Lições para o crescimento econômico adotadas em outros países

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1 Para o Boletim Econômico Edição nº 45 outubro de 2014 Organização: Maurício José Nunes Oliveira Assessor econômico Lições para o crescimento econômico adotadas em outros países 1

2 Ainda que não haja receita única para o crescimento econômico, algumas lições de casa básicas poderiam ajudar a potencializar a expansão do Brasil, cuja economia encolheu 0,6% no segundo trimestre deste ano, segundo anúncio do IBGE feito nesta sexta-feira (29). O PIB é a soma de todas as riquezas produzidas no país, e serve para medir a evolução da economia. Com a ajuda de especialistas, o G1 levantou aprendizados de outros países que podem inspirar o Brasil. Um deles é que quem cresce deve continuar em busca de reformas e mudanças para se manter em alta lição que a Arábia Saudita cumpre à risca. Outras nações que trilham caminhos interessantes são China, Índia, Indonésia, Japão, México, Chile, Turquia e Malásia. Crescimento de 1995 a 2013 Não basta copiar iniciativas para garantir os resultados, diz Nicholas Hope, professor e diretor do Centro para o Desenvolvimento Internacional, da Universidade de Stanford, nos EUA. Você não pode pegar o que deu certo em um país e assumir que, se outros países fizerem o mesmo, o resultado será igual. O que já foi aplicado, no entanto, é uma referência, diz ele. Outra lição geral é evitar mudanças pontuais para estimular a economia, segundo Arturo Bris, professor de finanças da escola de negócios IMD e responsável pelo ranking internacional de competitividade. Mirar o crescimento do PIB em si não é um objetivo sustentável. O melhor é focar em mudanças institucionais que vão levar a isso, afirma Bris, que recomenda investimentos em infraestrutura, saúde e educação. 2

3 Para o professor de Economia do Insper Marcelo Moura, uma boa saída é apostar em modelos pró-mercado, que dão condições de investimento às empresas privadas com base em regras claras e medidas que estimulam a competitividade. 1 Poupar e investir Ter dinheiro guardado é uma estratégia de Índia, Indonésia e China, que chegam até a receber algumas críticas de serem "precavidos" demais. Os governos desses países tentam garantir que não haverá grandes déficits nas contas públicas (gastos maiores que a arrecadação). Eles essencialmente gastam o que têm, então encaixam os gastos na poupança, diz Nicholas Hope, que também foi diretor regional do Banco Mundial para China e Mongólia, parte da equipe da Indonésia e chefe da divisão de dívida externa da instituição. Com as contas equilibradas, a tendência é que a economia como um todo fique estável, uma característica supervalorizada pelos investidores, que preferem levar seu dinheiro para lugares assim. Esses povos asiáticos são apontados como "naturalmente" poupadores, mas o governo também ajudou a puxar a contenção das despesas. A China, por exemplo, passou a economizar de forma mais consistente depois da abertura econômica dos anos 1990, por perceber que o lucro das empresas estatais seria dragado pela competição com as privadas. Só nos últimos 15 anos é que se viu uma larga recuperação da poupança no país, junto com a melhora dos resultados das empresas estatais, que também passaram a poupar mais, chegando a aproximadamente metade do PIB, diz Hope. A Indonésia focou fortemente na redução da dívida pública, que está em cerca de 30% do PIB, e na limitação dos gastos fiscais para fazer o país crescer. No Brasil, a dívida bruta do país somou R$ 2,94 trilhões em junho, o equivalente a 58,5% do PIB, segundo o Banco Central. Pelos critérios usados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), a dívida bruta fechou abril deste ano em patamar bem maior: 65,8% do PIB. 3

4 Na opinião de Hope, há níveis baixos de poupança e não há balanço das dívidas do governo, fazendo com que as taxas de juros tenham de ser usadas para conter a inflação. A redução de gastos públicos poderia evitar aumentos de preços. Agora, com juros mais altos, o governo tenta diminuir a oferta de crédito e de pessoas e empresas dispostas a consumir, para que os preços caiam ou parem de subir. 2 Economia aberta e competitiva Os países do leste asiático, principalmente China e Indonésia, estimularam a competição das empresas no exterior. Se há disputa dentro de casa e não um "mercado cativo", elas têm de usar melhor os recursos e inovar para ter sucesso já dentro do país, puxando o crescimento e a produtividade. Para Hope, professor de Stanford, a grande abertura para o investimento estrangeiro é uma das razões do salto de competitividade da China em tantos setores. Japão e Coreia do Sul fizeram metade dessa lição, por isso não alcançaram o nível de competitividade desejado em todos os setores, diz. O exemplo chinês é de troca não só em recursos financeiros, mas também de conhecimento e experiência. O estímulo é feito com base em regras claras de quais tipos de investimentos são aceitos e de que forma eles devem ser feitos, o que torna ações do tipo mais fáceis e atraentes. 4

