Literatura Infantojuvenil

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1 Nery Nice Biancalana Reiner Literatura Infantojuvenil Revisada por Nery Nice Biancalana Reiner (setembro/2012)

2 APRESENTAÇÃO É com satisfação que a Unisa Digital oferece a você, aluno(a), esta apostila de Literatura Infantojuvenil I, parte integrante de um conjunto de materiais de pesquisa voltado ao aprendizado dinâmico e autônomo que a educação a distância exige. O principal objetivo desta apostila é propiciar aos(às) alunos(as) uma apresentação do conteúdo básico da disciplina. A Unisa Digital oferece outras formas de solidificar seu aprendizado, por meio de recursos multidisciplinares, como chats, fóruns, aulas web, material de apoio e . Para enriquecer o seu aprendizado, você ainda pode contar com a Biblioteca Virtual: a Biblioteca Central da Unisa, juntamente às bibliotecas setoriais, que fornecem acervo digital e impresso, bem como acesso a redes de informação e documentação. Nesse contexto, os recursos disponíveis e necessários para apoiá-lo(a) no seu estudo são o suplemento que a Unisa Digital oferece, tornando seu aprendizado eficiente e prazeroso, concorrendo para uma formação completa, na qual o conteúdo aprendido influencia sua vida profissional e pessoal. A Unisa Digital é assim para você: Universidade a qualquer hora e em qualquer lugar! Unisa Digital

3 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ORIGENS DA LITERATURA INFANTOJUVENIL Fontes Orientais Fontes Medievais As Novelas de Cavalaria e o Folclore do Nordeste Brasileiro Renascimento Resumo do Capítulo Atividades Propostas SÉCULO XVII - A CRIAÇÃO DA LITERATURA PARA CRIANÇAS Século XVIII - Pré-Romantismo Romantismo: Narrativas do Fantástico Maravilhoso Narrativas do Realismo Maravilhoso ou Mágico Novelística de Aventuras Narrativas do Realismo Humanitário Resumo do Capítulo Atividades Propostas PRECURSORES DA LITERATURA INFANTIL NO BRASIL Livros e Autores Brasil Século XX: Monteiro Lobato, o Inovador Dos Anos 1930 a Teatro Infantojuvenil Tendências da Literatura Infantil Atual Resumo do Capítulo Atividades Propostas O PAPEL DA LITERATURA INFANTOJUVENIL O que é Arte? O Lúdico na Literatura Infantojuvenil Resumo do Capítulo Atividades Propostas A CRIANÇA E A POESIA Como Escolher o Poema Poemas e Poetas Brasileiros Resumo do Capítulo Atividades Propostas PROSA Elementos Estruturais da Narrativa Espécies Narrativas Resumo do Capítulo Atividades Propostas... 47

4 RESPOSTAS COMENTADAS DAS ATIVIDADES PROPOSTAS REFERÊNCIAS APÊNDICE... 53

5 INTRODUÇÃO A Literatura Infantojuvenil é antes de tudo Arte. Como tal, representa o Mundo, o Homem, a Vida. Cada época da História da Humanidade, de uma forma ou de outra, contribuiu para a formação da Literatura para Crianças e Jovens. Canções de Ninar, Provérbios, Parlendas, Jogos, Brinquedos; Narrativas, como Mito, Lenda, Contos Populares, Contos Maravilhosos, Contos de Fadas, que passaram de pais para filhos, através da oralidade, serviram como base para formar esse Universo Maravilhoso que é a Literatura infantojuvenil. Começando pela Antiguidade, nosso curso passará pela Idade Média, Renascimento, Época Romântico-Realista, Pré-Modernismo e Modernismo, chegando ao Brasil Contemporâneo. Nesta viagem, no tempo e no espaço, penetrando em castelos e florestas encantadas, onde reis, rainhas, fadas, feiticeiras, bruxas, dragões, cavaleiros andantes, heróis, enfim, lutam, cada qual, usando seus poderes, trazendo- -nos um mundo cheio de magia e encantamento. Começaremos na Índia com Calila e Dimna, passaremos pelas Mil e uma Noites, pelas Novelas de Cavalaria, Narrativas do Fantástico-Maravilhoso, Perrault, Irmãos Grimm, Andersen, Lewis Carroll, Daniel Defoe, Jonathan Swift, Júlio Verne até chegar a Monteiro Lobato, o Inovador da Literatura Infantojuvenil no Brasil. Caminhando mais um pouco, chegaremos aos escritores contemporâneos como Bojunga Nunes, Ruth Rocha e outros. Em nosso curso de Literatura Infantojuvenil, daremos ênfase aos textos poéticos e lúdicos. A criança gosta de brincar e precisa brincar, também, com as palavras. Assim, veremos poemas de Cecília Meireles, Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira e Manoel de Barros. Quanto à Prosa, analisaremos várias narrativas como Fábulas, Apólogo, Mito, Lenda, Conto Maravilhoso e Conto Maravilhoso de Fadas. Contando sempre com a ajuda de teóricos consagrados como Câmara Cascudo, Irene Machado, Laura Sandroni, Marisa Lajolo, Nelly Novaes Coelho e outros. Esperamos que você, ao final do módulo, possa ler diferentes textos e analisá-los, para que possa dividir esse seu saber com seus futuros alunos. Bom trabalho! Profa. Nery Reiner 5

