Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem

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Transcrição:

Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem

Professora conteudista: Bernadete Lenza

Sumário Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Unidade I 1 INTRODUÇÃO...1 2 JEAN PIAGET...1 3 EPISTEMOLOGIA GENÉTICA...2 4 TEORIA COGNITIVA DE JEAN PIAGET...3 ESTRUTURA MENTAL...6.1 Períodos do desenvolvimento cognitivo...7 6 EQUILIBRAÇÃO, ASSIMILAÇÃO, ACOMODAÇÃO E E ADAPTAÇÃO...8 6.1 Equilibração...9 6.2 Assimilação... 6.3 Acomodação...11 6.4 Adaptação...13 Unidade II 7 INTRODUÇÃO...17 8 PERÍODO SENSÓRIO-MOTOR...18 9 PERÍODO PRÉ-OPERACIONAL... PERÍODO DAS OPERAÇÕES CONCRETAS...23 11 PERÍODO DAS OPERAÇÕES FORMAIS...28 12 CONCLUSÃO...33

PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO E DA APRENDIZAGEM Unidade I 1 INTRODUÇÃO A psicologia da criança pretende realizar um estudo sobre o crescimento mental ou o desenvolvimento das condutas, dos comportamentos, desde o nascimento do indivíduo até a fase de transição constituída pela adolescência, fase essa que marca sua inserção na sociedade adulta. O crescimento mental vem associado ao crescimento físico, notadamente a maturação dos sistemas nervoso e endócrino, que se estende até cerca dos dezesseis anos de idade. Na chegada do estado de equilíbrio relativo, constitui-se o nível adulto. 2 JEAN PIAGET Piaget nasceu em Neuchâtel no dia 9 de agosto de 1896 e morreu em Genebra, no dia 16 de setembro de 1980, aos 84 anos. Desde cedo demonstrou interesse por história natural. Aos onze anos observou um melro albino em uma praça de sua cidade, gerando, assim, seu primeiro trabalho científico. Inicialmente, estudou biologia, na Suíça e, posteriormente, dedicou-se à área de psicologia epistemológica e educação. Entre suas várias incursões no círculo científico, salientamse seus antecedentes intelectuais no campo da filosofia, da psicologia, da matemática, da lógica, da física, da biologia, além A aprendizagem é um processo que começa ao nascer e termina ao morrer. 1

Unidade I da experiência como professor de psicologia na Universidade de Genebra de 1929 a 194. Ficou conhecido, principalmente, por organizar o desenvolvimento cognitivo em uma série de estágios. Ele revolucionou as concepções de inteligência e de desenvolvimento cognitivo partindo de pesquisas baseadas na observação e em entrevistas realizadas com crianças. Em seus estudos interdisciplinares, sempre pesquisando diversos assuntos, Piaget abriu um novo campo de estudos: a epistemologia genética. Na década de 190, fundou o Centro Internacional de Epistemologia Genética da Faculdade de Ciências da Universidade de Genebra. Piaget interessou-se, fundamentalmente, pelas relações que se estabelecem entre o sujeito que conhece e o mundo que tenta conhecer. 3 EPISTEMOLOGIA GENÉTICA Piaget chamou sua estrutura teórica geral de epistemologia genética, pois estava interessado em estudar como se processa o desenvolvimento cognitivo no ser humano. Piaget considerou-se um epistemólogo genético porque investigou a natureza e a gênese do conhecimento nos seus processos e estágios de desenvolvimento. 2 2 A epistemologia genética procura, por meio da experimentação, da observação, desvendar os processos fundamentais da formação do conhecimento. Piaget teve interesse em saber como o conhecimento se desenvolve em organismos humanos. Centrou-se em saber como a criança aprende, como o conhecimento progride dos aspectos mais inferiores aos mais complexos e rigorosos. Defendeu que o indivíduo passa, ao longo de sua vida, por várias etapas do desenvolvimento de sua inteligência. Daí o nome dado à sua ciência de epistemologia genética 1, que é entendida como o estudo dos mecanismos do aumento dos conhecimentos. 1 Já na segunda metade do século XIX, a palavra genética foi utilizada na expressão psicologia genética pelos psicólogos antes que os biólogos a empregassem em sentido mais restrito. Na linguagem atual dos biólogos, a genética refere-se, exclusivamente, aos mecanismos da hereditariedade, em oposição aos processos embriogenéticos ou ontogenéticos. Pelo contrário, a expressão psicologia genética refere-se ao desenvolvimento individual, ou seja, da ontogenia.

PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO E DA APRENDIZAGEM Epistemologia = saber, ciência, conhecimento. Logia = estudo. Gênese = início. O objetivo da epistemologia genética é saber em quais condições se desenvolve a inteligência. 4 TEORIA COGNITIVA DE JEAN PIAGET Piaget usou a observação e o teste em suas investigações a respeito do pensamento infantil, inferindo, por meio dos resultados, como a criança deve ter experimentado o mundo de modo a comportar-se como o fez. Descobriu, assim, o lado escuro da mente da criança que, até então, eram desconhecidos e insuspeitados. Para ilustrar, Piaget descobriu que crianças acreditam que o sol e a lua seguem-nas e que tudo o que se move está vivo. Em outros domínios, descobriu que elas acreditam que há modificações em números, extensão, quantidade e área quando há uma mudança em sua aparência. Piaget considera que a inteligência, ou seja, o pensamento e a ação adaptativos, apresenta em seu desenvolvimento uma sequência de estágios relacionados com a idade, nos quais novas capacidades mentais são adquiridas determinando limites, bem como o caráter do que pode ser aprendido nesse período. A ordem em que os estágios surgem é a mesma para todas as crianças, tendo, entretanto, influência da qualidade do meio físico e social em que é criada. 2 Assim, Piaget, em sua teoria, mostra como acontece o desenvolvimento cognitivo, ou seja, o desenvolvimento do pensamento desde os estágios iniciais até a formalização do conhecimento na adolescência. Um conhecimento só poderá ser adquirido se o indivíduo estiver preparado para recebê-lo, se puder agir sobre o objeto de 3

Unidade I 2 conhecimento para inseri-lo em um sistema de relações. Assim, se o organismo não tiver um conhecimento anterior, não terá condições para assimilar e transformar um novo conhecimento. Esse processo implica os dois polos da atividade inteligente: assimilação e acomodação. O desenvolvimento cognitivo não ocorre nos moldes do empirismo, vindos unicamente da experiência, ou seja, de fora para dentro, o que implicaria um sujeito passivo sofrendo somente as influências do meio. Tampouco é considerado inato e já presente no sujeito, apesar da flexibilidade, primeiramente neurônica e, depois, motora e semiótica, serem inatas. Resumindo: o comportamento dos seres vivos não é inato nem resultado de condicionamentos. Para Piaget, o comportamento é construído em uma interação entre o meio e o indivíduo. Quanto mais complexa for essa interação, mais inteligente será o indivíduo. É um processo dinâmico e dialético, uma vez que o ser humano está sempre reformulando seu conhecimento e interagindo com o mundo e sofrendo a influência da ação deste sobre si. O sujeito, interagindo com o meio, ou seja, agindo sobre o mundo que está em constante processo de adaptação, é capaz de transformar a realidade na qual interage e de transformar a si mesmo. Dessa forma, constrói sua inteligência pela aquisição de conhecimentos. Portanto, o desenvolvimento é um processo contínuo de adaptação. 30 Para o desenvolvimento da inteligência, necessita-se do mecanismo de adaptação do organismo a uma situação nova, e isso implica a construção contínua de novas estruturas. Para sua teoria, Piaget explorou todos os aspectos do desenvolvimento, da cognição, inteligência e moral. Praticamente, explorou todas as categorias cognitivas, desde as mais simples até as mais complexas. Ele incluiu 4

PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO E DA APRENDIZAGEM 2 observações do desenvolvimento infantil na aprendizagem dos conceitos matemáticos e lógicos. Averiguou a formação da cognição com relação aos conceitos de espaço, de tempo, de causalidade, de número, das quantidades físicas etc. de praticamente todas as categorias cognitivas, desde as mais simples até as mais complexas, desde o nascimento até a adolescência. Assim, por exemplo, para crianças pequenas, os professores devem tentar fornecer um ambiente estimulante, com objetos amplos para que elas brinquem. Já para as maiores, os problemas de classificação, ordenação, localização e conservação podem ser apresentados, utilizando-se objetos concretos. As descobertas piagetianas abrem campo de estudo para a psicologia do desenvolvimento, para a sociologia e para a antropologia, entre outras, além de permitir que os pedagogos tracem uma metodologia baseada em suas descobertas. Piaget acredita que, dependendo do estágio em que a criança está, ela fornecerá explicações diferentes da realidade. Recomenda, inclusive, que as atividades devem envolver um nível apropriado de operações motoras ou mentais para uma criança de uma dada idade, não exigindo tarefas que estão além das capacidades cognitivas atuais do indivíduo. Outra recomendação é envolver ativamente os alunos apresentando desafios. Por meio de seus estudos, Piaget deu origem à teoria cognitiva, demonstrando que existem quatro estágios de desenvolvimento cognitivo no ser humano: sensório-motor, pré-operacional, operatório concreto e operatório formal. 30 Piaget não só descreveu o processo de desenvolvimento da inteligência, mas também, experimentalmente, comprovou suas teses. Assim, sua teoria tem comprovação em bases científicas.

