JULIANA HOFFMANN CONSTRUINDO E RECONSTRUINDO NARRATIVAS INFANTIS, ATRAVÉS DOS CONTOS DE FADAS

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1 JULIANA HOFFMANN CONSTRUINDO E RECONSTRUINDO NARRATIVAS INFANTIS, ATRAVÉS DOS CONTOS DE FADAS Instituto Cenecista Fayal de Ensino Superior Itajaí (SC) 2008

2 JULIANA HOFFMANN CONSTRUINDO E RECONSTRUINDO NARRATIVAS INFANTIS, ATRAVÉS DOS CONTOS DE FADAS Trabalho de Conclusão de Curso do Curso de Pedagogia apresentado ao Instituto Cenecista Fayal de Ensino Superior. Instituto Cenecista Fayal de Ensino Superior Itajaí (SC) 2008

3 CONSTRUINDO E RECONSTRUINDO NARRATIVAS INFANTIS, ATRAVÉS DOS CONTOS DE FADAS Este trabalho de conclusão de curso foi julgado aprovado para a obtenção do grau de Licenciado em Pedagogia do Instituto Cenecista Fayal de Ensino Superior IFES. Itajaí, 18 de junho de Prof. Wilson Reginatto Jr Coordenador de estágio Banca Examinadora Profª. Fernanda Germani de Oliveira Orientadora Profª. Márcia Elisa Haeser Prof. Carlos Roberto Nascimento

4 EQUIPE TÉCNICA Acadêmica do Curso de Pedagogia Juliana Hoffmann Coordenador de Estágio Wilson Reginatto Jr Orientador de Conteúdo Fernanda Germani de Oliveira Orientador de Metodologia Marcello Soares

5 DEDICATÓRIA Dedico este trabalho a minha família e ao meu namorado, por serem um exemplo de amor, dedicação, bondade e tantas outras virtudes que o mais inspirado poeta jamais conseguiria escrever.

6 AGRADECIMENTOS A Deus, por me conceder saúde para que pudesse concluir esse trabalho. Aos meus pais, minhas irmãs e meu querido namorado, pelo amor, apoio e compreensão que me ajudaram a alcançar meu objetivo. À professora Orientadora Fernanda Germani de Oliveira, pela orientação, incentivo e dedicação em todos os momentos.

7 RESUMO Os contos nasceram através de relatos orais realizados pelo povo, sendo que eles existem desde que o ser humano desenvolveu a fala. A princípio, esses contos não eram especificadamente contados para crianças, visto que na sociedade antiga não havia a infância ou um espaço diferente do mundo adulto. Diferentemente do que se poderia pensar, os contos de fadas não foram escritos para crianças, muito menos para transmitir ensinamentos morais. Em sua forma original, esses contos traziam doses fortes de adultério, canibalismo e mortes. A presente pesquisa enfocou o tema Construindo e Reconstruindo as narrativas infantis, através dos contos de fadas. Evidenciouse como objetivo essencial resgatar, através da contextualização, os contos de fadas, trabalhando-os para que os alunos possam construir e reconstruir os significados para cada conto de fada, oportunizando a construção do conhecimento, da própria identidade e do prazer pela leitura. Para tanto, envolveu uma metodologia de pesquisa de campo, visando buscar dados reais que comprovem as questões levantadas do problema investigado. Realizou-se também uma abordagem teórica, em que se procurou argumentar a necessidade do resgate dos contos de fadas e enfatizar a sua importância para o processo de alfabetização e o desenvolvimento da criança em um aspecto global. Considerou-se como relevante, nesta pesquisa, o quanto foi importante valorizar a intervenção da pesquisadora, perante os momentos de contações de histórias e das vivências da contextualização das mesmas. A amostra trabalhada abrangeu vinte alunos com idades entre cinco e seis anos, do Colégio Cenecista Pedro Antônio Fayal, do município de Itajaí (SC). Utilizaramse, como fundamento para a investigação, duas histórias que a professora contava aos alunos, sendo: Os três Porquinhos e Chapeuzinho Vermelho, e a outra história estava presente na biblioteca da escola e era de conhecimento das crianças, sendo a história do Patinho Feio. Com base nos resultados obtidos, destacou-se que: em determinadas histórias, as crianças identificamse com os personagens e procuram um significado de acordo com a sua necessidade ou interesse, pois os contos de fadas falam dos medos, do amor, da carência, da auto descoberta, das perdas e buscas e da dificuldade de ser criança. Oportunizando assim à criança momentos de diversão, ampliação de conhecimento, fantasia, sonho e imaginação. Conclui-se que a alfabetização é um processo contínuo que ocorre durante o percurso da vida do indivíduo e, portanto, nesse processo, não é suficiente à criança saber ler e escrever, mas encontrar na literatura uma motivação contínua para o seu desenvolvimento. Nesse sentido, faz-se de extrema necessidade utilizar-se a Literatura Infantil e principalmente os contos de fadas, nesse momento transitório e contínuo do desenvolvimento do processo de alfabetização. Palavras-chave: contos de fadas, crianças, desenvolvimento, alfabetização.

