PRINCÍPIOS FRAGMENTADOS, UMA RELEITURA SUSPENSA

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1 Anais da Semana de Pedagogia da UEM ISSN Online: XX Semana de Pedagogia da UEM VIII Encontro de Pesquisa em Educação / I Jornada Parfor PRINCÍPIOS FRAGMENTADOS, UMA RELEITURA SUSPENSA GODINHO, Ana Caroline Marques BALISCEI, João Paulo Universidade Estadual de Maringá - UEM Formação de Professores e Intervenção pedagógica INTRODUÇÃO Venho por meio deste artigo, relatar todo o meu processo de produção da proposta de releitura, tendo o guarda-chuva como um inusitado suporte. A proposta entregue pelo professor João Paulo Baliscei, na disciplina de Produções Artísticas: Pintura II, teve como foco a realização de uma releitura da obra e do artista de acordo com a escolha de cada aluno. Como referencial da obra, escolhi Pablo Picasso com as obras Guernica (1937), e A família de saltimbancos (1905), uma das produções de sua Fase Rosa. A junção dessas obras de diferentes épocas e de diferentes sentidos me levou a tratar a respeito de um tema que vem me chamando muito a atenção. Em um segundo momento, a partir do texto de Valeska Bernardo, Releitura não é cópia: refletindo uma das possibilidades do Fazer Artístico será destacado neste artigo o conceito de releitura, atividade comumente trabalhada em arte-educação. Na produção da releitura, o romantismo, a alegria, a doçura, o amor retratado por Picasso na Fase Rosa, foram cenário para uma releitura de Guernica que transmite a imagem de guerra, dor, tristeza, com apenas tons de rosa, sem nenhum tom cinza, como na obra original. A ideia foi retratar o amor passando pela guerra. O último tópico deste texto trata sobre o relato dessa experiência. O ARTISTA E SUAS OBRAS Durante o desenvolvimento da proposta de releitura, escolhi trabalhar com o artista Pablo Picasso. Antes de descrever como foi todo o processo de produção da releitura, é importante apresentar o artista. Pablo Ruiz Picasso, nascido na cidade Málaga, Espanha, em 25 de outubro de Foi pintor, naturalizado Francês. A partir do século XX, tornou-se um dos maiores mestres das Artes Plásticas, além de pintor, foi escultor, artista gráfico e ceramista. Herdou o talento

2 do pai que era professor de desenho e pintor. Quando tinha apenas 15 anos, Picasso já tinha seu próprio ateliê. Ao lado de Georges Braque, foi considerado co-criador do Cubismo. Picasso morre em 1973, na França. As obras de Pablo Picasso podem ser divididas em várias fases, algumas possuem um grande destaque. A Fase Azul ( ) foi o período onde o artista, que se encontrava triste pela perda de seu melhor amigo, pintou suas obras com tons de azul, obras que passavam certa frieza, tristeza. Auto-retrato - Pablo Picasso, Fonte: SOBRENOME, nome. Coleção Folha Grandes Mestres da Pintura, 2007, p. 41. Na Fase Rosa ( ), Picasso está apaixonado, usa tons de rosa, vermelhos e ocres para escurecer as cores, suas obras passam uma visão mais alegre, com movimento e calor. Nesta fase, retrata artistas de circo, atores e saltimbancos. Esta fase faz parte da produção da releitura.

3 Moço com cachimbo - Pablo Picasso, Fonte: Pablo Picasso, Coleção Folha Grandes Mestres da Pintura, 2007, p. 48. Com influências de Cézanne, Picasso desenvolve um novo estilo, o Cubismo, movimento que tem como uma das principais características, usar de figuras geométricas, para representar a realidade, em Les Demoiselles d Avignon - Pablo Picasso, Fonte: Pablo Picasso, Coleção Folha Grandes Mestres da Pintura, 2007, p. 55. Para a produção da releitura, escolhi duas obras de Picasso, a obra Guernica, 1937, pela ideia de fragmentado, e a obra da Fase Rosa, A família saltimbancos (1905), devido ao sentimento e às cores envolvidos nas obras desta fase do artista.

