RODRIGUES, 2010).

17 16 Dentre os diversos setores da indústria alimentícia o setor de laticínios encontra-se entre as quatro principais. Estima-se que a participação dos laticínios no faturamento total da indústria de alimentos seja de aproximadamente 10%. (RODRIGUES, 2010). As empresas de laticínios são locais destinados ao beneficiamento de leite e produção de seus derivados. Elas são de grande contribuição para o desenvolvimento da região, pois estão presentes em diversos municípios, gerando empregos e diversificando a economia. O aspecto da segurança do produto é sempre um fator determinante para a indústria de alimentos, pois qualquer problema pode comprometer a saúde do consumidor. (FIGUEREIDO; COSTA NETO, 2001). A qualidade do produto se dá, devido aos cuidados com a segurança do alimento, que é estabelecida de acordo com a BPF- Normas de Higiene e Boas Práticas de Fabricação. (VIALTA et al., 2002). O setor de produção de alimentos se difere dos demais por trabalhar com produtos que necessitam de tecnologias bastante específicas, visto que o alimento tem vida útil de curta duração, além de estarem mais susceptíveis aos imprevistos climáticos, desde a produção ao processamento, dependendo diretamente de controles de qualidade cada vez mais rigorosos (PROENÇA, apud SANTANA, 1997). Percebe-se nesse setor, que apesar dos rigorosos cuidados direcionados a qualidade do produto o mesmo não ocorre com relação às condições de conforto e segurança dos trabalhadores. Segundo Couto (1995) a adoção de posturas inadequadas assumidas para a realização de determinados trabalhos, associados com outros fatores de risco existentes no posto de trabalho constituem-se, numa das maiores causas de afastamento do trabalho e sofrimento humano. 2.3 PRINCIPAIS RISCOS ERGONÔMICOS NO PROCESSO DE PRODUÇÃO DA INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS. Santana (2002), através de seu estudo sobre a melhoria da produtividade de uma unidade de alimentação e nutrição através do uso da ergonomia, observou que a execução do trabalho requer um esforço físico intenso, associado a um elevado grau de atenção, devido à complexidade do serviço e às exigências de padrões de qualidade higiênico-sanitários e de atendimento, além de movimentos repetitivos, levantamento e transporte de cargas. Além disso, esse autor observou que os funcionários usavam inapropriadamente o corpo como apoio durante o levantamento e transporte de cargas, principalmente na hora de pico. Também foi constatado grande número de ocorrências de absenteísmos, causando sobrecarga

18 17 nos funcionários não ausentes, os quais tinham que trabalhar em ritmo acelerado e fazer horas extras para cobrir as faltas. Isto causava cansaço, dores e posteriores ausências no trabalho Postura Durante a jornada laboral, o trabalhador pode assumir diferentes posições e ativar diferentes músculos. Para aliviar problemas causados posturas prolongadas, podem-se incluir no decorrer da realização das atividades, maneiras de alterná-las, como por exemplo, realizando rotatividade das tarefas. (IIDA, 2005). O quadro 1 mostra algumas posturas típicas de trabalho e os riscos de dores que estas podem provocar. Quadro 1 - Localização das dores no corpo, provocadas por posturas inadequadas. Posturas Riscos de dores Em pé Sentado sem encosto Assento muito alto Assento muito baixo Braços esticados Pegas inadequadas de ferramentas Punhos em posição não neutra Rotação do corpo Ângulo inadequado assento/ encosto Superfície de trabalho muito alta ou muito baixa Fonte: Iida (2005) Pé e pernas (varizes) Músculos extensores do dorso Parte inferior das pernas, joelhos e pés Dorso e pescoço Ombros e braços Antebraços Punhos Coluna vertebral Músculos dorsais Coluna vertebral, cintura escapular. Segundo Iida (2005), a posição parada em pé, é altamente fatigante por ser uma postura estática e, por isso mesmo, encontra maiores resistências para o coração bombear sangue para os extremos do corpo. As pessoas que executam trabalhos dinâmicos e em pé, geralmente apresentam menos fadiga do que aquelas que permanecem estáticas ou com mínima movimentação. O trabalho usando as mãos e os braços também podem causar dores ou desconfortos, caso sejam realizados em longos períodos e com posturas inadequadas. O punho quando fica muito tempo inclinado, pode ocasionar inflamação dos nervos, resultando em dores e sensações de formigamento nos dedos. (DUL; WEERDMEESTER, 2004).

