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1 O educador francês Célestin Freinet ( ) não foi quem primeiro produziu jornais escolares. Antes dele existiram experiências espontâneas de jornais escolares e estudantis. Freinet mesmo reconhece no educador belga Ovide Decroly ( ) um antecessor do uso do jornal escolar no processo educativo. Porém, é com Freinet que a proposta do jornal escola ganha amplitude e coerência, integrada como peça fundamental de um pensamento pedagógico. Por isso ele constitui a principal referência teórica para quem trabalha com jornal escolar. Em 1924 Freinet introduz na sua prática a técnica da impressão (tipografia). Seus alunos passam a produzir textos compostos por eles mesmos, que são posteriormente enviados a outras escolas, dentro de um processo de intercâmbio de produções. Essa prática foi sistematizada em 1967 no livro "O Jornal Escolar", que constitui uma referência ainda hoje. O jornal escolar é um suporte de uma experiência de vida da criança, que se mobiliza interiormente para comunicar. O jornal e cada um dos textos e desenhos publicados é uma "obra", um trabalho coletivo. Nesse engajamento, a criança mobiliza seu julgamento e criatividade. Ela constrói, assim, sua autonomia.

2 Quem era Freinet Freinet era uma pessoa com ideais socialistas. Quando inicia sua prática como professor substituto, na pequena escola rural de Bar-Sur-Loup, fica indignado com o autoritarismo do sistema e sua incapacidade de entender as necessidades e o potencial das crianças. A base do seu pensamento é o naturalismo isto é, o respeito pela criança, na sua especificidade, como orientação primeira da educação e a visão social que se manifesta pelo interesse na vida das crianças (sua cultura), pela valorização do trabalho no sentido de "obra", de produção que engaja a energia criativa do indivíduo, sendo, portanto, libertador e pela promoção do espírito cooperativo. O pensamento de Freinet é profundamente intuitivo. A partir de princípios básicos é capaz de construir uma prática inovadora. Nesse sentido, sua obra é um estímulo para qualquer professor refletir sobre sua prática e modificá-la em um sentido positivo. Célestin Freinet se diferencia da maioria dos outros importantes pensadores e teóricos da educação por ter sido ele mesmo um professor primário que atuou em sala de aula por quase toda a sua vida. Toda a sua proposta pedagógica deriva diretamente do trabalho desenvolvido com os alunos na busca de um processo que os levasse a gostar da escola e do trabalho, que os levasse a ser cidadãos conscientes e participantes críticos do meio social. Esta proposta que criou com seus pares é conhecida por muitos e significativos nomes ("Pedagogia Freinet", "Pedagogia do Trabalho", "Pedagogia do Bom Senso", "Método Natural" e "Pedagogia do Sucesso") e propõe uma prática pedagógica centrada na produção do estudante e na cooperação entre pares. Embora não fosse um acadêmico, Freinet não ignorava os debates pedagógicos de seu tempo, marcados pelo surgimento da Escola Nova, corrente de pensamento para a qual a aprendizagem acontece pela atitude ativa da criança (uma experiência de dentro para fora, portanto), que procura resposta a questões colocadas por seus centros de interesse (que não estão na escola, mas na sua vida e cultura). Freinet assume esses princípios mas não sem criticá-los e desenvolve-los, fundando a Escola Ativa, na França. Para ele a aprendizagem da criança passa pela produção cooperativa de bens materiais (uma peça de marcenaria, por exemplo) ou culturais (uma poesia, um texto para o jornal, uma pesquisa). A produção desse bens é considerado como uma obra, uma criação (a referência constante de Freinet ao trabalho deve ser entendida nesse exato sentido, e não como formação de mão de obra