UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO - UFRJ Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração - COPPEAD JALDIR FREIRE LIMA

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO - UFRJ Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração - COPPEAD ADMINISTRAÇÃO PARTICIPATIVA: a percepção do trabalhador JALDIR FREIRE LIMA Tese de Mestrado Orientadora: Anna Maria Campos Rio de Janeiro (RJ) - Brasil Abril de 1995

2 \I ADMINISTRAÇÃO PARTICIPATIVA: A PERCEPÇÃO DO TRABALHADOR JALDIR FREIRE LIMA TESE SUBMETIDA AO. CORPO DOCENTE DO INSTITUTO DE PÓS GRADUAÇÃO E PESQUISAS EM ADMINISTRAÇÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO, COMO PARTE DOS REQUISITOS NECESSÁRIOS À OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE EM CIÊNCIAS (M. SC.). APROVADA POR: --Sn PROFa. ANNA MARIA CAMPOS PRESIDENTE DA BANCA COPPEAD/UFRJ É PROFa HELoíSA BARBOSA LEITE COPPEAD/UFRJ PROF. EV [ RARDO ROCHA IPUC/RJ RIO DE JANEIRO (RJ) - BRASIL Abril de 1995

3 iii FICHA CATALOGRÁFICA LIMA, Jaldir Freire. Administração Participativa: a percepção do trabalhador Jaldir Freire Lima. Rio de Janeiro: COPPEAD, xii, 86 p. il. Dissertação - Universidade Federal do Rio de Janeiro, COPPEAD. 1. Administração Participativa. 2. Teoria Organizacional. 3. Tese (Mestrado - COPPEAD/UFRJ). I. Administração Participativa: a percepção do trabalhador.

4 IV DEDICATÓRIA Elaborar esta tese consumiu tempo, que foi obtido com o sacrifício de convívio com entes queridos. A estes, em especial Lydia Maria, Guilherme e Isabela, dedico esta tese.

5 v AGRADECIMENTOS Ao pessoal da B.Braun e a todos aqueles que de alguma maneira contribuíram para a conclusão desta tese, destacando a Professora Anna Maria que soprou uma brasa adormecida, levando-me a tirar os antolhos e o filtro com que eu olhava a vida.

6 vi RESUMO DA TESE APRESENTADA À COPPEAD/UFRJ COMO PARTE DOS REQUISITOS NECESSÁRIOS PARA A OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE EM CIÊNCIAS (M.Sc.) ADMINISTRAÇÃO PARTICIPATIVA: a percepção do trabalhador JAlDIR FREIRE LIMA MARÇO DE 1995 ORIENTADOR: PROP. ANNA MARIA CAMPOS PROGRAMA: ADMINISTRAÇÃO O presente trabalho tem como pano de fundo a administração participativa. Em leituras sobre o assunto, percebi que essa prática organizacional, tão em moda nos dias de hoje, é estudada ou apresentada quase sempre do ponto de vista de executivos ou donos de empresas. Alguns estudos indicaram que poderia haver uma diferença na forma como estes e os trabalhadores percebem a administração participativa e seus resultados. Esta tese busca explorar a existência dessa diferença. Para tanto, foi realizado um estudo na empresa laboratórios B. Braun SA, com aplicação de questionário e realização de entrevistas. O questionário foi aplicado aos executivos responsáveis pela implantação de um programa de administração participativa. As questões versavam sobre as colocações tradicionais acerca da matéria. O mesmo questionário foi aplicado a 59 trabalhadores da mesma empresa, e as medianas das respostas foram comparadas com as respostas dos executivos. Essa comparação não foi concludente, mas mostrou o desencontro de percepções, que ficou mais evidente quando da análise das entrevistas.. Cumpre registrar que a pesquisa teve caráter qualitativo, sem rigor estatístico, tendo como principal mérito levantar a questão, demonstrando a necessidade de aparar as arestas, viabilizando que a administração participativa contribua para a melhoria das condições de trabalho dentro das empresas.

