LOGISTÍCA HUMANITÁRIA A LOGÍSTICA EM SITUAÇÕES ADVERSAS UM ESTUDO DE CASO SOBRE O DEPARTAMENTO MUNICIPAL DE DEFESA CIVIL DA CIDADE DE GUARULHOS

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1 LOGISTÍCA HUMANITÁRIA A LOGÍSTICA EM SITUAÇÕES ADVERSAS UM ESTUDO DE CASO SOBRE O DEPARTAMENTO MUNICIPAL DE DEFESA CIVIL DA CIDADE DE GUARULHOS Autor: Eduardo de Melo Gomes FATEC Guarulhos Autora: Natália Cristina de Aquino Gomes FATEC Guarulhos Autora: Renata de Almeida Rodrigues da Silva FATEC Guarulhos Coautora: Me. Célia de Lima Pizolato (professora da FATEC Guarulhos) Coautora: Me. Telma Regina Bueno (professora FATEC Guarulhos) ÀREA TEMÁTICA Logística Humanitária RESUMO Desastres provocados pela força da natureza, ou mesmo, pela própria atitude do homem afetam milhares de pessoas no mundo. Maremotos, terremotos, deslizamentos, furacões, chuvas, enchentes, guerras, atentados terroristas são situações que exigem uma atuação logística diferenciada, que é atualmente intitulada de logística humanitária, um conceito ainda novo no Brasil, mas que vem sendo crescentemente estudado em países da Europa e nos Estados Unidos. A logística humanitária busca uma resposta imediata e envolve a coordenação de pessoas, organizações e materiais no fornecimento de bens e serviços para ajudar o maior número de pessoas em necessidade, evitar faltas e desperdícios, organizar doações e, principalmente, trabalhar com orçamentos limitados. Na seqüência de um desastre, a prestação de ajuda é fundamental para a sobrevivência das pessoas afetadas. Nesse sentido, o objetivo deste artigo é explicar o que é a logística humanitária, descrever seu papel em situações adversas e mostrar sua importância para a execução das atividades do Departamento Municipal de Defesa Civil da cidade de Guarulhos. PALAVRAS-CHAVE: Desastres, Emergências, Logística humanitária, Defesa Civil. ABSTRACT Disasters caused by the force of nature, or even, by the man's attitude affect thousands of people worldwide. Tsunamis, earthquakes, landslides, hurricanes, thunderstorms, floods, wars, terrorist attacks, are situations that require a special logistics approach, called humanitarian logistics. A still new concept in Brazil, but which has been increasingly studied in European countries and the United States. The humanitarian logistics seeks an immediate response and involves the coordination of people, organizations, and materials in the supply of goods and services to help the greatest number of people in need, to avoid wastage and shortages, to organize the donations and, especially, work with limited budgets. In the aftermath of a disaster, the provision of help is critical to the survival of the affected. In this way, the objective of this article is to explain what humanitarian logistics is, to describe their role in adverse situations and to show its importance to the

2 implementation of activities in the Municipal Civil Defense Department of the city of Guarulhos. KEYWORDS: Disasters, Emergencies, Humanitarian logistics, Civil Defense. 1. INTRODUÇÃO A evolução do número, o impacto dos desastres e a escala maciça em que eles têm ocorrido elevam a atenção para a necessidade de operações eficazes e eficientes aos desastres. O foco principal destas operações é a ajuda humanitária, que busca providenciar rapidamente o auxílio e os recursos necessários para áreas afetadas por grandes emergências, de modo a minimizar o sofrimento humano e a morte. Em ocasiões adversas, a ajuda humanitária é requisitada e recebida de todas as partes do mundo. Muitas organizações de assistência humanitária movimentam diversas doações e uma variada gama de recursos. Contudo, a escassez destes recursos, o aumento das ocorrências e magnitudes dos desastres exige operações mais transparentes, eficientes e eficazes. Nestas circunstâncias, os conhecimentos provenientes da logística empresarial são válidos e podem ajudar a aliviar as dificuldades daqueles que estão em áreas atingidas. Ao segmento da logística atuante em situações de desastres dá-se o nome de logística humanitária. O processo logístico na ajuda humanitária é composto de diversas particularidades, porém, todas as atividades desse processo são essenciais e decisivas para a prestação da ajuda, pois terão que ser realizadas de forma rápida e eficiente com o mínimo de erros e de improvisação. Com um planejamento logístico claro e bem definido é possível, através de um atendimento ágil e eficiente, salvar mais vidas, ao utilizar os recursos materiais e humanos disponíveis de maneira eficaz. São nesses tipos de situações que a logística é colocada a prova e mostra seu valor social. 1.1 OBJETIVO Este trabalho tem por objetivo explicar o que é a logística humanitária, descrever seu papel em situações adversas e mostrar sua importância para a execução das atividades no Departamento Municipal de Defesa Civil da cidade de Guarulhos. 