Texto 03. Os serviços da Proteção Social Especial de Média Complexidade e o processo de construção de saída da rua

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1 Texto 03 Os serviços da Proteção Social Especial de Média Complexidade e o processo de construção de saída da rua A Proteção Social Especial PSE organiza a oferta de programas, projetos e serviços socioassistenciais de caráter especializado. Tem por objetivo contribuir para a proteção social de famílias e indivíduos que se encontram em situação de risco pessoal e social, por violação de direitos, maus tratos físicos e, ou, psíquicos, abuso sexual, uso de substâncias psicoativas, cumprimento de medidas sócio-educativas, situação de rua, situação de trabalho infantil, violência sexual, homofobia, dentre outros, visando à superação destas situações. No âmbito do Sistema Único de Assistência Social - SUAS a Proteção Social Especial se subdividi em Proteção Social Especial de Média e de Alta Complexidade. Sendo a PSE de Média Complexidade responsável pela oferta de serviços, programas e projetos de caráter especializado destinados ao acompanhamento de famílias e indivíduos em situação de risco pessoal e social, por violação de direitos. Constituem unidades de referência para tal oferta o Centro de Referência Especializado de Assistência Social - CREAS e o Centro de Referência Especializado para a População em Situação de Rua Centro POP. A PSE de Alta Complexidade, por sua vez, oferta serviços de acolhimento, para famílias e indivíduos que necessitam de proteção integral moradia, alimentação, higienização e trabalho protegido por estarem sem referência ou com os seus vínculos familiares e comunitários extremamente fragilizados ou rompidos necessitando temporariamente de serem acolhidos. A Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais aprovada na Resolução nº 109, de 11 de novembro de 2009, representou um avanço significativo para a concretização da oferta de serviços direcionados a população em situação de rua no SUAS. Contudo, é importante pontuar que apesar de termos na Tipificação serviços direcionados a este segmento da população, esta também pode ter seu atendimento realizado em vários outros serviços tipificados dependendo de sua demanda ou violação de direito sofrida, porém, aqui destacaremos dois serviços da Proteção Social Especial de Média Complexidade, Serviço Especializado em Abordagem Social e o Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua, ambos possuem foco ou exclusividade no atendimento a este público e a construção do processo de saída da rua. No próximo texto destacaremos os serviços de Alta Complexidade.

2 O Serviço Especializado em Abordagem Social, aqui denominado apenas de Abordagem Social, conforme descrito na Tipificação é um serviço ofertado, de forma continuada e programada, com a finalidade de assegurar trabalho social de abordagem e busca ativa que identifique, nos territórios, a incidência de trabalho infantil, exploração sexual de crianças e adolescentes, situação de rua, dentre outras. Deverão ser consideradas praças, entroncamento de estradas, fronteiras, espaços públicos onde se realizam atividades laborais, locais de intensa circulação de pessoas e existência de comércio, terminais de ônibus, trens, metrô e outros. Ainda, conforme a Tipificação são usuários deste serviço crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos e famílias que utilizam espaços públicos como forma de moradia e/ou sobrevivência. Por oportuno, é necessário esclarecer que a oferta deste serviço pode acontecer no CREAS, em unidade referenciada ao CREAS ou no Centro POP. Todas as ações desenvolvidas no Serviço devem ser orientadas, de acordo com a Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais, pelos objetivos abaixo relacionados: Construir o processo de saída das ruas e possibilitar condições de acesso à rede de serviços e a benefícios assistenciais Identificar famílias e indivíduos com direitos violados, a natureza das violações, as condições em que vivem, estratégias de sobrevivência, procedências, aspirações, desejos e relações estabelecidas com as instituições Promover ações de sensibilização para divulgação do trabalho realizado, direitos e necessidades de inclusão social e estabelecimento de parcerias Promover ações para a reinserção familiar e comunitária As equipes de profissionais que compõem a Abordagem Social nas ruas, considerando os objetivos acima expostos, devem planejar as suas ações de abordagem e busca ativa nos territórios. A definição dos territórios onde o Serviço irá atuar poderá ser subsidiada a partir de diagnósticos socioterritoriais elaborados em parceria com o setor de vigilância socioassistencial do município. Devem ser contemplados com a atuação da Abordagem Social os territórios com a maior incidência de violência urbana, usos e tráfico de drogas, centros comerciais onde há grande circulação e permanência de pessoas em situação de rua que também fazem destes o seu espaço de trabalho e sobrevivência desenvolvendo algumas atividades informais como, por exemplo, guardando e lavando carros, flanelinha.

