O problema da velocidade instantânea

Documentos relacionados
O limite de uma função

A derivada de uma função

O Teorema do Valor Médio

LIMITES E CONTINUIDADE

3. Limites e Continuidade

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

Derivada de algumas funções elementares

Escola Secundária com 3º ciclo D. Dinis 12º Ano de Matemática A Tema II Introdução ao Cálculo Diferencial II. Aula nº 5 do plano de trabalho nº 5

A Regra da Cadeia. V(h) = 3h 9 h 2, h (0,3).

Limites Uma teoria abordando os principais tópicos sobre a teoria dos limites. José Natanael Reis

Universidade Federal de Pelotas Cálculo com Geometria Analítica I Prof a : Msc. Merhy Heli Rodrigues Aplicações da Derivada

Máximos e mínimos em intervalos fechados

Volume de um gás em um pistão

MATEMÁTICA. Produtos Notáveis, Fatoração e. Expressões Algébricas. Professor : Dêner Rocha. Monster Concursos 1

Integração por frações parciais - Parte 1

Continuidade e Limite

Teoremas e Propriedades Operatórias

Unidade I MATEMÁTICA. Prof. Celso Ribeiro Campos

O Teorema do Valor Intermediário

Consideremos uma função definida em um intervalo ] [ e seja ] [. Seja um acréscimo arbitrário dado a, de forma tal que ] [.

Suponhamos que tenha sido realizado um. estudo que avalia dois novos veículos do mercado: o Copa e o Duna. As pesquisas levantaram os seguintes dados:

Guia de Atividades usando o método de Euler para encontrar a solução de uma Equação Diferencial Ordinária

Derivadas Parciais. Copyright Cengage Learning. Todos os direitos reservados.

Derivadas Parciais Capítulo 14

Capítulo 4 - Derivadas

A velocidade instantânea (Texto para acompanhamento da vídeo-aula)

Cálculo Diferencial e Integral I

parciais primeira parte

MATEMÁTICA A - 11o Ano. Propostas de resolução

4 de outubro de MAT140 - Cálculo I - Método de integração: Frações Parciais

Matemática Licenciatura - Semestre Curso: Cálculo Diferencial e Integral I Professor: Robson Sousa. Diferenciabilidade

Estudar mudança no valor de funções na vizinhança de pontos.

Método dos Mínimos Quadrados

Desenho e Projeto de Tubulação Industrial Nível II

MAT146 - Cálculo I - Taxas de Variação. Alexandre Miranda Alves Anderson Tiago da Silva Edson José Teixeira

Material Básico: Calculo A, Diva Fleming

DERIVADA. A Reta Tangente

UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ CENTRO DE TECNOLOGIA PROGRAMA DE EDUCAÇÃO TUTORIAL APOSTILA DE CÁLCULO. Realização:

Antiderivadas e Integrais Indefinidas

Informática no Ensino de Matemática Prof. José Carlos de Souza Junior

AULA 1 Introdução aos limites 3. AULA 2 Propriedades dos limites 5. AULA 3 Continuidade de funções 8. AULA 4 Limites infinitos 10

PROF. DANILO MATERIAL COMPLEMENTAR TURMA ENG/TOP 11/03/2016 FOLHA 04 Após esta aula, a lista "Equações Horárias"pode ser feita por completo.

Derivadas 1 DEFINIÇÃO. A derivada é a inclinação da reta tangente a um ponto de uma determinada curva, essa reta é obtida a partir de um limite.

Alexandre Miranda Alves Anderson Tiago da Silva Edson José Teixeira. MAT146 - Cálculo I - Integração por Frações Parciais

1 Conjuntos, Números e Demonstrações

CÁLCULO I Prof. Marcos Diniz Prof. André Almeida Prof. Edilson Neri Júnior

1. Limite. lim. Ou seja, o limite é igual ao valor da função em x 0. Exemplos: 1.1) Calcule lim x 1 x 2 + 2

Cálculo com expressões que envolvem radicais

Derivadas de funções reais de variável real

Equação algébrica Equação polinomial ou algébrica é toda equação na forma anxn + an 1 xn 1 + an 2 xn a 2 x 2 + a 1 x + a 0, sendo x