19 18 Trabalhos com repetitividade favorecem ao desencadeamento de DORT/LER (Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho / Lesões por Esforços Repetitivos) Trabalho repetitivo Segundo Iida (2005), o trabalho repetitivo reduz a vigilância e tende a provocar erros e acidentes. Tudo isso se reflete na baixa qualidade da produção, aumento de absenteísmo e rotatividade. Os métodos muito simples e altamente repetitivos tem a desvantagem de exigir sempre a contração dos mesmos músculos, acumulando a fadiga localizada. Aumentando-se a variedade de tarefas, essa fadiga poderá ser melhor distribuída. Ainda segundo a mesma autora, trabalhadores envolvidos em tarefas de pouco significado e com excesso de controles, sentem-se angustiados porque parece que seu trabalho nunca termina por mais que se esforcem. A combinação de trabalho monótono e repetitivo com a alta carga de estresse mental exige uma continua mobilização das reservas bioquímicas, que, a longo prazo, afetam adversamente o estado geral da saúde do trabalhador.(johansson et al.,1976) Transportar/ levantar/empurrar cargas O transportar/levantar/ empurrar cargas são tarefas comuns à rotina do ser humano, seja no contexto industrial ou nas atividades domésticas. Mas, deve-se ter um cuidado especial na execução dessas atividades, pois, as mesmas podem trazer consequências graves à saúde do trabalhador. O manuseio de cargas deve ser considerado um trabalho pesado, principalmente na etapa de levantamento. Um dos principais problemas do manuseamento é o desgaste dos discos intervertebrais. (GRANDJEAN, 1998). Esses discos ficam localizados entre os ossos das vértebras e são responsáveis pelo movimento da coluna. As doenças relacionadas à coluna são umas das causas para que os trabalhadores se ausentem do seu local de trabalho, dando origem em muitos casos a invalidez precoce. A movimentação manual de cargas pode causar danos cumulativos e deteriorar gradativamente o sistema esquelético e muscular, devido a atividades contínuas de movimentação e elevação de objetos. (OSHA, 2007). O transporte manual de cargas deve seguir determinados princípios para prevenir futuras doenças, como por exemplo, transportar cargas simétricas, usar meios auxiliares,

20 19 colocar a carga próxima do corpo ou coloca-la na vertical. Além disso, é necessário conhecer a capacidade humana máxima para levantar e transportar cargas, para que as tarefas e as máquinas sejam corretamente dimensionadas dentro desses limites. (IIDA, 2005). Na constituição brasileira, o Artigo 198 da CLT diz: É de 60 kg (sessenta quilogramas) o peso máximo que um empregado pode remover individualmente, ressalvadas as disposições especiais relativas ao trabalho do menor e da mulher (BRASIL, 1978, p.46). De acordo com a Norma Regulamentadora n 17 (NR-17), no que se refere ao levantamento, transporte e descarga individual de materiais, sendo esta manual ou por meio de vagonetes, carros de mão ou qualquer outro aparelho mecânico, não deverá ser exigido do trabalhador que o mesmo transporte pesos que comprometam a sua saúde ou segurança, sendo este esforço compatível com a sua força. Ainda no contexto desta norma, para as cargas não leves, os funcionários devem receber treinamento ou instruções satisfatórias de métodos de trabalho, com o objetivo de salvaguardar a saúde e prevenir acidentes. (BRASIL, 1990) Trabalho sentado A posição sentada exige atividade muscular do dorso e do ventre para manter - se. Praticamente todo o peso do corpo é suportado pela pele que cobre o osso ísquio, nas nádegas. (IIDA, 2005). Quando a condição de trabalho sentado não está correta pode haver com facilidade a ocorrência de lombalgias. Em sua obra, Kroemer e Grandjean (2005) citam os prós e os contras do trabalho sentado. Segundo o autor, o trabalho nessas condições proporciona ao trabalhador, uma maior estabilidade da postura da parte superior do corpo, redução do consumo de energia, menor demanda do sistema circulatório e tira o peso das pernas do trabalhador. Estas vantagens opõem-se algumas desvantagens: o sentar prolongado leva a flacidez dos músculos abdominais e a curvatura da coluna vertebral, o que é desfavorável para os órgãos da digestão e da respiração. Trabalhar sentado traz conforto, porém, como foi visto, costuma ocasionar alguns problemas. O principal problema envolve a coluna vertebral e os músculos das costas, que em varias posturas sentadas não só não são aliviados, mas, de diferentes maneiras são sobrecarregados. (KROEMER; GRANDJEAN, 2005).

