AULA DE LÍNGUA ESTRANGEIRA PARA CRIANÇAS: MODISMO OU NECESSIDADE?

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1 Anais do 6º Encontro Celsul - Círculo de Estudos Lingüísticos do Sul AULA DE LÍNGUA ESTRANGEIRA PARA CRIANÇAS: MODISMO OU NECESSIDADE? Richarles Souza de CARVALHO (PG UNISUL) ABSTRACT: The necessity of learning a foreign language is a fact nowadays. Since children learn languages easier than adults, how old should they start learning another language? Which linguistic skills must be performed with children? Another point is the teachers formation to work with children. KEYWORDS: teaching; children; foreign language 0. Introdução: O presente trabalho tem como objetivo problematizar e elucidar determinadas questões sobre o aprendizado de língua estrangeira com crianças, suas necessidades, possibilidades e dificuldades. O texto, além de uma base teórica, partirá da prática docente do pesquisador com o ensino de língua inglesa com séries iniciais do Ensino Fundamental. Além de tentar responder ao questionamento inicial que é o próprio título do trabalho, outro questionamento instigou o pesquisador a tentar achar respostas para a prática didático-pedagógica de língua inglesa: Com qual idade as crianças devem começar a aprender / estudar um outro idioma? Qual professor de língua inglesa nunca foi indagado sobre esse assunto por um pai ou responsável de um estudante? A literatura sobre aquisição de língua materna e segunda língua é satisfatória. Da mesma forma, textos que falam sobre aquisição de segunda língua e língua estrangeira, mas em adultos. Não há muitos escritos sobre a aquisição de língua estrangeira por crianças. Os registros sobre crianças versam sobre segunda língua e não língua estrangeira. 1. Língua e Cultura: A necessidade do aprendizado de uma língua estrangeira é um fato em nossa sociedade globalizada. O Inglês, por sua vez, é a língua mais falada no mundo, usada na internet, livros científicos e aparelhos eletrônicos. Deve-se, então, colocar o aluno em contato com o idioma de forma mais organizada e, sobretudo, prazerosa. O objetivo primeiro do estudo da língua inglesa é levar o educando a perceber a importância do idioma como instrumento de comunicação universal, favorecendo a análise e interação com outra cultura, dessa forma o educando estabelecerá relações que o ajudarão a valorizar o outro e entender melhor a si mesmo dentro de seu grupo (Proposta Curricular de Santa Catarina, 1998). Deve-se, portanto, aproximar o aluno da língua inglesa por meios diversos, para que ele tenha um conhecimento suficiente do idioma de acordo com o nível em que se encontra e possa dessa forma assimilar algo de novo, como, por exemplo, usar o aparelho fonador de forma diferente a que está habituado, reconhecer estruturas gramaticais novas, etc. Muitas críticas já foram feitas à idéia de que é de suma importância o aprendizado de outros idiomas. Para que aprender outra língua? É imprescindível tal competência? É verdade que podemos conhecer muito sobre a cultura de outro país mesmo sem falar seu idioma, recorrendo a traduções, intérpretes ou coisas do tipo. Contudo, se conhecemos o idioma do país / cultura que estamos interessados em conhecer, a assimilação e entendimentos de conceitos serão muito provavelmente diferentes. Outro ponto a se discutir é o da verdadeira necessidade de se aprender a cultura do outro. Essa expressão deve ser entendida como respeitar porque se respeita somente o que se conhece o outro. E nesse respeito / conhecimento do outro é feita intrinsecamente uma relação de com sua própria cultura e diria até mesmo uma maior valorização de si por perceber semelhanças e diferenças e semelhanças nas diferenças: A educação do futuro deverá ser o ensaio primeiro e universal, centrado na condição humana. [...] Estes (seres humanos) devem reconhecer-se em sua humanidade comum e ao mesmo tempo reconhecer a diversidade cultural inerente a tudo que é humano. (MORIN, 2003, p. 47). O que não pode se deixar de levar em conta é também a possibilidade de maior ascensão social que o conhecimento de outro idioma proporciona ao seu aprendiz. Junto ao cultural e social, o econômico, que faz parte de nossas vidas de uma forma ou de outra, não pode ser esquecido. O mercado

