Efeito da bioencapsulação de ácidos graxos essenciais em Artemia sp. utilizada na alimentação de pós-larvas de Bijupirá (Rachycentron canadum)

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RECÔNCAVO DA BAHIA CENTRO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS AMBIENTAIS E BIOLÓGICAS PROGRAMA DE PÓS - GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA ANIMAL CURSO DE MESTRADO Efeito da bioencapsulação de ácidos graxos essenciais em Artemia sp. utilizada na alimentação de pós-larvas de Bijupirá (Rachycentron canadum) JOSE LUIZ SANCHES GONCALVES JUNIOR CRUZ DAS ALMAS BAHIA JULHO 2010

2 Efeito da bioencapsulação de ácidos graxos essenciais em Artemia sp. utilizada na alimentação de pós-larvas de Bijupirá (Rachycentron canadum) JOSE LUIZ SANCHES GONCALVES JUNIOR Biólogo Faculdade de Tecnologia e Ciências, 2006 Dissertação submetida ao Colegiado do Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia como requisito parcial para obtenção do Grau de Mestre em Ciência Animal, ênfase em Alimentação e Nutrição de Organismos Aquáticos Orientador: Leandro Portz Co-orientador: José Jerônimo de Souza Filho CRUZ DAS ALMAS BAHIA JULHO 2010

3 FICHA CATALOGRÁFICA G635 Gonçalves Junior, José Luiz Sanches. Efeito da bioencapsulação de ácidos graxos essenciais em artêmia sp. utilizada na alimentação de pós-larvas de bijupirá(rachycentron canadum). / José Luiz Sanches Gonçalves Júnior. _ Cruz das Almas BA, f.; il. Orientador: Leandro Portz. Co-orientador: José Jerônimo de Souza Filho. Dissertação (Mestrado) Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Centro de Ciências Agrárias, Ambientais e Biológicas, Área de Concentração: Ciência Animal. 1.Piscicultura. 2.Peixes - Alimentação. I. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia II. Título. CDD 639.3

4 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RECÔNCAVO DA BAHIA CENTRO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS AMBIENTAIS E BIOLÓGICAS PROGRAMA DE PÓS - GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA ANIMAL CURSO DE MESTRADO COMISSÃO EXAMINADORA DA DEFESA DA DISSERTAÇÃO DE JOSE LUIZ SANCHES GONCALVES JUNIOR Prof. Ph.D. Leandro Portz Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (Orientador) Prof. Dr. Jose Arlindo Pereira Universidade Federal do Recôncavo da Bahia Prof. Dr. Ricardo Castelo Branco Albinati Universidade Federal da Bahia CRUZ DAS ALMAS BAHIA JULHO 2010

5 DEDICATÓRIA Dedico com carinho e amor ao meu herói (pai), minha luz (mãe) e irmã, que sempre me apoiaram. Dedico a todos os amigos e familiares que estiveram juntos neste sonho, acreditando em minha capacidade. À minha namorada Rosiane, pela paciência, compreensão, dedicação e carinho durante esta jornada.

6 AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus pela saúde e por ter me guiado ao final desta jornada. Agradeço aos meus pais, irmã, familiares e amigos pelo apoio e ensinamentos da vida. A uma grande pessoa chamada Rogério Arapiraca, que através da natação me ensinou a ter determinação e força de vontade pelos meus ideais. A minha segunda mãe Virginia Guimarães, que sempre me orientou e me indicou os caminhos certos. Ao meu orientador, pelo aprendizado, orientação, apoio e paciência. Ao meu co-orientador, chefe e amigo Jerônimo, pela ajuda, convivência sadia, risadas, conhecimento técnico e de vida. Agradeço à Bahia Pesca, que disponibilizou a estrutura, as pós-larvas e a liberação do horário de trabalho para o mestrado. Aos Funcionários da Fazenda Oruabo: Beijinho, Íris, Pintor, Siri, Roque (Quingue), Pin, D. Lúcia, D. Ivone (Neném), Pintor, Bargada, Mongol (ordinário), Deco (Del), Dedinho, Gildasio, Neneu, Gado, Seu Zé, D. Cristina, Zé Roberto, Eliane, Flavio (Xô), Reginaldo (Nanico), Fully (Sacanagem) e Carlos Eduardo (Tico), que ajudaram e me incentivaram de forma direta e indireta na condução do experimento. À Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e ao curso de Mestrado em Ciência Animal pela oportunidade de realização do curso. À Profª Dra. Janice Druzian, da Faculdade de Farmácia, da Universidade Federal da Bahia por oferecer o LAPESCA para realização das análises e paciência. Ao pessoal do LAPESCA que me ajudou e contribuiu para realização das análises. Em especial Aline Casais Tavares pela amizade, ajuda nas análises e paciência. Ao aluno de Engenharia de Pesca da UFRB, Leandro S. Neves pela acolhida na república e parceria. Ao colega de Mestrado, Washington Tavechio pela força companheirismo e ajuda. À minha grande amiga e companheira Rosiane, que durante esta fase esteve do meu lado me apoiando e incentivando na realização deste sonho. E a todos de sua família que contribuíram indiretamente.

