Direitos autorais e domínio público: a questão da promoção do saber. Enid Abreu Universidade São Francisco

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1 Direitos autorais e domínio público: a questão da promoção do saber. Enid Abreu Universidade São Francisco Resumo: A cultura transmitida pela escola é organizada principalmente com base em um sistema de obras o cânone literário indissociável da idéia de autor. Defendemos que no processo de constituição dessa idéia, na sua concepção moderna, exerceu papel importante a questão dos direitos autorais, primeiramente nascida na Inglaterra do século XVIII. Apresentamos um resumo dos argumentos levantados até então nos processos movidos pelos editores e os presentes nos debates que levaram à primeira lei de direitos autorais, o Statute of Anne, base das atuais leis de direitos autorais, com ênfase nas declarações acerca da promoção do saber. Concluimos com considerações acerca da relação dos direitos autorais com as condições da leitura pura, nos termos de Pierre Bourdieu. palavras-chave: direitos autorais; promoção do saber; leitura Direitos autorais e domínio público: a questão da promoção do saber. Direito autoral : direito exercido pelo autor ou por seus descendentes sobre suas obras, no tocante à publicação, tradução, venda, etc. Novo Aurélio Copyright : the exclusive legal right, given to the originator or their assignee for a fixed number of years, to print, publish, perform, film, or record literary, artistic, or musical material, and to authorize others to do the same. The New Oxford Dictionary of EnglishClarendon Décadas antes das discussões que têm envolvido as modernas concepções de autor e de literatura como formações culturais, Northrop Frye sublinhava a importância fundamental do quanto elas devem à noção de direitos autorais e às políticas editoriais, ocultas pela crença no ato de criação ex nihilo de um indivíduo imerso numa atividade puramente intelectual. (Frye, 1957: 99) O objetivo deste ensaio - que faz parte de uma 1

2 pesquisa teórico-bibliográfica mais extensa acerca da formação da moderna concepção de autor - é trazer para as discussões acerca das condições de leitura das obras literárias e da construção do cânone literário a questão dos direitos autorais, mediante um breve resumo dos principais pontos de inflexão que marcaram o longo processo pelo qual se formularam seus princípios básicos. As duas citações em epígrafe são emblemáticas de dois entendimentos de direitos autorais. É possível dizer que sua diferença se deve apenas ao grau de detalhamento dessa noção, mas, de nosso ponto de vista, trata-se de algo mais fundamental. Contrariamente ao Novo Aurélio, que define direitos autorais de maneira vaga, dando margem a seu entendimento como algo naturalmente concebível, o New Oxford marca seu aspecto essencialmente legal, o que implica igualmente sua formação histórica. A noção de direitos autorais consiste, antes de mais nada, no estabelecimento de limites entre uma obra e outra, e esse ato é essencialmente jurídico: sua existência deriva da consideração das obras literárias - na forma de textos, livros - como mercadorias e portanto tal concepção é coetânea ao desenvolvimento da economia de mercado, que atingiu seu estágio até hoje vigente nos séculos XVII e XVIII. Trata-se portanto de uma idéia especificamente moderna, nascida do comércio livreiro, a partir do final do século XV, como conseqüência da revolução gutenberguiana, pela qual a reprodução dos materiais escritos pelos scriptoria monacais foi substituída pela das oficinas dos impressores. Essa tese tem sido amplamente desenvolvida nas últimas décadas por estudiosos como Mark Rose, Peter Jaszi, Trevor Ross, Lyman Ray Patterson, Carla Hesse e Martha Woodmansee. Para este artigo, utilizamonos principalmente dos estudos dos cinco primeiros, em virtude de nos limitarmos ao caso britânico. Nossa exposição concentra-se em duas afirmações principais dos autores mencionados. A primeira é de que há uma relação intrínseca e direta entre profissionalização do autor e instituição das leis de direitos autorais. A segunda, de que tal processo não se completou antes que se atingisse um certo nível de produção e consumo de impressos, situação que primeiramente se efetuou na Inglaterra, onde se desenvolvera mais rapidamente a economia de mercado. (Rose, 1993: 4) Foi lá que se promulgou, em 1710, a primeira lei de direitos autorais, o Statute of Anne Anne porque durante seu reinado. 1 Porém o Statute foi apenas a culminância de um longo processo, do qual fazem parte três modalidades de direitos autorais: os direitos autorais da Stationers Company 1 A referência a esse decreto específico será marcada por seu título em inglês, Statute. 2