8 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO Questão Problema Justificativa OBJETIVOS Objetivo Geral Objetivos Específicos OS CONTOS DE FADAS Origem dos contos Os contos de fadas: uma porta de comunicação para o mundo? O que os contos de fadas podem nos falar A necessidade dos professores resgatarem os contos de fadas O MUNDO ENCANTADO E OS CONTOS DE FADAS Por que os contos de fadas foram deixados de lado? A evolução dos Contos na Literatura A ALFABETIZAÇÃO E A LITERATURA INFANTIL Psicogênese da Alfabetização Nível 1 Hipótese Pré-silábica Nível 2 Hipótese Silábica Nível 3 Hipótese Silábico-alfabético Nível 4 Hipótese Alfabética Alfabetização e seus métodos Alfabetização e Letramento MÉTODO DE PROCEDIMENTOS Modalidade de Pesquisa Campo de Observação Instrumentos de Coleta de Dados ANÁLISE DE DADOS Análise de uma experiência CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS...56

9 1. INTRODUÇÃO A literatura infantil: contos de fadas é um instrumento importante e necessário para a formação de qualquer criança, é, sem dúvida, uma das formas mais importantes para o seu desenvolvimento e crescimento psicológico, intelectual e espiritual. Os contos de fada têm como função despertar a imaginação da criança, ampliar a visão de tudo que a rodeia. O contato com o imaginário torna-a mais expressiva, crítica, maleável, criativa e comunicativa. O hábito de ler vai muito além do prazer proporcionado, ele é fundamental no desenvolvimento e organização das idéias do leitor. Neste sentido, os contos de fada contribuirão de forma efetiva na construção da linguagem, idéias, valores e sentimentos que ajudarão na formação da criança. Por tudo isso, torna-se essencial a contextualização da literatura infantil: contos de fadas como subsídio para a prática pedagógica. Com os contos a criança vive, revive, conta a história de novo para si mesma. Por mais textos que tenham os livros de literatura, por mais ricos que sejam sempre deixarão espaço para a criança imaginar. Serão sempre um convite para os sonhos. Segundo Abramovich (1997), os contos de fadas existem até hoje por serem um processo vivido através da fantasia, do imaginário, da criatividade, com a intervenção de personagens fantásticos (bruxas, fadas, duendes) da criança. Os livros de contos de fadas podem falar-nos dos medos, do amor, da carência, da autodescoberta, das perdas e buscas e da dificuldade de ser criança, quando ela quase sempre se identifica com a história contada. Sobre isso, Abramovich (1997) diz-nos que os contos de fadas são tão ricos que os psicanalistas servem-se deles para encontrarem interpretação do comportamento e dos anseios humanos. Com base nisso, acredita-se que um dos caminhos é resgatar, na literatura infantil, a contextualização dos contos de fadas e sua ocupação no processo de desenvolvimento das crianças.

