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2 Realização Pat rocínio APOIO CO-Pat rocínio Apoio Inst itucional Viagem do Conhecimento

3 A viagem e o conhecimento Viagem e conhecimento são dois conceitos que se fundem. A idéia de viagem como o movimento de sair do ambiente cotidiano para melhor entender a diversidade e a complexidade do nosso hábitat planetário + a idéia de conhecimento como a percepção de uma verdade aplicável = a melhor compreensão de como o mundo funciona. Se viagem e conhecimento fossem duas avenidas, a esquina em que se encontrariam seria certamente a da Geografia. As viagens podem ser muito transformadoras. O conhecimento também. É por isso que a Editora Abril e a National Geographic com o apoio de patrocinadores, escolas, educadores, alunos e suas famílias orgulham-se de poder contribuir com o projeto Viagem do Conhecimento, que nos ajudará a todos a perceber que, sim, estudar, viajar e conhecer são movimentos a uma só direção. Ao organizar esse projeto, que oferece novos conteúdos às salas de aula e uma série de incentivos a professores, alunos e escolas, podemos afirmar que, assim como a viagem pode ser grande aliada no aprendizado, a dedicação ao estudo poderá ser recompensada. Que este livro, professor, possa servir de porta de entrada à valorização do ensino e do conhecimento de Geografia. E que o estímulo ao conhecimento seja uma oportunidade de pavimentar o caminho das novas gerações na construção de um mundo melhor. Caco de Paula, jornalista, diretor do Núcleo de Turismo da Editora Abril Guia para Educadores

4 Roberto Giansanti, 2008 Editora Abril S.A., 2008 Coordenação: Caco de Paula, Matthew Shirts e Gabriela Yamaguchi Edição: Dante Grecco Consultoria: Roberto Catelli Jr. e Sueli Angelo Furlan Colaboração: Ozimar Pereira Revisão: José Américo Justus Projeto Gráfico e Ilustrações: FazFazFaz Logotipo Viagem do Conhecimento: Fess Kobbi Produção Gráfica: Jairo da Rocha {[ }] National Geographic Brasil Av. das Nações Unidas, 7221, 14º andar, Pinheiros, São Paulo, SP, Brasil, CEP Dados Int ernacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Giansanti, Roberto Viagem do conhecimento National Geographic Brasil : guia para educadores / Roberto Giansanti. -- São Paulo : Editora Abril, Bibliografia ISBN Conhecimento 2. Educação 3. Geografia 4. Projeto Viagem do Conhecimento 5. Turismo 6. Viagem 7. Viagens - Guias I. Título CDD-910 Índices para catálogo sistemático: 1. Geografia e viagem 910 Viagem do Conhecimento

5 Carta aos educadores O projeto Viagem do Conhecimento, idealizado pela Editora Abril e pela revista National Geographic Brasil, foi criado com o objetivo de disseminar entre os jovens brasileiros o que se chama de cultura de viagem. Um passaporte seguro para conhecer, valorizar e respeitar a diversidade existente entre os lugares, povos e culturas, como recomenda a Organização Mundial do Turismo (OMT), órgão das Nações Unidas. A finalidade desse projeto é oferecer aos estudantes do ciclo final do Ensino Fundamental e Ensino Médio de nosso país a oportunidade de, por meio de pesquisas, exercícios e projetos coletivos, ampliar seus conhecimentos sobre a realidade brasileira e mundial, contribuindo para a formação de gerações futuras conscientes e comprometidas com os espaços em que vivem. Com esses conhecimentos, os estudantes estarão habilitados a participar do Desafio National Geographic 2008, também realizado pela Editora Abril e elaborado para testar e aplicar o que aprenderam. Com base nesses objetivos, o projeto apresenta este Guia para Educadores, que traz orientações para apoiar o trabalho dos professores de Geografia e dos alunos, com temas de interesse também para as disciplinas de História, Língua Portuguesa, Arte, Ciências, entre outras. Baseada em conhecimentos geográficos, a cultura de viagem mobiliza e articula também saberes ligados ao turismo, à história, ao meio ambiente e à cultura. Um primeiro passo dessa viagem é a busca pelo estudante de novos conhecimentos que, em conexão com as aprendizagens realizadas na escola e em outros âmbitos educativos, têm a intenção de permitir que ele construa de forma autônoma seu próprio itinerário formativo. Este Guia contém também orientações para pesquisas e busca de novas informações em diferentes fontes. Dessa forma, os estudantes, com apoio do professor, poderão investigar e debater temas relevantes da realidade contemporânea, além de desenvolver habilidades de leitura, produção de textos e de atitudes e valores baseados na cooperação, no trabalho coletivo e respeito aos direitos humanos fundamentais. Assim como viajar é conhecer, conhecer é também viajar, um estímulo para aprender, descobrir e experimentar novas formas de apreensão do mundo. O autor Roberto Giansanti é autor de livros didáticos de Geografia para Ensino Fundamental, Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos, colaborador da ong Ação Educativa e colaborador das revistas Veja na Sala de Aula e Nova Escola, publicadas pela Editora Abril. Guia para Educadores

