MAILZA MARIA ROSA GOULART EDUCAÇÃO DO CAMPO - UMA EMPREITADA SOLIDÁRIA: A CASA FAMILIAR RURAL DE SÃO JOSÉ DO CERRITO/SC

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1 UNIVERSIDADE DO PLANALTO CATARINENSE PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO MESTRADO EM EDUCAÇÃO LINHA DE PESQUISA II - EDUCAÇÃO E PROCESSOS SÓCIO-CULTURAIS E SUSTENTABILIDADE MAILZA MARIA ROSA GOULART EDUCAÇÃO DO CAMPO - UMA EMPREITADA SOLIDÁRIA: A CASA FAMILIAR RURAL DE SÃO JOSÉ DO CERRITO/SC Lages 2008

2 MAILZA MARIA ROSA GOULART EDUCAÇÃO DO CAMPO - UMA EMPREITADA SOLIDÁRIA: A CASA FAMILIAR RURAL DE SÃO JOSÉ DO CERRITO/SC Dissertação apresentada à Universidade do Planalto Catarinense UNIPLAC. Programa de Pós-Graduação Mestrado em Educação. Linha de Pesquisa II: Educação, Processos Socioculturais e Sustentabilidade. Coordenadora: Ana Maria Netto Machado. Orientadora: Prof. Drª. Elizabete Tamanini. Lages 2008

3 UNIVERSIDADE DO PLANALTO CATARINENSE MAILZA MARIA ROSA GOULART EDUCAÇÃO DO CAMPO - UMA EMPREITADA SOLIDÁRIA: A CASA FAMILIAR RURAL DE SÃO JOSÉ DO CERRITO/SC Dissertação apresentada à Universidade do Planalto Catarinense UNIPLAC. Programa de Pós-Graduação Mestrado em Educação. Linha de Pesquisa II: Educação, Processos Socioculturais e Sustentabilidade. Orientadora: Prof. Dra. Elizabete Tamanini. COMISSÃO EXAMINADORA: Prof. Drª. Elizabete Tamanini Orientadora: Prof. Drª. Zilma Isabel Peixer PPGE- Mestrado em Educação UNIPLAC: Prof. Drº. Antonio Munarim Centro de Educação UFSC: Lages Julho de 2008

4 O caminho é você caminhando. Irmã Jandira Bettoni (In memoriam)

5 AGRADECIMENTOS Ao meu pai (in memoriam), que assistiu e acompanhou-me no início desta trajetória e que está em outra dimensão sorrindo, cantando, dançando e continuando a celebração desta conquista. Á minha mãe, (uma destas Marias) que foi se minguando... minguando... para ver os filhos crescerem, e que agora lhe acalentamos, pois o seu João se foi. Ao meu esposo José, que há 30 anos tem ouvido falar de Marx, Che Guevara, Rosseau e Freire e tantos outros autores, e que após estes 30 anos, mesmo sem compreendê-los continua sendo o amor da minha vida. Obrigada pelo teu abraço e cumplicidade. Aos meus filhos, que conviveram sempre com a mãe que não pára de trabalhar e estudar, o que me torna uma mãe feliz e angustiada, são os beijos doces que a vida me deu. A você Éder, meu lindo trabalhador, músico, cantor e pesquisador da cultura da Serra Catarinense, um sujeito fazedor de histórias que deixa pela música o lenitivo da alma, nossa geração continua.com a chegada da Elizabete linda como uma porcelana. A você Éverton, que me ensinou informática e que me trouxe a realização de um sonho: nossas netas Alice e Letícia, mulheres, neste planeta. Ao Edvar, cujo carinho é tão constante no teu sorriso, um pouco de roqueiro, um pouco de estudioso de imagens, meu companheiro das madrugadas. Às minhas noras, Cris, Tati, Lú, que mexeram nas nossas vidas com tanto