7 SUMÁRIO Página RESUMO ABSTRACT INTRODUÇÃO 1 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 7 Capítulo 1 EFEITO DA BIOENCAPSULAÇÃO DE ÁCIDOS GRAXOS ESSENCIAIS EM Artemia sp., ALIMENTADA COM PRODUTOS COMERCIAIS 11 Capítulo 2 INCORPORAÇÃO DE ÁCIDOS GRAXOS ESSENCIAIS EM PÓS-LARVAS DE BIJUPIRÁ (Rachycentron canadum), ALIMENTADAS COM Artemia sp. ENRIQUECIDA 28 CONSIDERAÇÕES FINAIS 50 ANEXO A 51 ANEXO B 58

8 EFEITO DA BIOENCAPSULAÇÃO DE ÁCIDOS GRAXOS ESSENCIAIS EM Artemia sp. UTILIZADA NA ALIMENTAÇÃO DE PÓS-LARVAS DE BIJUPIRÁ (Rachycentron canadum) Autor: Jose Luiz Sanches Goncalves Junior Orientador: Leandro Portz RESUMO: O presente estudo teve como objetivo avaliar o efeito da bioencapsulação de ácidos graxos essenciais em artêmia na alimentação de póslarvas de Bijupirá (Rachycentron canadum) em sistema fechado de produção de larvas. Para o presente estudo os tratamentos foram definidos como 1:1 de ω3 Yeast 60 e Red Papper (TR-1 = RED+YEAST) e 1:1 de ω3 Yeast 60 e Algamac 3050 (TR-2 = A3050+YEAST), respectivamente, avaliado os perfis de ácidos graxos essenciais nos produtos, nas artêmias e nas pós-larvas de bijupirá. As pós-larvas de bijupirá foram alimentadas quatro vezes ao dia em uma densidade de 1 artemia/ml entre o 10º ao 18º DAE exclusivamente com artêmia oriundas dos dois tratamentos. Os produtos comerciais TR-1 e TR-2 bem como as artêmias enriquecidas por eles apresentaram perfis significativamente diferentes (p<0,05) para o ácido linoléico, DHA, totais de AGPI, n-3 AGPI, n-6 AGPI e DHA/EPA. O ácido graxo linolênico ARA e EPA não apresentaram correlação significativa entre os tratamentos na artêmia. E as pós-larvas alimentadas com artêmia enriquecida com TR-2 apresentaram um aumento significativo no DHA e no total de n-3 AGPI em relação às pós-larvas alimentadas com artêmia enriquecida com TR-1. Os resultados obtidos neste estudo indicam a baixa eficiência na incorporação de DHA e a relação DHA/EPA na artêmia alimentada com TR-1, sugerindo uma retroconversão desse ácido graxo para EPA. Entretanto, as pós-larvas de bijupirá possuem uma alta incorporação de ácidos graxos essências, após um período de alimentação com artêmia enriquecida. Diferente de outras espécies de peixes marinhos o bijupirá não evidencia o alongamento da cadeia dos ácidos graxos essenciais, mas preferencialmente retenção no tecido das pós-larvas. Palavras-chave: Ácidos graxos, enriquecimento, incorporação, larvicultura.

