CONSTRUÇÃO DISCURSIVA DO SUJEITO: UMA PROPOSTA DE LEITURA DE GÊNEROS DO COTIDIANO

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1 CONSTRUÇÃO DISCURSIVA DO SUJEITO: UMA PROPOSTA DE LEITURA DE GÊNEROS DO COTIDIANO Taiza Mara Rauen Moraes, UNIVILLE Universidade da Região de Joinville SC. Gabriela Cristina Carvalho, UNIVILLE Universidade da Região de Joinville SC. De fato é dentro da e pela língua que o indivíduo e sociedade se determinam mutuamente. O homem sentiu sempre e os poetas freqüentemente cantaram o poder fundador da linguagem, que instaura uma realidade imaginária, anima as coisas inertes, faz ver o que ainda não existe, traz de volta o que desapareceu. (Émile Benveniste) Toda palavra serve de expressão de um em relação ao outro. Através da palavra, defino-me em relação ao outro, isto é, em última análise em relação à coletividade. A palavra é uma espécie de ponte entre mim e os outros. Se ela se apóia sobre mim numa extremidade, na outra apóia-se sobre o meu interlocutor. A palavra é o território comum do locutor e do interlocutor. (Mikhail Bakhtin) Resumo: Este artigo visa a compartilhar uma experiência de leitura de gêneros discursivos do cotidiano no sentido de produzir uma análise discursiva (Bakhtin, 2000; Orlandi, 2003; Schneuwly & Dolz, 2004; Meurer & Motta-Roth, 2002), feita com um grupo de alunos de 1 o, 2 o, e 3 o ano de Ensino Médio do Colégio da Univille, para posterior produção textual que reflita um sujeito que argumente, discirna e critique os fatos, proferindo, assim, um discurso próprio e consciente. Práticas de leitura/produção que levem os aprendizes a refletir sobre a linguagem para compreendê-la e utilizá-la apropriadamente às situações e aos propósitos definidos. As etapas desse trabalho estão fazendo parte de uma pesquisa para observar as mudanças na construção discursiva do sujeito. Este projeto, ainda em desenvolvimento, já tem alguns resultados para serem socializados. Palavras-chaves: gêneros do cotidiano, discursividade, construção discursiva 1

2 1. Introdução Partindo da concepção de linguagem como um processo de interação humana, situada nas relações entre o indivíduo e a realidade natural e social, e da concepção de leitura, que pressupõe o princípio dialógico, que abre para uma leitura que abarca o horizonte social, integrando diversas formas de linguagem, este projeto, ainda em fase de desenvolvimento, se propõe a apresentar resultados parciais, provenientes de oficinas de leitura realizadas com um grupo de alunos do 1º ao 3º ano do Ensino Médio, do Colégio da Univille. As oficinas de leitura buscaram instigar o leitor, mostrando-lhe que ler não é apenas decodificar o que está escrito, mas que é muito mais que isso. É apreender as expressões humanas de forma que a partir dessa compreensão ele pudesse construir o seu olhar, exercendo a capacidade de argumentar, discernir, criticar e posicionar-se diante dos fatos, proferindo um discurso próprio e consciente. A leitura é, sem dúvida, pré-requisito para o bom desempenho em qualquer disciplina escolar ou no meio social, pois o exercício da leitura, propicia a identificação do discurso do outro e nos capacita a construir nosso próprio discurso, para que não sejamos meros reprodutores do discurso alheio. A partir destas concepções discursivas e da consciência de que a questão dos gêneros é pouco trabalhada na escola foram desenvolvidas oficinas de leitura com textos de diversificados gêneros, no intuito de focar, a construção discursiva do sujeito para despertar o seu senso crítico. Pois, diante de um mundo semiotizado, como diz Lopes (2003), em que as rápidas mudanças culturais, sociais, econômicas, políticas e tecnológicas vem tomando conta da sociedade moderna, como poderia a escola ser instrumento mediador na construção discursiva do sujeito? 2. Pressupostos Teóricos O sujeito constrói sua identidade social exatamente baseado naquilo que é definido pelos discursos que o envolvem e nos quais ele circula. Atualmente, a ampliação das novas mídias nos campos de comunicação e da informação oferecem um padrão fabricado pelo consumo que influenciam na construção da identidade social de maneira superficial. Logo, se os gêneros discursivos do cotidiano, forem trabalhados em forma de leitura crítica, no sentido de mediar a (des)construção discursiva do sujeito, esse poderá despertar e exercer a capacidade de argumentar, discernir, criticar e posicionar-se diante dos fatos, proferindo assim um discurso próprio e consciente. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (1998) e a Proposta Curricular de Santa Catarina (1998) defendem a aprendizagem da língua a partir de uma abordagem de gêneros discursivos, propondo que as práticas de ensino levem os 2