6 amor que encheu a casa, saiu pelas portas e janelas levando nossos filhos, amo vocês minhas meninas. À minha tia, madrinha e mãe, de 91 anos de idade, que cuidou de mim com os seus remédios caseiros, de quem aprendi os fazeres das mulheres do campo, mulher parteira, minha mãe Nenê, meu dengo, alento e força. Aos alunos especiais da APAE, que me ensinaram a docilidade dos tempos certos a cada tempo na vida. Vocês deram na minha vida a oportunidade de ver cores, sentidos e significações jamais vistos antes. Ter vocês já é bastante para ter vivido. Não é por acaso, como diz a minha irmã Ioni Wolff Hamann. Ao Centro VIANEI de Educação Popular, através das pessoas: Natal João Magnanti, Selênio Sartori e Prof. Mestre Sérgio Sartori, pelo apoio, atenção mostrada durante esta pesquisa e por acreditarem na história do desenvolvimento territorial da região da Serra Catarinense. Á professora Mestre Leida Maria Martins Vieira, que acompanha minha trajetória pessoal e profissional por mais de trinta anos, exemplo de humanidade. Ás Irmãs Franciscanas do Apostolado Paroquial da Diocese de Lages, que me acolheram e colaboraram neste trabalho, especialmente Irmã Irdes e Irmã Alzira. A todos os que militam, pensam e plantam idéias de conhecimento junto aos agricultores na construção das Políticas Públicas de Educação do Campo. Á Direção, Monitores, Governanta, Funcionários, Alunos, Associação de Pais e Associação dos Agricultores e Conselho da Casa Familiar Rural do município de São José do Cerrito, Comunidade de Santo Antônio dos Pinhos. Á Prof. MSC. Lori Terezinha K Silveira, pelo apoio. Á UNIPLAC, pela oportunidade de vivenciar, nesta Instituição, as grandes construções históricas, ideais, embates e conversas desde 1972 e por participar do curso de Mestrado/2005 a Á Coordenação, Professoras (es) Doutoras (es) e colegas do Curso de Mestrado, especialmente às colegas Adriana Kremer, Rosângela Bairros, Rosana S. Lopes e Andréia Colla pelas trocas, companheirismo e energia. Á banca de Examinadores pela contribuição e compreensão na adesão da proposta de estudo. Aos Amigos para sempre, pela amizade que se faz presente em todas as horas. Gratidão especial à Orientadora Professora Dra. Elizabete Tamanini, que

7 me ajudou na desconstrução/construção pessoal-intelectual, de quem recebi carinho, atenção e grandes lições, durante esta trajetória. Á Gestão da Ação Comunitária UNIPLAC/2008. Ás pessoas que se debruçaram comigo sobre este trabalho, gratidão à Prof. Esp. Júlia Cristina Marian, Prof. MSc. Rosa Maria Donato Beal, Prof. MSc. Maria Cândida Melo Pereira, Prof. Elson Rogério Bastos Pereira, Prof. Esp. Telma Maria Junges, e Prof. José Francisco da Silva revisores deste trabalho.

8 DEDICATÓRIA Ao meu pai (in memoriam), pelo legado dos saberes e fazeres do campo. À Irmã Jandira Bettoni (in memoriam), pela demarcação na história da pedagogia da terra na Serra Catarinense.

9 SUMÁRIO LISTA DE SIGLAS LISTA DE QUADROS LISTA DE FIGURAS RESUMO ABSTRACT INTRODUÇÃO CAPÍTULO I - POR QUE EDUCAÇÃO DO CAMPO? A tropeirada, as trilhas, os caminhos no território da Serra Catarinense São José do Cerrito Os caminhos da pesquisa: diálogos entre autores e autorias Campo e cidade territorialidade: prospecções exploratórias no contexto da implantação da casa familiar rural de São José do Cerrito/SC CAPÍTULO II - EDUCAÇÃO DO CAMPO E A PEDAGOGIA DA ALTERNÂNCIA AS CONCEPÇÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS QUE FUNDAMENTAM A FORMAÇÃO DOS(AS) JOVENS AGRICULTORES(AS) NA CASA FAMILIAR RURAL DE SÃO JOSÉ DO CERRITO/SC O surgimento da formação pela pedagogia da alternância na França A compreensão da pedagogia da alternância para o estudo Entendendo a tipologia da pedagogia da alternância nos autores As casas familiares rurais no Brasil As casas familiares rurais em Santa Catarina... 53