7 vii ABSTRACT OF THESIS PRESENTED TO COPPEAD/UFRJ AS PARTIAL FULFILLMENT FOR THE DEGREE OF MASTER OR SCIENCES (M.Sc.) PARTICIPATIVE MANAGEMENT: the way the worker see it JALDIR FREIRE LIMA MARCH OF 1995 CHAIRWOMAN: PROF8 ANNA MARIA CAMPOS DEPARTAMENT: ADMINISTRATION This study is about participative management. During my readings over the theme I realized that this organizational practice, that is so commom nowadays, is almost allaways studied or presented from the point of view of managers or owners of companies. A few studies, however, indicated that the workers could see the participative management and it's results in a different way. This tesis explores the existence of this diference. There was developed an application lo be applied to the executives that have been responsable for a participative management program and 59 workers of Laboratórios B. Braun SA. The comparison between the answers of the executive and the medium values of the 59 workers was not enough to conclude, but confirmed that the difference of perceptions may exist. The existence of the difference got stronger when I analizaed the enterviews. This study had a qualitative character, without statistic rigor. Although the results are not conclusive, they show the necessity of developing the practice and its concepts, to allow the participative managemenl lo conlribule lo be reached beller work condilions inlo lhe companies.

8 viii LISTRA DE ILUSTRAÇOES Quadro I - Quadro li - Quadro 111- Formas de administração participativa quanto aos graus de controle Resumo da participação no lucro no Brasil. Resumo da tabulação dos questionários pag. 25 pago 39 pag. 55

9 ix LISTA DE ANEXOS Anexo 1 - Regulamento dos Grupos Participativos pago 79 Anexo 2 - Regulamento dos Grupos Tarefa pag. 81 Anexo 3- Modelo do Qüestionário pago 83 Anexo 4- Modelo de Circular Intema pago 86

10 x SUMÁRIO Capítulo Título pago 1. INTRODUÇÃO 1 2. O TRABALHO Considerações iniciais Trabalho: conotações e significados A evolução do trabalho e a questão da alienação O trabalho nas teorias de organização As novas tendências ADMINISTRAÇÃO PARTICIPATIVA Considerações iniciais Conceitos básicos Definições Objetivos Condicionantes Tipos e formas Limites e possibilidades PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS Histórico Objetivos e definições Classificações e critérios 4.4. Controvérsia A prática brasileira Participação nos lucros x administração participativa A DIVERGÊNCIA DE PERCEPÇOES Referencial teórico O estudo A empresa estudada Características gerais O programa de administração participativa Metodologia Análise dos resultados Análise do questionário Percepção quanto à participação dos trabalhadores no desenvolvimento e implantação do programa Percepção quanto ao comprometimento com o sucesso do programa Percepção quanto ao espírito de trabalho em equipe

11 xi Percepção quanto ao sentimento "minha empresa" Percepção quanto à participação dos trabalhadores nas decisões da empresa Percepção quanto à consulta aos trabalhadores acerca dos problemas e decisões da empresa Percepção quanto à satisfação do trabalhador com seu grau de satisfação Percepção quanto à contribuição da administração participativa para a satisfação do trabalhador na empresa Percepção quanto à contribuição da administração participativa para a motivação do trabalhador na empresa Percepção quanto ao conhecimento da empresa como um todo Percepção quanto ao estabelecimento de canais de comunicação Percepção quanto à repercussão dos benefícios da administração participativa para os trabalhadores Percepção quanto à compatibilização da maximização do lucro com a humanização da empresa Percepção quanto à democratização da empresa Análise das entrevistas Percepção quanto à motivação para a implantação da administração participativa e seu alcance Percepção quanto à voluntariedade e importância da participação Percepção quanto às razões do desgaste do programa Análise geral vis a vis a teoria CONCLUSÓES 66 Bibliografia 69 Anexo 1 - Regulamento dos Grupos Participativos 79 Anexo 2- Regulamento dos Grupos Tarefa 81 Anexo 3- Modelo do Questionário 83 Anexo 4- Modelo de Carta Circular 86

