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1 70 INFORMARE - Cadernos do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação ARTIGO PUBLICAÇÕES CIENTÍFICAS: DA GALÁXIA DE GUTEMBERG À ALDEIA TELEMÁTICA Arlindo Machado Professor, USP / ECA Resumo O recente surgimentodealternativasdedifusão d()pe.n~axnei1tocientíficoatravés de redes telemáticas está fotçando a comunidade acadêmica a recolocar em. discussão o sentido mesmo dasp»blicações científicas. Avaliándoo~ pró~e contrasdasduas modalidades pode':'seconciuirqueas pes imp prohlemasrel. s.custoselevados das assinaturas;. à mo excessiva doproeesso de produção e à ausência de recursos. de comunicação ou de debate de idéias. Já as alternativas 'casenfrentam problemas rrentesdaconfiahilidadeda informação. docontroledequalidade pel...a falta de políticas específicas de catalogação e arquivamento da produção. Umavez que onovo paradigma deeditoraçãoparececonsutuir hoje uma realidadeirreversível nos ambientesdentíficoe tecnológico, restas~berse.. os dois modelos poderão coexistir; se aprofundarão SUas diferenças ouseum terminará por absorver o outro.. Palavras-ehave Revista E1etrônica - Pré-Publicação Avaliação dos Pares Redes Telemáticas Arquivamento Eletrônico Oterna das publicações científicas voltou à baila ultimamente e está provocando uma ruidosa polêrnica, tanto dentro como fora do ambiente acadêmico. A razão desse súbito interesse é o recente aparecimento de um grande número de publicações que convencionamos chamar de "eletrônicas" e que substituem o ("procedimento tradicional da impressão em papel por uma gama bastante variada de novas modalidades de editoração e difusão (disquetes, CD-ROMs, redes telemáticas, etc.). O diretório de publicações eletrônicas da Association of Researches Libraries (gopher://arl.cni.org:70/00iscornrnjedir/edir951) arrola 675 revistas cientí- INFORMARE - Cad. Prog. Pós-Grado Cio lof., Rio de Janeiro, v.2, n. 1, p. 7D-8D,jan.ljun. 1996

2 Publicações científicas: da galáxia de Gutemberg à aldeia telemática 71 ficas funcionando nonualmente na Internet, em Desse total, alguns títulos são simples boletins de associações de pesquisadores, mas outros sãopublicações acadêmicas no sentido mais restrito do termo, ou seja, revistas arbitradas e dotadas de corpo editorial composto porexpertos na área, com conteúdos incluídos em índices e serviços de resumos (abstracting services). Além disso, o mesmo diretório aponta a existência, na Internet, de cerca de grupos de discussão especificamente acadêmicos. A irrupção desse novo modelo de editoração, seja qual for o seu destino, está forçando a comunidade científica a recolocar em discussão o sentido mesmo das publicações especializadas, seu verdadeiro papel no interior da pesquisa científica e tecnológica e seu poder de definir mérito e valor nos universos do saber e da invenção. Calcula-se que, hoje, uma universidade razoavelmente atualizada, em qualquer parte do planeta, deve assinar entre e revistas estritamente acadêmicas, se pretende dialogarcomo mundo científico emigualdade de condições. Isso pressupõe um gigantesco mercado editorial, erigido ao redor das instituições de pesquisa, com propósitos evidentemente mais amplos que os puramente acadêmicos. Só nos EUA, onde existem estatísticas confiáveis, esse mercado movimenta uma quantia de cerca de dois bilhões de dólares por ano. (LESLIE, J p. 68) Verdadeiros impérios foram construídos em tomo da demanda informacional nos âmbitos científico e tecnológico, destacando-se megaeditoras como a.. Mouton Publishers, a The MIT Press e a Oxford University Press, responsáveis, cada uma delas, por mais de uma centena de periódicos, além de um (,catálogo de livros que chega a ultrapassar o milhar. [orlo pesquisador sabe quais são as revistas de maior stígio e penetração em sua área de especialidade. abe também que não pode se dar ao luxo de ignorar debates que acontecem nesses veículos e muito vavelmente vai envidaresforçosparadivulgarsuas prias pesquisas nesses espaços. Mais que isso, a aliação de mérito, produtividade e qualidade da squisa é nonualmente realizada, nas universidades agências governamentais, com base na freqüência m que cada pesquisador costuma aparecer nessas licações, através de escritos de seu próprio punho, de citações de seus escritos por colegas. Ora, o que fez a publicação eletrônica foi intro. uma grande confusão nesse universo estável e ônico, legitimado por várias gerações de inegá- veis talentos e institucionalmente aceito como inquestionável. O problema é que a publicação eletrônica não é apenas uma forma diferente de apresentação e distribuição do mesmo material que poderia estar circulando na forma impressa. Uma forma diferente acaba introduzindo também valores novos, que antes não eram considerados ou percebidos e que saltam ao primeiro plano, na mesma medida em que exigem a reavaliação de modelos mais antigos. Eis porque a publicação eletrônica, tímida e modestamente num primeiro momento, vem conturbar a estabilidade das formas anteriores de publicação e recolocar o papel da divulgação, do debate de idéias e da avaliação de mérito, no interior da pesquisa real. A publicação impressa nos moldes tradicionais e consagrados tem um calcanhar-de-aquiles, que é a distância, o gap, o abismo existente entre a redação de um artigo e sua publicação. Essa distância vem crescendo exponencialmente, ao mesmo tempo em que os progressos e as guinadas no pensamento científico se dão de forma cada vez mais rápida. Atualmente, um artigo científico, destinado a uma revista de prestígio internacional, sofre umatraso de cerca de três anos, até chegar ao leitor. Sabemos que, depois de redigir seu texto, o(s) autor(es) deve(m) submetê-lo, emprimeiro lugar, a um editor, e depois, a um corpo editorial, que podem levar de alguns meses a um ano para chegar à decisão final. Caso seja selecionado para publicação, o artigo em questão será colocado numa fila e deverá aguardar, dependendo do caso, de alguns meses a alguns anos para tomar forma impressa. Em muitas áreas, esse atraso pode ser fatal. O artigo pode estar tratando de temas que jáforam absolutamente superados, de hipóteses já confirmadas ou derrubadas, de invenções e procedimentos que já se vulgarizaram ou que sabidamente não vingaram. Nos ritmos atuais do pensamento científico e tecnológico, três anos representam uma eternidade, e não há invenção ou descoberta que possapermanecerinéditatodo esse tempo. O problema se apresenta ainda mais grave quando sabemos que, na maioria das revistas especializadas, um artigo aprovado para publicação não pode mais ser modificado, a menos que seja submetido novamente ao corpo editorial, caso em que seu prazo de publicação deverá ser, muito provavelmente, postergado. Há muitas hipóteses para explicar esse gap da publicação impressa. Os editores culpam o corpo editorial pela demora na avaliação dos textos submetidos àapreciação. De fato, os membros desses conselhos consultivos não são pagos pelo seu trabalho e o INFORMARE - Cad. Prog. Pós-Grado Ci. lnf., Rio de Janeiro, v.2, n. 1, p ,jan.ljun. 1996