10 2.6 A implantação da casa familiar rural de São José do Cerrito/SC - comunidade Santo Antônio dos Pinhos/SC A pedagogia da alternância: a formação, docência e militância política visões dos autores A pedagogia da alternância e a educação popular Pedagogia da alternância e a legislação brasileira Trajetória para a organização de uma casa familiar rural A seqüência das alternâncias na casa familiar rural O processo de avaliação na CFR - com a pedagogia da alternância Pedagogia da alternância e a prática na CFR de São José do Cerrito/SC A pedagogia da alternância e o desenvolvimento sustentável apoiado na agricultura familiar CAPÍTULO III - EDUCAÇÃO DO CAMPO E A PARTICIPAÇÃO SOCIAL: OLHARES E ESTRANHAMENTOS NA EXPERIÊNCIA DA CASA FAMILIAR RURAL DE SÃO JOSÉ DO CERRITO/SC EDUCAÇÃO DO CAMPO UMA EMPREITADA SOLIDÁRIA: PONTOS (IN)CONCLUSIVOS REFERÊNCIAS APÊNDICES

11 LISTA DE SIGLAS ABREVIATURA SIGNIFICADO ACAFE Associação Catarinense das Fundações Educacionais AIRF Associação Internacional das Casas Familiares Rurais AMURES Associação dos Municípios da Região Serrana ARCAFAR Associação Regional das Casas Familiares Rurais CEB Conselho de Educação Básica CEDUP Centro de Educação Profissionalizante CEFA Centro de Formação em Alternância CEFFA Centro Familiar de Formação em Alternância CFR Casa Familiar Rural CNE Conselho Nacional de Educação CONTAG Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais CPT Comissão Pastoral da Terra CRAB Comissão Regional dos Assentados das Barragens CREDICARÚ Cooperativa de Crédito Rural DSC Discurso dos Sujeitos Coletivos DURB Secretaria do Estado de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente EFA Escola Família Agrícola

12 EPAGRI IBGE IDH IFAP IHS LDB MAB MEC MMA MPA MS MST ONG PA PCSC PRONAF PROPEG SC SCIR SECAD SJC UNIPLAC UNEFAB VIANEI Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística Índice de Desenvolvimento Humano Irmãs Franciscanas do Apostolado Paroquial Índice Humano Social Lei de Diretrizes e Base da Educação Movimento dos Assentados das Barragens Ministério da Educação e Cultura Movimento das Mulheres Agricultoras Movimento dos Pequenos Agricultores Movimentos Sociais Movimento dos Sem Terra Organização Não Governamental Pedagogia da Alternância Proposta Curricular de Santa Catarina Programa Nacional da Agricultura Familiar Programa de Pós Graduação Santa Catarina Secretaria Central de Iniciativa Rural Secretaria da Educação Continuada Alfabetização e Diversidade São José do Cerrito Universidade do Planalto Catarinense União Nacional das Escolas Famílias Agrícolas do Brasil Centro VIANEI de Educação Popular

13 LISTA DE FIGURAS FIGURA 01 Mapa de Santa Catarina, no destaque o município de São José do Cerrito FIGURA 02 Distribuição por região geográfica das Instituições que têm

14 curso em alternância FIGURA 03 Distribuição das matrículas por região geográfica FIGURA 04 Reunião dos parceiros na Casa Familiar Rural de São José do Cerrito/SC FIGURA 05 Representação estruturada dos componentes de um sistema de formação alternada FIGURA 06 - Parada do ônibus na comunidade de Santo Antônio dos Pinhos, BR282, 18km adiante da Sede do Município de São José do Cerrito/SC FIGURA 07 Casa Familiar Rural de São José do Cerrito/SC Comunidade de Sto. Antônio dos Pinhos FIGURA 08 - Alunos na Casa Familiar Rural com a pesquisadora e o monitor. 83 FIGURA 09 - Alunos e pesquisadora em sala de aula FIGURA 10 Síntese dos Discursos dos Sujeitos Coletivos FIGURA 11 - Idéias Sínteses sobre a Casa Familiar Rural FIGURA 12 Idéias Sínteses dos Sujeitos a Respeito da Pedagogia da Alternância FIGURA 13 Idéias Sínteses das Percepções da Formação do (a) Jovem Agricultor (a) LISTA DE QUADROS QUADRO 01 - Síntese do Perfil dos Sujeitos da Pesquisa QUADRO 02 - Percepções dos Sujeitos sobre as Políticas da Educação do