12 xii HAGAR, o horrível DIZEM Que o Pl<ÓXIMO fo\ll..ê - IO RA' Gf2,4 pe$ }J.iJ rjc:;:ae' PAAA tjo CUL.. Tu- I2A... E,ALGo #,e. /Z... Que JoIe.tJHUMA DEl...A1? IMFClZTAAA' SEM,Al.GU MIe Gf?4t"llES Chris Browne CALVIN & HAROLDO peg' e;. l.tpr, "I""eJ.< P!'GO PA- Pe\..! Bill Watterson _ "

13 1 1. INTRODUÇÃO A administração participativa vem se espalhando pelo universo das empresas e sendo apresentada pelo meio acadêmico em geral como uma alternativa capaz de resgatar no trabalhador a identificação com seu trabalho e, em algumas opiniões mais extremadas, até representar a redenção do conflito capital-trabalho. A questão em foco nesta tese é uma possível divergência entre a percepção dos trabalhadores e dos gerentes/proprietários no que se refere à administração participativa. Na imprensa e em publicações especializadas em negócios e administração a prática tem sido defendida como alternativa moderna que permite ganhos significativos para a empresa e para o trabalhador. Ambos teriam a ganhar tanto quantitativa quanto qualitativamente. Os aspectos quantitativos significam reduções de custo, aumento de produtividade, maiores lucros etc para a empresa e aumentos de remuneração para o trabalhador, o que lhe permitiria uma melhoria de seu padrão material de vida. o lado qualitativo se relaciona à melhoria das condições de trabalho, maior democracia no ambiente de trabalho, redução da alienação, aumento da satisfação e da motivação do trabalhador com sua atividade produtiva etc. Na verdade os dois aspectos interagem formando um looping, sendo impossível discernir um do outro. Em praticamente toda a bibliografia consultada para elaboração desta tese, a administração participativa é vista da perspectiva do gerente/proprietário da empresa ou dos acadêmicos. Alguns autores identificaram a existência desse viés, questionando-se quanto à possível discordância dos trabalhadores com as colocações feitas por gerentes/proprietários e acadêmicos e até com os instrumentos por estes utilizados para medir o sucesso dos programas, sem, contudo, se aprofundarem no estudo da questão. Assim, me pareceu oportuno ouvir o trabalhador, sujeito e objeto dos programas de administração participativa, tentando aferir se existe diferença entre a forma como este e o gerente/proprietário percebem a administração participativa, no intuito de evitar que a falta de respeito pela sua opinião obstrua uma alternativa apresentada como caminho para melhorar as condições de trabalho dentro das organizações. Para explorar a possível existência dessa diferença de percepções foi realizado um estudo na LABORATÓRIOS B. BRAUN S.A.. A empresa, que adotou a administração participativa em 1985, foi selecionada do cadastro da Associação Nacional de Administração Participativa - ANPAR, entidade privada, de fins não lucrativos e adesão voluntária, que congrega a maioria das empresas brasileiras que implantaram ou pretendem implantar algum programa de administração participativa.