1.2 METODOLOGIA Para a realização deste trabalho científico optou-se pelo uso de dois procedimentos metodológicos, a pesquisa bibliográfica e o estudo de caso. A pesquisa bibliográfica constitui-se no primeiro passo de qualquer pesquisa científica, visto tratar da revisão de literatura existente sobre o assunto, buscando assegurar a não redundância do tema, ou seja, sua originalidade. Por esta razão, procurou-se abranger o máximo possível de material relevante sobre tema. Para melhor entendimento da pesquisa, optou-se também pelo uso do estudo de caso. De acordo com Yin (2005), os estudos de caso, em geral, representam a estratégia preferida quando se colocam questões do tipo como e por que, e ainda, conforme Godoy (1995), estudo de caso é um tipo de pesquisa referida a um objeto que se analisa profundamente, através de um exame detalhado de uma situação na qual o pesquisador se insere para observar seu contexto. 2. REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 LOGÍSTICA Segundo Ballou (2007), a logística empresarial estuda como a administração pode prover melhor nível de rentabilidade nos serviços de distribuição aos clientes e consumidores, através de planejamento, organização e controle efetivos para as atividades de movimentação e armazenagem que visam facilitar o fluxo de produtos". A logística pode ser definida como a ciência de abastecer, produzir e distribuir materiais ou produtos no lugar adequado, nas quantidades corretas e nas datas necessárias, trazendo retorno para o prestador do serviço.

3 2.2 ASSISTÊNCIA HUMANITÁRIA Segundo as Notas Informativas do Parlamento Europeu (2009), assistência humanitária é a ajuda e a ação tendentes a salvar vidas e a atenuar o sofrimento, bem como está assim no original preservar e a proteger a dignidade humana no decurso e na seqüência de situações de emergência. Para cada situação há uma prestação de serviço específica que se adequará a necessidade da população ou do ambiente que sofreu danos, essas atividades contarão com o apoio logístico, o auxílio de recursos humanos ou até mesmo a inserção de recursos financeiros. A assistência humanitária é empregada normalmente em situações de emergência, ou seja, em situações como, por exemplo, desastres ambientais ou situações provocadas pelo próprio homem que resultam em guerras e conflitos entre países onde a disputa gera combates desleais, mortes em larga escala e extingue o direito humano de viver com dignidade. Os esforços nessa iniciativa são baseados na cooperação e solidariedade aos mais necessitados, por isso a ajuda pode ser das mais variadas, desde econômica até o voluntariado. A doação é de imediato a forma mais eficiente de ajuda que está no alcance da maioria, afinal através dessa atividade que são arrecadados diversos recursos materiais e humanos para auxílios emergenciais. A doação de produtos de primeira necessidade, tais como: alimentos não perecíveis, água potável, produtos de higiene básica, vestuário; são os recorrentes em meio à população que se sensibiliza com a situação de seus semelhantes, porém é importante ressaltar a ajuda dos profissionais capacitados que são enviados aos locais afetados e trabalham voluntariamente no auxílio à população e ao meio ambiente, assim como a ajuda da comunidade como um todo que se une em prol de um propósito maior em meio ao sofrimento. Essa percepção humanitária baseada na urgência de reação a difere, por exemplo, da assistência ao desenvolvimento que foca diretamente no socioeconômico voltando à atenção aos recursos econômicos que diretamente afetarão o social. Conforme o Serviço da Ajuda Humanitária da Comissão Européia (ECHO), a assistência humanitária é prestada por agências governamentais, organizações nãogovernamentais e demais agências humanitárias não governamentais. Segundo a Resolução 46/182 da Assembléia Geral das Nações Unidas foram definidos alguns princípios humanitários centrais, que devem ser aplicados ao governo e as agências das Nações Unidas, são estes: humanidade, neutralidade, imparcialidade e independência. Com esses princípios em mente, pode-se notar a base de sustentação da assistência humanitária, a preocupação humanística é o grande fator de relevância nessa atividade, em que é necessário existir uma reação rápida, afinal o tempo é o grande inimigo nessa temática, cada segundo pode fazer diferença ou até mesmo salvar uma vida e lidar com situações adversas é algo que não está no alcance do ser humano, pois mesmo com prevenções e medidas cautelares, o inevitável ocorrerá de tal forma que todas as medidas preventivas serão escassas para controlar e auxiliar uma situação de crise humanitária. Por isso, toda forma de ajuda é bem vinda e pensando nisso, existem Grupos Internacionais, Órgãos, Ministérios, entre outros que lidam especificamente com a assistência humanitária que buscam garantir a ajuda de forma eficiente, sugerindo medidas e propostos que venham a implementar mudanças legislativas que tornarão estas ações mais precisas. 