Jornalismo gonzo na televisão: uma análise do programa pânico na TV e suas implicações éticas 16/10/2008

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1 Jornalismo gonzo na televisão: uma análise do programa pânico na TV e suas implicações éticas 16/10/2008 Cibelly Correia dos Santos * Resumo Quando as coisas ficam estranhas, os estranhos viram profissionais. (Hunter S. Thompson) O presente trabalho busca contribuir para o entendimento acerca do Jornalismo Gonzo, mais especificamente, na mídia televisiva, e irá analisar o programa Pânico na TV. O Gonzo journalism, técnica de reportagem criada e desenvolvida nos Estados Unidos no início dos anos 60 pelo jornalista Hunter S. Thompson, indica novos caminhos, não só no aspecto textual, como também na escolha dos temas, abordagem dos assuntos e até mesmo nas técnicas de apuração dos fatos. O tema é de grande relevância para a área de comunicação, visto que o conhecimento sobre Jornalismo Gonzo pode suscitar reflexões sobre os diversos gêneros jornalísticos e como perceber esse estilo de jornalismo em outras mídias. O objetivo deste estudo foi produzir uma análise do programa Pânico na TV, para checar a existência dos elementos do Jornalismo Gonzo e quais as implicações éticas do programa analisado para a programação televisiva. Conclui-se que algumas características do programa Pânico na TV podem ser consideradas Gonzo, apesar de o programa ser de entretenimento, e não jornalismo. Percebe-se também que o Gonzo pode se moldar à mídia televisiva em diversos formatos, para apresentar novos focos de apresentação de notícias, como uma crítica à sociedade. Palavras-chave: Jornalismo Gonzo. Televisão. Ética. Introdução A importância deste estudo consiste na urgência de se estabelecer limites para compreender as principais características do Jornalismo Gonzo, tanto para melhor entendê-lo dentro do âmbito televisivo, como também compreender se o Gonzo é jornalismo ou entretenimento. Tivemos contato com o Jornalismo Gonzo em um Simpósio de Comunicação Social que aconteceu em Natal/RN no ano de Alguns alunos apresentaram um programa de rádio no estilo Gonzo, em que falavam sobre o criador desse estilo de jornalismo. O programa era dinâmico e apresentado por vários locutores, e utilizavam-se do humor sarcástico e de irreverência, para prender a atenção do público ouvinte. Hoje o jornalismo Gonzo é mais utilizado na internet e em algumas matérias impressas. Mas, e na mídia televisiva? Os programas são considerados Gonzos? Se forem, existe a imprecisão de eles serem um estilo de jornalismo ou se eles são entretenimento. Percebe-se que alguns jornalistas e críticos classificam o programa Pânico na TV como sendo Gonzo. Faz-se necessário a investigação sobre o tema, para que haja um melhor entendimento na classificação do que seria ser Gonzo ou se fazer Gonzo. O presente projeto de pesquisa propõe a elaboração de um estudo monográfico sobre jornalismo Gonzo na TV, com uma análise sobre o programa Pânico na TV. Esse estilo de jornalismo, segundo especialistas, tem como características a escrita na primeira pessoa, transgressão às normas da objetividade, transformar a figura anônima do repórter em personagem central da matéria, mostrar o lado grotesco

2 através da utilização do humor e do sarcasmo. Essas particularidades demonstram um diferencial na produção e execução das matérias do jornalismo tradicional. Na segunda metade da década de 60, surgiu o jornalismo Gonzo. Seu criador foi Hunther S. Thompson, que inventou esse gênero contrariando os padrões do jornalismo tradicional, e sempre enfatizando assuntos relacionados ao sexo, às drogas, ao esporte e à política. Gonzo é uma prática muito presente e atualmente bastante empregada no jornalismo impresso e no webjornalismo, como as reportagens de Arthur Veríssimo na Revista TRIP. Mas, e na televisão, existem programas considerados Gonzo? De acordo com Sergio Ripardo, Editor de Ilustrada da Folha Online, o programa Pânico na TV classifica-se como jornalismo humorístico investigativo, ou seja, utiliza-se de um humor sarcástico para apresentar os assuntos, mostrando o lado grotesco, usando irreverência, exageros, opinião e o envolvimento do repórter na produção da matéria, características do Gonzo Jornalismo. Cabem aí, todavia, algumas perguntas: o Gonzo é realmente uma forma de jornalismo? Como ele é percebido pelos telespectadores e pela imprensa? O programa Pânico tem origem na Rádio Jovem Pan, de caráter nacional, sendo uma das maiores emissoras de rádio do Brasil. A idéia surgiu com Emilio Surita, Marcelo Baptista e Maestro Billy, locutores de um programa tradicional sobre adolescentes e informações do trânsito, os quais atendiam a ouvintes no ar. Durante o processo, mais um integrante, o Bola, uniu-se ao grupo. O jeito escrachado se destacou e acabou gerando um programa unicamente humorístico. Assim, novos personagens foram incorporados ao grupo. Na atração, fazem entrevistas com pessoas famosas e colocam ouvintes no ar, sem censura. Na televisão, o programa é feito ao vivo e diante de uma platéia de 150 pessoas. Antes da versão televisiva, o grupo já interagia com câmeras no estúdio da rádio desde setembro de O recurso permite que os internautas assistam ao Pânico, e, no início, serviu para preparar os ouvintes e os próprios humoristas para uma abordagem visual dos personagens que, até então, só contavam com o talento vocal dos locutores. O projeto para a TV foi desenvolvido, dois anos antes da estréia, pelo dono da Jovem Pan, Antônio Augusto Amaral de Carvalho Filho (Tutinha), e a diretora do programa na rádio, Renata Neves-Molliet. Vários quadros da rádio foram adaptados para o vídeo. De início, com a duração de sessenta minutos, o sucesso de audiência e a busca por espaços comerciais expandiu a atração para até duas horas, além de uma reprise dos "melhores momentos", às sextas-feiras. O programa conta com uma turma de apresentadores e personagens que estão ali com o objetivo único de debochar de tudo e de todos. Não acho o Pânico um programa de humor como é a Praça é Nossa, por exemplo. Temos mais a linha do escrachado sem lógica, diz Emílio, criador e apresentador do programa. Surita acredita no humor autêntico de pessoas comuns que, naturalmente, já são divertidas: Não pode ser forçado!. O humor engana o cérebro da gente. Uma boa piada muda automaticamente o estado de espírito de uma pessoa e a faz rir. Quando você já conhece o jeito como o cara faz para dar a volta no seu cérebro, ele perde a graça. Essa é a estratégia usada para manter o ouvinte do Pânico fiel há mais de 12 anos. O capítulo I fala sobre o que é o Jornalismo Gonzo e como e quando ele surgiu. Nesse capítulo, apresentaremos o seu criador, Hunther S. Thompson, e iremos discutir os elementos principais que caracterizam o Jornalismo Gonzo dentro de seus preceitos. Ao longo do capítulo, mostraremos as características desse método de jornalismo em relação ao jornalismo ortodoxo. O capítulo seguinte (capítulo II) traça um pequeno histórico do programa Pânico na TV, onde iremos analisar os elementos Gonzo existentes, e verificar a existência do caráter metamidiático e do grotesco. Por fim, no último capítulo (capítulo III), trataremos das implicações éticas do Programa Pânico na TV e dos elementos Gonzo presentes. 1 A origem, teoria e o método do jornalismo gonzo