2 de trabalho, preocupação tanto para os jovens que estão na iminência de ingressar quanto para os adultos ingressos, não foge da comparação de currículos na hora de definir uma vaga, principalmente quando dois pretensos candidatos ficam para a última dis puta. Nesse momento, uma língua estrangeira pode ser um fator decisivo de desempate. 2. Faixa etária e aprendizado: Mas com que idade começar a estudar inglês? Quanto mais cedo melhor? Os estudos em neurolingüística e cognição trazem subsídios sobre a hipótese da idade crítica: The lateralization of the brain is certainly connected with the language abilities. It has long been noted that it is much more difficult to learn a language after a certain age. This critical age for first language acquisition seems to coincide with the period when lateralization is complete. Lateralization proceeds and is more or less complete by the age of five (FROMKIN, 1978, p. 35) A aprendizagem de LE em adulto é mais difícil, pois ele está contaminado pela escrita e pelos fonemas da língua materna já adquiridos, além de já ter passado pela idade crítica. Como a criança ainda não domina a escrita (dependendo da idade) e seu aparelho auditivo e fonológico (órgãos da fala) ainda estão em desenvolvimento, a possibilidade de aprender uma língua estrangeira com sistema fonológico diferente é maior. Não é impossível um adulto aprender uma língua estrangeira como parece ser um senso comum, principalmente de pessoas mais velhas, porém essa atividade parece ser mais fácil para uma criança, por ela estar na idade crítica. Outro ponto bastante forte que favorece a criança no aprendizado de outra língua é sua curiosidade pelo desconhecido e forte sintonia com tudo no ambiente que a rodeia. Por natureza, a criança é curiosa e tem vontade de tudo aprender. Tudo a desafia. A hipótese conhecida como affective filter (filtro afetivo) de Stephen Krashen corrobora com essas idéias, dizendo que fatores de ordem psicológicoafetiva podem causar um impacto direto na capacidade de aprendizado. Esse é um aspecto importante que influi no aprendizado de línguas. Crianças assimilam línguas com mais facilidade, porém têm grande resistência ao aprendizado formal, artificial e dirigido. As crianças, mais do que os adultos, precisam e se beneficiam de contato humano para desenvolver suas habilidades lingüísticas. Entretanto, se perceberem que a pessoa que deles se aproxima fala sua língua-mãe, dificilmente se submeterão à difícil e frustrante artificialidade de usar outro meio de comunicação. Elas só procuram assimilar e fazer uso da língua estrangeira em situações de autêntica necessidade, desenvolvendo sua habilidade e construindo seu próprio aprendizado a partir de situações reais de interação em ambiente da língua e da cultura estrangeira. (SCHÜTZ, 2004) 3. Habilidades lingüísticas com crianças: As habilidades que deveriam ser trabalhadas na escola segundo Verônica P. Totis (1991) são a escrita e a leitura. Seria dada menos ênfase na fala e na escuta pela ausência de situações necessárias para o uso das mesmas. Ou seja, a curto prazo (dentro do próprio país), um estudante terá muito mais chance de ler e escrever em Inglês do que falar o idioma. E ainda poderíamos dizer que há uma relevância maior na leitura, pois o contato com textos de diversos gêneros em Inglês é grande. Textos e expressões em língua inglesa são cotidianamente encontrados e nós lemos esses textos muitas vezes sem querer. Já a habilidade da escrita, salvo situações de trabalho onde haja a necessidade de redação de cartas ou s em língua estrangeira, ou ao prestar exames e concursos como alguns vestibulares que requerem também a escrita em língua estrangeira, não será comumente requisitada como acontece com a habilidade da leitura. Diante de tais fatos, o profissional encarregado do ensino de língua estrangeira para crianças fica em uma situação desconfortável. Por um lado temos o diagnóstico de que a língua estrangeira na escola deve primar pela ênfase na habilidade da escrita, por outro lado sabe-se que nas séries iniciais as crianças estão se alfabetizando e as habilidades de escrita e leitura ainda estão em

