A formação de um Centro de convivência inspirado na Antroposofia. Mônica Rosales

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1 A formação de um Centro de convivência inspirado na Antroposofia Maria Lucia D Andréa Andrade Mônica Rosales O Centro de Convivência da Associação Joaquim está inspirado na Antroposofia, O estudo do Homem, fundada por Rudolf Steiner. Nosso programa tem como princípios a Salutogênese e o cuidado com os Sentidos, na visão antroposófica, pautado na trimembração humana: o pensar, o sentir e a vontade. É comum observarmos o quanto a pessoa com idade mais avançada tende a focar sua atenção em sintomas e doenças. Atualmente uma nova linha de pesquisa, a Salutogênese se ocupa com a origem da saúde e, portanto, com as fontes da saúde física, anímica e espiritual. A explosão dos custos na saúde pública vem trazendo uma abertura para a nova concepção de saúde, para a Salutogênese, em um âmbito internacional. De onde vem a saúde? Como ela pode ser fortalecida? Tornar-se sadio significa tornar-se inteiro. Quanto mais o ser humano se sente parte de um todo, baseando-se numa perspectiva abrangente, tanto mais ele contribui não só para o seu bem estar, mas também para a prosperidade do todo. Quanto mais isolado, e quanto mais desconexa for à ação e seu trabalho, tanto maior o risco de se tornar um fator de doença no processo evolutivo. Abraham Maslow, um dos fundadores da psicologia humanista, ao avaliar pessoas com saúde anímica, descobriu que as mais saudáveis tinham tido experiências de caráter espiritual. Descobriu também que na alma doente há um núcleo sadio. Quando este é fortalecido adequadamente, a pessoa consegue lidar melhor com seus problemas e interagir de forma mais saudável com as pessoas ao seu redor. Um princípio da salutogênese é a resiliência ou força de resistência. Não só a hereditariedade e o meio, mas o fator relacionamento humano é de suma importância para a resiliência. São decisivas três características essenciais para este fator: Honestidade e franqueza, Amor e Respeito para com a autonomia e a dignidade própria do outro mesmo que este se encontre numa situação de grande necessidade.

2 Relacionamentos humanos estreitos, calorosos e confiáveis têm um efeito protetor: não se sente só ou abandonado, mas cercado ou sustentado por Amor. No âmbito físico, o princípio da salutogênese é a heterostase, ou seja, o estado diferente. Ao reconhecer os limites de resistência física e ampliá-los, estamos desenvolvendo forças de resistência próprias. No âmbito anímico, a salutogênese procura criar um sentimento de coerência, um sentimento de conseguir enquadrar-se nos grandes e pequenos contextos universais da vida, dando-lhe um sentido. No âmbito espiritual, criar força de resiliência por meio da confiança no sentido de evolução da humanidade. Eu estou em Deus e Deus está em mim. Eu sou uma entidade absolutamente intocável A resiliência mais potente é a vivência do próprio Eu como entidade eterna. Ao pensarmos o Centro de convivência vislumbramos atingir a trimembração humana: saúde do corpo, da alma e do espírito. Olhar e honrar a história de cada idoso, sem julgar. Apenas respeitar e acolher. Resgatar o sentido da vida, perceber que a verdadeira entidade do ser humano não reside no exterior, mas no interior. Valorizar o indivíduo e os encontros humanos como possibilidade de troca e crescimento. Não se sentir só nem abandonado, sentir incluído e amado: Isto por si só já é o suficiente para se saber que vale a pena viver. Na convivência as pessoas vêem como seus companheiros passaram ou passam por dificuldades e mesmo assim estão de bem com a vida. O exercício da flexibilidade, de olhar para dentro de si mesmo, libertar-se do aprisionamento interior torna-se, em cada atividade uma premissa. Vislumbramos fomentar o desenvolvimento de pessoas na maturidade, acima de 55 anos, cujas forças foram empregadas na luta pela sobrevivência apenas. Onde Estamos: A Associação São Joaquim de Apoio à Maturidade está localizada na Aldeia Histórica de Carapicuíba, município da região da grande São Paulo. Seu território é 100% urbanizado, sendo considerada uma Cidade dormitório. A população atual é de habitantes com: a) índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,79, b) taxa de intensidade de pobreza de 51,49% c) renda per capita de 1,82 salários mínimos