6 1 ORIGENS DA LITERATURA INFANTOJUVENIL 1.1 Fontes Orientais Caro(a) aluno(a), você vai saber agora como tudo começou, quais as origens da literatura infantiljuvenil. Vamos lá? A existência de uma Literatura destinada especialmente às crianças é recente. Segundo Sandroni (1987), começou nos fins do século XVII, quando François de Sagnac Fénelon ( ) publicou Traité de l education des filles, oferecido às oito filhas do Duque de Beauvillier, na França. Fénelon escreveu também Telêmaco e outras obras inspiradas na Mitologia Grega e nas Fábulas. Queria o autor dar às crianças livros além dos tradicionais, que contavam a vida e o martírio dos santos ou que se relacionavam com temas da História Sagrada. Porém, a origem da Literatura Infantil está bem mais longe no tempo e no espaço. Muitas narrativas da Antiguidade atravessaram terras e mares e foram sendo passadas de pais para filhos, durante séculos. Essas narrativas vieram de longe, muito longe, até chegarem à Europa. Do Oriente, por exemplo, mais precisamente na Índia, por volta do século VI a.c., surgiram narrativas compiladas em uma obra chamada Calila e Dimna. A obra, escrita em sânscrito, foi tirada dos livros sagrados, do Pantchatantra. Nesta obra, dois chacais, Calila e Dimna, conversam e vão narrando várias estórias. A obra ficou famosa. Reis, príncipes, pessoas com cargos relevantes procuravam o livro para aprender como se manter no poder. No século VII d.c., Ibn Al-Mukafa, poeta e escritor nascido na Pérsia, fez uma tradução para o persa. Desta tradução, apareceram outras para o latim, para o espanhol, para o inglês, para o francês e assim por diante, até chegar ao Brasil. Uma das estórias é sobre um homem e uma serpente, conforme segue, resumidamente: Um homem que caminhava, viu uma cobra enregelada no meio da neve. Teve pena do animal, pegou-o e colocou-o dentro da camisa. Quando a cobra ficou aquecida, picou o generoso salvador. Este, quase morto, perguntou-lhe por que fizera tal ingratidão. A serpente respondeu-lhe: Como pode ser tão estúpido, pretendendo mudar o caráter natural que está na essência dos seres? A traição e a ingratidão formam a essência de minha natureza. Você deveria ter pensado nisto. Fonte: Essa estória faz parte das Fábulas de Esopo, escravo grego que viveu na Trácia, no século V a.c. Na realidade, estas estórias viajaram pelas diversas regiões da Terra e foram se incorporando ao acervo de cada povo. La Fontaine também a registra em suas Fábulas. Do Oriente, também, veio outra obra importante: As mil e uma noites. Uma série de narrativas que fazem parte das Origens da Literatura Infantil. Escrita em árabe, por autor desconhecido, encontrada por volta do século VIII d.c. A estrutura de As mil e uma noites, como a de Calila e Dimna, são semelhantes: uma estória deixa um gancho para a estória seguinte. Estrutura de encaixe, ou de caixa de surpresa. As mil e uma noites contam a estória de 7

