GT 4: JUVENTUDES, PRÁTICAS POLÍTICAS E CULTURAIS NA PERIFERIA

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1 1 GT 4: JUVENTUDES, PRÁTICAS POLÍTICAS E CULTURAIS NA PERIFERIA JUVENTUDE NEGRA E IDENTIDADE: INTERFACES COM A CULTURA NA PERIFERIA DE FORTALEZA Letícia Sampaio Pequeno/ UECE Jane Meyre Silva Costa/UECE RELEVÂNCIA DO TEMA Ao olhar as desigualdades sociais e raciais historicamente construídas na sociedade brasileira com os recortes geracional e de etnia, percebemos que essas contradições são vivenciadas de forma diferente pelos diversos segmentos sociais. Dentre os mais atingidos negativamente por essas contradições estão, por exemplo, os jovens negros e pobres. Favorecendo-se do trabalho escravo durante mais de quatro séculos, o Brasil colocou à margem da sociedade o seu principal construtor: a população negra. Esta passou a viver em condições de miséria, sem trabalho, sem possibilidades de sobrevivência em condições dignas. Inserida nesse contexto encontra-se o jovem negro e pobre que pelo fato de sua etnia e condição social depara-se constantemente com uma exclusão mais acentuada. Não é à toa que muitos jovens negam sua origem étnica devido ao preconceito velado que se estabelece na realidade brasileira, tendo por base uma falsa democracia racial. Dados recentes demonstram a imensa disparidade ainda existente na contemporaneidade entre jovens negros e brancos nos diferentes espaços sócioocupacionais. Estima-se atualmente segundo censo demográfico de 2010, que 97 milhões de pessoas se declararam negras, ou seja, pretas ou pardas, e 91 milhões de pessoas, brancas. Os negros formavam, aproximadamente, a metade da população brasileira

2 2 nesse ano. A população negra, segundo o mesmo registro, é mais jovem e mais pobre, pois muitos dos negros não conseguem atingir a velhice, A proporção de negros com 60 anos ou mais no total da sua população foi de 9,7% e a de brancos de 13,1% em Isto se deve ao nível de violência e homicídios a que muitos negros estão expostos no decorrer de sua vida. Com relação a especificamente a categoria em estudo, jovem e negra, segundo os últimos dados disponíveis, o país conta com cerca de 11,5 milhões de jovens negros de 18 a 24 anos de idade, o que representa 6,6% da população brasileira. A taxa de analfabetismo, de 5,8%, é três vezes maior do que a observada para os jovens brancos (1,9%). Em média, os jovens negros têm dois anos a menos de estudo do que os brancos da mesma faixa etária: 7,5 anos e 9,4 anos, respectivamente. Com relação ao mercado de trabalho, se o acesso ao trabalho para os jovens inseridos em processo de vulnerabilidade social é cada vez mais problemático, o jovem negro traz consigo um duplo processo de estigma e violência. Segundo dados do IBGE no mundo do trabalho, o processo de exclusão vivido pelos jovens pretos e pardos não é diferente: maior dificuldade em encontrar uma ocupação, maior informalidade nas relações trabalhistas e menores rendimentos. Ainda segundo os dados oficiais, em 2003, de cada dez jovens negros de 18 a 24 anos de idade, quatro encontravam- se desempregados; entre os brancos essa relação era de um para seis. Quando, finalmente, o jovem negro consegue uma ocupação, essa é, em geral, exercida de forma bem mais precária que a do branco. Cerca da metade dos brancos dessa idade possuíam carteira assinada ou eram funcionários públicos; entre os negros, essa proporção era de apenas um terço. Consideramos relevante para os estudos das relações étnico-raciais em sua articulação com a formação profissional do Assistente Social empreender uma investigação científica na busca de compreender de que forma os jovens negros atendidos no CUCA Che Guevara compreendem o a identidade negra, e se expressam a partir de atividades culturais em seu cotidiano. Ao trazer para os profissionais novas estratégias de intervenção junto aos jovens negros de modo a despertar nestes a consciência de sua pertença étnico-racial, com a possibilidade de ampliar o processo de empoderamento, transformando-as em sujeitos