15 Campo QUADRO 03 - Discursos dos Sujeitos Acerca das Políticas de Educação do Campo QUADRO 04 - Das Percepções dos Sujeitos da CFR de São José do Cerrito.. 97 QUADRO 05 - Discursos dos Sujeitos Coletivos acerca da Casa Família Rural QUADRO 06 - Percepções dos Sujeitos Coletivos a respeito das Parcerias da CFR QUADRO 07 - Discursos dos Sujeitos acerca das Parcerias na CFR QUADRO 08 - Das Percepções dos Sujeitos da CFR sobre a Pedagogia da Alternância QUADRO 09 - Discursos dos Sujeitos acerca da Pedagogia da Alternância QUADRO 10 - Das Percepções da Formação do(a) Jovem Agricultor(a) QUADRO 11 - Discursos dos Sujeitos das Percepções da Formação do(a) Jovem agricultor(a) RESUMO A presente pesquisa investiga o processo de implantação, os fundamentos, as concepções teórico-metodológicas que sustentam as práticas de formação na Casa Familiar Rural (CFR)

16 de São José do Cerrito/SC. Contextualiza o território da pesquisa, apresentando autores e estudos que fundamentam os conceitos, e dialogam com os saberes e fazeres dos sujeitos envolvidos neste estudo: CFR, os representantes dos segmentos organizados da sociedade civil na comunidade local, entre estas: ONGs, Associações Sindicais, Movimentos Sociais, Pastorais Sociais e outras. Iniciam-se reflexões e prospecções ainda exploratórias sobre Desenvolvimento Territorial, articulado com as questões da Educação do Campo, apresentando pontos sobre desenvolvimento sustentável. Faz-se uma trajetória das experiências de criação das Casas Familiares Rurais internacionais, da chegada ao Brasil, no Estado de Santa Catarina e por fim a implantação em São José do Cerrito/SC. A construção narrativa está alicerçada em recortes historiográficos e etnográficos considerando os dois últimos séculos. Por outro lado, nessa releitura, traz-se para o contexto atual, a luta dos diferentes movimentos sociais e instituições para a definição de estratégias educativas e políticas públicas diferenciadas para aqueles que vivem e são campesinos. Constatou-se, sobretudo a importância dos Movimentos Sociais no território do planalto serrano e suas interfaces com as lutas universais, apoiados e assessorados pelo Centro VIANEI de Educação Popular estabelecendo esta Instituição relações interinstitucionais e articulações estratégicas para a continuidade dos trabalhos na Casa Familiar Rural de São José do Cerrito/SC. Palavras-chave: Educação do Campo, Pedagogia da Alternância, Casa Familiar Rural, Movimentos Sociais. ABSTRACT This research investigated the process and the implantation, the basis, the theoricalmethodological conceptions that support the experiences in formation of the Rural Familiar

17 House (RFH) - Casa Familiar Rural (CFR) - in São José do Cerrito/SC. It contextualizes the area of the research, presenting authors and studies that prove the conceptions and have dialogues with "the knowlodges and the makings" of the involved peopie in this study, they are the representatives of RFH and of the organized segments of the civil society in this specific locality, such as, non-governametal organizations (NGO's); Associations, Union Associations, Social Movement, Social Pastorals of the church and others. It still begins with expioratory reflections and prospecting about the problems of the education in the countryside and presenting some subjects about enviromentally sustainable deveiopment and the formation of the men and women agriculturalist in the CFR. It has done a report of the experiences about the creation of the International Rural Familiar Houses, its arrival in Brazil, in Santa Catarina State and, finally, the political-pedagogical experiences of the CFR in São José do Cerrito/SC. The narrative construction is based in the historical and ethnographic facts during the Iast two centuries. In the other way, this new reading brings at this moment context, the struggle of the many Social Movement and Institutions in order to determinate the educational strategies and different public politics for those people who live in the country and still are country people. It was verified, over ali, the importance of the Social Movement in Serra Catarinense territory and its connection with universal struggles, supported and advised by VIANEI Center of the Popular Education - Centro VIANEI de Educação Popular. This institution keeps inter-institutional relationships and strategical links for the implantation and sustainability of the works at CFR - Casa Familiar Rural- em São José do Cerrito. Key-words: Education in the Countryside, Rural Familiar Houses, Pedagogy of Alternance, Social Movement. INTRODUÇÃO A presente pesquisa objetivou investigar o processo de implantação, os fundamentos, as concepções teórico-metodológicas que sustentam as práticas de

