Ressonâncias do Medo na Urbanidade em O Som ao Redor

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1 Ressonâncias do Medo na Urbanidade em O Som ao Redor Por Bruno Saphira O diálogo entre cinema e urbanidade é tão antigo quanto o próprio cinema, e poderemos ver certamente formas diversificadas de abordar a cidade e as questões urbanas, de inseri- la numa trama, de ressalta- la ou especifica- la, e até mesmo assumi- la como personagem principal de uma obra. De filmes que ressaltam o dinamismo urbano da nascente cidade moderna como Berlin: Sinfonia de Uma Metrópole, passando pela apropriação da cidade como símbolo da desolação pós guerra para nascedouro do Neo Realismo Italiano, ou mesmo considerando a abordagem recorrente e um tanto quanto fetichista de cineastas como Woody Allen ao mostrar Nova Iorque na maioria de suas obras, veremos a cidade e as questões em torno das construção e transformação dos espaços urbanos com bastante frequência e considerável força na expressão cinematográfica. Tal força e frequência talvez se justifique pelo que sinaliza a pesquisadora Maria Helena Costa, no artigo A Cidade Como Cinema Existencial, de que a intimidade entre cinema e meio urbano possibilita, ao investigarmos essa correlação, um conhecimento mais acurado das relações entre espaço, tempo e cultura, arquitetura e as representações do eu e do outro. 1 Acredito que o filme O Som ao Redor visto pelo prisma dessa intimidade nos possibilita pensar a atualidade do contexto urbano das grandes cidade do país e, mais especificamente, seus elos não apenas com o passado da própria cidade mas com suas interligações com as zonas rurais. A paisagem urbana em O Som ao Redor não apenas ambienta as tramas e personagens do filme, mas se torna ela mesma personagem ao ser construída num contínuo processo de transformação e diálogo direto com os conflitos em que somos imersos na apreciação da obra. O que nos é apresentado é um recorte do contexto atual de muitos dos centros urbanos. As tramas do filme, 1 O artigo pode ser lido através do link: 2 O autor cita os pesquisadores Marcelo Lopes de Sousa, Mike Davis e Steven Flusty, na

2 aparentemente dispersas em seus desenhos narrativos giram em torno do que alguns teóricos chamam de cultura do medo, arquitetura do medo ou mesmo cidade do medo. O ensaísta Antônio Risério 2 identifica essa distinção que seria um fator para a militarização das cidade a partir da onipresença do medo. Segundo ele sempre houve violência nas cidades, mesmo nas cidades antigas. A distinção da atualidade não estaria na violência em si mas no espectro do medo que nos ronda. E isso seria responsável pelo uso cada vez mais seletivo que fazemos do espaço urbano, na autorreclusão noturna dos moradores das cidades, no uso de cercar elétricas para fins de defesa residencial. Tal fenômeno acarreta dentre outras coisas no que vemos em processo no bairro onde o filme se passa, com a verticalização e fortificação de áreas residências, em alguns casos com a privatização de áreas públicas, e criação de pequenos feudos de seguranças dentro do conglomerado urbano. O filme nos traz esse panorama de maneiras variadas, através ou do discurso direto de suas personagens ou através das muitas sequencias que aparentemente não cumprem função narrativa, mas que criam ou enriquecem a ambiência de segmentação dos espaços e consequente auto clausura em que se colocam a classe média e as elites num processo físico de segregação social sob a justificativa de cura do medo da violência nos grandes centros urbanos. Exemplos são muitos: logo após a sequencia de fotos que inicia o filme, que serão retomadas posteriormente nessa análise, vemos um plano sequencia em que acompanhamos uma pré- adolescente andar de patins entre carros estacionados numa garagem de edifício e logo entrar numa quadra cheia de crianças e babás, cercadas por grades. A cena transcorre com o aumento do barulho de uma serra de metais terminando a instalação de uma outra grade na janela de um apartamento do prédio vizinho. Ou a clausura da personagem Bia, que a todo momento se depara com a grande que protege a janela de sua casa sempre que vai observar o cachorro da casa vizinha, cujo latido é aparentemente seu maior foco de angustia. E, principalmente com a chegada de Clodoaldo, o chefe de um grupo de seguranças que aparece no bairro oferecendo seus serviços em troca da colaboração dos moradores. 2 O autor cita os pesquisadores Marcelo Lopes de Sousa, Mike Davis e Steven Flusty, na formulação das ideias do medo e militarização nas cidades.