3 72 Publicações científicas: da galáxia de Gutemberg à aldeia telemática fazem geralmente nas horas vagas, uma vez que têm suas próprias obrigações e pesquisas acadêmicas. Ademais, os trabalhos de correção, revisão, diagramação, impressão e encadernação também são relevantes para a contagem de tempo. Ao longo de seus três séculos de história, as publicações científicas construíram uma reputação de qualidade, que se baseou principalmente no esforço dos editores para tornar claras, inteligíveis e bem apresentadas as idéias does) pesquisador(es). Isso sempre implicou um vai-evem interminável do texto, que transita do editor ao(s) autor(es) e deste(s) novamente ao editor, até o arredondamento completo da escritura. Mas o problema intransponível da publicação impressa tem sido mesmo a limitação física do próprio volume. Como a impressão é cara, a revista tem sempre um limite rigoroso de espaço. Desse fato derivam duas conseqüências: primeiro, os autores são constrangidos a adequar seus artigos a um número cada vez menor de páginas. Além disso, como a quantidade de artigos selecionados, em geral, é maior que a capacidade física da revista, parte do material considerado em condições de publicação deve ser transferido para o número seguinte. Disso resulta uma incômoda fila, que tende a crescer de forma implacável. Aí reside o principal argumento para os defensores da publicação eletrônica. Nesta modalidade, um artigo pode estardisponível no instante mesmo emque acabou de ser redigido ou, emcertos casos, até mesmo enquanto está sendo escrito. Ele pode também ser acessado imediatamente, a qualquer hora do dia ou da noite, bem como transferido para o computador do interessado e impresso em papel, mal o artigo tenha sido "disponibilizado" na rede. Não é difícil que o(s) autor(es) receba(m) um primeiro comentário de um colega situado do outro lado do planeta, antes mesmo de desligareem) seu computador. Alémdisso, considerando a capacidade dos atuais dispositivos de armazenamento digital (e a queda de seu preço), os textos praticamente não sofrem mais limitações de espaço. Enquanto um artigo impresso hoje só consegue apresentar as conclusões de uma pesquisa, um artigo eletrônico pode mostrar todos os dados em que se baseia, além de apresentar listas numéricas exaustivas e gráficos da mais variada espécie. Isso permite que outros pesquisadores, de posse desses dados, sejamcapazes de continuaro trabalho no pontoemque este parou, sem precisar repetir todos os seus passos. ( Em outras palavras, o artigo previsto para veiculação na forma eletrônica pode ser exibido com farta documentação, ficando imediatamente disponível na rede, tão logo sua aprovação seja decidida, não importa quantos outros trabalhos estejam, ao mesmo tempo, sendo aprovados. Se o gap entre a redação e o oferecimento ao leitor é a marca mais notória das publicações impressas, como então pôde progredir o pensamento científico, sobretudo quando o acesso à Internetainda não se tinha generalizado? Isso só foi possível através de modalidades de divulgação e debate que podemos caracterizar como improvisadas e informais, como pré-edição, distribuição de fotocópias dos artigos a colegas, correspondência pessoal, constituição de associações de pesquisadores por áreas do saber ou por regiões geográficas, e assim por diante. Para designar essa modalidade de difusão não-oficial, os ingleses criaram, no século XVII, o estimulante conceito de invisible college, baseado na experiência de umgrupo de acadêmicos que se reunia regularmente em Oxford para trocar experiências, e depois se mantinha em contato permanente através de cartas. (CRANE, D. 1972) A principal forma de difusão, no entanto, tem sido mesmo os eventos científicos (congressos e similares), onde os cientistas podem ter uma idéia do "estado da arte" em sua área de investigação, conhecer as pesquisas e resultados obtidos por seus colegas e o que é mais importante - estabelecer contatos que serão mantidos por correspondência. As vantagens dessas formas de circulação do pensamento científico são, evidentemente, a rapidez, a atualidade e a comunicação em tempo real. Mesmo antes da generalização da Internet, a comunidade científicajá havia aprendido a se organizar em redes de contatos, através das quais pesquisadores de diferentes centros de pesquisa trocavam seus papers e os resultados de seus trabalhos, além das vias mais tradicionais, como a carta, o telefone, o fax e o contato tête-à-tête. Aliás, a World Wide Web, ala avançada dainternet, nasceu justamente dessa necessidade de se criar meios cada vez mais eficazes e velozes para viabilizar o intercâmbio de idéias, condição sine qua non do avanço científico. A verdade é que, dada a complexidade cada vez maior do conhecimento e a velocidade com que ele se transforma, é praticamente impossível a sobrevivência do pesquisador isolado ou não-conectado, daquele que depende unicamente das publicações impressas (livros e revistas) para se manter em dia com o que ocorre emsua área de especialidade. Essa situação não é certamente das mais confortáveis, podendo mesmo chegar a ser cruel para os novatos e para aqueles que INFORMARE - Cad. Prog. Pós-Grado Cio Inf., Rio de Janeiro, v.2, n. 1, p ,jan.ljun. 1996

