BAILANDO NA TERCEIRA IDADE: RELATO DE EXPERIÊNCIA SOBRE A DANÇA EM UMA ASSOCIAÇÃO DE IDOSOS DE GOIÂNIA/GO

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1 BAILANDO NA TERCEIRA IDADE: RELATO DE EXPERIÊNCIA SOBRE A DANÇA EM UMA ASSOCIAÇÃO DE IDOSOS DE GOIÂNIA/GO Palavras-chave: Idoso, práticas corporais, dança, saúde. INTRODUÇÃO Este relato foi fruto de uma atividade realizada na disciplina Educação Física e Diversidade Humana II localizada no 7º período do curso de Licenciatura de Educação Física. O objetivo foi conhecer as práticas corporais desenvolvidas na Associação de Idosos do Bairro Feliz, bem como os benefícios desse centro de convivência para os idosos. O envelhecimento é um processo natural e contínuo, no entanto, as características desse processo dependem do contexto em que o sujeito está inserido e das relações e experiências que ele estabelece (ANTUNES, 2011). Além disso, há que se considerar o aspecto biológico, pois segundo Matsudo et. al (2000), com o envelhecimento ocorre acometimentos e perdas de massa óssea, aumento de gordura corporal, fraqueza muscular, diminuição da potência aeróbica, entre outras mudanças. Mas, esse processo de perdas físicas e funcionais pode ser minimizado ou atrasado com uma prática regular de atividade física, o que gera autonomia a esse sujeito, garantindo a continuidade de uma vida independente e com qualidade. Portanto, é muito relevante espaços destinados às práticas corporais e também à convivência e socialização dos idosos, tanto para atender as suas necessidades biológicas como socioculturais. Nesse sentido, a Associação de Idosos visitada desenvolve diversas atividades almejando contemplar essas necessidades desencadeadas pelo envelhecimento. METODOLOGIA Foi realizada uma visita à uma Associação de Idosos, localizado em um bairro da região Leste do munícipio de Goiânia/GO, no primeiro semestre de Os acadêmicos realizaram observação participante no dia de baile da instituição e entrevistas semiestruturadas com os seguintes informantes: a presidente da Associação, o professor de Educação Física que trabalha no local e os idosos que estavam no local no momento da visita para identificar as práticas corporais realizadas, bem como os benefícios relatados pelos idosos de participação nessas atividades. RESULTADOS E DISCUSSÃO

2 Esta instituição existe há treze anos, e são desenvolvidos diversas atividades, tais como trabalhos manuais, curso de pintura em tela, ginástica, alfabetização de adultos, idosos e pessoas com necessidades especiais, baile, passeios e palestras. O quadro de funcionários deste ambiente conta com quinze pessoas, sendo sete de diversas atividades com vinculo de voluntários; cinco profissionais ocupados em serviços gerais, atendimento no bar em dia de baile, além de três pedagogos e uma professora de Educação Física que são funcionários cedidos pelo município. A Associação atende basicamente os moradores do bairro onde está localizado, e segundo a presidente há uma diferença em relação ao perfil socioeconômico dos frequentadores em relação às atividades desenvolvidas. Assim, nos dias de baile (sexta e domingo) há mais aposentados de classe média, enquanto que nas atividades e cursos contínuos no decorrer da semana mais pessoas de classe social baixa. A presença de um grande número de pessoas carentes da região justifica-se, pois o espaço oferece uma forma de lazer e descontração gratuita ou com baixo valor. Porém, há que destacar que neste espaço, independente da classe social, os alunos são tratados da mesma forma com atenção, respeito e carinho. Os idosos entrevistados relataram que a prática corporal mais relevante é o baile de confraternização desenvolvida na associação, apesar de existirem vários outros trabalhos. A partir da visita realizada foi possível perceber que a estrutura física do local encontra-se em bom estado, porém, não é suficiente para atender a todas as atividades desenvolvidas, pois nos dias de baile o salão chega a ter 400 pessoas segundo a Presidente da Associação. Os participantes geralmente praticam a dança somada a outra atividade física como a caminhada nas proximidades a sua casa, ou mesmo outras atividades da associação. A média de tempo que os entrevistados frequentam esse local é cinco anos, mas há caso de participantes frequentarem o local acerca de oito anos. Segundo Bianchi; Wolff (2009), a dança é uma atividade motivadora e muito utilizada para trabalhos com idosos, pois envolve o lado psicofísico e psicossocial através da associação da música com o exercício físico. A utilização de músicas que marcaram a época da juventude dessas pessoas desperta a alegria, além de provocar uma assimilação mais rápida e eficaz do exercício. Os principais motivos que os levaram a participar deste ambiente foi a socialização expressa pela busca do lazer, o gosto pela dança, além de ser facilitador para a convivência entre os participantes. Conhecer pessoas novas foi uma resposta bastante citada.

