ASSESSORIA DE IMPRENSA DO GABINETE Seleção Semanal de Notícias Culturais Edição nº /06/2014 a 18/06/2014

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1 ASSESSORIA DE IMPRENSA DO GABINETE Seleção Semanal de Notícias Culturais Edição nº /06/2014 a 18/06/2014 CINEMA E TV 3 Folha de S. Paulo - Filme americano sobre Pelé só será lançado após a Copa 3 Folha de S. Paulo - Filme de Vik Muniz mostra paixão pela bola 4 Folha de S. Paulo - Animação brasileira leva os maiores prêmios de festival 4 O Globo - Eduardo e Mônica chegará aos cinemas em TEATRO E DANÇA 6 O Globo - Casas abertas 6 O Globo - Peça brasileira faz sucesso em Nova York 7 O Globo - Sem fronteiras 8 Folha de S. Paulo - Atuação enérgica deixa pouco espaço a nuances 10 O Globo - Black blocs e policiais despidos de suas máscaras 10 ARTES PLÁSTICAS 11 O Estado de São Paulo Exposição celebra a diversidade da América Latina 11 Folha de S. Paulo - Mostra em NY traça o mapa da arte latina 13 Correio Braziliense Um excesso de delicadeza já é uma brutalidade / Entrevista / Clarice Gonçalves 14 Correio Braziliense A dama das formas e cores 17 O Globo online Com 110 artistas, mostra no Rio propõe novo olhar sobre história da arte 18 O Globo - Djanira, de boia-fria a uma das maiores pintoras do país 20 Folha de S. Paulo - Minha nossa 22 FOTOGRAFIA 24 Correio Braziliense O mundo a seus pés 24 MÚSICA 25 Correio Braziliense - Toda a bossa de Wanda Sá 25 Folha de S. Paulo - 'O que faz sucesso hoje é música sem futuro', diz Fagner 26 O Estado de São Paulo Adeus a uma das cantoras mais populares do País 27 O Globo Jogo de batuta 28 Folha de S. Paulo Bandas de SP formam selo próprio para lançar discos 29 Correio Braziliense - Convite para dançar 30 O Estado de S. Paulo - Na levada do tempo 31 Correio Braziliense - Chico Buarque consegue unir a música e o futebol, suas maiores paixões 33 O Globo - Monarco abre seu baú de inéditas em disco novo 34 O Estado de S. Paulo - Na trilha dos múltiplos talentos de Marku Ribas 35 LIVROS E LITERATURA 36 Folha.com - Futebol é debatido em festival literário francês que homenageia o Brasil 36 Chauffe Marcel Blog (França) Rencontre autour de la poésie brésilienne 37 Anacaona (França) Le football au Brésil Onze histoires d une passion 38 Folha de S. Paulo Novo livro traduz 'carioquês' das ruas para estrangeiros 38 Folha de S. Paulo Romance de Alberto Mussa investiga 1º assassinato do Rio 39 O Globo - Memórias afetivas de uma herdeira 40 ARQUITETURA E DESIGN 42 Folha de S. Paulo - Geração pós-favela 42 O Estado de S. Paulo - Modernos por natureza 43 1

2 GASTRONOMIA 44 Correio Braziliense - A cachaça brasileira no topo do mundo 44 Valor Econômico - Mundial é vitrine para a indústria de cachaça / Capa 46 2

3 CINEMA E TV Folha de S. Paulo - Filme americano sobre Pelé só será lançado após a Copa Produção, que tem na equipe dois vencedores do Oscar, foi adiada e não aproveitará o burburinho do Mundial Com elenco brasileiro e todo falado em inglês, longa de ficção narra a ascensão meteórica do ex-jogador de futebol Leonardo Lima Carvalho, que interpreta Pelé, em cena do filme sobre a vida do atleta Guilherme Genestreti de São Paulo (15/06/14) Pelé, que já teve seus momentos de ator de cinema nos anos 1970 e 1980, deve ganhar o próprio filme em breve. Mas só depois da Copa. A obra de ficção inspirada na história do exjogador era aguardada para agora, durante o Mundial, mas só deve sair no fim do ano ou, talvez, em Quem informa sobre a possível data de lançamento são os irmãos norte-americanos Jeff e Michael Zimbalist, diretores de "Pelé". Em fevereiro, a revista americana "The Hollywood Reporter" anunciou que algumas das cenas do longa tiveram de ser refilmadas, o que atrasou a estreia. O diretor nega: "Não sei de onde surgiu essa informação", diz Jeff, em entrevista à Folha. Ele afirma que o filme está em fase de pós-produção. Segundo a publicação, o atraso levou ao cancelamento da compra do título por pelo menos uma distribuidora, a alemã A Company, enquanto outras estariam estudando a mesma possibilidade, caso da Entertainment One, que o venderia no Reino Unido. A Folha apurou que A Company, de fato, cancelou o contrato. Procuradas, as duas distribuidoras não responderam ao pedido da reportagem. O longa narra os primeiros anos da vida de Pelé até a disputa da Copa de Aos 17, o jogador participou do primeiro título do Brasil. "Escolhemos esse período não apenas para falar da ascensão meteórica dele, mas porque é a época em que o Brasil ganhou destaque no cenário mundial", diz Michael. "É sobre a lenda do futebol e sobre a construção da identidade brasileira", diz. O país não é estranho para os diretores, que já rodaram por aqui o documentário "Favela Rising" (2005), sobre a ONG AfroReggae. "Pelé" tem na equipe dois vencedores do Oscar: o produtor Brian Grazer (de "Uma Mente Brilhante") e o montador Michael Kahn, parceiro de Spielberg no longa "O Resgate do Soldado Ryan". Foi o próprio Pelé quem forneceu a maior parte das informações aos diretores, também roteiristas. "Ele nos ajudou, mas não quis controlar a criação", afirmou Michael. Os brasileiros Leonardo Lima Carvalho e Kevin de Paula interpretam o craque na versão criança e na fase adolescente, respectivamente. O cantor Seu Jorge vive Dondinho, pai de Pelé, e o americano Vincent D'Onofrio interpreta Vicente Feola, técnico da seleção em O longa é todo falado em inglês. "Seria mais autêntico em português. Mas há uma demanda do mercado e entendemos que a história é universal. Tinha que ser em inglês por isso", diz Michael. Mas o "hype" não diminui após a Copa? "A empolgação será a mesma. Não é um filme só sobre futebol", diz Jeff. 3

4 Folha de S. Paulo - Filme de Vik Muniz mostra paixão pela bola Longa dirigido pelo artista explora maneiras como diversos povos interagem com 'único item essencial do futebol' Documentário lançado em serviço de TV sob demanda exibe criação de instalações artísticas com milhares de bolas Guilherme Genestreti de São Paulo (15/06/14) No morro carioca, uma saída para fugir do tráfico. No Paquistão, indiferença. Em Serra Leoa, nem as amputações da guerra são obstáculo. No documentário "Atrás da Bola", o artista brasileiro Vik Muniz vaga por nove países para mostrar como os diferentes povos encaram o futebol. O filme, que estreou na última sexta (13) no serviço de TV sob demanda Netflix, tem direção do colombiano Juan Rendón e de Muniz, artista conhecido pelo uso de itens inusitados (material reciclável, comida, etc.) em suas obras. Segundo Rendón, o objetivo era aproveitar o Mundial para rodar um documentário "fora do trivial". "Resolvemos enfocar o conceito e a história da bola. É o único item essencial no futebol", diz à Folha. No filme, Muniz entrevista jogadores, designers, artistas e até um astrofísico para falar do fascínio pela bola. "A arma só traz morte; a bola, alegria", diz, a certa altura do filme, um ex-traficante carioca que treina um time de futebol numa comunidade. "Não quero essa vida para os meus filhos", diz uma costureira de bolas do Paquistão, país que exporta o item, mas prefere o críquete ao futebol. Intercalando com as entrevistas, o filme mostra Muniz criando duas instalações à base de milhares de bolas de futebol --uma delas no gramado do estádio Azteca, no México, palco da final da Copa do Mundo de 1970; a outra, num campinho no morro do Vidigal, no Rio de Janeiro. O documentário também traz registros dos protestos contra o Mundial. Na capital carioca, uma manifestante com tatuagem de time de futebol diz que nunca mais irá a estádios por achar "absurdos" os gastos com a Copa. "Mesmo quando é para mostrar descontentamento, as pessoas usam o futebol como expressão", diz Rendón. O filme recebeu críticas negativas de publicações estrangeiras. Muniz "não fala com ninguém o suficiente para perguntar algo contundente", escreveu a revista "Variety". Folha de S. Paulo - Animação brasileira leva os maiores prêmios de festival Júri e público elegem o longa 'O Menino e O Mundo' em Annecy, na França Evento, que terminou no sábado (13), é o mais importante do gênero no mundo e abre portas para disputa pelo Oscar Personagem principal ao lado do pai (à esq.) em cena da animação 'O Menino e o Mundo', de Alê Abreu Guilherme Genestreti de São Paulo pelo Oscar em (17/06/14) O longa-metragem de animação brasileiro "O Menino e o Mundo", de Alê Abreu, ganhou os dois principais prêmios no 38º Festival de Annecy, na França, e já é mencionado como eventual competidor 4