10 1.1. Questão Problema Como enriquecer a narrativa dos alunos a partir da contextualização dos Contos de Fadas? 1.2. Justificativa Surgiu a necessidade de elaborar este projeto, pois acredita-se que os contos de fadas representam um recurso que oferece à criança a oportunidade de relacionar-se e entender o mundo em que vive, satisfazendo suas necessidades emocionais, espirituais e intelectuais. Alguns autores como: Abramovich, Coelho, Paolucci, dentre outros afirmam que é através deste contato com a Literatura Infantil contos de fadas que a criança terá como comunicar-se, ter acesso às informações, expressarse, defender pontos de vista e construir uma visão melhor de mundo. É através da contextualização dos contos de fadas que a criança vive um mundo de sonhos imaginários. Dessa forma esses contos vão contribuir cada vez mais para que a criança adquira conhecimento. Sendo, portanto, um dos caminhos para que ela descubra os mistérios da leitura e da escrita.

11 2. OBJETIVOS 2.1. Objetivo Geral Resgatar, através da contextualização, os contos de fadas, trabalhando-os para que os alunos possam construir e reconstruir os significados para cada conto de fada, oportunizando a construção do conhecimento, da própria identidade e do prazer pela leitura Objetivos Específicos Pesquisar e analisar as fontes de literatura existentes na escola; Pesquisar as fontes de literatura infantil: contos de fadas e alfabetização; Permitir as crianças situações imaginárias em diferentes contextos pedagógicos; Verificar o nível de fantasia e de imaginação das crianças.

12 3. OS CONTOS DE FADAS Para realização deste projeto com o enfoque no resgate dos contos de fada, faz-se necessário uma revisão na literatura existente. 3.1 Origem dos contos O conto nasceu através de relatos orais realizados pelo povo, sendo que esses contos existem desde que o ser humano desenvolveu a fala. Podese encontrar os contos nos mitos, lendas e também no folclore, que é incorporado nas narrativas com a mesma tradição. Segundo Darós (2005, p. 24) os contos de fadas surgiram de histórias da tradição oral. São histórias contadas e recontadas oralmente que fazem parte da cultura e que são depois registradas na forma escrita. Nas antigas civilizações, os contos de fadas constituíam uma forma de entretenimento para adultos e crianças. A princípio, os contos não eram especificadamente contados para crianças, visto que na sociedade antiga não havia a infância ou um espaço diferente do mundo adulto. Os contos eram narrados geralmente e mais particularmente por pessoas de classe baixa, de modo que neles se apresenta a condição social a que o camponês era submetido pelo senhor feudal. Para Paolucci (2004), determinados pesquisadores e escritores trabalharam para o surgimento dos contos de fadas, eles buscavam estes contos nas histórias do povo e até mesmo nas histórias que lhes eram contadas na infância. Dessa forma, o resgate dos contos é de suma importância na infância. Bencini (2005, p. 53), afirma que, algumas histórias tratam de temas que fazem parte da tradição de muitos povos e apresentam soluções para problemas universais. De acordo com Coelho (2000), o conto é condensado. Devido a isso, os contos são geralmente com poucas páginas, pois a caracterização do personagem e do espaço é breve, mas ele desenvolve-se através da efabulação (utilização do retrospecto, segue a seqüência normal dos fatos como o princípio, meio e o fim).