Unidade I ESTRUTURA MENTAL O ponto central para a teoria cognitiva é o conceito de estrutura cognitiva ou estrutura mental. As estruturas cognitivas são formadas pela troca do organismo com o meio, ou seja, é por meio da ação adaptativa que ocorre a construção das estruturas mentais. São padrões de ação física e mental subjacentes a atos específicos de inteligência e correspondem a estágios do desenvolvimento infantil. Os estágios de desenvolvimento cognitivo são sequenciais e obedecem a uma ordem, estando, assim, associados a faixas etárias características, variando, entretanto, para cada indivíduo. Dessa forma, podem-se encontrar duas crianças de seis anos em níveis diferentes de desenvolvimento, pré-operacional ou operacional concreto. Assim, cada estrutura cognitiva tem o seu momento próprio de aparecer. É necessária a interação adequada com o ambiente para que cada estrutura cognitiva manifeste-se e, dessa forma, possa ser utilizada em sua máxima capacidade. O desenvolvimento cognitivo é regido por um processo sequencial em que são respeitadas as etapas, caracterizadas por diferentes estruturas mentais. Os estágios têm caráter integrativo. As estruturas construídas em determinado nível são integradas nas estruturas do nível seguinte. 2 30 As estruturas cognitivas mudam por meio de processos de adaptação: assimilação e acomodação. A assimilação envolve a interpretação de eventos em termos de estruturas cognitivas existentes, enquanto que a acomodação se refere à mudança cognitiva para compreender o meio. O desenvolvimento cognitivo consiste de um esforço constante para se adaptar ao meio em termos de assimilação e acomodação. 2 2 Disponível em <http://www.nce.ufrj.br/ginape/publicacoes/trabalhos/ RenatoMaterial/psicologia.htm>. 6

PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO E DA APRENDIZAGEM.1 Períodos do desenvolvimento cognitivo Existem quatro estruturas cognitivas primárias, isto é, estágios de desenvolvimento, de acordo com Piaget: sensório-motor, pré-operacional, operações concretas e operações formais. Cada estágio tem muitas formas estruturais detalhadas. Por exemplo, o período operacional concreto tem mais de quarenta estruturas distintas, cobrindo classificações e relações, relações espaciais, tempo, movimento, oportunidade, número, conservação e medida. (...) No estágio sensório-motor (0-2), a inteligência assume a forma de ações motoras. A inteligência no período pré-operacional (3-7 anos) é de natureza intuitiva. A estrutura cognitiva durante o estágio de operações concretas (8-11 anos) é lógica, mas depende de referências concretas. No estágio final de operações formais (12- anos), pensar envolve abstrações. 3 A pesquisadora Carla Beatris Valentini explica: 2 A criança pré-conceitual precisará de jogos e atividades que devem proceder ao desenvolvimento conceitual areia, água, recipientes diferentes e necessitará de atenção para que ocorra o desenvolvimento das funções direcionais da fala. Já a criança operacional concreta será capaz de internalizar as ações e necessita de prática no uso do repertório de conceitos que já domina. 4 Portanto, para se propor uma atividade para a criança, é necessário conhecer seu nível de desenvolvimento. Esse id=1>. 3 Idem. 4 Disponível em <http://www.terezinhamachado.com/artigos.php? 7

