PROCESSO N Incêndio no porão do navio, atribuído (mas não comprovado) combustão espontânea da carga (juta). Acidente fortuito. Arquivamento.

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1 ANUÁRIO DE JURISPRUDÊNCIA 115 PROCESSO N ACÓRDÃO Incêndio no porão do navio, atribuído (mas não comprovado) combustão espontânea da carga (juta). Acidente fortuito. Arquivamento. Vistos, relatados e discutidos os autos. O vapor Barão do Rio Branco, de propriedade do Lóide Brasileiro Patrimônio Nacional, sob o comando do capitão-de-longo- -curso Beresford Calvert, atracado ao cais do armazém n. 8, do pôrto de Recife, achava-se em operação de descarga desde o dia 28 de julho, quando, às 11 horas do dia 30 do mesmo mês, manifestou-se incêndio no porão n. 2. carregado em sua quase totalidade com fardos de juta embarcados em portos do Amazonas e com destino ao Rio de Janeiro e Santos. O navio, procedente de Manaus, anortou a Macau e deu entrada em Recife no dia 28 de julho de 1951, iniciando no mesmo dia a descarga, inclusive do porão n. 2. que fôra aberto pela última vez no pôrto de Breves, a 26 de junho, tudo correndo sem novidade até à manhã do dia 30 de julho, quando foi fechado o porão, após a reestiva da carga de pranchas de madeira destinada ao Rio de Janeiro e que foram retiradas da parte de ré do porão n. 2, por engano. Até o momento de fechar a escotilha do porão, às 9.30 horas do dia 30, nenhum indício foi notado da existência de fogo no citado porão. Pouco tempo mais tarde, isto é. uma hora e vinte minutos depois de fechado o porão, o estivador José Francoljno da Silva, que manobrava um dos guinchos, chamou a atenção do encarregado da

2 116 TRIBUNAL MARÍTIMO estiva, para a fumaça que se desprendia do porão n. 2, por baixo da escada da coberta e também pelos cantos da escotilha e do ventilador. O encarregado da estiva, contramestre José Clementino da Silva, imediatamente deu alarma, comunicando o fato às autoridades de bordo, as quais tomaram as providências necessárias para o combate ao incêndio, inclusive a chamada do Corpo de Bombeiros da cidade e outros elementos de terra. Aberta a escotilha do porão com o auxílio de tripulantes e estivadores, verificou-se que era muito denso o volume de fumaça ali existente, pelo que o comandante ordenou que se adotassem medidas de combate ao fogo. Ante os limitados recursos de bordo em tal emergência e agravamento da situação, deliberou o comandante solicitar o concurso da Companhia de Bombeiros da cidade, para combate mais eficiente ao incêndio e o alagamento do porão. Foi também solicitado o concurso das Docas, com a presença de um rebocador ao costado e para possibilidade de aliviar a carga do convés e dos porões para terra e alvarengas, no sentido <le assegurar a estabilidade do navio. Após dominado parcialmente o fogo, constatou-se a existência de dois focos em pavimentos diferentes, no mesmo porão. Segundo o relatório do inquérito, não foi possível determinar em aual dos dois focos se originou o incêndio, sendo excluída a possibilidade da propagação de um ponto a outro, pela ausência de vestígios de comunicação. Não foi possível à perícia positivar a causa originária do incêndio. tudo levando a crer tratar-se de combustão espontânea fibra de juta, de que era constituído grande parte do carregamento do navio, de vez que não foi encontrado o menor indício de ação propositada. A hipótese de ter sido o incêndio provocado na primeira coberta ípor uma ponta de cigarro ou outro agente) irradiando o calor que provocou o incêndio na segunda coberta, era pouco aceitável, pela inadmissibilidade de o calor atravessar supostas camadas de fardos, arrumados à cunha, irradiando-se de cima para baixo, até cncontrar o ar comburente da janela do conduto de ventilação dessa coberta. A atuação inversa, isto é, da irradiação do calor de baixo para cima ou da segunda coberta, é mais aceitável, dada a natural expan são dos gases em busca de uma abertura mais ampla e em cima. como é a escotilha do porão, ao passo que a janela do conduto de ventilação, além de estar situada em baixo, oferecia menor capacidade de ar comburente. Após a retirada da carga, foi verificado que os fardos de juta que estavam estivados em baixo, eram os mais queimados, e maiores estragos e indícios de fogo mais violento foram constatados na segunda coberta. No têrmo de exame pericial consta que o navio estava estanque, sendo encontradas as seguintes avarias: Uma chapa empenada, a BB, no teto da l.a coberta para o convés superior; dois vaus empenados na coberta n. 2; a antepara do porão n. 1 para o n. 2, na altura da 2 a coberta, com ligeira ondulação, e diversas chapas da I a coberta tostadas tudo motivado pelo fogo.