3 Dos Cães de Guarda aos Guarda Costas O Som ao Redor é subdividido em três partes que apontam para a evolução de estratégias de buscar segurança num ambiente de medo. Em forte relação com a apresentação dos espaços cercados e das circunstâncias de isolamento está o desenrolar da linha narrativa que surpreendentemente se torna a principal do filme, ou que apresenta, ao contrário das outras de igual peso e presença, um percurso e uma motivação definidas. E ela está centrada na figura do segurança Clodoaldo. Grupos de segurança privados são comuns atualmente em bairros de classe média e alta nas grandes cidades brasileiras. Seus regimes de trabalho são similares aos apresentados no filme. A diferença se faz no que justamente pode nos dar o cinema ao recriar um ambiente real ou facilmente identificável à realidade, que é a potencialização de suas metáforas, das simbologias e significações latentes num contexto de forte apelo político e cultural. O bairro mostrado no filme tem a maior parte de suas propriedades pertencentes à família de um Coronel. O doutor Francisco. Não certamente de patente militar, mas o velho coronel latifundiário do nordeste brasileiro, que encarna o processo de dominação e violência no campo, figura já bem descrita e analisada por pensadores brasileiros como Sergio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre, na formação de uma sociedade personalista e patriarcal cujo poder se exercia de forma arbitrária, seguindo não princípios da racionalidade do bem público, mas guiado pela cordialidade do chefe maior, que nada tem a ver com gentileza, mas sim com a cordis, o coração, os laços familiares e afetivos. Essa caracterização do espaço e das personagens traz também um viés do olhar sobre o espaço urbano, nesse caso mais especificamente sobre os centros urbanos do nordeste do Brasil, como um espaço em que as relação de poder presentes no campo se recompõem, se reacomodam num outro tempo e num outro ambiente. Mantendo elos, como se pode ver na personagem da empregada domestica de João, um dos netos do coronel, e da própria motivação de Clodoaldo revelada ao final do filme. Ao passo que acompanhamos a incorporação dos seguranças no cotidiano do bairro, abre- se também, principalmente através de duas personagens um outro

4 vinculo conflitante da cidade com seus moradores. O dinamismo de transformação da cidade que pode ser uma fator de fascinação traz também uma força de desenraizamento, de desterritorialização. Percebe- se isso mais claramente através do personagem Anco. Filho do coronel e também corretor dos imóveis da família, Anco mantem sua casa com as características que estão sendo abandonadas por conta da reurbanização do bairro. Umas de suas cena é emblemática do tipo de relação que ele mantem com o lugar, quando na parte final do filme, ao sair de casa e olhar para sua rua a vê como possivelmente era 20, 30 anos atrás. Sofia, namorada de João, que havia morado em uma das casas da rua, também vive uma certa melancolia ao revisitar sua antiga morada, também da família de João, e se deparar com adesivos que havia colado quando criança no teto de seu quarto. A conversa com ele sobre o destino da casa é também emblemática desse novo momento que vive a cidade. Será demolida para construção de um prédio de 20 andares. O Medo e o Som ao Redor Um dos aspectos mais interessantes do filme na construção dessa ambiência que constrange a classe média e a elite econômica nas grandes cidade, é a manutenção de um estado de tensão e medo sem que nada aconteça propriamente para justifica- la. Estado esse que transborda as personagens do filme e atinge o espectador. E é certamente no trabalho com os sons ambientes e trilhas sonoras que o filme atinge e mantem essa tensão. Pode- se perceber uma constância de ruídos de construção, de carros, de eletrodomésticos, que são cadenciados quase que imperceptivelmente na condução desses estados ao longo do filme. Em alguns momentos na criação de expectativas que não se concluem e em outros, mais fortemente na terceira e última parte do filme, quando são incorporados à narrativa momentos que fogem ao registro realista e abrem o filme para composições com maior apelo poético, como o pesadelo da filha de Bia ao ver uma multidão de pessoas, ladrões certamente, invadindo sua casa durante a madrugada, ou a transformação do banho de cachoeira de João, nas terras do avó, em um banho de sangue.

5 O desfecho do filme, parece trazer uma unidade para essas construções aparentemente aleatórias. A vingança deflagrada parece dar sentido a toda construção do medo no restante do filme. Desde a sequencia das fotos iniciais, em que aparecem a Casa Grande e a Senzala, senhores e escravos, acompanhados por um tema musical que lembra os filmes de faroeste. Até a sutil utilização do som da máquina de lavar nos momentos de espera de Clodoaldo para se encontrar com o coronel, aumentando a sua e a nossa tensão. À presença de trechos sonoros de um filme trash do cineasta Ed Wood na visita de João e Sofia a um cinema abandonado na cidade de Bonito, território do coronel. E o estouro de bombas de São João que se confundem com os tiros da vingança. Todos os elemento parecem ganhar corpo a partir dessa motivação da personagem Clodoaldo. Não seria ele o motivador do medo que aflige à cidade? Sua vingança é direcionada, certeira. Mas tal personagem traz consigo um contexto mais amplo de violência e segregação que compõe o espectro do medo que direciona hoje a transformação de nossos centros urbanos. O Som Ao Redor traz a cidade em muitas perspectivas. De suas mudanças, de suas correlações com seus entornos e das relações entre a cidade e seus moradores. Não a cidade do Recife, exclusivamente. Mas as grandes cidades brasileiras.

Fig. 247 Storyboard 2

Fig. 247 Storyboard 2 173 Fig. 247 Storyboard 2 174 Fig. 248 Storyboard 2 Fig. 249 Storyboard 2 175 176 3.2.5 Edição visual e sonora Foram realizadas algumas etapas: análise, seleção e edição da imagem (correção de cor, luz,

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