9 EFFECT OF THE ENRICHMENT OF ESSENTIAL FATTY ACID IN Artemia sp. USED IN FEED FOR POST-LARVAE COBIA (Rachycentron canadum) Autor: Jose Luiz Sanches Goncalves Junior Orientador: Leandro Portz Abstract: The present study had as objective evaluates the effect of the enrichment of essential fatty acids in Artemia in the feeding of Cobia fish larvae (Rachycentron canadum) in closed water system. In the present study the treatments were defined as 1:1 of n3 Yeast 60 and Red Papper (TR-1 = RED+YEAST) and 1:1 of n3 Yeast 60 and Algamac 3050 (TR-2 = A3050+YEAST), respectively, appraised the profiles of essential fatty acids in the products, and Cobia larvae. The fish larvae were fed four times a day in a density of 1 artemia/ml among the 10th to 18th DAE exclusively with artemia originating from of the two treatments. The commercial products TR-1 and TR-2 as well as the enriched artemia by them presented profiles significantly different (p <0,05) for the linoleic acid, DHA, total of AGPI, n-3 AGPI, n-6 AGPI and DHA/EPA. The linolenic acid, ARA and EPA didn't present significant correlation among the treatments in the artemia enrichment. And the post-larvae fed with artemia enriched with TR-2 presented a significant increase in DHA and in the n-3 total AGPI as post-larvae fed with artemia enriched with TR-1. The results obtained in this study indicate the low efficiency in the incorporation of DHA and the relationship DHA/EPA in the artemia fed with TR-1, suggesting a conversion of that fatty acid EPA. However, the cobia possess a high incorporation of essential fatty acids, after a feeding period with artemia enriched. Different from other species of sea fish the cobia doesn't evidence the prolongation of the chain of the essential fatty acids, but preferentially retention in the tissue of the post-larvae. Key-words: Fatty acids, enrichment, incorporation, larviculture.

10 INTRODUÇÃO O Bijupirá (Rachycentron canadum Linnaeus, 1766) é um peixe marinho cosmopolita, pelágico, migrador e que durante os períodos de desova (primavera e verão) utiliza costas e baías ao longo da zona tropical, subtropical e em águas temperadas com exceção aparente do Oceano Pacifico Oriental (BRIGGS, 1960). Destaca-se no mundo pela facilidade de adaptação a desovas naturais, com altas taxas de fecundidade e um grande potencial zootécnico, podendo alcançar 5-6 kg no período de um ano em cultivos realizados em sistema de tanques redes no mar (ARNOLD et al., 2002; LIAO et al., 2004). No Brasil o bijupirá se distribui em todo o litoral, em especial no Nordeste, onde foi realizada a primeira desova de bijupirá do Brasil pela Bahia Pesca, na Bahia em 2006 (CARVALHO FILHO, 2006). Esta espécie merece atenção especial para a fase de pós-larvas, fase esta considerada a mais critica do cultivo, pois depende do alimento exógeno vivo para sua nutrição, sendo os mais utilizados para este fim os rotíferos (Brachionus sp.) e o microcrustáceo (Artemia spp.) (HASSLER; RAINVILLE, 1975; FAULK; HOLT, 2003, 2005; FAULK et al., 2007a; BENETTI et al., 2008). Com o avanço da tecnologia na alimentação das pós-larvas de peixes marinho, esta pode ser melhorada através da técnica de bioencapsulação (enriquecimento) do alimento vivo com dietas que atendam as exigências nutricionais, sendo esta técnica de fundamental importância para o sucesso da larvicultura (LAVENS; SORGELOOS, 1996; HOFF; SNELL, 1999). Durante a fase de larvicultura de peixes carnívoros marinhos ocorre uma transição gradativa na alimentação, onde o rotífero é oferecido como primeiro alimento exógeno, sendo substituído gradualmente por náuplio de artêmia. Durante a transição do alimento vivo, as pós-larvas de peixes marinhos necessitam de dietas ricas em nutrientes essenciais, sendo necessária a técnica de enriquecimento utilizando-se a Artemia salina como veículo (MERCHIE, 1996).