3 ANUÁRIO DE JURISPRUDÊNCIA 117 Examinado minuciosamente o porão n. 2, onde se declarou o incêndio, constatou-se que dois lugares foram atingidos pelas labaredas com maior violência. O estado em que ficou a carga estivada nos referidos lugares e o efeito do calor mais forte suportado pelas chapas, tanto do piso, como do teto e costado que limitam aqueles dois pontos, indicam claramente que o fogo nêles atuou com maior intensidade, não padecendo dúvida a existência de dois focos principais. Robustece essa convicção o testemunho dos presentes, de que ao descobrirem a escotilha do porão, labaredas e fumaça procedentes do ponto na primeira coberta, deram-lhes a impressão do incêndio ter sido naquela coberta. No entanto, maiores estragos e indícios de fogo mais violento, foram encontrados na segunda coberta, depois que o porão foi aliviado da carga. A localização dos dois focos exclui a admissão do fogo ter-se propagado de um ponto a outro, isso porque, enquanto um foi localizado na 2 a coberta, a meia nau, à vante, o outro estava na 1* coberta, a BB, e à ré. A carga existente no espaço entre os lugares citados, bem como as chapas e anteparas que os situam, não apresentavam sinais de terem sido atingidos por fogo que se deslocasse de um ponto para se propagar a outro. Os dois pontos estavam inteiramente isolados pelos quartéis e pela própria carga de juta que abarrotava as duas cobertas. Fogo simultâneo cm dois lugares é uma hipótese que pode ser ventilada. Aceitá-la, entretanto, é indicar a I a coberta como ponto inicial do incêndio. A maior parte da carga do navio era juta. Começou o recebimento em Manaus a e continuou nos portos intermediários entre Manaus e Breves, a mesma espécie de carga. Fechou-se o porão em Breves, no dia para só abrir-se em , no pôrto de Recife. Êste fato anula qualquer conjectura do fogo não ter sido declarado no DÔrto de Recife. Neste pôrto a estiva trabalhou apenas na remoção de madeiras em espaço reduzido da l.a coberta, mas que confirma exatamente o lugar onde se imagina ter tido origem um dos focos. O porão foi fechado às 9 horas e 30 minutos do dia 30. e uma hora e vinte minutos depois foi pressentida a fumaça que dêle safa. Não será exagero admitir que uma ponta de cigarro tenha provocado o incêndio na Ia coberta. O calor irradiado precipitou a inflamação da parte da juta mais predisposta à combustão espontânea e poderia ter sido aquela que ocupava a 2 a coberta para constituir o 2. foco. Esta hipótese é a que mais se aproxima do que realmente ocorreu, porque foi exatamente a juta que cercava o conduto de ventilação anteriormente mencionado e na altura da janela que êste conduto tem, que a juta ficou totalmente queimada, indicando assim ser o segundo foco. Pela janela do conduto penetrou o ar necessário à combustão da juta já aquecida pela irradiação do calor do fogo na l.a coberta, completando dêsse modo o processo para a inflamação espontânea da juta na 2 a cobertura, uma vez que não foi encontrado nenhum indício de ação propositada. Nos autos, a fls. 46 (informação prestada pela seçao de Química do Instituto Tecnológico do Estado de Pernambuco) que esclarece: que a fibra de juta. quando comprimida em fardos ^cintados, pode inflamar-se espontâneamente no atrito com a madeira, com a fita