3 Segundo algumas falas dos entrevistados os motivos de participarem de um grupo de idosos também podem remeter a perdas familiares e a necessidade de conviver com outras pessoas para não ficarem sozinhos em casa. Porque fiquei viúvo e indicaram aqui, eu vim e gostei e também por gostar muito da dança. Sinto-me muito melhor agora. Aqui é melhor do que academia, melhorei também minha auto-estima e muitas outras coisas. (Idoso A) Eu vim... para conhecer pessoas. Estava me sentindo sozinha (Idoso B) Eu vim por lazer, prazer, gosto pessoal. Eu fico em média 3 horas pelo tipo de dança, forró, bolero e dança a dois. (Idoso C) Os idosos também foram indagados sobre os benefícios adquiridos decorrentes da prática corporal com o passar do tempo. Melhorou 100%, nas atividades domésticas, colesterol acabou, diabetes diminuiu. (Idoso B) Alegria, força, disposição. (Idoso C) Pode-se perceber que há uma adesão maior à atividade quando está é feita em grupo e o sujeito se sente motivado. Assim, como ressalta Bonetti et al. (2005), os benefícios partilhados pelos sujeitos que participam da atividade, estão relacionados a motivação que a prática promove, e que consequentemente, os levam ao grupo. Os benefícios elencados estavam sempre associados à alegria, felicidade, disposição, porém, não foram desprezados os ganhos nos aspectos biológicos, tais como a melhora motora, ganho de força, maior facilidade nas atividades domésticas, diminuição da glicemia e controle do colesterol. Além disso, Okuma (apud Bianchi; Wolff, 2009), destaca que através da dança se pode despertar aprendizagens motoras decorrentes do movimento humano consciente, pois as expressões corporais suscitam além de emoções, benefícios físicos. Kunz afirma que em geral pode-se dizer, que o movimento humano na dança se apresenta muito mais numa perspectiva de expressão e vivência do que pela padronização e pela predeterminação dos gestos (KUNZ, 2001, p.90). Assim os movimentos expressivos, espontâneos, transmitidos junto a sua vivência, destaca um envolvimento subjetivo dos dançarinos num se movimentar natural e espontâneo. É notável os benefícios físicos proporcionados pela dança, e não se pode esquecer dos aspectos psíquicos, que nesse contexto se completa com a subjetividade de se movimentar, a qual ocorre a partir de um objeto de vivência alegre e prazerosa pela dança (KUNZ, 2001) Em relação à prática pedagógica da professora de Educação Física da Associação, esta relatou que foi o primeiro local que trabalhou com idosos, e que começou a trabalhar com esse público não porque queria, mas pela necessidade de ter um serviço próximo a sua casa. Apesar disso, ela relatou que se identificou com o grupo e tem prazer em trabalhar com eles.