5 O filme levou prêmios do júri e do público na mostra francesa, evento de animação mais importante do mundo. "Eu me acostumei a ir a festivais sem criar expectativas", afirma o diretor paulista. "Mas quando as pessoas começaram a me parar na rua, fiquei com a sensação de que pairava no ar uma vitória." O filme de Abreu, que custou R$ 2 milhões, levou três anos para ser feito. A trama, contada com técnicas mistas --de colagem a giz de cera--, trata de um garoto que sai de casa em busca do pai em meio a um mundo fantástico. Este é o segundo ano consecutivo que o Brasil vence o principal prêmio de Annecy. Em 2013, estreia do país no festival, o longa "Uma História de Amor e Fúria, de Luiz Bolognesi, saiu vitorioso. "Tive reuniões com produtores que nunca imaginei que teria", diz Abreu, 42, que está em seu segundo longa. "O Menino e o Mundo" já passou por 30 festivais e levou 16 prêmios. Em Annecy, o filme brasileiro desbancou o americano "Cheatin'", de Bill Plympton, o japonês "Giovanni no Shima", de Mizuho Nishikubo e outros seis. "A decisão pelo filme do Alê foi unânime", diz Bolognesi, que fez parte do júri na edição deste ano. "Está acontecendo com a animação brasileira o que aconteceu com a bossa nova nos anos 1960." A revista americana "The Hollywood Reporter" informou que a distribuidora Gkids, que comprou os direitos para vender "O Menino e o Mundo" nos EUA, deve iniciar campanha pelo Oscar de melhor longa de animação. "Essa distribuidora teve filmes indicados nas três últimas edições. Mas ganhar é outra história: Annecy é arte, Oscar é indústria", afirma Abreu. Em janeiro, "Uma História de Amor e Fúria" ficou entre os 19 finalistas a uma das cinco vagas entre os indicados ao Oscar de animação, mas não entrou na competição. "Bateu na trave", disse Bolognesi. O Globo - Eduardo e Mônica chegará aos cinemas em 2016 Filme baseado na música da Legião Urbana será dirigido por René Sampaio, que também assinou a adaptação de Faroeste Caboclo Sérgio Luz Dado Villa-Lobos, Renato Russo e Marcelo Bonfá (18/06/14) RIO A famosa história do casal que não era nada parecido será transformada em longa-metragem. A Gávea Filmes, também responsável pela produção de Faroeste Caboclo (2013), anunciou nesta terça-feira a compra dos direitos de adaptação de Eduardo e Mônica para o cinema. O filme será dirigido por René Sampaio, o mesmo que levou às telonas a trajetória de João de Santo Cristo. Sou super fã da Legião Urbana. Será mais uma possibilidade para realizar um sonho afima ao GLOBO o diretor, que está em negociação para fazer sua estreia em Hollywood. Não posso dizer que esse será meu segundo filme, tenhos outros trabalhos em vista. Mas Eduardo e Mônica é minha prioridade. A produtora Bianca De Felippes, da Gávea Filmes, acredita que o filme entrará em exibição daqui a dois anos. Vamos elaborar o projeto neste ano e fazer a captação. A ideia é rodar na segunda metade do ano que vem e lançar em 2016 afirma. Segundo Bianca, o plano de fazer um filme baseado na canção é antigo. Desde a época do Faroeste, a gente já pensava muito nisso. Quando o lançamos no ano passado, as pessoas já perguntavam para o René quando ele faria "Eduardo e Mônica". 5

6 De acordo com Sampaio, a negociação, que durou cerca de um ano, envolveu apenas os direitos para a adaptação da letra, escrita por Renato Russo. Questionada sobre os recentes imbróglios entre os ex-membros da Legião Urbana, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, e Giuliano Manfredini, filho de Renato e responsável pelo espólio da obra do pai, Bianca afirma não se preocupar quanto aos direitos de execução do fonograma original. Acho que a obra e o legado da Legião são maiores que tudo isso. Temos, sim, planos de usar a gravação original da música. A narrativa começará no mesmo período em que a música foi lançada, na segunda metade dos anos 1980, como uma faixa do repertório de Dois (1986), segundo álbum da banda. Vamos tentar ser fiéis ao espírito da música. Queremos um filme que tenha relevância internacional e qualidade artística diz Sampaio. É uma história de amor, mas não será uma comédia romântica. Queremos que o filme tenha a cara do Renato, que ele se orgulhasse da obra. Não faremos um vídeo-clipe. É outro projeto comenta Bianca. Segundo Giuliano, que terá uma participação afetiva no filme, acompanhado a produção, Bonfá e Villa-Lobos não estão envolvidos no longa. Trata-se de uma composição de Renato Russo, da época de sua carreira solo como Trovador Solitário. O filme será uma adaptação livre da letra, assim como foi feito com Faroeste Caboclo disse em entrevista por . As conversas para definir quem será o responsável pelo roteiro já foram iniciadas, mas ainda não há nada definido. Também não há previsão para escolha de elenco. TEATRO E DANÇA O Globo - Casas abertas Diretores e atores deixam a caixa cênica e encenam seus novos projetos ao ar livre, aproveitando os cômodos e jardins de antigos casarões da cidade Luiz Felipe Reis As três irmãs. Clássico de Tchekhov com as atrizes atrizes Paula Sandroni, Gisela de Castro e Julia Deccache (12/06/14) Em vez do palco, quintais, terraços e varandas. Ar livre, luz natural e a passagem do dia para a noite. Três grandes casarões, seus terrenos e entornos servem de base a novas montagens. O clássico As três irmãs, de Anton Tchekhov, será encenado no jardim do Casarão Austregésilo de Athayde, no Cosme Velho, a partir das 16h deste sábado com ingressos gratuitos. Idealizado pela diretora Morena Cattoni e pelas atrizes Paula Sandroni e Gisela de Castro que vivem duas das irmãs ao lado de Julia Deccache, a montagem não utiliza o espaço interno da casa, e localiza toda a ação dos 13 atorespersonagens envolvidos do lado de fora. No domingo passado, a Cia. Os Dezequilibrados estreou uma proposta semelhante. Fala comigo como a chuva e me deixa ouvir, de Tennessee Williams, cumpre agora o seu primeiro fim de semana completo na Casa da Glória aos sábados e domingos, com sessão dupla, às 14h e às 16h. Com direção de Ivan Sugahara, a proposta flerta com dispositivos do cinema e traz os atores Saulo Rodrigues e Ângela Câmara como guias de uma encenação itinerante, que passeia pelos cômodos da casa. 6