3 Hunther Thompson, no texto de capa para Medo e Delírio em Las Vegas: uma Jornada Selvagem no Coração do Sonho Americano, aponta uma das principais características do Jornalismo Gonzo, com a seguinte declaração: A verdadeira reportagem Gonzo requer os talentos de um mestre do jornalista, o olho de um artista/fotógrafo e os colhões firmes de um ator. Porque o escritor precisa participar da cena enquanto escreve sobre ela ou pelo menos gravá-la, ou mesmo desenhá-la. Ou as três coisas. Provavelmente a analogia mais próxima do ideal seria um diretor/produtor de cinema que escreve seus próprios roteiros, faz seu próprio trabalho de câmera e de algum modo consegue filmar a si mesmo em ação, como protagonista ou pelo menos um dos personagens principais. (THOMPSON. 2004, p.46-47) Essa citação mostra que o movimento literário do qual fez parte apresenta um estilo radical em relação ao modo tradicional de se fazer jornalismo. O Jornalismo Gonzo surge na segunda metade da década de 60, apostando numa proposta mais ousada do New Journalism ou Novo Jornalismo. Gonzo Journalism ou Jornalismo Gonzo foi criado e popularizado por Hunther S. Thompson, um excêntrico e brilhante repórter da revista Ronlling Stone, que se suicidou em fevereiro de Pode-se dizer que ele levou até as ultimas gotas de sangue o seu estilo de reportagem, caracterizado por um envolvimento pessoal com a ação que estava descrevendo, sem medir as conseqüências, por mais perigosas que fossem. Thompson nasceu no dia 18 de julho de 1939 (as biografias divergem entre 1937 e 1939), em Louisville, no Kentucky. Era uma criança violenta, que tinha o hábito de atirar pedras nas pessoas. Aos oito anos de idade, foi chamado pelo amigo Walter Kaegi Jr. para escrever sobre batalhas americanas para o jornal do bairro chamado Southern Star. O álcool e as drogas em sua vida não são acidentais. Seus pais, Virgina Ray e Jack, eram alcoólatras, e, por conta disto, tornavam-se violentos. Jack morreu aos 57 anos, devido a uma embolia cerebral e, a partir deste instante, sua mãe entrou de vez no vício. Thompson, na época com 15 anos, começou a beber. Aos 17 anos monta um grupo de vandalismo e, antes de completar 18 anos, foi preso por sessenta dias por causa de um assalto. Depois de passar pela Força Aérea, como parte de sua sentença, escreve para vários jornais, trabalha em Porto Rico. Ao voltar em 1962 para os Estados Unidos, compra uma propriedade no Colorado, que se torna conhecida como Owl Farm, onde passa a residir. O grande salto vem quando convive durante dezoito meses com os membros da gangue de motociclistas Hell's Angels, para escrever uma reportagem, publicada em 1965, na revista Nation, e logo editada na forma de livro (Hell's Angels: The Strange and Terrible Saga of the California Motorcycle Gang). No artigo, Thompson buscava trazer ao público o outro lado da moeda, fugindo do sensacionalismo e exagero com que os Angels eram retratados então, e deixando aos leitores decidir por si mesmos como conceituá-los. Durante esse período de convivência com os motoqueiros, envolve-se com toda espécie de atos ilegais, e passa a consumir drogas. O primeiro artigo realmente Gonzo é publicado em 1970, em uma revista de esportes chamada Scanlan's Monthly, com o título The Kentucky Derby is Decadent and Depraved, tratando praticamente de tudo, menos do acontecimento em si. Além das bebedeiras e confusões relatadas, Thompson critica o modo de vida da população local, uma característica que se viu, a partir daí, em praticamente toda sua obra. O repórter Bill Cardoso, ao ler a matéria, inadvertidamente batizou o gênero: Não sei o que está fazendo, mas você mudou tudo. Isso está totalmente Gonzo. Outro ponto crucial é a cobertura de uma corrida de motos que realiza, no deserto de Nevada, para a Sports Illustrated, não somente arrumando todo tipo de confusões relacionadas com o álcool e com o uso de drogas, mas também (outra vez) abandonando os fatos e concentrando-se em uma análise do vício do jogo e das drogas que surge ao redor dos cassinos. Neste ponto de sua trajetória, alcança o status de estrela, de ícone da contra-cultura, passando a escrever para publicações como Playboy, Rolling Stone, San Francisco Chronicle e, ocasionalmente, Esquire e Vanity Fair.

4 Uma das características mais marcantes é que o jornalista Gonzo dispensa as pretensões à objetividade e escreve quase sempre em primeira pessoa. Suas matérias não são meras narrativas, mas relatos de experiências em que participa da ação. O "eu" do jornalista interfere na matéria: nela, reportagem e repórter não estão separados, viabilizando, através deste estilo, crítica, paródia, ironia e alerta. O riso, a gafe, o erro, o inesperado, podem produzir algum conhecimento. Em busca de mostrar diversos ângulos dos assuntos abordados, o Gonzo Jornalismo utiliza, em sua narrativa, palavrões, gírias e figuras de linguagem, como metáforas e onomatopéias. Mostra também uma visão sarcasticamente caótica das situações mais simples, relatando, com riqueza de detalhes, os objetos, os personagens e as cenas, de um modo imparcial e objetivo. Isso faz com que o leitor possa questionar até que ponto o relato de um jornalista Gonzo é uma alternativa de perspectiva que o leva a questionar tudo o que lê, a pensar a informação, e não apenas ler e aceitar o que lhe é entregue como um fato, passivamente. 1 Quebrando as tradições Explanando mais o assunto, sabemos que o Jornalismo Gonzo é uma maneira mais radical do Novo Jornalismo. Em 1960, os Estados Unidos observaram uma nova maneira de se fazer jornalismo. Cansados das matérias desinteressantes e factuais que recheavam seus periódicos, os jornalistas decidiram sair de suas redações e inovar. Apurar a fundo um fato, fazer muitas entrevistas, pesquisar em arquivos, percorrer grandes distâncias, levantar dados, imergir na história e narrá-la com o uso de recursos e ferramentas da ficção. A grande reportagem pode explicitar, em seu conteúdo, as impressões de quem a fez, da mesma forma que fazemos ao relatar para amigos como foi a última viagem que fizemos, ou seja, quais foram nossas impressões sobre as pessoas e o lugar visitado, o que lá aconteceu, caracterizando a narrativa com gestos e expressões faciais, descrevendo-a e permeando-a com detalhes particulares. Podemos considerar esse tipo de narrativa jornalismo? Mas o que é jornalismo? Jornalismo é a atividade profissional que consiste em lidar com notícias, dados factuais e divulgação de informações. Também define-se como a prática de coletar, redigir, editar e publicar informações sobre eventos atuais. O jornalismo Gonzo surgiu como uma fuga à mesmice das narrativas jornalísticas. O objetivo não é apenas narrar fatos, mas descrever a experiência de um determinado indivíduo com eles. O que existe é uma perda na exatidão, no relato, mas também se ganha como componente de absorção da realidade, ou seja, doses fatais de subjetivismo. A carta de princípios da irmandade Rauol Duke (pseudônimo utilizado por Hunter para evitar problemas com a polícia) nos diz que o repórter deve se envolver na história e alterar ao máximo os acontecimentos dentro da média do impossível, de forma a transformá-la não em um mero relato do evento, mas sim em uma história engraçada e cáustica. Entretanto, a ficção pura e simples não serve ao Gonzo. Ainda segundo a mesma carta, o conteúdo dos textos deve ser jornalístico, ou seja, um fato precisa estar acontecendo necessariamente. Para fazer jornalismo Gonzo, não é fundamental procurar fatos bizarros. Aliás, o ideal é abordar fatos normais, banais, sob ponto de vista bizarro e pessoal. Dentro dessa perspectiva, podemos concluir que o Gonzo é um estilo literário com doses de jornalismo. A particularidade marcante dos relatos jornalísticos de Hunter S. Thompson é a liberdade de ficcionista da qual ele abusava. Muitas vezes sob efeito de alucinógenos ou bebidas alcoólicas, Hunter criava personagens e fatos com extrema naturalidade e perspicácia. A dose de ficção injetada por ele em seus relatos jornalísticos variava de acordo com a necessidade de dramaticidade e informação do texto. Porém, isso não poderia ser feito de forma indiscriminada. Para o guru Gonzo, era extremamente importante que a diferença entre ficção e realidade não ficasse explícita. No artigo Medo e Delírio no Bunker, podemos observar algumas das características acima citadas.