4 Guernica - Pablo Picasso, Fonte: Pablo Picasso, Coleção Folha Grandes Mestres da Pintura, 2007, p Nesta grandiosa obra, Picasso retrata a dor e o terror dos ataques que arrasaram a cidade de Guernica, durante a Guerra Civil Espanhola, em abril de Uma obra que passa a sensação de dor, destruição, tragédia, medo. Escolhi a Fase Rosa ( ), devido à influência do tom rosa nas obras desta fase, como obra especifica selecionei a obra A família de saltimbancos (1905), Picasso estava feliz, apaixonado pela francesa Fernande Olivier. A família de saltimbancos - Pablo Picasso, Fonte: Pablo Picasso, Coleção Folha Grandes Mestres da Pintura, 2007, p. 44.

5 O PROCESSO DE CRIAÇÃO Entender o conceito de releitura é essencial, para desenvolver a produção teórica, relatar todo o processo de criação. Com base no artigo de Bernardo, pode-se concluir com clareza a enorme distância que existe entre os termos releitura e cópia. Bernardo descreve, de maneira simples e objetiva que, releitura não é cópia (BERNARDO, 1999). A cópia também é um recurso didático possível, quando queremos realizar estudos de estilo, de técnica, estudos comparativos, mas não deve estar associada à releitura, que requer não copiar a obra escolhida, mas recriá-la sob uma nova ótica, a ótica do fruidor-produtor, e não somente do artista. (BERNARDO, 1999, p.3) Bernardo (1999) relata em seu artigo que a má interpretação do conceito de releitura, faz com que o fazer artístico, tanto do aluno, como de qualquer pessoa que venha ter contato com esse tipo de atividade, seja limitado. A autora faz menção à Proposta Triangular i de Ana Mae Barbosa que ganhou destaque nos anos 80, no Brasil. Tal proposta é dividida em três partes que são destacadas como pilares, sendo eles: a Apreciação, a História da Arte e o Fazer Artístico. A leitura da imagem entraria na categoria Apreciação, e a releitura entraria no Fazer Artístico. À História da Arte, caberia não apenas o estudo dos Movimentos Artísticos e seus respectivos artistas, mas também o contexto em que surgiram. (BERNARDO, 1999, p.3) Citando Ana Mae Barbosa, Bernardo (1999), descreve a Proposta Triangular como sendo uma maneira de ampliar o conhecimento e a linguagem nas Artes Plásticas. O foco do desenvolvimento da produção está no Fazer Artístico, nele encontra-se a releitura (porém, vale ressaltar aqui que o Fazer Artístico não se limita somente à releitura), onde o aluno produzirá com base na apreciação feita da imagem, uma obra que tenha tal imagem como referência, mas que possua, principalmente, as peculiaridades e os sentimentos do aluno. [...] o aluno é colocado em contato com o processo de criação, de uma imagem, de uma obra, podendo assim aprender sobre os diferentes aspectos que envolvem este processo, como seleção de materiais a serem utilizados, escolha do tema, da técnica entre outros. Ele agora poderá traduzir plasticamente o que não comporta apenas em palavras ou gestos, ao colocar suas vivências, suas interpretações no trabalho produzido. (BERNARDO, 1999)