7 Já o casarão da Sede das Cias., na Lapa, serve de ponto de partida e de chegada a Maratona, criada por Diego de Angeli e Gabriela Carneiro da Cunha em cartaz de sexta a domingo, às 20h. Misto de encenação e competição de dança, Maratona leva público e atores a subir e descer os 215 degraus da Escadaria do Selarón, numa corrida que tem como linha de chegada o teatro que fica em um dos cômodos da Sede das Cias. O terraço do mesmo casarão da Lapa tem servido desde janeiro a happenings únicos e mensais, que fazem parte do processo criativo da peça Jardins portáteis. Idealizado pela atriz Cristina Flores, o projeto estreia oficialmente em julho e se arma como um jardim penetrável ao ar livre, onde poesia, música, teatro e culinária se misturam. É um ambiente vivo que dá ao público uma experiência sensorial mais completa, com texturas, cheiros, sons diz Cristina. A intenção é desvincular o lugar do espectador dentro da instituição de arte. Um jardim para Tchekhov Diretora de As três irmãs, Morena criou para si a imagem de uma casa sem teto, em ruínas como guia da sua proposta. A imagem dimensiona a decadência, o desamparo e a falta de abrigo concreto para os sonhos nunca materializados pelas três irmãs protagonistas. A peça traz uma relação direta dos personagens com uma casa, com a natureza ao entorno, com a passagem do tempo e das estações do ano diz Morena. Tchekhov retrata uma nobreza em decadência, é como se o teto que os protegia tivesse sido posto abaixo. Fora isso, os sentimentos dos personagens de Tchekhov são instâncias que transbordam, é como se a interioridade deles precisasse sair. Então tudo isso foi nos afastando da ideia de permanecer num espaço fechado, era preciso ir para o lado de fora da casa, habitar o jardim. Após encenar peças em boates, cinemas e apartamentos, Sugahara elegeu a Casa da Glória como o espaço ideal para a sua resposta plástica ao texto especialmente lírico de Tennesse Williams. Talvez 80% da peça se passe ao ar livre, onde exploramos recursos visuais e sonoros. O Globo - Peça brasileira faz sucesso em Nova York Montagem de texto de João Falcão inspirado no indiano 'Bhagavad Gita' conquista crítica e público Universal. Luca de Bianchi e Livia Bueno em Dhrama O incrível diálogo entre Krishna e Arjuna : casal planeja agora montar o espetáculo no Rio Isabel de Luca, correspondente em Nova York (13/06/14) É raro um texto nacional circular pelos palcos de Nova York. Com atores brasileiros, nem se fala. Mas o casal Livia de Bueno e Luca Bianchi chega ao fim de uma admirável temporada no circuito off- Broadway com o barulho do desafio cumprido: a peça "Dhrama - O incrível diálogo entre Krishna e Arjuna", de João Falcão, recebeu críticas positivas, foi destaque na revista de programação "Time Out" e já tem encenações privadas agendadas antes da volta ao Brasil - onde a dupla já articula para montar o espetáculo. Desta vez, claro, em português. - O objetivo era o desafio por si só, atuar em outra língua com um público que não te conhece, em outro país, produção nossa, tudo isso já faria a gente pulsar mais como artista - diz Livia, que esteve recentemente no ar na TV brasileira na novela "Saramandaia" e na série "Oscar Freire 279". Inspirado no "Bhagavad Gita" - o sagrado texto da filosofia hindu, e um dos maiores clássicos da espiritualidade no mundo -, o espetáculo ficou em cartaz de 22 de maio até o 7

8 último domingo no charmoso teatro Latea, no Lower East Side. A direção é do próprio Bianchi, que assistiu à primeira montagem da peça, comandada pelo autor em 2007, no Rio, com Alinne Moraes e o baiano Osvaldo Mil no elenco. - Gosto de temas ligados à busca espiritual. Além disso, a peça é um diálogo entre dois personagens com duração de apenas uma hora, e eu já andava querendo me expressar em outras formas artísticas além da interpretação. Achei que seria uma boa chance para me arriscar na direção - conta o ator, cujo último trabalho tinha sido na série de TV "Copa Hotel". Juntos há três anos, Livia e Bianchi - que se conheceram nas filmagens do longa "Paraísos artificiais", de Marcos Prado - resolveram mergulhar na conversa pontuada por questões filosóficas entre o deus Krishna e o guerreiro Arjuna enquanto tentavam levantar outra peça, "Modigliani", do americano Dennis McIntyre. A ideia de traduzir o texto de Falcão para o inglês (shakespeariano, diga-se) foi de Bianchi. - Ficou potente - comenta Livia. - Como o tema da peça é universal e nosso sotaque não seria um problema, porque estamos fazendo personagens hindus, começamos a pensar em montar fora do Brasil. Os dois visitaram diversos teatros de Nova York - onde Bianchi havia cursado o Lee Strasberg Theatre & Film Institute - em 2012 e 2013, até que fecharam com o Latea, por indicação do mexicano Mauricio Bustamante, um antigo professor. - Mas mesmo assim não foi fácil, não é qualquer teatro que aceita produção de outro país - lembra o ator. Com cenário (redondo, coberto de areia) de Francesca Alterio e Amanda Nina, som de Vic Castelli e Max Peluffo, e figurino de Paula Raia, o casal traz algum humor - e uma série de efeitos especiais - ao célebre segmento do épico "Mahabharata" que inspirou Einstein, Jung, Martin Luther King e os Beatles. Ele quer desistir de lutar; ela o estimula a enfrentar a batalha. O resultado é uma peça de cunho fantástico que encantou plateias compostas sobretudo por indianos e americanos. - Todos os dias ficavam pessoas esperando para falar com a gente. Público que não nos conhecia, e estava feliz com a montagem - comemora Livia. - O relações-públicas que contratamos, que trabalha com muitas peças off-broadway, e os coordenadores do próprio teatro também ficaram encantados com a peça. Enfim, tivemos um bom feedback - completa Bianchi. Entre a crítica independente, o retorno também foi generoso. "Esta versão oferece uma fusão cultural: uma versão brasileira de um conto indiano traduzido para o inglês para uma plateia nova-iorquina", ressaltou o "New York Theatre Review", que conclui: "'Dhrama' nos lembra do que esquecemos facilmente, remetendo às raízes e razões primordiais do teatro." O "NY Theater Now" destacou que a produção toma "riscos deliciosos". E o "New York Theatre" classificou Livia e Bianchi como "soberbos, magistrais atores", além de elogiar a direção "esplêndida" dele. "O diálogo é delgado e poético; não há longas falas que possam fazer do texto pretensioso", diz o texto. "Até o beijo de reconciliação do final, 'Dhrama' é resplendecente." A resposta animou a dupla a acionar o produtor carioca Miguel Colker, que já trabalha para montar o espetáculo no Rio. O Globo - Sem fronteiras Projeto de tradução de peças de autores contemporâneos e mostra de montagens brasileiras Em importantes festivais europeus buscam dar maior visibilidade e alcance à produção atual Luiz Felipe Reis (14/06/14) Visibilidade, reflexão estética e ampliação de mercado. São três os pilares que estruturam o projeto que irá levar uma mostra de peças brasileiras aos dois maiores eventos teatrais da Europa, os festivais de Avignon (França) e de Edimburgo (Escócia), que acontecem em julho e agosto, respectivamente. Se no ano passado o produtor Sérgio Saboya e cinco companhias do país realizaram a primeira edição do projeto no festival 8

9 escocês, agora a iniciativa se amplia, tanto pela realização da etapa francesa e pelo aumento no número de artistas participantes como pelo apoio institucional e financeiro do governo federal. "O duelo". Com a atriz Camila Pitanga no elenco, a produção irá se juntar a outras seis criações do país que vão aos festivais de Avignon e Edimburgo. No mês passado, o Ministério da Cultura (MinC) estabeleceu um acordo que garante o repasse de R$ 850 mil ao projeto. Caberá ao Ministério das Relações Exteriores executar o pagamento de parcelas desse montante aos seis artistas (ou companhias) envolvidos. Juntos, os grupos irão administrar os recursos, que servirão para pagar o aluguel dos espaços de apresentação, assim como as passagens aéreas. Despesas com alimentação, estadia e gastos com equipamentos técnicos ficam por conta dos grupos participantes. A primeira etapa da viagem acontece em Avignon. Entre os dias 4 e 26 de julho, a Armazém Cia. de Teatro ("O dia em que Sam morreu"), a mundana companhia ("O duelo"), a Cia. Caixa do Elefante ("A tecelã"), a Cia. do Meu Tio ("O sapato do meu tio") e o ator Gustavo Rodrigues ("Billdog") se apresentam no festival francês. Já entre 1º e 25 de agosto, a Cia. dos Atores se integra à turnê brasileira e apresenta duas montagens em Edimburgo, as peças "Talvez" e "Laboratorial". - Essa parceria com o governo é um avanço, porque no ano passado eu e os grupos tivemos de arcar com todos os custos, não tivemos apoio - diz Saboya. - Mas acho que a repercussão do que aconteceu no ano passado fez com que eles percebessem a importância do projeto, e entenderam que ele não poderia acabar. Países diversos vão a Edimburgo e a Avignon anualmente com mostras incentivadas pelo governo. A nossa expectativa é que isso se torne uma ação contínua do governo. Mais do que apresentar espetáculos, estamos abrindo um novo mercado. No ano passado, a Armazém Cia. conquistou o prêmio Fringe First Award, concedido pelo jornal "The Scotsman", com "A marca da água". A montagem foi elogiada também pelo "The New York Times", que a considerou "emocionante e lindamente encenada". Em 2014, o diretor Paulo de Moraes e o grupo retornam com o espetáculo "O dia em que Sam morreu". - A gente intuía que "A marca..." se comunicaria bem em outra língua, então o prêmio deu uma sensação bacana, de uma fé que se confirmou - diz o diretor. - Embora fosse um espetáculo difícil, a dramaturgia foi considerada bastante ousada. Além do incentivo à encenação de produções brasileiras fora do país, o MinC, o Itamaraty e Saboya também estão à frente do projeto Nova Dramaturgia Brasileira, focado na tradução de textos teatrais contemporâneos. A primeira etapa do projeto já foi cumprida, com o lançamento do livro "Teatro contemporáneo brasileño", que reuniu 14 obras de dramaturgos contemporâneos traduzidas pela primeira vez para o espanhol, num trabalho assinado por Carolina Virgüez. Em abril passado, o Festival Iberoamericano de Teatro de Bogotá realizou leituras dramatizadas para cada um dos textos, que foram conduzidos por atores e diretores de 14 companhias colombianas. O próximo passo é traduzir as mesmas peças para o inglês, o francês, o mandarim e o sueco, além de realizar leituras destas peças nas edições de 2015 dos festivais de Avignon e Edimburgo. - Queremos ampliar as traduções para diversos idiomas e organizar leituras guiadas por grupos estrangeiros e para audiências estrangeiras - diz George Firmeza, diretor do Departamento Cultural do Itamaraty. - Temos dois focos: a tradução de peças e a apresentação de montagens brasileiras em outros países. O grupo Amok, por exemplo, foi a Edimburgo em 2013 e agora fará turnê por várias cidades da China com apoio do Itamaraty. 9