18 formação na Casa Familiar Rural (CFR) de São José do Cerrito/SC. Assim, esta dissertação está estruturada da seguinte forma: no CAPÍTULO I, POR QUE EDUCAÇÃO DO CAMPO? - buscou contextualizar o território da pesquisa, apresentando autores, autorias e estudos que fundamentam os conceitos, e dialogam com os saberes e fazeres dos sujeitos envolvidos neste estudo caracterizado como pesquisa qualitativa e etnográfica. Ao situar o campo da investigação, apresentam-se os sujeitos envolvidos nesse processo, os parceiros que atuam na CFR, os representantes dos segmentos organizados da sociedade civil na comunidade local, entre estas: ONGs, Associações Sindicais, Movimentos Sociais, Pastorais Sociais e outras. Iniciam-se reflexões e prospecções ainda exploratórias sobre Desenvolvimento Territorial, articulado com as questões da Educação do Campo, apresentando pontos sobre a questão da Sustentabilidade. A abordagem da realidade sob a perspectiva de território estimula o repensar sobre a dicotomia elaborada, na modernidade liberal, entre rural e urbano e suas respectivas contradições. NO II CAPÍTULO, EDUCAÇÃO DO CAMPO E A PEDAGOGIA DA ALTERNÂNCIA - AS CONCEPÇÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS QUE FUNDAMENTAM A FORMAÇÃO DOS (AS) JOVENS AGRICULTORES (AS) NA CASA FAMILIAR RURAL DE SÃO JOSÉ DO CERRITO/SC. A educação do campo e a agricultura familiar se constituem em um importante processo de transformação, do mesmo modo que permite ao agricultor de base familiar manter a sua identidade com raízes sustentadas na sua prática de vida no campo. Assim, nesse capítulo, destacam-se reflexões acerca da Educação do Campo, a partir da organização de espaços de formação como as Casas Familiares Rurais Centros de Formação, Escolas Rurais. Ainda nessa parte da pesquisa, faz-se uma trajetória das experiências de criação das Casas Familiares Rurais internacionais, da chegada ao Brasil, no Estado de Santa Catarina e por fim a implantação em São José do Cerrito/ SC. A construção narrativa está alicerçada em recortes historiográficos considerando os dois últimos séculos. Por outro lado, nessa releitura, traz-se para o contexto atual a luta dos diferentes movimentos sociais e instituições para a definição de estratégias educativas e políticas públicas diferenciadas para aqueles que vivem e são campesinos. Nessa perspectiva, encontram-se a expansão e o enriquecimento das experiências em Pedagogia da alternância em diferentes modalidades de educação: seja na formação de jovens, nos estágios de inserção,

19 seja na formação permanente de adultos. O grande desafio foi localizar as experiências, analisá-las nas dimensões históricas, pedagógicas e da definição de legislação transformada em políticas públicas. NO III CAPÍTULO, EDUCAÇÃO DO CAMPO E A PARTICIPAÇÃO SOCIAL: OLHARES E ESTRANHAMENTOS NA EXPERIÊNCIA DA CASA FAMILIAR RURAL DE SÃO JOSÉ DO CERRITO/SC. Procurou-se estabelecer um diálogo entre os autores e os sujeitos, tomando como ponto de partida as narrativas coletadas nos roteiros; as narrativas, fruto dos encontros informais, os relatos das parcerias da CFR de São José do Cerrito, as observações de campo e as análises de documentos. Estrutura-se, a partir desse contexto, um quadro interpretativo ancorando as reflexões nas Análises de Discursos dos Sujeitos Coletivos (LEFÈVRE e LEFÈVRE, 2003). A organização das idéias chaves advindas de diferentes sujeitos permite leituras e análises, bem como sugere um processo de construção de fontes a respeito da problemática. Tratando-se de um estudo inédito, têm-se a preocupação e o cuidado com a informação, a socialização e a conservação histórico-educativa da Experiência de implantação da Casa Familiar Rural de São José do Cerrito/SC. EDUCAÇÃO DO CAMPO UMA EMPREITADA SOLIDÁRIA: PONTOS (IN) CONCLUSIVOS Inventariou, refletiu e deixou em aberto pontos de referência tecidos no decorrer da dissertação. Constatou-se, sobretudo, a importância dos Movimentos Sociais no território do planalto serrano e suas interfaces com as lutas universais. Tais segmentos ao longo das três últimas décadas vêem sendo apoiados e assessorados pelo Centro VIANEI de Educação Popular, estabelecendo esta Instituição relações interinstitucionais e articulações estratégicas para a continuidade dos trabalhos na Casa Familiar Rural de São José do Cerrito/SC. Pode-se analisar que dentro das singularidades culturais, sociais, políticas e educacionais do Brasil a Pedagogia da Alternância está presente no processo político pedagógico da Casa Familiar Rural de São José do Cerrito/SC. Ressaltam-se, ainda, os pressupostos estratégicos da Educação Popular fortemente adotada pelos Movimentos Sociais na América Latina, tendo a representação da Pedagogia Freiriana como inspiração filosófica e Política. Esse pouso,ou seja, o final desta dissertação é para dizer que de forma comprometida registrou-se um processo de Educação construído coletivamente pela classe trabalhadora, cujo tema, como se percebeu, pouco interessa as elites brasileiras a Educação do Campo enquanto Política Pública.