3 d) taxa de analfabetismo 6,27% O índice de vulnerabilidade social é alto, sendo que alguns bairros estão localizados em região de alta vulnerabilidade social grau 06 de IPVS Índice Paulista de Vulnerabilidade Social. Faltam saneamento básico e habitação adequada. Existem na cidade 85 pontos de lixões clandestinos. O Sistema de Saúde é precário e grande parte da população procura atendimento médico nas cidades vizinhas de Osasco e Barueri. Nesse contexto está inserida a Associação São Joaquim e os idosos nela atendidos. É o segundo município mais pobre da grande São Paulo, só perde para Francisco Morato, localizado na região de Jundiaí. O município conta atualmente com aproximadamente idosos, cerca de 7,7%, de sua população, distribuídos nas seguintes faixas etárias: * 60 a 69 anos de idade; * 70 a 79 anos; * Acima de 80 anos. Desse total, muitos estão ativos e outros já fragilizados pelas doenças. A Associação São Joaquim atua em duas frentes: Convivência e socialização para aqueles que ainda têm autonomia de vida e o projeto Idoso Fragilizado. Este realiza visitas domiciliares por profissionais e um grupo de idosos voluntários para aqueles já fragilizados pelas doenças e com dificuldades para sair de casa. O perfil desses idosos não difere da situação da maioria da população do município. Muitos estão aposentados, outros são pensionistas e outros ainda são beneficiários do Benefício de Prestação Continuada da Lei Orgânica da Assistência Social (benefício destinados as pessoas com mais de 65 anos que não conseguem aposentar e estão em situação de extrema pobreza). Também existem os ainda não conseguiram nenhum benefício da Previdência Social e vivem com muitas dificuldades sociais e econômicas Centro de Convivência Visão Antroposófica dos Sentidos Cada um dos nossos sentidos está profundamente enraizado no âmbito corporal e anímico, e como pessoas, somos amplamente determinados pelo efeito das vivências dos sentidos. Pela esfera dos sentidos o ser humano não se relaciona apenas com o mundo circundante; os próprios sentidos despertam em nós as qualidades anímicas, que ainda não foram percebidas como tais. Uma psicologia racional estuda apenas as reações instintivas ou ligadas à natureza dos desejos, que se seguem a determinadas vivências sensórias. Os sentidos, propriamente ditos, em geral continuam velados. Conhecemos

4 as sensações vinculadas aos sentidos e estudamos sua influência em nosso comportamento. O órgão do sentido, todavia, e sua função, que nos determina de um modo genérico, mal foi trazido à luz da compreensão. Na classificação dos sentidos dada por Rudolf Steiner, muito antes de a Fisiologia Acadêmica reconhecer a necessidade de ampliar os cinco Sentidos, ele falou inicialmente em dez (1909) e mais tarde (1916) em 12 Sentidos distintos. Estruturando essa teoria dos Sentidos, obteve-se uma divisão nítida em três âmbitos, cada um contendo quatro Sentidos, que são denominados: Sentidos Inferiores, Intermediários e Superiores. Na Antroposofia existem estudos detalhados sobre os Sentidos que pode ser consultado na relação bibliográfica de nosso trabalho. Como cultivar a perda dos sentidos no envelhecimento? Os Sentidos Inferiores, Tato, Vital, do Movimento Próprio e do Equilíbrio, propiciam vivências ligadas diretamente vinculadas com o nosso corpo. Como estamos nos sentindo, o que se passa conosco, como nos mantemos em pé e andamos; como ficamos deitados e sentados, tudo isso é experimentado por meio destes sentidos. Nesses quatro processos sensoriais atua principalmente a vontade enquanto atividade. Os Sentidos Intermediários, Olfato, Paladar, Visão e Calor; aqui já não se trata mais da vivência da própria corporalidade, mas da experiência direta do mundo sensorial que nos envolve. Trata-se do corpo do mundo que nos circunda, que se revela por meio dos quatro Sentidos intermediários, de acordo com suas características, e despertam em nós simpatias e antipatias. Por isso essas quatro atividades sensoriais são também permeadas de sentimentos. Nelas atuam amor e ódio A prática dos sentidos superiores, Audição, Palavra, Pensamento e o Sentido do Eu, esses nos revelam o mundo do Espírito, do qual provém a palavra e a linguagem, e no qual nós mesmos, como individualidade. A escuta nos torna acessível o mundo dos sons e dos fonemas e em virtude disso podemos participar da compreensão das palavras e frases. A conseqüência disso é o despertar no reino do pensamento e a partir disso surge á vivência direta do Eu do outro ser Humano. O desenvolvimento desses sentidos são cultivados através de um programa trimembrado: No pensar Boa parte deste público tem ensino primário incompleto. Devolver seu senso de dignidade, de autoconfiança e sua inclusão nos levou a inserir o Programa de Alfabetização.