2.3 DESASTRES O termo desastres nos leva a associá-lo com abalos sísmicos, tsunamis, erupções, maremotos e furacões, em um primeiro momento. Todavia, ele também trata dos processos e fenômenos mais localizados como desabamentos, inundações, erosão, deslizamentos ou mesmo acidentes gravíssimos, que podem ocorrer naturalmente ou induzidos pelo homem. Os desastres são temas recorrentes no dia-a-dia das pessoas, independentemente destas estarem ou não em localidades que ofereçam alguma ameaça ou risco. Segundo o Decreto nº 7.257, de 4 de agosto de 2010, desastres são a somatória

4 de eventos adversos, naturais ou provocados pelo homem, sobre um ecossistema vulnerável, causando danos humanos, materiais e ou ambientais e que culminam em prejuízos econômicos e sociais. Os desastres são normalmente súbitos e inesperados, de uma elevada gravidade e magnitude e acarretam grandes perdas e danos no âmbito social, econômico e mesmo, no ambiental. E exigem ações preventivas e restituidoras, que envolvem diversos setores governamentais e privados, visando uma recuperação que não pode ser alcançada por meio de procedimentos rotineiros. (KOBIYAMA, 2006) Os desastres são sempre ligados ao uso de expressões como situação de emergência e estado de calamidade pública. Cada uma destas expressões tem um significado específico, que designa o grau de um desastre e as consequências para a vida da área afetada. A situação de emergência é o reconhecimento legal pelo poder público de uma situação anormal provocada por um desastre, com danos e prejuízos que podem ser superados pela comunidade da área atingida, já o estado de calamidade pública, também é o reconhecimento de uma situação anormal provocada por desastre, todavia neste caso, há a ocorrência de sérios danos e prejuízos à área afetada que colocam a segurança e a vida das pessoas em risco. (Decreto nº 7.257, de 4 de agosto de 2010). Ambas as situações dependem de uma declaração legal, depois a homologação e por fim, do reconhecimento da amplitude da anormalidade provocada na área afetada. 2.4 LOGÍSTICA HUMANITÁRIA Com o aumento da ocorrência de desastres provocados pela natureza e/ou mesmo pela ação do homem e a ampliação do número de pessoas afetadas, tem se exigido um processo logístico diferenciado para o atendimento nestas situações emergenciais, um processo com operações mais ágeis, eficientes e eficazes. A este processo tem-se dado o nome de logística humanitária. O conceito é relativamente novo no Brasil, suas bases estão relacionadas e amparadas pelos objetivos clássicos da logística, ou seja, otimizar o tempo e distância no transporte e movimentação de pessoas, produtos e/ou serviços de forma eficiente e eficaz. Para Camargo (2010), assim como o processo logístico nos negócios é responsável pelo controle de todos os processos que envolvem o gerenciamento, movimentação, armazenagem e transporte, com a principal função de satisfazer a necessidade dos clientes, a logística humanitária, também, tem as mesmas responsabilidades e objetivos. Contudo, ela se faz presente onde existe a necessidade imediata de salvar vidas, reduzir o sofrimento das pessoas que encontram ou encontravam-se em catástrofes naturais e/ou humanas, que necessitam da habilidade de profissionais, empresas e órgãos, para prestar o auxílio, com a entrega eficaz de medicamentos, alimentos, abrigos provisórios, roupas, remoção de feridos, controle de movimentação e transportes alternativos nas áreas atingidas. (SILVA, 2011) Thomas (2003) define a logística humanitária como o processo de planejar, implementar e controlar de forma eficiente e eficaz o fluxo de armazenagem de bens, materiais e informações do ponto de origem até o ponto de destino final, buscando aliviar o sofrimento. Segundo Tomasini e Wassenhove (2009), uma operação de ajuda humanitária bem sucedida é aquela que é capaz de amenizar as necessidades urgentes de uma população, com uma considerável redução de sua vulnerabilidade, num curto período de tempo e com uma quantidade reduzida de recursos. A logística humanitária, todavia se depara com alguns pontos nefrálgicos, que podem ser encarados como entraves a serem superados em suas operações, entre eles: infraestrutura, capacidade de transporte, ausência de processos coordenados, recursos humanos, materiais, política e cultura. Assim, conforme Nogueira, Gonçalves e Novaes (2008), processos logísticos eficientes e eficazes são fundamentais às organizações que prestam assistência humanitária. Muitos dos que atuam em eventos emergenciais garantem que, o uso dos conceitos logísticos nestas situações contribui imensamente com o sucesso de uma operação.