3 Diante das demandas e especificidades do território o trabalho de Abordagem Social pode ser realizado em diversos turnos e dias da semana. O principal instrumento de trabalho de uma equipe de Abordagem social constitui-se na aproximação, escuta qualificada e construção de vínculo de confiança. A partir disto atender, acompanhar e mediar o acesso e a inserção, de famílias e indivíduos em situação de rua, na rede de serviços socioassistenciais e nas demais políticas públicas buscando dar resolutividade as necessidades imediatas destes na perspectiva da garantia de direitos. O Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua é de oferta obrigatória do Centro POP. Este diferentemente do CREAS, que atua junto a famílias e indivíduos vítimas de diversas situações de violações de direitos e oferta, obrigatoriamente o Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos PAEFI, o Centro POP, especificamente atende à população em situação de rua. Ressaltamos que nos municípios que não possuam demanda que justifique a implantação de um Centro POP e, consequentemente, do Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua, o PAEFI ofertado no CREAS poderá realizar o acompanhamento especializado a este segmento da população. Nos casos em que o Serviço Especializado em Abordagem Social também for ofertado no Centro POP é necessário que o planejamento de ambos os Serviços ofertados contemple a interação e a complementaridade entre estes. A implantação de um Centro POP deve ser realizada numa área de maior concentração e trânsito desta população, bem como, ser de fácil acesso. A Tipificação descreve o Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua como: Serviço ofertado para pessoas que utilizam as ruas como espaço de moradia e/ou sobrevivência. Tem a finalidade de assegurar atendimento e atividades direcionadas para o desenvolvimento de sociabilidades, na perspectiva de fortalecimento de vínculos interpessoais e/ou familiares que oportunizem a construção de novos projetos de vida. Oferece trabalho técnico para a análise das demandas dos usuários, orientação individual e grupal e encaminhamentos a outros serviços socioassistenciais e das demais políticas públicas que possam contribuir na construção da autonomia, da inserção social e da proteção às situações de violência. Deve promover o acesso a espaços de guarda de pertences, de higiene pessoal, de alimentação e provisão de documentação civil.

4 Proporciona endereço institucional para utilização, como referência, do usuário. Nesse serviço deve-se realizar a alimentação de sistema de registro dos dados de pessoas em situação de rua, permitindo a localização da/pela família, parentes e pessoas de referência, assim como um melhor acompanhamento do trabalho social. São usuários deste Serviço, segundo a Tipificação, jovens, adultos, idosos e famílias que utilizam as ruas como espaço de moradia e/ou sobrevivência. Crianças e adolescentes podem ser atendidos quando estiveram em situação de rua acompanhados por familiar ou pessoa responsável. Destacamos aqui que este Serviço, por proporcionar endereço institucional para utilização, como referência para os usuários dentre outros aspectos, configura-se como um importante canal para inserção das pessoas em situação no Cadastro Único para Programas Sociais CadÚnico. Segundo a Tipificação, são objetivos do Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua: Possibilitar condições de acolhida na rede socioassistencial Contribuir para a construção de novos projetos de vida, respeitando as escolhas dos usuários e as especificidades do atendimento Contribuir para restaurar e preservar a integridade e a autonomia da população em situação de rua Promover ações para a reinserção familiar e/ou comunitária. Tais objetivos devem orientar o planejamento de todas as ações desenvolvidas neste Serviço, bem como, os seus eixos norteadores, citados na publicação do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome MDS, O SUAS e a População em Situação de Rua, Volume III, a saber: Ética e respeito à dignidade, diversidade e não discriminação; Atenção especializada e qualificação do atendimento; Acesso a direitos socioassistenciais; Trabalho em rede; Relação com a cidade e a realidade do território; Mobilização e participação social. O acesso dos usuários ao Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua poderá se dar através de encaminhamentos realizados pelo Serviço especializado em Abordagem Social, outros serviços socioassistenciais, das demais políticas setoriais ou órgãos de defesa de direitos, e ainda, por demanda espontânea, tendo em vista que o Serviços deve ser ofertado em local de fácil acesso para a população em situação de rua.