20 CAPÍTULO I POR QUE EDUCAÇÃO DO CAMPO? 1.1 A tropeirada, as trilhas, os caminhos da pesquisa no território da Serra Catarinense São José do Cerrito/SC

21 [...] amanhã cedo, de capa na mala Vamos buscar tropa nova de boi Da tropa de ontem Hoje ninguém fala Que esta repõe aquela que se foi Música: Éder Goulart Letra: Ramiro Amorim A tropeirada requer dos tropeiros uma preparação, seguida de rituais, ou seja, a juntada dos pertences, o processo da arrumação dos arreios dos animais de monta, da paçoca nas bruacas, das capas na mala, dos revirados de carne e cuscuz, dos apetrechos para o pouso, da definição do corredor por onde trilhar até o ponto das paradas para as trocas dos mantimentos, venda do gado, muares ou porcos. Identificamos neste saber e fazer do território da serra catarinense traços e semelhanças importantes que dialogam com o processo de se preparar para estudar, pesquisar e se envolver com o lugar e a temática em si. O estudo desta problemática vem de longos anos de trabalho. Como professora das redes públicas de ensino, observou-se neste trajeto que a qualidade e o compromisso com a educação do campo e das comunidades rurais sempre estiveram à margem das políticas públicas ou foram engolidas pelas ações do mundo urbano. Segundo Munarim (2000, p. 20), Uma Política Pública se faz mais democrática ou menos democrática, a depender, especialmente, da capacidade de organização e mobilização e dos princípios que regem as organizações protagonistas no seio da Sociedade Civil em referência, que lutam por hegemonia, bem como a depender do grau de autoritarismo/democracia que caracteriza os órgãos do Estado envolvidos no mesmo processo. Outro motivo desta escolha foi devido a nossa atuação na formação de 800 professores do meio rural da Região da Serra Catarinense, no Projeto do MEC SC e 7ª CRE - Habilitação de Magistério PROJETO LOGOS II - nos anos de 1980 a 1988, atuando como supervisora do estágio nas chamadas Escolas Isoladas. Percorreu-se nesse período toda a Região da AMURES (na época formada por 21 municípios) e deparava-se com as asperezas da Educação do Campo. Interagia-se com as dificuldades e deficiência das rodovias com as dificuldades da nossa prática