5 2.5 A ADMINISTRAÇÃO E O PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO NA LOGÍSTICA HUMANITÁRIA As necessidades de controle das operações e de estratégias para melhorar a prestação de socorro nas missões, levaram a logística humanitária a desenvolver uma gestão própria e específica para administrar as operações e atividades que dão suporte às missões, com isso surgiram planos estratégicos que visam dar subsídios para que esta assistência emergencial resulte em uma missão de sucesso no que depender da logística. Fayol apud Chiavenato (2011), define o ato de administrar como prever, organizar, comandar, coordenar e controlar, tais operações realizadas de forma correta levarão a uma gestão administrativa de sucesso. Na logística humanitária a situação não é diferente, afinal é necessário que exista embasamento nas operações, para que mediante uma circunstância emergencial, a reação venha a contar com o auxílio de uma até então administração preventiva, que originou certos parâmetros organizados as quais buscaram durante seu desenvolvimento, conseguir recursos para o suporte dessa missão, levando em consideração que esse processo deve ser controlado e monitorado, desde o seu início até o seu fim, para que em nenhum momento ocorra uma infeliz perda no controle de toda a situação. Para Maximiano (2010), planejamento estratégico é o processo de elaborar a estratégia - a relação pretendida da organização com seu ambiente, no que depender da logística humanitária é a atividade onde existirá um estudo preventivo de todas as necessidades imediatas e de longo prazo que um desastre pode originar. É o momento da definição de planos e alternativas, para que ao deparar-se com uma situação de emergência o caos não seja instalado, e que cercados de clareza possa-se efetuar as ações necessárias. Estas que, previamente, foram analisadas e especificadas para cada tipo de situação, desastre ou missão assistencial. Ao adotar uma administração para gerir suas atividades e um planejamento estratégico, a logística humanitária melhora expressivamente seus resultados, sendo que neste segmento, estes resultados, devido à assistência humanitária, encontram dificuldades para serem identificados e, conseqüentemente, servirem de base para uma medição, pois é difícil medir o sofrimento das vítimas em meio a uma crise humanitária. Essa fragilidade dos fatores leva a uma administração que vise, no menor tempo possível, dispor de todos os recursos necessários para o auxílio das vítimas, e que estes cheguem aos mais variados destinos, independente da situação, para isso será necessário a existência de uma avaliação de qual o melhor meio de transporte para cada missão, o que inevitavelmente dependerá de fatores econômicos que poderão ou não levar a uma economia na escolha. 2.6 A DEFESA CIVIL A Defesa Civil é o conjunto de ações preventivas, de socorro, assistenciais e recuperativas destinadas a evitar desastres e minimizar seus impactos para a população e restabelecer a normalidade social. (Art. 2, inciso I do Decreto Nº 7.257, de Agosto de 2010). Cabe a ela, coordenar e supervisionar as ações de defesa civil, manter e atualizar as informações específicas, elaborar e implementar programas e projetos, prever recursos orçamentários para as ações assistenciais, capacitar recursos humanos, providenciar a distribuição e controle de suprimentos e propor a decretação ou homologação de situação de emergência e de estado de calamidade pública. No mundo, as primeiras ações dirigidas para a defesa da população foram realizadas nos países envolvidos com a Segunda Guerra Mundial. Atualmente, por todo mundo, a Defesa Civil se organiza em sistemas abertos que contam com a participação dos governos locais e a população no desencadeamento das ações preventivas e de resposta aos desastres. O Governo Federal Brasileiro, em 1942, criou o primeiro esboço de Defesa Civil, ao estabelecer medidas como a criação do Serviço de Defesa Passiva Antiaérea e a obrigatoriedade do ensino da defesa passiva em todos os estabelecimentos de ensino

