PRIMEIRA CÂMARA CÍVEL DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA

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1 PRIMEIRA CÂMARA CÍVEL DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA Apelação Cível nº Apelante: JONETES TERESINHA BOARETTO Apelado: GRANDE HOTEL CANADÁ LTDA. Relator: DES. CUSTÓDIO TOSTES DECISÃO MONOCRÁTICA DIREITO CIVIL. RESPONSABILIDADE CIVIL SUBJETIVA. LESÃO EM DECORRÊNCIA DE QUEDA DE MARQUISE. PRESENÇA DE DANO, CONDUTA CULPOSA E NEXO DE CAUSALIDADE. DEVER JURÍDICO DE REPARAÇÃO. VERBA COMPENSATÓRIA FIXADA COM RAZOABILIDADE E PROPORCIONALIDADE. RELAÇÃO EXTRACONTRATUAL. DANO MORAL: JUROS DE MORA A PARTIR DO EVENTO DANOSO. SÚMULA 54, DO STJ E CORREÇÃO MONETÁRIA A PARTIR DO JULGADO. SÚMULAS 362 do STJ e 97 DO TJERJ. PROVIMENTO PARCIAL DO RECURSO, NA FORMA DO DISPOSTO NO 1º-A DO ARTIGO 557 DO CPC. Trata-se de Ação Indenizatória proposta por JONETES TERESINHA BOARETTO, contra GRANDE HOTEL CANADÁ LTDA., objetivando a condenação do réu ao pagamento de indenização a título de dano moral, em virtude de queda de marquise que soterrou a autora, causando-lhe escoriações e lesões múltiplas. A sentença julgou PROCEDENTE EM PARTE os pedidos, e condeno a ré ao pagamento de indenização por danos morais no valor de R$ 8.000,00, devendo ser corrigido a partir desta sentença, bem como incidir os juros, a partir da sentença, conforme novo entendimento da 4ª Turma do STJ, Resp /RS.....

2 2 Apelou a autora, sustentando, em síntese, que a sentença desconsiderou o que ela vivenciou e que o réu se trata de empresa riquíssima, pretendendo seja a mesma reformada, com a majoração da verba indenizatória e fixada em, no mínimo, R$ ,00; que, em se tratando de responsabilidade extracontratual, os juros e a correção monetária devem incidir a partir do ilícito; que decaiu de parte mínima do pedido, não implicando em sucumbência recíproca. O recurso é tempestivo e foi contrariado a fls. 207/209. É o relatório. Passo a decidir, na forma do disposto no 1º-A, do artigo 557 do CPC. O Conjunto probatório (R.O. - fls. 15/17, Termo de Declaração fls. 18/19, Boletim de Emergência fls ), não deixa dúvida de que a autora foi efetivamente atingida pela marquise do Hotel Canadá, ora apelado, quando passava pela calçada. A prova pericial (fls. 157/163) é conclusiva e convincente no sentido de que sob a ótica médica, dúvida não há para o estabelecimento do nexo de causalidade, bem como que houve incapacidade total e temporária de 7 dias e na data do exame pericial a apelante não apresentava incapacidade total ou parcial e permanente vinculada ao acidente. Os autos demonstram que o réu não observou o dever de cuidado relativamente à manutenção da marquise, não se podendo responsabilizar a empresa RIO ARTEPLAC ESTRUTURAS ESPECIAIS LTDA. contratada para modernizar a fachada do hotel. À hipótese dos autos aplicam-se, os artigos 927, caput, 937, que prevê a presunção de responsabilidade do proprietário do edifício pelos danos decorrentes de sua ruína, e o artigo 944, todos do Código Civil. O Prof. Sérgio Cavalieri Filho, em seu Livro Programa de Responsabilidade Civil, 7ª Ed. Editora Atlas, pág. 211/212, aborda de forma profícua o assunto, como se verifica in verbis:

3 3... o Código Só responsabiliza o dono do edifício ou construção pelos danos causados por sua ruína. Assim já era no Código de 1916, porque o dono é o guardião do prédio, é aquele que tem o dever de segurança, verdadeiro fundamento dessa responsabilidade. Ao proprietário cabe a obrigação de manter o imóvel ao par dos progressos realizados em matéria de construção.... O contrato de empreitada é res inter alios, em nada vinculando o terceiro vitimado. Ademais, o fundamento da responsabilidade do dono do edifício é o dever de segurança, conforme já destacado, e não o dever de vigilância.... Não tem a vítima, portanto como bem observa Sílvio Rodrigues -, que buscar descobrir quem foi o responsável pelo defeito de construção do prédio, nem que indagar se o inquilino é o culpado pela falta de reparos da qual resultou o desabamento de uma casa; não lhe compete averiguar se a queda da construção resultou de imperícia do arquiteto que o projetou, ou do engenheiro que fiscalizou o andamento da obra. Houve desabamento decorrente da falta de reparos ou de vício de construção? O proprietário é responsável. Este, após pagar a indenização, pode, se quiser, promover ação regressiva contra o culpado, quer seja o empreiteiro da construção, quer seja o inquilino que não procedeu aos reparos (Direito Civil, 12ª ed., Saraiva, p. 136). Não elide a responsabilidade do dono nem mesmo o fato de resultar o estado de coisas de que proveio a ruína de uma situação já existente ao tempo em que o prédio foi adquirido. À luz do art. 937 do Código Civil, portanto, só o proprietário é o responsável pelos danos resultantes da ruína do edifício.... O fato de a autora ter sido atingida pela marquise, causadora de lesão corporal, por si só, já é situação hábil a ensejar abalo psicológico configurador do dano moral indenizável. Presentes então o dano, a conduta culposa e o nexo de causalidade, surge para o réu o dever de indenizar.

4 4 Como é de sabença, não deve constituir a indenização meio de locupletamento indevido do lesado e, assim, deve ser arbitrada com moderação e prudência pelo julgador. Por outro lado, não deve ser insignificante, considerando-se a situação econômica do ofensor, pois não pode constituir estímulo à manutenção de práticas que agridam e violem direitos do consumidor. A indenização por danos morais não se presta à reparação da dor, sofrimento ou vexame do qual a vítima foi acometida. A indenização por dano extrapatrimonial tem caráter meramente compensatório de tais eventualidades, devendo ser arbitrada com moderação e prudência, observando o caráter punitivo-pedagógico de que deve se revestir a mesma, garantindo-se, destarte, a correta e destemida aplicação do princípio da efetividade, à luz da teoria do desestímulo. Como ensina o Desembargador e Professor SÉRGIO CAVALIERI FILHO:... o juiz, ao valorar o dano moral deve arbitrar uma quantia que, de acordo com o seu prudente arbítrio, seja compatível com a reprovabilidade da conduta, a intensidade e duração do sofrimento experimentado pela vítima, a capacidade econômica do causador do dano, as condições sociais do ofendido e outras circunstâncias mais que se fizerem presentes. (Programa de Responsabilidade Civil, 7ª Edição, Editora Atlas S/A, página 90). E ainda: Indenizar significa ressarcir o prejuízo, ou seja, tornar indene a vítima, cobrindo todo o dano por ela experimentado. (...) A idéia de tornar indene a vítima se confunde com o anseio de devolvê-la ao estado em que se encontrava antes do ato ilícito. Todavia, em numerosíssimos casos é impossível obter-se tal resultado, porque do acidente resultou conseqüência irremovível. Nessa hipótese há que se recorrer a uma situação postiça, representada pelo pagamento de uma indenização em dinheiro. É um

5 5 remédio nem sempre ideal, mas o único de que se pode lançar mão. (...) Tais soluções não são ideais, pois o ideal seria que o ato ilícito não tivesse ocorrido ou que o efeito danoso não houvesse sobrevindo. Mas, depois que ocorreram um e outro, a indenização é a única solução adequada. (RODRIGUES, Sílvio. Direito Civil Responsabilidade Civil. 19. ed., atualizada de acordo com o novo Código Civil (Lei n , de ), São Paulo: Saraiva, 2002, v. IV, p. 185/188). Levando-se em conta o fato de ter sido comprovada a inexistência de sequela permanente em decorrência do acidente e que não houve qualquer comprometimento funcional, a verba compensatória foi devidamente fixada, pois observado a extensão do dano e os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, atendendo, por fim, o objetivo pedagógico-punitivo. Quanto à indenização à título de dano moral, no que diz respeito ao termo a quo da correção monetária, em se tratando de relação extracontratual, aplica-se a partir do arbitramento da indenização, nos termos da Súmula 362 do STJ e 97 do TJRJ. Relativamente aos juros, aplica-se a Súmula 54 do e. STJ, cujo teor ora se transcreve: os juros moratorios fluem a partir do evento danoso, em caso de responsabilidade extracontratual. Quanto à verba honorária, sem razão a apelante, pois pleiteou dano moral e o ressarcimento dos danos materiais e somente o pedido de dano moral foi julgado procedente. Pelo exposto, deve ser dado provimento parcial ao recurso para que o termo a quo da correção monetária seja a partir do arbitramento da indenização e os juros sejam contados a partir do evento danoso, mantida a sentença quanto ao mais. Rio de Janeiro, 15 de outubro de CUSTÓDIO DE BARROS TOSTES Desembargador Relator

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