11 Nas fases de náuplio e metanáuplio, o microcrustáceo Artemia spp. é um dos alimentos vivos mais utilizados na alimentação de peixes marinhos. Isto porque é de fácil obtenção através de cistos, é resistente a amplas faixas de parâmetros abióticos, à manipulação e a enfermidades, tem grande aceitabilidade, suporta altas densidades, são de fácil digestibilidade, um tamanho que varia de 400 a 600 micra e possuem uma movimentação ativa, ideal para estimular a captura pela pós-larva e se mantêm por um maior período de dias na alimentação, comparado com outros organismos como os rotíferos (LAVENS; SORGELOOS, 1996; HOFF; SNELL, 1999). A Artemia sp. apresenta um valor nutricional baixo para as pós-larvas de peixes marinhos; oito horas após a eclosão, os náuplios entram na fase de metanáuplios, passando a se alimentar de pequenas partículas. Assim, para obteção de um valor nutricional ideal as artêmias utilizadas na alimentação inicial das pós-larvas de peixes marinhos, são submetidas ao processo de bioencapsulamento (enriquecimento) com nutrientes (LAVENS; SORGELOOS, 1996). O bioencapsulamento da Artemia sp. tem como função principal incorporar ao metanáuplio quantidades específicas de nutrientes essenciais como aminoácidos, ácidos graxos essenciais, vitaminas, imunonutrientes e probióticos, e assim, serem indiretamente biodisponibilizados às pós-larvas de peixes como alimento.. O enriquecimento deve ser capaz de suprir as exigências nutricionais e microbiológicas da espécie de peixe em estudo, através da transferência bioquímica e microbiológica, fazendo com que o melhoramento tenha um impacto positivo na sobrevivência, crescimento e no desenvolvimento das pós-larvas de peixes marinhos em larvicultura (LAVENS; SORGELOOS, 1996; HOFF; SNELL, 1999).

12 REVISÃO BIBLIOGRAFICA O Bijupirá, Rachycentron canadum (Linnaeus, 1766), é o único representante da família Rachycentridae. É um peixe marinho cosmopolita, pelágico, migrador e que durante os períodos de desova (primavera e verão) utiliza costas e baías ao longo da zona tropical, subtropical e em águas temperadas com exceção aparente do Oceano Pacifico Oriental (BRIGGS, 1960; SHAFFER; NAKAMURA, 1989). A espécie se destaca dentre os peixes marinhos tropicais, por possuir larga distribuição geográfica, elevada qualidade da carne, crescimento rápido (CHOU et al., 2001; LIAO et al., 2004; BENETTI et al., 2007), fecundidade elevada, facilidade de desova induzida e natural em cativeiro (FRANKS et al., 2001; ARNOLD et al., 2002), resistência a doenças e boa adaptação ao confinamento nos tanques (SCHWARZ, 2004). O processo de larvicultura do bijupirá vem sendo estudado por diversos pesquisadores (FAULK; HOLT, 2003, 2005; FAULK et al., 2007; HOLT et al., 2007; BENETTI et al., 2008). O bijupirá merece atenção especial para a fase de pós-larvas, fase esta considerada a mais critica do cultivo, pois depende do alimento exógeno vivo para sua nutrição, sendo os mais utilizados para este fim os rotíferos (Brachionus sp.) e o microcrustáceo (Artemia spp.) (HASSLER; RAINVILLE, 1975; FAULK; HOLT, 2003, 2005; FAULK et al., 2007a; BENETTI et al., 2008). Segundo KUBITZA (1997) as pós-larvas de peixes apresentam trato-digestivo rudimentar por ocasião da transição entre o vitelo (alimento endógeno) e alimento externo. O alimento vivo (rotífero e artêmia) são os primeiros alimentos externos para as pós-larvas da maioria dos peixes cultivados. Enzimas digestivas presentes nestes organismos são liberadas pela ação física das pós-larvas durante a captura e a ingestão. Estas enzimas desencadeiam a hidrólise das proteínas do próprio alimento vivo ingerido e estimulam a secreção de enzimas pelo trato digestivo das pós-larvas, facilitando os processos de digestão e absorção dos nutrientes.