3 (Sociedade dos Papeleiros); a patente de impressão, também chamada de privilégio; e o controle governamental da imprensa. (Patterson, 1968: 4) Na Idade Média, qualquer pessoa munida de pena e papel (ou pergaminho) podia produzir cópias de textos. O sistema de impressão mecânica, no entanto, requeria grandes investimentos de capital e garantia de lucros financeiros. Após a introdução da imprensa na Inglaterra por William Caxton em 1476, os livreiros e impressores sentiram a necessidade de proteger seus interesses. Em 1557, em resposta a uma petição sua, instituiu-se por concessão régia uma guilda, a Stationers Company, que limitava a permissão de publicação de livros aos seus membros formalmente registrados. Nesse período, o que se entende por copyright/direitos autorais, era designado pelo termo copy/cópia, e a expressão stationer s copy right indicava o direito de cópia permitido aos membros registrados da associação dos papeleiros. Tratava-se de uma propriedade regulamentada pela guilda, vedada aos escritores, que implicava direitos perpétuos. O aspecto mecânico dos novos meios de reprodução de escritos deu origem também a um tipo concomitante de copyright: a patente de impressão (printing patent), concedida exclusivamente pelo rei. Instituídas para proteção e promoção do desenvolvimento do comércio livreiro nacional, as patentes serviram igualmente de instrumento de controle governamental, em outras palavras, de censura, em períodos de agitação política e religiosa. Embora a patente de impressão pudesse ser concedida a qualquer pessoa, era na maioria das vezes dada aos membros da Stationers Company, e assim ambos os primeiros tipos de direitos de publicação sustentaram e reforçaram o monopólio que caracterizou a vigência da Stationers Company. Nesse primeiro período do século XVI ao século XVII, que Patterson chama de regulamentação, os direitos autorais constituíam uma prerrogativa do editor-impressor. Assim, durante todo o tempo em que prevaleceu a Stationers s Company cerca de dois séculos - os autores não detinham direitos legais sobre suas obras. Ainda que no século XVII alguns indícios houvesse de que os escritores começavam a pensar em obter o controle da primeira publicação de suas obras, não existiam ainda formas legais de impedir impressões de suas obras sem sua permissão. Somente a Stationers Company podia ceder direitos autorais. O que não quer dizer que o autor fosse inteiramente desconsiderado: os impressores reconheciam a obrigação de pagar o autor e obter sua permissão para publicação de sua obra, mas essa permissão, de um ponto de vista legal, era antes negativa do que positiva. Em outras palavras, a anuência do autor era na verdade um acordo negativo, um contrato em que declarava não se opor à publicação da obra, e não um contrato que cedia um direito a publicá-la. (Patterson, 1968: 73) Como observa Rose, a figura do autor proprietário 3

4 depende de um conceito do indivíduo como essencialmente independente e criativo, algo incompatível com a ideologia do estado absolutista. (Rose, 1996: 28) O fato de o pagamento aos autores pelos seus manuscritos ser considerado mais propriamente como uma recompensa corresponde perfeitamente à condição de produção cultural anterior ao regime de mercado. Como bem observa Rose, o produto do trabalho do escritor era considerado mais um ato do que uma coisa: os textos podiam servir para enobrecer ou imortalizar grandes mecenas e, com isso, talvez redundar em cargos ou outros favores a seus autores. (Rose, 1993: 13) Ao contrário do que comumente se pensa, a figura do autor como proprietário de sua obra e detentor de direitos autorais não foi uma conquista dos escritores, mas um subproduto dos debates ocorridos durante os processos movidos por editores contra impressores piratas. Foi também nesse processo que emergiu a concepção moderna de autor como profissional das letras. A história detalhada dos processos judiciais que se acumularam desde fins do século XVII até meados do século XVIII e que se estenderam por todo o século XIX é fascinante e tem sido explorada por historiadores do livro e da chamada história cultural. Contudo, nos limitaremos a apenas alguns processos mais próximos ao nosso tema. Todos eles se deram em torno da questão do monopólio dos livreiros e impressores. A patente de impressão instituída no século XVI era um prerrogativa real. Da parte do Rei, era uma garantia de controle de publicações julgadas sediciosas; da parte dos livreiros editores, uma garantia de monopólio e, portanto, de uma propriedade econômica que protegia seus investimentos contra competidores. Do ponto de vista dos autores, ela não tinha nenhuma importância, uma vez que o detentor dos direitos autorais, ou seja, os editores, não podiam um acordo de cavalheiros, mais ou menos honrada - alterar ou mudar a obra. Tudo mudou quando, em fins do século XVII, a questão do monopólio passou a ser discutida em termos de perpetuidade. O Statute of Anne e o monopólio O primeiro Decreto de Direitos Autorais inglês, o Statute of Anne, de 1709 e promulgado em 1710, é geralmente tido como um divisor de águas na história dos direitos autorais, pela qual se estabeleceram os autores como proprietários de suas obras. Mas, argumenta Patterson entre outros -, isso não é inteiramente verdade. O Statute teve um duplo propósito: regulamentar o comércio livreiro, que se encontrava em situação caótica devido aos inúmeros os litígios entre livreiros londrinos e das províncias, assim como entre livreiros detentores de privilégios e editores piratas - e impedir a continuação do monopólio dos editores e impressores. 4