III Números reais - módulo e raízes Módulo ou valor absoluto Definição e exemplos... 17

Concavidade. Universidade de Brasília Departamento de Matemática

Cálculo diferencial de Funções de mais de uma variável

A regra do produto e do quociente para derivadas

ESCOLA SECUNDÁRIA COM 3º CICLO D. DINIS 11º ANO DE ESCOLARIDADE DE MATEMÁTICA A Tema I Geometria no Plano e no Espaço II

DCC008 - Cálculo Numérico

UFF/GMA - Matemática Básica I - Parte III Notas de aula - Marlene

INTEGRAÇÃO DE FUNÇÕES RACIONAIS

Aula 05 - Limite de uma Função - Parte I Data: 30/03/2015

Sequências e Séries Infinitas. Copyright Cengage Learning. Todos os direitos reservados.

Antiderivadas e Integrais Indefinidas. Antiderivadas e Integrais Indefinidas

Métodos Numéricos - Notas de Aula

Cálculo da Raiz Quadrada sem o uso da Calculadora

Derivadas. Derivadas. ( e )

Tópico 3. Limites e continuidade de uma função (Parte 1)

SISTEMA DECIMAL. No sistema decimal o símbolo 0 (zero) posicionado à direita implica em multiplicar a grandeza pela base, ou seja, por 10 (dez).

TEMA 2 PROPRIEDADES DE ORDEM NO CONJUNTO DOS NÚMEROS REAIS

Material Teórico - Inequações Produto e Quociente de Primeiro Grau. Inequações Quociente. Primeiro Ano do Ensino Médio

Exercício 1. Exercício 2. Exercício 3. Considere a função f que para valores de x é de nida pela relação f(x) = x(sin /x).

ESCOLA TÉCNICA ESTADUAL FREDERICO GUILHERME SCHMIDT

MOVIMENTO UNIFORMEMENTE VARIADO

Função Logarítmica. Formação Continuada em Matemática. Matemática -2º ano do Ensino Médio Plano de trabalho - 1º Bimestre/2014

Minicurso de nivelamento de pré-cálculo:

Matemática I. 1 Propriedades dos números reais

COLÉGIO SÃO JOÃO GUALBERTO

ESCOLA SECUNDÁRIA COM 3º CICLO D. DINIS COIMBRA 12º ANO DE ESCOLARIDADE MATEMÁTICA A. Aula nº 1 do plano nº 12

FICHA de AVALIAÇÃO de MATEMÁTICA A 11.º Ano Versão 4

Para se adicionar (ou subtrair) frações com o mesmo denominador devemos somar (ou subtrair) os numeradores e conservar o denominador comum. = - %/!

Resumo das aulas dos dias 4 e 11 de abril e exercícios sugeridos

Funções - Terceira Lista de Exercícios

Consequências do Teorema do Valor Médio

Aula 13. Plano Tangente e Aproximação Linear

LIMITE. Para uma melhor compreensão de limite, vamos considerar a função f dada por =

1 Congruências e aritmética modular

RACIOCÍNIO LÓGICO QUANTITATIVO PARA AFRFB PROFESSOR: GUILHERME NEVES. Módulo de um número real... 2 Equações modulares... 5

1 PLANO DE AULA III - INTEGRAL 1.1 AULA SOBRE INTEGRAL DEFINIDA

Aula 22 O teste da derivada segunda para extremos relativos.

Escola Secundária com 3º ciclo D. Dinis 12º Ano de Matemática A Tema III Trigonometria e Números Complexos. 6º Teste de avaliação versão A.

Professora Bruna FÍSICA A. Aula 14 Velocidades que variam sempre da mesma forma. Página 189

Transcrição:

