Acadêmica do curso de Psicologia da Faculdade Luciano Feijão (FLF). 2

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1 PSICOLOGIA E ABUSO SEXUAL INFANTIL: UMA DELICADA E INTRODUÇÃO ESSENCIAL INTERVENÇÃO GILSIANE MARIA VASCONCELOS MARQUES 1 MAYARA SOARES BRITO TELES 2 GEORGIA MARIA MELO FEIJÃO 3 Na atualidade o abuso sexual infantil (ASI) é considerado um grave problema de saúde pública, tanto devido à elevada incidência epidemiológica, quanto devido ao seu impacto deletério no indivíduo, nos familiares e na sociedade. A Organização Mundial de Saúde conceituou o abuso sexual infantil como uma emergência de saúde silenciosa e o considerou como a mais cruel e trágica infração aos direitos da criança à saúde e proteção. Essa forma de mau trato é definida como o envolvimento da criança em uma atividade sexual que ela não compreende totalmente, para a qual ela não é hábil para dar consentimento, ou ainda para a qual ela não está preparada, em termos desenvolvimentais. Trata-se de um problema interdisciplinar, em que Psicologia, Direito, Medicina, Serviço Social, entre outras disciplinas, devem estar preparadas para enfrentá-lo. Especificamente, o psicólogo tem um papel importante nessas situações, podendo trabalhar tanto com o atendimento desses casos, quanto somente na avaliação destes. Na medida em que a Psicologia se instrumentaliza para atender às demandas do setor judiciário, ela contribui para a proteção da vítima e para seu desenvolvimento psicossocial. O olhar diferenciado visa minimizar o sofrimento e a revitimização, propondo um ambiente diferenciado para o inquérito, num esforço de proteger a vítima e resguardar seus direitos, enquanto crianças e adolescentes. O abuso sexual tem um impacto muito grande na saúde física e mental da criança e do adolescente, deixando marcas em seu desenvolvimento, com danos que podem persistir por toda vida. Esses casos são permeados de dúvidas e incertezas, histórias complexas e 1 Acadêmica do curso de Psicologia da Faculdade Luciano Feijão (FLF). 2 Acadêmica do curso de Psicologia da Faculdade Luciano Feijão (FLF). 3 Psicóloga. Especialista em Neuropsicologia pela Faculdade Christus e professora do Curso de Psicologia da Faculdade Luciano Feijão (FLF).

2 dinâmicas difíceis, que muitas vezes impedem que um diagnóstico da situação seja consubstanciado. Os investigadores têm que obter e integrar matérias muitas vezes contraditórias, uma vez que não há um indicador específico que possa determinar se houve abuso sexual ou não. Em muitos casos, a única evidência disponível é o testemunho da criança e, em todos os casos, é crucial que uma descrição confiável da alegada vítima seja obtida. Nesse contexto, a participação do Psicólogo se constitui essencial, uma vez que o manejo da situação e, principalmente, a maneira pela qual a criança ou adolescente passa pelo processo de inquérito, serão elementos constituintes de sua resiliência, evitando assim, maiores danos e traumas, bem como o desenvolvimento de transtornos psicopatológicos. A ideia de trabalhar este tema vem surgindo desde um minicurso oferecido pela Faculdade Luciano Feijão (FLF) em 2012, durante um evento acadêmico de Psicologia, e mais tarde se fortalecendo após um encontro na mesma faculdade durante os sábados deste ano. Tema também bastante discutido durante a disciplina de Psicologia Jurídica na mesma faculdade, o que gerou forte interesse de estudar um pouco mais e expor todo o conteúdo apreendido nesses momentos. Essa temática aos poucos vem se evidenciando devido ao cuidado e à atenção oferecidos pela Justiça e pelos órgãos que acolhem as vítimas e defendem os Direitos das Crianças e dos Adolescentes, como o CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) e CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), entre outros. Dada a importância dessa temática e, mais ainda, do delicado trabalho exercido por esses profissionais, o objetivo desse estudo é esclarecer e pontuar, de maneira geral, como se dá a atuação do psicólogo em situações de abuso sexual infantil, bem como analisar as estratégias que compõem o fazer do profissional de Psicologia, e explicar, basicamente, como ocorrem os processos de tratamento, levando em consideração o importante papel do psicólogo na escuta e na terapia com as vítimas. É de suma importância salientar que esta escuta com crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual é bastante delicada e requer profissionalismo e compreensão do profissional, exigindo que este estabeleça uma relação de confiança e respeito com quem for entrevistar.