13 O conto revela-se na literatura infantil e popular de forma gradativa. Contos-de-fada mantêm uma estrutura fixa. Partem de um problema vinculado à realidade que desequilibra a tranqüilidade inicial. O desenvolvimento é uma busca de solução no plano da fantasia, com a introdução de elementos mágicos (fadas, bruxas, anões, duendes, gigantes, etc). A restauração da ordem acontece no desfecho da narrativa, quando há uma volta ao real (ibid, p. 36). Os contos de fadas mostram-nos a ligação do mistério, do sobrenatural, a realização dos sonhos, sem esquecer que os contos de fadas são de origens espirituais, existenciais, éticos. Por isso, resistem até hoje por lidar com as condições essenciais humanas. Limitado pela materialidade de seu corpo e do mundo em que vive, é natural que o homem tenha desejado sempre uma ajuda mágica. Entre ele e a possível realização de seus sonhos, aspirações, fantasias, imaginação. Sempre existiram mediadores (fadas, talismã, varinhas mágicas,...) e opositores (gigantes, bruxas, feiticeiros, seres maléficos (ibid p. 173). Quando se ouve a palavra fada, logo se pensa naquele ser mágico, nos seus poderes sobrenaturais, na beleza invejável, delicada, bondosa, que interfere na vida das pessoas para auxiliá-las quando necessitam, não apresentando o sentimento de egoísmo, maldades e caprichos. Esta figura maravilhosa vem do termo do latim fatum, que quer dizer destino. Aparecem geralmente em um contexto de claridade, noites do luar, regadas de bom gosto: as árvores são as mais belas e esverdeadas, os lagos sempre são os mais límpidos. Os contos de fadas são tão ricos que os psicanalistas servem-se deles para encontrarem interpretações do comportamento e dos anseios humanos. Assim, os contos representam, através de seus objetos, diferentes formas de compreender, explicar e representar elementos do mundo, que fazem parte do repertório sociocultural da humanidade. 3.2 Os contos de fadas: uma porta de comunicação para o mundo? Para Coelho (2000), os contos de fadas são uma das mais belas artes, sendo sua matéria a palavra, o pensamento, as idéias e as imagens, este tem um conteúdo que é capaz de gerar a curiosidade e o interesse da criança pelo

14 livro de leitura. Por isso, cabe ao professor auxiliar as crianças para que tenham consciência da leitura, possibilitando momentos de contação de histórias ou manuseio de livros, essas atividades contribuíram para despertar nas crianças o prazer pela leitura quando irá descobrir novos significados, de si mesmo e do mundo que a rodeia. É através do hábito da leitura que as crianças serão estimuladas a recorrer cada vez mais aos mais variados tipos de linguagens que as ajudarão a estar capacitadas para enfrentar a modernidade. Neste sentido, o hábito de ler vai muito além do prazer proporcionado, ele é fundamental no crescimento e organização das idéias do leitor. Desta forma, os contos de fadas contribuem de forma efetiva na construção da linguagem. Ler contos de fadas significa pensar, refletir, estar a favor ou contra, comentar, trocar opiniões, posicionar-se exercer cidadania. Para tanto, a arte da palavra é um jogo descompromissado. É fruto da imaginação criadora e livre. Necessidade vital e nela há uma essência eterna e substancialista (ibid, p.24) Segundo Cademartori (1987), quando se fala em contos de fadas, estáse delimitando o universo literário existente particularizando a questão da literatura em função da criança. As obras literárias destinadas às crianças devem apresentar características importantes para o espírito infantil, devem estar condizentes com a faixa etária a que se destinam. Entretanto, precisam ter o mesmo significado de obras de artes, a mesma valorização que é dada as produções destinadas aos adultos. Já Abramovich (1997) ressalta que o gosto pelos contos de fadas começa cedo, em casa, antes mesmo do processo da alfabetização. Até mesmo os menores que já freqüentam o maternal vão à biblioteca, ouvem histórias e depois recontam em casa ou em sala de aula. O mesmo autor mostra como as histórias ouvidas na infância e o contato com o livro apresentase como se fossem brinquedos para serem tocados e modificados. Nesta fase, quando as crianças ainda não têm conhecimento das letras, todo prazer vem do imaginário, elas que vêem e criam histórias para os livros de imagem. As crianças desde muito cedo aprendem e solicitam do