Universidade de Brasília Departamento de Matemática Cálculo O problema da velocidade instantânea Supona que um carro move-se com velocidade constante e igual a 60 km/. Se no instante t = 0 ele estava no marco zero da estrada, não é difícil notar que a função que fornece a posição em um instante t > 0 é dada por s(t) = 60t. De uma maneira mais geral, se a posição inicial é s 0 R e a velocidade (constante) é igual a v 0 R, então a posição é dada por s(t) = s 0 +v 0 t. Você certamente já se deparou com o problema acima. Nos seus estudos do ensino médio, considerava-se uma situação mais geral, com o carro tendo uma aceleração constante e igual a a R. Neste caso, a posição é dada por s(t) = s 0 +v 0 t+ 2 at2, t > 0, que é exatamente a equação do espaço para o movimento uniformemente variado. Como a aceleração é igual a a, podemos facilmente deduzir que a velocidade do carro é dada pela função v(t) = v 0 +at, t > 0. Estamos interessados aqui no seguinte problema: supondo que conecemos a posição do carro s(t), queremos determinar a sua velocidade v(t) em um dado instante t > 0. No caso em que s(t) é um polinômio de grau ou 2, a solução já foi dada nos dois parágrafos anteriores. O que queremos agora é obter uma forma de calcular a velocidade para funções s(t) mais gerais. As ideias que vamos desenvolver servem para muitas expressões da função s(t). Porém, para simplificarmos a exposição, vamos supor que s(t) = t 3. Também por simplicidade, vamos supor que queremos encontrar a velocidade do carro no instante t = 2. Sumarizando, vamos tratar do problema seguinte: Problema: se a posição do carro é dada por s(t) = t 3, qual é a velocidade do carro no instante t = 2? A primeira coisa que deve ser observada é que as fórmulas aprendidas no ensino médio não são suficientes para obtermos a resposta. De fato, elas só se aplicam para aos casos em que a função s(t) é um polinômio de grau (velocidade constante) ou um polinômio de grau 2 (aceleração constante). Logo, precisamos desenvolver uma nova técnica para resolver o problema.

Ainda que não saibamos calcular a velocidade v(t), podemos usar a expressão de s(t) para calcular a velocidade média entre os instante t = 2 e t = 4, por exemplo. Ela é dada pela expressão s(4) s(2) 4 2 = 43 2 3 4 2 = 64 8 = 28. 2 Logo, como não sabemos calcular v(2), podemos aproximar esse valor usando a velocidade média calculada acima. Naturalmente, essa aproximação contém algum tipo de erro, porque estamos deixando um intervalo de 2 oras em que o motorista poderia, eventualmente, efetuar mudanças de velocidade, sem com isso mudar o valor de v(2). Parece natural que, se diminuirmos esse intervalo de tempo para ora somente, a aproximação pela velocidade média seria melor. Assim, podemos considerar agora a seguinte aproximação: s(3) s(2) 3 2 = 27 8 = 9. Procedendo como acima, podemos construir uma tabela que fornece, para cada valor 0, a velocidade média do carro entre o instante inicial t = 2 e o instante final t = 2+. Listamos abaixo alguns valores dessa tabela: 0 instante final velocidade média t = 2+ s(2+) s(2) (2+) 2 2 4 28 3 9 0,5 2,5 5,25 0, 2, 2,6 0,0 2,0 2,060 0,00 2,00 2,00600 Do ponto de vista físico, parece claro que a aproximação que estamos usando (velocidade média) fica mais precisa à medida em que o intervalo de tempo se torna mais próximo de zero. Assim, a tabela parece indicar que a velocidade no instante 2 é igual a 2. Para melor justificar a afirmação acima, vamos criar uma nova função. Seja então vm 2 () a função que associa, para cada 0, a velocidade média entre os instantes t = 2 e t = 2+. Formalmente, vm 2 () = s(2+) s(2) (2+) 2 = (2+)3 2 8. () Observe que o valor de nunca pode ser igual a zero. Mais especificamente, como estamos falando de dois instantes distintos t = 2 e t = 2 +, os valores possiveis para são todos aqueles em que 0 e 2. Essa última restrição surge porque, se < 2, então 2