para o mercado). Cria-se uma situação onde a criança, em situação ativa, se apropria de conhecimentos multidisciplinares, com a ajuda do seu professor. Freinet, valoriza o "tateio experimental" que a criança realiza durante esse processo. Fonte: Alberto Tornaghi, Educação Pelo Trabalho de Célestin Freinet, in: Técnicas desenvolvidas por Freinet Freinet desenvolveu várias técnicas que permite traduzir para o concreto seu pensamento. Dentre elas destacamos: - Aula das descobertas: aulas de campo, voltadas para os interesses dos estudantes - Auto-avaliação: fichas preenchidas pelos alunos, como forma de registrar a própria aprendizagem - Auto-correção: m odalidade de correção de textos feita pelos próprios autores, no caso os alunos, sob a orientação do educador - Correspondência Interescolar: atividade largamente utilizada por Freinet, na qual os alunos se comunicavam com outros estudantes de escolas diferentes

3 - Fichário de consulta: fichas criadas por alunos e professores, para suprir as lacunas deixadas pelos livros didáticos convencionais - Imprensa/jornal escolar: os textos escritos pelos alunos tinham uma função social real, pois eram publicados e lidos pelos colegas - Livro da vida: caderno no qual os alunos registram suas impressões, sentimentos, pensamentos em formas variadas, o qual fica como um registro de todo o ano escolar de cada classe - Plano de trabalho: atividade realizada em pequenos grupos que sob a orientação do educador, com base em um dado tema, desenvolvem um plano a ser realizado num certo intervalo de tempo. Invariantes pedagógicas O pensamento de Freinet está orientado por 32 "invariantes pedagógicas" que ele sistematizou em Nº 1: A criança e o adulto têm a mesma natureza. Nº 2: Ser maior não significa necessariamente estar acima dos outros. Nº 3: O comportamento escolar de uma criança depende de seu estado fisiológico e orgânico, de toda a sua constituição. Nº 4: A criança e o adulto não gostam de imposições autoritárias. Nº 5: A criança e o adulto não gostam de disciplina rígida, quando isso significa ob edecer passivamente uma ordem externa. Nº 6: Ninguém gosta de fazer determinado trabalho por coerção, mesmo que, em particular, ele não o desagrade. Toda atitude coerciva é paralisante. Nº 7: Todos gostam de escolher seu próprio trabalho, mesmo que essa escolha não seja a mais vantajosa. Nº 8: Ninguém gosta de trabalhar sem objetivo, atuar como máquina, sujeitando-se a rotinas das quais não participa. Nº 9: É fundamental a motivação para o trabalho. Nº 10: É preciso abolir a escolástica. Nº 10-a: Todos querem ser bem sucedidos. O fracasso inibe, destrói o ânimo e o entusiasmo. Nº 10-b: Não é o jogo que é natural na criança, mas sim o trabalho. Nº 11: Não são a observação, a explicação e a demonstração processos essenciais da escola as únicas vias normais de aquisição de conhecimento, mas a experiência tateante, que é uma conduta natural e universal. Nº 12: A memória, tão preconizada pela escola, não é válida, nem preciosa, a não ser quando está integrada no tateamento experimental, onde se encontra verdadeiramente a serviço da vida. Nº 13: As aquisições não são obtidas pelo estudo de regras e leis, como às vezes se crê, mas pela experiência. Estudar primeiro regras e leis é colocar o carro à frente dos bois. Nº 14: A intelig ência não é um a faculdade esp ecífica, q ue f unciona como circuito fechado, independentemente dos demais elementos vitais do indivíduo, como ensina a escolástica. Nº 15: A escola cultiva apenas uma forma abstrata de inteligência, que atua fora da realidade viva, fixada na memória por meio de palavras e idéias. Nº 16: A criança não gosta de receber lições ex-cathedra. Nº 17: A criança não se cansa de um trabalho funcional, ou seja, que atende os rumos de sua vida.