15 adulto que lhes conte histórias, esses são aspectos tão marcantes que permanecem por toda a vida, mesmo quando tornam-se adultas continuam a gostar de histórias como filmes, jornais, romances, novelas. Como é importante para formação de qualquer criança, ouvir muitas e muitas histórias. Escutá-las é o início da aprendizagem para um leitor, e ser leitor é ter um caminho absolutamente infinito de descoberta e de compreensão do mundo. O primeiro contato da criança com o texto é feito oralmente, através da voz da mãe, do pai ou de avós, contando contos de fadas, histórias inventadas (ABRAMOVICH, 1997, p.16). Abramovich (1997) ressalta ainda que, através da contação de história, as crianças descobrem palavras novas, entram em contato com a música e com a sonoridade das frases, dos nomes, capta-se o ritmo, a cadência do conto, o fluido como uma canção, se brinca com a melodia dos versos, como acerto das rimas, com jogo das palavras. Contar histórias é uma arte, é ela que equilibra o que é ouvido com o que é sentido, por isso não é remotamente declamação ou teatro, é o uso simples e harmônico da voz. Dessa forma, ouvir contos de fadas contribui para o desenvolvimento da criança, por este motivo, o professor, antes de ler o conto, deve preparar-se, pois este momento é importantíssimo para criança, o principal na hora de ler um conto de fada é saber despertar na criança a emoção. Quando a criança ouve ou lê contos de fadas, ela recria, comporta-se como um ficcionista, recria a sua realidade e reorganiza o seu próprio mundo. Tudo isso é o que lhe permite os contos, oferecem-lhe condições de criar seus mecanismos de defesa, enfrentar e superar seus problemas e reformular seu mundo afetivo. Segundo Rotta apud Bencini (2005, p. 53), através dos contos de fadas, o leitor é transportado para um mundo onde tudo é possível: tapetes voadores e galinhas põem ovos de ouro. Essa é a magia da fantasia. Os contos de fada são uma das vertentes do mito, caracterizado pelo tradicional era uma vez e pela sistemática do final feliz. Assim, não é difícil perceber a importância da literatura na vida da criança, especialmente nos contos de fadas.

16 3.3 O que os contos de fadas podem nos falar Os contos de fadas contribuem para o desenvolvimento cognitivo, crítico, criativo da criança. Em determinadas histórias, as crianças identificamse com os personagens, procuram um significado de acordo com a sua necessidade ou interesse. Os contos de fadas tratam de problemas humanos universais como a solidão e a necessidade de enfrentar a vida por si só, de maneira simbólica. Neste sentido, ajudam a criança no mais difícil em sua criação: dar um sentido à vida e a procurar a sua própria identidade (PAOLUCCI, 2004 p. 20). Para procurar sua própria identidade, a criança busca soluções nos contos de fadas, podem estes auxiliar na formação desta em relação a si e ao mundo que a rodeia. Segundo Bettelheim (1999, p.34), "os contos de fada [...] orientam a criança no sentido de descobrir a sua identidade e vocação e sugerem também quais as experiências necessárias para melhor desenvolver o seu caráter. Com os contos de fadas, as crianças satisfazem suas exigências, por isso, elas pedem várias vezes para contar determinados contos de fadas. Os contos de fadas, apesar de não serem reais, não são falsos também, eles representam e acompanham o crescimento e a formação do imaginário da criança. Os contos de fadas são importantes na medida que permitem com que a criança, através da associação livre, faça um processo de entendimento e superação dos conflitos internos. Isso só é possível quando todos os pensamentos mágicos da criança estão personificados num bom conto de fada, seus desejos destrutivos, numa bruxa malvada: seus medos, num lobo voraz; as exigências de sua consciência, num homem sábio encontrado numa aventura; suas raivas ciumentas, em algum animal que bica os seus olhos arquirivais, desta forma a criança começa a ordenar essas tendências contraditórias e alivia seus temores e suas angústias (BETTELHEIM apud PAOLUCCI, 2004, p. 21). Desta forma, pode-se perceber que os contos de fadas, geralmente mostram ao seu fim que é possível superar as ansiedades, inseguranças, o medo, a carência. Possibilita à criança que ela possa realizar suas fantasias e