5 Por enquanto, deveríamos fazer todo esforço possível para ver o lado bom do governo Nixon. Ele tem sido um fracasso de proporções tão monumentais que a apatia política até saiu de moda, e nem ao menos é considerada uma posição segura. Isso entre milhões de pessoas que há apenas dois anos achavam que qualquer que um discordasse abertamente do governo era paranóico ou subversivo. Os políticos que se candidatarem, pelo menos em 1974, terão que lidar com um eleitorado furioso e desiludido que não está disposto a se contentar com a bandeirinha ou blábláblá pomposo. O espetáculo de Watergate foi um choque, mas o fato de um presidente milionário pagar menos imposto de renda que a maioria dos peões de obra enquanto gasolina custa um dólar no Brooklyn e de existir um risco de desemprego em massa na primavera tende a trazer as falhas do senhor Nixon para o âmbito pessoal de uma maneira visceral. Até senadores e congressistas foram sacudidos para fora de suas tocas preguiçosas, e a possibilidade de impeachment está começando a parecer muito real. (THOMPSON. 2004, p.12) Um bom apanhado do universo do Gonzo transcorre aqui, todas as características e peculiaridades do escritor são perceptíveis: sua implicância com o ex-presidente americano Richard Nixon, a distorção do sonho americano, as viagens, as onomatopéias e as ironias. Se olharmos pelo lado jornalístico, Thompson enfrentou o fato da isenção jornalística diante do acontecimento e importância. Se observarmos o lado literário, apresenta-se uma autobiografia em constante fabricação, com cacoetes jornalísticos, representação de um período e grandes descrições. Se encaramos como leitor, temos um texto divertido de ser lido, reportagens sobre coisas incomum - como um campeonato de pesca - transformadas em grandes doses de diversão. Se olharmos como sendo um seguidor do jornalismo Gonzo, aí que se percebe o problema. O próprio Thompson escolheu o extravagante Gonzo para demonstrar já no nome que seu estilo não era muito importante. Acreditamos que se divertia muito com pessoas levando-o a sério, escrevendo colunas de literatura sobre suas obras Notícia como pano de fundo Cremilda Medina (1978, p.83) afirma que as notícias predominam, no dia-a-dia, carregadas da dupla função de informar/distrair. Mas na opinião de Marcondes Filho (1989, p.12), a notícia é a informação transformada em mercadoria com todos os apelos estéticos, emocionais e sensacionais. Para isso, a informação sofre um tratamento que a adapta às normas mercadológicas de generalização, padronização, simplificação e negação do subjetivismo. Percebe-se que tal afirmação trata notícia como mercadoria, transformando-se como produto de venda e troca, fazendo com que os fatos sociais se estruturem dentro dessas regras de produção e que seja de interesse do público. Houve também uma padronização da linguagem jornalística. De acordo com (Pena apud Cerqueira, 2007), uma dessas formas de padronização adotou a técnica da pirâmide invertida, que consiste no relato em ordem decrescente de importância, e não na seqüência cronológica dos fatos, ou seja, a informação mais relevante está no início do parágrafo e as complementares estão na seqüência. A outra forma é o Lead, técnica que abre o caminho para a leitura do texto; é através dele que a atenção e o interesse do leitor são despertados. Pode-se dizer que o lead é a introdução da notícia, uma

6 síntese inicial que procura responder às seis perguntas básicas: O quê? Quem? Como? Quando? Onde? Por quê? Medina completa que: Também a abertura de matérias, o lead, prova à integração com as componentes da estrutura da mensagem. Um lead mostra, em primeiro lugar, um esforço de captação por onde vou começar a matéria, preocupação sintomática de repórter, equivale à angustia de captar uma parte significativa do real. (MEDINA, 1978, p.140) Essas formas estilísticas de notícias são vistas no jornalismo tradicional. Mas então como a notícia é encarada através do jornalismo Gonzo? A notícia é vista como pano de fundo nesse estilo radical de jornalismo. O que prevalece é a visão do repórter, suas impressões, um texto seletivo, necessariamente interpretativo, mostrando os fatos de maneira hilariante. Por essas distorções no modo de se fazer jornalismo, podemos presenciar a técnica denominada Osmose, batizada por André Czarnobai, o Cardoso, que é uma espécie de analista de Thompson no Brasil. A técnica faz referência ao fenômeno biológico no qual dois fluidos misturam-se gradualmente através de uma membrana porosa. Fazendo uma comparação, o primeiro fluido é o Gonzo Jornalista, e o segundo, o objeto de sua investigação. A membrana porosa é o ato da reportagem em si, pois é através dela que os dois mundos interferem um no outro. Dessa forma, é correto dizer que o repórter Gonzo altera o objeto de sua reportagem do mesmo modo que o objeto altera o próprio repórter. É quase como se o jornalista precisasse personificar o objeto de sua reportagem, o que remete ao preceito da "coragem de um ator" necessários, para o bom Gonzo Jornalista (Thompson apud Czarnobai, 2003). Além disso, os textos Gonzo são, essencialmente, reflexo explícito de elementos que compõem a personalidade do autor. De acordo com André Julião e Renan Magalhães, o Gonzo jornalismo: Outros elementos na composição dos textos Gonzo Não seria, obrigatoriamente, uma narrativa cheia de sarcasmo, permeada por digressões, com uma urgência na captação dos dados, com presença de drogas e de uma ficção dissimulada, mas sim um estilo totalmente subjetivo, que reflete a personalidade do autor e sua interpretação do fato. Chamaremos essa característica de personalização. (JULIÃO e MAGALHÃES, 2006). Até aqui, podemos perceber algumas características essenciais ao gênero. São elas: captação participativa, dificuldade de discernir ficção da realidade, uso do narrador na primeira pessoa, personalização, digressões. Outros elementos também foram percebidos dentro desse estilo de narrativa: destacamos temática, citações e epígrafes, referências a figuras públicas, utilização do sarcasmo e ironia, fluência das palavras e o uso criativo do idioma, descrições extremas das situações, uso de drogas, fuga do foco, recursos textuais e gráficos. Para uma melhor compreensão, faremos uma breve explanação desses elementos citados: Czornobai (2003) relata que na Captação participativa: O Gonzo jornalista não se contenta em observar ou recolher depoimentos de pessoas que vivenciaram determinadas experiências. Para oferecer uma maior dimensão de informações, ele próprio precisa viver a

7 experiência. Tornando-se parte do objeto de sua reportagem, o Gonzo jornalista acaba interferindo - ainda que involuntariamente - no destino da história. Para o Gonzo jornalista, é permitido o uso de personagens e situações que nunca existiram, se isso contribuir para aumentar o nível de informações dispensado ao leitor e conferir maior dramaticidade à cena que está sendo descrita. É importante também que a diferença entre ficção e realidade não seja jamais explicitada, relata Czarnobai (2003) para mostrar a Utilização da ficção nos textos Gonzo. O outro componente analisando por Czarnobai (2003) é a Utilização do narrador na primeira pessoa. Czarnobai interpreta como: Uma vez que a captação de dados é feita de forma participativa, o uso da primeira pessoa imprime legitimidade às histórias contadas pelo Gonzo jornalista e o transforma em uma espécie de jornalismo confessional ". A personalização, baseada na definição acima citado, pode ser entendida como a reflexão da personalidade do autor e sua interpretação do fato, ou seja, muito do que foi considerado como uma característica do estilo, na verdade, remete a personalidade de Hunter Thompson. Portanto, são elementos que cabem como critérios de classificação da obra de um autor, não de todo um estilo.(julião E MAGALHÃES, 2006). O uso de digressões é outro ponto a ser destacado por Julião e Magalhães (2006). De acordo com eles: Nos escritos de Hunter Thompson há presença de digressões compondo o texto, como uma tendência de se distanciar do assunto principal. Muitas vezes, Thompson começa falando sobre um assunto, mas divaga sobre diversos outros (seu ódio ao então presidente Richard Nixon, por exemplo). Supõe-se que isso ocorra pelo fato dele começar a cobrir um assunto rotineiro da imprensa tradicional, mas seu fascínio sobre o comportamento humano o atrai ao ponto dele mudar o foco do texto. Uma das primeiras estudiosas a elencar as características do Jornalismo Gonzo foi Christine Othitis. A autora apresenta alguns requisitos que, segundo ela, estão sempre presentes na obra de Hunter Thompson. Para Christine, Thompson é o "único Gonzo jornalista do mundo" (Othitis apud Julião e Magalhães, 2006) e, sendo assim, não há nada com o que comparar o seu trabalho, a não ser com ele mesmo. Apresentamos a seguir algumas definições dos requisitos levantados por Othitis. A temática Destaque para assuntos relacionados ao sexo, violência, drogas, esportes e política. De acordo com Czarnobai (2003), Nem todo texto Gonzo precisa estar relacionado com algum destes quatro temas, mas a obra de Thompson, de um ou outro jeito, está. Thompson tem a tendência de escrever sobre assuntos nos quais ele está pessoalmente envolvido e faz questão de conhecê-los muito bem. Os temas predominantes em sua obra não são estes por acaso: aparecem em sua obra justamente por representarem as principais obsessões da maioria do povo norteamericano. "Deste modo, Thompson não está escrevendo só a seu respeito - literalmente - mas