4 Nº 18: A criança e o adulto não gostam de ser controlados e receber sanções. Isso caracteriza uma ofensa à dignidade humana, sobretudo se exercida publicamente. Nº 19: As notas e classificações constituem sempre um erro. Nº 20: Fale o menos possível. Nº 21: A criança não gosta de sujeitar-se a um trabalho em rebanho. Ela prefere o trabalho individual ou de equipe, numa comunidade cooperativa. Nº 22: A ordem e a disciplina são necessárias na aula. Nº 23: Os castigos são sempre um erro. São humilhantes, não conduzem ao fim desejado e não passam de um paliativo. Nº 24: A nova vida da escola supõe a cooperação escolar, isto é, a gestão da vida e do trabalho escolar pelos que a praticam, incluindo o educador. Nº 25: A sobrecarga das classes constitui sempre um erro pedagógico. Nº 26: A concepção atual dos g randes conjuntos escolares conduz prof essores e alunos ao anonimato, o que é sempre um erro e cria sérias barreiras. Nº 27: A democracia de amanhã prepara-se pela democracia na escola. Um regime autoritário na escola não seria capaz de formar cidadãos democratas. Nº 28: Uma das primeiras condições da renovação da escola é o respeito à criança e, por sua vez, da criança aos seus professores; só assim é possível educar dentro da dignidade. Nº 29: A reação social e política, que manifesta uma reação pedagógica, é uma oposição com a qual temos que contar, sem que se possa evitá-la ou modificá-la. Nº 30: É preciso ter esperança otimista na vida. Uma visão integral do jornal escolar Freinet enxergava na produção de jornais escolares vantagens pedagógicas, psicológicas e sociais. Os trechos que apresentamos a seguir são do livro O Jornal Escolar, publicado originalmente em 1967 (Editorial Estampa: Lisboa, 1974). VANTAGENS PEDAGÓGICAS (trechos). A criança sente a necessidade de escrever, exatamente porque sabe que seu texto, se for escolhido, será publicado no jornal escolar e lido por seus pais e pelos correspondentes; por isso sente a necessidade de expandir o seu pensamento por meio de uma forma e de uma expressão que constituem a sua exaltação. 1 Usando um método natural, sem redações formais, sem repisamento gramatical, poderá atingir-se: - Uma expressão correta e viva, cujo valor é sancionado pelos exames habituais; - Um desejo, uma necessidade de escrever e de ler, de experimentar e calcular que estão na base de uma formação de cultura. 2 As trocas interescolares. Pelo jornal escolar, a escola estará doravante ligada a várias escolas semelhantes a nossa, situadas em diversos pontos da França e do mundo. 3 O jornal escolar é um inquérito permanente que nos coloca a escuta do mundo e é uma janela ampla, aberta sobre o trabalho e a vida. Uma escola que edita um jornal escolar não pode continuar a trabalhar segundo as normas habituais. Pela força das coisas, está na via da modernização e do progresso.

