Entrevista / Ricardo Amorim por Roberto Ferreira / Foto Victor Andrade

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1 Entrevista / Ricardo Amorim por Roberto Ferreira / Foto Victor Andrade 28 r e v i s t a revenda construção entrevista_ed.indd 28 14/05/10 22:05

2 País rico e já estável era rricardo Amorim, economista formado pela Universidade de São Paulo e pósgraduado em Administração e Finanças Internacionais pela ESSEC (École Supérieure des Sciences Economiques et Commerciales) de Paris, é um dos apresentadores do programa Manhattan Connection da GNT desde Membro do Business Affairs Committee, o mais prestigiado comitê da Câmara Americana de Comércio de São Paulo. Ricardo tem presença destacada na indústria financeira mundial há 17 anos. Atualmente, é presidente da Ricam Consultoria, aconselhando grandes clientes no Brasil, América Latina, Estados Unidos, Europa e Ásia em projetos financeiros e de investimentos. Já esteve em mais de 60 países e é frequentemente entrevistado pelas principais redes de televisão, jornais e revistas do mundo, incluindo New York Times, CNN, BBC, Financial Times, Wall Street Journal, Time Magazine, Newsweek, entre muitos outros. Nesta entrevista exclusiva para a revista Revenda, ele fala da crise financeira mundial e como o Brasil pode ser afetado. Revenda A crise na Europa é séria? Ricardo Amorim País rico e estável já era. Agora, os países mais estáveis é que são ricos. E entre eles posso citar os membros do chamado BRIC, Brasil, Rússia, India e China, que vão sofrer menos com as crises mundiais. A demanda por commodities aumentou muito, principalmente depois que a China investiu bilhões de dólares nos produtos básicos. Isso gerou uma demanda muito grande dos países emergentes, gerando menos inflação e taxas de juros mais baixas. A grande vantagem do Brasil é a qualificação da mão de obra. Os maiores riscos continuam vindo dos Estados Unidos e a preocupação maior é a Inglaterra. Como os principais eixos do crescimento mundial atual, China e Índia, são países ainda muito pobres, populosos e em estágio de migração de economias rurais para urbanas, a demanda mundial por commodities agrícolas, minerais e de energia explodiu e vai continuar em forte elevação nas duas próximas décadas, favorecendo as exportações brasileiras e o interior do país em geral. Por outro lado, superávits comerciais crescentes no Brasil e fragilidades da economia americana levarão o dólar a continuar a cair, impactando negativamente as exportações da indústria e forçando-a a se voltar mais para vendas domésticas, favorecendo o setor de varejo e de serviços. Revenda E como fica o Brasil? Ricardo Amorim Estamos atravessando um bom momento, com estabilidade cambial, juros controlados e em ritmo de crescimento, projetando um PIB de 4,5 a 6%. Não estamos imunes às crises mundiais, mas temos um pouco mais de conforto. O crescimento é muito maior que a bolha que comecou em 2004, e o setor mais otimista é o de material de construção, com grande demanda, investimentos, geração de empregos. Enfim, vamos passar pelas tempestades. Revenda Muitas empresas brasileiras, principalmente do setor de construção, investiu nos Estados Unidos antes da crise, apostando no mercado consumidor deles. Você acha que correm risco? Ricardo Amorim Não acho que a crise americana esteja afetando estas r e v i s t a revenda construção 29 entrevista_ed.indd 29 14/05/10 22:05