3 aprendizes a refletir sobre a linguagem para compreendê-la e utilizá-la apropriadamente às situações e aos propósitos definidos. Esse domínio da linguagem está associado ao uso da língua num eixo que se compõe da atividade de leitura com a atividade de escrita, pressupondo-se que para haver uma escritura, primeiramente, deve existir um leitor, pois esse direcionará seu texto para um outro, também, leitor. Conforme Schneuwly & Dolz (2004, p.97) quando nos comunicamos, adaptamo-nos à situação de comunicação, ou seja, escrevemos um conto diferentemente de uma reportagem; ou ainda, não falamos da mesma maneira quando apresentamos um trabalho ou quando conversamos à mesa com amigos. Essas adaptações que fazemos, são definidas por Bakhtin (2000, p.279) como esferas de utilização da língua que elaboram seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso o que denominamos gêneros do discurso. Estando o texto organizado na moldura de um gênero, ele mesmo oferece suas próprias pistas de leitura. Porém, para realizar uma leitura eficaz, o leitor deve saber ler os diferentes gêneros discursivos que povoam nossa sociedade, levando em consideração as condições que determinam a produção, o ambiente social e a circulação do discurso. A opção pelo tema deste projeto surgiu da necessidade de se buscar alternativas para atenuar o problema da falta de domínio da linguagem, no sentido de saber usá-la como instrumento de construção e interpretação discursiva, já que conforme Bakhtin, a língua penetra na vida através dos enunciados concretos que a realizam, e é também através dos enunciados concretos que a vida penetra na língua (2000, p.282). 3. Revisão de Literatura Atualmente, em plena era da comunicação, a desvalorização da palavra é cada vez mais freqüente, paradoxo investigado por vários estudiosos, que buscam a compreensão da influência do mass media. Britto (1999, p.87), citando Haquira Osakabe, condena os produtos de mass media por reproduzirem a ideologia de senso comum que espelham o universo imediato dos sujeitos, sendo que neste universo pouco há que se fazer, e o convite à reprodução das atitudes parece o único apelo de ação. Mas, como afirmam Meurer & Motta-Roth (2002, p.10) a vida social contemporânea exige que cada um de nós desenvolva habilidades comunicativas que possibilitem a interação participativa e crítica no mundo de forma a interferir positivamente na dinâmica social. Conseqüentemente, o conhecimento de práticas discursivas e sociais é essencial para que ingressemos nessa dinâmica com menos ingenuidade e mais capacidade de prever, perceber, produzir e negociar sentidos por intermédio da linguagem. 3