7 Nery Nice Biancalana Reiner um sultão, Shariar, e de Sherazade. Resumidamente, é o seguinte: Deixando para trás o Oriente, vamos para a Europa, na época da Idade Média. É o período que Um sultão, Shariar, depois de ser traído pela esposa, torna-se um serial killer. Mandava o Vizir procurar uma bela moça virgem e trazê-la até o palácio. Casava-se com ela, e na manhã seguinte, antes do amanhecer, mandava matá-la. Assim, a jovem não teria tempo de traí-lo. No dia seguinte, mandava o Vizir procurar outra jovem e acontecia exatamente a mesma coisa. Com isso, as moças da aldeia foram acabando, até que surgiu Sherazade, uma linda jovem, virgem, culta, inteligente, astuta e filha do Vizir. br/2010/04/historia-da-rainha-sherazade. html O pai não queria levá-la, não queria que a moça morresse. Mas Sherazade insistiu e foi. Casou-se com o sultão e no dia seguinte, antes do amanhecer, começa a contar para o sultão a primeira estória: O mercador e o gênio. O sol apareceu e a moça parou a narrativa. O sultão ficou indignado, porque queria saber se o mercador tinha ou não morrido. A jovem disse-lhe que contaria o resto na madrugada do dia seguinte, se o sultão assim o permitisse. O sultão, curioso para saber o fim da estória, foi dando a Sherazade mais um dia de vida, até que se passaram mil e uma noites, equivalentes há três anos. Em três anos, Sherazade salvou Shariar, envolvendo-o com o fio de suas narrativas de tal modo que os dias foram se passando, o amor e os filhos chegando e enchendo de alegria o coração do sultão. 1.2 Fontes Medievais durou mil anos, que vai do século V ao XV, isto é, do fim do Império Romano até o Renascimento início dos Tempos Modernos. Imperava na Europa o Feudalismo, regime socioeconômico que deixava os Senhores Feudais de um lado e os vassalos e servos de outro: os vassalos para defenderem seus senhores com coragem e lealdade e os servos para plantar, colher e fazer todo tipo de serviço braçal. Faziam parte do cenário: o castelo, o rei, a rainha, os príncipes e princesas, os vassalos e os servos. Além dos feudos, a Europa estava vivendo o tempo das Cruzadas. Na própria palavra Cruzadas, já vemos a força da Religiosidade. Expedições conduzidas, principalmente, por nobres cristãos, entre br/2011/06/de-volta-idade-media.html. 8

8 Literatura Infantojuvenil 1095 e 1270, partiam da Europa para participarem da Guerra Santa contra os muçulmanos ou islâmicos com o objetivo de reconquistarem Jerusalém e o túmulo de Jesus. O Islamismo ou muçulmanismo foi criado pelo profeta árabe Maomé ( ). Juntando Feudalismo, Cruzadas, Senhor Feudal, rei, rainha, princesa, vassalos, servos, castelos, cavaleiros e a força da Religião, esta mistura, esta amálgama cultural, como um potencial extraordinário de vida, gerou narrativas e mais narrativas. Daí nasceram as Novelas de Cavalaria, entre os séculos XII e XIII: Estórias do rei Arthur, Os doze cavaleiros da Távola Redonda, A demanda do Santo Graal, Lancelot, Tristão e Isolda, Amadis de Gaula, Ricardo Coração de Leão, Canção de Rolando, Canção de Guilherme d Orange e outras. Seus temas básicos são as façanhas dos cavaleiros andantes que, de acordo com os códigos éticos da cavalaria e do amor cortês, viviam entre batalhas e lutando por suas amadas, sempre na defesa da Dama ou da Fé cristã. -Arthur-s-Excalibur-Hilt Curiosidade Rei Artur é uma figura lendária que teria comandado a defesa contra os invasores saxões chegados à Grã-Bretanha no início do século VI. O Rei Arthur teria levado Guinevere para morar com ele no Castelo. Porém, a bela jovem se apaixona por Lancelot, o mais fiel e valente cavaleiro do rei. 1.3 As Novelas de Cavalaria e o Folclore do Nordeste Brasileiro Saiba que trazidas pelos colonizadores portugueses, no século XVII, as Novelas de Cavalaria difundiram-se por todo o Brasil, porém só no ano de 1840 foi editada entre nós. As estórias ficaram gravadas na memória popular, encantando também as crianças. No Nordeste Brasileiro, as estórias medievais, importadas da Europa, ficaram registradas no Cordel Brasileiro. Entre os folhetos que continuam circulando nas feiras do Nordeste estão: História da princesa Magalona; Donzela Teodora; João de Calais e outras. 9