5 Com relação ao monopólio, como sublinha Patterson, a lei promulgada em 1710 tratou-o mediante duas decisões. Em primeiro lugar, cancelou o monopólio da Stationers Company, tornando os direitos autorais acessíveis a qualquer pessoa portanto, também aos autores. Em segundo lugar, substituiu o monopólio perpétuo dos livreiros pelos direitos autorais limitados a vinte e um anos, a fim de impedir monopólios futuros. (Patterson, 1968: 150) Assim, diz ele, Quando a lei foi finalmente interpretada, os direitos autorais, a princípio mediante os esforços dos livreiros, cessara de ser considerada como um direito de um editor e se tornara direito de um autor. (Patterson, 1968: 150) Mas essa mudança não eliminou as contradições da lei, pois ela abrangia não apenas os dos autores, mas também os dos editores, na medida em que ele podia comprá-los do autor. Permanecia pois a questão do monopólio. Tanto que os editores mais poderosos fundaram, ainda no século XVIII, um conglomerado o Conger para adquirir direitos autorais dos autores e passaram a controlar a publicação de obras não cobertas pelo período de vinte e anos e que tinham um público cativo. De qualquer modo, com o Statute reconhecia-se pela primeira vez o direito legal do autor sobre sua obra. A ele era assegurado o monopólio de impressão por catorze anos, e, no caso em que o autor ainda continuasse vivo, por mais catorze anos. Quanto a obras antigas, os proprietários (autores ou livreiros) teriam o direito exclusivo de imprimi-las por um período de vinte e um anos, a partir de 10 de abril de A figura do autor e os direitos autorais Julga-se comumente que no princípio as obras literárias eram de domínio público e que só depois, com as leis de direitos autorais passaram a constituir propriedade privada. Mas, sublinha Rose não é isso que apontam os estudos sobre a questão. Pelo contrário, direitos autorais e domínio público nasceram juntos. (2003: 76). Em outras palavras, ambas as noções só podem existir em contraste: o domínio público é definido pela cessação dos direitos autorais. Os argumentos levantados pelos defensores de uma e de outra posições são igualmente convincentes. Do lado do autor, a reivindicação da justa recompensa por seu trabalho e por sua contribuição ao conhecimento e ao bem comum. Do lado do público, os interesses da humanidade e o direito ao conhecimento. E, para tornar essa contenda ainda mais complexa, ambas as posições estiveram historicamente ligadas às antiga questão do monopólio e da perpetuidade dos direitos autorais. A seguir, procuraremos resumir as linhas de argumentação da parte dos autores e da parte dos editores e livreiros. 5

6 Peter Jaszi aponta para o dilema estrutural presente na doutrina dos direitos autorais instituida pelo Statute: De um lado, os direitos autorais visa a promover o acesso público e a difusão de obras de autores; de outro, eles busca conceder aos criadores o poder de restringir ou impedir a distribuição de suas obras. Esse conflito reflete-se na tensão entre o benefício público e a recompensa privada inscrita no título integral da primeira lei britânica de direitos autorais, o Statute of Anne de 1709: An Act for the Encouragement of Learning by vesting the Copies of printed Books in the authors or Purcharsors of such Copies during the Times therein mentioned [Um Decreto para a Promoção do Conhecimento ao dar a posse das Cópias de Livros impressos aos autores ou Adquirentes de tais Cópias durante os Períodos mencionados neste documento]. (Jaszi, 1991: 464) Foi no Statute de 1709 que pela primeira vez se mencionou o termo authorship/autoria como figura jurídica. Antes de 1710, os editores normalmente compravam dos escritores o direito da primeira publicação, mas após o Statute essa compra acarretava também uma transferência dos direitos autorais em si. Satisfeitos com a posse de um instrumento legal contra competidores piratas, os editores aparentemente não se deram conta da mudança radical provocada pela transferência da propriedade do impressor para o escritor efetuada pelo Statute. No entanto, esse fato teve conseqüências fundamentais. Embora desde o século XV os escritores se denominassem autores, após o Statute os conceitos de autor e authorship/autoria adquiriram um peso especial, como observa Jaszi (1991: 455-6): esse fato alçou os autores à posição central nos debates legais. Traços dessa mudança encontram-se nas metáforas pelas quais se referiram ao trabalho do qual resulta uma obra literária. Dentre os estudiosos consultados por nós, o que melhor resume esse desenvolvimento é Rose, em seu artigo Nine-tenths of the law (1993). A comparação entre trabalho intelectual e propriedade privada aparece em um panfleto de Defoe, escrito logo após ter saído da prisão, em 1704, intitulado Essay on the Regulation of the Press [Ensaio sobre a Regulamentação da Imprensa], em que compara as publicações piratas ao adultério e à invasão do lar alheio. (Rose, 1993: 35) Em seu periódico Review, logo em seguida, essa comparação aparece novamente: Por que temos leis contra invasores de lares, ladrões de estrada, batedores de carteira, estupradores e todos os tipos de violências, e no entanto nenhuma proteção para o autor? Quando nesse caso um homem é roubado de seus bens, seu bolso esvaziado, sua propriedade arruinada, suas expectativas de progresso arrebatadas, 6

