Redes Intersetoriais no Campo da Saúde Mental Infanto-Juvenil

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1 Redes Intersetoriais no Campo da Saúde Mental Infanto-Juvenil Cintia Santos Nery dos Anjos 1 O tema deste estudo refere-se a operacionalização da intersetorialidade no campo da Saúde Mental Infanto-Juvenil e a construção do trabalho em rede, um dos pilares da Política de Saúde Mental pública para crianças e adolescentes. Pretendemos levantar alguns pontos que consideramos importantes referentes às estratégias adotadas pelos Centros de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenil (CAPSI s) para a construção de redes intersetoriais que efetivem o acesso da clientela infanto-juvenil portadora de transtornos mentais às demais Políticas Públicas. Utilizamos a abordagem teórica que enfatiza o estabelecimento de redes entre diversos atores, a partir da noção de vínculo. Segundo Rovere (apud Fleury, 2007), na análise das redes, o foco encontra-se na análise das relações sociais que se estabelecem entre indivíduos e instituições. E são essas relações que são passíveis de análise para se compreender o sentido das ações sociais. No sentido de compreender os processos que envolvem a construção de redes intersetoriais no âmbito do cuidado em Saúde Mental à crianças e adolescentes, cabe ressaltar as transformações no campo da saúde mental infanto-juvenil a partir de meados da década de 90 e início dos anos 2000, quando, no bojo da implementação da política de saúde mental, se dá a inclusão do atendimento a esta clientela na agenda pública, a partir da publicação pelo Ministério da Saúde, da Portaria 336, que dispõe sobre a 1 Assistente Social do Hospital Federal de Bonsucesso (Ministério da Saúde), Especialista em Saúde Mental pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mestranda de Saúde Pública pela ENSP/FIOCRUZ. País: Brasil Tel:

2 implementação dos Centro de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenis e da Portaria nº 1.608, de 03 de agosto de 2004, que institui o Fórum Nacional sobre Saúde Mental Infanto-Juvenil. A este momento histórico vincula-se ainda o Movimento de Reforma Sanitária brasileiro, que culminou em reformulações profundas na Política de Saúde, materializada com a implantação do Sistema Único Saúde. Historicamente a assistência a crianças e adolescentes portadores de transtornos mentais no Brasil foi relegada pelo Estado ao campo filantrópico, ficando o cuidado a este segmento a cargo de instituições fechadas, que trabalhavam a partir da concepção de criança deficiente. A assistência oferecida acabava por reforçar o isolamento e a homogeneização da clientela infanto-juvenil, gerando uma legião de crianças e adolescentes portadores de transtornos mentais sendo tratados a partir da concepção de deficiência mental ou delinquência 1. A partir do Movimento de Reforma Psiquiátrica, movimento iniciado em finais da década de 70 e início da década de 80, que inaugura um novo modelo de atenção baseado no cuidado extramuros e no investimento na construção de redes de serviços assistenciais que promovam a convivência social e familiar, colocou-se o desafio de incluir no debate político no campo da saúde mental a superação do modelo asilar e a inclusão da assistência a crianças e adolescentes na agenda pública, considerando-se a lacuna existente no campo público referente a assistência em saúde mental à esta clientela. Com a tomada de responsabilidade do atendimento em Saúde Mental desta clientela pelo Estado e com a implementação da Política de Saúde Mental Infanto-