9 Nery Nice Biancalana Reiner Câmara Cascudo (1984) apresenta também a estória da princesa Magalona que, resumidamente, é a seguinte: A Princesa Magalona Pierre ou Pedro era filho único do Conde de Provença, D. João de Sollis e de sua esposa, filha do Duque de Albis. Pierre, jovem e esforçado cavaleiro, saiu para viajar e acabou chegando em Nápoles, onde o rei era conhecido pela beleza de sua filha Magalona. O jovem saiu da terra natal, levando três anéis dados por sua mãe e dizendo que seu nome era Cavaleiro das Chaves, em honra a São Pedro, seu padroeiro. Sem dizer seu nome verdadeiro e hierarquia, conhece Magalona. Os dois se apaixonam e resolvem fugir para se casar na Provença. Durante a fuga, a princesa adormece e uma ave de rapina arrebata-lhe o lenço vermelho que embrulhava os três anéis, dados por Pierre. O jovem persegue a ave ladra e esta lança ao mar o lenço vermelho. Pierre entra numa barca para recolher os anéis, mas a barca é arrastada por uma ventania, indo parar em alto mar. Um navio do sultão do Grão Cairo que por ali passava, recolheu a barca e Pierre. O jovem foi transformado em servo de confiança do sultão. Enquanto isso, Magalona acorda, chora, fica desesperada, quando não vê Pierre. Resolve prosseguir a viagem. Troca suas roupas de princesa por outra bem modesta e acaba chegando à Provença. Lá funda um hospital com as joias de família que levara. Os condes de Provença, pais de Pierre, sem saber de nada, tornam-se protetores da misteriosa benfeitora do hospital. Pierre deixa Alexandria, escondendo suas riquezas em barris cheios de sal. O navio que o conduz chega a uma ilha. O jovem desce e acaba adormecendo na praia. O navio prossegue a viagem e vai até a Provença. Os barris de sal são enviados para o hospital, como estava no endereço, para não despertar cobiça. Um pescador traz ao conde, pai de Pierre, um grande peixe em cujo ventre estava o lenço vermelho com os três anéis. Pierre foi recolhido por uns pescadores que o levam para o hospital da Provença. Noivo e noiva se encontram, ficando finalmente juntos. Os pais de Pierre preparam grande festa para o casamento. Os dois se casam, têm um filho que se torna rei de Nápoles. Além das Novelas de Cavalaria, gostaríamos de incluir também na novelística popular a obra de Boccacio, do século XIV; intitulada Decameron, significa dez jornadas ou dez dias, a qual oferecia um modelo de prosa ficcional bem-humorada, dando início a uma série de enredos cômicos que têm eco até hoje na Literatura Infantil. 10

10 Literatura Infantojuvenil 1.4 Renascimento Segundo Nelly Novaes Coelho (1985), foi durante o período histórico conhecido como Tempos Modernos, que vai do século XVI ao início do XX, que a Literatura Ocidental vai adquirir seu contorno próprio e alcançar o apogeu de suas formas. O Renascimento, movimento cultural que se propagou na Europa Ocidental com a nova imagem de homem no centro, isto é, o Antropocentrismo, fez surgir grandes transformações, não só de limites, mas também de ideias e costumes. Saiba mais Teocentrismo = Deus no centro Antropocentrismo = homem no centro Porém, o ponto alto do Renascimento foi a invenção da imprensa, por Gutenberg, em 1456, levando à publicação da Bíblia. O livro, a palavra escrita registrando acontecimentos de todos os tempos, permite ao homem tornar-se contemporâneo de todas as épocas: conviver com o presente, com o passado mais remoto e antecipar o futuro. Curiosidade A Bíblia é o livro mais impresso, mais vendido e mais lido de todos os tempos. Primeiro livro impresso por Gutenberg, nos meados do século XV. É incontável o número de edições e de exemplares publicados em cerca de 300 línguas diferentes. Compreende duas versões distintas: o Antigo Testamento, a Bíblia judaica, composta de três partes: o Pentateuco, os Profetas e os Escritos; e a Bíblia cristã, ou Novo Testamento, incluindo os quatro Evangelhos e os Atos dos Apóstolos, as Epístolas e os Proféticos (Apocalipse). Fonte: Dicionário Digital Aulete. Como base do movimento renovador do Renascimento, está o Humanismo: o novo Conhecimento do Homem, ao descobrir, no acervo deixado pela Antiguidade greco-romana, a ideia do homem liberal. Surgem a Arte idealista, harmoniosa, e uma Literatura voltada para os clássicos greco-romanos. Enquanto a literatura culta contava com obras de Boccacio e Camões, na literatura popularizante registram-se quatro obras, coletâneas de narrativas de origem oriental feitas pelos italianos Caravaggio, Basile, Croce e pelo português Trancoso. a. Gianfrancesco Caravaggio: Noites agradáveis, Narrativas de origem oriental, medieval e de fundo folclórico, onde predominam o fantástico e o maravilhoso dos contos populares. b. Gonçalo Fernandes Trancoso: Contos do Trancoso, c. Giovanni Battista Basile: Conto dos contos ou Pentameron, 1600, que fez entrar na Literatura Universal, pela primeira vez, A Gata Borralheira, Bela Adormecida, Branca de Neve e outros. 11