6 Apresentação Este Guia do Educador tem o objetivo de ser um importante suporte de apoio ao professor em sala de aula. Sua intenção é propiciar elementos e conexões que o ajudem a levar mais conhecimento aos estudantes. E, assim, ajudá-los a ter um bom desempenho nas provas que caracterizam o Desafio Nat ional Geographic. Basicamente o livro está dividido em três grandes núcleos. O primeiro ( Introdução ) procura levantar as raízes históricas do que entendemos hoje como viagens bem como analisar sua evolução ao longo dos séculos, além de refletir sobre o que o turismo significa nas sociedades modernas, sua importância econômica, cultural e social e como ele se insere no âmbito escolar. O segundo núcleo, intitulado Orientações de Estudo, procura abordar de forma mais profunda a relação entre o conhecimento geográfico e a cultura de viagem, além de oferecer sugestões de temas e atividades para o professor trabalhar com seus estudantes em sala de aula. Por fim, Testando Conhecimentos, traz vários exercícios que servem como modelos de questões apropriados aos objetivos do projeto Viagem do Conhecimento.

7 Bem-vindo a bordo! Viajar, para os mais jovens, faz parte da educação. Para os mais velhos, é parte da experiência. Francis Bacon ( ), filósofo inglês. Prezado educador, É com muito prazer que o recebemos neste projeto. Sua presença e participação são fundamentais para o sucesso do Desafio National Geographic Brasil. Todas as pessoas envolvidas na criação e na execução deste programa pioneiro no país estão conscientes de que qualquer projeto educativo só é bem-sucedido quando o professor se sente motivado, estimulado e sensibilizado a participar de sua construção. Acreditamos ainda que o relacionamento entre os profissionais envolvidos no Desafio National Geographic Brasil e educadores pode ser muito enriquecedor. Estamos certos de que esse projeto poderá colaborar para a melhoria do ensino de Geografia no Brasil. Ao longo de 2007, educadores e jornalistas pesquisaram sobre o que é feito pelo mundo afora em termos de atividades extracurriculares criadas para estimular os alunos e valorizar os professores. Uma delas, realizada nos Estados Unidos desde 1989, é a National Geographic Bee (www.nationalgeographic.com/geographybee), que se caracteriza por ser um programa educacional patrocinado pela renomada National Geographic Society (entidade que também publica a revista National Geographic Brasil). Em sintonia com o que acontece em outros países, também resolvemos fazer a nossa parte. No Brasil, as provas serão preparadas levando-se em conta nossa realidade social, cultural e educacional. Além deste guia, o educador responsável pelas orientações a seus alunos contará também com outros materiais de apoio, principalmente textos disponibilizados no site. Participar desse programa é uma excelente oportunidade para enriquecer ainda mais a formação de nossos estudantes. Eles só têm a ganhar. Além de adquirirem novos conhecimentos, ainda terão a chance de viajar e conhecer melhor o Brasil. Portanto, seja bem-vindo a bordo! Dante Grecco, editor Guia para Educadores