3 Entrevista / Ricardo Amorim Suas palestras são concorridas empresas, grandes empresas, por sinal. O mercado vai retomar e estas empresas vão se sair bem, pois conhecem cada vez mais o mercado norte-americano. O Brasil é a aposta do momento, mas não vai ser eterno. Tem outros lugares no mundo que também são atrativos para investimentos e deverão crescer. Mas temos que aproveitar a entrada de investimentos chineses no Brasil e alavancar ainda mais a economia. Revenda Somos um país das oportunidades? Ricardo Amorim Desde a virada do milênio, o centro de gravidade da economia mundial vem saindo dos Estados Unidos e Europa e indo em direção à Ásia e mercados emergentes. A crise financeira global intensificará, e muito, este processo nos próximos anos. O Brasil se beneficia desta transformação, sendo alçado a uma posição de liderança global em razão de um boom na demanda de produtos em que somos muito competitivos e um aumento significativo da oferta de capitais para investimentos no país. Este processo criará as melhores oportunidades de negócios que o Brasil teve no mínimo desde os anos 70, em particular no setor da construção, que será o grande propulsor do crescimento brasileiro nas próximas décadas. Revenda E a Ásia também cresce? Ricardo Amorim Nas últimas décadas, a Ásia vem crescendo e continuará a crescer muito mais rápido que o resto da economia mundial. Com isso, sua participação na economia mundial também vem se expandindo. Desde a entrada da China para a Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001, a contribuição dos países asiáticos e emergentes para o crescimento mundial tem sido muito maior do que a dos EUA e Europa. Essa tendência se intensificará em 2010 e nos próximos anos com uma recuperação econômica frágil na Europa e EUA. A economia brasileira terá um ótimo desempenho enquanto a China sustentar seu crescimento com investimentos e demanda doméstica, mesmo que a recuperação nos países ricos seja lenta. Revenda Temos que exportar mais? Ricardo Amorim A melhora dos fundamentos econômicos brasileiros e dos países emergentes nos últimos anos limitará os impactos negativos que eles sofrerão mesmo que, eventualmente, a recessão nos EUA, Europa e Japão se prolongue. Nos últimos anos, as exportações brasileiras têm crescentemente migrado de destinos tradicionais para países emergentes. Já exportamos mais para a China do que para os EUA.. Revenda O Governo está sabendo lidar com essas situações? Ricardo Amorim Controle da inflação e estabilidade econômica permitiram um boom de crédito nos últimos anos que continuará e provavelmente até se acelerará nos próximos anos, à medida que os juros e as taxas de depósitos compulsórios dos bancos caiam, sustentando forte expansão da demanda interna. Além disso, inflação sob controle, aumentos reais do salário mínimo, e programas de distribuição de renda continuarão a causar um aumento sustentado da renda, principalmente entre os mais pobres, o que favorecerá a expansão do consumo, especialmente de produtos de massa e em regiões de renda mais baixa. Revenda A correlação entre o crescimento econômico do resto do mundo e o dos Estados Unidos vem caindo nas últimas décadas. Você acredita que isso é suficiente para acreditarmos na tese do descolamento, onde a dinâmica interna da Ásia, por exemplo, não seria tão afetada pela crise americana? Ou a influência americana ainda é crucial para o mundo? Ricardo Amorim - Não é possível que uma recessão na maior economia do mundo não tenha nenhum impacto sobre o resto da economia mundial. O que mudou é que o impacto nunca foi tão pequeno quanto será desta vez em função da gradual perda de importância da economia americana e ganho de importância da economia asiática que se intensificou na ultima década. Na prática, o descolamento já vem acontecendo. O crescimento doméstico asiático se acelerou nos últimos meses, apesar da desaceleração do crescimento dos EUA. Revenda A crise tem data para terminar? Ricardo Amorim - Todo ciclo econômico tem uma fase de expansão e uma de retração, seja ele impulsionado por crédito ou não. Por outro lado, crises de crédito costumam, de fato, durar duas vezes mais e ser três vezes mais profundas em termos de retração de crescimento do que crises cambiais, por exemplo. O Fed pode limitar o tamanho e a duração da crise ao oferecer liquidez financeira, mas não tem como evitá-la a esta altura. Para que isso tivesse acontecido, o Fed teria de ter sido muito mais agressivo há mais tempo, o que não era recomendável devido a preocupações inflacionárias. Revenda Em sua opinião, quais os Fotos: Divulgação 30 r e v i s t a revenda construção entrevista_ed.indd 30 14/05/10 22:05