3 desenvolvimento em língua materna. Como então proceder no processo ensino-aprendizagem de língua estrangeira? A prática pedagógica do pesquisador tem demonstrado que mesmo que as habilidades leitura e escrita devem ser trabalhadas na escola pelos motivos já citados acima, nas séries iniciais há um caso de transgressão da regra. As habilidades as quais deveria se dar mais ênfase são a fala e a escuta. Tal transgres são explica-se pelo fato de que a criança aprendiz ainda está em processo de alfabetização em língua materna, logo uma mudança de foco no ensino de língua estrangeira deve acontecer. Um outro objetivo de se ensinar uma outra língua 1 para crianças poderia ser um convite ao estudo, ao mundo da língua estrangeira. O caso não é exatamente ensinar, mas motivar o estudante ao aprendizado de outro idioma. Se a pergunta: por que há língua inglesa no currículo das séries iniciais em seu colégio? fosse feita, uma resposta plausível que poderia ser dada por um professor de língua estrangeira seria: Para a criança começar a gostar do idioma, sem pretensões se ela vai ou não aprender agora, nesse momento. É claro que as já apresentadas facilidades lingüísticas por parte da criança não podem ser deixadas de lado. Deve haver portanto um bom senso entre o aproveitamento do período anterior à idade crítica e o respeito em relação às habilidades lingüísticas ainda não adquiridas pela criança. 4. Lúdico na aprendizagem: Ainda com base na hipótese do filtro afetivo de Krashen, admite-se e esse é um ponto que quase não apresenta divergências teóricas o lúdico é de fundamental importância no processo ensino-aprendizagem de uma língua estrangeira, principalmente em crianças. As atividades lúdicas têm o poder sobre a criança de facilitar tanto o progresso de sua personalidade integral, como o progresso de cada uma de suas funções psicológicas intelectuais e morais. A ludicidade não influencia apenas as crianças, os adultos também se beneficiam dela, quem não adora aprender algo ao mesmo tempo em que se distrai? A ludicidade é uma atividade que tem valor educacional intrínseco, mas além desse valor, que lhe é inerente, ela tem sido utilizada como recurso pedagógico. Os jogos devem ser utilizados como proposta pedagógica somente quando a programação possibilitar e quando puder se constituir em auxílio eficiente ao alcance de um objetivo, dentro dessa programação. Na medida em que os jogos específicos aparecerem na proposta pedagógica devem ser sempre analisados com o espírito crítico para mantê-los, alterá-los, ou substituí-los por outros ao se perceber que ficaram distantes dos objetivos previamente determinados. No processo de ensino-aprendizagem as atividades lúdicas ajudam a construir uma práxis emancipadora e integradora, ao tornarem-se um instrumento de aprendizagem que favorece a aquisição do conhecimento em perspectivas e dimensões que perpassam o desenvolvimento do educando. O lúdico é uma estratégia insubstituível para ser usada como estímulo na construção do conhecimento humano e na progressão das diferentes habilidades operatórias, além disso, é uma importante ferramenta de progresso pessoal e de alcance de objetivos institucionais. A aplicação das atividades lúdicas é fundamental para o entretenimento da turma, a qual se sentirá mais motivada em poder brincar ao mesmo tempo em que aprende. É importante que haja um diálogo com aqueles que acompanham as crianças além da escola para que levem para casa algo lúdico que foi produzido na escola para que o ambiente e as relações que proporcionam a construção do conhecimento se estendam ao ambiente familiar. Ex. : fantoches, trabalhos que foram feitos com massinha, desenhos e pinturas, jogos confeccionados pelos próprios alunos, etc. Mais uma vez o psicológico se faz presente no acompanhamento dos pais e no interesse partilhado pelo aprendizado do idioma. 5. Formação do professor de língua inglesa para séries iniciais: A maioria dos cursos de licenciatura em língua inglesa ou habilitação dupla português / inglês habilitam os graduados a lecionarem para o Ensino Fundamental de quinta e oitava série e para o Ensino Médio. Não há referências nas ementas das disciplinas nem mesmo na grade curricular quanto à docência de língua para séries iniciais. Onde está a formação para o professor de língua inglesa para séries iniciais? Esse campo de atuação está crescendo cada vez mais, contudo profissionais habilitados para trabalhar com crianças que juntem conhecimento específico de língua com conhecimentos psicopedagógicos necessários para o trato com crianças são verdadeiras raridades. 1 Entendemos aqui que a língua a qual se está discorrendo é língua estrangeira e não segunda língua.