13 FAULK; HOLT, (2005) conduziram estudos para determinar os efeitos do enriquecimento de rotíferos e artêmia utilizando microalgas e dietas comerciais, no crescimento e sobrevivência de pós-larvas de bijupirá, e avaliando os benefícios da adição de microalgas no tanque de cultivo. FAULK et al., (2007) cultivaram pós-larvas em sistema de recirculação de água para melhorias no controle da temperatura e qualidade da água na criação. HOLT et al., (2007) revisaram a larvicultura de bijupirá para determinar as necessidades de produção, focando os resultados recentes de desovas, larvicultura e iniciativas para futuros estudos na área. BENETTI et al., (2008) testaram a eficácia de protocolos experimentais, incorporando o uso de probiótico, profilaxia, diminuição no uso de microalgas, e inclusão de dietas comerciais para o enriquecimento do alimento vivo. Na produção de pós-larvas de muitas espécies de peixes marinhos, tais como: pargo (Pagrus pagrus), garoupas (Epinephelus spp), robalos (Centropomus spp), vermelhos (Lutjanus spp), robalo europeu (Dicentrarchus labrax), atuns (Thunnus spp) podem ser oferecidos rotíferos Brachionus plicatili como alimento vivo inicial, e, posteriormente, Artemia sp. e Artemia salina (Branchipus stagnalis), após um período inicial com um alimento vivo menor. Entretanto, as larvas dos peixes marinhos são cultivadas geralmente utilizando apenas Artemia sp. na dieta, como alimento vivo por um período de tempo muito mais longo (MERCHIE, 1996). O bijupirá tem o inicio de sua alimentação com o rotífero Brachionus plicatilis, que vai do 3º ao 7º dia após a eclosão (DAE), havendo a transição do rotífero para o náuplio de Artemia sp. a partir do 7º ao 8º DAE. Após o 8 DAE, as póslarvas de bijupirá começam a se alimentar da Artemia sp. enriquecida, até ser realizado o desmame (FAULK; HOLT, 2005). Pós-larvas de peixes marinhos, ao contrário da maioria das espécies de água doce, não possuem as enzimas necessárias para a síntese dos ácidos eicosapentenóico (EPA, C-20:5 ω-3), e docosahexenóico (DHA, C-22:6 ω-3), a partir de seu precursor de cadeia mais curta, o ácido linolênico (C-18:3 ω-3). Em vista disso, é essencial que os ácidos graxos, conhecidos como poli-insaturados (AGPI s ω-3), sejam fornecidos através da dieta. Esta exigência é considerada uma característica típica da nutrição de pós-larvas de peixes marinhos (SARGENT et al., 1989; WATANABE, 1993). A inclusão de uma pequena

14 quantidade (0,5 a 1% do peso seco) do ácido araquidônico (ARA, C-20:4 ω-6) em dietas utilizadas para larvicultura foi associada a maiores taxas de sobrevivência e maior resistência das larvas de Sparus aurata e Scophthalmus maximus ao estresse causado pela mudança de salinidade ou manipulação (CASTELL et al., 1994; SARGENT et al., 1999; BESSONART et al., 1999; KOVEN et al., 2001). Segundo LAVENS; SORGELOOS, (1996) os náuplios e os metanáuplios de Artemia sp. normalmente apresentam um valor nutricional reduzido para as póslarvas de peixes marinhos quando fornecidas oito horas após a eclosão onde os náuplios entrarão na fase de metanáuplio, passando a se alimentar de pequenas partículas. Assim, para obter um maior valor nutricional das artêmias utilizadas na alimentação inicial das pós-larvas de peixes marinhos, são realizados processos de bioencapsulamento dos nutrientes para uma posterior biodisponibilização indireta dos nutrientes as pós-larvas. A utilização de AGPI no enriquecimento da artêmia foi realizada para ter um efeito significativo na larvicultura dos peixes marinhos, e conduzir ao aumento da sobrevivência e da variabilidade dos peixes na larvicultura, tornando-se, assim, importante no desenvolvimento da produção comercial. Além disso, a resistência das pós-larvas ao manejo, melhoria da pigmentação, redução nas deformidades, melhora nas inflações da bexiga natatória e aumento na natação, tem sido correlacionada diretamente com o enriquecimento de AGPI na dieta das póslarvas (MERCHIE, 1996). Um dos aspectos mais importantes para o desenvolvimento das pós-larvas de peixe marinho diz respeito ao fornecimento de ácidos graxos poli-insaturados (AGPI s) incluindo o ácido araquidônico (ARA, C-20:4 ω-6), o ácido eicosapentenóico (EPA, C-20:5 ω-3) e o ácido docosahexenóico (DHA, C-22:6 ω- 3) (SARGENT et al.,1989; KANAZAWA, 1993; WATANABE, 1993; REITAN et al., 1994; LAVENS; SORGELOOS, 1996; BARRETO; CAVALCANTI, 1997; HOFF; SNELL, 1999). Estes ácidos não são sintetizados pelas pós-larvas de peixes marinhos e possuem um importante papel na estrutura, função e manutenção das membranas celulares, resistência ao estresse, desenvolvimento e funcionamento adequado do sistema nervoso e visual das pós-larvas de peixes marinhos (MERCHIE, 1996).