3 3 de sua própria história. O presente trabalho pode contribuir no desenvolvimento de tecnologias do trabalho social inovadoras para profissionais do Serviço Social. METODOLOGIA A metodologia utilizada para a realização deste trabalho foi de natureza qualitativa, pois nos interessou apreender as concepções, crenças e valores dos jovens negros atendidos no CUCA Che Guevara em Fortaleza, colocando em foco o que entendem por ser jovem e negro, sua identidade e cultura. O eixo estruturante em termos metodológicos para coleta de dados foi o uso das tecnologias sociais, tais como: formação de grupos, técnicas dialógicas, exibição de filmes, oficinas temáticas, grupo focal, fotolinguagem. As metodologias são de caráter participativo, buscando compreender o que estas pensam sobre a identidade negra e cultura. Quando visitamos o CUCA, realizamos uma entrevista com a coordenadora pedagógica, a qual nos propiciou informações iniciais sobre o processo. Diante disso, podemos perceber que não existe um cadastro específico a cerca do sentimento de pertença étnica dos jovens que estão inseridos no referido equipamento. Além disso, que não existe atividades relativas à discussão da cultura negra especificamente. Podemos destacar também alguns dados iniciais coletados na entrevista, como o fato do CUCA ter surgido a partir de uma demanda de um local dedicado ao público jovem, gratuitamente, sendo aprovado pelo orçamento participativo e poder ofertar uma variedade especial de cursos, oficinas, modalidades esportivas, o que proporciona aos jovens oportunidades de integração, lazer e aprendizagem. No que se refere aos critérios de inclusão, os participantes da pesquisa serão constituídos de professoras e professores, alunas e alunos, coordenadores pedagógicos, diretora, vice-diretora e funcionários dos serviços gerais que apresentaram como critérios: interesse em participar da pesquisa; boa comunicação; assinar o termo de consentimento livre e esclarecido. Os alunos foram aqueles que estiveram aptos a responder o instrumental de pesquisa.

4 4 Quanto aos riscos, esperamos que fossem mínimos. Entretanto houve poucas situações de constrangimento durante a pesquisa. Quanto às discussões do racismo que aparecem de forma velada nas diversas relações da sociedade brasileira, a equipe de pesquisadores estava preparada para resolver os possíveis problemas. No que tange aos benefícios, o objetivo foi fornecer dados sobre a compreensão sobre a relação entre juventude e sua identidade negra, a partir de movimentos artísticos-culturais na realidade fortalezense. A ênfase foi dada na elaboração de instrumentais que nos forneçou possibilidade de construir indicadores sociais referentes ao nível de apreensão dos conteúdos trabalhados nas ações educativas, e leitura dos impactos esperados de empoderamento destas mulheres marcadas pelas desigualdades de gênero e étnico-raciais. ARGUMENTOS CENTRAIS A conjugação de violência social e simbólica têm se constituído no grande impedimento para o desenvolvimento das potencialidades das juventudes negras. Jovens negros do nosso Estado, Ceará, vivem o drama da violência social cotidianamente, estes não se reconhecem e nem se autoafirmam como negros, não contam com o apoio de instituições responsáveis pela socialização e fortalecimento do seu pertencimento étnico-racial. Dessa forma, centralizamos nosso trabalho visando compreender a relação existente entre a identidade negra e a juventude para os jovens negros atendidos pelo CUCA Che Guevara, localizado no bairro Barra do Ceará, na cidade de Fortaleza/ Ceará, buscando promover o empoderamento desses jovens na sua comunidade para que possam reverter a situação de discriminação e violência em que se encontram e passem a reconhecer os seus próprios direitos e cidadania. No âmbito da política de Assistência Social, ainda prevalece os efeitos da invisibilidade e silenciamento deste segmento e das suas condições de vida, carecendo de ser mais trabalhado com tecnologias sociais de caráter sócio-educativo e articulado ao movimento de jovens negros aqui de Fortaleza. No âmbito das políticas culturais de incentivo a construção de uma identidade negra na juventude, poucos são os projetos que visualizam a necessidade desta

5 5 discussão. O CUCA Che Guevara, único equipamento atualmente em Fortaleza se propõe a dialogar com as diversidades em todos os campos focando no jovem, porém ainda de forma incipiente. CONSIDERAÇÕES GERAIS Na maioria das produções acadêmicas a juventude é sempre descrita como categoria imprescindível para compreendermos os dilemas da contemporaneidade. No caso da juventude negra, muitas vezes é remetida ao olhar da violência, do analfabetismo, do desemprego sem uma discussão aprofundada sobre a sua relação com a identidade, com a cultura e suas formas de pertencimento. Utilizamos este recorte étnico e geracional para discutir as políticas sociais ligadas a juventude na contemporaneidade, a juventude negra cearense e sua inserção no mundo da cultura, as formas de lazer, os estilos e movimentos culturais, os processos identitários e sua forma de identificação. Muitas vezes, esta parcela significativa da juventude que atua e desenvolve diferentes práticas no interior de grupos culturais juvenis não é considerada como possível interlocutora por aqueles que formulam e desenvolvem políticas sociais. Além das problemáticas que estão inseridos a partir do processo de vulnerabilidade social, as suas práticas, suas formas de identidade são construídas a partir de um modelo vigente repassado nas escolas e meios de comunicação como padrão do jovem, branco e de classe média. Para compreendermos melhor esta relação de políticas sociais e juventude negra em Fortaleza, tomamos como local de pesquisa o CUCA Che Guevara, que representa um equipamento público promotor de cultura, esporte e formação situado no segundo bairro mais populoso de Fortaleza, a Barra do Ceará. Inaugurado em 2009, tem a capacidade de atendimento de jovens por dia, este espaço já é considerado o maior equipamento cultural público da América Latina. Neste local, a partir da visita realizada, podemos conferir que são executadas diariamente várias atividades, tendo como missão estimular o respeito à diversidade socioeconômica, política, ideológica, cultural e sexual dos jovens, reconhecendo o pluralismo, as diferentes identidades e suas formas de expressão, construindo um novo