4 118 TRIBUNAL MARÍTIMO de aço ou de fardo com fardo. A inflamação pode ser ainda provocada por aumento de temperatura, proveniente da fermentação da fibra quando armazenada em ambiente úmido e onde não haja renovação de ar. Esclarece ainda que a fibra de juta possui higroscopicidade elevada, aumentando assim o perigo da fermentação acima citada. No inquérito consta das declarações do comandante, 1. e 2. pilotos que o incêndio só poderia ter ocorrido em conseqüência de combustão espontânea dos fardos de juta estivados no porão n. 2, visto que na remoção da carga estivada no aludido porão foi constatado que os fardos de juta que estavam em baixo eram os mais queimados. Que o porão foi aberto no dia 23 de julho, sendo fechado no dia 30, às 9 horas e 30 minutos, sem que fôsse notado qualquer indício de fogo na carga. A testemunha Francisco de Souza Vieira, fiel do porão n. 2, em seu depoimento declarou que, por ocasião da abertura do porão, não foi notado qualquer indício de fogo na carga e que ao ser fechado o porão na sua presença, não foi notada qualquer anormalidade. Declarou não ter visto durante o trabalho de descarga, qualquer estivador ou outra pessoa fumar nas proximidades do porão, ou mesmo no trabalho e que na qualidade de fiel do porão estêve presente durante todo o tempo em que o aludido porão estêve aberto. Nos depoimentos das testemunhas pertencentes ao grupo da estiva a bordo, consta que um terno de onze estivadores trabalhara a bordo no dia 30 de julho desde as 8 horas da mnnhã e cêrca das 10 horas, depois de acomodar no porão n. 2 pranchas de madeira destinadas ao Rio de Janeiro e retiradas do porão por engano, foi fechado o porão, indo o temo de estivadores trabalhar no porão n. 1. Entre 10 e 11 horas o estivador que trabalhava de guincheiro, chamou a atenção do contramestre da estiva para a fumara que rafa pelos cantos da escotilha e por um ventilador do porão. Dado o alarma, foram tomadas as providências necessárias para a extinção do incêndio. Os estivadores declararam em seus depoimentos que estavam presentes quando foi aberto o porão para as operações de carga, não sendo notado qualquer cheiro ou outro sinal que denunciasse a existência do fogo no interior do porão e que quando o porão foi aberto não havia o menor indício de incêndio. Durante o trabalho no porão foi mantida a vigilância para que ninguém fumasse ou usasse fósforos ou qualquer artefato que pudesse comunicar fogo à carga. No relatório do inquérito o encarregado conclui que não foi possível determinar com precisão a causa do incêndio, sendo mesmo atribuído à combustão espontânea, o oue está conforme a ausência completa de quaisquer indícios de ação propositada e as propriedades ouímicas da juta constantes da informação d*» fls 44 Que dêsse acidente resultaram os prejuízos constantes do têrmo de fls. 41 e 42. Que o fato se deu em virtude de causa desconhecida. Com vista à Procuradoria, esta pelo dr. 2. procurador foi de narecer que o inou^rito convencia da fortuidade do acir'pnte. sem qualquer responsabilidade, quer do armador do navio Barão do Rio Branco, quer de sua tripulação, como acentuou o encarregado do inouérito em suas conclusões de fls. 55. oue só se nodia atribuir à combustão espontânea, a causa do incêndio verificado no porão

5 ANUÁRIO DE JURISPRUDÊNCIA 119 n. 2, do citado navio. Assim, a Procuradoria opinou pelo arauivamento do processo. y arqui- Isto pôsto: 1) Duas são as hipóteses formuladas no presente processo, relativas ao incêndio ocorrido no porão n. 2 do navio Barão dó Rio Branco'*, quando em operação de descarga no cais do armazém n. 8, das docas do pôrto de Recife. Dado o alarma da existência do fogo a bordo e aberta a escotilha do porão n. 2, foram constatados dois focos onde as labaredas atuavam com maior intensidade. A perícia constatou não ter havido a propagação do fogo de um foco para outro, de vez que, enquanto um ponto está situado na primeira coberta, a BB, à ré, o outro está localizado na segunda coberta, de meia nau para vante, e a carga de fardos de juta estivada entre êsses dois focos, não foi atingida pelas chamas, o que demonstra que o fogo não se deslocou de um foco para se propagar ao outro ponto. 2) A hipótese formulada pela perícia admite que uma ponta de cigarro tenha provocado o incêndio no ponto da primeira coberta e o calor irradiado tenha precipitado a inflamação da juta, mais disposta à combustão espontânea e que poderia ter sido aquela que ocupava o ponto da segunda coberta, para constituir o segundo foco. A perícia ainda admite que essa hipótese é a que mais se aproxima da realidade, porque foi exatamente a juta que cercava o conduto de ventilação e na altura da janela dêsse conduto (a que ficou totalmente queimada), indicando assim que por êsse conduto penetrou o ar necessário à combustão da juta já aquecida pela irradiação do fogo na primeira coberta, completando, dêsse modo, o processo para a inflamação espontânea da juta da segunda coberta. 3) A segunda hipótese formulada pelo encarregado do inquérito contesta o fato de ter sido o fogo iniciado na primeira coberta, em conseqüência de uma ponta de cigarro ou outro agente. Alega o encarregado do inquérito a inadmissibilidade da irradiação do calor da primeira coberta atravessar de cima para baixo superpostas camadas de fardos arrumadas à cunha,^ até encontrar o ar comburente na janela de conduto de ventilação da segunda coberta. Pareceu ao encarregado do inquérito que a irradiação do calor da sesrunda para a primeira coberta seria mais aceitável, dada a natural expansão dos gases em busca de uma abertura mais ampla, comparando-se a janela do conduto de ventilação da segunda coberta com as aberturas da escotilha do porão situadas na primeira coberta. 4) A hipótese formulada pelo encarregado do inquérito parece a que melhor define a origem do incêndio. Se o fogo fôsse originário de uma ponta de cigarro atirada ao acaso sôbre um fardo de juta estivada na primeira camada da primeira coberta, as labaredas teriam varrido a parte superficial dos outros fardos de juta da mesma camada, porque a existencia de ar comburente na parte superior do porão era em maior volume e a sua renovação mais ampla em virtude da existencia das aberturas da escotilha nas proximidades.