15 Em resultados publicados por FAULK; HOLT, (2003) a composição dos ácidos graxos nos ovos e larvas de bijupirá Rachycentron canadum apresentaram altos níveis de DHA, EPA e ARA, que constituem aproximadamente 80% dos ácidos graxos poli-insaturados. Dessa forma, este trabalho tem como objetivo avaliar o efeito da bioencapsulação de ácidos graxos essenciais em Artemia sp. na alimentação de pós-larvas de Bijupirá (Rachycentron canadum) em sistema fechado de produção de larvas. As metodologias e os resultados são apresentados nos capítulos a seguir: Capítulo 1: Efeito da bioencapsulação de ácidos graxos essenciais em Artemia sp., alimentada com produtos comerciais; e Capítulo 2: Incorporação de ácidos graxos essenciais por pós-larvas de Bijupirá (Rachycentron canadum), alimentadas com Artemia sp. enriquecida.

16 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARNOLD, C.R. et al.. Spawning of cobia Rachycentron canadum in captivity. J. World Aquac. Soc. v. 33(2), , BARRETO, O. J.; CAVALCANTI, D. G., Enriquecimento de alimentos vivos para alimentação de larvas de organismos marinhos: uma breve revisão. B. Inst. Pesca, São Paulo, 24 (único): , BENETTI, D.D. et al. Aquaculture of Cobia (Rachycentron canadum) in the Americas and the Caribbean. In: Liao, I.C., Leano, E.M. (Eds.), Cobia Aquaculture: Research, Development, and Commercial Production. Asian Fisheries Society, Manilla, Philippines, World Aquaculture Society, Louisiana, USA, The Fisheries Society of Taiwan, Keelung, Taiwan, and National Taiwan Ocean University, Keelung, Taiwan, p , BENETTI, D.D. et al. Intensive larval husbandry and fingerling production of cobia Rachycentron canadum, Aquaculture, doi: /j.aquaculture BESSONART, M. et al. Effect of dietary arachidonic acid levels on growth and survival of gilthead sea bream (Sparus aurata). Aquaculture v. 179, BRIGGS, J.C., Fishes of worldwide (circumtropical) distribution. Copeia. V. 3 p , CARVALHO FILHO, J. O êxito da primeira desova do bijupirá. Panorama da Aqüicultura. V. 16, n 97, 40-45, CASTELL, J. D. et al. Effects of purified diets containing different combinations of arachidonic and docosahexaenoic acid on survival, growth and fatty acid composition of juvenile turbot (Scophthalmus maximus). Aquaculture, v. 128, p , 1994.

17 CHOU, R.-L. et al. Optimal dietary protein and lipid levels for juvenile cobia (Rachycentron canadum). Aquaculture, v. 193, p , FAULK, C.K. et al. Ontogeny of the gastrointestinal tract and selected digestive enzymes in cobia Rachycentron canadum (L.). Journal of Fish Biology v. 70, p , 2007b. FAULK, C.K.; HOLT, G.J. Lipid nutrition and feeding of cobia Rachycentron canadum larvae. Journal of the World Aquaculture Society, v. 34, p , Advances in rearing cobia Rachycentron canadum larvae in recirculating aquaculture systems: live prey enrichment and greenwater culture. Aquaculture, v. 249, p , FAULK, C.K. et al. Growth and survival of larval and juvenile cobia Rachycentron canadum in a recirculating raceway system. Aquaculture, v. 270, p , 2007a. FRANKS, J.S. et al. Spontaneous spawning of cobia, Rachycentron canadum, induced by human chorionic gonadotropin (HCG), with comments on fertilization, hatching, and larval development. Proc. Caribb. Fish. Inst. v. 52, p , HASSLER, W.W.; RAINVILLE, R.P. Techniques for hatching and rearing cobia, Rachycentron canadum, through larval and juvenile stages. University of North Carolina Sea Grant College Program, UNC-SG-75-30, Raleigh, North Carolina. P. 26, HOFF, F. H., SNELL, T. W. Plankton culture manual, 5 th edition. Flórida: Nelsen, J. (Ed.), p. 160, HOLT, G.J. et al. A review of the larvae culture of cobia Rachycentron canadum, a warm water marine fish. Aquaculture, v. 268, p , 2007.