Unidade I procedimento evitará propor situações problemáticas em momento inoportuno ou de forma inadequada. Períodos 1º período: sensório-motor (do nascimento até os dois anos de idade). 2º período: pré-operacional (dos dois anos até os sete anos de idade). 3º período: operações concretas (dos sete anos até os doze anos de idade). 4º Período: operações formais (dos doze anos até os quinze anos de idade). Azenha (06, p. 39) afirma: À medida que se dá o processo do desenvolvimento, a assimilação e a acomodação sofrem uma diferenciação crescente, passando de antagônicas a complementares. Para exemplificar a mudança da relação entre essas invariantes funcionais, nos dois primeiros anos de vida há um estado de profundo egocentrismo, no qual assimilação e acomodação não se diferenciam. O objeto e a atividade à qual o objeto é assimilado constituem para a criança uma experiência única. A criança não tem, ainda, meios de distinguir suas ações da realidade dos objetos aos quais elas são dirigidas. Não existe, ainda, o eu e o mundo exterior, uma vez que o bebê não distingue a assimilação dos objetos ao eu e a acomodação do eu aos objetos. O ponto central para a teoria cognitiva é o conceito de estrutura cognitiva ou estrutura mental. 6 EQUILIBRAÇÃO, ASSIMILAÇÃO, ACOMODAÇÃO E ADAPTAÇÃO Para a elaboração de sua teoria, Piaget considerou fatores internos e fatores provindos da interação do sujeito com a realidade. A hereditariedade, a experiência física e a transmissão 8

PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO E DA APRENDIZAGEM social são fatores influenciadores. O processo da equilibração é, por sua vez, um fator determinante. A hereditariedade, apesar de influenciar o desenvolvimento, não é suficiente para explicar o desenvolvimento cognitivo da criança. A experiência que resulta das ações realizadas materialmente é, também, insuficiente, uma vez que a lógica da criança não se sustenta apenas com ela, apesar de ser essencial ao desenvolvimento. Para que o processo do desenvolvimento cognitivo ocorra adequadamente é necessária a coordenação interna entre as ações que a criança exerce sobre os objetos. 6.1 Equilibração O fator principal, essencial e determinante no desenvolvimento do indivíduo perante o processo de se adaptar ao meio em que vive é a equilibração. 2 Perante o enfrentamento de um conflito cognitivo, o indivíduo necessita atingir uma coerência entre o que já sabia com as novidades provocadoras desse conflito. É necessário um jogo de regulações e de compensações. As leis da equilibração vêm atuar nesse processo de regulação. O processo interno de regulação e compensação se dá por mecanismos internos de assimilação e acomodação. Assim, perante a aquisição de novos conhecimentos, dois procedimentos ocorrem, o da assimilação e o da acomodação, que buscam restabelecer um equilíbrio mental perturbado pelo contato com o novo conhecimento a ser adquirido. 30 A construção das estruturas da inteligência é explicada pelo processo contínuo da equilibração, no equilíbrio entre a assimilação e a acomodação. Assim, é pela equilibração entre a assimilação e a acomodação que se desenvolve a aprendizagem. 9

Unidade I O equilíbrio entre a assimilação e a acomodação resulta em adaptação. Na assimilação, os dados que se obtêm do exterior podem ser inseridos em um esquema já existente que, então, ampliase. No caso de o dado novo ser incompatível com os esquemas já formulados, será necessária a criação de um novo esquema acomodando, dessa forma, esse novo conhecimento, que irá, por sua vez, ampliando-se cada vez que a pessoa estabelecer relações com seu meio. Nota-se, portanto, que os dados vindos do exterior sofrem alterações por parte do indivíduo. 6.2 Assimilação 2 Como já visto, somente a educação e a transmissão social não são suficientes para o desenvolvimento do indivíduo, embora sejam necessárias. É preciso haver a assimilação dos dados vindos do meio, do exterior. Portanto, todas as coisas, ideias dele ou de outras pessoas, retiradas de dados do meio exterior, tendem a ser explicadas, ou mesmo interpretadas, inicialmente, em função de seus esquemas ou estruturas cognitivas já construídas, segundo suas concepções atuais. Nesse caso, não houve necessidade de modificações interiores nas concepções dos sistemas cognitivos do sujeito. Este se apropria do objeto de conhecimento e dálhe significado próprio, integrado às possibilidades de seu entendimento, integrado às possibilidades da sua inteligência até então construídas. Esse mecanismo é chamado de assimilação. 30 Por meio desse mecanismo, pode haver o entendimento dos dados, podem-se emitir hipóteses possíveis de acordo com a inteligência do organismo que o recebe. O indivíduo, ao agir e se apropriar do objeto de conhecimento, atribui-lhe

PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO E DA APRENDIZAGEM significado. Dessa forma, o indivíduo aplica, constantemente, esse mecanismo para compreender o mundo. Piaget (1973, p. 69) diz: Pela assimilação, quando o sujeito age sobre o objeto, este não é absorvido pelo objeto, mas o objeto é assimilado e compreendido como relativo às ações do sujeito... desde as coordenações mais elementares encontramos na assimilação uma espécie de esboço ou prefiguração do julgamento: o bebê que descobre que um objeto pode ser sugado, balançado ou puxado se orienta para uma linha ininterrupta de assimilação, que conduzem até as condutas superiores, que usa o físico quando assimila o calor ao movimento ou uma balança a um sistema de trabalhos virtuais. Nessas condições, não há necessidade de modificação interior nas concepções dos sistemas cognitivos do sujeito. Entretanto, nem sempre isso ocorre, ou seja, nem sempre ocorre a assimilação pura. Quando o sujeito enfrenta uma experiência nova ou se depara com uma característica da experiência que contradiga as suas hipóteses possíveis de interpretação, pode ocorrer uma perturbação cognitiva. Nesse caso, o sujeito se lança em um movimento de acomodação. O mecanismo da assimilação consiste na incorporação de dados em função de esquemas ou estruturas cognitivas já construídas pelo sujeito. 2 6.3 Acomodação Quando a informação do mundo exterior não pode ser incorporada pelas estruturas já existentes no sujeito não sendo, 11

Unidade I assim, possível a sua apreensão, a sua assimilação, surge a necessidade de modificação das hipóteses anteriores. A esse mecanismo dá-se o nome de acomodação. 2 Assim, quando não é possível a apreensão de um objeto, pois o mesmo impõe resistências, o sujeito se lança em um esforço de acomodação, em sentido contrário ao da assimilação, modificando suas hipóteses anteriores e somente então se torna possível a assimilação dessa novidade. Portanto, ocorre a acomodação a partir das provocações oriundas das situações novas vivenciadas pelo sujeito. Nessa situação, devido a um esforço do sujeito no sentido de se transformar, surge o mecanismo de acomodação. O sujeito inventa uma solução própria para uma situação conflitante. A estrutura modifica-se em função do meio. A construção da inteligência, a adaptação intelectual, acontece quando ocorre um equilíbrio progressivo entre um mecanismo assimilador e uma acomodação complementar. Um novo patamar de equilíbrio, melhor e superior que os anteriores, foi conquistado. Se o sujeito tem consciência desse processo de autossuperação, sente prazer e é esse prazer que deve estar presente nas atividades pedagógicas, pois incentivam e impulsionam a ação além de interagirem com a natureza afetiva do indivíduo. O prazer e a necessidade devem estar presentes nas atividades pedagógicas. 30 Devido ao fato de esse processo desenvolver-se em etapas sucessivas, com complexidades crescentes e serem encadeadas entre si, Piaget o chamou de construtivismo sequencial. A experiência física e a experiência lógico-matemática são as duas formas para se lidar com os materiais. 12

PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO E DA APRENDIZAGEM A experiência física diz respeito à concepção clássica do que seja experiência, ou seja, agir sobre os objetos, descobrindo suas propriedades físicas e, também, as propriedades observáveis das ações obtidas materialmente. Para que isso ocorra, é necessária uma organização estruturada no nível da inteligência. Dito em outras palavras: é necessária a assimilação havendo, assim, uma inter-relação entre experiência física e experiência lógico-matemática que envolve não somente abstrações exercidas sobre os objetos, mas as abstrações das coordenações que ligam essas ações. As experiências lógico-matemáticas têm como característica a abstração reflexiva e são construídas na mente do indivíduo. Relacionam-se com as propriedades das ações e não apenas dos objetos. 6.4 Adaptação Até aqui muito foi falado sobre a adaptação. Foi visto que na adaptação ocorrem duas faces indissolúveis e continuamente ligadas: assimilação e acomodação, embora sejam conceitualmente distintas, opostas e complementares. 2 Azenha (06, p. 32) explica que, em uma ação adaptativa, a assimilação e a acomodação ocorrem como sendo faces da mesma moeda, continuamente interligadas. Ilustra o processo por meio de um exemplo biológico. Diz o autor: Um bom exemplo biológico do processo de adaptação é a alimentação dos seres vivos. Ela pode ser usada como metáfora para o desenvolvimento mental. Ao alimentar-se, todo ser vivo incorpora elementos do ambiente, produzindo, por meio da digestão, transformações nas substâncias ingeridas. As 13