11 Nery Nice Biancalana Reiner d. Giulio Cesare Croce: Astúcias sutilíssimas de Bertoldo. Narrativas engraçadas sobre Bertoldo, herói simplório e desastrado. Atenção O Humanismo está na base do Renascimento. A literatura volta-se aos modelos da Antiguidade Clássica: Grécia e Roma Antigas são as fontes de inspiração. 1.5 Resumo do Capítulo A origem da Literatura Infantil está muito longe no tempo e no espaço. Muitas narrativas da Antiguidade atravessaram terras e mares e foram sendo passadas de pais para filhos durante séculos. Do Oriente, por exemplo, na Índia, por volta do século VI a.c., surgiram narrativas compiladas em uma obra chamada Calila e Dimna. Do Oriente, também, veio outra obra importante: As mil e uma noites. Uma série de narrativas que fazem parte das Origens da Literatura Infantil. Escrita em árabe, autor desconhecido, encontrada por volta do século VIII d.c. As mil e uma noites apresenta estrutura de encaixe, ou de caixa de surpresa. Na Europa, na Idade Média, surgem as Novelas de Cavalaria, entre os séculos XII e XIII: Estórias do rei Arthur, Os doze cavaleiros da Távola Redonda e outros. Durante o Renascimento, movimento cultural que se propagou na Europa Ocidental, com a nova imagem de homem no centro, isto é, o Antropocentrismo, surgiram grandes transformações, não só de limites, mas também de ideias e costumes. Enquanto a literatura culta contava com obras de Boccacio e Camões, na literatura popularizante, registram-se quatro obras, coletâneas de narrativas de origem oriental feitas pelos italianos Caravaggio, Basile, Croce e do português Trancoso. Agora que você conheceu um pouco sobre as fontes da literatura infantojuvenil, vamos verificar sua aprendizagem? 1.6 Atividades Propostas 1. Quais as fontes mais antigas da Literatura infantojuvenil? 2. Quando teve início a Literatura Infantojuvenil destinada especialmente para crianças? 12

12 2 SÉCULO XVII - A CRIAÇÃO DA LITERATURA PARA CRIANÇAS No início desta apostila, vimos que a Literatura Infantojuvenil surgiu na França, no século XVII, durante o reinado de Luís XIV, o Rei Sol, com a obra Aventuras de Telêmaco, de Fénelon. Ao mesmo tempo, surgem também La Fontaine, Charles Perrault e Mme. D Aulnoy. Jean de La Fontaine: Fábulas, 1668 La Fontaine, escrevendo em versos, deu forma definitiva às fábulas de Esopo, que se espalharam pelo mundo. As fábulas de La Fontaine são textos que denunciam a miséria, os desequilíbrios sociais ou injustiças de sua época. Você já leu alguma fábula de La Fontaine? São muito conhecidas as fábulas: O lobo e o cordeiro, A cigarra e a formiga, A raposa e as uvas e O leão e o ratinho que mostram a luta entre os opostos e a vitória da astúcia e da inteligência. Como exemplo, transcrevo, em paráfrase, a fábula A raposa e as uvas reescrita por La Fontaine, que você provavelmente já conhece. A raposa e as uvas Certo dia, uma raposa esfaimada, saiu caminhando pela floresta, em busca de alimento. De repente, viu uma parreira carregada de uvas maduras. Porém, estavam muito altas. Pulou, pulou, mas não conseguiu nada. Desanimada, foi embora dizendo: Ah! Estão verdes! Nisso, ouviu um ruído de folhas caindo e voltou rapidamente, imaginando serem uvas. Moral: quem desdenha quer comprar. Curiosidade Esopo é um lendário autor grego. Viveu na Antiguidade e é considerado o Pai da Fábula. As Fábulas de Esopo foram reescritas por Fedro e Jean de La Fontaine. 13

13 Nery Nice Biancalana Reiner Charles Perrault ( ): Contos de Mamãe Gansa, 1697 Grande poeta francês, Perrault entrou para a História escrevendo não poemas, mas narrativas para criança, desvalorizadas na época. Fazem parte dessa obra: A Bela Adormecida no Bosque, Chapeuzinho Vermelho, O Barba Azul, O Gato de Botas, As Fadas, A Gata Borralheira ou Cinderela, Henrique, o Topetudo e O Pequeno Polegar. Charles Perrault oid=2919&biografia=charles+perrault Mme. D Aulnoy: Contos de Fadas, 1698 Jovem baronesa, Marie Catherine de Barneville, Mme. D Aulnoy, publica seu livro Contos de Fadas. Estão incluídas na obra: O Pássaro Azul, O Ramo de Ouro e A princesa dos cabelos de ouro. François de Salignac Fénelon François de Salignac Fénelon nasceu no castelo da família, em Périgord, em Morreu em Desde cedo, estudou latim e grego. Era muito estudioso e conheceu as obras-primas da literatura clássica. Aventuras de Telêmaco, É uma novela pedagógica, unindo o conhecimento do passado, através da Mitologia Grego- -romana, até as imposições do presente. Fénelon, homem culto de alta moral e sagaz na compreensão da psicologia humana, escreve um verdadeiro tratado de educação moral e política, em dezoito volumes, que tinha por objetivo educar o filho do Rei Sol, o duque de Bourgogne, criança de sete anos, violenta, rebelde, orgulhosa, porém, inteligente e sensível. A novela é escrita à margem da Odisseia de Homero, onde Telêmaco é o filho de Ulisses/Odisseu, que sai em busca de notícias de seu pai. François de Salignac Fénelon Segundo Nelly Novaes Coelho (1985), o valor da obra As aventuras de Telêmaco, como obra para a juventude, está em seu núcleo problemático: o da busca do pai, isto é, o da procura das origens. Essa viagem permite ao ser humano conhecer-se, compreender-se melhor. Na obra, há que salientar, também, uma característica importantíssima: o espírito de solidariedade e fraternidade que está na base de todas as atitudes do herói e nos conselhos do seu mentor. 14