5 3 Facilitar investimentos Atrair empresas privadas é uma lição que vem sendo seguida por vários países e que tende a abrir caminho para a expansão, segundo Bris, professor da escola de negócios IMD. Indonésia e Japão entenderam que a principal força motora em qualquer desenvolvimento econômico é o setor privado. O que o setor público pode fazer é promover a regulação que gera e depois espalha a prosperidade, afirma. Segundo esta cartilha, o governo coloca regras e fica a cargo das empresas investir, inovar, desenvolver setores. O governo japonês, por exemplo, fez reformas na legislação obrigando a existência de diretores independentes nas empresas como um pré-requisito para atrair investimentos estrangeiros. Com isso, o governo determina em que moldes quer que o recurso do exterior venha. Mesmo o México, que não tem sido um grande destaque no crescimento nos últimos anos, vem simplificando as regras de investimento no setor de telecomunicações e de energia para estimular a competição. Se você olhar o que vem sendo feito nos últimos 20 meses no México, tudo vai nessa direção, diz Bris. No Brasil, investidores criticam a mudança de regras de investimento "no meio do jogo", como as isenções pontuais de impostos definidas por setores e mudanças nos contratos de concessões, como as que foram feitas no setor elétrico. Para reduzir as contas de energia elétrica, o governo condicionou a renovação das concessões à redução da margem de lucro do setor. 4 Educação O fortalecimento da educação é importante por fazer com que as empresas estrangeiras também passem a contratar mão de obra local. Além de Japão e Indonésia, o Chile é um exemplo nesta área após a reforma do ensino secundário, que facilitou o financiamento universitário para as instituições de melhor qualidade. Um dos objetivos disso é nivelar a capacidade do mercado de trabalho com a qualidade da educação. Nesse sentido, o Chile colocou em prática a 5

6 política que dá mais financiamento às universidades que mais gerarem sucesso profissional aos estudantes. Apesar de o investimento na área ser determinante para o desenvolvimento econômico, a quantia investida não é tão relevante, diz Arturo Bris. Citando dados da escola de negócios IMD, ele aponta que países que estão no topo na lista dos que mais investem em educação, como África do Sul (4º), Ucrânia (5º) e EUA (7º), não têm necessariamente a mais alta qualidade nem dão à população o mais amplo acesso. 5 Economia diversificada Junto com Malásia, Indonésia e Nigéria, a Turquia é apontada como um dos países do futuro, e está conseguindo isso por meio da diversificação da economia, segundo Bris. O país aumentou os tipos de produtos exportados e também o número de destinos das vendas, além de diminuir a dependência da Europa e da indústria têxtil, diz relatório do banco Rabobank. A Turquia tem ainda um setor de serviços forte, que se beneficia da demanda externa. Há muitos bancos europeus operando no país, que soube estruturar um ambiente atrativo para estimular o desenvolvimento e aproveitou os recursos trazidos pelas instituições. O país cresce de forma sustentada por um período relativamente grande, embora a expansão não seja astronômica. Parte disso se explica por não ser uma nação européia nem asiática, permanecendo um pouco isolada. Por outro lado, ela se beneficia por estar no lugar certo, entre Europa e Ásia, e investe em infraestrutura para aproveitar a localização. 6

7 6 Inovação Tentando seguir o modelo de investimento de países como Coréia do Sul e Japão, a Malásia baseia o crescimento, principalmente, em inovação e empreendedorismo. O número de patentes do país é baixo, mas o nível de empreendedorismo e inovação é alto, de acordo com Arturo Bris. Isso acontece porque o governo tenta garantir um ambiente estimulante para os empreendedores de o país gerar novas idéias e negócios. Uma das iniciativas é reduzir a burocracia para a abertura de empresas e os impostos dos negócios para ajudar idéias a virarem produtos. O governo também fez reformas nas leis científicas para estimular o investimento em novas tecnologias e inovações ecologicamente corretas. 7 Mudar mesmo crescendo Um país que está olhando para o futuro para criar prosperidade, a Arábia Saudita investe em diversificação da economia, investimento massivo em infraestrutura e em educação. Apesar de estar crescendo fortemente nos últimos anos, o país busca mudar o modelo por saber que nada dura para sempre, aponta Bris. Não é um país que precisa crescer agora, mas sim estar preparado para grandes mudanças, diz. O governo abriu o investimento em bolsa para estrangeiros, permitindo que os bancos locais recebam esse dinheiro. A diversificação passa pela exportação de produtos além do petróleo, que é a base da economia, e por investimentos que vão da construção ao design. 7

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