2+ < 0, e não faz sentido falarmos em instante de tempo negativo. Em resumo, o domínio da função vm 2 é dado por Dom(vm 2 ) = [ 2,0) (0,+ ) = { R : 2 e 0}. Precisamos descobrir o que acontece com o valor de vm 2 () quando fica próximo de zero. Se olarmos para o último quociente da definição de vm 2 em (), percebemos que, à medida em que se aproxima de zero, tanto o numerador quanto o denominador desse quociente se aproximam de zero. Para entender melor o comportamento do quociente, vamos lembrar que, para todo a, b R, temos (a+b) 3 = a 3 +3a 2 b+3ab 2 +b 3. Deste modo, a expressão de vm 2 () em () pode ser escrita como ou ainda vm 2 () = (2+)3 2 3 = (23 +3 2 2 +3 2 2 + 3 ) 2 3 = (2+6+2 ), vm 2 () = 2+6+ 2. Vale ressaltar que, ainda que a expressão do lado direito da equação acima possa ser calculada para qualquer valor de, o domínio da função vm 2 continua sendo [ 2,0) (0,+ ). Usando a expressão acima, os valores de vm 2 () da tabela anterior podem ser facilmente calculados. Além disso, fica muito simples perceber o que acontence com vm 2 () quando se aproxima de zero. De fato, como os termos 6 e 2 ficam próximos de zero, concluímos que vm 2 () se aproxima de 2, conforme esperávamos. Usamos a seguinte notação para escrever isso de maneira sucinta: lim vm s(2+) s(2) 2() = lim 0 0 = 2. Observe que todas estas considerações nos permitem concluir que a velocidade do carro no instante t = 2 é igual a 2. Não existe nada de especial no instante t = 2, escolido para a exposição acima. Para qualquer t > 0, podemos calcular a velocidade no instante t > 0 como sendo s(t+) s(t) (t+) 3 t 3 v(t) = lim = lim. 0 (t+) t 0 Usando novamente a expressão do cubo de uma soma, obtemos de modo que (t+) 3 t 3 = (t 3 +3t 2 +3t 2 + 3 ) t 3 = (3t 2 +3t+ 2 ), v(t) = lim 0 (3t 2 +3t+ 2 ) = lim 0 (3t 2 +3t+ 2 ) = 3t 2 +0+0 = 3t 2. 3

Na penúltima igualdade acima, usamos o fato de, para cada t > 0 fixado, os termos 3t e 2 se aproximarem de zero quando se aproxima de zero. Assim, podemos enunciar a solução do nosso problema como se segue: Solução do problema: Se a posição do carro é dada pela função s(t) = t 3, então a velocidade é v(t) = 3t 2, para todo t > 0. Em particular, a velocidade no instante 2 é igual a 2. Finalizamos com algumas observações importantes:. O método desenvolvido aqui nos permite considerar várias expressões diferentes para a função s(t). Tudo o que deve ser feito é uma manipulação algébrica da expressão s(t+) s(t), de modo a descobrir o que acontece com o quociente quando se aproxima de zero. 2. A expressão acima não está definida quando = 0. Isso não é importante na aplicação do método, visto que queremos estudar o comportamento do quociente para valores que são próximos, mas diferentes de zero. 3. Estas ideias serão desenvolvidas à exaustão nas próximas semanas, quando introduziremos o conceito de derivada. Contudo, se você cegou vivo até aqui, não terá nenuma dificuldade para entender o que está por vir. 4. O que foi feito aqui depende somente de sabermos a definição de velocidade média. Assim, você pode agora tentar explicar isso tudo para aquele seu primo que cursa o primeiro ano do ensino médio! Como um bom exercício, vale a pena refazer as contas acima para o caso em que s(t) = s 0 +v 0 t+(a/2)t 2, com s 0, a R, para verificar que, nesse caso, o limite da velocidade média quando se aproxima de zero é exatamente v(t) = v 0 +at. 4

Tarefa Nesta tarefa vamos usar a mesma estratégia adotada no texto para determinar a velocidade do carro, supondo agora que a posição é dada pela função s(t) = t, t > 0. Vamos inicialmente calcular a velocidade no instante t = 3. Para tanto, siga os passos abaixo:. Com o auxílio de uma calculadora, complete a tabela abaixo: 0 instante final t = 3+ velocidade média s(3+) s(3) (3+) 3 4 0, 0833 (aproximadamente) 0, 3, 0,0 0,00 2. Verifique que, após as devidas simplificações, temos s(3+) s(3) = 3+ 3 = = (3+)3. 3. Fazendo se aproximar de 0 na última expressão acima, determine v(3). Repetindo o argumento do item 2 acima verifique que v(t) = lim 0 s(t+) s(t) = = lim 0 (t+)t, e obtena a expressão para v(t). O que significa o sinal de menos que aparece nessa expressão? 5