17 emoções. As fantasias permitem que as crianças sintam as mais variadas emoções sem sentirem-se culpadas por este ou aquele sentimentos e desejos, reservados aos pais ou outras pessoas. De acordo com Darós (2005, p.26), atualmente, com os avanços da psicologia do desenvolvimento infantil, sabe-se que é preciso entender que a criança é também cheia de conflitos, medos, dúvidas e contradições. Entendendo-se que a literatura infantil, valendo-se do modo de contar histórias, é apropriado possibilitar à criança o desenvolvimento cognitivo, afetivo e social. Afinal, muitas vezes uma história poderá refletir no emocional momentâneo da criança: perdas e buscas; carências; medos; afetividade, e a principal de todas, a descoberta das dificuldades de ser criança (PAOLUCCI, 2004, p. 23). Os contos de fadas representam uma das formas de explicar os fenômenos da sociedade e da natureza, permitindo correlacionar as semelhanças e as diferenças. Usufruir-se do conto de fada é a possibilidade de uma aproximação das diversas forma de representação e explicação do mundo social e natural. Alguns contos de fada podem falar dos medos. Como exemplo, podese citar a história do Chapeuzinho Vermelho, onde sua mãe teme que a menina encontre o terrível lobo mau. Outro exemplo é a história dos Três Porquinhos, que mostra o medo quando o lobo vem e assopra as casinhas dos porquinhos. Segundo Abramovich (1997), existem medos variados, que podem aparecer no cotidiano de todos, como o medo do escuro, de cachorro, injeção, de ladrão, de dentista, assim, medos com os quais todos convivem, dum jeito ou de outro, numa intensidade ou noutra, que se aprende a enfrentar, a desviar, a superar, a substituir, com os quais se aprende a conviver ou a lidar. Os contos de fadas podem falar do amor. Abramovich (1997) cita o conto de Hans Christian Handersen, O soldadinho de chumbo, que conta a história de um soldadinho de brinquedo que se apaixona por uma linda bailarina também de brinquedo. Depois de ocorridos vários episódios com o soldadinho, ele acaba por ser jogado em uma lareira onde olha suavemente para a bailarina que, por um único passo, acaba por cair na lareira também. No dia seguinte quando a criada vai à lareira limpar as cinzas, ela vê uma bolinha de chumbo no formato de um coração. Além

18 deste, a autora cita em seu livro outros contos, como por exemplo: A pequena sereia (Hans Christian Handersen) e Um espinho de marfim (Marina Colasanti). A carência também pode ser encontrada em um conto de fada, sendo esta carência de comida, afetividade, de ser querido pela família, ter atenção, de ter agasalho, proteção, uma casa para aquecer-se do frio. Por exemplo, o conto A menina dos fósforos mostra a história de uma menina que vendia fósforos. Um dia ela estava com muito frio e fome e só possuía os fósforos para se aquecer. Acendeu-os um a um e acabou lembrando-se das coisas bonitas, boas, que lhe haviam acontecido. Por fim sentiu um abraço de sua avó que já era morta que veio levando-a para o céu próximo a Deus, lá não existia fome e nem frio. Existem alguns contos como: Peter Pan, A Cinderela e o Menino Pastor, dentre outros, que mostram a dificuldade de ser criança. No conto de fada do Peter Pan há uma passagem que diz: Há muitas crianças que não acreditam em fada. Quando um garoto ou uma garota diz: Eu não acredito em fada, morre uma fada. No conto o Patinho Feio, algumas crianças identificam-se com ele, sentem-se feias e rejeitadas por seus amigos, irmãos ou pelos próprios pais. Segundo Marandola (2005, p.15), por meio de estórias como O Patinho Feio a criança pode aprender a representar em desenhos, lugares conhecidos como a casa e a escola. Assim, as crianças ampliam e buscam o conhecimento de si e do mundo. São os contos que dão o suporte, embora na história fantástica, para que a criança entenda e perceba seu mundo e sua vivência. Para Abramovich (1997, p. 134), por tantos mais que falam da difícil, da árdua, da angustiante caminhada de quem se sente feio ou diferente, e é tratado assim pelos demais por não saber quem é, por se desconhecer.... Os contos de fadas falam também das perdas e das buscas da criança, dos esquecimentos, dos sentimentos de perdas de pessoas queridas, da sexualidade, de abandono, da carência, do crescimento, do sonho, da fantasia. Pode-se citar o conto A Bela Adormecida em que através de uma maldição ela fura seu dedo em um fuso e passa a dormir por cem anos. Todo o reino adormece junto com a moça. Um príncipe que morava na cidade ao lado, arma-se de coragem e vai até o castelo. Ao chegar lá, vê a princesa, ajoelhase, beija-a, o encantamento desfaz-se, e eles vivem felizes para sempre.