5 Após discorrer sobre os dois Serviços supracitados podemos observar, a partir, da leitura dos objetivos de cada um deles, que estes se complementam e possuem como ponto de interseção a construção de novos projetos e trajetórias de vida, visando à construção do processo de saída das ruas e o alcance da referência como sujeitos de direitos na sociedade brasileira. Isto só será possível a partir da construção de vínculos de confiança e referência, entre os profissionais das equipes de ambos os Serviços e as famílias e indivíduos acompanhados, de modo a somar esforços para o melhor desenvolvimento do trabalho. Ratificamos que os diagnósticos também poderão contribuir para o trabalho das equipes junto a esta população, dentre outros aspectos, para um melhor conhecimento da população em situação de rua tendo em vista o trabalho de reconstrução de trajetórias de vida, tais como: Suas dificuldades, necessidades e potencialidades; Quais políticas, programas, serviços e benefícios conseguem acessar, bem como, a demanda para acesso; História da localidade, dinâmica socioespacial e as relações entre si; Suas redes de apoio formal e informal nas ruas onde ficam ou nas suas comunidades de origem. É provável que alguns usuários cheguem até o Centro POP motivados pela acolhida que o espaço e os profissionais possam ofertar, ou mesmo, pela possibilidade de encaminhamentos e inserção em serviços que venham a dar resolutividade imediata as suas necessidades. Diante disto, faz-se necessário que os profissionais dos Serviços ofertados pelo Centro estejam atentos para realizar uma leitura crítica da situação, mas, que esta postura da pessoa em situação de rua seja vista como uma estratégia parte do processo de conquista e construção de vínculo para inseri-lo no acompanhamento do Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua. Diante das considerações acima, metodologicamente falando, é importante que na perspectiva de construção de uma nova trajetória e de novos projetos de vida, que a partir dos primeiros atendimentos seja construído o Plano de Acompanhamento Individual ou Familiar. Lembrando que a elaboração deste Plano deve ser junto com o usuário do Serviço supracitado. O desenvolvimento do Plano de Acompanhamento é instrumento para o acompanhamento especializado do usuário no Serviço e, consequentemente, a materialização do seu desejo por uma nova trajetória de vida. Somado a este instrumental devem ser realizadas outras atividades tais como: atendimentos continuados individuais, familiares ou em grupo, atividades que oportunizem o convívio e a socialização, bem como, o fortalecimento da autonomia e autonomia destes e a articulação e encaminhamento para inserção no mundo do trabalho. Em fim, podemos concluir que a equipe do Serviço terá o grande desafio de lançar mão de diferentes metodologias, estratégias e técnicas no cotidiano do Serviço que dêem conta dos desafios de trabalhar junto aos usuários, a identidade e a subjetividade destes ressignificando suas histórias de vida.

6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. (2004). Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Política Nacional de Assistência Social/PNAS. Brasília: MDS. BRASIL. (2009). Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais. Brasília: MDS. BRASIL. (2011). Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. SUAS e a População em Situação de Rua. Vol. III. Brasília: MDS. BRASIL. (2013). Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. SUAS e a População em Situação de Rua. Vol. IV. Brasília: MDS. SILVA, Maria Lúcia Lopes. Trabalho e População em Situação de Rua. São Paulo: Editora Cortez, 2009.

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