5 4 O jornal escolar é o arquivo vivo da aula. Por meio da imprensa e do jornal escolar, os "momentos" memoráveis da vida da classe são fixados definitivamente (...) Esquecemos o que abrangia o programa escolar de uma certa segunda-feira, mas lembramo-nos do pedaço de vida que redigimos e imprimimos, do jornal no qual foi incluído, dos desenhos e linos que o realçavam, das impressões trocadas, das interrogações feitas e das respostas obtidas, dos textos lidos e dos poemas saboreados. Para o professor, assim como para as crianças, cada página do jornal é como um degrau na lenta escalada da educação e da cultura: ela materializa e idealiza o esforço. É a medida da Escola. 5 Teremos uma obra para mostrar. O camponês mostra-nos com orgulho o campo rico de erva ou de espigas abundantes; a dona de casa faz-nos admirar os seus cobres ou o seu gato, o artesão conserva na sua oficina as obrasprimas que constituam títulos de nobreza. O professor nada tem na aula que possa testemunhar a sua ciência e devoção. A página da vida e o jornal escolar constituem exatamente essas obras-primas quotidianas. Nada é mais desesperante, tanto para os professores como para as crianças, do que cavar sempre o mesmo sulco sem ver germinar a colheita. Todos temos necessidade de êxitos tangíveis. O jornal escolar é um deles. O jornal escolar é uma "produção", uma obra ao alcance das nossas classes e que toca profundamente no essencial da nossa função educativa. Põe-nos no caminho de uma fórmula nova de escola, aquela escola do trabalho cuja necessidade começamos a sentir, que já não trabalha segundo normas intelectualizadas, mas sim com base numa atividade social. 6 Como toda a associação de trabalhadores, a escola deve ter o seu boletim de ligação e de ação. É necessário que fomentemos estes contatos e relações entre a Escola e o meio, entre a Escola, as autoridades de ensino e os pais, mas devemos fazê-lo não apenas na base de um formalismo superficial, mas segundo um processo novo, orgânico e profundo. Mesmo se não virmos a necessidade, por enquanto, de uma exploração pedagógica do jornal escolar, temos necessidade, no nosso bairro ou na nossa aldeia, de um boletim de intercomunicação e de ligação. O jornal escolar constitui a solução prática desejável. 7 O nosso jornal escolar será o "reflexo da nossa aula". O nosso jornal escolar falará por nós. Certamente será a expressão das crianças que terão sido os seus principais artesãos. Mas o valor dos seus textos, o cuidado e a arte postos na apresentação, a humanidade e a espiritualidade que dele se libertam, são justamente os produtos da Escola, os frutos da nossa pedagogia. Quando passamos diante de um jardim bem cuidado (...) não dizemos simplesmente: que boa terra! e que lindas plantas! Dizemos também: que jardineiro tão hábil e sensível! 8 O trabalho bem feito. Em todos os domínios, o trabalho bem feito é sinal de um equilíbrio feliz, de uma concentração sempre benéfica, de hábitos preciosos de medida e ordem e também da inserção da atividade encarada num complexo de vida e segundo uma filosofia. E é em verdade que tais conquistas estão entre as mais importantes de uma boa educação. Aplica-te! Sê mais cuidadoso! Pensa no que fazes! Estas são as recomendações incessantes da Escola e, como todas as recomendações, tornam-se inúteis, porque apenas visam a forma e o resultado do esforço, quando afinal esse mesmo esforço só pode ser proveitoso se estiver harmoniosamente inserido numa regra de vida. Quando a criança estuda uma lição, copia um texto ou faz uma redação, cumpre os seus "deveres". Para ela, a finalidade imediata é obter uma boa nota ou, pelo menos, evitar sanções.