18 KANAZAWA A. Importance of dietary docosahexaenoic acid on growth and survival of fish larvae. In: Lee CS, Su MS, Liao IC. (Eds), Finfish Hatchery in Asia: Proceeding of finfish Hatchery in Asia 91. TML Conference Proceeding 3, p , KOVEN, W. et al. Advances in the development of microdiets for gilthead seabream, Sparus aurata: a review. Aquaculture, v. 194, p , KUBITZA, F. Nutrição e Alimentação dos Peixes. ESALQ-USP, Brasil. p. 74, LAVENS, P; SORGELOOS, P. (eds.). Manual on the production and use of live food for aquaculture. FAO Fisheries Technical Paper. No Rome, FAO. p. 295, LIAO, I.C. et al. Cobia culture in Taiwan: current status and problems. Aquaculture, v. 237, p , MERCHIE, G. Use of nauplii and meta-nauplii, p In: Manual on the production and use of live food for aquaculture. FAO Fisheries Technical Paper No Lavens, P. & Sorgeloos, P. (Eds.), p. 295, SARGENT, J. R. et al. The lipds. In: Haver, J. (Ed.), Fish Nutrition, 2 nd ed. NY, Academic Press, p , SARGENT, J. et al. Recent developments in the essential fatty acid nutrition of fish. Aquaculture, v. 177, p , SCHWARZ, M.H. Fingerling production still bottleneck for cobia culture. Glob. Aquac. Advocate 7(1), p , 2004.

19 SHAFFER, R.V.; NAKAMURA, E.L., Synopysis of biological data on the cobia, Rachycentron canadum. (Pisces:Rachycentridae). FAO Fisheries Synop. 153 (NMFS/S 153). U.S. Dep. Commer. NOAA Tech. Rep. NMFS 82. p. 21, WATANABE, T. Importance of Docosahexaenoic Acid in Marine Larval Fish. Journal of the Word Aquaculture Society, v. 24, p , 1993.

20 CAPÍTULO 1 EFEITO DA BIOENCAPSULAÇÃO DE ÁCIDOS GRAXOS ESSENCIAIS EM Artemia sp., ALIMENTADA COM PRODUTOS COMERCIAIS Artigo submetido ao comitê editorial do periódico cientifico Anais da Academia Brasileira de Ciências

21 Efeito da bioencapsulação de acido graxo essencial em Artemia sp. Alimentada com produtos comerciais Jose Luiz Sanches Gonçalves Junior I,III ; Leandro Portz II ; José Jerônimo de Sousa Filho III ; Aline Casais Tavares IV I Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Rua Rui Barbosa, 710, Centro, , Cruz das Almas, BA, Brasil. II Universidade Federal do Paraná (UFPR), Rua Pioneiro, 2153, Jd. Dallas, Palotina, PR, Brasil III Bahia Pesca, Av. Adhemar de Barros, 967, Ondina Salvador, BA, Brasil IV Laboratório de Pescados e Cromatografia Aplicada (LAPESCA), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Rua Barão do Jeremoabo, 147, Ondina, Salvador, BA, Brasil Palavra-chave: Ácidos graxos. Alimentação. Enriquecimento. Incorporação. Incorporação de acido graxo essencial em Artemia sp.. Zootecnia / Recursos Pesqueiros Jose Luiz Sanches Goncalves Junior, End. Av. Luiz Viana Filho, 6151, Ed. Ipanema, AP. 304, Paralela, Salvador, BA, Brasil. Tel: /

22 ABSTRACT: In marine fish hatchery the transition period of the live prey feed, they are necessary strategies for essential nutrients incorporation on diets, being necessary the enrichment technique with Artemia as vehicle. In the present study two types of treatments were accomplished for the enrichment to a rate of 0,6 g/106/artemia for a period of 12:00, totaling 24:00 of enrichment to a density of 150 Artemia/ml maintained in 35 psu and 28,4±0,5 ºC. The treatments were defined like 1:1 of n3 Yeast 60 and Red Papper (TR-1 = RED+YEAST) and 1:1 of n-3 Yeast 60 and Algamac 3050 (TR-2 = A3050+YEAST), respectively and appraised the profiles of acids essential fatty acids of the products and Artemia. The commercial products TR-1 and TR-2 as well as the enrichment Artemia for them, presented profiles significantly different (p <0,05) for the acid linoleic, DHA, total of AGPI, n-3 AGPI, n-6 AGPI and DHA/EPA. The fatty acid linolenic, ARA and EPA didn't present significant correlation among the treatments. The low efficiency in the incorporation of DHA and relationship DHA/EPA in TR-1 being used commercial enrichments; they suggest a retro conversion of that fatty acid for EPA. Key-words: Enrichment. Feeding. Fatty acids. Incorporation.