4 Publicações cientificas: da galáxia de Gutemberg à aldeia telemática 73 não têm condições de freqüentar eventos científicos ou que trabalham em instituições ainda pouco informatizadas. Enquanto isso, tal situação privilegia os pesquisadores queestão mais próximos porlaços de amizade, que possuem conexão com a Internet ou cujos nomes constam nas malas diretas de instituições que desenvolvempesquisas de ponta. Mas é assim que o mundo científico tende a se organizar daqui para a frente, com a Internet a ocupar uma posição chave nesse concerto de coisas. Em todo caso, estas são as respostas que a comunidade de pesquisadores dá ao gap das publicações impressas, ou seja, à incapacidade do mercado editorial de intervir com agilidade e urgência na atual produção de pesquisas. Hoje, o cientistatemde decidir sobre o rumo de suas pesquisas e, muitas vezes, precisa cortar caminho para evitar dispêndio inútil de energiaem áreas jásuficientemente exploradas, mas não pode esperar três anos para saber o que fazem e pensam seus colegas. Graças às facilidades da informática e à informalidade do invisible college, um pesquisador 'pode, hoje, tomar-se seu próprio editor, tornando disponíveis seus artigos através de FTP anónimo ou vés de uma página pessoal na World Wide Web. alquer pesquisador, no mundo inteiro, a qualquer ou hora, pode acessar esses artigos (depois de têlocalizado através de ferramentas de busca por nto ou palavra-chave, como o Archie ou o WAIS) sferí-los para seu computador, imprimí-los em lou simplesmente lê-los na tela. Os textos não isam estar restritos à informação verbal: podem acrescentados gráficos tridimensionais, simulaanimadas, trechos de vídeos e sons e outras, de modo a ultrapassar longinquamente as. ões do papel. Uma equação pode ser automatinte resolvida e visualizada emforma de gráficos. 'cados links de hipertexto podem trazer para de um texto outros textos nele referidos. Stevan (1995) chama esse processo.de preprint m (fluxo contínuo de pré-edições) e consideo mais importante meio de difusão do pensacientífico hoje. Coma expansão desse sistema dose de crença em utopias, pode-se supor que, co tempo, a Internet e a WWW vão se tomar igantesca biblioteca global, onde se pode 'sarrápida e exaustivamente qualquer assunr a visão mais atualizada possível do estágio uisas em determinada área, e recolher insente, de casa ou do escritório, os artigos os. Isso é apenas parte da discussão. Outro aspecto importante são os custos de cada alternativa. Hamad, baseado em sua experiência de editar na Inglaterra duas revistas científicas, uma impressa nos moldes tradicionais - Behavioral & Brain Sciences - e outra puramente eletrónica - Psycoloquy - garante que a economia proporcionada pela mídia eletrónica situase entre 70 e 90%. Outro defensor da alternativa eletrónica, o físico Paul Ginsparg (1996), assegura que, levando-se em conta os custos atuais de armazenamento digital, a disponibilidade de artigos científicos na rede, mesmo com gráficos e ilustrações, não custa mais que dois centavos de dólar por artigo. Os mais críticos,como por exemplo Fucks,(1996. p ) contra-argumentam, dizendo que Hamad e Ginsparg não incluem nos custos o próprio equipamento informático (computadores), o software utilizado para distribuir informação através da rede, a infra-estrutura de telecomunicações (redes de fibra óptica), os salários do pessoal especializado para manter esses sistemas funcionando e tampouco os gastos comtreinamento do pessoal de suporte. Mas os defensores da publicação eletrónica argumentam que tudo estaria funcionando, independentemente da adoção ou não pelas universidades de alternativas de difusão eletrónica, que simplesmente tiram proveito de uma base informática e telemática já instalada. Ademais, mesmo que todos os custos fossem computados, as vantagens económicas da publicação eletrônica sobre a impressa seriam inquestionáveis. Sabe-se que, devido em parte a tiragens limitadas, as assinaturas de revistas impressas têm preço elevadíssimo, algumas chegando a custar até dez mil dólares por ano. Poucas bibliotecas no mundo estão conseguindo manter as assinaturas de milhares de revistas que mapeiam a situação atual do pensamento científico, sobretudo porque os preços aumentam a cada ano. Vale considerar que as bibliotecas devem arcar ainda com um custo extra: a crescente demanda de mais e mais espaço físico para armazenamento dos volumes. Do lado da publicação e1etrônica, o que acontece? Embora não saibamos até quando, quase tudo o que se pode obter na Internet é absolutamente gratuito, principalmente em termos de informação acadêmica. E não há nada de espantoso nisso. Na verdade, a Informática permite resolver um paradoxo dapublicação impressa. Nestaúltima, o autor(es) nada recebe(m) (em alguns casos têm até de pagar) pelo artigo que publica(m). Tampouco recebem pagamento o corpo editorial e a universidade que financia as INFORMARE - Cad. Prog. Pós-Grado Cio Inf., Rio de Janeiro, v.2, n. 1, p , jan.ljun. 1996

5 74 Publicações científicas: da galáxia de Gutemberg à aldeia telemática pesquisas ou paga os salários dos pesquisadores. No entanto, para ter acesso à massa de informações que eles próprios produzem, a universidade e os pesquisadores têm de pagar (e muito caro), sob a forma de assinaturas de revistas. E mais: para que o autor(es) possa(m) gozar do privilégio da publicação, a maioria das revistas impressas exige, em troca, a cessão ao editor dos direitos autorais do artigo (copyright), o que, no fim das contas, significa que pesquisadores e universidades perdem até o direito de usufruir do resultado de seus investimentos. Portanto, não é de se estranhar que, de repente, essa mediação incômoda da casapublicadora(pelo menos do ponto de vistaeconômico), seja colocada em questão, e se experimentem alternativas mais diretas de gerenciamento da difusão científica pela própria comunidade acadêmica. Quanto ao problema do espaço, um exemplo pode ser mais eloqüente que mil palavras. Segundo Andrew Odlyzko (1995. p ), tudo o que se publica no mundo, anualmente, naárea de matemática (cerca de artigos), cabe tranqüilamente num disco rígido de 2,5 gigabytes, custando menos que a assinaturadeumaúnicarevistaimpressa. Ele vai ainda adiante: no máximo em uma década, poderemos ter discos rígidos com capacidade de gigabytes. Seria, pois, teoricamente possível colocar todo o conhecimento matemático acumulado ao longo dos séculos dentro de um único microcomputador pessoal. Pergunta ele, então: quem precisaria de bibliotecas? Qual seria, portanto, a função da publicação impressa hoje, se ela não tem mais o poder de intervir sobre os reais debates do mundo científico, se chega sempre atrasada - propondo discussões superadas e sofrendo limitações de toda espécie - a um preço proibitivo? Esta é uma boa questão. Cedo ou tarde, quando todos os artigos publicados pelos periódicos especializados forem obtidos emumsimplesdownload no computador, as inteligências envolvidas em sua produção vão ter de se manifestar sobre as razões profundas para