4 Os professores da escola secundária raramente se preocupam com os princípios e funcionamento do ensino de línguas estrangeiras na escola elementar. (Rivers, 1975, p. 353) Essa afirmação corrobora com o fato de a maioria dos professores de LI que lecionam para crianças não têm formação específica ou complementar para entender o processo de aprendizagem de crianças. A formação dos professores é voltada para o ensino fundamental de quinta série em diante, mas o que se percebe é que devido às oportunidades de trabalho com crianças, muitos profissionais entram nesse barco sem saber como conduzi-lo. Sabe-se que o aprendizado de uma língua estrangeira é importante e que a criança tem mais facilidade no aprendizado de idiomas. Partindo desses pressupostos, as escolas começam cada vez mais cedo a proporcionar o ensino de línguas. No que diz respeito o aspecto pedagógico, o professor deve compreender as transformações educacionais por que passa a sociedade atual. Assim, ele precisa reconhecer que já não detém o poder da transmissão do saber, tendo que aceitar as novas formas de aprendizagem, que já não são lineares, pois são muito influenciadas pela tecnologia. Desse modo, o professor deve utilizar uma variedade de metodologias, pois os alunos não conseguem concentrar-se numa atividade por mais do que algum tempo. Assim, cabe ao professor fazer a aula dinâmica, para que os educandos prestem atenção, se entusiasmem com a aula e, conseqüentemente, aprendam novos conteúdos. 6. Considerações finais: Diante da dicotomia modismo X necessidade podem ser feitas algumas ponderações: O ensino de língua estrangeira para crianças é um modismo quando os responsáveis por escolas, na ânsia pelo novo, como uma moda passageira, querendo estar a par daquilo que é mais moderno, das últimas descobertas e sem planejamento prévio, sem professores capacitados, sem objetivos bem definidos, (RIVERS, 1975) sem um porquê de se estudar uma LE, introduzem essa disciplina no currículo escolar ou em qualquer programa de LE. Será um modismo quando professores que trabalham com crianças não estiverem cientes de que a presença dessa disciplina no currículo escolar, muito mais do ensinar habilidades lingüísticas de forma imanente, está para fazer com que o educando goste do idioma e faça esse primeiro contato com o mesmo para que mais cedo ou mais tarde, quando uma maturidade lingüística se fizer presente ele estude o idioma com maior rigor. A questão da necessidade deve ser entendida com relação direta à necessidade de se aprender uma língua estrangeira moderna. Segundo a Proposta Curricular de Santa Catarina, pautada nas idéias e proposições de Baktin e Vyogtski, é por meio da linguagem que nos apropriamos dos conhecimentos historicamente produzidos e que também é pela linguagem que o pensamento é organizado e se desenvolve, quanto mais línguas o sujeito dominar tanto maiores serão as oportunidades de apropriação dos conhecimentos de outras culturas, para melhor compreender a sua (cultura) e interagir com seu meio Isso não deve ser entendido como uma necessidade vital, mas como o início de uma caminhada, o começo de um percurso. A lição Zero. Os PCN também trazem a seguinte habilidade no ensino e aprendizagem de língua estrangeira: perceber que o aprendizado de uma língua estrangeira permite o acesso a aspectos culturais diversificados de outras sociedades. Essa habilidade parece estar em consonância com a idéia de convite ao estudo de língua estrangeira, de motivar o conhecimento do novo mundo lingüístico o qual deve ser proporcionado também pelo professor. O seguinte silogismo pode então ser criado (sem medo das falácias silogísticas): É importante estudar uma LE; A criança tem uma maior facilidade no aprendizado de idiomas Logo, é importante a criança começar a aprender um outro idioma. RESUMO: A necessidade do aprendizado de uma língua estrangeira é um fato no mundo atual. Sendo que crianças têm maior facilidade com idiomas, com que idade começar a estudar uma língua estrangeira? Quais habilidades lingüísticas devem ser trabalhadas com crianças? Outro ponto é a formação do professor para trabalhar com crianças. PALAVRAS-CHAVE: ensino, crianças, língua estrangeira

5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FROMKIN, Victoria & RODMAN, Robert. An Introduction to Language. USA, KRASHEN, Stephen D. Principles and Practice in Second Language Acquisition. Prentice-Hall International, MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 8. ed. São Paulo: Cortez; Brasília: UNESCO, RIVERS, Wilga Marie. A metodologia do ensino de línguas estrangeiras. São Paulo. Pioneira, SANTA CATARINA. Secretaria do Estado da Educação e do Desporto. Proposta Curricular de Santa Catarina. Florianópolis: COGEN, SCHÜTZ, Ricardo. A Idade e o Aprendizado de Línguas. English Made in Brazil <http://www.sk.com.br/sk-apre2.html>. Online. 11 de fevereiro de 2004 TOTIS, Verônica Pakrauskas. Língua Inglesa: leitura. São Paulo: Cortez, 1991 (Col. Magistério 2º. grau. Série Formação Geral)

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