10 Folha de S. Paulo - Atuação enérgica deixa pouco espaço a nuances Com texto condensado em 50 minutos, montagem de 'Navalha na Carne' potencializa conflito entre personagens Gustavo Fioratti, crítico da Folha (18/06/2014) Há algo que não pode ser ignorado na montagem de "Navalha na Carne" assinada por Marcos Loureiro, em cartaz em um pequeno teatro na Lapa, zona oeste de São Paulo: o tempo de duração, de 50 minutos. Com o texto de Plínio Marcos ( ) confinado em menos de uma hora de apresentação, aparentemente sem cortes, a ação dramática exige de seus três intérpretes (Anette Naiman, Fransérgio Araújo e Wilson Loria) uma posição mais enérgica em cena do que já propuseram outras encenações deste clássico dos anos De essência naturalista, o texto se arma no conflito entre três personagens oprimidos por uma realidade degradante, imposta pela condição social, mas em boa parte mantida pela baixa autoestima e pelas tentativas frustradas de recuperá-la à custa do outro. Na peça, a prostituta Neusa Sueli volta para o quarto de uma pensão, onde encontra o cafetão Vado. Eles se dão conta do desaparecimento de uma quantia em dinheiro e suspeitam de Veludo, um funcionário da casa, então chamado a entrar em cena. É na forma como um personagem procura atingir o outro, na maneira como as forças de dois deles se combinam para mobilizar o terceiro, que o texto cresce. Na primeira cena, Neusa Sueli e Vado estão em oposição. Quando Veludo chega, o casal se une contra ele. Mais adiante, Veludo e Vado estão juntos, e Neusa Sueli torna-se a parte frágil. As combinações que o autor propõe são bastante ricas, e o tempo acelerado da montagem atinge efeito paradoxal nesta raiz: a dose de violência aplicada na relação entre os personagens ganha volume em seus aspectos físicos, mas fica diluída na argamassa psicológica, com ausência de pausas e perdas de leituras. Há achados notáveis também. Em uma cena, os personagens são colocados para se engalfinhar fora do campo de visão do espectador. A opção potencializa o conflito e se torna um ponto alto nos irregulares 50 minutos de atuações enérgicas mas com poucas nuances. O Globo - Black blocs e policiais despidos de suas máscaras Peça de Luiz Eduardo Soares com direção de Marcus Faustini reflete sobre as manifestações Luiz Felipe Reis Trio. Valquíria Oliveira é uma autora, Márcio Vito um policial e Ian Capilé um black bloc; dirigidos por Marcus Faustini Foto: Divulgação/Davi Marcos (18/06/14) RIO O que há debaixo da máscara de um black bloc, ou do capacete de um policial do batalhão de choque? Que pessoa reside sob a persona? O que existe sob o corpo, para além dos personagens sociais que todos construímos desde o início das manifestações de junho de 2013? Escrita pelo antropólogo Luiz Eduardo Soares e dirigida pelo colunista do GLOBO Marcus Faustini, a peça Entrevista com vândalo estreia hoje, às 20h, no Espaço Sérgio Porto, colocando tais questões no centro do palco. 10

11 Aproximar-se da pessoa real e afastar-se da personagem social é a premissa, mas sem promessa de resposta em relação aos seres além das máscaras. O teatro, aqui, busca cumprir papel de arte, e não de meio de informação. Ou seja, não busca a síntese, o entendimento perfeito, mas ampliar as possibilidades de percepções e interpretações de tais personagens. E a estratégia adotada é humanizá-los, evidenciando complexidades e contradições que moldam esses dois protagonistas do imaginário político brasileiro. Nosso gesto político é mostrar o mundo interno desses personagens, o que pensam e sentem diz Faustini. Queremos revelar o que está por de trás da narrativa que todos nós construímos. Nós falamos muito sobre eles, mas não os ouvimos. A partir do teatro, podemos mostrar de perto o que a sociedade falou à distância e tentar, na medida do possível, conhecer ou descobrir quem são essas pessoas. Mas sem buscar a síntese. A ideia é ampliar sentidos e percepções sobre eles. Em cena, a peça apresenta personagens dúbios, que se duplicam. Num primeiro momento há o metateatro: uma escritora (Valquíria Oliveira) que se empenha em reunir um coletivo para criar uma peça sobre as manifestações. Surgem, então, um jovem black bloc (Ian Capilé) e um policial infiltrado (Márcio Vito). Para além da criação artística, eles constroem, aos poucos, um inesperado triângulo amoroso. E a dubiedade de cada um se arma como tática estética contra uma visão totalizante. Ao nos aproximarmos das pessoas, revelamos seus sentimentos, afetos, a natureza de seus conflitos internos, suas contradições e complexidades, o que torna ainda mais difícil definir o que são ou quem são diz o diretor. Expomos suas dimensões humanas e não seus discursos. Não há enfrentamento entre razão e não razão, vilão e mocinho, o que há é uma teia de complexidades em que os papéis muitas vezes se invertem, em que ora nos reconhecemos mais com um, ora como outro. O autor, que fez uma série de entrevistas em junho passado, escreveu a peça em setembro, quando a poeira baixava, mas ainda era incandescente : Queria fazer no teatro o que tentei, sem sucesso, na vida real: colocar frente à frente, sem máscaras e armas, sem pedras e fardas, adeptos da tática black bloc e policiais diz Soares. Acredito no poder do encontro. Depois da catarse, talvez todos compreendessem que compartilham a mesma indignação e que a fonte do ódio é a mesma: injustiças, iniquidades, a hipocrisia da representação política tradicional, hoje em ruínas, o desrespeito com que todos são tratados pelas instituições policiais e pelo Estado, que não cumprem suas obrigações. A Comédia Como Crítica Papéis se invertem ou se transformam do começo ao fim da peça, assim como a situação dramática e o gênero. A comédia vem à tona, e o ator Márcio Vito se despe do policial e assume o papel do governado do estado, Capilé se torna coronel da polícia, e Valquíria vira a secretária de Comunicação do governo. A comédia é um bom dispositivo de crítica, quando não é possível dar conta, criar síntese diz Faustini. Em tempos de guerra, a arte tende a assumir uma postura totalizante, e perde a oportunidade de imprimir errância, conflito, incerteza. Aí vira propaganda. Exploramos a contradição para produzir e ampliar percepções. ARTES PLÁSTICAS O Estado de São Paulo Exposição celebra a diversidade da América Latina Brasileiros são destaque de 'Sob o Mesmo Sol', em NY (14/06/14) NOVA YORK - "Ouro falso", diz o artista paulistano Adriano Costa sobre a instalação que ele criou com toalhas de banho e pedaços de plástico que, pintados de dourado, repousam geometricamente no chão do museu Guggenheim de Nova York. Aos 39 anos, o brasileiro afirma que ainda está para entender o convite que Hélio Oiticica fez 11