6 existentes no país, entre outras. E em 16 de Dezembro de 1988, iniciou-se a organização sistêmica da Defesa Civil no Brasil, com a criação do Sistema Nacional de Defesa Civil SINDEC. As atividades de Defesa Civil, no Brasil, são caracterizadas pela ocorrência de situações que interferem na vida da comunidade, sendo desenvolvidas em dois períodos e quatro fases: Fase preventiva: onde se prepara as populações Fase socorro: onde todo o esforço é feito para se evitar perdas humanas ou materiais nas áreas afetadas; Fase assistencial: onde a população afetada é encaminhada a locais e abrigos seguros, há o fornecimento de medicamentos, agasalhos, alimentos e conforto moral; Fase recuperativa: que possibilita o retorno à normalidade e, se possível, há a execução de obras que, além de recuperar as áreas assoladas pelos desastres tenham caráter preventivo quanto a outros eventos adversos, fechando-se, dessa maneira, o círculo em que se encontram as fases de atuação de Defesa Civil. Já os períodos se dividem em: Período de normalidade: que é uma situação de normalidade relativa ou controlada, dada a imprevisibilidade dos desastres. Período de anormalidade: este período é caracterizado pela ocorrência ou ameaça de qualquer evento que ocasione perdas ou danos. 2.7 TRANSPARÊNCIA E ÉTICA NA LOGÍSTICA HUMANITÁRIA Segundo Batista (2007), ética é o campo do conhecimento que estuda os valores, costumes e conduta do ser humano. Toda essa questão do comportamento e conduta dos envolvidos na logística humanitária influencia diretamente na imagem do órgão que está prestando socorro às pessoas atingidas por tragédias e imprevistos, atitudes negativas como negligência no atendimento, desvio indevido de recursos, transmissões de informações incorretas prejudicam a clareza do processo. É necessário ter transparência na utilização de recursos e prestação de contas para com a sociedade, isso transmite uma confiabilidade em quem está fazendo as atividades para ajudar as pessoas que sofrem com os desastres. 3. ESTUDO DE CASO O DEPARTAMENTO MUNICIPAL DE DEFESA CIVIL DA CIDADE DE GUARULHOS Guarulhos é um dos 39 municípios da Grande São Paulo, sendo uma das regiões, economicamente falando, mais importante do Brasil. É o segundo maior município paulista em população, com mais de habitantes, de acordo com dados do Censo do IBGE (2010), e é também a 12ª mais populosa do Brasil. É também a 8ª cidade mais rica do Brasil, com uma produção que representa mais de 1% do Produto Interno Bruto - PIB. A cidade de Guarulhos e o Brasil, de uma forma geral, estão livres dos fenômenos de grande porte e magnitude como terremotos e vulcões, porém, são expressivos os registros de acidentes e mesmo de desastres associados principalmente a deslizamentos e inundações, que acarretam prejuízos e perdas significativas, inclusive de vidas humanas. É nesta hora, que o Departamento Municipal de Defesa Civil de Guarulhos se faz presente, buscando evitar desastres ou mesmo, minimizar seus impactos para a população e restabelecendo a normalidade social. O Departamento da Defesa Civil de Guarulhos está direcionado para o atendimento da política pública de assistência social voltada para emergência em casos de desastres urbanos, para a assistência integral às famílias vítimas e para o cadastramento, encaminhamento e acompanhamento para os diversos programas de atendimento contínuo, atuando com diversas secretarias da cidade, entre elas: Governo, Habitação, Desenvolvimento Urbano, Meio Ambiente, Assistência Social, Obras, Trânsito, Segurança, Saúde, Cultura, Fundo Social de Solidariedade, Educação, entre outras, com

7 o intuito de priorizar, minimizar o sofrimento da população afetada por situações adversas. O Departamento também conta com estoque estratégico, onde grande parte dos materiais é comprada com recursos públicos provenientes do Tesouro Nacional e outra parcela oriunda de doações. Atualmente, a Defesa Civil de Guarulhos conta com um grupo de 68 funcionários e 110 voluntários cadastrados. Para atuar na Defesa Civil, é preciso passar pelo curso de formação básica, e além deste também são oferecidos cursos específicos para diversas atividades, criando um sistema de formação complementar que permite o contínuo aperfeiçoamento dos colaboradores. 3.1 A ATUAÇÃO DA DEFESA CIVIL DE GUARULHOS NA REGIÃO DO VILA ANY Em 7 de Dezembro de 2009, uma chuva torrencial atingiu a cidade de Guarulhos e causou o transbordamento do Rio Tietê, afetando a região do Vila Any, Jardim Jacy, Jardim Izildinha e Jardim Guaracy, bairros próximos as margens do mesmo. Foi registrado que o índice pluviométrico deste dia passou dos 110 milímetros, algo além do esperado para o período crítico do ano (os meses entre dezembro e março), inicialmente mais de 270 famílias foram afetadas pela cheia do rio que tem sua nascente na cidade de Salesópolis. No dia seguinte, 8 de Dezembro, aniversário da cidade de Guarulhos, o prefeito Sebastião Almeida decretou estado de atenção para a região afetada pela chuva, muitas famílias que moravam nas proximidades perderam sua moradia, fato que intensificou o trabalho da Defesa Civil do município. Levou-se cinco dias para montar o alojamento, onde foi realizado o atendimento preliminar com alimentação e doação de kits, porém mesmo com este suporte para aqueles que perderam seus bens, muitas famílias que estavam