21 trabalho com inclinação As inclinações de tronco, em função da intensidade dos movimentos podem contribuir para o surgimento de distúrbios na coluna vertebral, sendo a dor lombar considerada a principal causa de absenteísmo ocupacional. (KSAM, 2003). Uma inclinação de 30 do tronco para frente pode aumentar em mais de 70% a carga atuante entre os discos intervertebrais. (PERES et al., 2001) Temperatura Na indústria de alimentos, uma série de atividade profissionais submetem os trabalhadores a ambientes que apresentam condições térmicas diferentes daquelas a que o organismo humano esta habitualmente acostumado. Estes profissionais ficam expostos a frio e a calor intenso os quais podem comprometer seriamente a sua saúde. (BRITO et al., 2008). Têm sido várias as pesquisas tanto em laboratório como no campo, para demonstrar a relação entre conforto térmico e o desempenho do trabalhador. Os resultados destas pesquisas não conduziram a conclusões definitivas, mas mostraram que havia uma clara tendência de desconforto, causado por ambientes considerados quentes ou frios. Este desconforto pode causar uma redução significativa do desempenho. (KRÜGER; DUMKE, 2001) Ambiente térmico quente O homem que trabalha em ambientes expostos a altas temperaturas sofre de fadiga, seu rendimento diminui, ocorrem erros de percepção e raciocínio e aparecem sérias perturbações psicológicas que podem conduzir a esgotamentos e prostrações. (SAAD, 1981) Ambiente térmico frio As baixas temperaturas, por sua vez, têm influência nas habilidades motoras. As mãos quando expostas ao frio, apresentam prejuízos do tato e da movimentação das articulações, tornando o trabalho mais lento e podendo aumentar os erros e acidentes. (COUTO apud VIEIRA, 1997).

22 Ruído O nível de ruído também é outro parâmetro de grande relevância a ser analisado em indústrias de laticínios uma vez que nelas estão presentes diversas fontes causadoras deste distúrbio. A presença de ruídos no ambiente de trabalho pode provocar danos ao aparelho auditivo e até mesmo a surdez. (LAVILLE, apud TOMAZ et al., 2000). Segundo Dul e Weerdmeester (2004) a presença de ruídos elevados pode perturbar ou provocar lesões irreversíveis ao aparelho auditivo, mesmo os ruídos relativamente baixos podem provocar interferência nas comunicações e redução da concentração. 2.4 ANÁLISE ERGONÔMICA DO TRABALHO (AET) Segundo a legislação brasileira na Norma Regulamentadora 17, para avaliar a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, cabe ao empregador realizar a análise ergonômica do trabalho, devendo a mesma abordar, no mínimo, as condições de trabalho. (BRASIL, 2011). Segundo Couto (1995) a análise procura mostrar uma situação global da tarefa, abrangendo, dentre outros fatores: o posto de trabalho, as pressões, a carga cognitiva, a densidade e a organização do trabalho, o modo operatório, os ritmos e as posturas. Assim, ela não se limita tão só ao posto, mas verifica, também, as características do ambiente (principalmente quanto ao conforto térmico, conforto acústico e iluminação), [...] do método de trabalho, [...] do sistema de trabalho e análise cognitiva do trabalho. De acordo com Santos e Fialho (1997) e Iida (2005) o método da AET visa aplicar os conhecimentos da ergonomia para analisar, diagnosticar e corrigir uma situação real de trabalho. Conforme Tonial e Ulbricht (2005), os resultados da AET possibilitam realizar diagnósticos antecipados de determinada postura que podem induzir as queixas de dores musculoesqueléticas, que quando percebidas, tornam possível a prescrição de medidas preventivas, no sentido de melhorar a qualidade de vida no trabalho e reduzir limitações ocupacionais geradas por dores. Santos e Fialho (1997) propõem um esquema metodológico para AET, que se inicia com o levantamento de um problema, seguido da análise das condições de trabalho e a análise das situações comportamentais do homem frente ao trabalho desenvolvido. Com o resultado

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