a continuidade ou não dessas publicações. De fato, o periódico científico impresso segundo normas rigorosas continua sendo o indicador mais universalmente aceito para a aferição da produtividade do pesquisador e da real importância de sua intervenção no universo da ciência. Não se conhece outro instrumento mais eficiente paracumpriressafunção. Éassimque a excelênciados cenp-os de pesquisa é avaliada e que instituições universitárias e órgãos sérios de apoio à pesquisa selecionam e mantêm seus quadros de pesquisadores ou de bolsistas. Entretanto, Paul Ginsparg (1996) vislumbra o surgimento de mecanismos de avaliação mais coerentes com a realidade atual e não mais baseados no volume de trabalhos publicados. Outrossim, a publicação impressa cumpre também a função de documentar a produção acadêmica e datá-la, de modo a constituir uma espécie de memória dos momentos mais importantes de determinado campo do saber. Em geral, é combase nadocumentação das revistas que se pode avaliar o pioneirismo de uma pesquisa ou precisaro momento emque umaquestão foi formulada pela primeira vez. As revistas são, nesse sentido, uma importante fonte de consulta, quando se quer historiar a evolução de um problema em ciência ou em tecnologia. Ademais, não se pode esquecer que o artigo impresso tem valor legal, por exemplo, na resolução de casos de plágio. Uma das fortes razões que movem o(s) autor(es) para o periódico impresso é a necessidade de documentar a pesquisa, como forma de se resguardarcontrapossíveis casos de roubo intelectual. São estes,justamente, os pontos que dão à publicação impressa alguma vantagem sobre a eletrônica. Sabemos que, portradição, uma pesquisa científica só pode ser considerada séria depois de passar por um rigoroso mecanismo de gatekeeping, que culmina com o veredicto dapeer review, ou seja, da avaliação pelos pares. Apresentarum texto parauma publicação científica significa, na verdade, submetê-lo ao crivo dos especialistas que formam o corpo editorial da revista e que determinarão se o texto é publicável, ou seja, se ele tem ou não valor científico. Muitas instituições costumam, inclusive, medir a qualidade de uma revista por sua taxa de rejeição: revistas de prestígio teriamumataxa de rejeição de cercade 90%, enquanto em outras, pouco importantes, essa taxa seria bem menor (entre essas, estão as que aceitam os artigos rejeitados pelas primeiras). Na verdade, a revista acadêmica arbitrada praticamente dá legitimidade (às vezes até mesmo existência legal e institucional) a uma área de pesquisa, a um campo de conhecimento. Em geral, considera-se que, sem procedimentos formais rigorosos, a ciência pode submergir num "pântano" de resultados duvidosos, que resultarão fatais à credibilidade do próprio mundo científico. Esse "pântano" é a imagem dos grupos de discussão que atualmente superlotam a Internet. Como esses grupos são geralmente livres, qualquer um pode neles se inscrevere emitiropiniões sobre tudo. Nicholas Negroponte r INFORMARE - Cad. Prog. Pós-Grado Cio Inf., Rio de Janeiro, v.2, n. 1, p , jan.ljun. 1996

6 Publicações científicas: da galáxia de Gutemberg à aldeia telemática 75 1 e a s (1994. p. 144) observou, por exemplo, que muitos acadêmicos americanos não se dão conta de que seus interlocutores, do outro lado da Rede - com quem travamdebates apaixonados sobre os rumos da cultura científica neste final de século - são muitas vezes garotos dos primeiros anos de faculdade. Malgrado a situação atual da Internet nos dar uma impressão geral de liberdade, democracia e ausência de autoridade, a pergunta que muitos cientistas se fazem é se a ciência tem condições de avançar com segurança sem mecanismos confiáveis de avaliação, seleção e controle. Essa é uma questão complicada. Jean-Claude Guedon (1994) nos recorda, por exemplo, que boa parte do prestígio e legitimidade de que goza a publicação impressa deriva da "internalização" coletiva de modelos de autoridade e de monumentalização a que aforma impressa do saberesteve historicamente associada. Publicar é um ato de consagração social, enquanto o arquivamento de um texto na biblioteca representa sua legitimação como parte de um cânone. A publicação científica, naturalmente, herda esses pressupostos e com eles opera. Mas as grandes questões que restam intocadas são, de um lado, a autoridade do editor (seu poderde selarum texto coma rubrica de aprovação ou condenação definitivaao limbo) e, de outro lado, o filtro determinado pelapeer review. Não podemos nos esquecer que dois dos mais decisivos nomes na construção do pensamento crítico contemporâneo - Walter Benjamin e Mikhail Bakhtin - tiveram suas teses de doutoramento reprovadas, justamente pela avaliação dos pares. Um dos nomes mais importantes na construção da ciência do caos, o físico Mitchell Feigenbaum, teve seus artigos recusados pela maioria das revistas científicas, que os consideraram exóticos e pouco rigorosos. "A essência da teoria [de Feigenbaum] foi divulgada da maneira pela qual a maior parte da ciênciaéhoje transmitida-através de conferências e pré-publicações." (GLEICK, J p. 177) Processos de julgamento podem não ser apenas científicos e sim visar a conservação de uma competência intelectualjá estabelecida, através da promoção de adeptos e o enterramento de rivais ou subversores. Cientistas - é desnecessário dizer - são também seres humanos, sujeitos a crises de inveja, rancor e medo de mudanças. Mas, cuidado! Isso não quer dizerque a pesquisa científica esteja melhor sem julgamento. Se a peer review tem seus problemas, a ausência dela certamen- te teria sido catastrófica para o desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Os próprios envolvidos na publicação eletrônica, depois de se terem aberto a experiências de total liberdade, hoje se perguntam se algum tipo de filtragem não seria necessário para enxugara rede de tanto lixo acumulado e pararesguardar a comunidade científica da ação de aventureiros. Embora algumas publicações eletrônicas já adotem o modelo restrito das impressas (centralização em um editor, peer review, indexação em órgão dotado de credibilidade), a grande discussão, hoje, no universo telemático é como conservar no meio eletrônico a mesma qualidade das publicações impressas, sem reproduzir suas restrições. Em outras palavras, há um sentimento geral de que o meio eletrônico, em razão mesmo de suas diferenças e potencialidades, deve inovar no controle de qualidade da matéria científica. Para