22 pedagógica e dos professores, pois a realidade imposta era de isolamento de toda ordem. Ou nas palavras de Arroyo (2004) a história do campo brasileiro, é a história da luta contra o cativeiro e contra o latifúndio. A sintonia entre a nós e - a pesquisa - os sujeitos e o objeto de estudo está alicerçada na formação/construção pessoal/profissional, marcada por algumas vivências como já destacada acima. Também, por significar a nossa própria história de vida que configura, uma forte ligação com a terra e nossos antepassados. Atribuiu-se ainda ao trabalho desenvolvido a formação na graduação de Pedagogia, (FACIP ), ao integrar a Equipe Dirceu Carneiro, onde vivenciou o que Peixer (2002, p. 184) escreve: A administração procurou implantar a gestão participativa e alternativa para enfrentar a crise econômica e urbana. Essa gestão tentou romper com as anteriores ao centralizar suas atenções na periferia e na área agrícola. Foi a cidade e sua gestão vistas sob uma nova ótica: uma ótica da organização e participação popular. Agregando-se a estas quase terceiras intenções chegou-se à definição de caminhos e trilhas reorganizados na realização do Curso de Mestrado em Educação/ UNIPLAC. As reflexões apontadas por Peixer (2002), trazem este tempo-espaço, como um período de aquisição de conhecimentos, vivências, formação política, memórias, que se somam aos saberes e fazeres nesta dissertação. Os sujeitos da pesquisa estão representados pela comunidade interna e externa da CFR de São José do Cerrito/SC, que foram protagonistas e interlocutores, nas observações participativas e contribuíram significativamente com as narrativas. Entre esses sujeitos se encontram: Os Gestores Públicos da Prefeitura de São José do Cerrito: Secretaria da Educação e Secretário de Agricultura. Técnico da EPAGRI de São José do Cerrito. Presidente da Associação da CFR. Presidente do Sindicato Rural de São José do Cerrito, alunos, monitores e professores e funcionários da CFR; Assessores do Centro VIANEI de Educação Popular; Irmãs Franciscanas do Apostolado Paroquial da Diocese de Lages; Comitê Regional de Educação do Campo SDR - Lages, Paróquia São Pedro de São José do Cerrito; Movimento das Mulheres Agricultoras (MMA); e Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).

23 A oportunidade de dialogar com os vários segmentos da sociedade civil organizada e dos gestores públicos no contexto da pesquisa constituiu-se numa estratégia subjetiva de valorização às parcerias da CFR de São José do Cerrito. Na tentativa da compreensão sobre a problemática da pesquisa, adotou-se o procedimento metodológico da abordagem narrativa e para a análise,o método do discurso dos sujeitos coletivos (DSC) e na tipologia etnográfica, a sustentação conceitual para a produção de diálogos e interfaces entre teorias e realidades. Segundo Delgado (2006, p. 15): A história oral é um procedimento metodológico que busca, pela construção de fontes, registrar, através de narrativas induzidas e estimuladas, testemunhos, versões e interpretações sobre a História em suas múltiplas dimensões: factuais, temporais, espaciais, conflituosas, consensuais. Não é, portanto, um compartimento da história vivida, mas sim o registro de depoimentos sobre essa história vivida. Neste sentido, procurou-se, durante as inserções em campo, registrar e resgatar as memórias, a história dos sujeitos envolvidos, que de acordo com Santos (1994): À história e à memória compete compreender tal tarefa. Sua contribuição maior é a de buscar evitar que o ser humano perca referências fundamentais à construção das identidades coletivas, que, mesmo sendo identidades sempre em curso, são esteios fundamentais do autoreconhecimento do homem como sujeito de sua história. A Educação do Campo é entendida, no contexto deste estudo, como a educação específica, diferenciada e qualitativa, no sentido amplo do processo de formação humana dos sujeitos agricultores em formação. Situando-a no contexto dos direitos humanos como afirma Arroyo (1994, p. 74): temos que lembrar que os direitos representam os sujeitos sujeitos de direitos, não abstratos que a escola e a educação básica têm de se propor tratar homem, mulher, o jovem e a criança do campo como sujeitos de direitos. A comunidade participante da Casa Familiar Rural de São José do Cerrito/SC, nesta pesquisa, assumiu um significado que determinou o processo de nossa investigação e socialização dos saberes. A contribuição qualitativa para as reflexões ampliou-se na medida em que ocorreram as visitas, as imersões