14 2 Os dez anos de existência do programa foram o fator principal para a escolha dessa empresa, uma vez que a imaturidade de um programa novo já é por si só capaz de gerar diferenças de percepção. O estudo foi dividido em duas partes distintas; a primeira parte envolveu entrevista com os responsáveis pelo programa de administração participativa da empresa, onde foram coletadas informações de ordem geral sobre a empresa (área de atuação, faturamento etc) e sobre o programa (histórico, forma, abrangência etc). A segunda parte, que se constitui no cerne da pesquisa, é representada por um questionário aplicado ao responsável e a funcionários da empresa com o objetivo de verificar a existência de diferença de percepção da administração participativa entre o primeiro e os últimos. No intuito de trazer um componente qualitativo ao estudo, foi aberto, durante a entrevista com os trabalhadores, espaço de tempo para colocações acerca de suas impressões gerais sobre o programa de administração participativa da empresa. O questionário aplicado aos responsáveis, que representaram a opinião da empresa, e aos trabalhadores foi o mesmo, visando permitir a comparação entre as respostas, para verificar se existe ou não divergência entre as percepções das duas partes quanto à administração participativa. Antecipe-se que a pesquisa teve caráter exploratório: as perguntas são de caráter geral e abordam pontos principais da teoria e prática da administração participativa. Previamente ao estudo propriamente dito, esta tese busca, na evolução do trabalho, as origens da administração participativa. Essa busca é apresentada no capítulo 2, que aborda o trabalho, seus desdobramentos e sua relação com as teorias de organização. O capítulo é dividido em quatro partes básicas. Na primeira, procuro conceituar e definir não só a palavra trabalho e suas diversas conotações mas, principalmente, o significado original do ato de trabalhar para o ser humano e o significado que o termo adquiriu na nossa cultura, quando se tomou sinônimo de emprego. Na segunda parte, apresento uma história da evolução do trabalho, englobando desde o trabalho individual e doméstico dos tempos remotos ao trabalho nas organizações nos dias de hoje, onde se destaca a questão da insatisfação e da alienação A terceira parte se constitui em tentativa de pinçar, nas diversas teorias de organização, a forma como era encarado o trabalho e qual o receituário das principais teorias para se lidar com o trabalhador. Destacam-se as maneiras como os administradores têm tentado manipular os trabalhadores para obter maior produtividade e melhores resultados econômicos, com conseqüente incremento de riqueza para os proprietários do capital. A quarta parte compila as tendências atuais e as diversas formas alternativas que as empresas vêm explorando para lidar com a questão do trabalho. Isto, a meu ver, implica que o objetivo básico das organizações deixe de ser a maximização da riqueza do seu proprietária e passe a ser o bem estar

15 3 social. Entre estas formas, temos a administração participativa, o trabalho em tempo parcial ou "em casa", as forças tarefa, o horário flexível etc. A teoria da administração participativa é coberta no capítulo 3, composto por duas partes. A primeira engloba os conceitos básicos, como definições, objetivos, condicionantes, tipos e formas; enquanto a segunda parte aborda os limites e possibilidades da administração participativa. A idéia básica deste capítulo é discutir se a administração participativa é um modismo administrativo, mais um paliativo temporário para o conflito, ou uma alternativa que, mesmo sem ser totalizante, contribuirá no sentido de tornar a atividade produtiva mais justa e recompensadora. Enquanto forma mais comum de administração participativa encontrada no Brasil, a participação dos empregados nos lucros das empresas mereceu um capítulo em separado. No capítulo 4 é apresentado um histórico da participação nos lucros, seus objetivos, definições, formas e critérios. Analisam-se, ainda, os prós e contras da prática, o quadro da participação nos lucros no Brasil, finalizando com uma discussão quanto à relação participação nos lucros e administração participativa. o capítulo 5 explora a existência da divergência de percepções. Para tanto é composto por duas partes: referencial bibliográfico, constituído de levantamento do material teórico disponível que aborda o tema ou apresenta indícios de sua existência, e um estudo de caso. A metodologia do estudo consistiu basicamente na comparação das percepções dos dois grupos. Os instrumentos utilizados para coleta de dados foram entrevista e questionário. O questionário aplicado foi o mesmo para todos os entrevistados, executivos e trabalhadores, objetivando, através da comparação das respostas, detectar divergências de percepção. Esse questionário abordou questões gerais acerca da administração participativa. A primeira entrevista foi com os executivos da empresa responsáveis pela criação, desenvolvimento e implantação do programa, onde foram obtidas informações gerais sobre a empresa e o programa. Nessa ocasião os executivos responderam ao questionário. A segunda entrevista, com os trabalhadores, foi coletiva. Na mesma ocasião os entrevistados responderam o questionário e colocaram livremente suas opiniões sobre a administração participativa e suas conseqüências. A análise dos resultados do estudo foi realizada sob duas perspectivas: qualitativa e quantitativa. Sem ter pretendido tirar conclusões ou propor generalizações sobre o tema, porquanto exploratório, o estudo colocou algumas luzes sobre a questão e concluiu pela necessidade de tratar, com maior profundidade, a administração participativa, bem como pela realização de outras pesquisas com maior número de empresas que adotam essa forma de gestão.