isso, deve buscar seus próprios instrumentos de legitimação, ter critérios de seleção mais flexíveis, que permitam fazer florescer o debate e a divergência, ao invés de simplesmente importarmodelos incompatíveis com sua forma de funcionamento. A rigor, se não levarmos emconsideração o puro e simples transporte do modelo impresso para o ciberespaço, duas alternativas diferenciadas estão sendo hoje concretamente experimentadas. A primeira considera que a publicação eletrônica é uma forma privilegiada, universal e democrática de pré-edição (preprint), além de ambiente para conferências mediadas poraparelhos. Nessa acepção, as revistas impressas continuariam existindo e cumprindo seus papéis básicos de consagração, atribuição de mérito e arquivamento, enquanto as publicações eletrônicas ficariam livres dessas funções para se tornarem o mais eficiente veículo de comunicação e troca de experiências entre cientistas. Nos ambientes emquepredomina esta acepção, não há filtragem do material exposto, ou melhor, a filtragem é feita na prática, através dos comentários, críticas e revisões que os próprios pesquisadores fazem dos trabalhos dos outros. Na verdade, trata-se apenas de dar um tratamento informatizado a uma dinâmica de trabalho que já é própria do ambiente científico. O grande exemplo, certamente, é o gigantesco arquivo de pré-publicações concernentes à área da Físicadas partículas de alta energia, montado porpaul Ginsparg no Los Alamos National Laboratory, nos E.U.A. (http://xxx.lanl.gov/). Segundo estatísticas de fevereiro de 1996, o arquivo processa uma média de acessos pordia, e é visitado por pesquir INFORMARE - Cad. Prog. Pós-Grado Cio Inf., Rio de Janeiro, v.2, n. 1, p ,jan.ljun. 1996

7 76 Publicações científicas: da galáxia de Gutemberg à aldeia telemática sadores e/ou outros tantos não-pesquisadores, de 70 países. (GINSPARG, P. 1996) Nesse arquivo, está depositada, indexada (por assunto, autor e resumo) e disponível para acesso gratuito uma infinidade de artigos sobre partículas de alta energia (quase tudo o que se publica no mundo sobre o assunto). Além disso, recebendo uma média de 350 novos artigos por semana, esse arquivo serve também de veículo para o(s) físico(s) dar(em) visibilidade e difundir(em) seus próprios papers. O sistema não prevê qualquer filtragem do material recebido. Tanto a submissão de artigos como sua classificação e indexação são feitas automaticamente porprogramas específicos, a partirde informações prestadas pelo(s) próprio(s) autor(es). O projeto começou informalmente em 1991, como uma simples lista de distribuição de pré-publicações entre os colegas de Ginsparg, mas logo foi descoberto por físicos do mundo inteiro, que nele reconheceram um lugar onde ocorriam discussões essenciais. O resultado foi um crescimento repentino e uma progressiva ampliação do leque de problemas referidos, a ponto de hoje ele já abarcar praticamente todo o universo da Física. O segundo exemplo está em Psycoloquy (http:/ /cogsci.ecs.soton.ac.uk/ -harnadlpsyc.htrnl), revista eletrônica gratuita, dirigida por Stevan Harnad e dedicada ao estudo das ciências cognitivas. Ao contrário do modelo totalmente aberto de Los Alamos, Psycoloquy tem um corpo editorial integrado por vários especialistas em áreas tão diversas como Psicologia, Neurociências, Filosofia, Lingüística, Computação, etc., estabelecidos emdiferentes partes do mundo e ligados entre si através de correio eletrônico. Todas as propostas de artigos são submetidas a esses especialistas. Mas a função básica do corpo editorial não é exatamente selecionar aquilo que apresenta validade, mas encetar uma discussão comos trabalhos que lhe parecem mais estimulantes para um debate. Quando um trabalho suscita comentários de um ou mais membros do corpo editorial, tanto o trabalho quanto os comentários dos especialistas e, às vezes, até mesmo a resposta do autor - são"disponibilizados" na forma eletrônica. Eventualmente, isso pode desencadearumanova polêmica, envolvendo outros autores e demais membros do corpo editorial. Em Psycoloquy, todos os artigos publicados são comentados e expostos a críticas (aí reside a nova função da peer review). O autor pode também responder a essas críticas e o próprio leitor é incentivado a participar do debate (sua inter- venção passa, todavia, pelo crivo de um editor, que decide se é publicável ou não). Nesse novo modelo, o debate é privilegiado, pois se está lidando com um meio interativo, no qual a informação circula, ao mesmo tempo, nos dois sentidos (do autor ao leitor e do leitor ao autor). Harnad denomina esse procedimento scholarly skywriting (literalmente: "sinais de fumaça acadêmicos", pelo fato dos sinais de fumaça constituírem, entre os índios americanos, uma forma de comunicação interativa). Embora também possa haver debates nas revistas impressas, a estrutura destas é pouco adequada a uma verdadeira e acalorada discussão. Geralmente, as revistas científicas são quadrimestrais, o que significa que uma crítica a um artigo só sai, na melhor das hipóteses, quatro meses depois, e a tréplica demoraoutros quatro meses. Nesse ínterim, o assunto já terá "esfriado" e o próprio autorjá estará provavelmente envolvido com outras questões. A idéia que embasa o modelo de Psycoloquy é que, umavez instituída apeerreview (agorarebatizada de peer commentary) - como um mecanismo de promoção da qualidade através da crítica permanente (e não como uma simples autoridade seletiva) - os próprios autores pensarão duas vezes antes de submeterem à revista um trabalho vulnerável, ainda imaturo e pouco fundamentado. Agora, o risco não é mais o trabalho não ser publicado, mas sim ficar exposto a umacrítica fulminante. Assim, o elemento diferencial da publicação eletrônica passa a ser outro: ele não está simplesmente na difusão mais rápida dos artigos e na facilidade de busca instantânea (search) em toda a literatura científica disponível. A essência mesma do meio eletrônico reside nofeedbackimediato, na estrutura bidirecional e na conseqüente possibilidade de diálogo, ou seja, na potencialidade de comunicação. Se for possível instituir mecanismos de avaliação e seleção fundados no debate e na comunicação, então provavelmente a publicação eletrônica terá encontrado sua forma de legitimação. Se existe algo realmente interessante acontecendo hoje nos meios científicos é esse súbito ressurgimento da paixão pelo debate de idéias, que o meio eletrônico mais que estimula, quase que o requer, em decorrência de seu trajeto de mão dupla. Recentemente, pude acompanhar uma agitada polêmica causada pela publicação de um artigo provocativo de Michael Bérubé (1996), na revista eletrônica Alt-X (http:// de literatura experimental, na qual o autor criticava a esquerda norte-americana por sua incapacidade de produzirumadiferença nacultura que f INFORMARE - Cad. Prog. Pós-Grado Ci. Inf., Rio de Janeiro, v.2, n. 1, p , jan.ljun. 1996