8 Viagem do Conhecimento Competição estudantil internacional de Geografia Além da Nat ional Geographic Bee, desde 1993 a Nat ional Geographic Societ y organiza também a Nat ional Geographic World Championship. Esta competição estudantil internacional reúne, a cada dois anos, alunos com até 16 anos de idade que venceram ou se destacaram nos certames realizados em seu país. As provas, que também procuram aferir os conhecimentos geográficos dos estudantes, já foram realizadas em Londres (Inglaterra), Toronto e Vancouver (Canadá), Budapeste (Hungria) e nas cidades norte-americanas de Tampa (Flórida) e San Diego (Califórnia). Na última edição, em 2007, em San Diego, 18 delegações internacionais participaram da disputa, cada uma delas formada por três estudantes. O México 2 foi o campeão. Também participaram da competição estudantes da Alemanha 7, Argentina 1, Austrália 17 17, Bulgária 11, Canadá 4, Estados Unidos 3, França 6, Gana 13, Hungria 9, Índia 14, Polônia 8, Reino Unido 5, Romênia 10, Rússia 12, Singapura 16 e Taiwan Viagem do Conhecimento

9 Guia para Educadores 11

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11 Int rodução 15 Uma pequena história das viagens 16 Viagens e turismo 20 O aumento da mobilidade geográfica individual 22 A força econômica do turismo e das viagens 24 Viagens e turismo no âmbito escolar 30 Orientações de estudo 34 Dica 1 Ut ilize seu olhar geográfico 36 cidades e práticas de viagem 40 turismo e território 43 A questão da distância 44 A diversidade dos espaços 46 Dica 2 Escolha suas est rat égias de estudo 48 na escola 49 outros espaços de aprendizagem 55 Dica 3 Use os recursos da int ernet 56 Dica 4 Aprenda a t rabalhar com mapas e out ros recursos 60 Mapas para viagens e turismo 66 gráficos e tabelas 70 Dica 5 Leia e escreva para saber mais e compreender melhor 74 leitura e produção de textos em Geografia 78 Dica 6 Fique de olho no que acont ece por aí 84 T estando conhecimentos 92 Indicações de font es 106 Notas 112 Referências bibliográficas 119

12 Kublai: Não sei quando você encontra tempo de visitar todos os países que me descreve. A minha impressão é que você nunca saiu deste jardim.

13 Introdução Marco Polo: Todas as coisas que vejo e faço ganham sentido num espaço da mente em que reina a mesma calma que existe aqui. Italo Calvino, As cidades invisíveis. As propostas deste Guia para Educadores têm o intuito de propiciar que professores e alunos realizem estudos e projetos coletivos de trabalho voltados ao tema cultura de viagem. Mas o que isso significa? A idéia é que, a partir dos conhecimentos novos sobre os lugares, sobre as paisagens e as culturas 1 e seus respectivos modos de vida, os estudantes possam ter despertado o gosto pelas viagens e buscar caminhos para efetivamente realizá-las. A prática social de viajar e visitar outros lugares possui grande potencial transformador na vida das pessoas, uma vez que as coloca em contato com a diversidade das culturas humanas. Quem viaja sempre traz na memória uma história para contar sobre as experiências vividas na interação com os outros e com novos lugares. Viajar também desperta reflexões sobre a sua própria condição de existência, seus valores e seus espaços de vida. A proposta é que um projeto educativo desse tipo seja realizado de modo a valorizar os conhecimentos que os alunos já possuem, privilegiando seus interesses, curiosidades e necessidades de aprendizagem e permitindo o diálogo entre os saberes da prática e os saberes escolares. O fio condutor é o conhecimento geográfico, mas é importante também que as proposições se organizem de forma interdisciplinar e contextualizada, pois a cultura de viagem é um convite a temas e assuntos transversais às disciplinas escolares. Guia para Educadores 15