7 após infindáveis esforços, estudos e despesas? (apud Rose, 1993: 37) Addison, em artigo do periódico Tatler, no mesmo ano, emprega a comparação entre trabalho intelectual e trabalho manual: enquanto os trabalhadores manuais têm assegurado seus proventos como fruto de seu labor, os escritores são expostos a roubos e provações devido à pirataria. (Rose, 1993: 36-7) Como bem observa Rose, as metáforas sobre propriedade autoral, desde o primeiro momento, revelam algo sobre as fontes de um novo discurso sobre autorship/autoria, (1993: 37), quando comparadas com as empregadas comumente nos séculos XVI e XVII em referência à relação entre autor e seus escritos, como inspiração divina e magia. Mas uma metáfora antiga comum, a da paternidade o livro como filho -, continua a ser empregada tanto por Defoe quanto por Addison, com uma diferença significativa, porém. Se em Philip Sidney e Cervantes ela comparece no contexto de uma sociedade patriarcal, em Defoe e Addison, ela adquire a acepção da domesticidade, claramente de classe média. (Rose, 1993: 40) Em ambas encontra-se a representação do autor como proprietário que cultiva seus bens fundiários. Nos cinqüenta anos seguintes, essa figuração da obra literária será reiterada e elaborada para a formação do novo conceito de autor como profissional e da obra literária como commodity. O produto do trabalho do autor é uma obra. Mas, em termos legais, no entanto, configurou-se historicamente o inverso: a definição de autor foi tributária da definição de obra. Autor era o produtor de uma obra. Em outras palavras, só poderia ser considerado autor aquele que possuía uma obra, ou seja, um produto a ser comercializado. Jaszi define com clareza a relação historicamente construída pela economia de mercado entre autoria, obra e direitos autorais: Copyright começou com authorship. Mas, com o desenvolvimento da lei de direitos autorais (copyright law), uma nova terminologia serviu para solidificar a noção de propriedade literária. Especificamente, criou-se uma tendência a definir o autor, num movimento contrário, em termos da obra um termo que significa a abstração que recebe uma manifestação concreta em cópia ou cópias. (Jaszi, 1991: ) A perspectiva dos estudos sobre a história do livro nos oferece uma prova concreta desse processo. As primeiras pouco têm a ver com aquelas a que estamos familiarizados: o principal interesse dos livreiros era, de um lado, fazer a propaganda de seu produto, mas de forma confusa pareciam ter aversão ao vácuo, nas palavras de Martin (Martin, 1994: 314) -; de outro, tornar sua aparência agradável, e essa preocupação estética muitas vezes levava a melhor sobre a funcionalidade e a informação. De qualquer modo, o nome do autor não constituía um dado importante na apresentação do livro. A definição da página de rosto, nos 7