Unidade I alterações nos elementos ingeridos são necessárias para que as substâncias possam vir a fazer parte da estrutura do organismo, quando quase sempre guardam muito pouco de sua estrutura original. Portanto, o organismo também se altera para se adaptar aos elementos ingeridos, tanto no momento de entrada do alimento como, também, nas estratégias e adaptações que este deve fazer para dar conta das exigências necessárias à transformação dos alimentos. Os ajustes do organismo em relação ao objeto incorporado representariam a acomodação, no processo adaptativo, ao passo que a incorporação e a transformação das substâncias seriam a face assimilativa do mesmo processo. Similarmente à alimentação, ratifica Piaget, a inteligência é uma adaptação; é uma função que consiste em estruturar o universo tal como o organismo estrutura o meio imediato, embora mais restrita e mais eficiente do que a puramente biológica. É mais eficiente porque estabelece relação entre o pensamento e as coisas e, assim, elabora formas disponíveis para serem aplicadas às estruturas do meio. É a necessidade de assimilação que conduz ao movimento que organiza um esquema. Azenha (06, p. 34) continua: 2 30 A criança olha por olhar, agarra por agarrar, suga para se alimentar ou suga qualquer objeto que roce seus lábios, sem ainda coordenação das diversas ações entre si. Cada sequência de ações usadas como exemplo constitui um esquema: de olhar, de agarrar, de sugar, etc. Todos os elementos alcançados pelo esquema são também alimentos para essa estrutura primitiva. A repetição da ação perante outros objetos resulta no aumento da assimilação, na diferenciação e na sua generalização. 14

PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO E DA APRENDIZAGEM A motivação pela repetição dos esquemas justifica a existência de uma espécie de compulsão para a assimilação, favorecendo o dinamismo para o desenvolvimento. A criança passa a sugar o próprio dedo e, também, o de outras pessoas, bem como outros objetos, generalizando esse esquema. Repetição, generalização e reconhecimento são as características funcionais de todos os esquemas assimilativos. O interesse de Piaget pela análise desses esquemas iniciais, provindos dos reflexos de sucção deveu-se ao encontrar as regularidades que dão origem ao funcionamento mental. A repetição cumulativa, a generalização da atividade com a incorporação de novos objetos e o reconhecimento motor são processos iniciais da formação dos esquemas intencionais e dos comportamentos propriamente inteligentes. Assim, Piaget conseguiu postular as características e as leis que regerão o desenvolvimento psíquico posterior. Azenha (06, p. 37) cita que Piaget exemplifica a organização e a adaptação recíproca entre esquemas: 2 30 Pode-se dizer, assim, que, independentemente de toda coordenação entre a visão e os demais esquemas (preensão, tato, etc.), os esquemas visuais estão mutuamente organizados e constituem totalidades melhor ou pior coordenadas. Mas o essencial [...] é a coordenação dos esquemas visuais, não entre eles, mas com os outros esquemas. [...] Quando, por volta dos 7 a 8 meses de idade, a criança olha pela primeira vez para objetos desconhecidos, antes de agarrá-los para os balançar, atirar e agarrar de novo, etc., já não procura olhá-los por olhar (assimilação visual pura, na qual o objeto é um simples alimento para o olhar) nem mesmo olhá-los para ver (assimilação visual generalizadora ou recognitiva, na qual o objeto é incorporado, sem mais, aos esquemas visuais já elaborados), mas olhá-los agora para agir, quer

Unidade I dizer, para assimilar o objeto novo aos esquemas de balanço, de fricção de queda, etc. Portanto, já não há apenas organização no interior dos esquemas visuais, mas entre estes e todos os outros. É essa organização progressiva que confere aos quadros visuais seus significados e os consolida, inserindo-os em um esquema total. Tendo em vista que o organismo somente é capaz de assimilar aquilo que seus esquemas de assimilação conseguem conhecer, os quais são construídos pela experiência passada, o conhecimento do real se dá gradualmente. Por sua vez, como resultado da acomodação, o velho é transformado em novo, não tendo, assim, saltos bruscos no desenvolvimento, o que quer dizer que elementos novos, radicalmente bem diferentes não podem ser assimilados sem a estrutura de uma determinada etapa do desenvolvimento. Caso contrário, o organismo sofreria alterações drásticas. Esse procedimento, portanto, faz com que cada nova estrutura construa-se a partir de pequenas mudanças na estrutura já existente. O desenvolvimento cognitivo realiza-se, portanto, por meio de um processo gradativo de avanços em direção a estruturas qualitativamente superiores. 16