14 Introdução Uma pequena história das viagens Direi inicialmente, a fim de proceder com ordem, que os selvagens do Brasil, habitantes da América, chamados Tupinambás (...), não são maiores nem mais gordos do que os europeus; são porém mais fortes, mais robustos, mais bem dispostos e menos sujeitos a moléstias (...) (Jean de Léry, calvinista e estudante de teologia, participou das tentativas frustradas de criação da França Austral). LÉRY, Jean de. Viagem à terra do Brasil. São Paulo: Martins Fontes; Edusp, 1972, p. 73. Ao contrário do que se possa pensar, conhecer novos locais e outras realidades culturais e sociais não é historicamente um fenômeno recente. A prática de viajar é quase tão remota quanto a própria história humana. Há registros de viagens na Antiguidade clássica desvinculadas de guerras, conquistas territoriais ou migrações. Entre os gregos, por exemplo, os cidadãos livres viajavam para peregrinações religiosas ou para participar dos Jogos Olímpicos a cada quatro anos em Olímpia. O mesmo ocorria durante no Império Romano, que oferecia às suas elites opções de viagens, com arenas para espetáculos, termas para banhos em estâncias hidrominerais, balneários e práticas desportivas. Em seu auge, o império estendia-se do Oriente Médio até a Grã-Bretanha, atingindo regiões como Gália, Espanha, Grécia e Oriente Médio. Para garantir a unidade política e o desenvolvimento do comércio e atividades militares, construiu-se uma extraordinária rede de 80 mil km a 85 mil km de estradas ligando as províncias. As tecnologias e o planejamento da construção de estradas foram tão eficientes que se constituíram no mais rápido meio de deslocamento terrestre até o surgimento da máquina a vapor. De Roma irradiavam 29 estradas principais, dentre as quais a Via Apia, com extensão de 660 km, que começou a ser construída em 312 a.c. daí o antigo adágio de que todos os caminhos levavam à capital do império. As técnicas de pavimentação consistiam de camadas superpostas de pedras largas e chatas na base inferior e pedras menores nas partes superiores, unidas por argamassa. A largura variava entre 2,5 metros e 4 metros. Em alguns pontos a Via Apia chegava a 10 metros de largura. Com traçado retilíneo, independentemente do obstáculo a superar, as vias permitiam deslocamentos 16 Viagem do Conhecimento

15 Um grande Império unido por estradas Caledônia Escócia Hibérnia Londinium britânia (Londres) Inglat erra Oceano Atlântico Lutetia (Paris) Burdigala (Bordeaux) França Ravena Aquincum (Budapeste) Mar Cáspio Gades (Cádiz) Segóvia Hispania Espanha Corduba (Córdoba) Á f r i c a S a a r a Mapa das estradas romanas em 117 d.c., quando o império atingiu sua maior expansão. Os nomes de algumas cidades atuais aparecem entre parênteses. Arelate (Arles) Salonae Tarraco (Tarragona) Roma (Solin) Ostia Neapolis (Nápoles) Carthago tunísia Syracusae (Siracusa) Leptis Magna km Grécia Arábia (Atenas) Athenae Creta Mar Negro Bizâncio Constantinopla (Istambul) Alexandria Egito Turquia Side Antiochia (Antióquia) Síria Nazaré Hierosolyma Aelia Capitolina (Jerusalém) Mar Morto Império Parto suas anotações Guia para Educadores 17

16 de até 60 km por dia em cavalos ou veículos de tração animal. Essa rede garantia o rápido deslocamento das legiões romanas, mensageiros e viajantes, com pontes, fortificações, acampamentos de legionários, marcos de sinalização, pousos para troca de cavalos, vilas e pontos de parada em seu percurso. Com a decadência do Império Romano, por volta do século V d.c., esse sistema de deslocamento foi desestruturado. Assim, ao longo da Idade Média, passou-se a um contexto de restrições ao deslocamento no cenário europeu. As distâncias percorridas para o homem comum passaram a ser as que podiam ser feitas a pé. Poucos eram os que podiam ter, por exemplo, um cavalo. Portanto, a vida da maioria das pessoas transcorria no âmbito local. A partir do século XVI, com a expansão marítimo-comercial, desenvolveu-se a possibilidade técnica de realizar viagens mais rápidas a bordo de naus e caravelas. Esse avanço criou o interesse pelo novo e pelo exótico. Assim, viajantes e naturalistas europeus, a partir de suas incursões pela América, Ásia, África e Oceania, produziram uma vasta literatura, constituída de diários de viagem, relatórios oficiais, cartas a familiares e memórias, ou ainda literatura fantástica e romances de aventura. 2 Os relatos de viagens traziam descrições de traços culturais, hábitos, modos de vida, características físicas dos habitantes e da flora e fauna. Em geral esses relatos eram marcados pelo estranhamento em relação a um mundo novo, distinto de seus padrões culturais. No caso do Brasil, os viajantes que para cá vieram produziram variados relatos, a partir do século XVI, não raro extasiados com a descoberta de um novo Éden, um paraíso exuberante sobre a Terra. De outra parte, contribuíram também para formar estereótipos sobre os povos que aqui viviam. 3 { 18 Viagem do Conhecimento