14 Literatura Infantojuvenil 2.1 Século XVIII - Pré-Romantismo Vimos que o centro do movimento literário, no Renascimento, foi na Itália. No século XVII, foi na França. Já no século XVIII, foi na Inglaterra com duas obras de ficção que, desde o primeiro momento, foram sucesso absoluto: Robinson Crusoé (1719) de Daniel Defoe e As Viagens de Gulliver (1726) de Jonathan Swift. Jonathan Swift Robinson Crusoé %D0%B0%D0%B9%D0%BB:Jonathan_Swift_ by_francis_bindon.jpg Gulliver Robinson Crusoé, depois de naufragar e instalar-se em uma ilha deserta, conta a estória do homem: a luta pela sobrevivência, o início da civilização, quando o homem fixou-se em um determinado lugar e começou a plantar e criar animais, provando o valor das forças intrínsecas do indivíduo. Gulliver, por outro lado, encontrando anões e gigantes, expressando o aparecimento do microscópio e do telescópio, descobertos na época, com o elogio aos houyhnhnnrs, nome dado aos cavalos por Swift, tenta mostrar a superioridade destes, em relação aos homens. 15

15 Nery Nice Biancalana Reiner 2.2 Romantismo: Narrativas do Fantástico Maravilhoso Irmãos Grimm Participantes do Círculo Cultural de Heidelberg, Alemanha, filólogos, folcloristas, estudiosos da mitologia germânica, Jacob ( ) e Wilhelm ( ) recolhem da memória popular as antigas narrativas conservadas pela tradição oral e publicam, entre 1812 e 1822, a obra Contos de fadas para crianças e adultos. Parafraseando Nelly Novaes Coelho (1985), os contos dos Irmãos Grimm são incluídos na área das narrativas do fantástico-maravilhoso, porque todas elas pertencem ao mundo do imaginário ou da fantasia. Exemplificando, temos: FÁBULAS, estórias onde animais dialogam, contendo uma lição de moral no final: A Raposa e o Gato, A Raposa e a Comadre, O Lobo e as Sete Cabras e outros. PARÁBOLA: O Lobo e o Homem. LENDAS: estórias ligadas ao início de uma cidade, de uma tribo, de uma planta do lugar: João Jogatudo, A Donzela que não tinha Mãos e O Diabo e a Avó. CONTOS DE ENIGMA: estórias que apresentam um enigma a ser decifrado: Enigma. CONTOS DIVERTIDOS: João, o Felizardo, O Alfaiate Valente, As Três Fiandeiras e outros. Hans Christian Andersen CONTOS DE ENCANTAMENTO, estórias que apresentam metamorfoses ou transformações por encantamento: O Corvo, A Dama e o Leão, O Príncipe Rã, A Alface Mágica e outros. CONTOS MARAVILHOSOS, estórias que apresentam o elemento mágico, sobrenatural: O Pescador e a Esposa, O Ganso de Ouro, Joãozinho e Maria, Chapeuzinho Vermelho, O pequeno Polegar e outros. O poeta e novelista Hans Christian Andersen ( ) nasceu na Dinamarca. Sintonizado com os ideais românticos de exaltação dos valores populares, com os ideais de fraternidade e generosidade, revela-se um grande escritor, trazendo à tona o espírito dos ingênuos, simples, dos puros 16