8 para uma grande fatia da população." (Othitis, 1994a). Esses tipos de temáticas influenciam Thompson na maioria das suas matérias, mas não necessariamente todos os autores Gonzo escrevam apenas sobre esses temas. Dos 300 dólares em dinheiro fornecidos pelos editores da revista, quase tudo já tinha sido gasto em drogas altamente perigosas. O porta-malas do carro mais parecia um laboratório móvel do departamento de narcóticos. Tínhamos dois sacos de maconha, 75 bolinhas de mescalina, cindo folhas de ácido de alta concentração, um saleiro cheio até a metade com a cocaína e mais uma galáxia inteira de pílulas multicoloridas, estimulantes, tranqüilizantes, berrantes, gargalhantes... (THOMPSON. 2007, p.10). Citações e epígrafe Este recurso estilístico é amplamente utilizado por Thompson e serve para colocar o leitor no clima da narrativa e proporcionar uma pequena prévia do que ele vai encontrar nas páginas a seguir. Geralmente são citações de gente famosa, ou escritores, mas, às vezes, Thompson cita-se a si mesmo. A arte é longa, a vida é curta, e o sucesso fica longe demais Joseph Conrad. (THOMPSON. 2004, p.9) Referências a figuras públicas Esta particularidade nas obras de Thompson relaciona-se com a popularização do Gonzo Journalism como elemento da cultura pop norte-americana. Povoam seus textos jornalistas, políticos, músicos, atores etc. Uso de sarcasmo e/ou ironia como forma de humor O estilo sarcástico-irônico de Hunter é algo sempre presente em seus textos. Um dos fatos mais marcantes é a escrita bem-humorada do autor. Para o escritor P.J. O Rouker, o que diferencia Hunter Thompson dos outros escritores é que Thompson é melhor escritor e que também nos faz rir. Thompson pega as questões mais sombrias da ontologia, os mais sérios questionamentos epistemológicos e, através da sua maneira de apresentá-los, nos contorce de rir. JULIÃO E MAGALHÃES (2006). Fluência no vocabulário e um uso extremamente criativo do inglês Othitis apud Julião e Magalhães (2006) aponta como traço importante de Thompson a tendência com que cada palavra flui e o uso extremamente criativo do inglês. Podem ser conferidas a utilização de termos mais refinados, buscando fugir do coloquial, e uma presente sonoridade permitida pela mistura de palavras de pronúncias fechadas e outras mais abertas. Descrição extrema das situações Descrever detalhadamente fatos, objetos, pessoas, criando uma representação visual do leitor, é uma característica marcante nos textos de Thompson. Ele mostra a experiência acima do acontecimento e apresenta suas críticas e interpretações por meio de monólogos internos. Uso de drogas O consumo de drogas e bebidas alcoólicas se torna repetitivo nas obras de Thompson, pois ele consumia quando ia redigir uma matéria. Então a utilização de droga tornou-se uma ferramenta quando se pretende escrever nesse estilo de jornalismo, mas isso não quer dizer que seja necessariamente uma regra para que uma matéria seja

9 considerada Gonzo. Trata-se de um elemento adicional que pode ser usado de acordo com a personalidade e o julgamento do jornalista. Fuga do assunto principal Thompson tende a mudar de um assunto para outro como uma tentativa de escrever sobre aquilo que ele acredita que seus leitores achem interessante. Czarnobai (2003) ressalta que o Gonzo é uma forma de jornalismo em que o repórter é chamado para fazer um artigo sob encomenda (...), mas acaba escrevendo uma curiosa forma de autobiografia. Não se trata de autobiografia no sentido usual, porque o escritor se coloca na ação sem outro motivo que o de escrever algo. O tema acaba por ser puramente casual e o escritor tem de usar o talento para enganar o leitor, fazendo com que aquilo pareça fascinante. Hunter Thompson é o mestre desta forma, que se denomina Gonzo jornalismo. Pseudônimos e ilustrações Hunther também criou pseudônimos, mas sem razões claras do porquê da utilização de outros nomes para assinar suas reportagens. Os pseudônimos mais utilizados por Thompson eram: Raoul Duke, F.X. Leach e Sebastian Owl. Para ilustrar suas reportagens, Hunther gostava de desenhos com traços fortes e confusos, cheios de figuras humanas distorcidas, uma alusão aos efeitos que as drogas causavam na visão. A proposta do Gonzo é fazer jornalismo de um modo divertido, proporcionando uma nova experiência ao leitor, fazendo-o obter uma visão ampla e crítica das diversas situações Jornalismo, entretenimento e Gonzo Separar jornalismo de entretenimento hoje em dia não é uma tarefa fácil. Percebese que existem diversos efeitos das mensagens sobre o receptor, e essa mistura dificulta o discernimento onde começa um e termina o outro. Como já foi visto, a função do jornalismo é transmitir ao público fatos e informações que possam vir a ser de interesse da população. De acordo com Deak apud Bucci: O significado do termo "entretenimento" [...] não é um substantivo desprovido de carga ideológica, ainda que pareça uma palavra neutra. [...] O dicionário etimológico de Antenor Nascentes, de 1932, diz que a palavra vem do espanhol, entretenimiento, cujos primeiros registros datam do século XVI. O verbo entreter, originado do latim, intertenere ("inter" quer dizer "entre"; "tenere" quer dizer "ter"), significa deter, distrair, enganar. No senso comum, "entretenimento" é entendido, até hoje, como aquilo que ocorre no tempo do lazer que não pertence ao tempo do trabalho, nas horas vagas, no passatempo, no intervalo entre duas atividades ditas sérias. [...]A partir do século XIX, a palavra entretenimento ganhou um vínculo com o consumo popular de forma pejorativa, foi associado a algo de importância menor e até desprezível em oposição ao erudito, à arte elevada, à cultura da elite. [...]A partir da segunda metade do século XX, ele deixou de designar o, digamos assim, estado mental produzido no sujeito que se ocupa da desocupação, deixou de se referir a um atributo de atrações

10 especializadas em distrair a audiência, e virou o nome de uma indústria diferenciada. Mais do que uma indústria, um negócio global. Tanto o jornalismo como o entretenimento têm o objetivo de comunicar. Pressupõese que existem dois objetivos para a comunicação: o informativo, que aborda a razão, e o persuasivo, que atingi o emocional. E um outro objetivo, que mistura ambos os apelos, o de entreter. Essa teoria prega que, quando alguém transmite uma informação, não convence; e ao opinar, não informa. Quem analisa tal premissa superficialmente, concluirá que ela está correta. Enganase. Ora, obviamente o produto de caráter jornalístico visa a promover a informação. Um programa de auditório prioriza a diversão, enquanto editoriais valem-se da credibilidade do veículo para moldar um juízo de valor. No entanto, todos possuem ingredientes em comum. As telenovelas, por exemplo, têm a principal função de entreter. Mas, duvidar de sua capacidade de persuasão no comportamento humano demonstraria ingenuidade. O mesmo se pode dizer dos artigos opinativos, os quais, ao mesmo tempo moldam um juízo, informam e, muitas vezes, até divertem com as tiradas ácidas do redator. "Limitar a idéia de informação a noticiário sugeria que o que as pessoas aprendem dos divertimentos não tem conseqüências importantes para os significados que elas constroem e que atuam ou se baseiam em sua socialização", avaliam Melvin DeFleur e Sandra Ball-Rokeach, autores de Teorias da comunicação de massa. Segundo eles, é enganoso afirmar que notícias são informações, e entretenimento, não. Conforme David Berlo, autor de O processo da comunicação, "a distinção informar persuadir-divertir causará dificuldade, se supusermos que esses fatores possam ser considerados como objetivos de comunicação independentes". Para ele, é inútil definir se dada comunicação é informativa, persuasiva ou tem meramente a função de entreter. Na prática, a fusão entre jornalismo e entretenimento apresenta-se de três formas diferentes. Há, primeiramente, o "jornalismo de entretenimento banal", voltado exclusivamente para a vida de celebridades leia-se Caras, Quem e afins, inquestionavelmente vexatório. Próximo deste, mas paradoxalmente tão distante, encontra-se o "jornalismo de entretenimento cultural", que vai dos suplementos de jornalões a revistas especializadas sobre cinema, literatura, artes, espetáculos e televisão. Mesclam-se, aí, para manchar o gênero, periódicos de excelente qualidade, como Bravo!, a fúteis populares de novela, do nível de TV Brasil, que não deixam de ser um retrato da cultura brasileira. Por fim, tem-se o chamado "jornalismo show" que, em vez de apostar no conteúdo, utiliza os mesmos métodos de transmissão do entretenimento. Noutras palavras, informa como se estivesse entretendo. De cara, pensa-se nas aberrações vistas no Domingo Legal e no sensacionalismo dos policiais Brasil Urgente e Cidade Alerta ou dos impressos Notícias Populares (já extinto) e Tribuna do Paraná, como também o programa Correio Verdade. Clichê afirmar serem vergonhosos; justiça catalogá-los como jornalísticos. A dobradinha jornalismoentretenimento tem dessas. A íntima ligação não vem de hoje. A humanização das reportagens, há muito pregada nos bancos das escolas de Comunicação, conduz o jornalismo ao entretenimento. Frases de pessoas desconhecidas são inseridas apenas para formar um sujeito, criar uma realidade, uma identificação do receptor. Entretêm? Entretêm. Informam? Informam. Neste novo período da comunicação, os produtores de mídia tentam renovar o jornalismo mesclando-o ao entretenimento. São muitas as facetas que o gênero abrange: histórias escabrosas e policiais, a exploração do velho sensacionalismo, conteúdo esportivo, turismo, fofocas e mexericos, estrelas substituindo jornalistas, predomínio das imagens, renovação da diagramação e a inserção sutil de merchandising. Parece coisa nova, mas não é. O entretenimento de longa data começou a fazer parte do jornalismo e até a se confundir com ele. A fusão iniciou-se com a população americana no começo do século XIX, por meio da imprensa de tostão (pennypress).