6 6 patamar de empoderamento e autonomia da juventude de Fortaleza, segundo seu sitio. Realiza cursos em diversas áreas do conhecimento, como teatro, audiovisual, gastronomia, música, fotografia, circo, dança e comunicação. Os cursos são gratuitos e voltados para jovens de 15 a 29 anos. A escolha do referido equipamento público diz respeito ao fato de ser um equipamento institucional responsável pela coordenação, elaboração e implementação de políticas públicas culturais para os jovens, atuando nos eixos educação e cultura nãodiscriminatórias; prevenção e enfrentamento à violência; inclusão social e autonomia; participação e controle social. Para tal, exerce atividades grupais com os jovens, trabalhando nesse espaço alguns destes eixos. Ao objetivar intervir junto aos jovens negros participantes deste equipamento, almejou-se compreender como é discutido neste espaço a consciência de sua pertença étnico-racial e, compreender quais as formas de expressão cultural da juventude negra em Fortaleza neste equipamento cultural. As formas de resistência da juventude negra no campo cultural muitas vezes se objetiva através, da capoeira, dos terreiros, dos quilombos, rodas de samba, hip hop, funk porém são muitas vezes afirmados como espaços de marginalidade. Sabemos que as relações étnico-raciais são ainda pouco estudadas no interior das categorias profissionais como dos Assistentes Sociais. Reeditam-se no Brasil as desigualdades raciais e no momento atual de um neoliberalismo em crise, globalização, reestruturação produtiva e de redefinição na esfera do Estado. Essas transformações societárias trazem sérias conseqüências às condições e relações de trabalho, colocando-se como novos desafios profissionais. Como profissionais, somos chamados a intervir junto às expressões da questão social, neste conjunto das desigualdades da sociedade capitalista. Desse modo, deparase com o racismo no nosso cotidiano profissional. Sabe-se que o cotidiano é lugar dos pré-conceitos, das pré-noções, do senso comum, nele se instaura as crenças silenciosas e naturalizadoras de fatos sociais e culturalmente construído como racismo. Este tema é legítimo setor da intervenção do profissional, e configura-se como desafio. Vale buscar compreender que modo as diversas expressões do racismo se repõe na sociedade contemporânea e como se delineia na perspectiva da juventude negra.

7 7 Diante do exposto, consideramos salutar a realização desse trabalho por abrir a possibilidade de construção de conhecimento da referida temática na sociedade contemporânea por parte dos discentes e docentes dos cursos de serviço social e membros de grupos de pesquisa em relações étnico-raciais, cultura e sociedade. Assim, a pergunta norteadora da investigação foi: de que forma os jovens negros participantes dos grupos do CUCA Che-Guevara compreendem sua identidade étnica a partir das expressões no campo cultural? CONCLUSÕES PARCIAIS Com a elaboração deste trabalho, é essencial concluir que conseguimos despertar a consciência para o pertencimento étnico-racial dos jovens interlocutores do trabalho. Importando ressaltar que nos possibilitou uma intensa produção de conhecimento e engajamento dos alunos bolsistas na temática das relações de juventude e identidade étnico-raciais, bem como na construção de novas metodologias participativas. Além disso, pode-se destacar que com a ampliação o universo cultural acerca do perfil identitário das resistências e articulação com movimentos sociais, notou-se a importância de priorizar, na metodologia do trabalho, o enfoque na trajetória dos jovens negros mediante recursos interativos de vídeos, debates, que permitiram troca de conhecimento e um rico diálogo sobre a realidade do jovem negro, suas potencialidades e estratégias de resistência; Foi muito gratificante notar o empoderamento dos jovens para coletivizar, tornar público as situações de violência nos canais de fortalecimento da esfera pública da juventude, dentre outras, o que nos permitiu contribuir no processo de conscientização sobre os direitos de cidadania e visibilidade do jovem negro na sociedade Fortalezense; PALAVRAS-CHAVE JUVENTUDE NEGRA, IDENTIDADE E CULTURA. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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