8 Publicações científicas: da galáxia de Gutemberg à aldeia telemática 77 ela critica. O artigo provocou uma avalanche de respostas, algumas concordantes e outras discordantes. A esse coro de comentários vieram se somar intelectuais de respeito, como os críticos de arte e literatura contemporâneas, Gregory Ulmer e Marjorie Perloff. Se, como neste exemplo, as publicações eletrônicas lograrem sucesso na tarefa de atrair para suas fileiras os nomes mais importantes e respeitados emcada área de especialidade; se essas figuras se mostrarem interessadas em participar das discussões já em andamento na Rede, contribuindo, inclusive, para a elevação do nível da argumentação, certamente as publicações eletrônicas conseguirão se impor como alternativa de escritura científica tão legítima quanto a forma impressa. A grande e atual discussão no ciberespaço é se a "filtragem" da produção acadêmica deve se dar antes da publicação (pela autoridade de um editor e de um corpo editorial) ou depois que o artigo ficou disponível para a comunidade científica, através dos comentários e críticas de um grupo qualificado de expertos. Na segunda alternativa, o valor de um texto vai aparecendo aos poucos, à medida que a comunidade científica manifesta sua reação. Para incentivar o debate, o próprio editor pode solicitarcomentários. Nessaestrutura, o corpo editorial compreenderia um grupo de nomes respeitados, cuja função seria produzir comentários e críticas dos trabalhos expostos. Quanto ao leitor, se ele se sentir perdido no "oceano" de textos, pode - ao invés de lamentar a ausência de uma autoridade seletiva - instituir seus próprios "filtros" e criar mecanismos de controle de qualidade que lhe permitam calibrar escolhas e leituras. Uma opção poderia ser, por exemplo, ler apenas os textos que tenham recebido comentários positivos de, pelo menos, dois intelectuais confiáveis. Ou, então, um programa de busca automática poderia auxiliar no levantamento dos artigos comentados por determinado especialista ou corpo editorial. Nada impede também que se utilizem métodos semelhantes, para efeito de avaliação do desempenho do pesquisador, ou decisão sobre um pedido de auxílio. (ODLYZKO, A p ) Nesse sistema, o autor teria uma vantagemextra: seu texto nunca seria definitivo. Este poderia se beneficiar dos comentários, sendo refeito à medida que fosse criticado. Deste modo, o autor poderia submeter à revista eletrônica versões revisadas de seu texto, incorporando produtivamente os comentários recebidos. Na verdade, é assim que o pensamento científico tem se constituído desde o seu início, e mesmo quando a única alternativa de difusão era o volume impresso, o autor zeloso sempre teve o cuidado de pedir a alguns colegas paralerseutextoecriticá-lo, antes de submetêlo a um editor. A diferença é que, agora, as revisões podem serfeitas mesmodepoisdo trabalho publicado. A qualquer momento, o autor pode intervir em seu arquivo e modificá-lo, atualizá-lo, melhorá-lo, ad infinitum. Ao contrário do que ocorre nos meios impressos, os textos publicados em forma eletrônica não são estáveis, nemdados como prontos. Eles se alimentam do diálogo e se transformam permanentemente, emfunção dainfluênciade outros textos. Sabemosque nenhuma ciência se faz individualmente; ela é antes o resultado de uma interação de talentos e esforços, que ocorre num processo coletivo de investigação. A edição eletrônica apenas dá forma dinâmica àquilo que é a natureza mesma do processo de conhecimento. Nesse sentido, o maior problema que resta à publicação eletrônica é o da memória. Se as revistas ganham forma no ciberespaço, o que vão as bibliotecas armazenar e conservar? Até aqui, o acesso ao periódico eletrônico tem sido direto, entre o computador que armazena o arquivo e o computador do leitor. Não se prevê qualquer instância intermediária de conservação e memória, como seria o caso da biblioteca. Pressupõe-se, então, que a função de conservação caiba ao próprio fornecedor, que deve deixar disponíveis, em algum diretório devidamente datado, os textos mais antigos. Mas, como o fornecedor não tem, como função primeira, o armazenamento de informações, nada nos garante que ele o fará indefinidamente. Um dia, ele poderá decidir expurgar os trabalhos mais antigos ou pouco acessados, para, por exemplo, economizar espaço e tornar mais ágil a busca. Ou, então, umsite poderia simplesmente deixar de funcionar por alguma razão específica (mudanças na orientação política de um departamento, crise econômica da universidade, etc.). Na pior das hipóteses, até mesmo um defeito técnico ou um ataque de vírus poderia impossibilitar o acesso aos textos. Então, todo o saber acumulado nesses arquivos se esvaneceria de repente, como fumaça no ar. Se isto acontecer, que provas de publicação sobrarão para o(s) autor(es)? E como poderia o leitor reencontrar um artigo? Algumas publicações eletrônicas mais sérias procuramseresguardarde possíveis problemas, mantendo cópias (mirrors) permanentemente atualizadas de seus arquivos, num computador situado em outra universidade, preferencialmente até em outro país. Psycoloquy, por exemplo, tem seu site originado na Princeton University, mas mantém mirrors nas uni- INFORMARE - Cad. Prog. Pós-Grado Cio lof., Rio de Janeiro, v.2, n. 1, p , jan.ljun. 1996