12 décadas atrás: "Vamos colocar a cor no espaço?". Mas, na verdade, Straight From The House - Ouro Velho, realizada em 2013, guarda, na contemporaneidade, outras muitas questões. Traz a referência ao brilho do ouro do barroco brasileiro, que nada mais é do que dominação ; fala de dinheiro e poder, que, no Brasil, considera, é uma equação oscilante e rápida. "Há pouco tempo atrás, éramos a quinta economia do mundo e agora já não mais." Condensando uma natureza solar e precária, o trabalho de Adriano Costa é um dos destaques da mostra Sob o Mesmo Sol: Arte da América Latina Hoje, inaugurada ontem em três espaços do Guggenheim nova iorquino. Com curadoria do mexicano Pablo León de La Barra, a exposição, formada por obras de 40 criadores de 15 países, será apresentada entre abril e junho de 2015 no Museu de Arte Moderna de São Paulo - e depois seguirá para o Museo Jumex, na Cidade do México. "Já não podemos falar de uma só America Latina, a representação regional não mais funciona", afirma Pablo de La Barra. "Mesmo assim, há uma série de coincidências, paralelismos, conexões históricas e contemporâneas nas sensibilidades que existem abaixo do mesmo sol", continua o curador. Sobre o título da exibição, o mexicano ainda lembra que as colônias espanholas e portuguesa eram impérios onde o sol nunca se punha". "É presente nos trabalhos dos artistas a maneira como eles respondem a essas histórias." Jogar com os clichês, expressa La Barra, foi uma estratégia para transformar conceitos sobre latino-americanos. A instalação Ya Veremos Como Todo Reverbera (2012), do mexicano Carlos Amorales, é uma das primeiras peças da exposição, um móbile de pratos de bateria suspensos a serem tocados pelo público. Alguns visitantes extravasam com a obra, outros participam mais timidamente do trabalho - existe algum humor em trechos da exposição, derivados da raiz crítica-conceitual, um caráter sensorial e sutilezas potentes como nos cartões-postais da mineira Rivane Neuenschwander em Mapa-Múndi BR (2007), sequência de imagens feitas no interior do Brasil. Mais ainda, ativismo político, a ideia de tropical como estética divergente da Europa e América do Norte", a abstração e a participação ativa do visitante são segmentos que vão costurando a mostra. Deste último nicho, o curador exemplifica sua escolha pela instalação Cartazes para o Museu do Homem do Nordeste, que o alagoano residente no Recife Jonathas de Andrade exibiu no ano passado no Brasil com grande sucesso. O espectador é convidado a rearranjar as peças do trabalho, que trata de miscigenação e resgata conceito do antropólogo Gilberto Freyre. Do Brasil, Sob o Mesmo Sol, em cartaz até outubro e que também apresenta programação de filmes, coloca ainda a presença de Paulo Bruscky, Tamar Guimarães, Erika Verzutti, Carla Zaccagnini - as participações do sueco Runo Lagomarsino (em Contra Tempos, ele registrou, na marquise do Parque do Ibirapuera, rachaduras na forma do mapa da América Latina, numa reflexão sobre a modernidade) e da francesa Dominique González-Foerster podem ser consideradas brasileiras também, já que os artistas vivem em São Paulo e Rio, respectivamente, há tempos. De outros países latinos, há trabalhos, por exemplo, das argentinas Marta Minujín e Amalia Pica, dos mexicanos Gabriel Orozco e Damian Ortega, dos cubanos Wilfredo Prieto e Tania Bruguera, do venezuelano Javier Téllez e do chileno Alfredo Jaar. A seleção preza, afinal, a mistura de criadores de diferentes gerações. Aquisição. A exposição de arte da América Latina integra o projeto Guggenheim UBS Global Art Initiative, que já "mapeou", em 2012, o Sul da Ásia com mostras que foram apresentadas em Nova York, Cingapura e Hong Kong, e depois, em 2016, será dedicado ao Norte da África e Oriente Médio. Mas, mais do que as exposições, o programa promove a aquisição de todas as obras participantes para o acervo do museu norte-americano. 12

13 Trabalhos de jovens entram, assim, para a coleção da prestigiada instituição, como também os de criadores de trajetórias exemplares nas décadas de 1960, 70 e 80. Era muito importante mostrar que há uma pré-história das práticas conceituais contemporâneas, afirma Pablo Léon de La Barra. "Muitos dos artistas da exposição haviam estado nos EUA trabalhando durante esses anos, exilados de seus países por causa da situação ditatorial ou repressiva dos governos." "Em Nova York encontraram um solo fértil para desenvolver seus trabalhos em diálogo com a cena artística do momento", continua o curador. Ele acredita que criadores como o chileno Juan Downey" desapareceram desta história escrita desde os EUA". Mais ainda, muitos deles foram bolsistas da família Guggenheim, como Luis Camnitzer e Paulo Bruscky. O pernambucano, por exemplo, participa de Sob omesmo Sol com um de seus históricos anúncios publicados nos classificados de jornais, feito em 1982, nos EUA, com Daniel Santiago. A dupla solicitou a colaboração das pessoas com propostas para uma composição de nuvens coloridas para o céu de Nova York. Era a Air Art, naquela época. Mostra será exibida em São Paulo em abril de 2015 Depois da América Latina, o foco do projeto Guggenheim UBS Map vai se voltar para a arte do Norte da África e do Oriente Médio. As mostras derivadas da iniciativa ocorrerão a partir de 2016, mas a região escolhida envolve um tema polêmico referente à instituição americana, a construção bilionária de uma filial do museu na ilha de Saadiyat, em Abu Dhabi. Nos últimos anos, a obra, anunciada em 2006, com projeto do arquiteto Frank Gehry, vem recebendo duras críticas. Artistas, como o libanês Walid Raad e os membros do grupo Guerrilla Girls, têm sido expoentes recentes de protestos contra as denúncias de violações de leis trabalhistas relativas ao projeto. Todos estão preocupados em trabalhar corretamente, não importa onde estivermos", diz Richard Armstrong, diretor do Museu e Fundação Solomon R. Guggenheim. "No caso de Abu Dabi, estamos trabalhando com o governo no sentido de fazer mudanças nas leis de trabalho, estabelecendo um novo modelo para a região", completa. Sobre o Brasil, o diretor afirma que a estratégia da instituição é aumentar as parcerias - ele destaca como último destaque de diálogo com o País a exposição Brazil: Body and Soul, em A itinerância da mostra Sob o Mesmo Sol: Arte da América Latina em abril de 2015 para o Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo é a primeira ação nesse sentido. "É uma cidade de grande público e sabemos que teremos profissionais importantes nas aberturas da exposições, possíveis futuros parceiros, diz Armstrong. Avesso a falar do orçamento do projeto Guggenheim UBS Map, que inclui a compra das obras expostas - da Ásia, foram 26; de arte latino-americana, 50 -, ele declara que a maior parte das despesas da mostra no MAM será do patrocinador americano. Folha de S. Paulo - Mostra em NY traça o mapa da arte latina Fundação Guggenheim expõe obras de 40 artistas de 15 países; um dos destaques é o alagoano Jonathas de Andrade Os trabalhos expostos serão adquiridos e exibidos depois no MAM, em São Paulo, em abril de 2015 Marcos Augusto Gonçalves de Nova York (17/06/14) Numa performance encenada --e filmada-- na fronteira das cidades de Tijuana, no México, e San Diego, nos EUA, o artista venezuelano Javier Téllez planejou um clímax circense e ao mesmo tempo subversivo: o arremesso de um homem-bala do território mexicano para o norte-americano, por cima do muro erguido para conter a passagem de imigrantes. Intitulado "Bala Perdida", o vídeo, de 2005, pode agora ser visto no Museu Guggenheim, em Nova York, na mostra "Sob o Mesmo Sol - Arte da América Latina Hoje", inaugurada no último fim de semana. 13