6 (...) Não vale a pena dizer aos pequenos tipógrafos: cuidado com a técnica de impressão! Todas as crianças sentem bem que uma página rasurada é um fracasso e ninguém gosta de fracassos. O jornal escolar que se distribui ou se envia pelo correio deve ser perfeito, visto que é por ele que nos julgarão e todos nós gostamos de ser julgados favoravelmente. 9 O jornal e as aquisições escolares. Mas, pensarão talvez os educadores tradicionais ainda por convencer, não negamos que esse método e, em particular, a realização do jornal escolar sejam grandemente favoráveis a uma formação profunda dos nossos filhos. Contudo, na prática, objectarão eles, temos de ensinar a redação, a gramática, a ortografia, o cálculo, as ciências e a história. E esta preocupação, que consideramos primordial, açambarca-nos as horas e os dias. Teremos o direito de nos aventurar por caminhos desviados, que talvez até sejam estradas principais, mas que não nos permitem ir direito ao fim, cumprindo os programas? Vamos explicar, resumindo: - Que o jornal escolar, motivação ideal do nosso método de expressão livre, é o melhor exercício de redação, de ortografia e de gramática vivos. (...) - Pelos vários inquéritos e intercâmbio escolar, estudamos cuidadosamente o meio ambiente, sob o ponto de vista histórico, geográfico, científico e social. Teremos portanto ricos e seguros elementos de base para uma sólida aquisição das noções exigidas pelos programas. - Mas afirmamos sobretudo que a qualidade dos progressos, sejam escolares ou extra-escolares, vem sempre da nossa sede de conhecer e de agir e do interesse que pomos no nosso próprio trabalho. Por meio do jornal escolar despertamos esta curiosidade e este interesse; permitimos que eles se afirmem: damos aos nossos alunos qualidades de gosto, aplicação e minúcia que são a nobreza de todo o bom trabalhador. E sabe-se bem que, quando as nossas crianças têm este desejo e este gosto pelo trabalho, quando despertamos os seus interesses e lhes sabemos satisfazer as necessidades, podemos levá-las ao fim do mundo ou, melhor, elas irão ao fim do mundo: basta que as saibamos ajudar técnica, social e moralmente. Este é o papel do nosso método de educação. VANTAGENS PSICOLÓGICAS (trechos). 1º Normalização do meio onde a criança vive. O que é certo é que ainda hoje, segundo as concepções da Escola e da Educação, se cria uma dualidade lamentável nas funções maiores do indivíduo: a família, a aldeia ou a rua tem as suas normas, forma de instrução moral e tipos de cultura. A Escola trabalha segundo normas deliberadamente diferentes, opostas na maior parte das vezes, que lançam a confusão no comportamento das crianças e contribuem para a sua desadaptação. Com o nosso método superamos esta dualidade. A criança chega a nossa classe com os sentimentos, preocupações, necessidades e inquietações que pouco a pouco modelam a sua personalidade. Não lhe dizemos: "abandona esse hábito, mesmo que já faça parte de ti... vamos ensinar-te outra coisa, por outros meios, com outros processos!" Tomamos a criança tal como ela é e, usando técnicas de trabalho semelhantes as do meio familiar e social, mas com uma maior riqueza experimental esforçamo-nos por lhe permitir ir mais longe e mais alto nos caminhos da verdade e da humanidade. O simples fato de harmonizarmos, pelas nossas técnicas, a vida escolar e a vida familiar e social é, sem dúvida nenhuma, de grande alcance na formação psíquica e psicológica das crianças.

7 2º A disciplina nova, disciplina do trabalho. A substituição de um modo de vida estranho aos hábitos correntes do meio só se pode fazer recorrendo à autoridade - direta ou indireta - e esta, sob qualquer forma que se apresente, é sempre origem de conflitos que nada mais fazem do que agravar as dificuldades nascidas do dualismo educativo que denunciamos. Pensamos mesmo que a quase totalidade dos complexos psíquicos e psicológicos provém de uma má solução dada aos problemas de disciplina, isto é, aos problemas da coexistência harmoniosa dos indivíduos e grupos. A "normalização", seja na Escola ou na fábrica, visa atenuar estes conflitos disciplinares. Conseguimo-lo ainda fazendo as crianças enveredar por caminhos que as levarão mais seguramente ao fim a atingir e que se baseiam todos no trabalho. Restituímos a esta noção de trabalho - sobretudo pelo texto livre e pelo jornal - toda a sua nobreza e alcance; possibilitamos que a criança se oriente; damos-lhe razões novas para viver e agir, o que contribui certamente para o progresso psicológico desejado. 