9 78 Publicações científicas: da galáxia de Gutemberg à aldeia telemática versidades de Southampton, Virgínia e Viena. Mas isso não resolve todos os problemas. As dificuldades podem também estar do lado do leitor que, por qualquerrazão, podeficarde repente sem acesso à Internet. Enfim, a verdade é que as redes telemáticas não nos dão garantia de que os artigos nelas depositados estarãopennanentementedisponíveis. E se nãoestiverem, o que fazer? Não sejamos, entretanto, tão dramáticos. Uma biblioteca também pode pegar fogo ou ser inundada e perder seu acervo, da noite para o dia. Os livros armazenados podem sofrer ataques de traças e papéis ácidos podem se decompor, naturalmente, depois de algum tempo. A recuperação de livros e revistas deteriorados é uma atividade cara e trabalhosa. As bibliotecas o fazem, em geral, de forma seletiva, jogando no incinerador títulos que elas julgam inútil recuperar. Masumabiblioteca nuncaé a fonte únicade acesso às publicações. Se algo acontece com uma biblioteca ou publicação, outras poderão contarcom o mesmo acervo, ou com parte dele. Não é esse exatamente o caso dossitesnainternet. As redes telemáticas constituem, hoje, uma gigantesca biblioteca global, mas basta que apenas um ponto dessa rede seja suprimidoparaque todo o acervo ali depositado se percaem definitivoo Isso quer dizer que a informação impressa, convertida em eletrônica, não elimina a intervenção das bibliotecas ou de qualquer outra instância de conservação e memória da ciência. Aí começam os problemas. As bibliotecas atuais ainda não possuem políticas específicas de arquivamento sistemático de publicações eletrônicas. Essa matéria, aliás, é bem mais complicada do que parece, à primeira vista. Inicialmente, há problemas de ordem legal. Pode umabibliotecacopiaremseus computadores arquivos originados em outros pontos e torná-los disponíveis para seus pesquisadores? Mesmo que uma revista eletrônicaprevejao pagamento de uma assinatura, será que o preço abrange a transferência dos arquivos aocomputadordo assinante, pararedistribuição posterior, ou apenas o acesso? Caso esses problemas legais sejam resolvidos e as bibliotecas autorizadas a armazenar a informação eletrônica, emque suporte ou sistema elas o deveriam fazer? As tecnologias rapidamente se tomam obsoletas e são substituídas por outras não necessariamente compatíveis com as anteriores. Quais as garantias de que um texto - arquivado eletronicamente, em determinados suportes, máquinas e sistemas operacionais - continuará sendo lido daqui a alguns anos, quando as máquinas forem outras e diferentes sistemas estiverem em operação? Deverá, então, o material arquivado ser constantemente atualizado (convertido, transcodificado), para que possa ser lido sem problemas pelas máquinas mais atualizadas? Se não houver respostas convincentes a essas perguntas, os textos (pelo menos os mais representativos) deverão continuar a ser impressos em papel durante longo tempo, para que se cumpra a função de memorização da ciência. Esses são problemas de ordem estritamente material. Mas existem outros mais complicados, de ordemconceituai. Porexemplo, comocitarumartigo disponível na Rede e como catalogá-lo numa biblioteca? Revistas eletrônicas, em geral, não apresentam número de página, de série ou de volume, e simapenas o endereço de acesso. As normas nesse sentido estão sendo só gradativamente introduzidas pelas entidades bibliográficas. No entanto, umnúmero cada vez maior de artigos é editado unicamente em forma eletrônica. Tampouco se pode deles prescindir, quando se está trabalhando. Há aqui, talvez, um falso problema, já que a citação bibliográfica deverá, provavelmente, desaparecerdo ambiente eletrônico, sendo substituída pelo link direto. Ou seja: numa publicação eletrônica, quando um autor escreve, por exemplo, "Conforme afirma Hamad[...]", nenhumareferência bibliográfica será necessária, porque a própria palavra "Harnad" será um link e, uma vez clicada, levará o leitor diretamente ao artigo citado, esteja onde estiver. Assim, mais do que a referência bibliográfica, o leitor terá, diretamente, o próprio texto, o que torna a citação obsoleta. Imagine-se a transformação brutal que deverá ocorrercom as publicações de índices e de resumos (abstracts). Cada título indexado já será um link ao próprio artigo, quando não a seus comentários. Assim, enquanto no meio impresso a existência de um título não facilita o acesso a ele, no meio eletrônico um índice ou uma bibliografia já são, em si, bibliotecas potenciais. Mas isso simplifica apenas aparentemente as coisas. É preciso considerarque o texto eletrônico não tem estabilidade, ele é constantemente revisado, em função das críticas que recebe. A citação torna-se então um problema pois, quando um texto é revisado, a nova versão apaga a anteriore a referida citação pode não mais dizer aquilo que lhe está sendo atribuído. Na verdade, a noção de um texto interminável e infinitamente passível de revisões, introduzida pela publica- INFORMARE - Cad. Prog. Pós-Grado Cio Inf., Rio de Janeiro, v.2, n. 1, p ,jan.ljun. 1996

10 Publicações científicas: da galáxia de Gutemberg à aldeia telemática 79 çãoeletrônica, é absolutamente subversivaemrelação Casas publicadoras, instituições, editores e dea todo saber bibliográfico. No caso das bibliotecas, a mais pessoas - comprometidos com publicações cienforma eletrônica introduz um problema extra, que é tíficas tradicionalmente impressas - perguntam-se, justamente o de saber qual das versões de um texto agora, como sob reviver. diante danova situação,quandeve ser conservada para a posteridade, pois seria do os próprios pesquisadores tomam a iniciativa de inviável guardartodas as versões. (LYNCH, C editar eletronicamente seus textos e distribuí-los grap ) tuitamente, sem mediadores, financiamento ou assi- A publicação impressa nos acostumou a pensar naturas, utilizando os mesmos computadores que otexto como uma unidade discreta, fixada de uma vez empregam em outras tarefas. Para aqueles envolvidos portodas ou, num certo sentido, imutável. Essaé, aliás, com o meio impresso,jáestáclaro que atacar simplesa condição sine qua rwn para sua monumentalização e, mente o novo sistema eletrônico, criarbarreiras legais nesse pressuposto, se baseia também a idéia de con. ou ameaçar os autores que estão na Rede não é o servação. Mas se não há estabilidade, toda citação e melhor caminho. A tendênciamais geral, ao contrário, conservação serão sempre arbitrárias, porque no é aderirtambém ao modelo eletrônico, paranão perder instante seguinte ao corte efetuado, o(s) autor(es) completamente o controle sobre as publicações cienpode(m) estar pensando e agindo diferentemente, o tíficas. Comumente, os editores tradicionais apostam que nem a citação ou a versão congelada na biblioteca que, após umperíodo de euforia e de utopia, as revistas são capazes de expressar. Se isso gera confusão e eletrônicas acabarão se adequando a um modelo mais coloca o saber bibliográfico num mar de indefinições, comportado, no qual a viabilização comercial não épreciso considerarque correção, revisão, mudançae estaráinteiramentedescartada.enquantoisso, assisteaté mesmo contradição