16 4 2. O TRABALHO 2.1. Considerações iniciais Há muito tempo a questão do por que trabalhar tem me inquietado. Nos últimos tempos, a questão estava apaziguada; trabalho para ganhar dinheiro, que me permite acesso ao mercado de consumo de bens materiais. No desenvolvimento de minhas atividades profissionais, previamente a meu ingresso na COPPEAD, participei da análise de um financiamento, solicitado pela SADIA, para ampliação de sua capacidade produtiva. o processo de análise dessa solicitação envolveu, entre outras atividades, visitas à empresa, onde pude acompanhar todo o processo produtivo, desde a criação e engorda de frangos, suínos e perus ao abate e industrialização dos animais. A última fase do processo, comercialização dos produtos, que fecha o ciclo produtivo, é facilmente observável e conhecida por todos: supermercados, mercearias, padarias, quitandas etc. Após a análise desse projeto intensifiquei meu consumo dos produtos da empresa. No decorrer das leituras e pesquisas bibliográficas pertinentes à elaboração da tese busquei nas origens das organizações e na teoria administrativa um melhor entendimento para meu comportamento. A primeira pista que encontrei foi a figura do prossumidor, de Alvin Toffler (1980), definido em seu livro A Terceira Onda, como o ser humano que produzia tudo de que necessitava e limitava seu consumo quase exclusivamente aos bens que produzia. Essa pista funcionou como alavanca para questões maiores, como as razões pelas quais trabalhamos, objetivos, motivação e, principalmente, o significado do trabalho. O que nos leva a aceitar, ou mesmo, desejar passar cerca de um terço de nossas vidas dentro das organizações? A lógica do capitalismo, que reificou a acumulação compulsória de riqueza material, explica parcialmente essa situação. O homem não mais trabalha para viver, mas vive para trabalhar. Com o advento da revolução industrial, o homem foi gradualmente perdendo a ligação efetiva e afetiva que tinha com o trabalho que, cada vez mais, foi se tornando uma atividade sem significado, com seu produto completamente desligado do trabalhador. Comecei a perceber que o meu interesse acima do normal pelos produtos da Sadia podia ser a busca de um significado para meu trabalho intelectual, uma forma de tangibilizá-io e, enquanto prossumidor, consumi-lo.

17 5 Tendo em vista que o trabalho é a célula básica de qualquer organização, e detectando que o grau de descontentamento e alienação do trabalhador nas organizações atingiu níveis insustentáveis, torna-se imperioso buscar alternativas que revertam esse quadro e permitam que o homem trabalhe não só para garantir seu sustento físico mas, principalmente, para gerar recursos que permitam o seu desenvolvimento e realização Trabalho: conotações e significado Iniciamos pelo significado da palavra encontrado no dicionário: "1 - aplicação das forças e faculdades humanas para alcançar um determinado fim; 2 - atividade coordenada de caráter físico ou intelectual, necessária à realização de qualquer tarefa, serviço ou empreendimento..."(buarque DE HOLANDA, 1975). Embora a definição se estenda por muitos outros significados, a parte transcrita já é suficiente, pois engloba os outros significados e trata da questão que interessa à tese. O desmembramento desta definição traz à tona alguns detalhes elucidativos. Na primeira definição, temos a palavra "humana", ou seja, animais não trabalham, pelo menos intencionalmente. Em seguida, "alcançar determinado fim", indicando que existe objetivo. A segunda definição vai além, trazendo "coordenação de atividades" e "empreendimento", que evidenciam a permeabilidade da palavra trabalho com o contexto em que se insere em nossa sociedade, dominada pelas organizações. Nesse sentido, creio eu que, nos tempos primitivos, o ser humano não trabalhava. Tal qual outros animais, ele existia. Para tanto, executava atividades que lhe permitiam tirar diretamente da natureza o seu sustento. A sua sobrevivência dependia, como ainda depende, do que a natureza lhe oferecia, e os atos humanos eram parte do equilíbrio ecológico (atualmente geram o desequilíbrio ecológico). Até hoje, para as tribos primitivas, que não foram contaminadas pelos valores economicamente ditados de nossa sociedade, a palavra trabalho não tem significado. Nessas tribos as pessoas simplesmente pescam, caçam, colhem etc, ou seja, vivem. Foi o desenvolvimento de nossa sociedade que determinou que a pescaria por passatempo é diferente daquela realizada por pescadores, ligados ou não a empresas, com motivação econômica. Cumpre esclarecer que a palavra desenvolvimento é aqui utilizada com o significado de mudança, sem conotação de melhora ou piora. Cabe aqui um parêntese de ordem antropológica. Classificar as sociedades primitivas como de subsistência não implica considerá-ias miseráveis. A função essencial do sistema de produção de qualquer sociedade é prover a subsistência dos indivíduos que a compõe. Nesse sistema social, não existe economia em termos estruturais, pois esta não se desenvolve de maneira autônoma no campo social. A própria sociedade impôs-se um limite que não pode