3 A expressão livre das crianças. Uma parte importante das perturbações de caráter provém igualmente do fato de que a criança na Escola não tem a possibilidade de exteriorizar as suas necessidades, sentimentos e tendências. A Escola, que durante tanto tempo desprezou estes complexos psíquicos obstinando-se em ignorá-los, substituía estes sentimentos por pensamentos e emoções dos clássicos e dos "mestres". Esquecia que todos nós temos humanamente necessidade de dizer, gritar e cantar as nossas alegrias, esperanças e desgostos. Utilizando o texto livre e o jornal escolar, alimentamos e exploramos esta necessidade de exteriorização da criança. Tecnicamente, é desta necessidade que partimos para todo o trabalho de instrução e educação que vamos empreender. 4º A libertação psíquica. As recentes pesquisas da psicanálise contribuíram para pôr em relevo os perigos que constituem para o indivíduo a incapacidade em que se encontra de exteriorizar os seus problemas. Guardamos conosco segredos que nos obcecam e nos corroem porque suscitam complicações para as quais não conseguimos encontrar sozinhos a solução. O simples facto de o indivíduo exteriorizar estes problemas, de os lançar no circuito coletivo e social, de esperar portanto soluções favoráveis, constitui uma descarga moral, ou melhor, uma descarga psíquica que nos permite reagir mais sensatamente (...). A Escola habitual desinteressa-se disso totalmente, por princípio e até por técnica, podíamos dizer. Age como se a criança que acolhe fosse uma matéria nova, sobre cujos destinos às especulações da Escola pudessem prosseguir independentemente de todas as realidades prévias que a condicionam. A criança tem mau caráter, não é sociável, parece estranha à vida da comunidade. A Escola registra e sanciona. Mas um texto livre revelar-nos-á um dia qual o drama secreto que açambarca permanentemente as inquietações do seu autor. Uma menina chega à aula sempre tarde, suja e mal penteada. Nunca lhe faltam justificações fantasistas que nos fazem atribuir-lhe uma imaginação anormal e perversa. Mas os textos livres contar-nos-ão, abertamente ou não, a situação familiar dramática daquela criança. Saberemos doravante as tarefas com que é sobrecarregada de manhã, a pouca afeição que encontra na família e que ela compensa por uma ligação comovente às suas galinhas e cordeiros. Esta revelação vai modificar profundamente - ainda bem, aliás - a situação escolar desta criança; serão estabelecidas novas pontes e abrir-se-ão vias novas à intercompreensão - tudo isto pode estar na origem de verdadeiras ressurreições.

8 5 Trabalho produtivo. Uma das causas atuais do desequilíbrio individual e social provém certamente do fato de na nossa época já quase não se conhecerem as alegrias do trabalho. O trabalhador na fábrica "esfola-se" (tem razão em não pronunciar neste caso a palavra sagrada do trabalho) "para ganhar o seu quinhão" e não para produzir uma obra valiosa - preocupação acessória. A criança "marra" sem objetivo nem razão para passar nos exames e ganhar também ela o seu pão por uma situação se possível bem assegurada. (...) A Escola deve voltar a dar a esta noção de trabalho todo o seu eminente valor individual, social e humano. O jornal escolar é o protótipo deste trabalho novo. Para se dedicar a ele, a criança deixa de ter necessidade do estimulante das notas, do lucro material ou da atração do jogo. Ainda que o jornal escolar apenas desse à Escola essa atmosfera nova de atividade criadora e funcional, ele não agitaria menos profundamente uma pedagogia que nos anos vindouros se irá inscrever sob o signo do trabalho. 