11 Há cerca de dez anos, o entretenimento ganhou força no jornalismo brasileiro. Na TV, o telejornal Aqui Agora (SBT), de 1991, abriu as portas para a indústria do jornalismo e entretenimento - se bem que o Fantástico, lançado em 1973, já havia inaugurado o gênero. O programa lançou, por assim dizer, algumas minisséries policiais, com atores e figurantes - detalhe: tudo era real. Dali para aberrações como o Canal Aberto (Rede TV!), apresentado por João Kleber, foi só um passo. O programa combina reportagens com dramas pessoais e histórias absurdas. O mesmo pode ser dito da nova fase do telejornalismo da Bandeirantes, em especial o Brasil Urgente. O próprio diretor de criação da emissora, Rogério Gallo, fala que esta foi uma aposta conjunta de jornalismo e entretenimento. Junto com as mudanças de cenário e programação, a emissora contratou na época os artistas Marcos Mion e Otávio Mesquita para compor a grade jornalística. Nos programas acima citados, dentre outros, deparamos-nos com um forte hibridismo entre entretenimento e jornalismo. Nas entrelinhas dessa mistura televisual, encontra-se o Gonzo, muitas vezes percebido como entretenimento, e muitas vezes apresentando um jornalismo que faz um humor burlesco. O sutil tom de ironia, o humor, o envolvimento do repórter ou do apresentador sarcástico, a notícia espetáculo e o espetáculo como notícia, a ficção como fonte do real, são peculiares do Jornalismo Gonzo, podendo ser ela aplicada em outros gêneros da narrativa televisiva. 2 Pânico na TV um breve histórico Um programa que tinha como ideal satirizar os programas dominicais e estar fora de qualquer padrão televisivo já existente transformou-se em fenômeno. O Pânico na TV começou em outubro de 2003, quando Emílio Surita resolveu levar para a TV um programa de rádio. Emílio é locutor da Jovem Pan, onde comanda o Pânico na rádio. Com um orçamento de cinco mil reais, ele montou um cenário e encaixou o programa na grade da quinta emissora do país Rede TV e foi disputar audiência com Gugu Liberato e Fausto Silva, nas tardes de domingo. Para surpresa geral, o Pânico na TV tem alcançado média de sete pontos no IBOPE, com pico de 13, o que já deixou o programa colado nos grandes. O que chama atenção no Pânico na TV é sua fórmula de humor original, ou seja, um humor escrachado e sarcástico. Apesar de os programas de auditório serem os mais antigos e também os mais resistentes a novidades, o Pânico na TV tornou-se uma grande inovação. Tudo porque é o contrário daquilo que estamos acostumados a ver. Você pode pensar: todos os programas dependem das celebridades para sobreviver. Sim. E com o Pânico não é diferente. Só que há um detalhe: aqui os artistas não são bajulados, muitos menos enaltecidos. O que rola é o escracho, total e incomparável. Essa é a fórmula mágica de Emílio Surita, produção e elenco. Pânico na TV é basicamente composto por esquetes e quadros criados e interpretados pelos integrantes do programa, que são: Emílio Surita, que interpreta ele mesmo; Sabrina Sato, ela mesma; Marcos Chiesa, o Bola; Wellington Muniz, o Ceará, que faz alguns personagens, como Sílvio Santos, Maria Betânia, Clodovil; Márvio Lúcio, o Carioca, interpreta Serginho Gosma, Robaldo Éspermann, Renato Russo; Marcelo Harada como o Gluglu, Angélica; Daniel Zukerman, o Xupla; Eduardo Sterblitch, como César Polvilho, Pastor Dél Deti e Magriza também fez o Fredy Mercury Prateado; Rodrigo Scarpa, o Repórter Vesgo; Danielle Souza, a Mulher Samambaia; Evandro Santo o Christian Pior; Fábio Rabin, como Silveirinha. As sátiras, trotes, comentários de notícias e matérias fora do estúdio (como invasões em festas ou abordagens de pessoas nas ruas) entram a qualquer momento. Imagens do programa na rádio também são usadas no programa da TV. Os principais quadros são: Sandálias da Humildade (já extinto), Vô! Num vô! (também extinto) e as festas cobertas pelos repórteres Vesgo e Ceará (que imitam, entre outros, o apresentador Silvio Santos e Clodovil) - onde entrevistam celebridades e pseudo-celebridades, humilhando-as sempre que possível -, além de várias sátiras de programas de sucesso e política nacional. Nos últimos tempos, o quadro tem sido o

12 Meda, onde Márvio Lúcio, caracterizado por Robaldo Éspermann, e Evandro Santos, personalizado como Christian Pior, vão a festas e às ruas e comentam as roupas e o estilo das pessoas. O programa conta ainda com a presença da banda Viva Noite, inspirada em ícones dos anos 80. O Pânico é caracterizado como infoentretenimento, ou seja, apresenta a informação e promove o entretenimento, utilizando elementos grotescos: pessoas fora do padrão da normalidade, como anões, deficientes, personagens ficcionais; temas chocantes; sensacionalismo. Pitadas de bizarrices que divertem ou dramatizam a cena, o quadro, ou um programa inteiro (BASTIAN, 2006). De acordo com Bastian (2006), o Pânico na TV satiriza os convidados através de pegadinhas, comentários, invasões de festas, tornando a vida das celebridades um inferno. Também apresenta reportagens arriscadas, que são feitas por Sabrina Sato e as Panicats, proporcionando a função de divertir e chocar o público. As celebridades convidadas do programa na rádio, para serem entrevistadas ou homenageadas, são transformadas em outros personagens, desmistificando a idéia de celebridade, e espetacularizando o indivíduo. A espetacularização da vida toma o lugar das tradicionais formas de entretenimento. Cada acontecimento em torno de um indivíduo é superdimensionado, transformado em capítulo e consumido como um filme. Mas a valorização dos acontecimentos individuais é diretamente proporcional à capacidade desse indivíduo em roubar a cena, ou seja, em tornar-se celebridade. Aliás, as celebridades tornaram-se o pólo de identificação do consumidor-ator-espectador do espetáculo contemporâneo. São elas que catalizam a atenção e preenchem o imaginário coletivo (Pena. 2006, p. 83). Essa espetacularização da vida das celebridades, citada por Felipe Pena, é quebrada no programa Pânico na TV, sendo difundida pela estética do grotesco. Podese pensar que essa quebra ao gênero seria uma autocrítica ao modo de fazer televisão, ou ao próprio gênero, ou aos convidados, ou à sociedade. Esse estilo criativo e diferente do humor que o Pânico na TV apresenta, pode causar incômodo e transtorno à vida das pessoas, ultrapassando os limites invadindo muitas vezes as normas constitucionais, o que faz com que o programa seja considerado antiético. Percebe-se também que existem elementos Gonzo presentes dentro do programa Pânico na TV. Por isso faremos uma análise dos quadros do programa, descrevendo o seu formato, para um melhor entendimento dessa característica metamidiática televisiva. 2.1 Quadros do Pânico na TV Nunca compreendem o que fazemos: ora somos louvados, ora condenados, essa é a legenda na abertura de uma dos Programas Pânico na TV. Um programa que, muitas vezes, é criticado por sua característica grotesca e adorado por um humor satírico para com às celebridades e a própria televisão brasileira. O programa possui diversos quadros, que são divididos entre os apresentadorespersonagens. Analisaremos cada quadro, os extintos e os novos, e depois localizaremos os elementos Gonzo presentes. Na platéia, existem telas de TV que mostram pessoas conectadas na internet e que participam do programa. Essas são escolhidas através de uma comunidade no Orkut chamada Eu quero apresentar o Pânico. Isso mostra a dimensão que o programa anda adquirindo bem como as relações entre as mídias. Quadro: Dicas de cidadania Esse quadro, de início, apresenta um valor informativo. São apresentadas notícias referentes à segurança doméstica, mas, ao mesmo tempo, o conteúdo visual apela para o erotismo, a valorização do corpo da mulher, pois o quadro é apresentado por uma personagem seminua, que proporciona um desvio do assunto abordado. Esse tipo de exploração do corpo feminino muitas vezes é classificado como baixaria e apelo estético