18 6 transpor, sob a pena de ver a esfera econômica escapar ao controle social e gerar distorções graves. A sociedade primitiva é de subsistência por opcão. Nela não se enfatiza progresso, excedente, acumulação, capital ou trabalho. A economia deve limitarse a produzir para manter a sociedade: é subordinada ao social, não busca a produção de excedentes nem a formação de estoques. "A sociedade primitiva aposta no ócio da natureza e jamais na sua compulsiva ou obrigatória transformação em riqueza" (ROCHA, 1989, p. 354). Diferentemente, a nossa sociedade crê no mito da produtividade: produção de excedentes para obtenção de lucro na sua comercialização. É uma sociedade de domínio econômico, uma máquina de produção, onde o progresso tecnológico, o domínio sobre a natureza e a idéia de produzir para acumular são vistos como corretos. Dentro da concepção historicamente construída do paradigma de mercado seguido por essa sociedade, o trabalho é mercadoria. No seu uso coloquial, a palavra trabalho tem inúmeros significados. Todos, entretanto, têm em comum o fato de serem relativos às formas ou resultados da ação humana. Em quase todas as línguas trabalhar tem mais de um significado. Em geral, um refere-se à obra, ao processo de criação, enquanto o outro ao esforço despendido nesse processo. Em português, apesar de existirem duas palavras distintas, labor e trabalho, a segunda pode abranger as duas conotações. Na nossa língua, a palavra trabalho deriva do latim, tripa/ium que, embora fosse uma ferramenta agrícola, é mais conhecida como instrumento de tortura. Na maioria das culturas, o trabalho é relacionado à dor, sofrimento, punição etc, e é forte a sua ligação com a religião. Na Grécia antiga, o trabalho era distinguido entre intelectual (ou contemplativo) e braçal. O primeiro era considerado humano, livre e gratuito, enquanto o segundo era desprezado, encarado como castigo e reservado aos escravos e às mulheres. Na tradição judaica, trabalho também é relacionado a castigo, pena à qual o homem foi condenado por ter cometido o pecado original. A bíblia o apresenta como uma penitência por este ato. Também para o catolicismo em geral, o trabalho é considerado uma tarefa penosa, que deve ser ardentemente procurada como penitência. Apesar disso, pode ser digno e gratificante, em função de sua ordenação ao louvor do senhor. Com a reforma protestante de Lutero, o trabalho é reavaliado dentro do cristianismo. Aqui o trabalho aparece como a base e a chave da vida, o ócio é uma evasão anti-natural e pemiciosa; trabalhar é servir a Deus. O trabalho tomase vocação, é visto como virtude e obrigação ao mesmo tempo.