14 A exposição reúne trabalhos de 40 artistas de 15 países do continente, entre os quais o Brasil --representado por Erika Verzutti, Rivane Neuenschwander, Tamar Guimarães, Jonathas de Andrade, Adriano Costa e Paulo Bruscky. "Sob o Mesmo Sol" marca uma nova política curatorial, em parceria com o banco suíço UBS, que tem por objetivo dar mais visibilidade à arte do continente (além de outras regiões do mundo) e integrá-la à coleção do museu. Todas as obras foram adquiridas e serão exibidas posteriormente no Museu Jumex, do México, e no MAM de São Paulo --em abril de "Temos uma oportunidade de redesenhar o mapa artístico e cultural das Américas, eliminar fronteiras e criar novas relações entre os diferentes centros", afirma o curador Pablo León de la Barra. Ele conta à Folha que a exposição foi fruto de um ano de trabalho e de muitas viagens para visitar museus, ateliês e espaços alternativos. "Eu já tinha uma experiência anterior com a arte latino-americana e conhecia parte dos artistas escolhidos, que fazem, a meu ver, um trabalho inteligente e de qualidade", diz ele, que é mexicano. NORDESTE Além da produção mais recente, De la Barra também quis mostrar obras de artistas ligados às décadas de 1960, 1970 e 1980, "muitos deles que viveram ou foram exilados nos Estados Unidos, em períodos de dificuldades políticas em seus países". É o caso dos argentinos David Lamelas e Marta Minujín, do chileno Juan Downey ou do brasileiro Paulo Bruscky. Um dos destaques da exposição é o artista alagoano Jonathas de Andrade, com o seu projeto "Cartazes para o Museu do Homem do Nordeste", que ganhou uma sala à parte. Numa ação feita à margem do museu nordestino, criado na década de 1970 pelo sociólogo Gilberto Freyre, Andrade colocou anúncios em jornais convocando interessados em posar para fotos que, supostamente, passariam a fazer parte do acervo da instituição. Muitos responderam e o processo todo, dos classificados aos pôsteres, passando por textos e depoimentos, transformou-se numa instalação --que já foi exibida em São Paulo e está também agora na Bienal de Dacar. Apesar das ambiguidades do Brasil em relação a seus vizinhos hispânicos e das dificuldades em relação aos Estados Unidos, De la Barra reforça a ideia de que os países do continente têm muito em comum. "Não gosto de pensar em termos de limites e divisões", afirma ele. "Apesar das contradições, dos conflitos e de algumas especificidades que ainda devem ser reconhecidas e valorizadas, nós realmente vivemos sob o mesmo sol." Ao menos no terreno da arte, o metafórico homem-bala da performance de Téllez pode circular livremente pelas fronteiras das Américas. Correio Braziliense Um excesso de delicadeza já é uma brutalidade / Entrevista / Clarice Gonçalves Nahima Maciel (15/06/14) A delicadeza e a perversidade estão muito próximas na pintura de Clarice Gonçalves. Entre as duas, a fronteira é tão tênue quanto na vida e esse fato carrega uma tensão que motiva a artista. Na pintura de Clarice, a vida é fundamental e ela não faz concessões quando se trata de passar horas diante do cavalete. Aos 28 anos, a artista formada pela Universidade de Brasília (UnB) e moradora de Taguatinga critica a maneira como o mercado de arte se organiza, as redes de relacionamentos que se sobrepõem à obra e o lugar de inferioridade ao qual a arte brasiliense ainda é relegada no cenário nacional. Em seu ateliê, na varanda da casa na qual mora, em Taguatinga Norte, Clarice conversou com o Diversão & Arte. 14

15 O que te motiva a pintar? Costumo dizer que é uma necessidade que tenho de traduzir os meus anseios através da imagem, é a minha forma de diálogo com o mundo, é a forma como eu digiro as coisas que eu vivo. De outras formas eu não teria meios de comunicar essas experiências. Não que procure passar uma mensagem por meio da pintura, mas é uma incitação através da imagem. Sem a vivência da vida cotidiana, das pessoas da rua, a pintura não tem muito assunto, fala de uma realidade muito mental e racional e fica uma piada interna só pra pessoas que estão em um mesmo meiozinho. Eu gosto de estar em um âmbito mais do mundo, de qualquer pessoa. Quero que qualquer pessoa que acesse a minha arte, acesse alguma coisa a partir da sua vivência. Por isso a figuração é importante para você? A figuração é um caminho, um percurso. Existimos nesse planeta através de um corpo, todos os nossos aprendizados estão em nosso corpo. Quer a gente queira ou não, por mais que a mente não acesse. Então, eu acho que o corpo carrega essa potencialidade de você se espelhar. Uma atenção, uma percepção, uma movimentação do corpo tem a capacidade de expressar o humano, que também é o espiritual. A figuração é meio isso, também. Pode fazer um contraponto entre a delicadeza e a perversidade na tua pintura? Pra mim, isso é quase sem fronteiras. A vida é assim. Isso é muito do humano, que tem essas duas potencialidades muito fortes. São sentimentos ambíguos. Um excesso de delicadeza já é uma brutalidade. Os dois excessos podem levar para o outro lado, tudo depende muito do ponto de vista e da vivência. Na pintura, gosto de abordar isso como uma questão da vida. A vida tem altos e baixos e esse é o tempero da vida. Você está sempre em contato com coisas doces, coisas perversas e amargas. Sem esses contrapontos a vida fica sem graça. Do que você tem medo? Tenho medo de ficar me repetindo em termos de pintura. Tinha medo de que a obra não fosse compreendida. Não é que queira passar uma mensagem através da pintura, mas você tem intenções que ficam subentendidas na imagem quando você faz a pintura. E eu respeito muito a vivência de quem vê. Não vou impor o que a pessoa deve ver: Nem dizer: Se você não entendeu, você não tem vivência e estudo suficientes para entender a minha obra. Não concordo com isso. A parte mais importante do trabalho é quando qualquer pessoa pode captar a intenção da obra. O meu medo é a possibilidade de isso não acontecer. É um medo constante. Você já sentiu resistência ao teu trabalho exatamente por ele ter esse acesso direto às pessoas? São resistências sutis. São barreiras quase invisíveis quanto à presença feminina na arte. É uma sutileza, em que você não é chamada para uma coisa, não é convidada para outra. O importante é não trazer isso para o trabalho. O trabalho não tem nada a ver com isso. A obra precisa estar pronta e você deve saber como alcançar o que você quer com ela. E, às vezes, você não conseguir o que procura é sua melhor relação artística. Já fiquei muito revoltada de não conseguir chegar a alguns patamares que nem meus colegas e vi que isso é assintomático de um sistema de arte brasileiro específico. Isso é fruto de uma sociedade machista, basta olhar qualquer lista de artistas premiados: você pode contar nos dedos da mão as artistas mulheres, principalmente, as que têm origens mais humildes. Eu arco todos os dias com as minhas escolhas. Preferi ficar mais afastada desse mercado, me aproximando cada vez mais do circuito artístico, estando cada vez mais perto do meu público e não só do meio artístico das artes visuais, mas do cinema, do teatro. Esse é um reconhecimento mais forte. A arte contemporânea é elitista? Acho que sim, mas tem muita coisa que é excelente. A arte contemporânea é elitista no sentido de que se supõe que para a análise dessas obras a pessoa precisa ter um preparo, um estudo prévio, um percurso de fruição de arte e de leitura para ver a obra. É que nem 15