6 120 TRIBUNA L MARIT IM O Nesse caso, não se teria formado apenas um foco e sim a propagação do fogo em área mais extensa na primeira coberta. 5) Para haver a propagação do calor de cima para baixo, através das diversas camadas de fardos de juta, até atingir a zona de ventilação na 2.a coberta, onde o ar comburente poderia provocar a combustão da juta nesse ponto, seria necessário que o fogo na parte superior tivesse grande intensidade, o que não se verificou. Segundo o apurado, os fardos de juta mais queimados e os pontos mais atacados pelas chamas, foram aquêles situados na 2.a coberta. 6) Parece positivado que o fogo se tenha originado na 2.a coberta, provocado por ponta de cigarro ou outro agente externo que, penetrando pelo cachimbo do ventilador (provido ou desprovido de tela) e descendo pelo conduto, foi situar-se sôbre algum fardo de juta, dando origem à inflamação da fibra, o que foi facilitado pelo ar comburente que desce pelo referido conduto de ventilação. Se não houve o agente externo, então é de admitir que a erifrem do fogo foi devida à combustão espontânea. culo foro tenha originado na 2 a coberta, onde a fermentação da fibra de juta se processaria com maior probabilidade, em virtude das condições ambientes. O que não se pode duvidar é que o fogo se tenha originado na segunda coberta. 7) Havendo a existência de dois focos, um na l.a coberta e o outro na 2 a. sem vestígios da propagação de fôgo de um para outro, forçoso é admitir que num dêsses focos a origem de fogo foi devida à combustão espontânea da fibra de juta. Se o foco da l.a coberta foi originado por combustão espontânea, apesar de ser esta zona mais ventilada e assim de menor probabilidade de reação química, fermentação e hidroscopicidade da fibra de juta. o focro ria 2 a coberta também poderia ter sido originado pela combustão espontânea, por isso que os fardos de juta localizados no fundo do porão (2a coberta), estavam em local cujas condições ambientes oram mais prooícias ao desenvolvimento de fenômeno físico do calor e a conseqüente chama, daí originando-se o fogo no aludido foco da 2.a coberta. Nesse caso, ficaria afastada a hipótese de ter sido a origem de fogo provocada por porta de cigarro ou outro agente externo uma vêz que nos depoimentos das testemunhas nada consta referente ao início do incêndio provocado por ação propositada ou agente externo. De tudo o mais que consta nos autos, decidiu o Tribunal Marítimo. pelo voto dos juizes presentes: a) quanto à natureza e extensão do acidente: incêndio no porão dois do navio Barão do Rio Branca nas circunstâncias descritas: prejuízos não avaliados: b) quanto à causa determinante: embora não positivada a causa do incêndio, julgar, em face da existência de dois focos situados em coberta»! diferentes e sem vestígios da propagação do fogo de uma para outra, que o incêndio se tenha originado pela combustão espontânea da fibra da juta, de que era constituída a maior parte do carregamento do porão: c) julgar o acidente resultante de caso fortuito e mandar arquivar o processo. P.C.R. Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 1952 Gustavo Goulart, almirante-de-esquadra. presidente Adolpho Martins de Noronha Torrezão, relator ' Agnelo de Azevedo Mesquita Carlos Lafayette Bezerra de Mi randa Francisco José da Rocha Gerson Rocha da Cruz. Fui presente: Ulysses Gomes de Oliveira, 2. procurador.

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