6 Uma pedagogia de sucesso. Em todos os domínios, o fracasso é um destruidor de personalidades. Na criança está sempre na base de taras graves, desde a hesitação ate à gaguez e à anorexia fisiológica e mental. Por intermédio do jornal escolar, a criança é bem sucedida: triunfa com o seu texto, que se torna uma página definitiva difundida na aldeia e através do espaço: triunfa com a sua gravura e os desenhos que dão beleza à obra coletiva. Realizemos um belo jornal. Organizemo-nos tecnicamente para que ele seja, sem graves riscos, o triunfo que nos honrará. Pouco a pouco na nossa aula e na nossa vida ir-nos-emos habituando a salientar os êxitos que dão esperança e energia. Progressivamente iremos atirando para a tralha dos processes caídos em desuso os exercícios, as sanções, as provas que são apenas uma técnica de fracasso. É andando que se experimenta o movimento; é trabalhando na forja que nos tornamos forjadores. É animando a vida que nos treinamos a viver útil e generosamente. VANTAGENS SOCIAIS (trechos). 1º O j or nal escol a r é u m t r a b a l h o de eq ui p e q ue f az a p r ep ar ação p r ática p a r a a cooperação social das crianças - A impressora tem os seus responsáveis, cuja vigilância é séria porque condiciona uma atividade social cuja necessidade é sentida pela turma inteira. - O trabalho de cada aluno faz parte de um todo que necessita de diligência, aplicação e perfeição. - Na equipe de três ou quatro alunos que fazem a tiragem, cada um deve desempenhar corretamente a sua tarefa. - Todo ato que possa alterar o bom funcionamento da impressão é sancionado pelo grupo ou equipe que faz questão de cumprir bem o seu trabalho. Em todas as fases do seu processo, a edição e a difusão do jornal escolar são a melhor das preparações para as responsabilidades sociais. 2 O jornal escolar pressupõe a cooperação escolar. O jornal escolar não pode deixar de ser cooperativo. Para recebê-lo, teremos a obrigação de prever uma organização que possa assegurar a instalação e conservação das instalações [Freinet fala aqui da impressora, pois na França cada escola tinha seu próprio equipamento]. Assim poderá ser constituída a cooperativa escolar que, durante muito tempo se irá cristalizar à volta de um jornal que será o seu órgão oficial.

9 3º O jornal escolar é a melhor solução para a indispensável ligação com os p ais. A ligação Escola-Pais, mais indispensável do que nunca, é realizada "tecnicamente" pelo jornal escolar que, todos os meses, leva às famílias o aspecto original da vida da aldeia, vista pelos olhos das crianças. Aliás, acrescentando algumas páginas especialmente destinadas aos pais, pode-se fazer do jornal escolar um verdadeiro jornal da aldeia, sem comprometer as vantagens pedagógicas da iniciativa. Com efeito, o que os pais esperam do jornal escolar, não é tanto as notícias da região - que eles conhecem - mas mais os aspectos originais do trabalho dos seus filhos. Excepcionalmente aliás, certos números especiais poderão incidir sobretudo neste papel de ligação: organização de permutas e viagens de permuta, preparação de festas, monografia da aldeia, inquéritos, contos etc. 4 O jornal não será tabu. E guardamos para o fim a vantagem, ao mesmo tempo individual e social, que consideramos como a mais importante e eficaz no que diz respeito à formação do homem e do cidadão. Uma das grandes falhas da nossa cultura (...) é o fato grave de, para as crianças e adultos da nossa época, o texto impresso ser tabu. O jornal sobretudo é tabu. Está escrito... está impresso. Não vinha no jornal se fosse falso! É desta fascinação pelo texto impresso que vivem os jornais de grande tiragem e as organizações de propaganda que se servem deles como instrumento. É este "atafulhar" sistemático de espírito que falseia tão tragicamente nos nossos dias os próprios princípios das nossas democracias. Hoje, o jornal pensa pelos seus leitores. Aquilo que pessoas inteligentes e instruídas escreveram e imprimiram só pode ser a verdade. O público abstém-se de criticar. E muita sorte haverá se não apedrejar os originais que continuam a ter ideias próprias e que se atrevem a exprimi-las! Infelizmente, a escola tradicional prepara esta submissão dos indivíduos perante a nova deusa: a imprensa. Os primeiros textos apresentados às crianças são naturalmente textos de adultos. Lá estão eles, impressos na cartilha. Não sabemos o que querem dizer, mas são textos de leitura, que é preciso papaguear antes de tentar compreender, se é que