6 É exatamente por isso, que ao realizar a proposta de releitura no guarda-chuva, venho com a intenção de buscar não apenas elementos das obras, mas também, incluir elementos referentes à minha personalidade e de problematizar e questionar valores e paradigmas sociais. Quando se trata do fato de envolver a própria identidade, peculiaridades, gostos e costumes, com a obra a ser realizada, pode-se descrever que dois conceitos surgem para fundamentar tal experiência entre artista e obra: os conceitos de poética e poiética, relatados por Icleia Borsa Cattani (2007), em Mestiçagens na arte contemporânea. Para Cattani (2007), a poética pode ser considerada como a carga sentimental entre o artista e a obra, é a relação entre criador e criação, tudo que a obra possui em si mesma, a partir do momento que está pronta, despertando múltiplos sentidos e significados. Já a poiética pode ser entendida como o que estuda a motivação do artista, o que levou o artista a elaborar tal obra, o seu processo de criação até a instauração da obra, pode ser virtual ou concreta, permanente ou efêmera. Poéticas e poiéticas possuem sentidos diferentes, porém relacionam-se entre si, por exemplo: se em uma série de obras, a poética for semelhante, ou seja, a obra em sua integridade, o que irá diferenciá-las será sua poiética, ou seja, o processo que de criação propriamente dito, a elaboração, a construção da obra. Cattani (2007) destaca que a mestiçagem se resume nas suas poiéticas, que não está na obra acabada. Por mais que os resultados sejam iguais ou parecidos, as poiéticas fazem as obras se diferenciarem. Pode-se entender então, que poética e poiética caminham juntas, uma faz com que a outra aconteça. Sendo assim, ao desenvolver tal proposta, cada aluno passou pelos dos processos, o de envolvimento de sentimentos entre artista e obra (poiética); e, o de criação concluída, acabada (poética). Ostrower (1977) descreve em seu livro Criatividade e Processos de Criação, que existem dois fatores que se destacam no desenvolvimento humano: o individual e o cultural. O segundo, refere-se ao lugar onde o indivíduo cresce, desenvolvendo-se numa cultura local, influencia em quem esse indivíduo se tornará. A cultura traz para a pessoa diferentes modos de ver, de pensar e de desenvolver seu processo criativo. O ato criador não nos parece existir antes ou fora do ato intencional, nem haveria condições, fora da intencionalidade, de se avaliar situações novas ou buscar novas coerências. Em toda criação humana, no entanto, revelam-se certos critérios que foram elaborados pelo individuo através de escolhas e alternativas. (OSTROWER, 1977)

7 Entre a obra Guernica e a obra A família de saltimbancos, de Pablo Picasso, existe uma grande diferença. Uma, conta a história de uma guerra, traz um sentimento de dor, tragédia, sofrimento, caos, destruição retratados com tons frios de cinza; a outra passa a sensação de alegria, amor, doçura, movimento retratados com os tons da cor rosa. O objetivo na releitura em guarda-chuva é realizar uma junção das duas obras, trazendo os aspectos de separação, dor, frieza, fragmentos, guerra, para dentro de uma fase onde o amor e a alegria são predominantes. É como realizar uma união entre a razão e a emoção. A decisão de realizar essa proposta de releitura com esse tema veio de maneira rápida, não foi difícil pensar no que fazer, mas, o colocar em prática foi o que deu mais trabalho. Optei por trabalhar com o tema casamento. Ao pensar na ideia de amor, no casamento, como a união sagrada, nos laços do matrimônio, questionei-me a respeito de um conhecido e lindo texto bíblico. Quem ama é paciente e bondoso. Quem ama não é ciumento, nem orgulhoso, nem vaidoso. Quem ama não é grosseiro ou egoísta; não fica irritado, nem guarda mágoas. Quem ama não fica alegre quando alguém faz uma coisa errada, mas se alegra quando alguém faz o que é certo. Quem ama nunca desiste, porém suporta tudo com fé, esperança e paciência. O amor é eterno. (I Coríntios Bíblia, Nova Tradução na Linguagem de Hoje NTLH, p.1424) Questões como O que houve com o amor?, Onde estão os princípios?, O que aconteceu com o tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta?, surgiram. E, observando a obra Guernica, de Pablo Picasso (1937), achei conveniente trazer como tema para minha releitura, o amor em guerra. Com a proposta de releitura, eu trouxe aspectos das duas obras para o suporte. Primeiramente, no papel, esbocei as figuras fragmentadas, soltas, vazias, para representar a ideia de que os princípios do casamento estão sendo cada vez mais corrompidos e que a união concedida por uma benção está perdendo o valor, o amor está se esfriando. Ao fundo, a cor rosa, além de fazer referência à fase onde Picasso destacou como tema o amor, demonstra a sutileza, a delicadeza e o carinho que deveriam reinar sobre a atmosfera do matrimônio.