fazem parte da dinâmica de se hoje à entrada irrestrita na rede da maioria dos todo pensamento vivo. Portanto, se algo está errado, o grandes editores científicos, que propõem diferentes erro está mais provavelmente ao lado do saber biblio- alternativas. Às vezes, eles oferecem revistas exclusigráfico, que tende a sepultar o pensamento numa vamente eletrônicas, de alto nível e gratuitas, exataforma fixa. Os novos meios de difusão, na verdade, mente como aquelas já oferecidas pela própria comunas estão obrigando a enfrentar o desafio de um nidade acadêmica. É o caso, por exemplo, da prestigiosa pensamento complexo e a inventar formas mais ade- PostmodernCulture(http://jefferson.village.virginia.edu/ quadas de representá-lo, sem simplificá-lo. pmc/contents.all.html), dedicada à crítica da cultura contemporâneae editadapelaoxford UniversityPress. Naturalmente, é possível tambe'm com'gl'r um Outros apresentam iniciativas ousadas, como a trabalho impresso, mas neste caso, a nova versão será "disponibilização" gratuitanarede dos artigos aprovauma nova publicação, devidamente assinalada como dos para publicação (todos ou apenas alguns)., tal ("segunda edição revisada"), para evitar confusão com a anterior. Da mesma forma, uma publicação Assim, ao invés de esperar três anos por um eletrônica pode ser indicada pela data em que ocorreu texto, o leitor pode obtê-lo imediatamente, com a uma revisão, de modo a permitir que se possa fazer, vantagem de mais tarde ter acesso também à publicacom alguma pertinência, uma citação ou uma conser- ção impressa. Isto ocorre com a importante revista i vação datada. Assim como é possível uma biblioteca Leonardo (http://www-mitpress.mit.edulleonardo/ catalogar duas edições diferentes de um mesmo livro plaza.html), dedicada às relações entre arte, ciência e datambém pode, de tempos em tempos, cotejar seu~ tecnologia, e editada pelathe MIT Press. Mas esses uivos com as fontes originais, para verificar se fatos são experimentais. Como a sobrevivência das uve mudanças nos textos (programas de computa- editoras depende basicamente de recursos financeir podem fazer isso automaticamente e em poucos ros, elas estudam alternativas de viabilização econô-. utos). Se a resposta for positiva, a entidade fixa mica. A mais lógica, naturalmente, é a assinatura, com nova versão dos textos modificados, datando-os a conseqüente restrição do acesso ao não-assinante. vidamente. Neste caso, a biblioteca não teriatodas Outros modelos seriam baseados em sistemas yersões de um artigo, mas sim "cortes" esporádicos informacionais computadorizados, como o DIALOG sua evolução, que poderiam dar uma idéia aproxi- ou o STN, que cobram por minuto de acesso ou por do movimento da pesquisa. byte transferido. De qualquer forma, se o maior volume das publicações eletrônicas permanecer acadêmico e gratuito, o preço do acesso às revistas eletrônicas INFORMARE - Cad. Prog. Pós-Grado Cio Inf., Rio de Janeiro, v.2, n. 1, p , jan.ljun. 1996

11 80 Publicações científicas: da galáxia de Gutemberg à aldeia telemática pagas não deverá ser muito alto pois, do contrário, estasnão seriamcompetitivas (pelo menos, essepreço deverá ser mais baixo que o das revistas impressas). Embora uma incógnita, o futuro das publicações eletrônicas (e também o das revistas impressas), com toda certeza será determinado pelas iniciativas e decisões tomadas agora por todos nós, pesquisadores, editores e instituições. Abstract There is a fundamental change in the world of scholarly publishing as it shifts from paper-based to electronic formats. Network forums and electronic journals on Internet are now creating tremendous pressures for reconsidering the role of printed periodicals into the field of scientific research. The present debate about the benefits and disadvantages of both print and electronic publishing focuses on a number of important issues. Journals in the new formats are expected to improve the speed of communication, enhance informal discussion and comment between scholars, reduce costs of published material, and decrease backlogs of accepted manuscripts waiting for publication. But for the time being, they lack reliable mechanisms for quality control, peer review, and specific policies for cataloging and preservation. No matter what our preferences are, we are quite sure that drastic change will be inevitable. What we want to know now is if print and electronic paradigms can live together, or if traditional printed scholarly journals will disappear sometime. Bibliografia BÉRUBÉ, Michael. Cultural criticism and the politics ofselling out.alt-x. Disponível na INTERNET via WWW. (http://www.altx.com/ebr/ebr2.berube.htrnl). Arquivo consultado em CRANE, Diana. Invisible colleges: diffusion of knowledge in scientific communities. Chicago: University of Chicago Press, FUCKS, Ira H. Networked information is not free. ln: PEEK, Robin P., NEWBY G. (Eds.) Scholarly publishing: the electronic frontier. Cambridge: The MIT Press, GINSPARG, Paul. Winners and losers in the global research village. ln: CONFERENCE AT UNESCO HQ, 21 fev. 1996, Paris. Disponível na INTERNET via WWW. (http://xxx.lanl.gov/blurb/ pg96unesco.html). Arquivo consultado em GLEICK, James. Caos: a criação de uma nova ciência. Rio de Janeiro: Campus, GUEDON, Jean-Claude. Why are electronic publications difficult to classify?: the orthogonality of print and digital media. Montreal: University of Montreal, Disponível na INTERNET via WWW. (gopher:// arl.cni.org:70/00/scomm/edir/guedon.94). HARNAD, Stevan.Thepostgutenberggalaxy: how to get there fromhere.southampton: University ofsouthampton, Disponível na INTERNET via WWW. (http://cogsci.soton.ac.uk/harnadffhes/ thes.htrnl). Arquivo consultado em LESLIE, Jacques. Goodbye, Gutenberg. Wired, v. 2, n. lo,oct LYNCH, Clifford. Integrity issues in electronic publishing. ln: PEEK, Robin P., NEWBY G. (Eds.) Scholarly publishing: the electronic frontier. Cambridge: The MIT Press, NEGROPONTE, Nicholas. Learning by doing: don't dissect the frog, built it. Wired, v. 2, n. 7, July, ODLYZKO, Andrew. Tragic loss or good riddance? the impending demise of traditional scholarly journals. Intemational Joumal ofhuman-computer Studies, n Disponível na INTERNET via WWW. (ftp:/ /netlib.att.com/netlib/att/mathlodlyzko/ tragic.loss.z). Arquivo consultado em INFORMARE - Cad. Prog. Pós-Grado Cio Inf., Rio de Janeiro, v.2, n. 1, p , jan.ljun. 1996

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