16 você dizer que alguém não tem ouvido para ouvir a música. Para mim, é tudo muito corpóreo. Se você tem olho, você vai ver. Você tem tato, audição, olfato? Então, você vai conseguir perceber a obra. Se você tem isso tudo e não consegue, pode ser algum problema com o método de construção da obra. O feminino é importante no seu trabalho? Por quê? Para mim, o feminino é a parte mais importante do meu trabalho. A cada dia tento me engajar mais a respeito disso. Saiu um relatório da ONU dizendo que nascer mulher define a existência social. Estamos há milênios sofrendo mutilação genital, casamentos na infância, milhares de opressões e massacres, mortes, feminicídios e a coisa continua acontecendo. Sou mulher, sou mãe, não posso dizer que essa realidade está longe. Sinto isso na pele, eu me revolto, como se estivesse acontecendo comigo, com a minha mãe, com qualquer pessoa. Não entendo como as pessoas não conseguem ter esse tipo de reação. Existe um feminino coletivo. E esse feminino coletivo vem muito forte na hora que você vira mãe. Sempre tratei do feminino nas minha pinturas, mas para mim a maternidade é uma questão ímpar. E ao mesmo tempo é um momento social muito delicado e doloroso. Você deixa de ser um indivíduo para o estado, você escuta coisas que você não quer, que você está inadequada, que sua barriga não está do tamanho adequado, que o bebê não vai nascer saudável. Nada é suficiente para a mulher. Mas a maternidade é o ponto mais sensível, é um papel social, é um papel de todo mundo. A maternidade mudou a sua pintura? Mudou, porque não estou pintando. Estou escrevendo bastante, fiz uns esboços, mas o ateliê está parado. Parei tudo para curtir o meu filho o máximo que posso. Maternidade é isso mesmo. Parei com a pintura mais por uma questão de dar tempo ao tempo. É um processo de cura e cicatrização mental, espiritual. Nos primeiros meses de gravidez, fiquei pirada. Virei outra pessoa. Pensei como é que ia para a pintura agora, as coisas que queria pintar não faziam mais sentido. Fiquei com medo, mas agora não. Você está em busca de uma nova pintura? Não, ela já está aqui. Estou só me preparando para ela. Mas não chega a ser uma busca. É só uma questão de conseguir delimitar espaços. Quando estou em casa, não consigo não ficar com o meu filho. Como não se render ao mercado? É uma postura ideológica. Não sei direito aonde quero chegar, mas não é a qualquer preço, não quero lidar com pessoas difíceis. Sou simples e gosto de ter relações simples, claras e abertas. E o mundo da arte é muito hermético, afasta o artista do espectador, o coloca no ilusório patamar de superioridade que, na verdade, não existe. Ele é só a base da pirâmide, é só a mão de obra que desenvolve a coisa. E por cima se desenvolve uma série de escadas, galeristas, curadores. Existe mercado de arte em Brasília? Existe. É um mercado bem conservador, é misterioso, porque você não vê o público desse mercado em abertura de exposições. É uma coisa que não dá para saber onde acontece, mas acontece. A presença do SP Arte aqui foi muito positivo. Mostra para as pessoas um panorama do que está acontecendo em relação às galerias. E tem essa questão das precificações: se você vende por um preço X em São Paulo e no Rio de Janeiro, aqui você é obrigado a vender por um preço menor. É como se os artistas daqui não fossem tão bons. Os padrões são todos muito subjetivos. É questão de gosto e de achismo de quem tem uma certa relação de poder para falar, por exemplo, que aqui não tem arte. Ainda tem essa questão de salões que têm cotas: 70% do Rio de Janeiro e São Paulo, o resto é para o resto do país. Acho que é uma relação injusta, porque são oportunidades diferentes. E se eu me inscrever com um endereço de São Paulo, eu posso concorrer? O que isso significa? 16

17 Isso quer dizer que a obra não tem importância nenhuma. Se você mostrar um portfólio, eles vão olhar para o design, a formatação, a fotografia. Ninguém olha de verdade o trabalho. No mercado, existem essas dificuldades, são muitos pré-requisitos que eu não entendo. Para mim, a obra é a primeira coisa. Esse mercado é desumano, massacra o artista. E as pessoas estão mais preocupadas em serem artistas e se manterem artistas. Não estão preocupadas com a obra nem com a produção nem com outros artistas. Um mercado melhor seria construído por renúncias. Se cada um renunciasse a um cargo que não é justo, as coisas começariam a melhorar. O artista teria um pouco mais de respeito e de visibilidade. A fotografia é essencial para seu trabalho. Ele existiria se não houvesse a fotografia? Pode ser que sim. Antes de entrar na UnB, eu fazia umas pinturas sem referência fotográfica, tinha um cunho meio naïf. Mas não foi só a fotografia, e sim o estudo de modelo vivo que fez muita diferença. A fotografia é um flash de um sentimento. Por isso, ela é importante, não tanto pela fidedignidade à imagem, é a sensação, essa aura, esse cenário, o contexto dentro da imagem. Correio Braziliense A dama das formas e cores Aos 100 anos, Tomie Ohtake assume o Brasil como pátria e exerce com muito vigor a arte que a consagrou Vanessa Aquino (15/06/14) Lacônica, com a objetividade e golpes precisos, próprios dos samurais, a artista plástica Tomie Ohtake conversou com o Correio sobre a interferência do ambiente em seu processo criativo. No Japão, onde nasceu em 1913, ela desenhava constantemente, já que as artes naquele país têm grande importância na educação. Nesta época da infância, desenvolveu habilidades e apurou o olhar. No Brasil, ficou impressionada com a intensidade da luz amarela e focou na representação de paisagens e retratos. Com o passar dos anos, a obra de Tomie sofreu diversas modificações, e a artista assumiu o abstracionismo como forma de expressão, pela profundidade, pureza e, segundo ela, liberdade de interpretação. A artista dá nome ao Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo complexo que integra cultura, trabalho e lazer. Com os filhos Ruy e Ricardo, deu ao espaço a mesma expressão contemporânea de sua trajetória. Exposições, oficinas, cursos, debates e publicações, além de reflexões sobre as grandes transformações ocorridas desde os anos 1950 até os dias de hoje, alimentam o Instituto. Atualmente, o espaço abriga a mostra Obsessão infinita, de Yayoi Kusama. Falar do instituto é um dos prazeres de Tomie Ohtake. Ela diz ver frutos dos trabalhos de produção e conhecimento. Jovens desenvolvem habilidades que, segundo ela, estão mais ligadas à questão mental que à manual. Um dos fundamentos do Instituto é aproximar o público do leigo ao mais sofisticado de conceitos relacionados com as principais modalidades contemporâneas, por meio de um programa educativo que envolve cursos de história da arte, pintura, gravura, literatura, filosofia, cinema e música. Ponto a ponto / Tomie Ohtake Contemplação Como eu sou uma artista abstrata, não procuro retratar a natureza. O que chamam de estado de reflexão sobre meu trabalho não é proposital. Flui naturalmente, subjetivamente, sensivelmente. Quem tiver sensibilidade pode decifrar meu trabalho. Várias pessoas já o fizeram. 17

18 O traço É mais um elemento formal que aparece no trabalho, como as formas, os círculos e as manchas, por exemplo. A arte representa uma oportunidade que permite aproximação. Eu sempre estive próxima disso. Merleau-Ponty, por exemplo, esclareceu a questão da existência na obra de arte, que é uma marca do meu trabalho. Diálogo com o meio Os locais onde estive influenciaram minha trajetória. Se tivesse vivido na Amazônia, algumas etapas da minha trajetória, seriam diferentes. A floresta tem uma força diferente da cidade. Brasil Eu comecei a pintar sistematicamente com 40 anos, aqui no Brasil, muito tempo depois de ter vindo do Japão. O Brasil é o meu país, embora tenha nascido no Japão e ter forte formação japonesa. O artista brasileiro que mais chama minha atenção é Volpi. No Brasil, não foi a paisagem, propriamente, que mais me impressionou, mas a luz que incide na paisagem. Abstracionismo A arte abstrata é mais profunda, pura e permite que se imagine muita coisa nos trabalhos. As cores e formas do mundo são referências com as quais sempre dialogamos e portanto deveriam estar presentes em tudo que fazemos, mas não, descobrimos outras coisas. Há coisas novas e surpreendentes de alta qualidade e lindas sendo produzidas na arte contemporânea de um modo geral. O meu processo criativo é mental e emocional, ao mesmo tempo, mas acredito que é mais mental. A arte é um processo mental e manual. Há, no Instituto, por exemplo, jovens que trabalharam a questão mental, o que resultou na formação de artistas, mais do que os do caminho manual. No Brasil, não foi a paisagem, propriamente, que mais me impressionou, mas a luz que incide na paisagem O Globo online Com 110 artistas, mostra no Rio propõe novo olhar sobre história da arte Exposição artevida, com curadoria de Rodrigo Moura e Adriano Pedrosa, ocupará quatro espaços na cidade. Audrey Furlaneto (17/06/14) RIO - Ao espalhar 300 obras de arte pelo Rio, os curadores Rodrigo Moura e Adriano Pedrosa têm um projeto ambicioso: inverter a angulação da história da arte leia-se: partir de matrizes brasileiras, e não europeias ou norte-americanas, para buscar conexões com a arte produzida globalmente. O que os dois querem é observar artistas e suas criações a partir de filtros próprios, fora do eixo, algo que, dizem eles, ainda não foi feito no país. Assim, a partir de 27 de junho na Casa França-Brasil, no Parque Lage e na Biblioteca Parque Estadual e de 19 de julho no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio, a exposição artevida reunirá, até 21 de setembro, 110 artistas entre brasileiros e nomes sobretudo do Leste Europeu, do Sudeste Asiático, da Índia, da África e do Oriente Médio não para estabelecer uma tese, mas para propor um exercício: e se observarmos a história da arte a partir do Brasil? 18