ameaçadas se negaram a sair do local. Em 29 de Janeiro de 2010, a água não baixou e a situação foi decretada como estado de emergência, ou seja, começou a envolver prejuízos econômicos e humanos. Então foi montada uma central de operações na Escola Municipal Herbert de Souza para a realização de um trabalho in loco juntamente com as secretarias do município, inclusive a da Saúde, Assistência Social, Fundo Social de Solidariedade e PROGUARU, ação encabeçada pela Defesa Civil; nesse período, o Fundo Social levava marmitas para alimentar as pessoas afetadas. Nos períodos de cheia é realizada a desocupação do local e as pessoas afetadas são colocadas na locação social, um recurso público optativo disponibilizado para as pessoas que são afetadas pelos desastres enquanto a situação não se resolve. Nesta ocorrência, as vítimas receberam a quantia de R$ 300,00 (trezentos reais), sendo 50% do valor cedido pelo CDHU - Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano, e a outra parte pela Defesa Civil. Para entender o que levou esta região ser castigada pelas enchentes, o prefeito de Guarulhos resolveu navegar pelo Rio Tietê para acompanhar o problema de perto. Constatou-se que o DAEE - Departamento de Águas e Energia Elétrica, órgão do Governo do Estado, responsável pela limpeza e dragagem no rio não estava realizando seu trabalho, a profundidade normal do rio seria de 10 metros e encontrou-se uma diferença de apenas 1 metro em relação à superfície da água, fato que ocasionou seu transbordamento. Vale ressaltar que a região do Vila Any é uma APP - Área de Preservação Permanente e faz parte do projeto Parque Linear do Tietê, um empreendimento para preservação das margens do rio previsto para 2015, o que implica na futura desocupação da área, o que afetará a vida das pessoas que estão na região atualmente. A construção de um dique no Jardim Pantanal, na cidade de São Paulo fez com que o volume de água aumentasse e prejudicasse ainda mais a região afetada pelas chuvas, choveu no percurso do Tietê desde Salesópolis. Levaram três meses para a água baixar, durante este período, as crianças das famílias afetadas ficaram fora da escola devido à alocação, o que acarretou na perda do auxilio da bolsa-família. A Defesa Civil e os voluntários foram responsáveis pela identificação das submoradias, pela mobilização das famílias para o alojamento e pela desocupação da área, pois era

8 iminente o risco de vida que a situação proporcionava as pessoas. Muitos não aceitaram ajuda por considerar desnecessário, que não poderia acontecer novamente, não querer que parentes soubessem da situação, sem falar das muitas dificuldades como choque social, crenças religiosas, problemas com criminalidade e o preconceito da população com os órgãos públicos, que no seu entendimento não resolveriam a situação e deixá-losiam desamparados. Muitos resistiram para sair do local, em alguns casos foi necessário chover com maior intensidade para que as pessoas percebessem que a situação era mais grave do que parecia e que a vida dela era o bem mais importante de todos. No aspecto da organização de assistência humanitária, foi formada uma comissão composta pela equipe que estava auxiliando no atendimento as vítimas e pelos moradores para levar questões e os desdobramentos para o prefeito, especialmente contratos sobre as moradias que envolviam a região. O Departamento de Defesa Civil de Guarulhos que responde a Secretaria do Governo, órgão da prefeitura de Guarulhos, também foi responsável pelo acompanhamento e prestação de contas mensal para o Estado e para a União sobre o quanto de recursos financeiros do Governo Federal foram utilizados no local. O estado de calamidade pública não envolveu apenas um prejuízo financeiro, constatou-se também que a população desta região precisava muito de ajuda. Independentemente da enchente, a Defesa Civil ajudou a resgatar e civilizar as pessoas carentes de cidadania, além de criar um vínculo de afetividade, e graças a essa mobilização juntamente com outros órgãos, a maioria das pessoas afetadas receberão uma moradia, a obra está quase finalizada, com previsão de entrega para Janeiro de Inicialmente, 51 famílias aderiram à locação social, 200 famílias foram cadastradas pela Defesa, mais de 500 famílias foram afetadas, porém não quiseram a assistência ou até mesmo se identificar, duas a três famílias do Jardim Guaracy permanecem na locação. A região atualmente está ocupada por muitas pessoas que não são de Guarulhos, e para participar do plano Minha Casa, Minha Vida é necessário ter no mínimo dois anos de estadia no município, mas existe o monitoramento da área pelos líderes da Defesa Civil para qualquer tipo de ocorrência que venha acontecer. 