4 Ramassol 2ª feira r e v i s t a revenda construção 31 entrevista_ed.indd 31 14/05/10 22:05

5 Entrevista / Ricardo Amorim de um período relativamente longo, fazendo com que continuem a, gradualmente, perder importância na economia mundial à medida que os paises emergentes tornam-se gradualmente mais importantes. Amorim aposta no Brasil principais obstáculos para que o capitalismo de livre mercado possa nos dar o ar de sua graça? Ricardo Amorim - A má distribuição de renda e os conflitos sociais gerados por ela criaram um campo fértil para o populismo na América Latina. Nestes paéses, se não derem a devida importância a políticas redistributivas, os liberais deixarão o campo livre para ser ocupado pelos populistas. Em países com má distribuição de renda e conflitos sociais, como o Brasil, há necessidade tanto de se dar o peixe, como fazem os populistas, quanto de se criar condições para pescar, como fazem os liberais. Em resumo, para dominar o espectro político na América Latina, os liberais precisariam lutar fortemente contra um Estado inchado e gastador, mas também reconhecer a demanda popular por políticas distributivas. Revenda O protecionismo econômico é um mal necessário neste momento? Ricardo Amorim - O risco de protecionismo econômico em períodos de recessão sempre é grande. Paradoxalmente, o maior risco vem dos EUA, tradicionalmente os líderes do liberalismo comercial. Na medida que a recessão nos EUA se aprofundar, a caça às bruxas, com os chineses sendo erroneamente convertidos em culpados deve se intensificar. No entanto, no momento atual, os EUA dependem mais das reservas internacionais chinesas para financiar os déficits fiscal e de transações correntes americanos do que os chineses do consumidor americano para comprar seus produtos. Uma venda massiva de dólares pelo governo chinês, como possível represália a um protecionismo americano em relação à China, poderia causar uma mega-desvalorização do dólar, desestabilizando ainda mais a economia americana. Em tese, governos democratas são mais suscetíveis a pressões protecionistas e menos responsáveis fiscalmente do que governos republicanos. Revenda Os principais países europeus estão com níveis elevados de endividamento sobre o PIB, um rombo previdenciário crescente e explosivo, com uma população envelhecendo rapidamente. Como você encara esses perigos? Ricardo Amorim - As fragilidades da economia européia são sérias, talvez tão sérias quanto as da americana. Em ambos os casos, as fragilidades econômicas devem manter tanto os EUA quanto a Europa com crescimento reduzido ao longo Revenda Como você avalia a atuação do governo Lula nestes tempos de crise? Ricardo Amorim - O Governo Lula teve a sorte de lidar com condições econômicas globais muito favoráveis, o mérito de avançar em políticas distributivas, o bomsenso de manter e, em alguns casos, aprofundar os pilares de estabilidade econômica herdados do governo anterior, e o demérito de não avançar quase nada na melhora de condições institucionais que permitam um crescimento mais rápido no Brasil e, em muitos casos, até piorá-las. A politização de cargos técnicos do governo e o enfraquecimento das agências reguladoras foram apenas dois aspectos importantes deste demérito. Ainda mais séria foi a expansão da carga tributária e dos gastos públicos. A expansão dos gastos sociais deveria ter sido financiada com redução de gastos administrativos do governo. Revenda A China é o país do futuro? Ricardo Amorim Sabe quantos metrôs estão sendo construídos na China neste momento? Não estações de metrô, não linhas de metrô, mas sistemas inteiros, labirintos subterrâneos cavados sob cidades com mais de cinco milhões de habitantes. Sabe quantos? Oitenta. Munido dessa informação, tente calcular quanto ferro os chineses terão de empregar em seus 80 novos sistemas de metrô. Toda uma Grande Muralha talvez pudesse ser erguida com esse ferro, não é mesmo? Bem, agora pense em quem vai fornecer o ferro para os chineses. Quem é o segundo maior produtor de ferro do mundo, abaixo, exatamente, da própria China? O Brasil. Então, o Brasil é o País. 32 r e v i s t a revenda construção entrevista_ed.indd 32 14/05/10 22:05

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