4 A prática social de produção de textos é o discurso. Isso significa que todo discurso é uma construção social, não individual, conseqüentemente, o discurso é o lugar em que se pode observar essa relação entre língua e ideologia, compreedendo-se como a língua produz sentidos por/para os sujeitos. ORLANDI, 2003, p.17. O discurso toma uma dimensão ideológica através das marcas deixadas pelo texto, pois todo dizer é ideologicamente marcado. É na língua que a ideologia se materializa. Nas palavras dos sujeitos. (...) O discurso é o lugar do trabalho da língua e da ideologia. ORLANDI, 2003, p.38. Segundo Val (1999, p.124), também, a escola tem sido vítima da ideologia dominante, preocupando-se mais em ensinar aos alunos como exporem suas idéias usando uma linguagem correta e como organizá-las dentro de um padrão estabelecido, do que desenvolver sua capacidade de discernimento e argumentação. A ideologia dominante quer fazer crer que há um jeito certo de fazer as coisas: um jeito certo de enxergar e interpretar a realidade, um jeito certo de pensar. A partir daí buscam-se as receitas, as fórmulas, as fôrmas. Já Citelli (1994, p.19) diz que existe uma permanente luta entre as formações discursivas, por expressarem diferentes interesses sociais, (...) essas formações impõem-se umas sobre as outras por força, muitas vezes, dos veículos de massa. O poder dos jornais, das emissoras de rádio, das cadeias de televisão é muito grande. Se eles não podem tudo, até porque, felizmente, as pessoas não estão condenadas à eterna passividade, de igual modo não se deve desconhecer o significado e a extensão do impacto gerado pelos meios massivos na formação do ponto de vista. Santos (2000, p.40), em outras palavras, complementa a fala de Citelli focalizando também a dependência, da sociedade moderna, do contato com a informação através de seus meios de difusão: Numa sociedade complexa como a nossa, somente vamos saber o que houve na rua ao lado dois dias depois, mediante uma interpretação marcada pelos humores, visões, preconceitos e interesses das agências [de informação]. O evento já é entregue maquiado ao leitor, ao ouvinte, ao telespectador, e é também por isso que se produzem no mundo de hoje, simultaneamente, fábulas e mitos. (grifos meus) Lopes (2003, p.22), afirma que os processos discursivos adquiriram importância central na construção das identidades sociais e da vida social em um mundo altamente semiotizado conforme evidenciado no aumento dos setores de serviço e das novas mídias nos campos de comunicação e de informação. 4

5 Logo, se o texto é um produto da atividade discursiva do sujeito e o discurso uma construção social, que reflete uma visão de mundo intrinsecamente ligada à visão do sujeito que o produz e da sociedade em que ele vive, faz-se necessário entender e interpretar os fatos sociais. E para que isto ocorra, não basta apenas decodificar ou decifrar o que se lê, sabendo-se que interpretar a sociedade é saber lê-la. É preciso organizar as informações, questioná-las, criticá-las. 4. Oficina de Leitura A proposta de oficina de leitura foi lançada aos alunos do 1º, 2º e 3º ano do Ensino Médio do Colégio da Univille, com a sugestão de que fosse trabalhada na primeira etapa, a leitura de diversos gêneros discursivos do cotidiano, no sentido de que o grupo produzisse análises críticas, a fim de mediar a construção discursiva do sujeito, pressupondo que a capacidade de argumentar, discernir, criticar, posicionarse diante dos fatos, exige a construção de um discurso próprio e consciente, que se dá através do estudo da linguagem, a fim de interpretá-la e entendê-la como interação de um sujeito com outro. Logo após a divulgação da oficina, foi formado um grupo com oito alunos, que aceitaram o convite para participar do projeto, previsto para ser desenvolvido em 14h, uma vez por semana com sessões de uma hora, em período oposto ao curricular. A primeira etapa, objeto deste artigo, foi realizada no semestre 1/2007 e focou a construção do olhar crítico através da leitura; a segunda etapa, dirigida para a produção textual, será realizada no semestre 2/2007. Primeiramente, foi exposta a necessidade de saber ler além daquilo que está escrito, além do código, enxergar o que está implícito no texto, assim, foi apontado que é importante, antes de tudo, entender o que caracteriza o texto oral ou escrito, para então compreender melhor a diversidade de gêneros textuais. Segundo Costa Val (1999, p.3), pode-se definir texto ou discurso como ocorrência lingüística falada ou escrita, de qualquer extensão, dotada de unidade sociocomunicativa, semântica e formal. O texto, como unidade sociocomunicativa, é a unidade de linguagem em uso, sendo a construção de sentido o papel determinante em sua função e recepção; como unidade semântica, o texto deve ser coerente, deve ser percebido pelo receptor como um todo significativo; finalmente, como unidade formal, deve apresentar seus constituintes lingüísticos reconhecivelmente integrados, de modo que ele seja percebido como um todo coeso. Essa habilidade de produção textual é exercitada por nós a todo instante, representada pela linguagem usada nos diferentes contextos e situações de nosso cotidiano. Para analisarmos os gêneros textuais, é necessário observarmos alguns aspectos como: quem fala, o que fala, como fala e para quem fala, sendo esses os principais fatores na formação dos gêneros textuais. 5