3.2 ANÁLISE DOS RESULTADOS Conforme teorias pesquisadas, informações e observações obtidas durante este artigo é possível perceber que para o Departamento Municipal de Defesa Civil de Guarulhos, a prevenção é a estratégia primordial para uma boa administração, afinal a necessidade de atuação é inesperada e em certos casos distintas da maioria, o que exige diversificação nas tarefas e reação imediata que aliada a medidas preventivas proporcionarão o alcance das metas estabelecidas que, no geral, baseiam-se em um atendimento eficiente e preciso para a população afetada. Todas as atividades e ações que compõem uma missão assistencial devem ser norteadas pela ética, a garantia dessa relação contará com prestações de contas a sociedade e ao estado em si, pois o sustento desta baseia-se na ajuda e contribuição de muitos e por se tratar de recursos públicos e doações da população é necessário que exista um retorno de como estes recursos foram empregados e utilizados, para que os mesmos possam no futuro continuar a existir ou até mesmo sofrerem um acréscimo em benefício de próximos planos assistenciais. A responsabilidade também é algo muito valorizado nas atividades que envolvem a logística humanitária, afinal ao lidarmos com vidas, inevitavelmente, teremos responsabilidades pelo tratamento das mesmas, por isso, toda atenção e cuidado, que estiverem ao alcance, são necessários e deverão ser ofertados do melhor modo possível. As recompensas destas atividades não são mensuradas apenas em números ou estatísticas, mas também em singelos sinais, que no tocante sentimental, ressaltam como é enriquecedor ajudar o próximo. Fato, que observamos no Departamento Municipal de Defesa Civil de Guarulhos, onde todos que estão diretamente ou indiretamente envolvidos neste, participam porque realmente gostam do que fazem e se orgulham em fazer o bem.

9 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Com este trabalho, pode-se compreender a importância que a logística humanitária possui no auxílio às pessoas afetadas por desastres provocados tanto pela ação da natureza quanto pela influência do homem nos ambientes, e que os conceitos originados da logística empresarial colaboram de maneira primordial para a organização e gestão dos recursos necessários para esses momentos difíceis. Foi constatado que a preparação para enfrentar estes eventos torna-se extremamente necessária, principalmente na área do planejamento, controle e distribuição de recursos humanos e materiais. Vários tipos de organizações atuam para auxiliar na assistência humanitária, além de lutarem por mudanças legislativas e culturais para se preparar adequadamente para qualquer tipo de mudança que influencie a vida das pessoas vitimadas por desastres. Os esforços envolvidos na logística humanitária focam-se na ajuda com doações, tanto de itens de higiene pessoal e alimentação, quanto financeiro, para a reconstrução dos imóveis e recuperação dos bens perdidos durante as tragédias. A mobilização envolvida no processo aumenta de acordo com a gravidade da situação, gradativamente os órgãos das esferas governamentais precisam apoiar a população afetada com todos os recursos possíveis para manter a sobrevivência das mesmas. A agilidade nas informações, tomar as decisões mais adequadas, escolher como mobilizar e organizar recursos são detalhes comuns no cotidiano da logística, toda a responsabilidade envolvida nessas atividades está muito presente também nas situações mais adversas, pois o objetivo da logística humanitária é utilizar os conceitos logísticos para atender as necessidades da cadeia de assistência humanitária, ou seja, prestar um serviço organizado para evitar e prevenir que pessoas possam sofrer danos materiais e até perder a vida. Os conceitos da logística evitam improvisações, medidas equivocadas e o mau uso dos materiais disponibilizados para resolver os problemas em questão. A logística humanitária pode ajudar essencialmente o trabalho da Defesa Civil, porque é um processo que exige eficiência, agilidade e organização na mobilização de recursos e profissionais para reduzir os impactos que os desastres causam na vida das pessoas, pontos que convergem com os objetivos de ações preventivas e de socorro que a Defesa deve prestar. Situações de emergência exigem uma grande preparação para evitar que maiores problemas aconteçam durante a ação, fatores como a falta de infraestrutura no local, transporte limitado, improvisações e falta de materiais para auxiliar no socorro inicial dificultam o trabalho da Defesa, acentuando como o conceito de logística humanitária deve ser adotado para melhoria do sistema de assistência como um todo. Conforme o estudo de caso