16 Literatura Infantojuvenil de coração. Entre a sua vasta obra, estão: O Patinho Feio, Os Sapatinhos Vermelhos, A Rainha Neve, O Rouxinol e o Imperador, O Soldadinho de Chumbo, A Pequena Vendedora de Fósforos, João e Maria, João Grande e João Pequeno, A Pequena Sereia e outros. Saiba mais Hans Christian Andersen nasceu no seio de uma família dinamarquesa muito pobre. Seu pai era sapateiro de saúde fraca e sua mãe lavadeira. Toda a família vivia e dormia num único quarto. O pai adorava contar-lhe estórias e construiu para ele um teatrinho de marionetes. Hans apresentava no seu teatro peças clássicas, tendo encenado até peças de Shakespeare com seus brinquedos. 2.3 Narrativas do Realismo Maravilhoso ou Mágico Lewis Carroll com amigos, incluindo três meninas: Alice Liddell, a heroína das aventuras, e suas irmãs: Lorina e Edith. Mais tarde escreveu Alice no País do Espelho. File:LewisCarrollSelfPhoto.jpg Foi o escritor Lewis Carroll ( ) quem, na Literatura Moderna, explorou de forma genial as possibilidades de fusão entre o maravilhoso e o cotidiano ao mesmo tempo em que usava o non-sense, o sem sentido, a graça e o ludismo. Incluem-se nessa linha, também, Collodi com a obra Pinocchio e J. M. Barrie com Peter Pan. Lewis Carroll, cujo nome verdadeiro era Charles Lutwidge Dodgson, é o grande nome das narrativas do Realismo Maravilhoso ou Mágico. Contemporâneo de Júlio Verne, filho de um pastor anglicano, Carroll escreveu sua grande obra Alice no país das maravilhas, em 1862, durante um passeio de barco pelo rio Tâmisa, quando passeava Alice Lidell -large-image Em Alice no País das Maravilhas, ao correr atrás de um coelho, que, apressado, consultava um relógio que tirava do colete, Alice acaba caindo em um poço profundíssimo. Chegando ao fim do poço, Alice encontra um lugar onde tudo acontecia ao contrário do natural ou convencional. Acaba vivendo situações engraçadas e absurdas. Nessa obra, Carroll faz uma desestruturação da linguagem que os leitores não ingleses não 17

17 Nery Nice Biancalana Reiner conseguem apreciar. Ele usa expressões idiomáticas, canções de ninar, cantigas folclóricas, poemas escolares, palavras paronímicas, jogos de palavras, enfim, palavras que provocam surpresa e diversão. Citaremos alguns exemplos: a Tartaruga, em vez de dizer: Reading = aprendia a ler, dizia reeling = aprendia a cambalear. Por esses trocadilhos, verificamos o grau de ludismo da obra. Além dessa subversão linguística, Carroll põe em relevo a relatividade das coisas, quando apresenta o problema do tamanho, por exemplo. Alice às vezes fica tão pequena, que não consegue pegar uma chave que está em cima de uma mesinha. Às vezes, tão grande, que não consegue sair pela porta da casa. O mesmo acontecia com os vocábulos: Writing = escrever Drawing = desenhar por writhing = torcer. por drawling = balbuciar. 2.4 Novelística de Aventuras Alexandre Dumas ( ) Júlio Verne ( ) com/tag/alexandre-dumas/ Novelista francês considerado um dos mais lidos e traduzidos no mundo. Escreveu, entre outras: Os Três Mosqueteiros, O Conde de Monte Cristo, A Rainha Margot. Considerado o pai da ficção científica. Suas narrativas são o modelo de aventura que mesclavam as conquistas da ciência e da técnica com a imaginação criadora. O escritor francês possuía um extraordinário conhecimento de geografia, geologia, astronomia, química, física etc., dando sempre apoio científico a suas invenções. Obra: Viagem ao centro da Terra, Da Terra à Lua, Vinte Mil Léguas Submarinas, A volta ao Mundo em Oitenta Dias e outros. 18

18 Literatura Infantojuvenil Robert Louis Stevenson ( ) Edgard Rice Burroughs ( ) Novelista e poeta inglês, autor de A Ilha do Tesouro e O Estranho Caso do Dr. Jekill e Mr. Hyde. Rudyard Kipling ( ) Novelista norte-americano. Autor de Tarzã dos Macacos, A Volta de Tarzã, As Feras de Tarzã, O Filho de Tarzã e outros. Novelista e poeta anglo-indiano. Escreveu: O Livro da Jângal, Mowgli, o Menino Lobo e Kim. 2.5 Narrativas do Realismo Humanitário Charles Dickens ( ) escrever as estórias que lhes contava em dias de chuva. Mandou-as para a Inglaterra e logo foram publicadas, conseguindo enorme sucesso. Escreveu: Novos Contos de Fadas, As Meninas Exemplares, As Férias, Memórias de um Burro, Os desastres de Sofia e O Anjo da Guarda. Edmundo de Amicis ( ) Um dos maiores romancistas, não só da Inglaterra, mas da Literatura Universal. Dickens demonstrava enorme simpatia aos pobres, aos humildes e, principalmente, às crianças exploradas. Um dos motivos de sua obra é a criança infeliz. Esse problema está em suas obras: Aventuras de Oliver Twist e Davis Coperfield. Condessa de Ségur ( ) Na linha humanitária, destaca-se a obra da Condessa de Ségur, russa por nascimento, francesa por matrimônio, viveu entre um pai autoritário e uma mãe inflexível em suas virtudes e severidade. Tornou-se escritora tarde, já avó; quando suas netas queridas se mudaram para Londres, ela resolve Amicis escreveu Coração com o objetivo de oferecer um novo livro para as crianças italianas. Foi um sucesso imediato. Foram feitas novas edições e traduções, tornando-se um escritor conhecido e respeitado. A estrutura narrativa de Coração é como um diário que o menino Enrico, de 13 anos, vai escrevendo, a cada dia, comentando as experiências de sua vida escolar, as qualidades e defeitos de seus colegas de turma e de outras pessoas com quem convivia. Entre as virtudes estão: a generosidade, o heroísmo, a inteligência a serviço da bondade, a força de vontade e outras. Como defeitos, ele cita: a inveja, a mentira, a dissimulação, a desonestidade e outras. O livro Coração começou a ser lido, no Brasil, nos fins do século XIX e continuou como sucesso até meados do século XX. 19