merecem ser compreendidos. Quando chegar a altura de abordar a redação (...) a criança vai repetir e copiar as frases impressas nos livros ou que foram ditadas pelo mestre. Em ciências, história, geografia, as aulas e os resumos tomam o lugar da informação e das experiências. Então a criança convence-se lentamente que o seu próprio pensamento - como aliás os seus atos - são e deverão ficar insignificantes e que só terá valor o pensamento majestoso amplificado pelos livros e jornais. Está portanto pronta a receber as novas ditaduras. Conosco a criança compõe página a página o seu próprio jornal que, como todas as criações humanas, comporta a sua parte de erros e incertezas. Sabe doravante como se fazem os inquéritos, como se conduzem as reportagens, como se prepara e se deforma a bela profissão de escritor ou de jornalista. Utilizando o texto livre e o jornal, habituamos os nossos alunos a uma crítica da imprensa, a aceitação e procura dessa crítica. (...) Aprendem, por experiência, a julgar as obras que lhe são apresentadas e rapidamente se tornam aptos a descobrir o que se esconde de falso e contraditório nas imponentes rubricas dos jornais. O mesmo acontece sob o ponto de vista histórico e científico. Os nossos alunos fazem prospecções e pesquisas cujos resultados não se enquadram forçosamente nas afirmações dos livros. Não estão convencidos de antemão que são eles que não têm razão e o livro é que está certo. Alunos das nossas aulas criticaram assim páginas de manuais, esboços de história e de ciências; escreveram as suas observações aos editores e aos autores que, era certos casos, reconheceram o fundamento das suas críticas.

10 E não é de menor importância que, com tais bases, tenhamos dado aos nossos alunos a ideia que consideramos decisiva de que tudo o que lhes é ensinado pode ser reconsiderado, que os pensamentos mais importantes podem e devem ser passados ao crivo da sua própria experiência, que o conhecimento se conquista e a ciência se faz. No dia em que os cidadãos souberem que o seu jornal pode mentir ou, pelo menos, apresentar como definitivas soluções que são apenas um aspecto parcial dos problemas impostos pela vida; quando estiverem aptos a discutir com prudência mas também com ousadia; quando tiverem essa formação de experimentadores e criadores que nos esforçamos por lhes dar, haverá então qualquer coisa de diferente nas nossas democracias. (Citações do livro O Jornal Escolar, de Celestin Freinet, 1967) Biografia Célestin Freinet nasceu em 15 de outubro de 1896, na aldeia francesa de Gars, situada no sul desse país. Na adolescência mudou-se para a cidade de Nice onde iniciou o Curso de Magistério. Com o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Freinet interrompeu seus estudos. Alistou-se e, nos combates e sofreu as ações de gases tóxicos, que comprometeram seus pulmões pelo resto da sua vida. Em 1920 Freinet iniciou em uma escola rural de Bar-Sur-Loup suas atividades como professor, sem ainda ter concluído o Curso Normal. Desenvolveu rapidamente um pensamento crítico sobre a escola tradicional, permeada de autoritarismo e distante da vida e da realidade dos alunos. Até a sua saída de Bar-Sur-Loup, em 1928, constrói o essencial de seu pensamento e de suas propostas (em 1928 cria a Cooperativa do Ensino Laico). Em 1933 deixa o sistema público, onde é hostilizado. Em 1935 cria sua própria escola. Durante a II Guerra Mundial ( ) é detido por sua filiação comunista (a França era governada por um regime que colaborava com o hitlerismo). Sua escola é fechada. Aproveita sua detenção para escrever vários livros. Libertado, se junta à resistência contra os alemães. Terminada a Guerra, lança-se corpo e alma à difusão do seu pensamento. Cria o Instituto Cooperativo da Escola Moderna, em 1947 e a Federação Internacional do Movimento da Escola Moderna, em Freinet morre na cidade de Vence, na França, em Material preparado pelo Comunicação e Cultura para capacitação de professores. Sem valor comercial. Rua Castro e Silva Fortaleza

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