pôde-se observar a importância do Departamento Municipal de Defesa Civil da cidade de Guarulhos, este com atividades que englobam desde o préatendimento de ocorrências na região até a retomada à normalidade na vida das pessoas, o órgão também demonstrou como a prevenção, organização e preparo de seus funcionários são essenciais para suprir as necessidades urgentes das pessoas afetadas, já que são responsáveis pelo primeiro contato com a situação. O envolvimento, o comprometimento e a ética são fatores destacáveis no caso elucidado por este trabalho. Portanto, a logística é a base para aumentar a eficiência dos processos de assistência humanitária, principalmente na gestão de recursos para agilizar o atendimento das vítimas de desastres, tragédias e situações de calamidade pública, pois além de ser um diferencial competitivo que agrega valor ao negócio de empresas, pode auxiliar no atendimento de pessoas em momentos adversos, onde as condições de sobrevivência são precárias. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BALLOU, Ronald H. Logística empresarial: transportes, administração de materiais e distribuição física. 19. ed. São Paulo: Atlas

10 BATISTA, Fabrício M. Ética na guerra: a conduta humanitária em conflitos armados. Dissertação (mestrado). San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e Puc-SP). São Paulo, CAMARGO, Giselle (2010). Logística Humanitária: ajuda humanitária no Haiti. Disponível em: <http://www.administradores.com.br/informe-se/artigos/logisticahumanitaria-ajudahu manitaria-no-haiti/49446/>. Acesso em: <datas diversas>. CHIANENATO, Idalberto. Introdução à Teoria Geral da Administração. 8. ed. São Paulo: Elsevier, Campus, DECRETO Nº 7.257, de 4 de agosto de Disponível em: <http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/_ato /2010/decreto/d7257.htm>. Acesso em: <datas diversas>. GODOY, A. S. Pesquisa qualitativa: tipos fundamentais. Revista de Administração de Empresas, São Paulo, v. 35, n. 3, p , maio/jun Disponível em: <http://rae.fgv. br/rae/vol35-num3-1995/pesquisa-qualitativa-tipos-fundamentais>. Acesso em: <datas diversas>. IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Indicadores Sociais Municipais: uma análise dos resultados do universo do Censo Demográfico. Disponível em: <http://www.censo2010.ibge.gov.br/ resultados_ do_ censo2010.php>. Acesso em: <datas diversas>. KOBIYAMA, Masato et al. Prevenção de desastres naturais: conceitos básicos Curitiba: Ed. Organic Trading, MATERIAL DE APOIO. Departamento Municipal de Defesa Civil de Guarulhos, MAXIMIANO, Antonio Cesar Amaru. Teoria Geral da Administração. 6. ed. São Paulo: Atlas, MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES. (2007). Assistência Humanitária. Disponível em: <http://www.itamaraty.gov.br/temas/assistencia-humanitaria>. Acesso em: <datas diversas>. NOGUEIRA, C. W.; GONÇALVES, M. B.; NOVAES, A. G. N. A Logística Humanitária e Medidas de Desempenho: A Perspectiva da Cadeia de Assistência Humanitária. In: XIII ANPET, 2008, Rio de Janeiro. Disponível em: <http://www.cnt.org.br/lists/publicaes/ Attachments/2/Transporte%20em%20Transformação%20X_Produção%20Acadêmica% %20f.pdf>. Acesso em: <datas diversas>. PARLAMENTO EUROPEU. Notas Informativas sobre as actividades da comissão do desenvolvimento do parlamento europeu Disponível em: <http://www.europarl. europa.eu/regdata/commissions/deve/communication/2009/426933/deve_cm(2009) _ PT.pdf>. Acesso em <datas diversas>. PREFEITURA MUNICIPAL DE GUARULHOS (Brasil), Disponível em: <http://novo.guarulhos.sp.gov.br/index.php>. Acesso em: <datas diversas>. RESOLUÇÃO 46/182 DA ASSEMBLÉIA GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS, 19 de dezembro de Disponível em:<http://www.un.org/documents/ga/res/46/a46r182. htm>. Acesso em: <datas diversas>. SILVA, Alexandre (2011). Logística humanitária. Disponível em: <http://pmgee. blogspot.com/2011/07/logistica-humanitaria.html>. Acesso em: 10 de outubro de SÍNTESES DA LEGISLAÇÃO DA UE. Escritório de Ajuda Humanitária da Comissão Européia (ECHO). Ajuda humanitária. Disponível em: <http://europa.eu/legislation_ summaries/glossary/humanitarian_aid_pt.htm>. Acesso em: <datas diversas>. TOMASINI, R; WASSENROVE, L. V. Humanitarian logistics. Houndmills, Basingstoke: Palgrave Macmillan, THOMAS, A. (2003). Humanitarian Logistics: Enabling Disaster Response. The Fritz Institute. Disponível em: <http://www.fritzinstitute.org/ PDFs/WhitePaper/EnablingDisaster Response.pdf>. Acesso em: 25 de setembro de YIN R. K. Estudo de caso: Planejamento e Métodos. 3. ed. Porto Alegre: Bookman, O conteúdo expresso no trabalho é de inteira responsabilidade do (s) autor (es).

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