8 Assim como em Guernica, aqui as peças e acessórios são retratados separados, espalhados, vazios. Procurei trazer elementos que correspondessem à obra original. Sob orientação do professor João Paulo Baliscei, consegui, de maneira uniforme, transpor as figuras para o guarda-chuva em lugares que elas se completassem, fazendo com que o expectador entenda o que ele está vendo. Estudo da releitura, 2013 Fonte: registro pessoal. Depois de passar por todo o processo de produção da pintura no guarda-chuva, analisar o trabalho final, o tema tratado e as questões levantadas a respeito do tema, a obra recebeu o nome de Princípios Fragmentados. Esse título vem da ideia de que os princípios não estão mais sendo seguidos, muitos ignorados. Aquele amor que tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta, aquele amor que é verdadeiro e nunca morre, está cada vez mais raro, quase extinto. O casamento como sendo algo tradicional, sagrado, não tem mais tanto valor. No decorrer do processo, passei por momentos frustrantes, porém, o mais interessante é que as histórias e as experiências vão aumentando, sendo guardadas para com certerza, serem utilizadas em novas propostas e desafios futuros.

9 CONSIDERAÇÕES FINAIS Por meio das aulas onde foi trabalhado, na teoria, o que é a releitura em si, com base no texto de BERNARDO (1999) pode-se concluir que a releitura de uma obra não implica em copiá-la, mas sim em dar outro sentido a ela. Retirando elementos existentes, acrescentando novos, organizando a composição de forma inusitada, por exemplo. Enfim, releitura é criação. Finalizando o guarda-chuva, 2013 Fonte: registro pessoal. Por fim, acredito que, por meio da Arte (não apenas como uma maneira de contemplação, mas também uma ferramenta de expressão) o expectador, ao ver tal produção não a entenda como uma crítica, mas sim como uma preocupação com os valores que estão se perdendo em meio a tantas ideias que surgem na sociedade contemporânea.

10 Produção concluída, Fonte: registro pessoal. O desenvolvimento de toda a proposta, mesmo em meio a momentos frustrantes, momentos de alegria, agitação, correria, foram essenciais, para que uma tranformação de um simples trabalho em uma produção artística, acontecesse. A aplicação e o compromisso de cada aluno foram visíveis no final das produções. A satisfação com o resultado também, mesmo em meio a tanto trabalho, pode-se entender que cada um direcionou o seu processo de criação para um tema que nao estava solto, mas que fazia parte da personalidade e dos gostos de cada aluno.

11 Segundo ano de Artes Visuais e suas releituras, 2013 Fonte: registro pessoal. Sendo assim, pode-se dizer que as investigações e possibilidades de releituras não se encerram aqui, e que estamos prontos para novos desafios. Desafios esses que nos dão trabalho, nos tiram noites de sono, nos fazem chorar durante o processo, e rir quando tudo acaba, mas que, acima de tudo, nos levam a crescer no caminho da Arte. REFERÊNCIAS BERNARDO, Valeska. Releitura não é cópia: refletindo uma das possibilidades do fazer artístico. Universidade Estadual de Santa Catarina UDESC. Florianópolis SC BÍBLIA. Português. Bíblia da adolescente aplicação pessoal. Nova Tradução na Linguagem de Hoje. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, p. CATTANI, Icleia Borsa Cattani. Poiéticas e poéticas da mestiçagem. In: CATTANI, Icleia Borsa (Org.). Mestiçagens na arte contemporânea. Porto Alegre: EdUFRGS, p OSTROWER, Fayga. Criatividade de Processos de Criação. Editora Vozes. RJ Pablo Picasso / [coordenação e organização Folha de S. Paulo; tradução Martin Ernesto Russo]. Barueri, SP:Editorial Sol90, (Coleção Folha Grandes Mestres da Pintura; 6). i Criada nos anos 80, por Ana Mae Barbosa, a Proposta Triangular é hoje a principal referência do ensino da Arte no Brasil. Está apoiada em três pilares para efetivamente construir conhecimentos em Arte: a Apreciação, a História da Arte, e o Fazer Artístico. Cada pilar corresponde a uma categoria, a leitura de imagem na categoria Apreciação, e a releitura no Fazer Artístico, à História da Arte, caberia o estudo e o contexto em que surgiram os movimentos artísticos e seus respectivos artistas.

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