19 7 As religiões, de um modo geral, contribuíram significativamente para a dominação dos valores econômicos, haja vista pregarem que é vontade divina que todos trabalhem, e que o trabalho árduo é o caminho da salvação. As diferenças entre os seres humanos ficam explicadas pela predestinação. A intensa atividade profissional garante o paraíso. Segundo Max Weber (apud BERGER, 1983) o conceito de trabalho para as religiões se constitui na principal alavanca do capitalismo. Na renascença, o trabalho ganha uma novo significado, cujos efeitos são sentidos ainda hoje. O trabalho passa a ser concebido como um estímulo e não como uma obrigação, torna-se a expressão do homem e de sua personalidade. As razões para trabalhar são intrínsecas ao trabalho e a satisfação não decorre de renda, salvação ou status, mas do próprio ato. Desta forma, ao contrário de escravizar, o trabalho é visto como uma condição necessária à libertação do ser humano. O desenvolvimento da idéia do valor e da transformação da natureza, guiada pela teoria e pela ciência, exalta o domínio do homem sobre a natureza, graças ao trabalho e à técnica. No século XVIII, a economia clássica identifica no trabalho humano e na natureza as fontes da riqueza social e do valor. Esses economistas, entretanto, se preocupam apenas com os resultados exteriores e materiais do trabalho, esquecendo o homem. Na passagem daquele século para o seguinte, Hegel (apud ALBORNOZ, 1988) define o trabalho como uma relação peculiar entre homens e objetos. O trabalho é processo de transformação. Para ele, o homem, para satisfazer suas necessidades, trabalha e transforma a natureza antes de consumi-ia, diferente do animal, que a consome na sua forma bruta, destruindo-a. A atual situação do meio ambiente, porém, indica que a percepção do filósofo foi equivocada. No século XIX, começam as reações à concepção clássica do trabalho, desconectada do homem. Entre os utopistas, destaca-se Charles Fourier (apud ALBORNOZ, 1988), que acreditava que trabalho e prazer não tinham que estar necessariamente separados. Para ele, os homens seguiriam um princípio universal de atração e aptidão natural, dedicando-se às tarefas que lhes fossem atraentes e recompensadoras. Temos então Karl Marx (apud ALBORNOZ, 1988), que analisou exaustivamente as relações de trabalho na sociedade capitalista do seu século. Para esse pensador, a essência do ser humano está no trabalho, o que os homens produzem é o que eles são. O trabalho seria o fator mediador da relação homem-natureza. A moderna teoria econômica restringe o conceito de trabalho à atividade produtiva, definida como aquela que gera produtos ou serviços monetariamente quantificáveis, o que gera injustiças e distorções. O trabalho doméstico, realizado pela dona de casa, sem remuneração, embora vital para a sociedade, é desconsiderado, enquanto a indústria de armamentos, que produz artefatos de destruição, é positivamente contabilizada.

20 8 Na nossa sociedade, trabalho virou sinônimo de emprego e emprego, de salário, donde vêm definições jocosas que definem trabalho como renúncia de tempo livre em troca de dinheiro. Mendonça (1987) define trabalho como uma atividade que se executa por conta de um terceiro, em troca de um salário, de acordo e com finalidade definida por quem paga esse salário. O conceito de trabalho como emprego é tão dominante que todo o sistema familiar e educacional está voltado para a preparação das crianças para "... que se consiga um emprego remunerado de tempo integral, a ser mantido por toda a vida" (SCHAWRZ, 1990, p. 07). O sistema está preocupado com que as crianças estudem para conseguir, quando adultos, bons empregos, entendidos como aqueles que pagam bons salários. Qualifica-se um emprego em função da remuneração que ele propicia; quanto maior a remuneração melhor o emprego. Acredita-se que isso é suficiente para a felicidade e a realização pessoal. O alto grau de alienação dos indivíduos, em suas atividades produtivas, assunto que será tratado no tópico seguinte, está levando a uma reformulação desse conceito. Fortifica-se a idéia de que o trabalho deve ser significante e gratificante para o trabalhador, útil para a sociedade e estar em harmonia com o meio ambiente A evolução do trabalho e a questão da alienação Cabe antecipar que essa evolução é contada com base nos parâmetros de referência da sociedade civilizada atual, assim suscetível de críticas de diversos matizes, destacando-se o antropológico. Um indivíduo, inserido isoladamente na natureza, apresenta-se, aparentemente, como um animal fraco, que encontra dificuldades quase intransponíveis para sua sobrevivência. Desta forma, dotado de inteligência superior, recorre, tal qual a maioria das espécies animais, à vida em grupo, dando origem ao que denominamos sociedade. Na primeira fase dessa evolução, a atividade produtiva do homem, ou seu trabalho, se resumia em extrair da natureza o sustento do grupo. O homem pescava, colhia e caçava; a natureza lhe provia o sustento, inclusive habitação. Nessa fase, o homem era nômade; e sua convivência com a natureza era passiva e harmônica. Posteriormente, o homem iniciou uma fase de interação ativa com a natureza, desenvolvendo formas de controle, ainda que parcial, sobre a mesma. Descobriu a agricultura e a domesticação de animais. Não mais precisava se deslocar continuamente em busca do alimento que lhe garantisse a sobrevivência. Nessas duas primeiras fases, o trabalho humano era artesanal e visava a suprir suas próprias necessidades de subsistência. O trabalho era apoiado por