19 Isto porque, explica Pedrosa, as narrativas hegemônicas vêm se apropriando das narrativas periféricas. As vanguardas brasileiras, por exemplo, despertam cada vez mais interesse, mas são lidas a partir de referências eurocêntricas, do construtivismo ou do minimalismo. Nas grandes exposições internacionais dos últimos 15 anos, segue o curador, houve montagens como Global minimalism, Global pop ou Global conceptualism, mostras organizadas nos Estados Unidos e na Europa para observar o minimalismo, as artes pop ou conceitual. Essas são as rubricas deles (dos europeus e dos norte-americanos). Eles não vão fazer Global dictatorship (referindo-se à ditadura), Global violence (tratando da violência) ou Global censorship (sobre a censura). Isso nós é que temos de fazer. Então, nossa política é muito no sentido de olhar para essas relações: a relação da ditadura, da opressão, da censura e da margem. O que temos em comum com o Sudeste Asiático, com a Índia, com o Leste Europeu? (A resposta) Passa muito por esses temas de eleições, censura, violência, racismo, feminismo afirma Pedrosa. O curador foi convidado para o projeto pela Secretaria de Estado de Cultura do Rio, em 2011, quando assinava a 12ª Bienal de Istambul. À época, a secretaria lhe informou sobre a intenção de fazer uma grande exposição no Rio envolvendo equipamentos do Estado. Após aceitar a proposta, Pedrosa convidou Rodrigo Moura, diretor de programas artísticos e culturais do Instituto Inhotim, em Minas, para dividir com ele a tarefa. Ambos têm o perfil de circular fora do eixo e pesquisar artistas na África, no Leste Europeu ou no Oriente Médio, a fim de sair dos nomes óbvios. Outros pesquisadores de arte, afirma a dupla, pouco conhecem ou mesmo desconhecem os nomes convidados para artevida. Há artistas do Líbano, do Paquistão, da Turquia, da Hungria, do Japão, da Argentina, do Peru, da Alemanha, entre outros países. É claro que tem (artista) americano e europeu ocidental, mas a exposição tem foco em América Latina, em mundo árabe, Ásia, um pouco de África e também em artistas mulheres. Existe esse foco deliberadamente. Como estamos tentando propor outras hipóteses, outras narrativas, também estamos evitando os grandes nomes mais canônicos explica Pedrosa. Rodrigo Moura explica que a mostra não ignora o minimalismo ou o abstracionismo geométrico, por exemplo. Mas, se esses movimentos são tradicionalmente vistos como supressão da vida, assepsia e limpeza, nas palavras de Moura, serão tratados na exposição a partir da ideia de vida, por meio de elementos como tecido, trama ou linhas orgânicas. A ideia é explorar as vanguardas brasileiras dos anos 1960, 1970 e 1980 que se desenvolviam com ênfase no Rio, com Lygia Clark e Hélio Oiticica e conectá-las a outras produções do Hemisfério Sul. Assim, o trabalho que a alemã Annegret Soltau fazia nos anos 1970, cobrindo o próprio rosto com um emaranhado de linhas, relaciona-se com obras que a italiana radicada em São Paulo Anna Maria Mailiono criava, com barbantes, no mesmo período. Ambas as artistas terão obras na Casa França-Brasil, onde fica o segmento denominado pelos curadores como artevida (corpo). Estarão lá também experiências com a articulação dos planos, feita por Lygia Clark com os Bichos, e por artistas como Mathias Goeritz ( ), alemão que viveu no México e criou esculturas com dobradiças, bem como Clark. Nessa linha curatorial, há trabalhos de artistas brasileiros notórios por abordar a política em suas produções (nomes como Cildo Meireles, Carlos Zílio e Artur Barrio, entre outros). As obras deles se relacionam com outras como, por exemplo, Painting for poster 1977 First of May (In that bloody celebration 36 people lost their lives with gun fire from the police), da artista turca Gülsün Karamustafa, que costuma tratar de imigração, exílio e deslocamentos. Para Pedrosa, a possibilidade de reunir tal produção cabe ao Brasil, país com sistema de arte com maiores recursos e mais desenvolvido dessa região (fora do eixo da Europa e dos Estados Unidos). Não existe uma cena de arte com instituições e recursos tão desenvolvidos como a nossa no mundo Sul global. Não há (tal cena) na África do Sul, na Índia, em outro país da América Latina. Esse é um papel que tínhamos que assumir, porque nós temos os recursos e as instituições diz o curador. É preciso ter o desejo, e não apenas ficar fazendo 19

20 exposições dos grandes mestres modernos europeus, como com frequência a gente vê. Isso é importante também, mas é importante fazer pensar que nós temos conexões com a África, com o Oriente Médio, e que ninguém nem sabe. Mais Dois Segmentos Na Biblioteca Parque Estadual, na Avenida Presidente Vargas, a mostra se desdobra em artevida (arquivo) e tem cocuradoria de Cristiana Tejo. Lá, será exposta parte dos arquivos de Paulo Bruscky (com abertura em 27 de junho) e de Graciela Carnevale (a partir de 19 de julho), membro do Grupo de Arte de Vanguardia de Rosário, na Argentina. De Bruscky, artista que vive em Recife onde guarda cerca de 70 mil documentos, entre livros de artista, arte postal, revistas, convites de mostras etc. virá ao Rio uma seleção de 400 itens, a serem expostos em vitrines temáticas distribuídas pela Biblioteca Parque Estadual. A Escola de Artes Visuais do Parque Lage, por fim, receberá a única obra criada especialmente para a exposição o artista do Benim Georges Adéagbo, que já participou da Bienal de São Paulo (em 1998), prepara uma obra para as Cavalariças do Parque Lage (a abertura será em 19 de julho). Também estarão no parque obras da japonesa Tsuruko Yamazaki, do grupo Gutai, e da brasileira Martha Araújo (estas duas com inauguração em 27 de junho). Os gastos do orçamento da exposição (de ao todo R$ 4 milhões), conta Pedrosa, foram concentrados no transporte das obras na maioria dos casos, os trabalhos foram negociados diretamente pelos curadores com seus autores e vêm de 23 países rumo ao Brasil. A ideia é justamente ampliar o repertório das pessoas. Trabalhamos com perspectiva de outras latitudes e, forçosamente, vamos trazer artistas menos conhecidos. Essa é a graça diz Rodrigo Moura. O Globo - Djanira, de boia-fria a uma das maiores pintoras do país Artista que faria 100 anos é tema de exposição e tem história relembrada Audrey Furlaneto Autodidata e convicta. A pintora em 1967: A maturidade não se força. Tudo o que fiz foi em lenta prepação. Graças a Deus não sou habilidosa (14/06/14) RIO - Djanira trabalhou em lavoura de café, em criação de gado, em cozinha de família, foi modista, chapeleira e costureira antes de tocar num pincel pela primeira vez quando, aos 23 anos, em 1937, internada num sanatório para se tratar de tuberculose, viu na parede um desenho de Jesus Cristo e brincou: Isso até eu faço. Saiu do hospital para morar em Santa Teresa e lá abriu uma pensão. Assim, vivia de costurar para damas cariocas e alugar quartos para artistas mas se fechava na cozinha à noite, quando todos dormiam, para desenhar. Aos poucos, em seu ateliê de costura, moldes de saias, rendas, fitas e retalhos conviviam com incontáveis desenhos sobre papel. Num depoimento ao Museu da Imagem e do Som (MIS) em 1967, ela se lembrou daquele tempo: Uma moça da Suíça francesa me pediu para lhe fazer um vestido, chegou ao meu ateliê, viu aquela porção de desenhozinhos na parede e perguntou: De quem são?. Eu disse: São meus. Ela: Não, eu quero saber quem fez. Eu disse: Fui eu. E ela: Então você é uma artista!. Eu falei: Não, isso é brincadeira minha. A moça lhe apresentou o pintor Emeric Marcier ( ), que, diante dos desenhos de Djanira, manteve o diagnóstico: Você é artista. Ela reclamou: Não queria que ninguém 20

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