13 da mídia televisiva. Mas, analisando-se através de outro ponto de vista, pode-se perceber que essa exposição apelativa do corpo feminino é uma crítica aos próprios programas de TV, à publicidade e à mídia em geral. O uso das imagens sensuais estimula o consumo compulsivo e irracional. A mídia, neste contexto, perde por completo a sua função de informar e construir a imagem do produto, passando a servir apenas de mecanismo para impor uma ânsia de consumo. Durante o programa também existe personagem como a Mulher Samambaia, apresentada por Danielle Souza e Sabrina Sato, que reforça e às vezes cria mitos e tabus em torno da beleza feminina. A massificação da imagem da mulher "bonita e sensual", na mídia, não afeta apenas as crianças em formação, mas está abalando também a auto-estima das brasileiras adultas, que buscam cada vez mais a perfeição estética apresentada e imposta pela mídia. Os elementos Gonzo presentes nesse quadro são: o desvio do assunto abordado e uma crítica à própria exposição da mulher na mídia. Quadro: Semana em Pânico Mostra momentos do Programa Pânico na Rádio Jovem Pan. Os entrevistados passam por diversas situações constrangedoras, perguntas ácidas de humor, e momentos de descontração junto com a trupe do Pânico. Quadro: Os Peores Vídeos do Mundo Seleção de vídeos engraçados tirados de sites como o YouTube, ou enviados por telespectadores. Mostra vídeos como: micos de celebridades, curiosidades, tragédias, acidentes, bizarrices, como, por exemplo, homem defecando num vaso de planta em um Shopping Center. Quadro: Ídalos A latrina cultura com a valvúla de descarga quebrada, essa é a legenda apresentada no quadro Ídalos do Programa Pânico na TV. O quadro é uma sátira ao reality show Ídolos, do SBT, o programa que busca procurar um novo talento para embarcar na carreira musical. Esse quadro mostra até que ponto a sociedade brasileira chega para conseguir a tão sonhado sucesso. As peripécias dos anônimos para ter ao menos os quinze minutos de fama. Quadro: Bola Visita Possivelmente uma paródia do programa "Gordo Visita", de João Gordo na MTV Brasil, "Bola Visita" mostra Marcos Chiesa, o Bola, indo até a casa de famosos para entrevistá-los e mostrar suas casas. A principal diferença entre "Gordo Visita" e este quadro que tem um visual muito elegante, com jazz como trilha sonora, e Bola chegando numa limusine trazendo um espumante é que Bola nunca conseguiu entrevistar nem entrar na casa de ninguém. Na maioria das vezes, ele toca o interfone e um funcionário da casa atende, dizendo que o entrevistado não está e nem ele nem ninguém foi informado de entrevista nenhuma. O humor deste quadro é bastante controverso. Muitas vezes, Emílio Surita se refere a ele como "humor húngaro", porque poucos conseguem entendê-lo. Quadro: Çoletrãno Após o sucesso do quadro "Soletrando", concurso nacional de soletração do programa Caldeirão do Huck, o Pânico pôs no ar o quadro "Çoletrãno". O método do programa era exatamente igual ao original: Huck (neste caso "Tucano Huck", feito por Carioca) dava palavras a três competidores para que eles soletrassem, e a cada erro, tocava-se uma sineta. A diferença é que os competidores não eram estudantes do ensino

14 fundamental que passaram por rigorosas fases eliminatórias, e, sim, subcelebridades, como ex-big Brothers Brasil, atrizes pornográficas e ex-assistentes de palco. Com isso, o índice de erro era muito maior, e, ao invés do original, que eliminava qualquer candidato que errasse uma palavra, "Çoletrãno" fazia várias rodadas e ganhava aquele que tivesse errado menos. Outra diferença era a sineta, que estava nas mãos de Bola (no original, essa tarefa cabia ao cantor e escritor Tony Belloto), que a batia com força sempre que alguém errava, às vezes até com a ajuda de instrumentos, como tacos de beisebol, e não poupando insultos ao competidor. Também estava presente o professor de português Odilon Soares Leme, apresentador do programa "S.O.S. Língua Portuguesa", da Rádio Jovem Pan, para explicar o que o competidor havia errado. Quadro: Vô, num Vô O extinto Vô, num vô foi um dos quadros de menor nível cultural do programa. Mendigo e Quietinho, ex-integrantes da trupe (imitação de Netinho de Paula que Vinícius Vieira começou a fazer ainda mais freqüentemente após este tê-lo agredido), percorriam as praias brasileiras (e, em épocas de frio, as casas noturnas) a fim de avaliar a qualidade física das mulheres. Para isso, eles faziam uso de três adesivos (ou placas fincadas na areia): "vô" para as bonitas, "num vô" para as feias e "camarão" para as de rosto feio e corpo bonito. O quadro tem um glossário todo diferenciado, com expressões como "boi", para indicar o marido/namorado da banhista que eles pegam emprestado para examinar; "Toma! Toma! Toma!", quando a garota reage com uma frase mal-educada ou qualquer coisa que os deixe desconcertados, bem como expressões como "lomba" e "voltinha da alegria". Quadro: Vesgo e Sílvio Talvez o quadro mais popular do programa, consiste na dupla de repórteres de celebridades, Vesgo (Rodrigo Scarpa) e Sílvio (Wellington Muniz), entrando (muitas vezes sem ser convidados) em festas de celebridades e outros eventos a fim de abordar famosos ou aspirantes a famosos para fazer perguntas indecorosas. O quadro é uma sátira direta a programas de celebridades, como TV Fama e Amaury Jr., ambos da própria Rede TV! Os locais freqüentes de suas invasões são festivais de cinema, casamentos, festas de estréias de telenovelas da Rede Globo e qualquer outro lugar com grande concentração de famosos. Normalmente, se um famoso trata mal os apresentadores repetidas vezes, a perseguição aumenta. Sempre inventam modismo, como a famosa "Dança do Siri", a "Dança do Flamingo" e a "Dança do Pai da Gimenez". Quadro: Meda Após a entrada de Evandro Santos no Pânico na TV, ele começou a apresentar o quadro "Meda" como "Christian Pior", sátira ao estilista Christian Dior, inicialmente ao lado de Sabrina Sato. Depois do escândalo envolvendo o estilista Ronaldo Esper e o furto de vasos num cemitério, Carioca substituiu Sabrina como "Roubaldo Ésperman", ao qual Christian costuma se referir como "entulho fashion". Basicamente, o quadro consiste nas peripécias dos dois em lugares freqüentados por pessoas muito ricas e famosas, como "Vesgo e Silvio". Mas, ao contrário deste, "Meda" costuma massagear o ego dos entrevistados, elogiando suas roupas, acessórios e demais características que demonstrem sofisticação. Christian Pior é esnobe ao extremo e humilha os telespectadores dizendo que eles nunca conseguirão chegar a tal lugar ou ter tal roupa. A exemplo do parodiado, Roubaldo Ésperman costuma ter alguns ataques de cleptomania, furtando coisas das festas. Apesar dos locais usualmente finos, às vezes eles são levados a bailes popularescos e sem classe do nível de "Baixas Horas". Normalmente, Christian passa o tempo todo

15 pedindo para o apresentador e redator do programa Emílio Surita que o tire daquele lugar. Quadro: Baixas Horas Sátira do programa Altas Horas, é apresentado por "Serginho Gosma", uma versão caricata do apresentador Serginho Groisman feita por Carioca, que imita seus bordões como "Fala garoto! Fala ga-ro-ta!" ou "Legal, bacana, bacana, legal", bem como maneirismos como bater com a ficha na câmera. Gosma ajuda "Xupla" paródia de Supla feita por Daniel Zukerman - que imita seus bordões como "totally crazy" e o uso exagerado de outras expressões em inglês em festas e bailes populares, a conquistar o coração das mulheres mais feias que ele encontra. O quadro demora-se bastante nas cenas em que Xupla tenta seduzir as mulheres fazendo aparecer magicamente objetos que não têm nenhum sentido com a cena. A Mulher Samambaia e Sabrina Sato já participaram do programa para beijar homens feios como punição por perder apostas. Quadro: O teu Passado te Condena Série que mostra fatos intrigantes sobre o passado público de famosos, como um visual bizarro ou hoje fora de moda que era usado antigamente, um papel ou função que tal celebridade exercia ou algum "mico" em um programa ao vivo, enfim, algo do qual a celebridade se envergonharia hoje. Quadro: Tá na Cara, mas Ninguém Vê Uma análise dos ensaios de famosos para revistas como "Caras" ou "Quem Acontece". Mostra pequenos detalhes que revelam as fotos mais exdrúxulas e superficias dos famosos e a repercusão que ela toma quando é publicada. Quadro: "Meu Mico... Mico Meu!" Sempre em edição extra-oficial, mostra vídeos de celebridades pagando "micos" ao vivo, como o dente de Heloísa Helena ou o brinco de Glória Maria que caíram ao vivo, ou a bronca que Galvão Bueno deu em Arnaldo Cézar Coelho no seu programa Bem, Amigos! do SporTV, sem saber que a transmissão ao vivo já havia começado. Os quadros que compõem o programa Pânico na TV mostram que o elemento grotesco e a metalinguagem são constantemente aplicados com a função de provocar o riso nos telespectadores. Mas que dimensão estes elementos tomam no âmbito televisivo? 2.2 A dimensão do grotesco Já dizia Hunther Thompson (2004, p.251), Quando as coisas ficam estranhas, os estranhos viram profissionais. Essa é uma das características mais influentes do Gonzo; o bizarro, o chocante, o grotesco. Percebe-se que esses elementos estão presentes no programa Pânico na TV. Mas qual a dimensão que o grotesco tem dentro desse programa? O texto Triste contrato: não informo, mas você se entretém justifica que uma das principais causas que faz com que os programas brasileiros se utilizem do grotesco é a busca pela audiência: Apesar da consolidação da audiência pelas redes, mantém-se como recurso de apelo crescente a estética do grotesco, que é responsável pelo formato popularesco hegemônico. Dessa forma, afirmam que há a predominância, hoje, dois padrões