24 (aproximações ou observações participativas de campo); junto às Casas Familiares Rurais e em especial na Casa Familiar Rural do município de São José do Cerrito, Comunidade de Santo Antônio dos Pinhos foco de nossa intervenção. O contato com a comunidade dos alunos, professores, monitores, governantas, presidente da Associação dos pequenos agricultores, presidente da Associação das Mulheres Agricultoras, Pastorais da Igreja, Secretarias Municipais de Educação dos municípios, Assessores do Centro VIANEI de Educação Popular contribuíram para percebermos a complexidade da problemática e o quanto estamos inseridos neste contexto. Para ampliarmos o entendimento e a compreensão da pesquisa, apoiou-se ainda na Análise do Discurso dos Sujeitos Coletivos, em LEFÈVRE e LEFÈVRE (2003, p ) afirmam: O método de análise do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) é [...] uma proposta de organização de dados qualitativos de natureza verbal, obtidos de depoimentos, artigos de jornal, matérias de revistas semanais, cartas, papers, revistas especializadas, etc.. O DSC facilita a tabulação dos dados, a sistematização e análise das respostas, pois consiste em uma estratégia diferente de categorização, no sentido de não separar os discursos individuais dos coletivos, mas uni-los em um único discurso. Como LEFÈVRE e LEFÈVRE (2003) explicam: é uma soma de pensamentos na forma de conteúdo discursivo. Sendo assim, o pensamento coletivo precisa sempre ser pesquisado qualitativamente, justamente porque ele é uma variável qualitativa, que, ao contrário de variáveis quantitativas como peso, altura, renda, dentre outros, não é pré, mas pró-construída, isto é, não se configura como input da pesquisa (LEFÈVRE; LEFÈVRE, 2003). Portanto as categorias de análise são selecionadas após a coleta dos dados e informações. O DSC busca dar conta da discursividade característica própria e indissociável do pensamento coletivo, procurando preservá-la em todos os momentos da pesquisa, desde a elaboração das perguntas, passando pela coleta e pelo processamento dos dados até culminar com a apresentação dos resultados. Ou, como LEFÈVRE e LEFÈVRE (2003, p. 16) comentam: O DSC visa dar luz ao conjunto de individualidades semânticas componentes do imaginário social. Assim, pode-se afirmar que é uma estratégia metodológica que, utilizando os discursos, tem por objetivo tornar mais clara uma dada representação social, bem como o conjunto

25 das representações de dado imaginário. O DSC é utilizado para estudar conjuntos de discursos, formações discursivas ou representações sociais (LEFÈVRE; LEFÈVRE, 2003:16). Deste modo, adaptou-se as orientações metodológicas a esta pesquisa que já foi citado anteriormente no texto possui caráter qualitativo e etnográfico. Ao propiciar o levantamento das representações (pensamentos e idéias) dos sujeitos. Estas representações são consideradas como um discurso da realidade. Por sua vez, o DSC é a manifestação do pensamento de um sujeito coletivo na forma de discursos, que expressam os traços do pensamento da coletividade na qual o sujeito individual está inserido e exprimem o que o grupo pensa e como pensa. O sujeito coletivo se expressa, então, através de um discurso emitido no que se poderia chamar de primeira pessoa (coletiva) do singular [...] (LEFÈVRE e LEFÈVRE, 2003, p. 16). Estes autores referem-se a uma primeira pessoa coletiva, porque o sujeito individual fala em nome do grupo ao qual pertence. Suas considerações e análises, a respeito de um tema dado, são, ao mesmo tempo, individuais e coletivas. As expressões-chaves servem para comprovar a veracidade das idéias com a integralidade do depoimento e do discurso em determinado tempo e espaço; e é com a matéria-prima das Expressões-chaves (ECH) que se constrói o DSC. É chamada de Idéia Central (IC) a descrição direta e precisa dos significados do conjunto dos discursos que foram analisados e destacados nas expressões-chaves. A idéia central [...] é um nome ou expressão lingüística que revela e descreve, de maneira mais sintética, precisa e o mais fidedigna possível, o sentido de cada um dos discursos analisados e de cada conjunto homogêneo de ECH, que vai dar nascimento, posteriormente, ao DSC (LEFÈVRE e LEFÈVRE, 2003, p. 17). Para Lefrève e Lefrève (2003, p. 17) A Ancoragem (AC) é a manifestação lingüística explícita de uma dada teoria, ou ideologia, ou crença que o autor do discurso professa e que, na qualidade de afirmação genérica, está sendo usada pelo enunciador para enquadrar uma situação específica. Em outras palavras, poder-se-ia dizer que a AC é a figura metodológica que indica a teoria, o pressuposto, a corrente de pensamento e o fundo do conhecimento

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