17 [ }] Espaço, tempo e distância na Idade Média O espaço e o tempo adquiriam aos olhos do homem da Idade Média um valor muito mais considerável do que aquele a que foram rebaixados em nossos dias. No entanto, a época dispunha deles com uma liberalidade cujo segredo nossa atividade moderna quase perdeu. A proximidade é então definida pela distância que pode ser percorrida, ida e volta, entre a aurora e o pôr-do-sol. Toda vez que era necessário passar a noite fora de casa, era uma viagem. A vida econômica, administrativa e política organizou-se portanto em pequenos distritos, cuja dimensão dependia do tamanho do passo do homem ou do cavalo. (...). Cada qual, por viver fechado em seu próprio mundo, desenvolve particularidades, originalidades ou especialidades: maneiras de falar (pronúncias e expressões), de se vestir, de comer, de se divertir, de trabalhar, seus santos, seus grandes homens e até seu direito. D HAUCOURT, Geneviève. A vida na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, suas anotações Guia para Educadores 19

18 Introdução Viagens e turismo Aquilo que hoje chamamos de turismo constituiu-se, a partir do século XIX, como um sistema de massas de viagens regulares em busca de lugares, paisagens e culturas distintas. Antes disso, no entanto, eram freqüentes as viagens empreendidas por jovens da aristocracia por cidades européias, o que era chamado de grand tour, para conhecer lugares e a cultura greco-romana, base do mundo ocidental, e em busca do aprazível, da fruição visual e do conhecimento. Gradativamente, essa prática se expandiu para os trabalhadores, que escapavam das cidades industriais inglesas em que viviam em busca de descanso nos campos, montanhas ou litoral. 4 Há registros também do mesmo período de viagens de lazer de plantadores da Jamaica a estâncias hidrominerais e balneárias na costa atlântica norte-americana nos verões. 5 Assim, o turismo nasce como atividade regular e organizada na Europa Ocidental do período da Revolução Industrial, em que começa a ter lugar uma nova ordem do mundo, da sociedade em geral e do trabalho em particular. 6 Contribuíram para o seu advento e massificação as sucessivas inovações nos transportes, com a locomotiva a vapor, as ferrovias e a organização social baseada no trabalho, com a sua contraface no ócio, lazer ou descanso. Em períodos mais recentes, já no século XX, a introdução do avião e do automóvel vai permitir maior fluidez nos deslocamentos para quem tem acesso a esses meios. 20 Viagem do Conhecimento

19 {[ }] Por que e como viajar? Se nossa vida fosse dominada por uma busca da felicidade, talvez poucas atividades fossem tão reveladoras dessa dinâmica em todo o seu ardor e seus paradoxos como nossas viagens. Elas expressam por mais que não falem uma compreensão de como poderia ser a vida, fora das restrições do trabalho e da luta pela sobrevivência. (...) Somos inundados de conselhos sobre os lugares aonde devemos ir, mas ouvimos pouquíssimo sobre por que e como deveríamos ir. Alain de Botton, filósofo e professor da Universidade de Londres. DE BOTTON, Alain. A arte de viajar. Rio de Janeiro: Rocco, 2003, p. 17. suas anotações Guia para Educadores 21

20 Introdução O aumento da mobilidade geográfica individual O turismo e as viagens são, sem dúvida, importantes vetores de um traço essencial do mundo contemporâneo, o aumento da mobilidade geográfica individual. Esse aumento está associado à maior acessibilidade 7 pela oferta de transporte e seu uso efetivo, à motorização de famílias e indivíduos (com o advento do automóvel, ainda que não seja para todos), ao tempo livre, ao relativo aumento da renda e sua existência regular e à ampliação do espectro de espaços freqüentados. 8 Nesse quadro, disseminam-se as práticas de viagem para lazer e descanso, ampliando a possibilidade de contato direto com outras regiões, países, cidades, culturas, línguas e outros hábitos e valores. 9 Como objeto de estudo geográfico, o turismo pode ser compreendido como um subsistema estruturado em atividades, atores, espaços e instituições, além de práticas constituídas por deslocamentos de pessoas e uma inscrição fora do cotidiano. 10 Nesse sentido, as práticas turísticas configuram-se como o outro do cotidiano, supondo o distanciamento dos indivíduos de sua residência e espaços de vida habituais. Conforme a Organização Mundial do Turismo, o turismo é definido como a atividade em que as pessoas viajam para lugares distintos dos que vivem e lá permanecem em período de tempo inferior a um ano consecutivo, com fins diversos. Existem inúmeros quadros de leitura e classificações para designar as modalidades de turismo, entre eles os que se referem a práticas turísticas passadas, sobretudo das elites européias no século XIX (alpinismo, climatismo, hidroterapia, tours ou esportes de inverno), ou a categorias espaciais e seus usos, como o de balneário, de montanha, ecológico ou rural. Os operadores do mercado de turismo atual, por sua vez, lidam com nichos e pacotes turísticos para públicos específicos: por faixa etária (como a Terceira Idade ), nível de renda (popular ou de luxo), espaços (praia, montanha, picos nevados, rural, urbano, ecoturismo), cultural (religioso), motivação (saúde, compras, eventos, de aventura), entre outros Viagem do Conhecimento