16 de programação: o de qualidade, ou seja, esteticamente clean, bem comportado em termos morais e visuais e sempre fingindo-se cultural ; e do grotesco, no qual se desenvolvem as estratégias mais agressivas pela hegemonia da audiência. E a televisão aberta privilegia fortemente a ótica do grotesco, em primeiro lugar, porque provoca o riso cruel, em que rimos do sofrimento dos outros; em segundo, apela pela visão dos sorteios e prêmios (como compensação) e em terceiro porque apresenta o grotesco chocante, o qual permite encenar o povo, e ao mesmo tempo, mantê-lo à distância. Quer dizer, dá voz e imagem a ignorantes, ridículos, patéticos, para mostrar a cruel realidade popular, sem que se chegue a causa social. O grotesco é o que nos causa repulsa, risos ou estranhamento, porque transcende aos estereótipos da normalidade imposta pela sociedade. Onimus apud Sodré (1983. p, 72) conceitua o grotesco como um segundo estado de consciência, essencialmente crítico. Seria uma reflexão sobre a vida, nascida de uma comparação entre as coisas tais como são em profundidade e tais como nos aparecem em superfície. Com a sua tendência ao bizarro e ao chocante, o grotesco é capaz de destruir o sentido estabelecido das coisas e delinear traços inquietantes, inesperados, às vezes cômico, do real. Essas características, via de regra, incorporam traços de carnavalização estudados por Bakhtin em certas imagens do Renascimento, marcadas pela excessiva idealização de componentes míticos da cultura popular. Entretanto segundo Kayser apud Sodré (1983, p. 39) É perfeitamente concebível que se considere como grotesco aquilo que na organização da obra não se justifica como tal. Em outros termos, o grotesco é uma aberração de estrututa ou de contexto[...]. O conceito pode ser entendido à esfera da cultura de massa: os miseráveis, o estropiado, são grotescos em face da sofisticação da sociedade de consumo, especialmente quando são apresentados como espetáculo. A estranheza que caracterisza o grotesco coloca-o perto do cômico ou do caricatural, mas também como Kitsch. Percebe-se que os conceitos de grotesco aplicados à obra de Baudelaire são semelhantes aos elementos presentes no programa Pânico na TV e nas narrativas de Hunther Thompson aplicadas no jornalismo Gonzo. A visão baudelairiana parte do riso, do cômico, do humor, do chocante e do tédio, para abordar assuntos mais sérios, apresentando uma nova perspectiva dos temas. O grotesco proporciona, em diversas narrativas, uma mesma linha de pensamento e ações como forma de expressão. Para Baudelaire, o homem nunca é linear, pré-estabelecido, é antes irregular, turbulento, problemático. Na obra de Hunther Thompson, sua narrativa mostra essa mesma forma não linear do homem e dos assutos abordados. E no programa Pânico na TV, é essa irregularidade grotesca que faz com que provoque o humor, a comicidade, o sarcasmo. Para melhor entender o cômico através do grotesco, José Alexandrino de S. Filho apresenta no ensaio o grotesco na obra de Charles Baudelaire dois tipos de cômico, são eles:

17 O comique significatif (ou ordinaire), e o comique absolu (ou innocent). O que os diferencia basicamente é que, do ponto de vista da representação artística, um é imitação da realidade (ainda que dessa imitação participem elementos criativos), limitado portanto, em maior ou menor escala, aos ditames da verrossimilhança. Este é o caso do primeiro tipo do cômico. O segundo, o que verdadeiramente interessa a Baudelaire, oferecer a possibilidade, pela fuga da mímese, de criação do nouveau. Esse cômico é o que ele chama precisamente de grotesco. Para Bakhtin apud Alexandre (2005, p. 32), o grotesco apresenta-se como expressão artística da alienação do homem em face da realidade, esta se lhe apresentando como assustadora, ameaçadora, abismal, monstruosa. Mas na Idade Média e Renascença, o grotesco foi visto de um modo diferente, antes se tinha uma visão carnavalesca. As múltiplas manifestações dessa cultura carnavalesca podem subdividir-se em três grandes categorias: 1. As formas dos ritos e espetáculos(festejos carnavalescos, obras cômicas representadas nas praças públicas etc); 2. Obras cômicas verbais (inclusive as paródicas) de diversa natureza: orais e escritas, em latim ou em língua vulgar; 3. Diversas formas e gêneros do vocabulário familiar e grosseiro (insultos, juramentos, blasonarias populares, etc.). Essas três categorias estão estreitamente interrelacionadas e se combinam de diferentes formas O humor Já dizia Monteiro Lobato: Humor é a maneira imprevisível, certa e filosófica de ver as coisas. E dentro da perspectiva televisiva, o humor se revela em diversas modalidades. De acordo com Acselrad (2004) "Há o humor agressivo, o sarcástico, o escarnecedor, o amigável, o sardônico, o angélico. Apresenta-se sob a forma da ironia, do burlesco, do grotesco. É multiforme, ambivalente, ambíguo. Pode expressar alegria, júbilo, nervosismo bem como o triunfo maldoso, o orgulho ou a simpatia". O programa Pânico na TV reveste-se dessas modalidades de humor em cada quadro apresentado. Cada um tem sua função, seja ela apenas o deboche, ou paródia, ou sátira. Apresentaremos os tipos de humor existentes, mas, para melhor compreendêlo, mostraremos as três teorias do humor: teoria da superioridade, teoria da incoerência e teoria do alívio. A teoria da superioridade corresponde ao riso que é provocado pelo contraste. A desgraça alheia é motivo de risada por parte de alguém que observa. O fato de se colocar na posição de observador já é, por si só, característica da superioridade. A exemplo dessa teoria, destacamos o riso provocando durante as videocassetadas, ou vídeos toscos. A teoria da incoerência é reconhecida, repetidamente, como uma esperança frustrada, um conceito que resulta de Immanuel Kant, que declarava que o humor surge da mudança repentina de uma grande expectativa para o nada. Pode-se dizer que o humor consiste no encontro do inadequado dentro do apropriado. Nem toda expectativa frustrada resulta engraçada. Muitas resultam trágicas, outras meramente banais. Na teoria do alívio, supõe-se que o componente fundamental do humor não seja uma percepção de superioridade ou o conhecimento do inconseqüente, mas, sim, o sentimento de alívio provocado pela retirada de barreiras. Tal teoria encontra apoio principalmente na relação entre o princípio do prazer e princípio de realidade