6 Inicialmente, foram selecionados textos de quatro gêneros diferentes: charge, informativo, teórico e jurídico, para que fosse percebida a variação discursiva em relação à intenção textual. Posteriormente, o movimento se desenvolveu de modo inverso. O grupo trouxe textos de gêneros diversificados presentes no seu cotidiano: letras de canção, ensaios críticos e reportagens, demonstrando que cada gênero tem um papel social e exige uma leitura adequada a sua função. As discussões foram articuladas no sentido de apontar as intenções textuais e demonstrar que a leitura crítica só ocorre quando as pistas dos textos são identificadas e, assim, o sujeito passa a exercer sua capacidade de argumentar, discernir, posicionando-se diante dos fatos, proferindo um discurso próprio e consciente. As leituras foram conduzidas para a percepção de que os textos se organizam numa moldura de gênero oferecendo pistas leitoras. Portanto, o leitor deverá estar atento aos discursos que povoam a sociedade considerando as condições que determinam a produção, o ambiente social e a circulação do discurso, observando: quem fala, o que fala, como fala e para quem fala. 4. Considerações finais Nos encontros realizados na primeira etapa do projeto, os participantes desenvolveram a leitura de gêneros presentes em seus cotidianos como: charge, informativo, teórico, jurídico, letras de canção, ensaios críticos e reportagens. Enfim, lemos e analisamos uma quantidade de textos bem diversificada, resultante em um visível crescimento no potencial de leitura do grupo, confirmando os pressupostos do projeto, de que para ler melhor é necessário ter contato com a diversidade de gêneros textuais. O principal objetivo do projeto foi expor o grupo a diversos gêneros textuais, para que percebessem as pistas de leitura que cada gênero oferece, buscando descobrir o que há de implícito no texto, considerando quem fala, para quem fala, o contexto, as ideologias e o sentido que o texto provoca no leitor. O grupo foi construindo e apurando progressivamente seu olhar sobre o texto devido à exposição sistematizada de ações leitoras dirigidas para a diversidade de gênero. No entanto, o projeto Oficina de Leitura, em andamento, não desenvolveu atividades de produção textual, previstas para o segundo semestre/2007. Porém, é possível constatar resultados parciais, indicando que a exposição à diversidade textual promove a inserção do sujeito na sua história, pois conforme Bakhtin (2000, p.329), o texto representa uma realidade imediata (do pensamento e da emoção). (...) Onde não há texto, também não há objeto de estudo e de pensamento. 6

7 5. Referências BAKHTIN, M. M. Estética da criação verbal. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, BRASIL; Ministério da Educação e do Desporto. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua portuguesa. Brasília: MEC/SEF, BRITTO, L.P.L. Leitura e política. In: EVANGELISTA, A. A. M. et al. (org.). A escolarização da leitura literária: o jogo do livro infantil e juvenil. Belo Horizonte: Autentica, p CITELLI, A. O texto argumentativo. São Paulo: Editora Scipione, LOPES, L. P. da M. (Org.). Discursos de identidades: discurso como espaço de construção de gênero, sexualidade, raça, idade e profissão na escola e na família. Campinas: Mercado de Letras, MEURER, J. L. ; MOTTA-ROTH, D. (orgs.). Gêneros textuais e práticas discursivas: subsídios para o ensino da linguagem. Bauru: EDUSC, ORLANDI, E. P. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 5ª ed. Campinas, SP: Pontes SANTA CATARINA. Secretaria de Estado da Educação e do Desporto. Proposta Curricular de Santa Catarina: Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio: disciplinas curriculares. Florianópolis: COGEN, SANTOS, M. Por uma outra globalização. Do pensamento único à consciência universal. São Paulo: Record, SCHNEUWLY, B. ; DOLZ, J. Gêneros orais e escritos na escola. Campinas: Mercado de Letras, VAL, M. da G. C. Redação e textualidade. 2ª.ed São Paulo: Martins Fontes,

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