3 PROCEDIMENTOS METODÓLOGICOS ANAIS do I Encontro de Iniciação à Docência da Faculdade Luciano Feijão. Esse estudo foi desenvolvido com base no método dedutivo, partindo de leis gerais para a compreensão de questões locais ou pontuais. Para tanto, foi utilizado de pesquisa bibliográfico-documental, através de investigações em diversas obras, de autores que versam sobre o assunto. Estabelecendo assim, uma abrangência significativa. Para realizar este estudo bibliográfico contou-se com a participação e orientação da Professora e Psicóloga Esp. Geórgia Feijão, a qual ministrou os cursos e as aulas baseadas neste tema e forneceu material e informações necessárias para a elaboração deste trabalho. RESULTADOS E DISCUSSÕES O abuso sexual infantil foi tratado por muitos anos em silêncio, tendo em vista principalmente de o agressor ser alguém da família ou muito próximo. Diante da atenção dos profissionais que trabalham com as famílias, crianças e adolescentes, e do avanço no estudo das consequências que esses abusos causam nas vítimas, esse assunto tem se tornado mais evidente e medidas foram criadas de modo evitar que aconteça tão largamente. As crianças e os adolescentes passam a ter a concepção de sujeitos de direitos após a Convenção sobre os Direitos da Criança, em 1989, cujos princípios foram implementados no Brasil por meio do art. 227 da Constituição Federal de 1988 (que incorporou a doutrina da proteção integral que estava sendo discutida nas Nações Unidas) e desenvolvidos na legislação infraconstitucional a partir do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), de 1990 (LOWENKRON, 2010). Também segundo Lowenkron (2010), o Estado, a família e toda a sociedade têm o dever e o compromisso de proteger a criança contra quaisquer formas de exploração e abuso sexuais, e movidos por essa luta é que a sociedade civil e o poder público têm reunido esforços para o desenvolvimento de políticas de enfrentamento desse tipo de violência, onde uma das principais áreas que está cada vez mais conquistando espaço no enfrentamento das consequências e na redução dos sintomas causados pelos traumas, é a Psicologia. Justamente no âmbito da luta contra o abuso sexual infantil e no processo da escuta terapêutica, de modo reduzir os impactos sofridos pelas vítimas, que se intensifica o trabalho do psicólogo. O acompanhamento psicológico de crianças vítimas de abuso sexual

4 é essencial, e é desenvolvido de acordo com as necessidades de cada criança, pois não é possível generalizar os efeitos do abuso sexual para todas as crianças, uma vez que a gravidade e a quantidade das consequências variam de caso a caso de acordo com a experiência vivida pela vítima. Os atos de acolher e oferecer segurança e confiabilidade são os primeiros passos para obter sucesso no tratamento físico e emocional da vítima. É de extrema importância escutar sua história, sua vivência, sem pré-julgamentos, interrupções ou detalhamentos desnecessários que apenas possam constranger mais ainda a criança ou o adolescente (COGO, et al., 2011). Para Cogo et al. (2011), o psicólogo deve acolher a criança e oferecê-la um ambiente seguro, para que esta perceba a atenção e a credibilidade deste profissional, e assim sinta-se à vontade para relatar seu caso. Uma criança bem acolhida e sentindo a confiança no profissional, poderá deixar transparecer seus reais sentimentos e detalhes vividos em sua experiência. O trauma vivido por essas crianças e adolescentes geralmente perpetuam por toda sua vida, e muitas vezes, infelizmente, em alguns casos podem influenciá-los a cometer os mesmos abusos ao chegarem à idade adulta, como defende Azambuja (2004) no trecho as experiências ficam marcadas na herança genética e nos padrões de vínculo, sendo, portanto, repassadas de uma forma ou outra para a descendência (Azambuja, 2004, p. 125). CONCLUSÃO Visto que o abuso sexual é um problema de responsabilidade pública, social e familiar, é essencial que haja mais práticas preventivas e novas pesquisas dentro dessa área, como também intensificar mais o trabalho desenvolvido com as próprias vítimas, ampliando os serviços de acolhimento e escuta terapêutica. O foco nas equipes multidisciplinares é uma boa estratégia nesse acolhimento, onde se faz necessário que valorizem o papel do psicólogo neste processo de escuta, uma vez que este profissional poderá possibilitar um resgate de detalhes através do vínculo de confiança, proporcionando um atendimento mais acolhedor, reduzindo os impactos e os receios da vítima, que após o trauma poderá ter dificuldades em estabelecer relações com os demais, já que sua confiança nos outros está fragilizada.

5 Por meio deste breve estudo, espera-se futuramente aprofundar mais estas reflexões e construir mais pesquisas dentro desta temática. De antemão, o conteúdo aqui apresentado servirá como base para um estudo mais elaborado que visa esclarecer o papel do psicólogo no processo de escuta de crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual, onde é importante ressaltar que a intervenção do psicólogo é essencial na reconstrução da vida da criança, pois valoriza a infância perdida e busca a superação dos traumas sofridos durante este ato de violência. REFERÊNCIAS AZAMBUJA, Maria Regina Fay. Violência sexual intrafamiliar: é possível proteger a criança? Porto Alegre: Livraria do Advogado, COGO, K.S.; MAHL, A.C.; OLIVEIRA, L.A.; HOCH, V.A. Consequências psicológicas do abuso sexual infantil. Unoesc & Ciência - ACHS, Joaçaba, v.2, n.2, p , jul./dez DOBKE, V. Abuso Sexual: a inquirição das crianças, uma abordagem interdisciplinar. Porto Alegre: Ricardo Lenz, FALEIROS, S. E. T. & CAMPOS, J. O. Repensando os conceitos de violência, abuso e exploração sexual de crianças e de adolescentes. Brasília: Cecria, MJ-SEDH-DCA, FBB, Unicef, FURNISS, T. Abuso Sexual da Criança: uma abordagem multidisciplinar, manejo, terapia e intervenção legal integrados. Traduzido por Maria Adriana Veríssimo Veronese. Porto Alegre: Artes Médicas, HABIGZANG, L. F. & CAMINHA, R. M. Abuso sexual contra crianças e adolescentes: conceituação e intervenção clínica. 2. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, LOWENKRON, Laura. Abuso sexual infantil, exploração sexual de crianças, pedofilia: diferentes nomes, diferentes problemas? Ver. Sexualidad, Salud y Sociedad. n.5, ZAVASCHI, M. L. S.; TETELBOM, M.; GAZAL, C. H.; SHANSIS, F. M. Abuso sexual na infância: um desafio terapêutico. Revista de Psiquiatria, Porto Alegre, n. 13, p , set./dez

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