21 9 ferramentas rústicas, que facilitavam o cultivo agrícola e o fabrico de peças de vestuário e utensílios domésticos. A fixação dos grupos permitiu o crescimento dos núcleos sociais e o surgimento das cidades e das organizações. A palavra organização vem do grego organom, que significa instrumento. De acordo com Wood Jr., "organizações são, portanto, uma forma de associação humana destinada a viabilizar a consecução de objetivos predeterminados" (WOOD Jr., 1992, p. 07). Anteriormente cada ser humano, ou pequeno grupo, produzia tudo que precisava para seu sustento. Agora produz para si próprio, para sua família e para a sociedade à qual pertence, especializando-se por atividades. Cabe ressaltar que o mercado, local onde se dá a troca de mercadorias, e as organizações são figuras de longo convívio com o homem. A sua importância, entretanto, era marginal e sua influência sobre os seres humanos, pouco significativa. o comércio pré industrial se limitava aos supérfluos, a subsistência era produzida localmente. Na sociedade contemporânea existe uma grande interdependência, até no que se refere a produtos básicos, com riscos de colapso de abastecimento. Após essa fase, a produção se caracteriza pelo artesanato, onde o homem, em seu próprio lar, trabalhava com ferramentas simples e produzia produtos de sua especialidade, trocando o excedente por produtos de que necessitava, mas não mais produzia. Surge o primeiro rompimento do homem com o trabalho puro. O homem não produz mais tudo que consome nem consome tudo que produz. A economia começa a ganhar força. Surge a figura do mercadoragenciador. O artesão não mais produz por conta própria, atende a pedidos do mercador, que lhe fornece matéria prima e remuneração pelo trabalho, que continua a ser realizado em casa. Temos o segundo rompimento com o trabalho puro: o homem não mais decide o quanto produzir e perde, parcialmente, o controle sobre os fatores de produção. Na etapa seguinte, o mercador tira o artesão de casa e o coloca, junto com outros, num espaço comum. O trabalho continua manual. O trabalhador, entretanto, está ainda mais distanciado do ato original, perdeu o controle sobre os fatores de produção. Na verdade, a situação se mostra ainda pior, pois o trabalhador foi transformado num fator de produção. Além disso, o trabalho saiu de casa, criando distinção entre vida pessoal e profissional. Com o advento da máquina a vapor, teve início a revolução industrial. O trabalho continua a ser manual, mas passa a ser movido mecanicamente. Isto significa um afastamento ainda maior com o trabalho original, uma vez que o ritmo da atividade agora é ditado pela máquina. A revolução industrial aumentou e reforçou o abismo entre estruturação e direção do trabalho e sua execução. Surge a tecnocracia e se intensifica a divisão do trabalho. O trabalhador não

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