5 Palestras sobre temas diversos de interesse dos idosos, tais como saúde, autocuidado, ambiente, cidadania entre outros despertam a consciência, dão um sentimento de pertencer ao todo. A compreensão de um fio narrativo, a captação de um pensamento vivifica o pensar. Na falta de estímulo para o pensar, podemos nos tornar inflexíveis com idéias fixas. Nas Oficinas de Contos buscamos alimentar a inteligência espiritual, cultivar a memória, resgatar valores e relacionar com a própria vida. Com o trabalho biográfico, feito em pequenos grupos, quando as experiência podem ser partilhadas, o idoso tem uma visão panorâmica da mesma, podendo aceitar, perdoar e agradecer, ganhando novas forças para um final de vida pleno. O processo biográfico se conecta com a Salutogênese. No sentir: Nossa população tem uma ligação forte com a religiosidade. O cultivo das festas cristãs faz o Religare com o coração com os ritmos do ano e da natureza, gerando uma força de renovação. A música nos relembra memórias muito antigas da infância e da juventude. Talvez seja a última memória a se perder. Ouvir o outro traz presença e interesse. Ouvir-se a si mesmo é escutar a voz interior. Tocar um instrumento novo é algo que requer um esforço e disciplina. Esta conquista se busca no fundo da alma, trazendo enorme alegria autoestima. Na Terapia artística cultivamos a respiração e o Belo. Mais do que o resultado, o processo revela o profundo envolvimento do sentir e a auto-expressão. Com o bordado livre trabalhamos o ritmo, as lembranças, a quietude e também as trocas Massagem Sentido do Tato, do movimento, do olfato e do bem estar Na vontade:

6 Atividades físicas (ginástica, ginástica funcional, jogos, dança) - Sentidos Inferiores. Cuidar da horta e das ervas reconectar com a Terra, relembrando a origem (muitos vêm do campo). Trabalhos manuais- tricô e crochê- repetição, disciplina, vontade. Decòupage Valorização das habilidades e da autoestima Geração de renda Sentir-se capaz de produzir, melhorar condição material. Grupo voluntário de cuidadores - Visitas a idosos fragilizados interesse pelo outro, altruísmo, compaixão. Passeios: Abrir horizontes, cultivar a alegria de estar vivo. Manutenção da saúde integral: Acupuntura e Homeopatia Saúde Psico-social: Serviço Social, Aconselhamento Psicológico e Jurídico. Resultados e Conclusão: Entre cerca de 150 usuários: - melhora significativa nos quadros depressivos - bem estar e disposição geral - melhora da qualidade de vida, com mais saúde, física, anímica e espiritual. - sentido de recuperação da confiança na vida. - melhora da auto-estima - cultivo de um esteio interior Conclui-se que o idoso tem que ser honrado e respeitado por sua história de vida e que pela Salutogênese podemos encontrar a postura adequada para o cultivo de uma Maturidade mais plena e preparada para o porvir. Bibliografia: GLÖECHER, Michaela: Salutogênese: Liga dos Usuários e Amigos da Arte Médica e Ampliada, Brasil, 2003.

7 MORAES, Weslay Aragão: Salutogênese e Auto-Cultivo, uma abordagem interdisciplinar. Instituto Gaia, KÖNIG, Karl: O Desenvolvimento dos Sentidos e a Experiência Corporal. Sociedade Brasileira de Médicos Antroposóficos, Janeiro de 2000.

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