8 moldes mais ou menos atuais, não se completou antes do século XVII, e mesmo então o nome do autor tinha de disputar espaço com as dedicatórias (em geral a nobres, segundo o regime de mecenato) e com os atestados de privilégio de impressão, como mandava a lei. Direitos autorais, domínio público e promoção do saber Se é o trabalho que confere ao homem o direito de propriedade, os autores têm, a justo título, direito de propriedade sobre suas obras. Mas e quanto ao direito da sociedade ao conhecimento, que só pode ser promovido pela a circulação das idéias? Eis o conflito final até hoje não resolvido inteiramente resultante dos debates sobre direitos autorais que vimos resumidamente expondo. Neste ponto, as discordâncias se instalaram até mesmo entre os próprios escritores. Os direitos autorais deveriam ser perpétuos ou limitados por um período de tempo, após o qual se tornariam domínio público? Uma das questões levantadas mais importantes era a categoria em que se enquadravam os direitos da parte dos autores: se fosse um direito consuetudinário (common-law), seria perpétuo; se promulgado por decreto, seria passível de limitação no tempo de sua vigência. Uma declaração do grande crítico inglês, Samuel Johnson, define o dilema: Parece (...) haver nos autores um direito mais forte de propriedade do que nas outras profissões: um direito metafísico, um direito como que de criação, que deveria, por sua natureza, ser perpétuo; mas o consenso das nações lhe é contrário e, de fato, também os intereses do conhecimento; pois, a ser perpétuo, nenhum livro, embora útil, poderia ser universalmente difundido entre os homens, caso o proprietário se decidisse a restringir sua circulação. Nenhum livro poderia tem o benefício de ser editado com notas, ainda que necessárias a sua elucidação, se o proprietário perversamente a isso se opusesse. Pelo bem geral do mundo, portanto, toda obra valiosa criada por um autor e por ele publicada deveria ser considerada como não mais a ele pertencente, mas propriedade do público; ao mesmo tempo, o autor tem direito a uma justa recompensa. A ela lhe é assegurado o direito exclusivo por um período considerável de tempo. (Boswell, 1952: 225) Além da clareza com que expõe um conflito - até hoje não resolvido -, as palavras de Johnson nos sugerem três observações finais. Em primeiro lugar, que os direitos de propriedade do autor tal como definidos juridicamente não são ilimitados, principalmente no tocante ao período de validade. Referindo-se a essa questão, conforme as afirmações de Rose, Roger Chartier corrobora-a também no que diz respeito aos direitos autorais na França: 8

9 (...) o direito do autor nada tem de um direito absoluto de propriedade; nem na Inglaterra, visto que a duração do copyright mesmo se é concedido a um autor é limitada; nem na França, já que, quando o autor cede seu manuscrito a um livreiro, o privilégio dado a este que não pode ter uma duração de menos de dez anos só vale durante a vida dos autores, no caso destes sobreviverem à expiração dos privilégios. Em nenhuma das duas legislações, a propriedade literária é, portanto, identificada às propriedades imobiliárias, imprescritíveis e livremente transmissíveis. (Chartier, 1994: 39) Em segundo lugar, eles ainda sofrem modificações diante de novos meios de reprodução, como bem sabemos. No que diz respeito ao período limitado por este artigo o da chamada Batalha dos Livreiros ) -, o capítulo final ocorreu por ocasião do famoso processo Donaldson v. Becket, em 1774, movido por editores importantes de Londres, representados por Becket, contra um editor escocês, Donaldson. A decisão foi, definitivamente, contra o monopólio dos editores e estabeleceu o direito do autor. Em terceiro, a noção de domínio público está, como nos indica a passagem em que Johnson se refere às edições com notas, está implicitamente relacionada à base da formação dos cânones literários, a saber, tanto sua sobrevivência ao teste do tempo quanto ao valor metafísico que se supõe terem adquirido e acrescido das notas de incontáveis comentadores que os acompanham na versão escolar da cultura literária. A importância dos estudos que vimos consultando e aqui resumindo está no fato de que eles trazem à luz um aspecto até pouco tempo negligenciado nos estudos literários: o do papel do discurso jurídico na construção da figura moderna de autor e de obra literária. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOSWELL, James Life of Samuel Johnson LL.D. London: Encyclopaedia Britannica, Great Books of The Western World. CHARTIER, Roger A ordem dos livros. Brasília: UnB. FRYE, Northrop Anatomia da crítica. Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Cultrix (ed. ingl: 1957). JASZI, Peter Toward a theory of copyright: the metamorphoses of `authorship. Duke Law Journal, vol. I, no. 2, p MARTIN, Henri-Jean The history and power of writing. Chicago : The University of Chicago Press. Translation by Lydia G. Cochrane 9

10 PATTERSON, Lyman Ray Copyright in historical perspective. Nashville: Vanderbilt University Press. ROSE, Mark The author as proprietor: Donaldson v. Becket and the genealogy of modern authorship. Representations, vol.0, Issue 23 Summer, pp ROSE, Mark Authors and owners. The invention of copyright. Cambridge, Mass.: Harvard University Press. ROSE, Mark Nine-tenths of the law: the English copyright debates and the rhetoric of the public domain. Law & Contemporary Problems, 66 Winter/Spring, pp ROSS, Trevor Copyright and the invention of tradition. Eighteenth- Century Studies, vol. 26, Issue 1, Autumn, pp

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