21 suas anotações Guia para Educadores 23

22 Introdução A força econômica do turismo e das viagens Nas sociedades contemporâneas, O turismo ganha a cada ano importância como dimensão econômica que contribui para a criação de riquezas em diferentes escalas 12. Segundo relatório de 2007 (ano-base 2006) da OMT 13, foram 846 milhões de chegadas de turistas internacionais em 2006 em todo o mundo, o que corresponde a um aumento de 5,4% em relação ao ano anterior. O ingresso de recursos do turismo internacional alcançou a marca de US$ 733 bilhões (ou 584 bilhões de euros) nesse ano. Estima-se que, direta ou indiretamente, o setor represente algo em torno de 12% do PIB mundial. O destino mais procurado é a Europa, com 51% do total de ingressos, com registro de aumento importante dos fluxos em direção a países da África e da Ásia. Entre os países, individualmente, destacamse França, China, Espanha, Estados Unidos e Itália. Apesar das elevadas receitas, o turismo internacional representa menos de 20% do turismo mundial. Assim, boa parte da atividade está concentrada nos mercados domésticos. Entre os principais emissores de turistas para o Brasil estão Argentina, Estados Unidos, Portugal e Itália 14. O turismo receptivo internacional revela forte concentração espacial em quatro estados da federação: em 2003, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Paraná receberam 88% dos turistas estrangeiros. Entra nessa conta os que se deslocam a negócios, sobretudo para centros urbanos como São Paulo. O mesmo ocorre com o mercado doméstico, com 55% do fluxo turístico absorvido por São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia. Essa modalidade revela também baixos dispêndios da parte dos turistas. Em 2001, quase a metade dos turistas 24 Viagem do Conhecimento

23 suas anotações Guia para Educadores 25

24 Introdução que circularam no território nacional hospedou-se em casa de amigos ou parentes. 15 Vale a pena fazer um destaque para o papel do estado e do município de São Paulo. No âmbito estadual, segundo a Pesquisa Anual de Serviços realizada pelo IBGE em 2003, São Paulo ficou com 44% da receita bruta de serviços em atividades características do turismo entre as unidades da federação. O Rio de Janeiro, segundo colocado, deteve 20% dessa receita. Já a Pesquisa de Orçamentos Familiares , também do IBGE, revelou que São Paulo foi responsável por 27,8% dos gastos com viagens não rotineiras das famílias brasileiras, seguido a distância por Minas Gerais (12,5%) e Rio de Janeiro (10,2%). Portanto, um peso econômico considerável tanto na recepção quanto na emissão de visitantes. O município de São Paulo abriga 6% da população brasileira e aproximadamente 15% do Produto Interno Bruto (PIB) do país o terceiro maior, atrás apenas da União e do estado de São Paulo. Segundo informações coletadas em 2007 pela São Paulo Turismo, empresa oficial do setor, a capital paulista recebe em média 9 milhões de turistas a cada ano. Desse total, 2,5 milhões vêm de fora do país. Cerca de 68% dos norte-americanos que chegam ao Brasil se dirigem a São Paulo. O mesmo ocorre com 58% dos que vêm da Alemanha. Os dados mostram ainda que quase 500 mil empregos diretos ou indiretos são gerados pelo setor de turismo na cidade. Cerca de metade dos visitantes vem a negócios e os demais em busca de lazer, compras ou serviços não vinculados ao turismo, como saúde e educação. O subsetor de negócios e convenções revela aqui também forte concentração espacial: são 90 mil eventos por ano na cidade, que concentra também 75% do mercado nacional de feiras de negócios. A concentração econômica na capital paulista aparece também em dados superlativos sobre a infra-estrutura de recepção: 410 hotéis com 46 mil 26 Viagem do Conhecimento