4 Acho que eu mudei muito a minha concepção do que é ser idoso, porque hoje eu falo que acho que eu sou a idosa, porque eles começam a dançar aqui às duas horas e eu vou embora as cinco e elas ainda estão dançado felizes. Se eu dançasse todo esse tempo estava morrendo de dor nas costas, dor nas pernas sem salto. Então eu mudei muito a minha concepção porque idade cronológica, não tem isso, eu acho que depende muito da forma que a pessoa vive. Eu mudei muito a minha forma de vê-los, eu sei que eles ainda são muito rejeitados pela sociedade, e existe um preconceito principalmente do jovem, eles gostam de abraçar e às vezes a pessoas não entende, então eu mudei toda a concepção que eu tinha do idoso, porque aqui eles são muito ativos. (Entrevista com a Professora) A partir dessa fala entende-se que o envelhecimento não ocorre de maneira homogênea e de acordo com a idade cronológica. As experiências de vida e contexto sociocultural são mais determinantes para esse processo do que a idade (ANTUNES, 2011). Compreender que essa fase da vida apresenta as suas especificidades é uma necessidade para o profissional, e para, além disso, também é preciso levar em consideração as experiências e relações que esses sujeitos ainda continuam estabelecendo com o meio em que convivem, como bem relatou a professora entrevista e sua mudança de concepção em relação à velhice. Segundo a professora o mais difícil de trabalhar com esse grupo é adaptar os exercícios, como a ginástica localizada e alongamento. Desse modo, ela modifica os exercícios conforme a exigência física de cada aluno, para não exclui-los das atividades. Ressalta-se que essas adaptações ocorrem nas aulas de ginástica e não no baile, pois este último é uma atividade livre em que cada um participa de acordo com a sua disposição e limite. Outro ponto importante que surgiu na entrevista com o profissional foi em relação a sua formação acadêmica, que segundo ela teve pouco contato com a discussão e ação com idosos durante a graduação. CONSIDERAÇÕES FINAIS A pesquisa realizada apontou que são desenvolvidas na Associação de Idosos, várias práticas corporais, porém a prática com maior relevância para os idosos foi a dança que ocorre durante o baile. Destaca-se que para os idosos, os benefícios percebido a partir de tal prática, vão além das melhorias físicas e motoras, alcançando aspectos sociais, emocionais e psicológicos. Esse fato reforça a discussão que a dança para idosos pode atuar tanto no campo mental, quanto no emocional, o que permite ao sujeito trabalhar a atenção, memória, cognição, linguagem, bem como se expressar e socializar. Deste modo, este espaço é relevante para a vida dos participantes, apesar dos diferentes motivos que os levam a essa prática.

5 Outro fator relevante apontado pelas entrevistas foi o vínculo criado entre professor e aluno, pois apesar do espaço proporcionar a melhora no aspecto biológico, esse laço afetivo também interfere diretamente nas competências emocionais e psicológicas dos idosos, o que é de suma importância, pois em muitos casos, a interação é o principal objetivo a ser alcançado pelos idosos no grupo. A partir dessa vivência, foi possível identificar a necessidade de pesquisas nesta área, a qual é um importante e rico campo sobre percepção, memória, emoção e saúde da pessoa idosa em uma perspectiva ampliada. Além disso, destaca-se a importância de ter contato com esse conteúdo desde a graduação para se conhecer as especificidades dessa população e o trabalho profissional a ser desenvolvido. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANTUNES, P. D. C. Corpo, saúde e práticas corporais: uma análise da produção científica do campo da educação física acerca das pessoas na meia-idade. Brasília: Gráfica e editora Ideal, BIACHI, S., WOLFF, S. H.; Ginástica coreografada. In.: Vivendo e Envelhecendo: recortes de práticas sociais dos núcleos de vida saudável. Wolff, S. H. (org.). São Leopoldo: Ed. Unisinos, BONETTI, A.; ALARCON, M.; BERGERO, V. Re-significando práticas corporais na prevenção e reabilitação cardiovascular. In: SILVA, A. M.; DAMIANI, I.R. (Org). Práticas corporais. Florianópolis: Nauemblu Ciência & Arte, v.3, KUNZ, E. Transformação didático-pedagógica do esporte. 6 ed. Injuí: Ed. Unijuí MATSUDO, S. M.; MATSUDO, V. K. R.; NETO, T. L. D. B. Impacto do envelhecimento nas variáveis antropométricas, neuromotoras e metabólicas da aptidão física. Revista Brasileira de Ciências e Movimento, v.8, n.4, p.21-32, 2000.

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