19 (...) é só estarmos atentos ao nosso processo pessoal, às nossas relações com os outros e com o mundo, à nossa memória e aos nossos projetos, para compreender que a fantasia é uma forma de ler, de perceber, de detalhar, de raciocinar, de sentir. O quanto à realidade é um impulsionador (e dos bons!) para desencadear nossas fantasias (ABRAMOVICH, 1997, p.138). Com os contos de fadas, as crianças contextualizam diferentes realidades, realidades que essas crianças desejarão acreditar conforme a sua necessidade emocional. 3.4 A necessidade de os professores resgatarem os contos de fadas A importância do resgate dos contos de fadas vai além do prazer proporcionado, ele estimula a linguagem oral da criança, deixando-a expressarse de forma mais clara e objetiva, desenvolvendo suas potencialidades. Segundo Bettelheim apud Darós (2005, p. 25), os contos de fada são a cartilha onde a criança aprende a ler sua mente na linguagem das imagens". Neste sentido, contos de fadas são um excelente recurso para o desenvolvimento cognitivo, intelectual, emocional e da linguagem, pois constitui um instrumento de comunicação da criança para consigo mesma, por isso os contos de fadas devem ser indispensáveis no cotidiano da criança. Para Paolucci (2004, p. 21), os contos de fadas contribuem fazendo a ligação entre a fantasia da criança e a elaboração dos conceitos necessários para o seu desenvolvimento sadio. Por este motivo, os contos não deveriam restringir-se apenas às crianças da Educação Infantil e Séries Iniciais. Os contos de fadas deveriam ser lidos e trabalhados com os adolescentes também. Segundo Silva apud Bencini (2005, p. 55), eles se emocionam e contam fatos significativos vividos em família e proporcionados pela leitura. É um estímulo para os estudos de literatura. A autora acima comenta que: os adolescentes traçam um paralelo com os políticos atuais e com as cobranças dos padrões sociais. Afirma que

20 na adolescência este tipo de leitura contribui para formação de alunos leitores e críticos. Todos os professores devem proporcionar em suas aulas momentos de contar alguns contos de fadas para seus alunos. Com estes, as crianças e/ou adolescentes aprendem a reconhecer em si mesmos, pensamentos e sentimentos, ajudando-os na sua relação com o outro, com este auxílio eles cresce e amadurece. Essa proposta poderia e deveria ser um trabalho sistematizado e permanente, e as pessoas incumbidas de realizá-lo (professores, orientadores e psicólogos) precisam ter, elas mesmas, um desenvolvimento pessoal e uma intimidade com seus próprios inciscientes, para poderem favorecer (ou, pelo menos, não atrapalhar) o encontro das crianças com seu mundo interno (VIEIRA, 2005, p.9). Por isso, contar histórias deve ser uma atividade constante em sala de aula; jamais deverá restringir-se a uma parte do livro didático. Contar histórias é um ato de amor, um momento de intimidade entre o adulto e a criança, e por isso, pode ajudar o relacionamento professor-aluno. Elas contribuem decisivamente para despertar o gosto literário, para facilitar a aquisição da leitura e escrita mais rápida, prazerosa, com mais globalização, para produção textual mais elaborada com vocabulário enriquecido. É através de uma história que se pode descobrir outro lugar, outros tempos, outros jeitos de agir, outra ética, outra ótica. É ficar sabendo História, Geografia, Filosofia, Sociologia, Política, sem precisar saber o nome disso tudo e muito menos achar que tem cara de aula. Porque, se tiver, deixa de ser literatura, deixa de ser prazer (ABRAMOVICH, 1994, p.16). Segundo o Referencial Curricular Nacional, para Educação Infantil (1998), o professor deve organizar e promover às crianças a participação, familiarização e o interesse pela leitura de histórias de maneira que elas próprias ampliem, reconheçam, escolham, leiam. O trabalho com a linguagem oral é muito importante para a formação do sujeito, para sua interação, orientação com outras crianças e na construção do desenvolvimento lógico.