25 suas anotações Guia para Educadores 27

26 Introdução quartos, dois aeroportos internacionais, 20 centros de feiras e exposições e 12,5 mil restaurantes. A pesquisa Caracterização e Dimensionamento do Turismo Internacional no Brasil, feita em 2004 e 2005 pelo Ministério do Turismo, Embratur e Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), revelou ainda um dado surpreendente: a cidade é o terceiro principal destino de lazer, atrás apenas de Rio de Janeiro e Foz de Iguaçu e à frente de pólos consagrados nessa área, como Florianópolis, Salvador, Fortaleza e Natal. Esse incremento tem especial importância para os espaços turísticos criados por e para o turismo 16. Com freqüência, tais espaços, muito variados, são os lugares, envolvendo tanto estações turísticas como cidades ou sítios turísticos. Colocam-se para essas áreas os desafios de superar a dependência em relação a uma única atividade, bem como de manter a capacidade de recepção e atendimento, de ajuste de suas infra-estruturas e funções e a conservação dos bens, objetos e espaços 17. Da mesma forma, conter efeitos deletérios como a especulação imobiliária, que expulsa populações locais, os usos que causam poluição ambiental e a privatização de espaços públicos como ocorre em praias, matas, rios e cachoeiras explorados por empresas de ecoturismo. Embora ainda haja forte predominância de análises econômicas sobre o turismo, outras frentes de pesquisa e produção de conhecimentos sobre o tema vêm se constituindo, como os estudos sobre as relações entre turismo, desenvolvimento local e capital social e sobre turismo relacionado a gênero, igualdade racial, comunidades quilombolas, povos indígenas e ribeirinhos. Há também pesquisas sobre turismo social, como a da visitação estrangeira a favelas situadas em grandes centros urbanos, como o Rio de Janeiro. 18 { 28 Viagem do Conhecimento

27 [ }] Lugares de passagem O pintor norte-americano Edward Hopper (www.edwardhopper.com) retratou em sua obra espaços destinados aos viajantes. Cruzando de carro seu país por diversas vezes, entre as décadas de 1930 e 1950, concentrou-se em lugares esquecidos e paisagens desprezadas, mas sem os quais as viagens não seriam possíveis: motéis de beira de estrada, postos de gasolina, estações ferroviárias, quartos de hotel, rodovias e outros. Como destaca Alain de Botton, o artista tinha especial interesse por figuras humanas solitárias e ensimesmadas, mas, ao mesmo tempo, em seu isolamento, participantes de uma comunidade formada por uma legião de pessoas do mesmo tipo que freqüentavam aqueles espaços públicos. suas anotações Guia para Educadores 29

28 Introdução Viagens e turismo no âmbito escolar As orientações e discussões expostas anteriormente encontram abrigo em referências e marcos legais e pedagógicos que regem a educação básica no Brasil. Entre eles, está o artigo nº 32 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9.394, de 20/12/1996), que institui que a formação do cidadão deve se dar mediante a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade, ao lado do pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo. Da mesma forma, que a aprendizagem esteja apoiada na aquisição de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores, e no fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social. Concorre para a consecução desses princípios uma prática corrente entre os professores de Geografia, que é a de promover excursões, trabalhos de campo, estudos do meio e visitas a espaços diversos como fonte de conhecimento sobre outras realidades. Entre esses espaços estão as unidades de conservação, nascentes de rios, cidades históricas, fábricas, fazendas antigas, usinas hidrelétricas, entre muitos outros. O turismo é um tema contemplado nos Eixos, temas e itens de Geografia a serem desenvolvidos nas séries finais do Ensino Fundamental. Entre os temas sugeridos nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN, 1998) para o segmento estão a expansão do turismo no âmbito do Mercosul e as relações entre indústria do turismo e questões ambientais. Dada a sua relevância, o que se espera é que ele possa vir a ter em breve o mesmo tratamento dispensado a temas consagrados na geografia escolar, como a produção agrícola e industrial Viagem do Conhecimento

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