19 Nery Nice Biancalana Reiner 2.6 Resumo do Capítulo A Literatura escrita para crianças surgiu na França, no século XVII, durante o reinado de Luís XIV, o Rei Sol, com a obra Aventuras de Telêmaco, de Fénelon. Ao mesmo tempo, surgem também La Fontaine, Charles Perrault e Mme. D Aulnoy. No século XVIII, na Inglaterra, surgem duas obras de ficção que, desde o primeiro momento, foram sucesso absoluto: Robinson Crusoé de Daniel Defoe e As Viagens de Gulliver de Jonathan Swift. No século XIX, na Alemanha, Jacob e Wilhelm Grimm publicam a obra Contos de fadas para crianças e adultos. Na Dinamarca, Hans Christian Andersen escreve: O Patinho Feio, O Soldadinho de Chumbo e outros. Foi o escritor Lewis Carroll quem, na Literatura Moderna, explorou de forma genial as possibilidades de fusão entre o maravilhoso e o cotidiano com a obra Alice no País das Maravilhas. Incluem-se nessa linha, também, Collodi com a obra Pinocchio e J. M. Barrie com Peter Pan. Entre as estórias de aventuras surgem: Alexandre Dumas; Júlio Verne considerado o pai da ficção científica; Robert Louis Stevenson, autor de A Ilha do Tesouro; Rudyard Kipling, que nos deixou Mowgli, o Menino Lobo; e Edgard Rice Burroughs, novelista norte-americano autor de A Volta de Tarzã, As Feras de Tarzã e outros. Nas Narrativas do Realismo Humanitário, surgem: Charles Dickens com as obras Aventuras de Oliver Twist e Davis Coperfield; Condessa de Ségur com Novos Contos de Fadas; e Edmundo de Amicis com a obra Coração. Após todas as informações deste capítulo, estou segura de que você está preparado(a) para verificarmos a sua aprendizagem. Então, ao trabalho! 2.7 Atividades Propostas 1. Qual o escritor que, na Literatura Moderna, explorou de forma genial a fusão entre o Maravilhoso e o Cotidiano? Cite duas obras do referido autor. 2. Como você poderia resumir a estória de Robinson Crusoé? 20

20 3 PRECURSORES DA LITERATURA INFANTIL NO BRASIL Caro(a) aluno(a), Neste capítulo, trataremos dos primeiros escritores que se preocuparam com uma literatura direcionada ao público infantil. Para começarmos, veja o que a professora Nelly nos diz sobre isso. As obras pioneiras, analisadas, em conjunto, adaptações, traduções ou originais, revelam, segundo Nelly Novaes Coelho (1987), a natureza da educação recebida pelos brasileiros, desde os meados do século XIX. Esta era orientada para consolidar um sistema herdado: uma mistura de feudalismo, aristocratismo, escravagismo, liberalismo e positivismo. Os pilares desse sistema seriam: 1. Nacionalismo: ênfase na língua falada no Brasil. Culto das origens, amor pela terra; 2. Intelectualismo: valorização do estudo, do livro, do saber; 3. Tradicionalismo cultural: valorização das grandes obras do passado, como modelo de cultura; 4. Moralismo e Religiosidade: valorização da retidão de caráter, honestidade, solidariedade, fraternidade, pureza de corpo e alma, dentro dos preceitos cristãos. 3.1 Livros e Autores O Livro do Povo 1861 Antônio Marques Rodrigues. O Método de Abílio 1868 Abílio César Borges. O Amiguinho Nhonhô 1882 Meneses Vieira. Contos Infantis 1886 Júlia Lopes de Almeida. Cartilha das Mães 1895 Arnaldo de Oliveira Barreto. Antologia Nacional 1895 Fausto Barreto e Carlos de Laet. Contos da Carochinha 1896 Figueiredo Pimentel. Livro das Crianças 1897 Zalina Rolim. O Livro da Infância 1899 Francisca Júlia. O Tico-Tico 1905 Histórias em Quadrinhos. Era uma vez 1908 Cazuza 1938 Viriato Correia. Através do Brasil 1910 Olavo Bilac e Manuel Bonfim. Saudade 1919 Tales de Andrade. 21

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