21 Assim, o professor deve aprender a ouvir o que a criança tem para dizer e criar situações para que ela sinta-se encorajada a pensar e a tomar decisões, descobrindo coisas e construindo seu próprio conhecimento. Pois, a função social do professor vai além de cuidar e educar, mas buscar o equilíbrio da função criativa e da realidade, para tanto não é preciso sacrificar a imaginação, pelo contrário, através da imaginação, da fantasia é que chegamos ao verdadeiro pensamento lógico. Utilizar os contos de fadas como atividades lúdicas e educativas ajudará a criança a: Valorizar a leitura dos contos de fada, como fonte de prazer; Relatar suas vivências (muitas vezes poderá identificar-se com o personagem da história); Relacionar as associações do seu cotidiano com a história; Apropriar-se de uma linguagem mais formal, enriquecer seu vocabulário; Promover o gosto artístico; Desenvolver a criatividade; Desenvolver o hábito de atenção e de escutar o que está sendo lido; Desenvolver a capacidade de interpretar uma história; Desenvolver o intelecto; Desenvolver o lado crítico. Pois, o jogo de faz-de-conta permite a criança tornar-se aquilo que ainda não é agir com os objetos que ainda lhe são proibido ultrapassar os limites dos dados reais, incorporando-os a sua cultura. Os contos de fadas indicam para a criança o faz-de-conta. Vygotsky (1995) aponta que com o faz-de-conta a criança aproxima-se cada vez mais do real. o correto conhecimento da realidade não é possível sem um certo elemento de imaginação, sem o distanciamento da realidade (p.127)

22 4. O MUNDO ENCANTADO E OS CONTOS DE FADAS Para Abramovich (1994), algumas histórias são tão fabulosas que sobreviveram por milênios, como acontece com os contos de fadas. Eles aprofundam o relacionamento entre a criança e o mundo, espelham uma existência mais poética e ampliam o significado da própria vida. Os contos de fadas são histórias marcadas por característica básicas que as diferenciam e não se modificam com o tempo e que, por isso, deixamnos em lugar de destaque na vida infantil. Para enriquecer sua vida, os contos de fada devem estimular a imaginação da criança: ajudá-la a desenvolver seu intelecto e a tornar clara sua emoção, a estar harmonizada com suas ansiedades e aspirações. O mundo mágico das histórias infantis, com personagens heróicos e cheios de cenários encantados, oportuniza à criança momentos de diversão, entretenimento, distração, apreciação dos valores estéticos, o desenvolvimento do senso crítico, ampliação de conhecimento e horizontes, pois desencadeiam a fantasia, o sonho e a imaginação. O trabalho com os contos transforma tanto a criança quanto o adulto, sem fechar as fronteiras entre a vida intelectual e afetiva, entre a brincadeira e o desafio Por que os contos de fadas foram deixados de lado? Os contos de fadas são considerados por muitos pais e professores falsos, selvagens e não pertencentes a uma realidade, eles acreditam que os contos de fadas deixam as crianças fora do mundo real, pois os problemas que são apresentados resolvem-se de forma mágica e irreal, deixando as crianças mentirosas, que "sempre" irão camuflar a verdade. Aqueles que combatem os contos de fadas supõem que a violência das situações que neles se apresentam habitualmente, a personificação do bem e do mal em determinadas personagens, as soluções mágicas para os problemas mais complexos e toda a tensão emocional provocada pela narrativa desses contos vão proporcionar as crianças uma visão muito negativa da realidade, um contato desnecessário com o "lado negro" do homem, talvez até uma mobilização para as pequenas e as grandes maldades que podem ser feitas com outras pessoas (VIEIRA, 2005, p.8).

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