23 INTRODUÇÃO Na produção de pós-larvas de muitas espécies de peixes marinhos, tais como: pargo (Pagrus pagrus), garoupas (Epinephelus spp), robalos (Centropomus spp), vermelhos (Lutjanus spp), robalo europeu (Dicentrarchus labrax), atuns (Thunnus spp) podem ser oferecidos rotíferos Brachionus plicatili como alimento vivo inicial, e, posteriormente, Artemia sp. e Artemia salina (Branchipus stagnalis), após um período inicial com um alimento vivo menor. Entretanto, as larvas dos peixes marinhos são cultivadas geralmente utilizando apenas Artemia sp. na dieta, como alimento vivo por um período de tempo muito mais longo (Merchie 1996). Durante a fase de larvicultura de peixes carnívoros marinhos ocorre uma transição gradativa na alimentação, onde o rotífero é oferecido como primeiro alimento exógeno, sendo substituído gradualmente por náuplio de artêmia. Durante a transição do alimento vivo, as pós-larvas de peixes marinhos necessitam de dietas ricas em nutrientes essenciais, sendo necessária a técnica de enriquecimento utilizando-se a Artemia salina como veículo (Merchie 1996). Com o avanço da tecnologia na alimentação das pós-larvas de peixes marinho, esta pode ser melhorada através da técnica de bioencapsulação (enriquecimento) do alimento vivo com dietas que atendam as exigências nutricionais, sendo esta técnica de fundamental importância para o sucesso da larvicultura (Lavens and Sorgeloos 1996, Hoff and Snell 1999). Nas fases de náuplio e metanáuplio, o microcrustáceo Artemia spp. é um dos alimentos vivos mais utilizados na alimentação de peixes marinhos. Isto porque é de fácil obtenção através de cistos, é resistente a amplas faixas de parâmetros abióticos, à manipulação e a enfermidades, tem grande aceitabilidade, suporta altas densidades, são de fácil digestibilidade, um tamanho que varia de 400 a 600 micra e possuem uma movimentação ativa, ideal para estimular a captura pela pós-larva e se mantêm por um maior período de dias na alimentação, comparado com outros organismos como os rotíferos (Lavens and Sorgeloos 1996, Hoff and Snell 1999). A Artemia sp. apresenta um valor nutricional baixo para as pós-larvas de peixes marinhos; oito horas após a eclosão, os náuplios entram na fase de

24 metanáuplios, passando a se alimentar de pequenas partículas. Assim, para obteção de um valor nutricional ideal as artêmias utilizadas na alimentação inicial das pós-larvas de peixes marinhos, são submetidas ao processo de bioencapsulamento com nutrientes (Lavens and Sorgeloos 1996). O bioencapsulamento da Artemia sp. tem como função principal incorporar ao metanáuplio quantidades específicas de nutrientes essenciais como aminoácidos, ácidos graxos essenciais, vitaminas, imunonutrientes e probióticos, e assim, serem indiretamente biodisponibilizados às pós-larvas de peixes como alimento. O enriquecimento deve ser capaz de suprir as exigências nutricionais e microbiológicas da espécie de peixe em estudo, através da transferência bioquímica e microbiológica, fazendo com que o melhoramento tenha um impacto positivo na sobrevivência, crescimento e no desenvolvimento das pós-larvas de peixes marinhos em larvicultura (Lavens and Sorgeloos 1996, Hoff and Snell 1999). Um dos aspectos mais importantes para o desenvolvimento das pós-larvas de peixe marinho diz respeito ao fornecimento de ácidos graxos poli-insaturados (AGPI s) incluindo o ácido araquidônico (ARA, C-20:4 ω-6), o ácido eicosapentenóico (EPA, C-20:5 ω-3) e o ácido docosahexenóico (DHA, C-22:6 ω- 3) (Sargent et al. 1989, Kanazawa 1993, Watanabe 1993, Reitan et al. 1994, Lavens and Sorgeloos 1996, Barreto and Cavalcanti 1997, Hoff and Snell 1999). Os AGPI s e ARA s, possuem um importante papel na estrutura e função da manutenção das membranas, resistência ao esforço, desenvolvimento e funcionamento adequado do sistema nervoso e visual das pós-larvas (Merchie 1996). O presente estudo tem como objetivo avaliar diferentes estratégias de enriquecimentos sobre o perfil de ácidos graxos essenciais incorporados pelas Artemias sp. MATERIAL E MÉTODOS O experimento foi desenvolvido no Laboratório de Piscicultura Marinha da Fazenda Experimental Oruabo, Bahia Pesca S.A., Secretaria de Agricultura do Estado da Bahia, localizado no distrito de Acupe, Município de Santo Amaro BA Brasil. As análises laboratoriais foram realizadas no Laboratório de Pescados e

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