18 tal como descritos por Freud. Assim sendo, o humor teria por função driblar a censura repressora, fazer pouco do que nos cerceia a liberdade, seja sexual seja de que ordem for. Isto talvez explique a intrínseca relação existente entre humor e sexualidade, presente desde a Antigüidade. Cada tipo de teoria explica, entretanto, algum aspecto do humor. O humor é classificado em diversos estilos. São eles: O Chiste é breve, e é nele que reside, por assim dizer, a graça, a maior parte dos fatos humorísticos leva a um sorriso, mas o chiste geralmente leva a um riso repentino. A Sátira expõe a fraqueza, as bobagem, os medos humanos e a ridicularização, fazendo as pessoas rirem. O Sarcasmo é mais agressivo do que a sátira, pode-se dizer que o sarcasmo é um deboche mais "pesado". Ironia, quando se diz uma coisa querendo afirmar outra. A Farsa e a Palhaçada, para algumas pessoas, são formas de humor, envolve exageros, a exemplo As pegadinhas do Faustão. A Paródia e o Burlesco: A paródia é uma imitação, na maioria das vezes cômica, de uma composição literária, em outras palavras é uma imitação burlesca A paródia surge a partir de uma nova interpretação, da recriação de uma obra já existente e, em geral, consagrada, o tipo mais comum de paródia é a alteração da letra de alguma música bastante conhecida, para provocar resultados cômicos. A Mímica: expressão de pensamento e idéias através de gestos e expressões, também pode ter o objetivo de causar o riso. Humor Negro procura achar no trágico situações que podem ser engraçadas. Humor Preconceituoso: apresenta preconceito e todos os tipos: racial, social, sexual, regional, etc. Está presente principalmente em piadas. Marcondes Filho (1994, p. 75) diz que o humor contemporâneo mostra-se mais debochado, duvidoso e descrente Burlesco O humor atual difere do antigo exatamente pela ausência do negativo, do individuo estereotipicamente ridicularizado e pela colocação de situações absolutamente corriqueiras, normais, cotidianas de vida como fatos humorísticos. Sob o rótulo de humor aparecem cenas que fazem parte do nosso dia-a-dia, da nossa política e das quais rimos diante da televisão. Nesse sentindo, a política, a economia, o esporte, a vida no trabalho, no lazer, são fatos a serem humorizados talvez por vivermos, sem o sentirmos nitidamente, em meio a um mundo, em que essência, absurdo devido ao desaparecendimento da fronteira entre o que é seriedade e o que é humor. (MARCONDES FILHO p. 75). Num sentido mais lato, refere-se a formas que imitam ridicularizando personagens, instituições, escolas, costumes, valores, através da paródia, sátira ou caricatura, muitas vezes com uma finalidade crítica, convertendo-os em objeto de gozo perante os espectadores. Neste sentido podemos encontrar exemplos de burlesco ao longo de toda a história da literatura, desde a Antiguidade até aos nossos dias. O conceito de burlesco explanado por Isabel Galucho verifica que suas características são bastante presentes tanto na obra de Hunter Thompson, quanto no programa Pânico na TV. Esses traços que ligam jornalismo Gonzo e o programa analisado mostram que alguns elementos desse jornalismo podem ser aplicados em diversos gêneros televisivos.

19 O programa Pânico na TV apresenta paródias, sátiras e caricaturas de quadros de programas, como exemplo Idalos, que foi uma nova versão do reality show Ídolos, exibido pelo SBT, como também paródias e sátiras de músicas, como a paródia do Gugu, criando o programa Armando Legal, o qual é uma crítica direta ao programa do Gugu, exibido aos domingos no SBT. Thompson mostra nos seus textos passagens satíricas que na maioria das vezes ridicularizam uma situação De fato: conheça um maconheiro. Sua vida pode depender disso! Talvez você não enxergue seus olhos por causa das Cortinas de Erva, mas os nós de seus dedos estarão brancos por conta da tensão interna [...] Qualquer policial, ao prender um suspeito viciado em maconha, não deve hesitar em usar de toda força necessária. Se o maconheiro precisa tomar um ponto, isso significa que você se livrou de tomar nove. Boa Sorte. O delegado. (THOMPSON. 2007, p ). Esses elementos, além de provocarem o humor, são uma crítica provocativa à sociedade. Essa crítica mostra a ambigüidade da programação televisiva, que, por um lado apresenta um conteúdo baixo e sensacionalista, que chama a atenção das massas, como exemplo os realitys shows, e, por outro, temos programas cheios de conteúdos interessantes, que apresentam pouca audiência. A dimensão do grotesco observado no Pânico na TV e no jornalismo Gonzo adquire uma metalinguagem social. Conteúdos, formas de apresentação e linguagem são trabalhados para mostrar ou mascarar os fatos do cotidiano Caráter metamidiático A metalinguagem é ter o código a serviço do próprio código, é usar a linguagem para se falar da própria linguagem. Um exemplo disso seria a tela de um pintor, tentando falar sobre pintura, um programa de TV falando da própria TV; um poema falando do próprio poema. Como se percebe, a metalinguagem está presente em diversas situações. Em análise à narrativa de Machado de Assis no filme Memórias Póstumas de Brás Cubas, identifica-se logo de início dois exemplos de metalinguagem; o primeiro é que Cubas, o defunto, também é o autor; Cubas fala de Cubas; em segundo Machado pára a história para explicar a própria história, onde não se trata de um autor-defunto, mas de um defunto-autor. Uma forma especial de metalinguagem é justamente a crítica. De acordo com Haroldo de Campos, Crítica é metalinguagem. Metalinguagem ou linguagem sobre a linguagem. O objeto - a linguagem-objeto - dessa metalinguagem é a obra de arte, sistema de signos dotado de coerência estrutural e de originalidade. (CAMPOS, 2004, p.11). Ao análisar o programa Pânico na TV versos Jornalismo Gonzo, verificamos a existência da metalinguaguem como forma de crítica, sátira, ironia e humor. Alexandre Werneck relata que Não há programa de TV que não tenha sido objeto de sátiras do Pânico. Se a cultura das celebridades inventa um famoso a cada semana, eles insistem em chamá-lo de Famoso Quem ; se uma modelo e atriz roda o circuito dos programas de variedades falando de seus projetos, eles a encontram em uma festa e lhe jogam na cara que não há projeto nenhum; se os canais abertos vão exibir filmes de

20 segunda categoria na segunda-feira, eles contam os finais deles no domingo, com ajuda da Mulher Samambaia, uma mocinha calipígia de trajes sumários, em alusão às moças do mesmo gênero de programas como Caldeirão do Huck. Samambaia fica parada no palco o tempo todo, como uma planta, mostrando que na TV, abundância é enfeite. O Pânico na TV é quase uma autobriografia da televisão brasileira. Aliás, autobriografia é metalinguaguem. Os quadros aprensentados no programa fazem uma crítica ao jeito de se fazer televisão e ao que se apresenta na TV. Queremos mostrar ao espectador que ele não pode acreditar em tudo. Já fizemos um enterro de anão [a partir da piada que ninguém nunca viu um enterro de anão] e as pessoas perguntavam para a gente na rua se o anão havia morrido mesmo! Elas acreditam em tudo que a TV mostra!. Comentário do apresentador do programa Pânico na TV, Emílio Surita, a Alexandre Werneck. Esse comentário mostra que mais uma das características do jornalismo Gonzo está presente no programa, que a melhor ficção é muitas vezes melhor que o melhor jornalismo. Thompson sempre misturava em suas matérias ficção com realidade, fazendo o leitor não perceber o que era real ou apenas criação. Hunther Thompson também se utiliza da metalinguagem nos textos Gonzo: a utilização das drogas para falar da própria experiência com drogas, comentar sobre o seu modo de escrever. O Gonzo sempre critica ou mostra uma nova perspectiva do objeto de sua reportagem, dele mesmo e de sua relação com os fatos. [...] e no meio-tempo temos esta tentativa fracassada de Jornalismo Gonzo, cuja veracidade final nunca será decretada. Isso é certo. Medo e Delírio em Las Vegas precisará ser visto como uma experiência insana, uma boa idéia que endoidou no meio do caminho... uma vítima da sua própria escrizofenia conceitual, capturada e depois destruída naquele limbo vaidoso e acadêmico entre jornalismo e ficção. (THOMPSON. 2004, p.50). Todos os elementos apresentados no capítulo II nos faz perceber a crescente relação dos elementos Gonzo no programa Pânico na TV, Czarnobai (2003) alega que O Gonzo Journalism é declaradamente iconoclasta e se propõe a não respeitar nenhuma regra - nem as que o próprio Thompson inventa. Por não se levar a sério, é natural que o senso de humor seja uma característica marcante neste gênero. O Gonzo Jornalista ironiza o objeto de sua reportagem, a sua linguagem e a sua própria condição de jornalista, posto que o gonzo é um gênero não-legitimado. Segundo Othitis, Thompson "tirava sarro da sua própria profissão, avacalhando de um jeito ou de outro matérias esportíveis perfeitamente críveis. As características do programa Pânico na TV e do jornalismo Gonzo muitas vezes apresentam uma manifestação contra a ética televisiva. Por isso, analisaremos no próximo capítulo as implicações éticas dos elementos Gonzo presentes no Programa Pânico na TV. 3 O pânico da ética e a ética em pânico O programa Pânico na TV sempre causou muito impacto na mídia e nos telespectadores, a começar com o nome do programa. De acordo com o dicionário de Pedro Luft, a palavra pânico significa Pavor ou susto repentino, às vezes infundado, que provoca reação descontrolada, individual ou coletiva. Que provoca medo. (LUFT, 2003, p.500). O programa mostra uma mistura de tudo o que já passou, ou ainda passa pela TV: mostra à televisão como um circo midiático, onde se criam diversos personagens para dar forma a desorganização que o Pânico promove (Paquita, Bozo, Passarinho,

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