3 Juvenil, executada pelos centros de atenção psicossocial infanto-juvenis, ambulatórios ampliados, centros de convivência e centros de atenção diária, outros desafios são percebidos a partir dos princípios colocados por esta política, que prevê o acolhimento universal, o encaminhamento implicado, o conceito de territorialidade no diz respeito às referências psicossociais e culturais dos sujeitos, a construção permanente de redes e a intersetorialidade na ação do cuidado. os serviços de saúde mental infanto-juvenil, dentro da perspectiva que hoje rege as políticas de saúde mental no setor, devem assumir uma função social que extrapola o fazer meramente técnico do tratar, e que se traduz em ações, tais como acolher, escutar, cuidar, possibilitar ações emancipatórias, melhorar a qualidade de vida da pessoa portadora de sofrimento mental, tendo-a como um ser integral com direito a plena participação e inclusão em sua comunidade, partindo de uma rede de cuidados que leve em conta as singularidades de cada um e as construções que cada sujeito faz a partir de seu quadro. (Caminhos para uma Saúde Mental Infanto-Juvenil, 2005). Assim a construção de redes intersetoriais que consideram as especificidades da clientela infanto-juvenil está presente no conjunto de políticas públicas voltadas para este segmento e pressupõe uma interlocução permanente com os órgãos, instituições e sistemas que prestam atendimento nas diversas esferas do Estado e da Sociedade Civil, como prevê o Estatuto da Criança e do adolescente no que se refere à política de atendimento, no art. 86: A política de atendimento dos direitos da criança e adolescente faz-se á através de um conjunto articulado de ações governamentais e não governamentais, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios (Estatuto da Criança e do Adolescente,1990) No entanto, cabe destacar dois fatores que marcam a assistência a este segmento populacional. O primeiro refere-se à implantação tardia de uma Política Pública neste

4 campo o que coloca consequências para a implementação de mudanças no aspecto cultural e operacional para instituição de práticas intersetoriais. O cuidado a este seguimento, como previsto nas legislações citadas acima, frequentemente convoca a intervenção de diversos setores, que assumem as situações a partir de seus mandatos, isoladamente. Estes setores, como Educação, Justiça, Assistência Social, Conselhos Tutelares e a própria Saúde, apesar dos marcos legais que preconizam a assistência integral, integrada e universal, historicamente desenvolvem suas ações marcadas pelos mandatos e referenciais construídos em seus campos de saber. Não raro verificam-se situações de crianças e adolescentes com problemas de conduta sendo acompanhados somente pelo setor de justiça, assim como situações de depressão, hiperatividade e agitação sendo acompanhadas pelas instituições de ensino, sem a participação de serviços de saúde mental. Tal isolamento gera sobreposição de ações e subutilização de serviços como os CAPS e ambulatórios de Saúde Mental. Um segundo fator a ser apontado é a constituição do Centro de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenil (CAPSI) como articulador de redes de atenção para esta clientela território de sua responsabilidade. Dentro desta perspectiva o CAPSI assume o desafio de mapear, articular e organizar ações que viabilizem a formação de redes de atenção junto aos demais setores, considerando a peculiaridade da clientela em questão. Neste sentido entendemos que o cotidiano dos serviços de atenção à saúde mental de crianças e adolescentes se constitui campo contínuo de criação de estratégias para a operacionalização da intersetorialidade e para construção do trabalho em rede, o que sugere um debate constante entre as instituições e esferas envolvidas no cuidado destinado às crianças e adolescentes em sofrimento psíquico.

5 Referência Bibliográfica AMARANTE, P. (Coord.) Loucos pela vida: a trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz, BRASIL Lei no Estatuto da Criança e do Adolescente.. MINISTÉRIO DA SAÚDE. SECRETARIA EXECUTIVA. SECRETARIA DEATENÇÃO À SAÚDE. Legislação em Saúde Mental: Brasília, Ministério da Saúde, MINISTÉRIO DA SAÚDE. SECRETARIA DE ATENÇÃO À SAÚDE DEPARTAMENTO DE AÇÕES PROGRAMÁTICAS ESTRATÉGICAS. Caminhos para uma Política de Saúde Mental Infanto-Juvenil. Brasília, Ministério da Saúde, BRAVO, M.I. Política de Saúde no Brasil. In: MOTA, A.E. [et al.] (orgs.) Serviço Social e Saúde. São Paulo: OPAS, OMS, Ministério da Saúde, COUTO, M.C.V.; DUARTE, C.S.; DELGADO, P.G.D. A Saúde Mental Infantil na Saúde Pública Brasileira: situação atual e desafios. Revista Brasileira de Psiquiatria 2008;30(4): TEIXEIRA, Sonia Maria Fleury. Gestão de Redes: a estratégia da regionalização da política de saúde. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007.

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